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08/03/2018

Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

CAPÍTULO VI

«TU AMAS-ME?»

O AMOR POR JESUS


2. Que significa amar Jesus Cristo

…/4

A célebre afirmação de Stº Agostinho, dirigindo-se a Deus:
«Tu fizeste-nos para Ti e o nosso coração fica inquieto enquanto não repousar em Ti» [i] é claramente também talvez voluntariamente aplicada a Cristo por Cabasillas.
Ele é “o lugar do nosso repouso”, é aquele para o qual tendem as aspirações mais íntimas do coração humano.
Não como para um objecto diferente, o que é indicado pela palavra “Deus”, mas sim para aquele mesmo objecto na forma que Ele quis assumir para nós e que desde a eternidade tinha projectado.

Com isto não se quer de modo algum menosprezar ou ocultar a grande variedade de meios que existe para as almas se aproximarem de Deus, consoante a diversidade das faculdades oferecidas a cada um ou consoante a diferente psicologia e estrutura mental de cada pessoa.
Há quem tenha um amor e uma prece mais voltados para o Pai, quem os tenha mais voltados para Jesus Cristo, quem os tenha voltados mais para o Espírito Santo e quem os tenha voltados mais para a SS Trindade no seu conjunto, amor e preces através dos quais constantemente ama, reza e louva “o Pai por meio do Espírito Santo”.
Há, finalmente, quem oriente o seu amor e a sua prece simplesmente para “Deus”, compreendendo, com a palavra “Deus”, o “Deus-Trindade da Bíblia, como Stª Ângela de Foligno quando exclamava «Quero Deus!».
Todos eles são caminhos bons e largamente experimentados pelos santos, que se alternam muitas vezes na vida e na experiência de uma mesma pessoa.
Através da mútua compenetração das pessoas divinas entre si, amando-Se uma delas, amam-se todas as outras, porque cada uma está em todas e todas em cada uma., por força da Sua única natureza e vontade.
Aquilo que eu pretendi dizer é simplesmente que quem ama Jesus Cristo não caminha por isso por um nível inferior e num estado imperfeito, mas sim ao mesmo nível de quem ama o Pai.

3.Como cultivar o amor por Jesus?

Procurei responder assim à pergunta “que significa amar Jesus Cristo?», mas estou convencido de que aquilo que disse nada é em comparação com o que poderia dizer e que só os Santos poderiam exprimir num hino da liturgia que se recita frequentemente nas festividades de Jesus, canta assi:

Nenhuma língua pode dizer
Nenhuma palavra pode exprimir
Somente o entendido pode julgar
Aquilo que é amar Jesus. [ii]

Esta nossa recolha não pode ser senão uma recolha das migalhas que caem da mesa dos donos [iii],, isto é, um enriquecimento através da experiência dos grandes amantes de Jesus.
É a eles que fizeram essa experiência, que devemos recorrer para aprendermos a arte de amar Jesus Cristo.
Recorrer por exemplo a S. Paulo que ansiava desfazer-se do corpo «para estar com Cristo» [iv], ou a Santo Inácio de Antioquia que, a caminho do martírio, escrevia:
«É belo deixar este mundo pelo Senhor e ressuscitar com Ele… Somente me interessa encontrar Jesus Cristo… Vou ao encontro d’Aquele que morreu por mim, anseio por Aquele que ressuscitou por mim!»[v].

Mas é possível amar Jesus, agora que o Verbo da vida Se não pode ver, apalpar e contemplar com os nossos olhos de carne?
S. Leão Magno dizia que «tudo aquilo que havia de visível em Nosso Senhor Jesus Cristo, depois da Sua Ascensão, passou para os Sacramentos da Igreja» [vi].
É através dos Sacramentos, por isso, e através especialmente da Eucaristia, que se alimenta o amor de Cristo porque neles se realiza a inefável união com Ele.
É uma união mais forte do que a que existe entre os sarmentos e a videira, entre os esposos e do que qualquer outro tipo de união.
É possível “amar” a Jesus Cristo, pelo motivo que demonstrámos no capítulo precedente: porque Ele é uma pessoa viva e “existente”.
Isto é, não se trata somente de uma personagem da História ou uma noção de filosofia, mas de um “tu”, um “amigo” que se pode, por isso, amor com amor de amizade.
São inúmeros os meios para cultivar esta amizade com Jesus e cada um de nós tem a sua maneira preferida, o seu dom, o seu caminho.
Pode ser a Sua palavra, na qual cada um de nós O sente vivo e em diálogo connosco, pode ser simplesmente a oração.
Porém é necessário, em todos os casos, que haja a unção do Espírito, porque somente o Espírito Santo sabe quem é Jesus e sabe inspirar o amor por Jesus.
Queria chamar ainda a atenção para um meio que sempre mereceu o carinho da Tradição, especialmente da tradição da Igreja ortodoxa: a memória de Jesus.
Foi Ele mesmo que Se confiou à memória dos discípulos, quando disse: «Fazei isto em memória de Mim» [vii].
A memória é a porta do coração. Pois que – escreve ainda Cabasillas – a dor cheia de graça nasce do amor de Cristo, e o amor nasce dos pensamentos que têm Cristo como objecto e o Seu amor pelos homens; é de grande ajuda conservar na memória tais pensamentos, ligá-los intimamente e não deixar de o fazer a todos o momento…
Pensar em Cristo é a ocupação própria das almas baptizadas [viii].
Já S. Paulo comparava o amor de Cristo com a Sua recordação:
«O amor de Cristo constrange-nos ao pensamento de que um morreu por todos» [ix].
Quando nós reflectimos e sopesamos na mente (krimantes) este facto, ou seja, que Ele morreu por nós, por todos, nós somos como que compelidos a amar Jesus.
O pensamento ou a recordação d’Ele “acende” o amor.

Neste sentido, podemos dizer que para amar Jesus Cristo é necessário redescobrir e cultivar um certo gosto pela interioridade e contemplação.
O Apóstolo estabelece esta prova: na medida em que nós «nos corroboramos no homem interior”, Cristo habita pela fé no nosso coração; então arreigados e fundados em caridade, nós possamos compreender a amplitude, o comprimento, a altura e a profundidade e conhecer «o amor de Cristo que excede todo o entendimento» [x].
É preciso, portanto, começar por fortalecer o homem interior, o que para o crente significa crer mais, esperar mais, rezar mais, deixar-se guiar mais pelo Espírito.
«Cristo, no Qual temos a esperança da glória» [xi]: esta é a definição da interioridade cristã.




(cont)
rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Stº Agostinho, Confissões, I. 1; IX, 9
[ii] Hino Jesu dulcis memoria
[iii] Cfr.Mt 15,27
[iv] Cfr. Fl 1,23
[v] Stº Inácio de Antioquia, Aos romanos, 2.1 5; 6,1
[vi] S. Leão Magno, Discurso 2 sobre a Ascensão, 2 (PL 54,398
[vii] Lc 22,19
[viii] Cabasillas, op. Ci. VI, 4 (PG 150, 653.600
[ix] 2Cor 5,14
[x] cf. Ef 3,14-19
[xi] Cfr.1,27

06/03/2018

Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

CAPÍTULO VI

«TU AMAS-ME?»

O AMOR POR JESUS

1.   Porquê amar Jesus Cristo?

…2

Não “são a carne e o sangue”, ou seja, não é a inteligência e a pesquisa humana que revelam Jesus; quem O revela é o «Pai que está nos céus» [i] e o Pai não o revela aos curiosos, mas aos que amam; não o revela nem aos sábios nem aos inteligentes, mas aos mais pequenos [ii].

Finalmente, deve-se amar Jesus, porque só assim é possível cumprir a Sua palavra e pôr em práctica os Seus mandamentos.

«Se Me amais – disse Ele mesmo – cumprireis os Meus mandamentos; quem não Me ama não guarda as Minhas palavras» [iii] .
Isto quer dizer que não é possível ser cristão a sério, isto é, seguir concretamente os ditames e as exigências do Evangelho, sem um verdadeiro amor por Jesus Cristo.
Se, por hipótese, alguém conseguisse fazê-lo, seria igualmente inútil; sem o amor de nada lhe serviria.
Mesmo que alguém entregasse o corpo para ser queimado, mas não tivesse caridade, de nada lhe serviria [iv].
Sem o amor, falta a força para agir e obedecer.
Pelo contrário, a quem ama, lhe parece impossível ou muito difícil.

2.Que significa amar Jesus Cristo

A pergunta ”que significa amar Jesus Cristo?” pode ter um sentido muito prático: saber o que comporta amar Jesus Cristo e em que consiste o amor por Ele.
Neste caso, a resposta é muito simples e é-nos dada pelo próprio Jesus no Evangelho.
Não consiste em dizer: «Senhor, Senhor[v], mas em fazer a vontade do Pai e cumprir a Sua palavra [vi].
Quando se trata de uma criatura – o cônjuge, os filhos, os pais, o amigo – “querer bem” significa procurar o bem da pessoa amada, desejar e diligenciar para ela coisas boas…
Mas que bem podemos nós desejar a Jesus ressuscitado que Ele não possua já?
Querer bem, no caso de Cristo, significa algo de diferente.
O “bem” de Jesus – ou melhor, o Seu alimento -é a vontade do Pai.
Fazê-la cada vez mais plenamente, cada vez mais alegremente.
«Quem cumpre a vontade de Deus – diz Jesus – esse é Meu irmão, Minha irmã e Minha Mãe» [vii].
Todas as qualidades mais belas do amor por Ele estão resumidas naquele acto que é o da fazer a vontade do Pai.

O amor por Jesus não consiste, poderemos então dizer, nas palavras ou em bons sentimentos, mas sim em actos; fazer como Ele fez, que não nos amou somente com palavras, mas com actos!
Humilhou-Se por nós e, de rico que era, fez-SE Pobre.
“Não te amei por brincadeira” ouviu um dia dizer a Jesus a bem-aventurada Ângela de Foligno; quando escutou aquelas palavras, ela sentiu-se morrer de dor, ao ver como, em comparação, o seu amor por Jesus não passava precisamente de uma brincadeira [viii].

Mas eu quero tomar a pergunta “que significa amar Jesus Cristo?” num ponto de vista menos habitual.
São dois os grandes mandamentos acerca do amor.
O primeiro é: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma a com toda a tua mente»;
O segundo é: «amarás o próximo como a ti mesmo» [ix].
A qual dos dois mandamentos pertence o amor, de que estamos falando, pela pessoa de Cristo?
E ainda: Cristo é o objecto supremo e último do amor humano, ou o seu termo?

São perguntas de extrema importância para a fé cristã e para a própria vida de oração dos crentes, e é preciso dizer que, sobre elas, há uma grande incerteza e ambiguidade, pelo menos a nível prático.
Existem tratados sobre o amor de Deus (De diligendo Deo), nos quais se fala exaustivamente do amor de Deus, sem apontar, todavia, de que modo se insere nele o amor por Cristo: se se trata da mesma coisa ou se, pelo contrário, o amor de Deus, sem outros acréscimos, significa um grau superior, um objecto mais alto que o amor.
Todos, naturalmente, estão convencidos de que o problema do amor a Deus por parte do homem, não se põe, depois de Cristo, do mesmo modo que se punha antes de Cristo, ou que se põe fora do cristianismo.
A Encarnação do Verbo não trouxe ao mundo, acerca do amor de Deus somente um motivo mais para amar a Deus, ou somente um exemplo a mais, o mais alto deste amor.
Trouxe uma novidade bem maior: revelou um rosto novo de Deus e, portanto, uma maneira nova de O amar e uma nova “forma” do amor de Deus.
Mas nem sempre se extraem desse facto todas as consequências ou, pelo menos, nem sempre elas se tornaram explícitas.

É certo que desde o tempo da regra de S. Bento se repete o provérbio:
«Não antepor absolutamente nada ao amor por Cristo» [x].
A Imitação de Cristo tem um belíssimo capítulo intitulado «Amar Jesus Cristo todas as coisas» [xi], e Santo Afonso Maria de Ligório escreveu um opúsculo muito popular intitulado A prática de amar Jesus Cristo.
Mas em todos estes casos, a comparação é, por assim dizer, de Cristo para baixo, isto é, entre Ele e todas as outras criaturas.
O sentido é não se deve antepor ao amor de Cristo qualquer criatura humana, nem sequer nós mesmos.
Pelo contrário, fica em aberto o problema senão se deve antepor ao amor por Cristo alguma coisa da esfera divina.

Trata-se de um problema real que se põe por causa de alguns precedentes históricos.
Orígenes, de facto influenciado pela visão platónica do mundo, - toda impregnada pela tendência em superar aquilo que se refere a este mundo visível – estabeleceu um princípio que teve um grande peso no desenvolvimento da espiritualidade cristã.
Ele fez entrever uma meta para além do amor de Cristo enquanto Verbo Encarnado; põe mesmo em perspectiva uma fase mais perfeita do amor, que é aquela que se contempla e se ama o Verbo exclusivamente na Sua forma divina, tal como Ele era antes de ter encarnado, ultrapassando, portanto, a Sua forma humana.
Por outras palavras, ama-se propriamente o Verbo de Deus, não a Jesus Cristo.
A Encarnação era necessária, segundo Orígenes, para atrair as almas, do mesmo modo que é necessário o derramamento de um perfume, fora do seu vaso, a fim de que possa ser respirado.
Uma vez atraídas pelo perfume divino, as almas correm para chegarem a alcançar não já um simples perfume divino, mas a sua própria substância [xii].


(cont)
rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Cfr.Mt 16,17
[ii] Cfr. Mt 25,1
[iii] Jo 14, 15-24
[iv] Cfr. 1Cor 13,3
[v] Cf Mt 7,21
[vi] Cfr. 1Cor 13,3
[vii] Mc3,3-35
[viii] El Libro della B. Angela da Foligno, Quarachi, Grottaferrata, 1985, p,612
[ix] Mt 22, 37-39
[x] Regra de S. Bento, c. IV; cfr. S. Cipriano, De orat, domin. C. 15.
[xi] Imitação de Cristo, 11, 7
[xii] Orígenes, «Comentário ao Cântico dos Cânticos, 1,3-4 (PG 13,93)

04/03/2018

Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

CAPÍTULO VI

«TU AMAS-ME?»

O AMOR POR JESUS

1.   Porquê amar Jesus Cristo?

O primeiro motivo para amar Jesus Cristo e o mais simples, é que Ele mesmo no-lo pede.
Na última aparição de Jesus ressuscitado recordada no evangelho de João, a um certo momento, Jesus dirige-se a Simão Pedro e pergunta-lhe por três vezes seguidas:
«Simão, filho de João, tu amas-Me?» [i]

Por duas vezes, nestas palavras de Jesus é utilizado o verbo agapao que significa, habitualmente, a forma mais alta do amor, do ágape, ou da caridade, e uma vez que o verbo phileo, que significa o amor de amizade, o querer bem ou ter afeição por alguém.
“No fim da vida seremos interrogados sobre o amor” [ii] e vemos que o mesmo sucede com os Apóstolos: no fim da sua vida com Jesus, no fim do evangelho, foram interrogados sobre o amor.
Não sobre outra coisa.

Como todas as grandes palavras de Cristo no evangelho, também esta «Tu amas-Me?» não é dirigida só a quem a ouviu pela primeira vez, neste caso a Pedro, mas a todos aqueles que leem o evangelho.
De outro modo o evangelho não seria o livro que é, o livro que contém palavras que «Não passam» [iii]
Como pode, de resto, alguém que sabe quem é Jesus Cristo, ouvir aquelas palavras dos Seus lábios e não se sentir pessoalmente interpelado, não perceber que aquele «tu» do «tu amas-Me?» se dirige a ele mesmo?

Esta pergunta coloca-nos de repente numa posição especial, isola-nos de todos, individualiza-nos, faz de nós pessoas.
À pergunta “Tu amas-Me?” não se pode responder por interposta pessoa ou interposta instituição.
Não basta fazer parte de um corpo, a Igreja, que ama Jesus.
Notamos isso na própria narração evangélica, sem com isto querer forçar o texto.
Até àquele momento o cenário, apresenta-se apinhado de gente e movimentado: juntamente com Simão Pedro, estavam Tomé e Natanael, os dois filhos de Zebedeu e outros dois discípulos.
Em conjunto tinham pescado comido e reconhecido o Senhor.
Mas, agora, improvisamente àquela pergunta do Jesus, tudo e todos são como que mergulhados do nada e desaparecem da cena evangélica.
Cria-se um espaço íntimo em que se encontram sozinhos, um defronte do outro, Jesus e Pedro.
O Apóstolo é individualizado e isolado de todos por aquela pergunta inesperada: “Tu amas-Me?”
É uma pergunta à qual ninguém pode responder por Ele e à qual ele não pode responder – como fez tantas outras vezes – em nome de todos os outros, mas a que deve responder só por si mesmo.
E, de facto, vê-se que Pedro é constrangido, pelo aperto das três perguntas, a reflectir, passando das primeiras duas repostas, imediatas mas superficiais, última, na qual se vê assomar nele o conhecimento do seu passado etambém uma grande humildade:
«Senhor, Tu conheces tudo; Tu sabes que eu Te amo» [iv].

Deve-se, portanto, amar Jesus porque Ele mesmo no-lo pede.
Mas também por um outro motivo: porque Ele nos amou em primeiro lugar.
Era isso que inflamava mais que outra coisa o Apóstolo Paulo:
«Ele amou-me – dizia – e entregou-Se a Si mesmo por mim[v].
«O amor de Cristo – dizia ele ainda – leva-nos a pensar que um morreu por todos» [vi].
O facto de Jesus nos ter amado em primeiro lugar e até ao ponto de dar a Sua vida por nós, ”constrange-nos”, ou, como se pode dizer também – “força-nos de todos os lados”, e urge em nós interiormente.
Trata-se daquela tão conhecida lei pela qual o amor «a nullo amato amar perdona» [vii],isto é, não permite àquele que é amado corresponder com o seu amor!
«Como não corresponder com amor a quem tanto nos amou?», canta um hino da Igreja. [viii]
O amor só com amor se paga.
Nenhum outro peço é adequado.

Deve-se, pois, amar Jesus sobretudo porque Ele édigno de amor e amável em Si mesmo.
Ele reúne em Si toda a beleza, toda a perfeição e santidade.
O nosso coração tem necessidade de “alguma coisa de majestoso” para amar; por isso, nada a não ser Ele pode satisfazê-lo plenamente.
Se o Pai celeste encontra n’Ele, como está escrito, «toda a complacência», se o Filho é objecto de todo o Seu amor [ix]como não há-de ser também do nosso?
Se Ele enche e satisfaz toda a capacidade infinita de amor de Deus Pai, não encherá também a nossa?

Além disso, deve-se amar Jesus, porque somente O conhece quem O ama:
«Manifestar-Me-ei a quem Me ama» [x]
Se é1 verdadeiro o axioma que “não se pode amar aquilo que não se conhece” (Nihil volitum quim precognitum), é do mesmo modo verdadeiro, especialmente quando se trata das coisas divinas, também o seu contrário, isto é, não se conhece senão aquilo que se ama.
Stº Agostinho exprimiu este conceito dizendo que, «não se entra na verdade senão através da caridade» [xi].
Esta intuição e valorizada também nalgumas correntes do pensamento moderno, como a fenomenologia e o existencialismo [xii].
Mas quando se trata de Cristo e Deus, é valorizada sobretudo pela constante experiência dos santos e de todos os crentes.
Sem um verdadeiro amor, inspirado pelo Espirito Santo, o Jesus que se vem a conhecer através das mais brilhantes e refinadas análises cristológicas, não é o verdadeiro Jesus.

(cont)
rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Jo 21,16
[ii] S. João da Cruz, Sentenças, n. 57
[iii] Mt 24,35
[iv] Jo 21,17
[v] Gl 2,20
[vi] 2Cor 5,14
[vii] Hino Adeste Fideles.
[viii] Stº Agostinho, C. Faustum, 32,18 (PL,42,507
[ix] Cfr. Mt 3,17; 17,5
[x] Jo 14,21
[xi] Stº Agostinho, CFaustum, 32,18 (PI. 42,507)
[xii] Cfr. M. Heldegger, Ser e Tempo, I, 5,29

03/03/2018

Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus
CAPÍTULO V

O SUBLIME CONHECIMENTO DE CRISTO


4.O Nome e o Coração de Jesus             

…/3

Em relação a Jesus Cristo, temos alguma coisa bem mais real a que nos “agarrar” para entrarmos em contacto com a Sua pessoa vivente: temos o Seu Coração!
O rosto era somente um símbolo metafórico, porque se sabia bem que Deus não tem um rosto humano; mas o coração é, agora, para nós, depois da Encarnação, um símbolo real – isto é, ao mesmo tempo, símbolo e realidade – porque sabemos que Cristo tem um coração humano, que dentro da SS Trindade existe, um coração humano que pulsa.
Se, de facto, Cristo ressuscitou da morte, também o Seu coração ressuscitou da morte; ele vive, como o resto do Seu corpo, numa dimensão diferente da primeira – espiritual e não carnal – mas vive.
Se o Cordeiro vive no Céu “imolado, mas de pé” [i], também o Seu coração condivide o mesmo estado; é um coração trespassado, mas vivo; eternamente trespassado, porque eternamente vivo.

É esta talvez a certeza que faltava (ou que não estava suficientemente expressa) no culto tradicional do Sagrado Coração e que pode contribuir para renovar e revitalizar este culto.
O Sagrado Coração não é somente aquele Coração que pulsava no peito de Cristo, quando vivia na terra e que foi trespassado na cruz e do qual só a fé e a devoção, ou, no máximo, a Eucaristia, podem perpetuar a presença entre nós.


Ele não vive somente na devoção, mas também na realidade; não se coloca somente no passado, mas também no pressente.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus não está ligada exclusivamente e uma espiritualidade que privilegia o Jesus terrestre e Crucificado, como foi durante muitos séculos a espiritualidade latina, mas também está aberta ao mistério da ressurreição e da primazia de Cristo.

Todas as vezes que pensamos neste Coração, que o ouvimos, por assim dizer, pulsar sobre nós, no centro do corpo místico, nós entramos em cantacto com a pessoa viva de Deus.

A devoção ao Sagrado Coração não se esgotou, por isso, a sua tarefa com o desaparecimento co jansenismo, mas permanece, também hoje, como o melhor antídoto contra a abstracção, o intelectualismo, e aquele formatismo que tornam tão áridas a teologia e a fé.
Um coração que pulsa é aquilo que mais claramente distingue uma realidade viva do seu conceito, porque o conceito pode sintetizar tudo numa pessoa, excepto o seu coração que palpita.

CAPÍTULO VI

«TU AMAS-ME?»

O AMOR POR JESUS

São Tomás distingue o amor em duas grandes espécies: o amor de concupiscência e o amor de amizade, o que corresponde, em parte, à outra distinção, mais comum, entre eros e ágape, entre o amor de procura e o amor de doação.
O amor de concupiscência – diz ele – é quando alguém ama alguma coisa (aliquis aliquid), isto é, quando uma pessoa ama uma coisa, entendendo-se por “coisa” não só um bem material ou espiritual, mas também uma pessoa se esta não for amada como tal, mas sim instrumentalizada e reduzida precisamente a uma coisa.
O amor de amizade é quando alguém ama alguém (aliquis amat aliquem), isto é, quando uma pessoa ama uma outra pessoa [ii].

A relação fundamental que nos liga a Jesus enquanto pessoa é então o amor.
A pergunta que nos pusemos acerca da divindade de Cristo era: “Tu crês?”;
A pergunta que nos devemos pôr acerca da pessoa de Cristo, é: “Tu amas-me?”
Existe um exame de cristologia em que todos os crentes, não só os teólogos, devem passar, e este exame comporta duas perguntas obrigatórias para todos.
O examinador aqui é o próprio Cristo.
Do resultado deste exame depende não o acesso ao sacerdócio ou ao ministério da pregação, ou de uma láurea em teologia, mas sim o acesso à vida eterna.
E essas duas perguntas são: “Tu crês?” e “Tu amas-me?”:
Tu crês na divindade de Cristo?
Tu amas a pessoa de Cristo?

S. Paulo pronunciou estas terríveis palavras:
«Se alguém não ama o Senhor, seja anátema!» [iii], e o Senhor de quem se fala aqui é o Senhor Jesus Cristo.
No decurso dos séculos foram pronunciados a propósito de Cristo muitos anátemas: contra quem negava a Sua humanidade, contra quem dividia as Suas duas naturezas, contra quem as confundia…, mas talvez nunca se deu bastante importância ao facto de que o primeiro anátema da cristologia, pronunciado por um Apóstolo em pessoa, é contra aqueles que não amam Jesus Cristo.

Nesta sexta etapa do nosso caminho de aproximação a Cristo pela via dogmática da Igreja, iremos enfrentar, com a ajuda do Espírito, precisamente algumas perguntas referentes ao amor de Cristo:
Porquê amar Jesus Cristo?
Que significa amar Jesus Cristo?
É possível amar Jesus Cristo?
Amamos nós a Jesus Cristo?

(cont)
rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Cfr.Ap 5,6
[ii] S. Tomás, Summa Theol., I-Hae, 9-27 a.1
[iii] 1 Cor 16,22