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04/11/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo comum XXXI Semana


Evangelho: Lc 14, 25-33

25 Ia com Ele grande multidão de povo. Jesus, voltando-Se, disse-lhes: 26 «Se alguém vem a Mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs, e até a sua vida, não pode ser Meu discípulo. 27 Quem não leva a sua cruz e não Me segue não pode ser Meu discípulo. 28 Porque qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e ver se tem com que a acabar? 29 Para que, se depois de ter feito as fundações não a puder terminar, não comecem todos os que a virem a troçar dele, dizendo: 30 Este homem começou a edificar e não pôde terminar. 31 Ou qual é o rei que, estando para entrar em guerra contra outro rei, não se assenta primeiro a considerar se com dez mil homens pode ir enfrentar-se com aquele que traz contra ele vinte mil? 32 Doutra maneira, quando o outro ainda está longe, enviando embaixadores, pede-lhe paz. 33 «Assim pois, qualquer de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser Meu discípulo.

Comentário:

Não é, de facto, fácil seguir Jesus
Mas, podemos perguntar: é, porventura, fácil fazer algo grande?
Não exige esforço redobrado, perseverança, dedicação e empenho absolutos tanto mais quanto maior for o bem que se persegue?
E haverá algo maior, com mais importância, com prémio mais excelente que seguir Cristo?

(ama, comentário sobre Lc 14, 25-33, 2012.11.07)


Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Temas actuais do cristianismo ([i])

107           
As perguntas anteriores referiram-se ao noivado. O tema que apresento agora refere-se já ao matrimónio. que conselhos daria à mulher casada para que, com o passar dos anos, a sua vida matrimonial continue sendo feliz, sem ceder à monotonia?

Talvez a questão pareça pouco importante, mas na revista recebem-se multas cartas de leitoras interessadas por este tema.

A mim parece-me que, com efeito, é um assunto importante, e por isso o são também as possíveis soluções, apesar da sua aparência modesta. Para que no matrimónio se conserve o encanto do começo, a mulher deve procurar conquistar o seu marido em cada dia, e o mesmo teria que dizer ao marido em relação à mulher. O amor deve ser renovado em cada novo dia, e o amor ganha-se com o sacrifício, com sorrisos e com arte também. Se o marido chega a casa cansado de trabalhar e a mulher começa a falar sem medida, contando-lhe tudo o que lhe parece que correu mal, pode-se surpreender que o marido acabe por perder a paciência? Essas coisas menos agradáveis podem-se deixar para um momento mais oportuno, quando o marido esteja menos cansado, mais bem disposto.

Outro pormenor: o arranjo pessoal. Se outro sacerdote vos dissesse o contrário, penso que seria um mau conselho. À medida que uma pessoa, que deve viver no mundo, vai avançando em idade, mais necessário se torna melhorar não só a vida interior como - precisamente por isso - procurar estar apresentável. Evidentemente, sempre em conformidade com a idade e as circunstâncias. Costumo dizer, por brincadeira, que as fachadas, quanto mais envelhecidas, mais necessidade têm de reparação. É um conselho sacerdotal. Um velho refrão castelhano diz que la mujer compuesta saca al hombre de otra puerta, a mulher arranjada tira o homem de outra porta.

Por isso atrevo-me a afirmar que as mulheres têm a culpa de oitenta por cento das infidelidades dos maridos, porque não sabem conquistá-los em cada dia, não sabem ter pequenas amabilidades e delicadezas. A atenção da mulher casada deve-se centrar no marido e nos filhos. Assim como a do marido se deve centrar na mulher e nos filhos. E para fazer isto bem é preciso tempo e vontade. Tudo o que torne impossível esta tarefa é mau, não está bem.

Não há desculpa para não cumprir esse amável dever. Para já, não é desculpa o trabalho fora do lar, nem sequer a própria vida de piedade, a qual, se não é compatível com as obrigações de cada dia, não é boa, Deus não a quer. A mulher casada tem que se ocupar primeiro do lar. Recordo uma antiga da minha terra, que diz: La mujer que, por la iglesia, / deja el puchero quemar, / tiene la mitad de ángel, / de diablo la otra mitad. - A mulher que, pela igreja, / deixa esturrar a comida, / tem metade de anjo, / de diabo a outra metade. A mim parece-me inteiramente um diabo.

108           
Pondo de parte as dificuldades que possam surgir entre pais e filhos, também são correntes entre marido e mulher desentendimentos, que às vezes chegam a comprometer seriamente a paz familiar. Que conselhos daria aos casais?

Que se amem. Que saibam que ao longo da vida haverá desentendimentos e dificuldades que, resolvidos com naturalidade, contribuirão inclusivamente para tornar o amor mais profundo.

Cada um de nós tem o seu feitio, os seus gostos pessoais, o seu génio - o seu mau génio, por vezes - e os seus defeitos. Cada um tem também coisas agradáveis na sua personalidade e por isso e por muitas mais razões, pode-se amá-lo. A convivência é possível quando todos se empenham em corrigir as próprias deficiências e procuram passar por alto as faltas dos outros, isto é, quando há amor, que anula e supera tudo o que falsamente poderia ser motivo de separação ou de divergência. Pelo contrário, se se dramatizam os pequenos contrastes e mutuamente se começa a lançar à cara os defeitos e os erros, então acaba-se a paz e corre-se o risco de matar o amor.

Os casais têm graça de estado - a graça do sacramento - para viverem todas as virtudes humanas e cristãs da convivência: a compreensão, o bom humor, a paciência, o perdão, a delicadeza no convívio. O que é importante é não se descontrolarem, não se deixarem dominar pelo nervosismo, pelo orgulho ou pelas manias pessoais. Para isso, o marido e a mulher devem crescer em vida interior e aprender da Sagrada Família a viver com delicadeza - por um motivo humano e sobrenatural ao mesmo tempo - as virtudes do lar cristão. Repito: a graça de Deus não lhes falta.

Se alguém diz que não pode aguentar isto ou aquilo, que lhe é impossível calar-se, exagera para se justificar. É preciso pedir a Deus força para saber dominar o próprio capricho, graça para saber ter o domínio de si próprio, porque os perigos de uma zanga são estes: que se perca o controlo e as palavras se encham de amargura e cheguem a ofender e, ainda que talvez não se desejasse, a ferir e a causar mal.

É necessário aprender a calar, a esperar e a dizer as coisas de modo positivo, optimista. Quando ele se zanga, é o momento de ser ela especialmente paciente, até que chegue de novo a serenidade, e vice-versa. Se há afecto sincero e preocupação por aumentá-lo, é muito difícil que os dois se deixem dominar pelo mau humor na mesma altura...

Outra coisa muito importante: devemo-nos acostumar a pensar que nunca temos toda a razão. Pode-se dizer, inclusivamente, que, em assuntos desses, ordinariamente tão opináveis, quanto mais seguros estamos de ter toda a razão, tanto mais certo é que não a temos. Discorrendo deste modo, torna-se depois mais fácil rectificar e, se for preciso, pedir perdão, que é a melhor maneira de acabar com uma zanga. Assim se chega à paz e à ternura. Não vos animo a discutir, mas é natural que discutamos alguma vez com aqueles de quem mais gostamos, porque são os que habitualmente vivem connosco. Não vamos zangar-nos com o Preste João das Índias... Portanto, essas pequenas zangas entre os esposos, se não são frequentes - e é preciso procurar que não o sejam -, não demonstram falta de amor e até podem ajudar a aumentá-lo.

Um último conselho: que nunca se zanguem diante dos filhos. Para consegui-lo, basta que se ponham de acordo com uma palavra determinada, com um olhar, com um gesto. Discutirão depois, com mais serenidade, se não forem capazes de evitá-lo. A paz conjugal deve ser o ambiente da família, porque é condição necessária para uma educação profunda e eficaz. Que os filhos vejam nos seus pais um exemplo de entrega, de amor sincero, de ajuda mútua, de compreensão, e que as ninharias da vida diária não lhes ocultem a realidade de um afecto que é capaz de superar seja o que for.

As vezes tomamo-nos demasiado a sério. Todos nos aborrecemos de quando em quando, umas vezes porque é necessário, outras porque nos falta espírito de mortificação. O que importa é demonstrar que esses aborrecimentos não quebram o afecto, restabelecendo a intimidade familiar com um sorriso. Numa palavra, que marido e mulher vivam amando-se um ao outro e amando os filhos, porque assim amam a Deus.

109           
Passando a um tema muito concreto: acaba de se anunciar a abertura de uma Escola-residência dirigida pela Secção Feminina do Opus Dei em Madrid, que se propõe criar um ambiente de família e proporcionar uma formação completa às empregadas domésticas, qualificando-as na sua profissão. Que influência na sociedade pensa que possa ter este tipo de actividades do Opus Dei?

Essa obra apostólica - há muitas semelhantes, orientadas por associadas do Opus Dei que trabalham juntamente com outras pessoas que não são da nossa Associação - tem como fim principal dignificar a profissão das empregadas domésticas, de modo que possam realizar o seu trabalho com sentido científico. Digo com sentido científico porque é preciso que o trabalho no lar se desenvolva como o que realmente é, como uma verdadeira profissão.

Não se pode esquecer que se pretendeu apresentar esse trabalho como algo de humilhante. Não está certo. Humilhantes, sem dúvida, eram as condições em que muitas vezes se desenvolvia essa tarefa. E humilhantes continuam sendo agora, algumas vezes, porque trabalham segundo o capricho de patrões arbitrários, que não dão garantias de direitos aos que os servem, e também com escassa retribuição económica e sem afecto. É necessário exigir o respeito por um contrato de trabalho adequado, com garantias claras e precisas, e definir nitidamente os direitos e os deveres de cada parte.

É necessário - além de garantias jurídicas - que a pessoa que preste esse serviço esteja capacitada, profissionalmente preparada. Serviço, disse - ainda que hoje a palavra não agrade - porque toda a tarefa social bem feita é isso, um estupendo serviço, tanto o trabalho da empregada doméstica como o do professor ou o do juiz. Só não é serviço o trabalho de quem condiciona tudo ao seu próprio bem-estar.

O trabalho do lar é de primeira importância! Aliás, todos os trabalhos podem ter a mesma qualidade sobrenatural. Não há tarefas grandes ou pequenas; todas são grandes se se fazem por amor. As que são tidas como tarefas de grande importância ficam diminuídas quando se perde o sentido cristão da vida. Pelo contrário, há coisas aparentemente pequenas que podem ser muito grandes pelas consequências reais que tenham.

Para mim, é igualmente importante o trabalho de uma minha filha associada do Opus Dei que é empregada doméstica ou o trabalho de uma minha filha que tem um título nobiliárquico. Nos dois casos, interessa-me só que o trabalho que realizam seja meio e ocasião de santificação pessoal e alheio. E será mais importante o trabalho da pessoa que, na sua própria ocupação e no seu próprio estado, se vá tornando mais santa e cumpra com mais amor a missão recebida de Deus.

Diante de Deus, tem tanta categoria a que é catedrática de uma universidade como a que trabalha como empregada comercial ou como secretária, ou como operária, ou como camponesa. Todas as almas são iguais; mas às vezes são mais formosas as almas das pessoas mais simples, e são sempre mais agradáveis ao Senhor as que tratam com mais intimidade a Deus Pai, a Deus Filho e a Deus Espírito Santo.

Com essa Escola que abriu em Madrid, pode-se fazer muito: uma autêntica e eficaz ajuda à sociedade, numa tarefa importante; e um trabalho cristão no seio do lar, levando às casas alegria, paz, compreensão. Poderia estar a falar horas sobre este tema, mas já é suficiente o que se disse para ver que considero o trabalho no lar como uma profissão de particular transcendência, porque se pode fazer com ele muito mal ou muito bem no próprio âmago das famílias. Esperemos que seja muito bem. Não faltarão pessoas que, com categoria humana, com competência e com afã apostólico, façam dessa profissão uma ocupação alegre, de imensa eficácia em muitos lares do mundo.

110           
Circunstâncias de índole muito diversa, e também exortações e ensinamentos do Magistério da Igreja, criaram e estimularam uma profunda inquietação social. Fala-se muito da virtude da pobreza, como testemunho. Como pode vivê-la uma dona de casa, que deve proporcionar à sua família um justo bem-estar?

Anuncia-se o Evangelho aos pobres (Mat. 11, 5), lemos na Escritura, precisamente como um dos sinais que dão a conhecer a chegada do Reino de Deus. Quem não amar e viver a virtude da pobreza não tem o espírito de Cristo. E isto é válido para todos, tanto para o anacoreta que se retira para o deserto, como para o cristão corrente que vive no meio da sociedade humana, usando dos recursos deste mundo ou carecendo de muitos deles.

Este é um tema no qual me quereria demorar um pouco, porque hoje nem sempre se prega a pobreza de modo a que a sua mensagem chegue à vida. Sem dúvida com boa vontade, mas sem ter captado todo o sentido dos tempos, há quem pregue uma pobreza que é fruto de elucubração intelectual, que tem certos sinais exteriores aparatosos e simultaneamente enormes deficiências interiores e às vezes também externas.

Fazendo-me eco de uma expressão do Profeta lsaías - discite benefacere (1, 17) -, agrada-me dizer que é preciso aprender a viver toda a virtude, e talvez a pobreza muito especialmente. É necessário aprender a vivê-la para que não fique reduzida a um ideal sobre o qual se pode escrever muito, mas que ninguém realiza seriamente. É preciso fazer ver que a pobreza é um convite que o Senhor dirige a cada cristão e que é - portanto - chamada concreta que deve moldar toda a vida da humanidade.

Pobreza não é miséria, e muito menos sujidade. Em primeiro lugar, porque o que define o cristão não são, tanto as condições exteriores da sua existência, mas a atitude do seu coração. Mais ainda, e aqui aproximamo-nos de um ponto muito importante, do qual depende uma recta compreensão da vocação laical, porque a pobreza não se define pela simples renúncia. Em determinadas ocasiões, o testemunho de pobreza que se pede aos cristãos pode ser o de abandonar tudo, ou de se enfrentar com um ambiente que não tem outros horizontes senão os do bem-estar material, e proclamar assim, com um gesto aparatoso, que nada é bom quando o preferirmos a Deus. Mas, é esse o testemunho que a Igreja pede hoje ordinariamente? Não é certo que também exige que se dê testemunho explícito de amor ao mundo, de solidariedade com os homens?

Reflecte-se às vezes sobre a pobreza cristã, tendo como principal ponto de referência os religiosos, dos quais é próprio dar sempre e em toda a parte um testemunho público, oficial, e corre-se o risco de não reparar no carácter específico de um testemunho laical, dado a partir de dentro, com a simplicidade do quotidiano.

Todo o cristão corrente tem que tornar compatíveis na sua vida dois aspectos que, à primeira vista, podem parecer contraditórios: pobreza real, que se note e que se toque - feita de coisas concretas - que seja uma profissão de fé em Deus, uma manifestação que o coração não se satisfaz com coisas criadas, mas aspira ao Criador, que deseja encher-se do amor de Deus e depois dar a todos desse mesmo amor; e, ao mesmo tempo, ser mais um entre os seus irmãos os homens, de cuja vida participa, com quem se alegra, com quem colabora, amando o mundo e todas as coisas criadas para resolver os problemas da vida humana e para estabelecer o ambiente espiritual e material que facilite o desenvolvimento das pessoas e das comunidades.

Conseguir a síntese entre esses dois aspectos é - em boa parte - questão pessoal, questão de vida interior, para julgar em cada momento, para encontrar em cada caso o que Deus nos pede. Não quero, pois, dar regras fixas, mas sim orientações gerais, referindo-me especialmente às mães de família.

111           
Sacrifício: eis aí, em grande parte, a realidade da pobreza. Pobreza é saber prescindir do supérfluo, medido não tanto por regras teóricas como segundo essa voz interior que nos adverte de que se está infiltrando o egoísmo ou a comodidade desnecessária. Conforto, em sentido positivo, não é luxo nem voluptuosidade, mas tornar a vida agradável à própria família e aos outros, para que todos possam servir melhor a Deus.

Pobreza é o verdadeiro desprendimento das coisas terrenas, é levar com alegria as incomodidades, se as há, ou a falta de meios. É, além, disso, saber ter todo o dia tomado com um horário elástico no qual não falte como tempo principal - além das normas diárias de piedade - o devido descanso, a reunião familiar, a leitura, o tempo dedicado a um gosto artístico, à leitura ou a outra distracção nobre, enchendo as horas com uma actividade útil, fazendo as coisas o melhor possível, vivendo os pormenores de ordem, de pontualidade, de bom humor. Numa palavra, encontrando ocasião para o serviço dos outros e para si mesmo, sem esquecer que todos os homens, todas as mulheres, - e não só os materialmente pobres - têm obrigação de trabalhar. A riqueza, a situação de desafogo económico é um sinal de que se tem mais obrigação de sentir a responsabilidade pela sociedade inteira.

O amor é que dá sentido ao sacrifício. Toda a mãe sabe bem o que é sacrificar-se pelos seus filhos. O sacrifício não está só em conceder-lhes umas horas, mas em gastar toda a vida em seu benefício. Viver pensando nos outros, usar as coisas de tal maneira que haja algo para oferecer aos outros, tudo isso são dimensões da pobreza que garantem o desprendimento efectivo.

Para uma mãe, é importante não só viver assim, como também ensinar os filhos a viverem assim: educá-los, fomentando neles a fé, a esperança optimista e a caridade; ensiná-los a superar o egoísmo e a empregar com generosidade parte do seu tempo ao serviço dos menos afortunados, participando em ocupações adequadas à sua idade, nas quais se manifeste um anseio de solidariedade humana e divina.

Resumindo: que cada um viva cumprindo a sua vocação. Para mim, foram sempre o melhor exemplo de pobreza esses pais e essas mães de família numerosa e pobre que se sacrificam pelos seus filhos e que, com o seu esforço e constância - muitas vezes sem uma palavra para dizer a alguém que passam necessidades - mantêm os seus, criando um lar alegre em que todos aprendem a amar, a servir, a trabalhar.

(cont)





[i] Entrevista realizada por Pilar Salcedo, publicada em Telva (Madrid), em 1 de Fevereiro de 1968 e reproduzida em Mundo Cristiano (Madrid) em 1 de Março do mesmo ano.

05/11/2014

Evangelho diário, coment. Leit esp. (História de uma alma)

Tempo comum XXXI Semana

Evangelho: Lc 14 25-33

25 Ia com Ele grande multidão de povo. Jesus, voltando-Se, disse-lhes: 26 «Se alguém vem a Mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs, e até a sua vida, não pode ser Meu discípulo. 27 Quem não leva a sua cruz e não Me segue não pode ser Meu discípulo. 28 Porque qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e ver se tem com que a acabar? 29 Para que, se depois de ter feito as fundações não a puder terminar, não comecem todos os que a virem a troçar dele, dizendo: 30 Este homem começou a edificar e não pôde terminar. 31 Ou qual é o rei que, estando para entrar em guerra contra outro rei, não se assenta primeiro a considerar se com dez mil homens pode ir enfrentar-se com aquele que traz contra ele vinte mil? 32 Doutra maneira, quando o outro ainda está longe, enviando embaixadores, pede-lhe paz. 33 «Assim pois, qualquer de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser Meu discípulo.

Comentário

Há uma condição essencial para seguir Jesus Cristo: segui-lo com entrega total!
Ou seja, não há meio-termo nem tergiversações: ou se O segue ou não!
Daqui que, para o fazer é necessário um desprendimento absoluto de quanto pode ser um entrave a esse ‘seguimento’.
É preciso ser pragmático e coerente avaliar bem como proceder. No fim e ao cabo, o exame de consciência diário, que levará às necessárias correcções de rumo.

(ama, comentário sobre Lc 14, 25-33, 2013.09.08)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte IV

…/2

Pensando agradar a papai, Sua Excelência tentou fazer-me ficar ainda alguns anos junto dele. Ficou um pouco surpreso e edificado vendo-o tomar meu partido, intercedendo para eu obter a permissão de levantar voo aos 15 anos. Porém, tudo foi inútil. Disse que antes de decidir era indispensável uma conversa com o Superior do Carmelo. Nada podia ouvir que me causasse maior aflição, pois conhecia a oposição formal do nosso padre. Sem levar em conta a recomendação do padre Révérony, fiz mais do que mostrar diamantes a Sua Excelência, dei alguns a ele!... Vi que ficou emocionado; pegando-me pelo pescoço, apoiava minha cabeça no ombro dele e fazia-me carícias como nunca, ao que parece, alguém recebera dele. Disse-me que nem tudo estava perdido, que ficava muito contente em eu fazer a viagem a Roma para firmar minha vocação e que em vez de chorar devia alegrar-me. Acrescentou que, na semana seguinte, devendo ir a Lisieux, falaria de mim com o pároco de São Tiago e que, certamente, eu receberia resposta dele na Itália. Compreendi ser inútil insistir mais, aliás nada mais tinha a dizer, tinha esgotado todos os recursos da minha eloquência.
Sua Excelência acompanhou-nos até o jardim. Papai divertiu-o muito quando lhe disse que, para parecer mais velha, eu tinha levantado o meu cabelo. Isso não foi esquecido, pois Sua Excelência não fala da sua "filhinha" sem contar a história dos cabelos... O padre Révérony quis acompanhar-nos até a extremidade do jardim do bispado; disse a papai que nunca vira coisa igual: "Um pai tão disposto a dar sua filha a Deus quanto esta em se oferecer!"
Papai fez-lhe diversas perguntas a respeito da peregrinação, inclusive sobre a maneira de se vestir para o encontro com o Santo Padre. Vejo-o ainda virando-se diante do padre Révérony, perguntando-lhe: "Estou bem assim?..." Dissera também a Sua Excelência que se não me permitisse ingressar no Carmelo eu pediria essa graça ao Soberano Pontífice. Meu Rei querido era muito simples nas suas palavras e nas suas maneiras, mas era tão bonito... tinha uma distinção natural que deve ter agradado muito a Sua Excelência, acostumado a ver-se cercado de pessoas que conhecem todas as regras da etiqueta dos salões, mas não o Rei da França e de Navarra com sua rainhazinha...
Uma vez na rua, as minhas lágrimas brotaram de novo, não tanto por causa da minha dor, mas por ver meu paizinho querido que acabava de fazer uma viagem inútil... Planejara enviar uma resposta festiva ao Carmelo para anunciar a resposta de Sua Excelência, via-se de volta sem resposta... Ah! quanto sofri!... parecia-me que o meu futuro estava abalado para sempre. Mais o tempo passava, mais as coisas ficavam confusas. A minha alma estava mergulhada na amargura, mas na paz, também, pois só procurava a vontade de Deus.
Logo de volta a Lisieux, fui buscar consolo no Carmelo e o encontrei em vós, querida Madre. Oh, não! Nunca esquecerei tudo o que sofrestes por minha causa. Se não receasse profaná-las, servindo-me delas, repetiria as palavras que Jesus dirigia a seus apóstolos, na tarde da sua Paixão: "Vós sois aqueles que permanecestes ao meu lado nas minhas provações"... Minhas bem-amadas irmãs ofereceram-me também doces consolos...
Três dias após a viagem a Bayeux, fazia outra muito maior, à cidade eterna... Ah! que viagem aquela!... Ela sozinha fez-me conhecer mais coisas que longos anos de estudo, mostrou-me a vaidade de tudo o que passa e que tudo é aflição de espírito sob o sol... Mas vi muitas coisas bonitas, contemplei todas as maravilhas da arte e da religião, sobretudo pisei a mesma terra que os santos apóstolos, a terra regada com o sangue dos mártires, e minha alma cresceu em contacto com coisas santas...
Estou muito feliz por ter ido a Roma, mas compreendo as pessoas de fora que pensaram que papai me levara a fazer essa grande viagem a fim de mudar minhas ideias sobre a vida religiosa; de facto, havia com que abalar uma vocação pouco firme.

Não tendo vivido na alta sociedade, Celina e eu encontramo-nos no meio da nobreza que compunha quase exclusivamente a romaria. Ah! longe de nos deslumbrar, todos esses títulos e esses "de" pareceram-nos mera fumaça... De longe, algumas vezes, aquilo impressionara-me, mas de perto vi que "nem tudo que reluz é ouro" e compreendi essa palavra da Imitação: "Não ides atrás dessa sombra que chamam de grande nome, não desejai numerosas relações, nem a amizade particular de homem algum".
Compreendi que a verdadeira grandeza se encontra na alma e não no nome pois, como o disse Isaías: "O Senhor dará outro nome a seus eleitos", e são João diz também: "Ao vencedor darei maná escondido, e dar-lhe-ei uma pedra branca, sobre a qual estará escrito um nome novo, que ninguém conhece, excepto aquele que o recebe". Portanto, é no Céu que conheceremos os nossos títulos de nobreza. Então, cada um receberá de Deus o louvor que merece e quem na terra desejou ser o mais pobre, o mais esquecido por amor a Jesus, será o primeiro, o mais nobre e o mais rico!...
A segunda experiência que fiz diz respeito aos sacerdotes. Não tendo vivido nunca na intimidade deles, não podia compreender a principal finalidade da reforma do Carmelo. Rezar pelos pecadores empolgava-me, mas rezar pelas almas dos padres, que eu acreditava mais puras que o cristal, parecia-me estranho!...
Ah! compreendi a minha vocação na Itália, não era ir buscar longe demais um conhecimento tão útil...
Durante um mês, vivi com muitos padres santos e vi que, se a sua sublime dignidade os eleva acima dos anjos, nem por isso deixam de ser homens frágeis e fracos... Se padres santos, que Jesus denomina no seu Evangelho "sal da terra", mostram em sua conduta que precisam extremamente de orações, o que dizer daqueles que são tíbios? Jesus não disse também: "Se o sal se tornar insípido, com que há de se lhe restituir o sabor"?
Oh Madre! como é bonita a vocação que tem por finalidade conservar o sal destinado às almas! Essa vocação é a do Carmelo, pois a única finalidade das nossas orações e dos nossos sacrifícios é ser apóstolo dos apóstolos, rezando para eles enquanto evangelizam as almas pelas suas palavras e, sobretudo, pelos seus exemplos... Preciso parar, se continuasse a falar sobre este assunto, não acabaria nunca!...
Vou, querida Madre, relatar a minha viagem com alguns pormenores. Perdoai-me se me excedo em minúcias. Não penso antes de escrever e, por causa do pouco tempo que tenho livre, recomeço tantas vezes que meu relato poderá parecer-lhe um pouco enfadonho... O que me consola é pensar que, no Céu, vos falarei das graças que recebi e poderei fazê-lo em termos agradáveis e encantadores... Nada mais haverá para interromper as nossas efusões íntimas e, num único olhar, tereis entendido tudo... Sendo que ainda preciso usar a linguagem da triste terra, vou tentar fazê-lo com a simplicidade de uma criança que conhece o amor da sua mãe!...
A romaria saiu de Paris em 7 de Novembro, mas papai levou-nos a essa cidade alguns dias antes para que pudéssemos visitá-la.
Às três horas de certa manhã, atravessei a cidade de Lisieux ainda adormecida; muitas impressões atravessaram a minha alma naquele momento. Sentia estar dirigindo-me para o desconhecido e que grandes coisas me esperavam lá... Papai estava alegre; quando o trem se pôs a andar, cantou este velho refrão: "Corre, corre, diligência minha; eis-nos na estrada real". Chegamos a Paris antes do meio-dia e começamos a visitar logo. Nosso pobre paizinho cansou-se muito a fim de nos agradar; mas logo tínhamos visto todas as maravilhas da capital. A mim, só uma encantou, foi "Nossa Senhora das Vitórias". Ah! o que senti a seus pés é indescritível... As graças que me concedeu emocionaram-me tão profundamente que as minhas lágrimas expressaram sozinhas a minha felicidade, como no dia da minha primeira comunhão... Fez-me sentir que foi verdadeiramente ela quem me sorrira e curara. Compreendi que velava por mim, que eu era sua filha, portanto só podia atribuir-lhe o nome de "Mamãe", pois parecia-me ainda mais terno que o de mãe... Com que fervor lhe pedi para me proteger sempre e realizar em breve o sonho de esconder-me à sombra do seu manto virginal!... Ah! era um dos meus primeiros desejos de criança... Ao crescer, compreendi que era no Carmelo que me seria possível encontrar, de verdade, o manto de Nossa Senhora, e era para essa montanha fértil que meus desejos todos tendiam...
Invoquei Nossa Senhora das Vitórias para que afastasse de mim tudo o que poderia ter embaçado a minha pureza. Não ignorava que, numa viagem como essa à Itália, se encontrariam muitas coisas capazes de me perturbar, sobretudo porque, desconhecendo o mal, temia descobri-lo; não tendo experimentado que tudo é puro para os puros e que a alma simples e recta não enxerga o mal em lugar nenhum, pois, de facto, o mal só existe nos corações impuros e não nos objectos sensíveis... Pedi também a são José para velar por mim; desde a minha infância, tinha por ele uma devoção que se confundia com meu amor pela Santíssima Virgem. Todo dia rezava a oração: "Ó são José, pai e protector das virgens"; por isso, empreendi sem receio a minha longa viagem, estava tão bem protegida que me parecia impossível ter medo.
Depois de nos consagrarmos ao Sagrado Coração, na basílica de Montmartre saímos de Paris na segunda-feira, dia 7, pela manhã; logo travamos conhecimento com as pessoas da romaria. Eu, costumeiramente tão tímida que nem ousava falar, vi-me completamente livre desse defeito incómodo; surpreendi-me a conversar livremente com todas as grandes damas, os padres e até o bispo de Coutances. Parecia-me ter sempre vivido no meio dessa gente. Creio que éramos queridos de todos, e papai parecia orgulhoso das suas duas filhas. Mas, se ele estava satisfeito connosco, também estávamos com ele, pois no grupo todo não havia senhor mais bonito e mais distinto que meu Rei querido; gostava de ficar cercado por Celina e por mim. Muitas vezes, quando não estávamos num carro e eu me afastava dele, chamava-me para lhe dar o braço como em Lisieux... O padre de Révérony prestava atenção a todas as nossas ações e, muitas vezes, via-o observando-nos de longe. Na mesa, quando eu não estava na frente dele, ele encontrava um meio de se inclinar para me ver e ouvir o que eu dizia. Sem dúvida queria conhecer-me a fim de saber se, de facto, eu era capaz de ser carmelita. Creio que ficou satisfeito com o exame pois, no final da viagem, pareceu bem-disposto a meu favor. Em Roma, porém, estava longe de me ser favorável, segundo vos contarei adiante. Antes de chegar a essa cidade eterna, meta da nossa viagem, foi-nos dado contemplar muitas maravilhas. Primeiro, foi a Suíça, com montanhas cujos cumes se perdem nas nuvens, as cascatas caindo de mil diferentes e graciosas maneiras, os vales profundos cheios de samambaias gigantes e de urzes cor-de-rosa. Ah! Madre querida, como as belezas da natureza distribuídas em profusão fizeram bem à minha alma, como a elevaram para Aquele que se agradou em lançar tamanhas obras-primas numa terra de exílio que deve durar apenas um dia... Não tinha olhos suficientes para contemplar. Em pé na portinhola, quase não respirava. Queria estar, ao mesmo tempo, dos dois lados do vagão, pois ao virar-me via paisagens encantadoras e diferentes das que estavam na minha frente.
Às vezes, estávamos no cume de uma montanha, a nossos pés, precipícios de profundidade inalcançável pelo olhar pareciam querer nos engolir... ou ainda um charmoso e pequeno lugarejo com seus graciosos chalés e seu campanário, por cima do qual balançavam indolentes algumas nuvens resplandecentes de brancura... mais longe, um vasto lago, dourado pelos últimos raios do sol, com ondas calmas e puras a mesclar o tom azulado do Céu aos fogos do crepúsculo, apresentava a nossos olhares maravilhados o mais poético espectáculo que se pode ver... Ao fundo do vasto horizonte, montanhas de formas indecisas, que teriam escapado ao nosso olhar não fossem seus cumes nevados que o sol tornava ofuscantes, acrescentavam um encanto suplementar ao belo lago que nos encantava...
Vendo todas essas belezas, surgiam pensamentos muito profundos em minha alma. Tinha a impressão de já estar compreendendo a grandeza de Deus e as maravilhas do Céu... A vida religiosa apresentava-se a mim tal como é, com as suas submissões, os seus pequenos sacrifícios feitos às ocultas. Compreendia como é fácil ensimesmar-se, esquecer a sublime finalidade da vocação e dizia-me: mais tarde, no momento da provação, quando, prisioneira no Carmelo, só puder contemplar um pequeno canto do Céu estrelado, recordarei o que vejo hoje, esse pensamento me dará coragem, esquecerei facilmente meus pobres e pequenos interesses ao ver a grandeza e o poder de Deus a quem quero amar unicamente. Não terei a infelicidade de apegar-me a palhas, agora que "meu coração pressentiu o que Jesus reserva a quem o ama!..."
Após ter admirado o poder de Deus, pude ainda admirar o poder que deu às suas criaturas. A primeira cidade da Itália que visitamos foi Milão. A sua catedral, inteiramente de mármore branco, com estátuas numerosas para formar um povo incontável, foi examinada por nós em seus mínimos detalhes. Celina e eu éramos intrépidas, sempre as primeiras e seguindo imediatamente Sua Excelência, a fim de ver tudo o que se referia às relíquias dos santos e ouvir as explicações. Assim é que, enquanto celebrava o santo sacrifício sobre o túmulo de são Carlos, estávamos com papai atrás do altar, com a cabeça encostada na urna que contém o corpo do santo revestido dos seus trajes pontificais. Era assim em todo lugar... Excepto quando se tratava de subir onde a dignidade de um bispo não permitia, pois naquelas ocasiões sabíamos afastar-nos de Sua Grandeza... Deixando as senhoras tímidas esconder o rosto nas mãos logo após ter alcançado as primeiras campainhas que coroam a catedral, seguíamos os mais destemidos romeiros e chegávamos até o alto da última campainha de mármore, e tínhamos o prazer de ver a nossos pés a cidade de Milão, cujos numerosos habitantes pareciam formar um pequeno formigueiro... Uma vez tendo descido do nosso pedestal, começamos nossos passeios de carro, que deviam durar um mês e saciar-me para sempre do meu desejo de rodar sem cansaço! O campo santo encantou-nos ainda mais que a catedral. Todas essas estátuas de mármore branco, que um cinzel genial parece ter animado, estão colocadas sobre o vasto campo dos mortos numa espécie de displicência que, para mim, aumenta o encanto... Dá vontade, quase, de consolar os personagens ideais que nos cercam. A sua expressão é tão realista, a sua dor, tão calma e resignada que não há como deixar de reconhecer os pensamentos de imortalidade que devem encher o coração dos artistas quando executam essas obras-primas. Aqui, uma criança joga flores sobre o túmulo de seus pais, parece que o mármore perdeu o seu peso, que as pétalas delicadas deslizam entre os dedos da criança, que o vento já começa a dispersá-las, a fazer flutuar o véu leve das viúvas e as fitas que adornam os cabelos das moças. Papai estava tão encantado quanto nós; na Suíça, sentiu cansaço, mas agora sua alegria havia voltado, gozava do belo espectáculo que contemplávamos, a sua alma de artista manifestava-se nas expressões de fé e admiração que se estampavam no seu belo rosto. Um velho senhor (francês), que, sem dúvida, não tinha alma tão poética, olhava-nos de soslaio e dizia mal-humorado, embora parecendo lastimar não ser capaz de partilhar da nossa admiração: "Ah! como os franceses são entusiastas!" Creio que esse pobre senhor teria feito melhor ficando em casa, pois não pareceu gostar da viagem. Encontrava-se frequentemente perto de nós e sempre ficava resmungando. Reclamava dos carros, dos hotéis, das pessoas, das cidades, enfim, de tudo... Com sua habitual grandeza de alma, papai procurava animá-lo, oferecia o seu lugar etc... enfim, achava-se bem em qualquer lugar, sendo de um carácter totalmente oposto ao do seu desagradável vizinho... Ah! quantas pessoas diferentes vimos, como o estudo do mundo se faz interessante quando estamos prestes a deixá-lo!...

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