14/02/2016

Antigo testamento / Salmos

Salmo 104








1 Bendiga o Senhor a minha alma! Ó Senhor, meu Deus, tu és tão grandioso! Estás vestido de majestade e esplendor!
2 Envolto em luz como numa veste, ele estende os céus como uma tenda, e põe sobre as águas dos céus as vigas dos seus aposentos. Faz das nuvens a sua carruagem e cavalga nas asas do vento.
4 Faz dos ventos seus mensageiros e dos clarões reluzentes seus servos.
5 Firmaste a terra sobre os seus fundamentos para que jamais se abale; com as torrentes do abismo a cobriste, como se fossem uma veste; as águas subiram acima dos montes.
6 Diante das tuas ameaças as águas fugiram, puseram-se em fuga ao som do teu trovão; subiram pelos montes e escorreram pelos vales, para os lugares que tu lhes designaste.
7 Estabeleceste um limite que não podem ultrapassar; jamais tornarão a cobrir a terra.
8 Fazes jorrar as nascentes nos vales e correrem as águas entre os montes; delas bebem todos os animais selvagens, e os jumentos selvagens saciam a sua sede.
9 As aves do céu fazem ninho junto às águas e entre os galhos põem-se a cantar.
10 Dos teus aposentos celestes regas os montes; sacia-se a terra com o fruto das tuas obras!
11 É o Senhor que faz crescer o pasto para o gado, e as plantas que o homem cultiva, para da terra tirar o alimento: o vinho, que alegra o coração do homem; o azeite, que lhe faz brilhar o rosto, e o pão, que sustenta o seu vigor.
12 As árvores do Senhor são bem regadas, os cedros do Líbano que ele plantou; nelas os pássaros fazem ninho, e nos pinheiros a cegonha tem o seu lar.
18 Os montes elevados pertencem aos bodes selvagens, e os penhascos são um refúgio para os coelhos.
13 Ele fez a lua para marcar estações; o sol sabe quando deve se pôr.
14 Trazes trevas, e cai a noite, quando os animais da floresta vagueiam.
15 Os leões rugem à procura da presa, buscando de Deus o alimento, mas ao nascer do sol eles se vão e voltam a deitar-se em suas tocas.
16 Então o homem sai para o seu trabalho, para o seu labor até o entardecer.
17 Quantas são as tuas obras, Senhor! Fizeste todas elas com sabedoria! A terra está cheia de seres que criaste.
18 Eis o mar, imenso e vasto. Nele vivem inúmeras criaturas, seres vivos, pequenos e grandes.
19 Nele passam os navios, e também o Leviatã, que formaste para com ele brincar.
20 Todos eles dirigem seu olhar a ti, esperando que lhes dês o alimento no tempo certo; tu lhes dás, e eles o recolhem; abres a tua mão, e saciam-se de coisas boas.
21 Quando escondes o rosto, entram em pânico; quando lhes retiras o fôlego, morrem e voltam ao pó.
22 Quando sopras o teu fôlego, eles são criados, e renovas a face da terra.
23 Perdure para sempre a glória do Senhor! Alegre-se o Senhor em seus feitos!
24 Ele olha para a terra, e ela treme; toca os montes, e eles fumegam.
25 Cantarei ao Senhor toda a minha vida; louvarei ao meu Deus enquanto eu viver.
26 Seja-lhe agradável a minha meditação, pois no Senhor tenho alegria.

27 Sejam os pecadores eliminados da terra e deixem de existir os ímpios. Bendiga o Senhor a minha alma! Aleluia!

Os filhos de Deus têm de ser contemplativos

Nunca compartilharei a opinião – ainda que a respeite – dos que separam a oração da vida activa, como se fossem incompatíveis. Os filhos de Deus têm de ser contemplativos: pessoas que, no meio do fragor da multidão, sabem encontrar o silêncio da alma em colóquio permanente com Nosso Senhor: e olhá-lo como se olha um Pai, como se olha um Amigo, a quem se quer com loucura. (Forja, 738)

Não duvideis, meus filhos: qualquer forma de evasão das honestas realidades diárias é, para vós, homens e mulheres do mundo, coisa oposta à vontade de Deus.

Pelo contrário, deveis compreender agora – com uma nova clareza – que Deus vos chama a servi-Lo em e a partir das ocupações civis, materiais, seculares da vida humana: Deus espera-nos todos os dias no laboratório, no bloco operatório, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar e em todo o imenso panorama do trabalho. Ficai a saber: escondido nas situações mais comuns há um quê de santo, de divino, que toca a cada um de vós descobrir.

Eu costumava dizer àqueles universitários e àqueles operários que vinham ter comigo por volta de 1930 que tinham que saber materializar a vida espiritual. Queria afastá-los assim da tentação, tão frequente então como agora, de viver uma vida dupla: a vida interior, a vida de relação com Deus, por um lado; e por outro, diferente e separada, a vida familiar, profissional e social, cheia de pequenas realidades terrenas.

Não, meus filhos! Não pode haver uma vida dupla; se queremos ser cristãos, não podemos ser esquizofrénicos. Há uma única vida, feita de carne e espírito, e essa é que tem de ser – na alma e no corpo – santa e cheia de Deus, deste Deus invisível que encontramos nas coisas mais visíveis e materiais.


Não há outro caminho, meus filhos: ou sabemos encontrar Nosso Senhor na nossa vida corrente ou nunca O encontraremos Por isso posso dizer-vos que a nossa época precisa de restituir à matéria e às situações que parecem mais vulgares o seu sentido nobre e original, colocá-las ao serviço do Reino de Deus, espiritualizá-las, fazendo delas o meio e a ocasião do nosso encontro permanente com Jesus Cristo. (Temas Actuais do Cristianismo, n. 114)

Doutrina - 55

Eucaristia

…/12

2.3. Significado e conteúdo do mandato do Senhor

Deste modo, Cristo ordenou aos Apóstolos (e neles aos seus sucessores no sacerdócio), que celebrassem um novo “memorial”, que substituísse o da Antiga Páscoa.
Este rito memorial tem uma particular eficácia: não só ajuda a “recordar” à comunidade crente o amor redentor de Cristo, as suas palavras e gestos durante a Última Ceia, mas que, além disso, como sacramento da Nova Lei, torna objectivamente presente a realidade significada: Cristo “Nossa Páscoa” [i], e o seu sacrifício redentor.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)



[i] 1 Cor 5, 7

Temas para meditar - 581

Riqueza


Esta manhã visitei a diocese de Velletri, da qual fui cardeal titular durante vários anos. Foi um encontro familiar que me permitiu reviver momentos do passado, ricos de experiências espirituais e pastorais.
No curso da solene celebração eucarística, comentando os textos litúrgicos, detive-me a reflectir sobre o recto uso dos bens terrenos, um tema que este domingo o evangelista Lucas, de vários modos, volta a propor à nossa atenção.
Contando a parábola de um administrador desonesto, e também astuto, Cristo ensina a seus discípulos qual é a melhor maneira de utilizar o dinheiro e as riquezas materiais, isto é, compartilhá-las com os pobres, procurando assim sua amizade, em vista do Reino dos Céus. «Usem as riquezas deste mundo – afirma Jesus – para conseguir amigos a fim de que, quando as riquezas faltarem, eles recebam vocês no lar eterno» (Lc 16, 9).
O dinheiro não é «desonesto» em si mesmo, mas, mais que qualquer outra coisa, pode fechar o homem em um cego egoísmo. Trata-se portanto de realizar uma espécie de «conversão» dos bens económicos: em lugar de usá-los só por interesse próprio, há que pensar também na necessidade dos pobres, imitando o próprio Cristo, o qual – escreve Paulo – «sendo rico se fez pobre para enriquecer a nós com sua pobreza» (2 Co 8, 9).
Parece um paradoxo: Cristo não nos enriqueceu com sua riqueza, mas com sua pobreza, isto é, com seu amor que o impulsionou a dar-se totalmente a nós.
Aqui poderia abrir-se um vasto e complexo campo de reflexão sobre o tema da riqueza e da pobreza, também no âmbito mundial, onde se confrontam duas lógicas económicas: a lógica do lucro e a da equitativa distribuição dos bens, que não estão em contradição uma com a outra, com tal que sua relação esteja bem ordenada.
A doutrina social católica sempre sustentou que a distribuição equitativa dos bens é prioritária.
O lucro é naturalmente legítimo e, na justa medida, necessário para o desenvolvimento económico.
São João Paulo II escreveu na Encíclica Centesimus annus: «A moderna economia de empresa comporta aspectos positivos, cuja raiz é a liberdade da pessoa, que se expressa no campo económico e em outros campos» (n. 32). Contudo, acrescenta, o capitalismo não deve ser considerado como o único modelo válido de organização económica (n. 35).
A emergência da fome e a ecologia denunciam, com crescente evidência, que a lógica do lucro, se é predominante, quando aumenta a desproporção entre ricos e pobres de compartilhar e da solidariedade, é possível endereçar a rota e orientá-la para um desenvolvimento equitativo e sustentável.
Que Maria Santíssima, que no Magnificat proclama: o Senhor «aos famintos cumula de bens, aos ricos os despede vazios» (Lc 1, 53), ajude os cristãos a usar com sabedoria evangélica, isto é, com generosa solidariedade, os bens terrenos, e inspire aos governos e aos economistas estratégias de vistas amplas que favoreçam o autêntico progresso dos povos.

(bento xvi, Angelus, Castel Gandolfo,23.09.2007)


13/02/2016

NUNC COEPI – Índice de publicações em Fev 13

nunc coepi – Índice de publicações em Fev 13

São Josemaria – Textos

Abraão, AMA - Comentários ao Evangelho Lc 5 27-32, J Yániz, Leit Espiritual (Vida cristã)

Doutrina – Eucaristia


JMA – Quaresma

São Tomás de Aquino – Suma Teológica, Suma Teológica - Tratado da Vida de Cristo - Do género de vida que Cristo levou - Quest 41 Art. 1

Bento XVI - Pensamentos espirituais

AT - Salmos – 103


Agenda Sábado

Reflexões Quaresmais

Quaresma de 2016 – 2ª Reflexão

Inclino-me perante Ti, e pergunto-Te com o coração nas mãos:
E hoje, Senhor, que queres hoje indicar-me como caminho de reflexão neste segundo dia da Quaresma.

E Tu respondes-me com o Teu olhar manso e amoroso:
Quando falas de Mim, quando me anuncias, quando te afadigas a falar e a escrever sobre Mim, tens a certeza que o fazes apenas por Mim?

Oh, Senhor, como me conheces tão bem!
Fazes-me ver com tanta clareza que muitas vezes a minha ânsia de protagonismo, quase se sobrepõe à importância do anúncio do Teu amor, ao anúncio da Tua presença no meio de nós e em nós.
Como se fosse eu importante, e Tu apenas um caminho para a minha “importância”!
Reconheço, Senhor, com uma dor no coração e sobretudo com a vergonha no meu ser, que muitas vezes assim será.
Apenas mitiga esta minha vergonha o saber que, por Tua infinita bondade, apesar deste meu pecado, as palavras e actos que colocas em mim, chegam aos outros isentas dessa minha fraqueza, que apenas recai em mim e só em mim.

Por isso o meu segundo pedido nesta Quaresma:
Perdoa-me, Senhor, e ajuda-me a reconhecer-me nada perante Ti.
Ajuda-me a reconhecer-me servo dos outros e a nada querer para mim, a não ser aquilo que já me dás com tanta abundância: o Teu amor e a Tua abundância de vida.
Apenas e sempre para Tua glória, Senhor, para Tua glória!

joaquim mexia alves, Monte Real, 12 de Fevereiro de 2016


Pequena agenda do cristão


SÁBADO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?



Evangelho, comentário, L. espiritual


Cinzas



Evangelho: Lc 5, 27-32

27 Depois disto, Jesus saiu, e viu sentado no banco de cobrança um publicano, chamado Levi, e disse-lhe: «Segue-Me». 28 Ele, deixando tudo, levantou-se e seguiu-O. 29 E Levi ofereceu-Lhe um grande banquete em sua casa, e havia grande número de publicanos e outros, que estavam à mesa com eles. 30 Os fariseus e os seus escribas murmuravam dizendo aos discípulos de Jesus: «Porque comeis e bebeis com os publicanos e os pecadores?». 31 Jesus respondeu-lhes: «Os sãos não têm necessidade de médico, mas sim os doentes. 32 Não vim chamar os justos, mas os pecadores à penitência».

Comentário:

A chamada que o Senhor faz a cada pessoa é sempre directa e simples com esta feita a Mateus?

Temos de convir que não!

Muitas vezes esse chamamento vem na sequência de algum acontecimento marcante como se fosse uma indicação do caminho a seguir.

O que importa  verdadeiramente é que a nossa resposta seja simples e célere com a de Mateus porque o tempo é sempre escasso e deve urgir-nos essa ânsia de seguir Cristo sem demora.

(ama, comentário sobre Lc 5 27-32, Carvide, 2015-02-21)


Leitura espiritual



ABRAÃO, NOSSO PAI NA FÉ


O livro do Génesis narra a vida de Abraão a partir do momento em que o Senhor se cruzou no seu caminho e transformou a radicalmente a sua existência. Embora o escritor sagrado não pretenda oferecer uma biografia detalhada, apresenta-nos numerosos episódios que põem em evidência a profunda fé do santo patriarca e o modo como ele deixa Deus agir na sua vida.

Com efeito, são lhe prometidas uma terra e uma descendência numerosa, mas Abraão deverá iniciar um caminho:
Sai da tua terra, do meio dos teus parentes e da casa de teu pai, e vai para a terra que Eu te mostrar. Eu farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei; tornarei famoso o teu nome, de modo que se tornará uma bênção [i]. Tempo depois, o próprio Deus mudar-lhe-á o nome – e já não te chamarás Abrão, mas o teu nome será Abraão [ii] – para indicar que lhe conferiu «una personalidade nova e uma nova missão, que ficam refletidas no significado do novo nome: “pai de multidões"» [iii]. Manifesta-se assim que toda a singularidade do patriarca depende da aliança com Deus e está ao serviço desta.

Abraão escuta a voz de Deus e põe-na em prática, sem prestar demasiada atenção ao que as circunstâncias lhe podiam aconselhar. Porquê abandonar a segurança da sua pátria, esperar uma descendência quando, quer ele quer a sua mulher, são de idade avançada?
Mas Abraão confia em Deus, na sua omnipotência, na sua sabedoria e na sua bondade. O episódio de Sodoma e Gomorra [iv] mostra, além da gravidade do pecado que ofende a Deus e destrói o homem, a familiaridade que Abraão tem com o seu Senhor. Deus não lhe oculta o que está por fazer e acolhe a oração de intercessão do santo patriarca. A resposta de fé apoia-se na confiança, ou seja, num trato pessoal com Deus.



O conhecimento das coisas, o sentir comum, a experiência, os meios humanos têm a sua importância, mas se tudo ficasse por aí, “numa ordem natural", a nossa perceção da realidade seria falsa por ser incompleta, porque o nosso Pai Deus não se desinteressa de nós nem o seu poder minguou. Assim o expressava São Josemaría Escrivá de Balaguer:

Nos empreendimentos de apostolado, está certo - é um dever - que consideres os teus meios terrenos (2 + 2 = 4). Mas não esqueças - nunca! - que tens de contar, felizmente, com outra parcela: Deus + 2 + 2... [v].

As dificuldades habituais, por muito adversas que pareçam, nunca são a última palavra. Deus é fiel e cumpre sempre as suas promessas. Abraão actua de acordo com esta lógica. O valor exemplar da fé de Abraão compendia-se em três traços fundamentais: a obediência, a confiança e a fidelidade.

Na obediência da fé

Abraão manifesta a sua própria fé principalmente obedecendo a Deus. A obediência pressupõe a escuta, pois é necessário, em primeiro lugar, “prestar atenção", quer dizer, conhecer a vontade de outro para lhe dar resposta e cumpri-la. Na Sagrada Escritura obedecer não é apenas “cumprir" mecanicamente o mandado: implica uma atitude ativa, que põe em jogo a inteligência diante de Deus que se revela, e que conduz a pessoa a aderir à vontade divina com todas as forças e capacidades.

«Quando Deus o chama, Abraão parte "como lhe tinha dito o Senhor" [vi]: todo o seu coração se submete à Palavra e obedece» [vii].

A obediência que provém da fé vai muito para além da simples disciplina: pressupõe a aceitação livre e pessoal da Palavra de Deus. Assim ocorre também em muitos momentos da nossa vida quando podemos acolher essa Palavra ou recusá-la, deixando que as nossas ideias prevaleçam sobre o que Ele quer. A obediência da fé é a resposta ao convite de Deus ao homem para caminhar junto d'Ele, a viver em amizade com Ele.
«Obedecer ("ob-audire") na fé, é submeter-se livremente à palavra escutada, porque a sua verdade é garantida por Deus, a própria Verdade. Abraão é o modelo que a Sagrada Escritura nos propõe desta obediência. A Virgem Maria é a realização mais perfeita da mesma» [viii].

Com confiança e abandono em Deus

Quando consideramos a vida de Abraão, vemos que a fé está presente em toda a sua existência, manifestando-se especialmente nos momentos de obscuridade, em que as certezas humanas falham. A fé implica sempre uma certa obscuridade, um viver no mistério, sabendo que nunca se chegará a atingir uma perfeita explicação, uma perfeita compreensão, pois o contrário já não seria fé. Como diz o autor da carta aos Hebreus, a fé é fundamento das coisas que se esperam, prova das que se não vêm [ix].
A falta de certeza da fé é superada pela confiança do crente em Deus; pela fé, o patriarca põe-se a caminho sem saber onde vai, mas essa é apenas a primeira ocasião em que deverá pôr em jogo esta virtude. Porque, como recorda o Catecismo da Igreja Católica, é necessário confiar muito em Deus para viver «como estrangeiro e peregrino na Terra prometida» [x], e para enfrentar o sacrifício do filho: Toma o teu filho, o teu único filho Isaac, a quem amas, e vai para a região de Moriá e oferece-o lá em holocausto, sobre uma montanha que Eu vou indicar [xi].



A fé de Abraão manifesta-se em toda a sua grandeza quando se dispõe a renunciar ao seu filho Isaac. O sacrifício do próprio filho é profecia da entrega de Jesus Cristo para a salvação do mundo. É algo tão tremendo que dispensa comentários. Mas Abraão não se revolta contra Deus, não o questiona nem o põe em dúvida: fia-se d'Ele. Põe-se a caminho, continua atento a escutar a voz do Senhor e, no final da viagem ao monte Moriá, descobre que não quer o sangue de Isaac: E Deus disse-lhe: – Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus pois não me recusaste o teu filho, o teu filho único. (…). E Abraão deu a esse lugar o nome "Javé providenciará"! Assim ainda hoje se costuma dizer: "Sobre a montanha, Javé providenciará" [xii].

Acontecimentos similares costumam suceder na vida dos santos. Recordemos, por exemplo, quando o nosso Padre pensou que o Senhor lhe estava a pedir para deixar o Opus Dei para poder realizar uma nova fundação, dirigida aos sacerdotes diocesanos. Que grande sacrifício! De facto, depois de falar com várias pessoas na Santa Sé, chegou mesmo a comunicar a sua decisão a D. Álvaro, à Tia Carmen, ao Tio Santiago, aos membros do Conselho Geral e a mais alguns. Mas Deus não o quis assim, e livrou-me, com a sua mão misericordiosa – carinhosa – de Pai, do sacrifício bem grande que me dispunha a fazer de deixar o Opus Dei. Tinha dado conhecimento oficiosamente da minha decisão à Santa Sé (...), mas vi depois com clareza que não era necessária essa nova fundação, essa nova associação, posto que os sacerdotes diocesanos cabiam perfeitamente dentro da Obra [xiii].
Como Abraão tinha sido libertado, São Josemaria também foi, pois o Senhor fez-lhe entender que os sacerdotes diocesanos podiam fazer parte do Opus Dei e ser admitidos como sócios da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, sem que isso afetasse a sua situação na diocese; mais ainda, fortalecendo-se, assim, a sua união com o resto do clero e com o seu Bispo.

Fé que é fidelidade

A fé de Abraão manifesta-se também como fidelidade: perante os diversos acontecimentos persevera na sua decisão de seguir a vontade de Deus. A fé apoia-se na palavra de Deus e, por isso, dá lugar a decisões tomadas em profundidade, que não estão submetidas a posteriores “revisões" ou “re-pensamentos". Mantenhamos firme a confissão da esperança, porque fiel é o que fez a promessa [xiv].

Na nossa vida, sempre haverá momentos que nos servirão – com a graça de Deus – para fortalecer e consolidar a nossa fé. Abraão foi submetido a uma prova tremenda: viu-se na situação de ter que sacrificar aquele que era fruto da promessa que lhe tinha sido feito. O santo patriarca não só teve que enfrentar circunstâncias difíceis, mas ainda esperou contra toda a esperança [xv], porque as circunstâncias convidavam a “julgar" a vontade divina, a duvidar do próprio Deus e da sua fidelidade. Nisto radica a tentação que se apresentou a Abraão.

Também nós nos podemos encontrar, por vezes, com situações onde intuímos que o Senhor espera algo que talvez nos contrarie: um passo em frente na vida cristã, a renúncia a um modo de fazer ou mesmo a uma maneira de ser, talvez profundamente arraigada, mas que talvez não favoreça a fecundidade do apostolado. Pode surgir o impulso de silenciar essa inquietação, identificando aquilo que nos agradaria com o que deveria ser a vontade divina: «A tentação de deixar Deus de lado para nos pormos nós próprios no centro está sempre à espreita» [xvi].


Abraão não age assim: vai para o monte Moriá, com um grande conflito interior, mas convencido de que antes ou depois Deus providenciará [xvii].
E Deus, que está empenhado em fazer-se entender, no final providencia. Para que se fizesse luz, Abraão teve que percorrer o caminho completo, teve que pôr-se em marcha e chegar até ao fim.
Também nós, se procuramos secundar em todo o momento a vontade divina, descobriremos que, apesar das nossas limitações, Deus dá eficácia à nossa vida.
Saberemos e sentiremos que Deus nos ama e não teremos medo de O amar: «a fé professa-se com a boca e com o coração, com a palavra e com o amor» [xviii].

J. Yániz





[i] Gn12, 1-2.
[ii] Gn17, 5.
[iii] Bíblia de Navarra (tomo I, 1997), comentário a Gn17, 5.
[iv] Cfr. Gn18-19.
[v] S. Josemaria, Caminho, n. 471.
[vi] Gn12, 4
[vii] Catecismo da Igreja Católica, n. 2570.
[viii] Catecismo da Igreja Católica, n. 144.
[ix] Hb11, 1.
[x] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 145.
[xi] Gn22, 2.
[xii] Gn22, 12-14.
[xiii] S. Josemaria, Carta 24-XII-1951, n. 3, em A. Vázquez de Prada, El fundador del Opus Dei, vol. 3, Rialp, Madrid 2003, p. 171.
[xiv] Hb10, 23.
[xv] Cfr. Rm4, 18.
[xvi] Francisco, Audiência geral, 10-IV-2013.
[xvii] Gn22, 8.
[xviii] Francisco, Audiência geral, 3-IV-2013.