06/11/2014

Santo, sem oração?

Se não procuras a intimidade com Cristo na oração e no Pão, como podes dá-Lo a conhecer? (Caminho, 105)

Escreveste-me e compreendo-te: "Faço todos os dias o meu 'bocadinho' de oração. Se não fosse isso!...". (Caminho, 106)

Santo, sem oração?!... – Não acredito nessa santidade. (Caminho, 107)

Dir-te-ei, plagiando a frase de um autor estrangeiro, que a tua vida de apóstolo vale o que valer a tua oração. (Caminho, 108)

Desejo que o teu comportamento seja como o de Pedro e o de João: que leves à tua oração, para falar com Jesus, as necessidades dos teus amigos, dos teus colegas... e que depois, com o teu exemplo, possas dizer-lhes "Respice in nos!" – Olhai para mim! (Forja, 36)

O Evangelista S. Lucas conta que Jesus estava a orar... Como seria a oração de Jesus!

Contempla devagar esta realidade: os discípulos têm intimidade com Jesus e, nessas conversas, Nosso Senhor ensina-lhes – também com as obras – como hão-de rezar, e o grande portento da misericórdia divina: que somos filhos de Deus e que podemos dirigir-nos a Ele, como um filho fala com o Pai. (Forja, 71)

Ao acometer cada jornada para trabalhar junto de Cristo e atender tantas almas que o procuram, convence-te de que não há mais do que um caminho: recorrer a Nosso Senhor.


Somente na oração e com a oração aprendemos a servir os outros! (Forja, 72)

Temas para meditar - 263


Os outros

O Mestre convida-nos a ver os outros sem os preconceitos que forjamos com as próprias faltas e com a soberba, definitivamente, pela qual tendemos a aumentar as fraquezas alheias e a diminuir as próprias; o Senhor exorta-nos a «olhar os outros mais de dentro, com olhar novo (…), é necessário tirar a viga do nosso próprio olho. E o que é preciso é renovar a nossa forma de contemplar os outros.

(a. mª. dorronsoroDios y la gente, Rialp, Madrid 1974, p. 134-135, trad ama)

Tratado do verbo encarnado 21

Questão 3: Da união relativamente à pessoa que assumiu

Art. 4 — Se uma Pessoa pode assumir a natureza criada, sem a assumir outra.

O quarto discute-se assim. — Parece que uma Pessoa não pode assumir a natureza, sem a assumir outra.

1. — Pois, as obras da Trindade são indivisas, como diz Agostinho. Ora, como a essência das três Pessoas é só uma, assim também uma só a operação. Ora, assumir é uma determinada operação. Logo, não pode convir a uma Pessoa divina sem que o convenha a outra.

2. Demais. — Assim como falamos da pessoa incarnada do Filho, assim, da natureza: pois, toda a natureza divina se encarnou numa das suas hipóstases, como diz Damasceno. Ora, a natureza é comum às três Pessoas. Logo, também a assunção.

3. Demais. — Assim como a natureza humana em Cristo foi assumida por Deus, assim também pela graça, os homens são assumidos por ele, segundo o Apóstolo: Deus o recebeu por seu. Ora, esta assunção pertence comumente a todas as Pessoas. Logo, também a primeira.

Mas, em contrário, Dionísio diz que o mistério da Encarnação pertence à teologia descritiva, pela qual se introduz a distinção das Pessoas divinas.

Como dissemos, a assunção implica duas coisas: o acto de quem assume e o termo da assunção. Ora, o acto de quem assume procede da virtude divina, comum às três Pessoas, mas o termo da assunção é a pessoa, como se disse. Logo, o que implica uma acção, na assunção, é comum às três Pessoas, mas o que implica a ideia de termo convém de modo a uma Pessoa, que não convém às outras. Pois, as três Pessoas fizeram com que a natureza humana se unisse à Pessoa do Filho.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A objecção colhe quanto à operação. E a conclusão seria consequente se importasse só essa operação sem o termo, que é a Pessoa.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Dizemos que a natureza se encarnou e que assumiu, em razão da Pessoa na qual se terminou a união, como se disse, não porém enquanto comum às três Pessoas, Pois dizemos que toda a natureza divina se encarnou, não por se ter encarnado em todas as Pessoas, mas por não faltar nenhuma das perfeições divinas à natureza da Pessoa encarnada.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A assunção feita pela graça da adopção termina numa determinada participação da natureza divina, por assimilação com a bondade dela, conforme a Escritura. Para que sejais feitos participantes, etc. E essa assunção é comum às três Pessoas, tanto quanto ao princípio, como ao termo. Mas, a assunção feita pela graça da união é comum quanto ao princípio, mas não quanto ao termo, como se disse.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment. Leit esp. (História de uma alma)

Tempo comum XXXI Semana

São Nuno de Santa Maria

Evangelho: Lc 15 1-10

1 Aproximavam-se d'Ele os publicanos e os pecadores para O ouvir. 2 Os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: «Este recebe os pecadores e come com eles». 3 Então propôs-lhes esta parábola: 4 «Qual de vós, tendo cem ovelhas, se perde uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto, para ir procurar a que se tinha perdido, até que a encontre?  5 E, tendo-a encontrado, a põe sobre os ombros todo contente 6 e, indo para casa, chama os seus amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha que se tinha perdido. 7 Digo-vos que, do mesmo modo, haverá maior alegria no céu por um pecador que fizer penitência que por noventa e nove justos que não têm necessidade de penitência». 8 «Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, e perdendo uma, não acende a candeia, não varre a casa, e não procura diligentemente até que a encontre? 9 E que, depois de a achar, não convoca as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma que tinha perdido. 10 Assim vos digo Eu que haverá alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que faça penitência».

Comentário

Haverá maior alegria que ser perdoado?
E… qual a dimensão dessa alegria quando o perdão nos vem directamente do ofendido?
E… quando o Ofendido é o próprio Senhor?

(ama, comentário sobre Lc 15, 1-10, V. Moura, 2013.09.15)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus


Manuscrito "A" - Parte IV

…/3

Em Veneza, o cenário muda completamente. Em vez do ruído das grandes cidades, só se ouvem, no meio do silêncio, os gritos dos gondoleiros e o murmúrio da onda agitada pelos remos. Veneza não é desprovida de encantos, mas acho essa cidade triste. O palácio dos doges é esplêndido, porém também triste com os seus vastos aposentos onde reinam o ouro, a madeira, os mais preciosos mármores e as pinturas dos maiores mestres. Há muito tempo que suas abóbadas sonoras deixaram de ouvir as vozes dos governadores que pronunciavam sentenças de vida e de morte nas salas que atravessamos... Os infelizes prisioneiros que mantinham nas masmorras e calabouços subterrâneos deixaram de sofrer... Ao visitar esses horrendos cárceres, reportava-me ao tempo dos mártires e desejei poder ficar, a fim de imitá-los!... Mas foi preciso sair logo e passar na ponte dos suspiros, assim chamada por causa dos suspiros de alívio dados pelos condenados por se verem livres do horror dos subterrâneos, aos quais preferiam a morte... Depois de Veneza, fomos a Pádua, onde veneramos a língua de santo António, e a Bolonha, onde vimos santa Catarina, que conserva a impressão do beijo do Menino Jesus. Há muitos pormenores interessantes que eu poderia dar sobre cada cidade e sobre as mil pequenas circunstâncias particulares da nossa viagem, mas não teria fim, por isso só vou relatar os principais.

Deixei Bolonha com satisfação. Essa cidade tornara-se insuportável para mim, devido aos estudantes dos quais está repleta e que formavam uma barreira quando tínhamos a infelicidade de sair a pé, e, sobretudo, por causa de pequena aventura que me aconteceu com um deles. Foi com alegria que rumei para Loreto. Não me surpreendeu que Nossa Senhora tenha escolhido esse lugar para transportar sua casa abençoada. A paz, a alegria, a pobreza reinam soberanamente; tudo é simples e primitivo, as mulheres conservaram o gracioso traje italiano e não adoptaram, como em outras cidades, a moda parisiense. Enfim, Loreto encantou-me! Que direi da casa abençoada?... Ah! minha emoção foi profunda ao ver-me sob o mesmo tecto que a Sagrada Família, a contemplar os muros nos quais Jesus fixara seus divinos olhos, pisando a terra que são José molhou com seus suores, onde Maria carregara Jesus em seus braços depois de tê-lo carregado no seu seio virginal... Vi o quartinho onde o anjo desceu para perto da Santíssima Virgem... Coloquei o meu terço na tigelinha do Menino Jesus... Como essas recordações são maravilhosas!...

O nosso maior consolo foi receber Jesus em sua própria casa e ser o seu templo vivo no lugar que Ele honrou com sua presença. Segundo um costume da Itália, o santo cibório só se conserva, em cada igreja, sobre um altar, e somente aí se pode receber a santa comunhão. Esse altar encontra-se na própria basílica onde está a casa abençoada, guardada como um diamante precioso num estojo de mármore branco. Isso não nos agradou, pois queríamos comungar no próprio diamante, não no estojo... Com a sua cordialidade habitual, papai fez como todos os outros, mas Celina e eu fomos encontrar um sacerdote que nos acompanhava em todo lugar e que, naquele momento e por um privilégio especial, se preparava para celebrar missa na casa abençoada. Pediu duas pequenas hóstias que colocou na patena junto à grande e compreendeis, Madre querida, com que êxtase comungamos, as duas, nessa casa abençoada!... Era uma felicidade toda celeste que as palavras não podem expressar. Como será então quando recebermos a santa comunhão na eterna morada do Rei dos Céus?... Não mais veremos terminar a nossa felicidade, não haverá mais a tristeza da partida e, para levar uma lembrança, não será mais necessário raspar furtivamente as paredes santificadas pela presença divina, sendo que a casa dele será nossa para a eternidade... Não quer dar-nos a da terra, contenta-se em mostrá-la a nós para nos fazer amar a pobreza e a vida oculta. A morada que Ele nos reserva é o seu palácio de glória onde não mais o veremos oculto, sob a aparência de uma criança ou de uma hóstia branca, mas tal como é, no seu esplendor infinito!!!...

É de Roma, agora, que me resta falar, Roma, meta da nossa viagem, lá onde acreditava encontrar o consolo, mas onde encontrei a cruz!... À nossa chegada, era noite e dormíamos. Fomos acordados pelos funcionários da estação que gritavam: "Roma, Roma". Não era um sonho, estava em Roma!...

O primeiro dia passou-se fora dos muros e foi, talvez, o mais agradável, pois todos os monumentos conservaram a sua marca de antiguidade, enquanto no centro poder-se-ia acreditar estar em Paris ao ver a magnificência dos hotéis e das lojas. Esse passeio na campanha romana deixou em mim uma doce recordação. Não falarei dos lugares que visitamos, são muitos os livros que os descrevem nos pormenores, falarei apenas das principais impressões que tive. Uma das mais agradáveis foi a que me fez estremecer à vista do Coliseu. Estava vendo, enfim, essa arena onde tantos mártires tinham derramado o sangue por Jesus. Já ia apressar-me a beijar a terra que santificaram, mas que decepção! O centro não passa de um montão de entulho que os romeiros têm de se contentar em olhar, pois uma barreira impede a entrada. Aliás, ninguém fica interessado em penetrar naquelas ruínas... Seria possível ir a Roma sem visitar o Coliseu?... Não queria admitir, não escutava mais as explicações do guia, só um pensamento me atormentava: descer à arena... Vendo um operário que passava com uma escada, estive prestes a pedir-lhe, felizmente não pus meu plano em execução, porque me teriam considerado louca... Diz-se no Evangelho que Madalena tinha ficado junto ao sepulcro e que, inclinando-se por diversas vezes para ver dentro, acabou vendo dois anjos. Como ela, depois de constatar a impossibilidade de realizar meus desejos, continuei inclinando-me sobre as ruínas onde queria descer; no fim, não vi anjo nenhum, mas sim o que eu procurava. Soltei um grito de alegria e disse a Celina: "Venha depressa, vamos poder passar!..." Logo atravessamos a barreira de entulhos e eis-nos escalando as ruínas que caíam sob nossos passos.

Papai olhava-nos espantado com a nossa audácia. Logo nos disse para voltar, mas as duas fugitivas não ouviam mais nada. Assim como os guerreiros sentem a coragem aumentar no meio do perigo, a nossa alegria crescia na proporção da dificuldade que tínhamos para alcançar o objecto dos nossos desejos. Mais precavida que eu, Celina tinha escutado o guia e lembrou-se de que falara de uma certa lajinha cruzada como sendo o lugar onde combatiam os mártires e pôs-se a procurá-la. Achou-a e, ao ajoelharmos sobre essa terra sagrada, nossas almas confundiram-se numa mesma oração... Meu coração batia fortemente quando meus lábios se aproximaram do pó tingido do sangue dos primeiros cristãos. Pedi a eles a graça de ser também mártir para Jesus e senti no fundo do meu coração que minha oração seria atendida!... Tudo isso foi feito em muito pouco tempo. Depois de pegar algumas pedras, voltamos em direcção aos muros em ruína a fim de refazer em sentido inverso a nossa perigosa trajectória. Vendo-nos tão felizes, papai não pôde chamar a nossa atenção e vi que estava feliz pela nossa coragem... Deus protegeu-nos visivelmente, pois os romeiros não tomaram conhecimento da nossa escapada, estando afastados de nós, ocupados a olhar as magníficas arcadas onde o guia fazia observar "as pequenas cornijas e os cupidos fixados em cima". Portanto, nem ele nem "os senhores padres" conheceram a alegria que enchia nossos corações...

As catacumbas deixaram também em mim uma suave impressão: são exactamente como eu as imaginava ao ler a sua descrição na vida dos mártires. Depois de ter passado parte da tarde ali, parecia-me ter entrado poucos minutos antes, tão perfumada me parecia a atmosfera que se respira... Era preciso levar algumas recordações das catacumbas. Deixando a procissão afastar-se um pouco, Celina e Teresa penetraram juntas até o fundo do antigo túmulo de santa Cecília e pegaram terra santificada pela sua presença. Antes da minha viagem a Roma, eu não tinha por essa santa devoção especial, mas ao visitar sua casa transformada em igreja, o lugar do seu martírio, informada que fora proclamada rainha da Harmonia, não por causa da sua bela voz nem do seu talento musical, mas em memória do canto virginal que fez ouvir a seu Esposo Celeste escondido no fundo do seu coração, senti por ela mais do que devoção: uma verdadeira ternura de amiga... Passou a ser a minha santa predileta, minha confidente íntima... Tudo nela me extasia, sobretudo oseu desprendimento, a sua confiança ilimitada que a tornou capaz de virginizar almas que nunca desejaram outras alegrias que as da vida presente...

Santa Cecília é parecida com a esposa dos cânticos. Nela vejo "um coro num campo de exército...". A sua vida não foi senão um canto melodioso no meio às maiores provações, e isso não me é estranho, sendo que "o Evangelho sagrado repousava sobre seu coração!" e que em seu coração repousava o Esposo das Virgens!...

A visita à igreja Santa Inês foi também muito doce para mim. Era uma amiga de infância que ia visitar na própria casa. Falei-lhe muito tempo de quem leva tão bem o nome e fiz tudo o que pude para obter uma relíquia da angélica padroeira da minha Madre querida a fim de lhe trazer, mas foi-nos possível conseguir apenas uma pedrinha vermelha que se desprendeu de um rico mosaico cuja origem remonta ao tempo de santa Inês e que ela deve ter olhado muitas vezes. Não era delicado por parte da santa dar-nos, ela própria, o que procurávamos e que nos era proibido pegar?... Sempre considerei o facto como uma delicadeza e uma prova do amor com que a doce santa Inês olha e protege minha querida Madre!...

Seis dias se foram em visitas às principais maravilhas de Roma e, no sétimo, vi a maior de todas: "Leão XIII..." Desejava e temia esse dia, dele dependia minha vocação, pois a resposta que eu devia receber de Sua Excelência não tinha chegado e soubera por uma carta vossas, Madre, que ele não estava mais muito bem-disposto a meu favor. Portanto, minha única tábua de salvação era o Santo Padre... Mas para obter a permissão era preciso pedi-la, era preciso, na frente de todos, ousar falar "ao Papa". Essa ideia fazia-me tremer. Como sofri antes da audiência, só Deus e minha querida Celina o sabem. Nunca me esquecerei da parte que ela tomou em minhas provações. Minha vocação parecia ser dela. (Nosso amor mútuo era notado pelos padres da romaria: uma noite, numa reunião tão numerosa que faltavam lugares, Celina fez-me sentar no seu colo e olhávamo-nos tão gentilmente que um padre exclamou: "Como se amam, ah! nunca essas duas irmãs poderão separar-se!" Sim, amávamo-nos, mas nosso afecto era tão puro e tão forte que a ideia da separação não nos perturbava, pois sentíamos que nada, nem o oceano, poderia afastar uma da outra... Celina via com calma o meu barquinho acostar à margem do Carmelo; resignava-se a ficar o tempo que Deus quisesse no mar turbulento do mundo, certa de chegar um dia à margem desejada...)

Domingo, 20 de Novembro, depois de nos vestirmos segundo o cerimonial do Vaticano (isto é, de preto, com uma mantilha de renda na cabeça), e ter-nos enfeitado com uma grande medalha de Leão XIII amarrada com fita azul e branca, fizemos a nossa entrada no Vaticano, na capela do Soberano Pontífice. Às 8 horas, a nossa emoção foi profunda ao vê-lo entrar, para celebrar a santa Missa... Depois de dar a bênção aos numerosos romeiros reunidos ao seu redor, subiu os degraus do santo altar e mostrou-nos, pela sua piedade digna do Vigário de Jesus, que era verdadeiramente "O Santo Padre". O meu coração batia muito forte e as minhas orações eram muito fervorosas, quando Jesus descia nas mãos do seu Pontífice, e eu estava muito confiante. O Evangelho desse dia continha essas palavras animadoras: "Não tenhais receio, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o seu reino". Eu não receava, esperava que o reino do Carmelo fosse meu em breve. Não pensava então nessas outras palavras de Jesus: "Preparo para vós, como o Pai preparou para ruim, um reino". Isto é, reservo para vós cruzes e provações; assim é que sereis dignos de possuir esse reino pelo qual ansiais. Por ter sido necessário o Cristo sofrer para entrar na sua glória, se desejais ter lugar ao lado Dele, bebei do cálice que Ele bebeu!... Esse cálice foi-me apresentado pelo Santo Padre e minhas lágrimas misturaram-se à bebida que me era oferecida. Depois da missa de acção de graças que se seguiu à de Sua Santidade, a audiência começou. Leão XIII estava sentado numa grande poltrona, vestido simplesmente da batina branca, camilha da mesma cor e solidéu. Ao redor dele estavam cardeais, arcebispos, bispos, mas só os vi vagamente, estando ocupada com o Santo Padre. Desfilávamos diante dele, cada romeiro se ajoelhava, beijava o pé e a mão de Leão XIII, recebia sua bênção e dois guardas tocavam-o para indicar-lhe que se levantasse (o romeiro, pois explico-me tão mal que se poderia pensar que fosse o Papa). Antes de subir ao apartamento pontifício, eu estava muito resolvida a falar, mas senti minha coragem falhar vendo à direita do Santo Padre "o padre Révérony!..." Quase no mesmo instante, disseram-nos, da parte dele, que proibia falar com Leão XIII, pois a audiência estava-se prolongando demais... Virei-me para minha querida Celina a fim de consultá-la: "Fala", disse-me ela. Um instante depois, eu estava aos pés do Santo Padre. Tendo eu beijado a sua sandália, ele apresentou-me a mão. Em vez de beijá-la, pus as minhas e, levantando para o rosto dele meus olhos banhados em lágrimas, exclamei: "Santíssimo Padre, tenho um grande favor para pedir-vos!..." Então, o Soberano Pontífice" inclinou a cabeça de maneira que meu rosto quase encostou no dele e vi seus olhos pretos e profundos fixarem-se sobre mim e parecer penetrar-me até o fundo da alma. "Santíssimo Padre", disse, "em honra do vosso jubileu, permiti que eu entre no Carmelo aos 15 anos!..."

Manuscrito "A" - Parte V

Sem dúvida, a emoção fez tremer a minha voz e, virando-se para o padre Révérony, que me olhava surpreso e descontente, o Santo Padre disse: "Não compreendo muito bem". Se Deus tivesse permitido, teria sido fácil para o padre Révérony obter para mim o que eu desejava, mas era a cruz e não a consolação que Ele queria dar-me. "Santíssimo Padre", respondeu o vigário-geral, "é uma criança que deseja ingressar no Carmelo aos 15 anos, mas os superiores examinam a questão neste momento." "Então, minha filha", respondeu o Santo Padre, olhando-me com bondade, "fazei o que os superiores vos disserem." Apoiando minhas mãos sobre seus joelhos tentei um último esforço e disse com voz suplicante: "Oh! Santíssimo Padre, se dissésseis sim, todos estariam a favor!..." Ele olhou-me fixamente e pronunciou as seguintes palavras, destacando cada sílaba: "Vamos... Vamos... Entrareis se Deus quiser..." A sua acentuação tinha alguma coisa de tão penetrante e de tão convincente que tenho impressão de ouvi-lo ainda. A bondade do Santo Padre animava-me e eu queria falar mais, mas os dois guardas tocaram-me polidamente para fazer-me levantar. Vendo que isso não era suficiente, seguraram-me pelos braços e o padre Révérony ajudou-os a levantar-me, pois ainda estava com as mãos juntas, apoiadas nos joelhos de Leão XIII, e foi pela força que me arrancaram dos seus pés... No momento em que estava sendo retirada, o Santo Padre colocou a sua mão nos meus lábios e levantou-a para me benzer. Então, os meus olhos encheram-se de lágrimas e o padre Révérony pôde contemplar, pelo menos, tantos diamantes como tinha visto em Bayeux... Os dois guardas carregaram-me, pode dizer-se, até a porta e um terceiro me deu uma medalha de Leão XIII. Celina, que me seguia e havia sido testemunha da cena que acabava de acontecer, quase tão emocionada quanto eu, ainda teve a coragem de pedir ao Santo Padre uma bênção para o Carmelo. O padre Révérony, com voz descontente, respondeu: "O Carmelo já foi abençoado". O bondoso Santo Padre confirmou com doçura: "Oh, sim! já foi abençoado". Antes de nós, papai viera aos pés de Leão XIII, com os homens. O padre Révérony foi gentil com ele, apresentando-o como pai de duas carmelitas. Como sinal de benevolência, o Soberano Pontífice pôs a mão sobre a cabeça venerável do meu Rei querido, parecendo marcá-la com um selo misterioso, em nome Daquele de quem é o verdadeiro representante... Ah! agora que esse Pai de quatro carmelitas está no Céu, não é mais a mão do pontífice que repousa sobre sua fronte, profetizando-lhe o martírio... É a mão do Esposo das Virgens, do Rei de Glória, que faz resplandecer a cabeça de seu Fiel Servo. E, mais do que nunca, essa mão adorada não deixará de repousar na fronte que tem glorificado...

Meu papai querido ficou muito triste ao encontrar-me chorando à saída da audiência, fez tudo o que pôde para me consolar. Mas foi inútil... No fundo do coração, sentia grande paz, pois tinha feito tudo o que me era possível fazer para responder ao que Deus queria de mim; mas essa paz estava no fundo e a amargura enchia minha alma, pois Jesus ficava calado. Parecia-me ausente, nada revelava a presença Dele... Ainda naquele dia, o sol não brilhou e o belo céu azul da Itália, carregado de nuvens escuras, não parou de chorar comigo... Ah! para mim, a viagem tinha acabado. Não comportava mais encantos, pois a finalidade não fora alcançada. Todavia, as últimas palavras do Santo Padre deveriam ter-me consolado: não eram, de facto, verdadeira profecia? Apesar de todos os obstáculos, o que Deus quis cumpriu-se. Não permitiu que as criaturas fizessem o que queriam, mas a vontade Dele... Havia algum tempo oferecera-me ao Menino Jesus para ser seu brinquedinho. Tinha-lhe dito para não me usar como brinquedo caro que as crianças só podem olhar sem ousar tocar, mas como uma bola sem valor que podia jogar no chão, dar pontapés, furar, largar num cantinho ou apertar contra o seu coração conforme achasse melhor; numa palavra, queria divertir o Menino Jesus, agradar-lhe, queria entregar-me a suas manhas de criança... Ele aceitou minha oferta...

Em Roma, Jesus furou seu brinquedinho. Queria ver o que havia dentro e, depois de ver, contente com sua descoberta, deixou cair sua pequena bola e adormeceu... Que fez durante o sono e que foi feito da bola deixada de lado?... Jesus sonhou que continuava brincando com sua bola, deixando-a e retomando-a, e que, depois de deixá-la rolar muito longe, a apertou no seu coração, não permitindo mais que se afastasse de sua mãozinha...

Compreendeis, querida Madre, quanto a pequena bola ficou triste ao ver-se largada... Mas eu não deixava de esperar contra toda a esperança. Alguns dias após a audiência com o Santo Padre, papai foi visitar o bom irmão Simião e lá encontrou o padre Révérony, que se mostrou muito amável. Papai censurou-o, brincando, por não me ter ajudado no meu difícil empreendimento e contou a história da sua Rainha ao irmão Simião. O venerável ancião escutou o relato com muito interesse, tomou notas até, e disse com emoção: "Isso não se vê na Itália!" Creio que essa entrevista causou muito boa impressão no padre Révérony. A partir dela, não deixou mais de me provar estar finalmente convicto da minha vocação.

No dia seguinte ao dia memorável, tivemos de partir cedo para Nápoles e Pompeia. Em nossa honra, o Vesúvio fez-se barulhento o dia todo, trovejando e deixando escapar uma coluna de grossa fumaça. Os vestígios que deixou sobre as ruínas de Pompeia são apavorantes, mostram o poder de Deus: "Ele que com um olhar faz tremer a terra, e a seu toque os montes fumegam..." Teria gostado de andar sozinha no meio das ruínas, sonhar com a fragilidade das coisas humanas, mas o número de visitantes tirava grande parte do encanto melancólico da cidade destruída... Em Nápoles, foi o contrário. O grande número de carros de dois cavalos tornou magnífico nosso passeio ao mosteiro San Martino, situado numa alta colina que domina a cidade. Infelizmente, os cavalos que nos levavam tomavam o freio nos dentes e, mais de uma vez, pensei ver chegar minha última hora. Embora o cocheiro repetisse constantemente a palavra mágica dos condutores italianos: "Appipau, appipau...", os cavalos queriam derrubar o carro. Enfim, graças à ajuda dos nossos anjos da guarda, chegamos ao nosso hotel. Durante toda a viagem fomos alojadas em hotéis principescos, nunca tinha estado cercada de tanto luxo; vem ao caso dizer que a riqueza não traz a felicidade. Pois teria sido mais feliz numa choupana, com a esperança do Carmelo, do que no meio de lambris dourados, escadas de mármore branco, tapetes de seda, e com amargura no coração... Ah! senti-o muito bem: a felicidade não está nos objectos que nos cercam, está no mais íntimo da alma. Pode ser gozada tanto numa prisão como num palácio; a prova é que sou mais feliz no Carmelo, mesmo no meio de provações interiores e exteriores, do que no mundo, cercada pelas comodidades da vida e, sobretudo, pelas doçuras do lar paterno!...

(cont.)




Reflectindo 45


Inferno

O Inferno existe, é uma verdade de fé. Várias descrições têm sido feitas ao longo dos tempos – talvez a mais recente a da Beata Jacinta Marto – sobre visões do Inferno. A imaginação pode levar-nos onde quisermos mas, a verdade, é que o supremo castigo e maior suplício ou pena será a privação de ver a Deus face a face.


(AMA, comentários sobre os Novíssimos - Inferno, 2010.10.18)

05/11/2014

Um tempo de meditação diária

Se és tenaz para assistires diariamente a umas aulas, só porque nelas adquires certos conhecimentos... muito limitados, como é que não tens constância para frequentares o Mestre, sempre desejoso de te ensinar a ciência da vida interior, de sabor e conteúdo eternos? (Sulco, 663)

Que vale o homem, ou o maior galardão do mundo, comparados com Jesus Cristo, que está sempre à tua espera? (Sulco, 664)

Um tempo de meditação diária (união de amizade com Deus) é próprio de pessoas que sabem aproveitar rectamente a sua vida; de cristãos conscientes, coerentes. (Sulco, 665)

Os namorados não sabem dizer adeus; acompanham-se sempre.

Tu e eu amamos assim o Senhor? (Sulco, 666)

Não vês como muitos dos teus colegas sabem demonstrar grande delicadeza e sensibilidade no trato com as pessoas que amam: a namorada, a mulher, os filhos, a família?...


Diz-lhes (e exige-o a ti mesmo!) que o Senhor não merece menos. Que O tratem assim! E recomenda-lhes, além disso, que continuem com essa delicadeza e sensibilidade, mas vividas com Ele e por Ele; e alcançarão uma felicidade nunca sonhada, mesmo já aqui na Terra. (Sulco, 676)

História da Medalha Milagrosa




Temas para meditar - 262



Tolerância – Intolerância 


A Igreja é intolerante nos princípios porque crê; mas é tolerante na prática porque ama.
Os inimigos da Igreja são tolerantes nos princípios porque não crêem  mas são intolerantes na prática porque não amam.




(r. garrigou-lagrange, trad ama

Tratado do verbo encarnado 20

Questão 3: Da união relativamente à pessoa que assumiu

Art. 3 — Se, abstraída a personalidade pelo intelecto, a natureza pode assumir.

O terceiro discute-se assim. — Parece que, abstraída a personalidade pelo intelecto, a natureza não pode assumir.

1. — Pois, como se disse, à natureza convém assumir em razão da pessoa. Ora, o que convém a um ser em razão de outro, separado deste último já não lhe pode convir. Assim, o corpo, visível em razão da cor, não pode ser visto sem esta. Logo, abstraída a personalidade pelo intelecto, a natureza não pode assumir.

2. Demais. — A assunção importa o termo da união, como se disse. Ora, não pode a união fazer-se na natureza, mas só na pessoa. Logo, abstraída da personalidade, a natureza divina não pode assumir.

3. Demais. — Na primeira parte disse-se que, abstraída a personalidade, nada resta. Ora, o que assume é uma realidade. Logo, abstraída a personalidade, a natureza divina não pode assumir.

Mas, em contrário, em Deus, a personalidade é considerada uma propriedade natural, e é tríplice, a saber: a paternidade, a filiação e a processão, como se disse na Primeira Parte. Ora, afastadas essas propriedades naturais pelo intelecto, ainda resta a onipotência de Deus, pela qual se fez a Encarnação, como o disse o Anjo: Porque a Deus nada é impossível. Logo, parece que, mesmo removida a personalidade, a natureza divina pode assumir.

O intelecto mantém com Deus uma dupla relação. — Primeiro, conhecendo a Deus como ele é. E assim, é impossível circunscrever algo em Deus, de modo que reste além disso outra coisa, pois, tudo o que há em Deus é uma unidade, salva a distinção das Pessoas. Das quais, uma desapareceria com a eliminação de outra, pois, elas distinguem-se só pelas relações, que são necessariamente simultâneas. — De outro modo o intelecto relaciona-se com Deus, não pelo conhecer como ele é, mas conhecendo-o a seu modo, isto é, multiplicada e divididamente o que em Deus é uno. E deste modo, o nosso intelecto pode inteligir a bondade e a sabedoria divina e outros atributos semelhantes, chamados atributos essenciais, sem aí se compreender a paternidade ou a filiação, que se chamam personalidades. E sendo assim, abstraída a personalidade pelo intelecto, podemos ainda inteligir a natureza que assume.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Como o ser de Deus se identifica com o princípio mesmo dele, todo o atribuído a Deus, considerado abstractamente e em si mesmo e separado do mais, será algo de subsistente, e por consequência o será a pessoa, que existe em a natureza intelectual. Assim como, pois, postas as propriedades pessoais em Deus, dissemos serem três as Pessoas, assim, excluídas pelo intelecto as propriedades pessoais, restará na nossa consideração a natureza divina como subsistente e como pessoa. E deste modo, podemos inteligir que assuma a natureza humana, em razão da sua subsistência ou personalidade.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Mesmo circunscritas pelo intelecto as personalidades das três Pessoas, restará no intelecto a personalidade una de Deus, como o entendem os Judeus, e essa pode ser o termo da assunção, assim como dizemos ter ela o seu termo na Pessoa do Verbo.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Abstraída a personalidade pelo intelecto, diz-se que nada resta a modo de resolução. Quase sendo uma coisa o que está sujeito à relação e outra, a própria relação, pois, tudo o considerado em Deus o é como suposto subsistente. Contudo, pode uma predicação feita, de Deus, ser entendida sem outra, não a modo de resolução, mas do modo já dito.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, coment. Leit esp. (História de uma alma)

Tempo comum XXXI Semana

Evangelho: Lc 14 25-33

25 Ia com Ele grande multidão de povo. Jesus, voltando-Se, disse-lhes: 26 «Se alguém vem a Mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs, e até a sua vida, não pode ser Meu discípulo. 27 Quem não leva a sua cruz e não Me segue não pode ser Meu discípulo. 28 Porque qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e ver se tem com que a acabar? 29 Para que, se depois de ter feito as fundações não a puder terminar, não comecem todos os que a virem a troçar dele, dizendo: 30 Este homem começou a edificar e não pôde terminar. 31 Ou qual é o rei que, estando para entrar em guerra contra outro rei, não se assenta primeiro a considerar se com dez mil homens pode ir enfrentar-se com aquele que traz contra ele vinte mil? 32 Doutra maneira, quando o outro ainda está longe, enviando embaixadores, pede-lhe paz. 33 «Assim pois, qualquer de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser Meu discípulo.

Comentário

Há uma condição essencial para seguir Jesus Cristo: segui-lo com entrega total!
Ou seja, não há meio-termo nem tergiversações: ou se O segue ou não!
Daqui que, para o fazer é necessário um desprendimento absoluto de quanto pode ser um entrave a esse ‘seguimento’.
É preciso ser pragmático e coerente avaliar bem como proceder. No fim e ao cabo, o exame de consciência diário, que levará às necessárias correcções de rumo.

(ama, comentário sobre Lc 14, 25-33, 2013.09.08)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte IV

…/2

Pensando agradar a papai, Sua Excelência tentou fazer-me ficar ainda alguns anos junto dele. Ficou um pouco surpreso e edificado vendo-o tomar meu partido, intercedendo para eu obter a permissão de levantar voo aos 15 anos. Porém, tudo foi inútil. Disse que antes de decidir era indispensável uma conversa com o Superior do Carmelo. Nada podia ouvir que me causasse maior aflição, pois conhecia a oposição formal do nosso padre. Sem levar em conta a recomendação do padre Révérony, fiz mais do que mostrar diamantes a Sua Excelência, dei alguns a ele!... Vi que ficou emocionado; pegando-me pelo pescoço, apoiava minha cabeça no ombro dele e fazia-me carícias como nunca, ao que parece, alguém recebera dele. Disse-me que nem tudo estava perdido, que ficava muito contente em eu fazer a viagem a Roma para firmar minha vocação e que em vez de chorar devia alegrar-me. Acrescentou que, na semana seguinte, devendo ir a Lisieux, falaria de mim com o pároco de São Tiago e que, certamente, eu receberia resposta dele na Itália. Compreendi ser inútil insistir mais, aliás nada mais tinha a dizer, tinha esgotado todos os recursos da minha eloquência.
Sua Excelência acompanhou-nos até o jardim. Papai divertiu-o muito quando lhe disse que, para parecer mais velha, eu tinha levantado o meu cabelo. Isso não foi esquecido, pois Sua Excelência não fala da sua "filhinha" sem contar a história dos cabelos... O padre Révérony quis acompanhar-nos até a extremidade do jardim do bispado; disse a papai que nunca vira coisa igual: "Um pai tão disposto a dar sua filha a Deus quanto esta em se oferecer!"
Papai fez-lhe diversas perguntas a respeito da peregrinação, inclusive sobre a maneira de se vestir para o encontro com o Santo Padre. Vejo-o ainda virando-se diante do padre Révérony, perguntando-lhe: "Estou bem assim?..." Dissera também a Sua Excelência que se não me permitisse ingressar no Carmelo eu pediria essa graça ao Soberano Pontífice. Meu Rei querido era muito simples nas suas palavras e nas suas maneiras, mas era tão bonito... tinha uma distinção natural que deve ter agradado muito a Sua Excelência, acostumado a ver-se cercado de pessoas que conhecem todas as regras da etiqueta dos salões, mas não o Rei da França e de Navarra com sua rainhazinha...
Uma vez na rua, as minhas lágrimas brotaram de novo, não tanto por causa da minha dor, mas por ver meu paizinho querido que acabava de fazer uma viagem inútil... Planejara enviar uma resposta festiva ao Carmelo para anunciar a resposta de Sua Excelência, via-se de volta sem resposta... Ah! quanto sofri!... parecia-me que o meu futuro estava abalado para sempre. Mais o tempo passava, mais as coisas ficavam confusas. A minha alma estava mergulhada na amargura, mas na paz, também, pois só procurava a vontade de Deus.
Logo de volta a Lisieux, fui buscar consolo no Carmelo e o encontrei em vós, querida Madre. Oh, não! Nunca esquecerei tudo o que sofrestes por minha causa. Se não receasse profaná-las, servindo-me delas, repetiria as palavras que Jesus dirigia a seus apóstolos, na tarde da sua Paixão: "Vós sois aqueles que permanecestes ao meu lado nas minhas provações"... Minhas bem-amadas irmãs ofereceram-me também doces consolos...
Três dias após a viagem a Bayeux, fazia outra muito maior, à cidade eterna... Ah! que viagem aquela!... Ela sozinha fez-me conhecer mais coisas que longos anos de estudo, mostrou-me a vaidade de tudo o que passa e que tudo é aflição de espírito sob o sol... Mas vi muitas coisas bonitas, contemplei todas as maravilhas da arte e da religião, sobretudo pisei a mesma terra que os santos apóstolos, a terra regada com o sangue dos mártires, e minha alma cresceu em contacto com coisas santas...
Estou muito feliz por ter ido a Roma, mas compreendo as pessoas de fora que pensaram que papai me levara a fazer essa grande viagem a fim de mudar minhas ideias sobre a vida religiosa; de facto, havia com que abalar uma vocação pouco firme.

Não tendo vivido na alta sociedade, Celina e eu encontramo-nos no meio da nobreza que compunha quase exclusivamente a romaria. Ah! longe de nos deslumbrar, todos esses títulos e esses "de" pareceram-nos mera fumaça... De longe, algumas vezes, aquilo impressionara-me, mas de perto vi que "nem tudo que reluz é ouro" e compreendi essa palavra da Imitação: "Não ides atrás dessa sombra que chamam de grande nome, não desejai numerosas relações, nem a amizade particular de homem algum".
Compreendi que a verdadeira grandeza se encontra na alma e não no nome pois, como o disse Isaías: "O Senhor dará outro nome a seus eleitos", e são João diz também: "Ao vencedor darei maná escondido, e dar-lhe-ei uma pedra branca, sobre a qual estará escrito um nome novo, que ninguém conhece, excepto aquele que o recebe". Portanto, é no Céu que conheceremos os nossos títulos de nobreza. Então, cada um receberá de Deus o louvor que merece e quem na terra desejou ser o mais pobre, o mais esquecido por amor a Jesus, será o primeiro, o mais nobre e o mais rico!...
A segunda experiência que fiz diz respeito aos sacerdotes. Não tendo vivido nunca na intimidade deles, não podia compreender a principal finalidade da reforma do Carmelo. Rezar pelos pecadores empolgava-me, mas rezar pelas almas dos padres, que eu acreditava mais puras que o cristal, parecia-me estranho!...
Ah! compreendi a minha vocação na Itália, não era ir buscar longe demais um conhecimento tão útil...
Durante um mês, vivi com muitos padres santos e vi que, se a sua sublime dignidade os eleva acima dos anjos, nem por isso deixam de ser homens frágeis e fracos... Se padres santos, que Jesus denomina no seu Evangelho "sal da terra", mostram em sua conduta que precisam extremamente de orações, o que dizer daqueles que são tíbios? Jesus não disse também: "Se o sal se tornar insípido, com que há de se lhe restituir o sabor"?
Oh Madre! como é bonita a vocação que tem por finalidade conservar o sal destinado às almas! Essa vocação é a do Carmelo, pois a única finalidade das nossas orações e dos nossos sacrifícios é ser apóstolo dos apóstolos, rezando para eles enquanto evangelizam as almas pelas suas palavras e, sobretudo, pelos seus exemplos... Preciso parar, se continuasse a falar sobre este assunto, não acabaria nunca!...
Vou, querida Madre, relatar a minha viagem com alguns pormenores. Perdoai-me se me excedo em minúcias. Não penso antes de escrever e, por causa do pouco tempo que tenho livre, recomeço tantas vezes que meu relato poderá parecer-lhe um pouco enfadonho... O que me consola é pensar que, no Céu, vos falarei das graças que recebi e poderei fazê-lo em termos agradáveis e encantadores... Nada mais haverá para interromper as nossas efusões íntimas e, num único olhar, tereis entendido tudo... Sendo que ainda preciso usar a linguagem da triste terra, vou tentar fazê-lo com a simplicidade de uma criança que conhece o amor da sua mãe!...
A romaria saiu de Paris em 7 de Novembro, mas papai levou-nos a essa cidade alguns dias antes para que pudéssemos visitá-la.
Às três horas de certa manhã, atravessei a cidade de Lisieux ainda adormecida; muitas impressões atravessaram a minha alma naquele momento. Sentia estar dirigindo-me para o desconhecido e que grandes coisas me esperavam lá... Papai estava alegre; quando o trem se pôs a andar, cantou este velho refrão: "Corre, corre, diligência minha; eis-nos na estrada real". Chegamos a Paris antes do meio-dia e começamos a visitar logo. Nosso pobre paizinho cansou-se muito a fim de nos agradar; mas logo tínhamos visto todas as maravilhas da capital. A mim, só uma encantou, foi "Nossa Senhora das Vitórias". Ah! o que senti a seus pés é indescritível... As graças que me concedeu emocionaram-me tão profundamente que as minhas lágrimas expressaram sozinhas a minha felicidade, como no dia da minha primeira comunhão... Fez-me sentir que foi verdadeiramente ela quem me sorrira e curara. Compreendi que velava por mim, que eu era sua filha, portanto só podia atribuir-lhe o nome de "Mamãe", pois parecia-me ainda mais terno que o de mãe... Com que fervor lhe pedi para me proteger sempre e realizar em breve o sonho de esconder-me à sombra do seu manto virginal!... Ah! era um dos meus primeiros desejos de criança... Ao crescer, compreendi que era no Carmelo que me seria possível encontrar, de verdade, o manto de Nossa Senhora, e era para essa montanha fértil que meus desejos todos tendiam...
Invoquei Nossa Senhora das Vitórias para que afastasse de mim tudo o que poderia ter embaçado a minha pureza. Não ignorava que, numa viagem como essa à Itália, se encontrariam muitas coisas capazes de me perturbar, sobretudo porque, desconhecendo o mal, temia descobri-lo; não tendo experimentado que tudo é puro para os puros e que a alma simples e recta não enxerga o mal em lugar nenhum, pois, de facto, o mal só existe nos corações impuros e não nos objectos sensíveis... Pedi também a são José para velar por mim; desde a minha infância, tinha por ele uma devoção que se confundia com meu amor pela Santíssima Virgem. Todo dia rezava a oração: "Ó são José, pai e protector das virgens"; por isso, empreendi sem receio a minha longa viagem, estava tão bem protegida que me parecia impossível ter medo.
Depois de nos consagrarmos ao Sagrado Coração, na basílica de Montmartre saímos de Paris na segunda-feira, dia 7, pela manhã; logo travamos conhecimento com as pessoas da romaria. Eu, costumeiramente tão tímida que nem ousava falar, vi-me completamente livre desse defeito incómodo; surpreendi-me a conversar livremente com todas as grandes damas, os padres e até o bispo de Coutances. Parecia-me ter sempre vivido no meio dessa gente. Creio que éramos queridos de todos, e papai parecia orgulhoso das suas duas filhas. Mas, se ele estava satisfeito connosco, também estávamos com ele, pois no grupo todo não havia senhor mais bonito e mais distinto que meu Rei querido; gostava de ficar cercado por Celina e por mim. Muitas vezes, quando não estávamos num carro e eu me afastava dele, chamava-me para lhe dar o braço como em Lisieux... O padre de Révérony prestava atenção a todas as nossas ações e, muitas vezes, via-o observando-nos de longe. Na mesa, quando eu não estava na frente dele, ele encontrava um meio de se inclinar para me ver e ouvir o que eu dizia. Sem dúvida queria conhecer-me a fim de saber se, de facto, eu era capaz de ser carmelita. Creio que ficou satisfeito com o exame pois, no final da viagem, pareceu bem-disposto a meu favor. Em Roma, porém, estava longe de me ser favorável, segundo vos contarei adiante. Antes de chegar a essa cidade eterna, meta da nossa viagem, foi-nos dado contemplar muitas maravilhas. Primeiro, foi a Suíça, com montanhas cujos cumes se perdem nas nuvens, as cascatas caindo de mil diferentes e graciosas maneiras, os vales profundos cheios de samambaias gigantes e de urzes cor-de-rosa. Ah! Madre querida, como as belezas da natureza distribuídas em profusão fizeram bem à minha alma, como a elevaram para Aquele que se agradou em lançar tamanhas obras-primas numa terra de exílio que deve durar apenas um dia... Não tinha olhos suficientes para contemplar. Em pé na portinhola, quase não respirava. Queria estar, ao mesmo tempo, dos dois lados do vagão, pois ao virar-me via paisagens encantadoras e diferentes das que estavam na minha frente.
Às vezes, estávamos no cume de uma montanha, a nossos pés, precipícios de profundidade inalcançável pelo olhar pareciam querer nos engolir... ou ainda um charmoso e pequeno lugarejo com seus graciosos chalés e seu campanário, por cima do qual balançavam indolentes algumas nuvens resplandecentes de brancura... mais longe, um vasto lago, dourado pelos últimos raios do sol, com ondas calmas e puras a mesclar o tom azulado do Céu aos fogos do crepúsculo, apresentava a nossos olhares maravilhados o mais poético espectáculo que se pode ver... Ao fundo do vasto horizonte, montanhas de formas indecisas, que teriam escapado ao nosso olhar não fossem seus cumes nevados que o sol tornava ofuscantes, acrescentavam um encanto suplementar ao belo lago que nos encantava...
Vendo todas essas belezas, surgiam pensamentos muito profundos em minha alma. Tinha a impressão de já estar compreendendo a grandeza de Deus e as maravilhas do Céu... A vida religiosa apresentava-se a mim tal como é, com as suas submissões, os seus pequenos sacrifícios feitos às ocultas. Compreendia como é fácil ensimesmar-se, esquecer a sublime finalidade da vocação e dizia-me: mais tarde, no momento da provação, quando, prisioneira no Carmelo, só puder contemplar um pequeno canto do Céu estrelado, recordarei o que vejo hoje, esse pensamento me dará coragem, esquecerei facilmente meus pobres e pequenos interesses ao ver a grandeza e o poder de Deus a quem quero amar unicamente. Não terei a infelicidade de apegar-me a palhas, agora que "meu coração pressentiu o que Jesus reserva a quem o ama!..."
Após ter admirado o poder de Deus, pude ainda admirar o poder que deu às suas criaturas. A primeira cidade da Itália que visitamos foi Milão. A sua catedral, inteiramente de mármore branco, com estátuas numerosas para formar um povo incontável, foi examinada por nós em seus mínimos detalhes. Celina e eu éramos intrépidas, sempre as primeiras e seguindo imediatamente Sua Excelência, a fim de ver tudo o que se referia às relíquias dos santos e ouvir as explicações. Assim é que, enquanto celebrava o santo sacrifício sobre o túmulo de são Carlos, estávamos com papai atrás do altar, com a cabeça encostada na urna que contém o corpo do santo revestido dos seus trajes pontificais. Era assim em todo lugar... Excepto quando se tratava de subir onde a dignidade de um bispo não permitia, pois naquelas ocasiões sabíamos afastar-nos de Sua Grandeza... Deixando as senhoras tímidas esconder o rosto nas mãos logo após ter alcançado as primeiras campainhas que coroam a catedral, seguíamos os mais destemidos romeiros e chegávamos até o alto da última campainha de mármore, e tínhamos o prazer de ver a nossos pés a cidade de Milão, cujos numerosos habitantes pareciam formar um pequeno formigueiro... Uma vez tendo descido do nosso pedestal, começamos nossos passeios de carro, que deviam durar um mês e saciar-me para sempre do meu desejo de rodar sem cansaço! O campo santo encantou-nos ainda mais que a catedral. Todas essas estátuas de mármore branco, que um cinzel genial parece ter animado, estão colocadas sobre o vasto campo dos mortos numa espécie de displicência que, para mim, aumenta o encanto... Dá vontade, quase, de consolar os personagens ideais que nos cercam. A sua expressão é tão realista, a sua dor, tão calma e resignada que não há como deixar de reconhecer os pensamentos de imortalidade que devem encher o coração dos artistas quando executam essas obras-primas. Aqui, uma criança joga flores sobre o túmulo de seus pais, parece que o mármore perdeu o seu peso, que as pétalas delicadas deslizam entre os dedos da criança, que o vento já começa a dispersá-las, a fazer flutuar o véu leve das viúvas e as fitas que adornam os cabelos das moças. Papai estava tão encantado quanto nós; na Suíça, sentiu cansaço, mas agora sua alegria havia voltado, gozava do belo espectáculo que contemplávamos, a sua alma de artista manifestava-se nas expressões de fé e admiração que se estampavam no seu belo rosto. Um velho senhor (francês), que, sem dúvida, não tinha alma tão poética, olhava-nos de soslaio e dizia mal-humorado, embora parecendo lastimar não ser capaz de partilhar da nossa admiração: "Ah! como os franceses são entusiastas!" Creio que esse pobre senhor teria feito melhor ficando em casa, pois não pareceu gostar da viagem. Encontrava-se frequentemente perto de nós e sempre ficava resmungando. Reclamava dos carros, dos hotéis, das pessoas, das cidades, enfim, de tudo... Com sua habitual grandeza de alma, papai procurava animá-lo, oferecia o seu lugar etc... enfim, achava-se bem em qualquer lugar, sendo de um carácter totalmente oposto ao do seu desagradável vizinho... Ah! quantas pessoas diferentes vimos, como o estudo do mundo se faz interessante quando estamos prestes a deixá-lo!...

(cont.)