30/04/2014

Evangelho do dia, comentário e Leitura espiritual (Humildade)

Tempo de Páscoa

II Semana 


Vd santos do dia (nesta página)

Evangelho: Jo 3, 16-21

16 «Porque Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu Seu Filho Unigénito, para que todo aquele que crê n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. 17 Porque Deus não enviou Seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. 18 Quem n'Ele acredita, não é condenado, mas quem não acredita, já está condenado, porque não acredita no nome do Filho Unigénito de Deus. 19 A condenação é por isto: A luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. 20 Porque todo aquele que faz o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de que não sejam reprovadas as suas obras; 21 mas aquele que procede segundo a verdade, chega-se para a luz, a fim de que seja manifesto que as suas obras são feitas segundo Deus».

Comentário:

Deve ser tão triste viver sem luz!

E perigoso!

Triste porque, sem luz não vemos por onde vamos e não podemos ser vistos. Ficamos assim, erráticos e sozinhos.

Perigoso, porque muito dificilmente evitaremos obstáculos perigosos ou precipícios mortais.

Sem luz ficamos nas trevas e, nas trevas não há vida!

(ama, comentário sobre Jo 3, 16-21, 2012.03.18)

Leitura espiritual




Temas para leitura espiritual




Humildade

A humildade mantém a direção da intencionalidade pessoal de fundo para o valor e para o amor, sem o qual até o que aparentemente é virtude pode não o ser na realidade.

1. A humildade como virtude moral

As virtudes morais são hábitos que gravam firmemente, na pessoa que as possui, os critérios reguladores das tendências humanas, de modo que os impulsos e os atos que procedem delas, nem excedam nem fiquem abaixo da medida requerida para o bem próprio e o bem dos outros. Como a sobriedade regula a tendência para a alimentação, e a castidade modera a tendência sexual, a humildade regula duas importantes tendências do indivíduo: a necessidade de reconhecimento e de estima dos outros, e o sentimento do próprio valor (autoestima) 1. São duas tendências que fazem parte da condição humana: existem em todo o ser humano, e não se podem nem devem suprimir-se, como também não é possível eliminar a alimentação e a tendência sexual. A sua real educação é extremamente importante para preservar o equilíbrio e o crescimento moral pessoal e, indiretamente, a boa ordem das relações interpessoais, pois as injustiças, a violência, os fracassos matrimoniais e os conflitos no campo profissional, para citar só alguns exemplos, são frequentemente consequência do orgulho, da suscetibilidade, ou do rancor. Também nas relações do homem com Deus a humildade desempenha um papel importante: a vida espiritual pressupõe uma ideia adequada da posição que o homem tem perante Deus.

A humildade tem sido muitas vezes mal interpretada e até considerada uma qualidade negativa e desprezível, própria de moral de escravos, ou o resultado do ressentimento dos fracos. Que alguém queira fazer passar por humildade formas falsas de compensar debilidades e desequilíbrios, é de facto perfeitamente possível, como é possível que se pretendam disfarçar comportamentos viciosos sob o nome de qualquer outra virtude (a prepotência pode dissimular-se sob o aspeto da dignidade ou da justiça e a cobardia como bondade, etc.). Mas isso, nada tem a ver com la humildade que responde à inegável necessidade de regular e educar duas tendências fundamentais que tem todo o ser humano.

2. Importância e tarefas da humildade

É possível investigar, historicamente e também a partir da análise teórica, qual tem sido a situação da humildade fora do cristianismo. Na antiguidade pagã a humildade era mais vista como um vício que como uma virtude, embora haja algumas exceções. Mas deixando de lado essa questão, é preferível parar para mostrar quais são as suas raízes antropológicas, antes de ver as formas próprias da humildade como virtude cristã.

A regulação ética das duas tendências a que se refere a humildade, consiste em ajustá-las à realidade de cada pessoa, considerando-a em si mesma ou vista no seu ambiente familiar, profissional e social, mas também na sua relação com Deus. Aristóteles assim o vê quando escreve: O que merece e pretende coisas pequenas, é modesto (...). Aquele que, sendo indigno, se julga a si mesmo digno de coisas grandes, é vaidoso (...) O que se julga menos digno do que vale, é pusilânime (fraqueza de ânimo ou cobardia), quer seja muito ou regular o que mereça, ou pouco e creia que merece ainda menos 2. O importante não é aspirar a muito ou a pouco, mas em cada caso ao que é razoável segundo uma apreciação objetiva e serena da realidade, não forçada pela paixão.

A humildade é importante, não tanto por realizar positivamente alguma das dimensões do bem humano, mas porque a ela lhe corresponde proteger as realizações do conhecimento, do amor, do trabalho, etc., de deformações, que podem privá-las do seu verdadeiro valor. O orgulhoso é egocêntrico e dificilmente é capaz de amar verdadeiramente; vê o trabalho profissional apenas como uma forma de autoafirmação, e não como uma modalidade de auto-transcendência que enriquece o mundo e contribui para o bem dos outros

É natural no homem a capacidade de olhar para si mesmo, como se olha para alguém que é portador de um valor. Do ponto de vista evolutivo, a percepção do próprio valor passa através do julgamento que merecemos ante os nossos semelhantes (pais, amigos, etc.). O ser humanos precisa de um certo reconhecimento alheio, e isso reflete a tendência que chamamos necessidade de autoestima. Com o desenvolvimento psicológico e moral, a pessoa, mesmo sem poder, nem dever, ser completamente indiferente às reações que o nosso ser ou o nosso comportamento causam nos outros, adquire uma maturidade de avaliação suficiente para formar uma imagem realista de si mesma e do próprio valor (autoestima), conhecendo as qualidades positivas e negativas, o que se é, e o que se pode chegar a ser. Na medida em que o sentimento do próprio valor depende de um juízo próprio, objetivo e realista, a pessoa pode representar adequadamente as suas relações com os outros (dependência - independência, liberdade - autoridade, etc.).

A deterioração da razoável direção (da humildade) pode afectar as duas tendências mencionadas: a necessidade de estima, quando a pessoa não adquire um distanciamento suficientemente equilibrado do julgamento dos outros; a autoestima quando, mesmo dispondo de suficiente autonomia de julgamento, este baseia-se sobre uma percepção pouco realista do próprio valor, seja por excesso, seja por defeito.

A dependência excessiva do julgamento dos outros dá origem a fenómenos como a ânsia de notoriedade, vaidade, teimosia e rigidez, isolamento, simulação de doença, etc. Todos eles implicam sofrimento para quem o padece, e muitas vezes, também para os outros. O desejo de notoriedade é típico de uma personalidade frágil e imatura que precisa de sentir-se, constantemente, aprovada e elogiada por aqueles que estão à sua volta. Busca satisfazer essa necessidade por todos os meios ao seu alcance: usa os seus bens, e instrumentaliza o seu saber e o seu trabalho, para conseguir o prestígio e a estima pública; ou quer dar que falar, mediante condutas chamativas ou mesmo absurdas; ou busca a aprovação do grupo, aceitando as ideias e os costumes dominantes, embora contrários às suas próprias convicções profundas. Outras vezes opta pela vaidade, ou seja, aparenta o que não é, adotando com esse objetivo comportamentos falsos ou pouco autênticos. Quando tem de trabalhar sob a autoridade de outros, ou em estreita colaboração com eles, chama a atenção sobre si mesmo mediante a teimosia, a intransigência ou a rigidez. Em casos extremos, busca a atenção ou o afeto dos outros, simulando uma doença e estando conscientes da astúcia, ou perdendo até essa consciência (fenómenos do tipo histérico). Quem sofre estas deformações acaba por arruinar as suas relações sociais e a sua sensibilidade ante os valores objetivos. A pessoa está sempre ocupada consigo mesma, porque o seu desordenado desejo de estima é insaciável. No outro extremo, tão pouco seria justo que uma pessoa não fosse suficientemente sensível ante as reações que produz nos outros, o que levaria a contínuas faltas de atenção, de respeito ou de educação.

O segundo problema ocorre quando o sentimento de autoestima depende de uma avaliação autónoma, mas não suficientemente realista. Surgem então os sentimentos, bastante irracionais de inferioridade e insegurança num extremo, ou no outro extremo de orgulho e autossuficiência. A personalidade do orgulhoso é diversa da condicionada pelo afã de notoriedade. Por detrás deste último fenómeno, apesar das aparências, esconde-se uma personalidade frágil e pobre, que frequentemente se tortura com comparações e invejas. O orgulhoso tem por sua vez uma personalidade dura, geradora de conflitos, com frequência agressiva ou violenta: julga tudo e todos (espírito crítico); pensa que tem sempre razão; sente-se superior a tudo e a todos; talvez recompense quem se lhe submete, mas dificilmente ama e se entrega a alguém; e apesar de temido dificilmente pode ser amado. Apenas se admira e respeita a si mesmo: tende para o narcisismo. O orgulhoso é muitas vezes susceptível ou arrogante. Tem conflitos com os outros e com a própria realidade, porque o seu nível de aspirações é superior às suas verdadeiras capacidades. Às vezes, as suas capacidades são realmente elevadas, mas falta-lhe a sabedoria para governar e evitar o que lhe vai subindo à cabeça.

Esta breve descrição mostra a importância da humildade para o equilíbrio e desenvolvimento pessoal, e também a sua dificuldade. A humildade mantém a direção da intencionalidade pessoal de fundo para o valor e para o amor, sem o qual até o que aparentemente é virtude pode não o ser na realidade. A dificuldade da humildade está em que as tendências que regula não se podem suprimir nem dominar com a vontade. Devem ser educadas, ou seja, ajustadas à realidade e abertas à participação, ao serviço e ao amor. Não é possível deixar, completamente, de se olhar a si mesmo, mas pode aprender-se a fazê-lo com uma mistura de realismo e sentido de humor, sobretudo sem que se oculte a percepção do que está fora e do que está por cima de nós, pois nessa dimensão adquire sentido tanto o que somos como o que não somos.

3. A virtude cristã da humildade

Não é possível deter-se no estudo dos muitos aspetos em que a humildade aparece no Antigo Testamento. A ideia predominante está ligada à profissão da fé em Deus, que nas suas intervenções na história dos homens abate os soberbos, enquanto escolhe e resgata os humildes e os que foram humilhados. É a ideia que reaparece no cântico de la Mãe de Jesus: o Senhor olhou para sua pobre serva, manifestou o poder do seu braço, desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes 3, assim como na Primeira Carta de S. Pedro e na de S. Tiago 4. Mas a razão de fundo dos ensinamentos do Novo Testamento sobre a humildade está em que Jesus Cristo andou pelos caminhos da humildade; que Ele mesmo Se propõe como exemplo quando diz: recebei a minha doutrina, porque Eu sou manso e humilde de coração 5, e que S. Pablo ilustra no hino de la Carta aos Filipenses 6. Esta dinâmica de humilhação e exaltação inspira os ensinamentos do Senhor quando convida a não escolher para si os primeiros lugares 7, na parábola do fariseu e do publicano 8, na exortação para sermos como meninos9, em diversos discursos polémicos contra os chefes do povo 10, e na recomendação de servir aos demais e não se deixar servir por eles 11.

O critério, segundo o qual a virtude cristã da humildade regula as tendências humanas de que vimos falando, continua a ser o da verdade. A humildade não tolera a falsidade acerca das próprias qualidades positivas ou negativas. Mas à luz dos ensinamentos do Senhor é possível compreender com maior exactidão qual é a nossa verdadeira posição ante Deus e ante os demais. O cristão está bem consciente de que tudo recebeu gratuitamente de Deus, tanto o ser e a vida, como a justiça e a graça. Com a sua doutrina acerca da justificação, S. Paulo põe em evidência que, vendo as coisas em toda a sua profundidade, não existe em nós nenhuma verdadeira justiça, senão aquela pela qual Deus mesmo nos faz justos por meio de Jesus Cristo. Nada temos que não tenhamos recebido 12. Somente nos podemos gloriar da Cruz de Cristo 13. Quaisquer que sejam as nossas obras, corresponde-nos assumir diante de Deus uma atitude, de profunda adoração e de amorosa gratidão, porque só em virtude da sua gratuita ação salvífica em Cristo podemos ser por Ele aceites. Qualquer atitude presumida e de autossuficiência nos privaria da sua graça e deixar-nos-ia encerrados na nossa pobre miséria. A humildade vem a ser assim a outra face do amor de Deus, a da caridade. O orgulhoso nem ama a Deus, nem consegue receber o amor que Deus lhe dá. Deo omnis gloria: para Deus toda a glória; isso significa que nada temos de bom que não venha de Deus, Verdade e Amor subsistente.

A humildade ensinada pelo Senhor é também o outro lado da caridade para com o próximo. Quem está consciente de ser nada diante da majestade de Deus, evita o orgulho e o desprezo dos outros, sabe compreender os outros, incluindo os seus erros. Somente alguém que pensa que nunca se equivocou, se horroriza com os erros dos outros (se os outros fossem como eu, as coisas não iriam tão mal). A humildade é em todo o caso verdade, verdadeiro conhecimento de si mesmo, e por isso não impede reconhecer as boas qualidades que se possuem, mas leva a não esquecer que foram recebidas de Deus como dons para pôr generosamente ao serviço dos outros. O Senhor condena a falsa humildade de quem esconde o talento recebido 14, que se devia ter feito frutificar ao serviço de Deus e dos demais. Essa fecundidade chega através da direção espiritual, onde o Espirito Santo modela a alma: sicut lutum in manus figuli 15 (como o barro nas mãos do oleiro). Os ensinamentos de S. Paulo acerca dos fortes e dos débeis na fé e na ciência 16 mostram, eloquentemente, que as próprias qualidades e até o bem precioso da legítima liberdade cristã, não se hão-de ver como barreira que nos protege das exigências dos demais, mas como um recurso que se põe gostosamente ao seu serviço. Cristo carregou sobre si o peso dos nossos pecados, entregando a sua vida por nós, e também assim nos deu o exemplo da humildade de coração.

Em termos práticos a humildade tem múltiplas manifestações, que não é possível tratar aqui em detalhe. Sobre elas escreveram coisas de grande valor os Padres da Igreja, os Santos e os que se têm ocupado ao longo da história da teologia espiritual. Para concluir estas reflexões, limitar-nos-emos a reproduzir uma página de S. Josemaria Escrivá, cuja eloquência torna inútil quaisquer comentário. Deixa-me que te recorde, entre outros, alguns sinais evidentes de falta de humildade:

- pensar que o que fazes ou dizes está mais bem feito ou mais bem dito do que o que os outros fazem ou dizem;
- querer levar sempre a tua avante;
- discutir sem razão ou, quando a tens, insistir com teimosia e de maus modos;
- dar a tua opinião sem ta pedirem ou sem a caridade o exigir;
- desprezar o ponto de vista dos outros;
- não encarar todos os teus dons e qualidades como emprestados;
- não reconhecer que és indigno de toda a honra e estima, inclusive da terra que pisas e das coisas que possuis;
- citar-te a ti mesmo como exemplo nas conversas;
- falar mal de ti mesmo, para fazerem bom juízo de ti ou te contradizerem;
- desculpar-te quando te repreendem;
- ocultar ao Director algumas faltas humilhantes, para que não perca o conceito que faz de ti;
- ouvir com complacência quem te louva, ou alegrar-te por terem falado bem de ti;
- doer-te que outros sejam mais estimados do que tu;
- negar-te a desempenhar ofícios inferiores;
- procurar ou desejar singularizar-te;
 - insinuar na conversa palavras de louvor próprio, ou que dão a entender a tua honradez, o teu engenho ou destreza, o teu prestígio profissional...;
 - envergonhar-te por careceres de certos bens... 17.

a. rodríguez luño
2012/03/16

29/04/2014

Morte de Jesus na Cruz

Textos de S. Josemaria sobre o 5º mistério doloroso

Jesus Nazareno, Rei dos Judeus, já tem preparado o trono triunfador. Tu e eu não O vemos contorcer-Se, ao ser pregado; sofrendo tudo quanto se pode sofrer, estende os braços num gesto de Sacerdote Eterno... Os soldados tomam as vestes e fazem quatro partes. – Para não dividirem a túnica, sorteiam-na entre eles para ver a quem caberá. – E assim, uma vez mais, se cumpre a Escritura que diz: Repartiram entre si as Minhas vestes e lançaram sortes sobre elas (Jo XIX, 23 e 24).

Já está no alto. – E, junto de seu Filho, ao pé da Cruz, Santa Maria... e Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. E João, o discípulo que Ele amava, Ecce mater tua! – Aí tens a tua Mãe! Dá-nos a Sua Mãe por Mãe nossa.

Tinham-Lhe oferecido antes vinho misturado com fel, mas, tendo o provado, não o bebeu (Mt XXVII, 34). Agora tem sede... de amor, de almas. Consummatum est. – Tudo está consumado (Jo XIX, 30). Menino pateta, olha: tudo isto..., tudo isto sofreu por ti... e por mim. – Não choras?

Agora crucificam o Senhor e, junto d'Ele, dois ladrões, um à direita e outro à esquerda. Entretanto, Jesus diz:

– Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem (Lc XXIII, 34).

Foi o Amor que levou Jesus ao Calvário. E, já na Cruz, todos os Seus gestos e todas as Suas palavras são de amor, de amor sereno e forte.

Com gesto de Sacerdote Eterno, sem pai nem mãe, sem genealogia (cfr. Heb VII, 3), abre os Seus braços à humanidade inteira.

Juntamente com as marteladas que pregam Jesus, ressoam as palavras proféticas da Escritura Santa: trespassaram as Minhas mãos e os Meus pés, contaram todos os Meus ossos. E eles mesmos olham para Mim e contemplam (SI XXI, 17-18).

– Ó Meu Povo! Que te fiz Eu ou em que te contristei? Responde-Me (Miq VI, 3) !

E nós, despedaçada a alma pela dor, dizemos sinceramente a Jesus: sou Teu e entrego-me a Ti e cravo-me na Cruz gostosamente, sendo, nas encruzilhadas do mundo, uma alma entregue a Ti, à Tua glória, à Redenção, à co-redenção da humanidade inteira
(Via Sacra, 11ª estação)

Tenho ainda a propor-vos uma outra consideração: devemos lutar sem descanso por fazer o bem, precisamente por sabermos que nos é difícil, a nós, homens, decidirmo-nos a sério a exercer a justiça, e é muito o que falta para que a convivência terrena esteja inspirada pelo amor e não pelo ódio ou pela indiferença. Não esqueçamos também que, mesmo que consigamos atingir um estado razoável de distribuição dos bens e uma harmoniosa organização da sociedade, não há-de desaparecer a dor da doença, da incompreensão ou da solidão, a dor da experiência dos nossas próprias limitações.

Em face dessas penas, o cristão só tem uma resposta autêntica, uma resposta definitiva: Cristo na Cruz, Deus que sofre e que morre, Deus que nos entrega o seu Coração, aberto por uma lança, por amor a todos. Nosso Senhor abomina as injustiças e condena quem as comete. Mas, como respeita a liberdade das pessoas, permite que existam. Deus Nosso Senhor não causa a dor das criaturas, mas tolera-a como parte que é – depois do pecado original – da condição humana. E, no entanto, o seu Coração, cheio de amor pelos homens, levou-O a tomar sobre os seus ombros, juntamente com a Cruz, todas essas torturas: o nosso sofrimento, a nossa tristeza, a nossa angústia, a nossa fome e sede de justiça.

A doutrina cristã sobre a dor não é um programa de fáceis consolações. Começa logo por ser uma doutrina de aceitação do sofrimento, inseparável de toda a vida humana. Não vos posso esconder – e com alegria pois sempre preguei e procurei viver a verdade de que, onde está a Cruz está Cristo, o Amor – que a dor apareceu muitas vezes na minha vida; e mais de uma vez tive vontade de chorar. Noutras ocasiões, senti crescer em mim o desgosto pela injustiça e pelo mal. E soube o que era a mágoa de ver que nada podia fazer, que, apesar dos meus desejos e dos meus esforços, não conseguia melhorar aquelas situações iníquas.


Quando vos falo de dor, não vos falo apenas de teorias. Nem me limito a recolher uma experiência de outros, quando vos confirmo que, se sentis, diante da realidade do sofrimento, que a vossa alma vacila algumas vezes, o remédio que tendes é olhar para Cristo. A cena do Calvário proclama a todos que as aflições hão-de ser santificadas, se vivermos unidos à Cruz.

Porque as nossas tribulações, cristãmente vividas, se convertem em reparação, em desagravo, em participação no destino e na vida de Jesus, que voluntariamente experimentou, por amor aos homens, toda a espécie de dores, todo o género de tormentos. Nasceu, viveu e morreu pobre; foi atacado, insultado, difamado, caluniado e condenado injustamente; conheceu a traição e o abandono dos discípulos; experimentou a solidão e as amarguras do suplício e da morte. Ainda agora, Cristo continua a sofrer nos seus membros, na Humanidade inteira que povoa a Terra e da qual Ele é Cabeça e Primogénito e Redentor.

A dor entra nos planos de Deus. Ainda que nos entendê-la, é esta a realidade. Também Jesus, como homem, teve dificuldade em admiti-la: Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice! Não se faça, porém, a minha vontade, mas a tua! . Nesta tensão entre o sofrimento e a aceitação da vontade do Pai, Jesus vai serenamente para a morte, perdoando aos que O crucificaram.


Ora, esta aceitação sobrenatural da dor pressupõe, por outro lado, a maior conquista. Jesus, morrendo na Cruz, venceu a morte. Deus tira da morte a vida. A atitude de um filho de Deus não é a de quem se resigna à sua trágica desventura; é, sim, a satisfação de quem já antegoza a vitória. Em nome desse amor vitorioso de Cristo, nós, os cristãos, devemos lançar-nos por todos os caminhos da Terra, para sermos semeadores de paz e de alegria, com a nossa palavra e nossas obras. Temos de lutar – é uma luta de paz – contra o mal, contra a injustiça, contra o pecado, para proclamarmos assim que a actual condição humana não é a definitiva; o amor de Deus, manifestado no Coração de Cristo, conseguirá o glorioso triunfo espiritual dos homens. (Cristo que passa, 168)

Temas para meditar 90

Castidade


A castidade é exigência de amor. É a dimensão da sua verdade interior no coração do homem.



(joão Paulo II, alocução,1980.12.03) 

Pequena agenda do cristão


Terça-Feira

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)

Propósito: Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me: Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame: Cumpri o propósito que me propus ontem?


Vidas de Santos

SANTA CATARINA DE SENA, virgem e doutora da Igreja

Nota Histórica   

Nasceu em Sena no ano 1347. Movida pelo desejo de perfeição, entrou na Ordem Terceira de S. Domingos quando era ainda adolescente. Inflamada no amor de Deus e do próximo, trabalhou incansavelmente pela paz e concórdia entre as cidades, defendeu com ardor os direitos e a liberdade do Romano Pontífice e promoveu a renovação da vida religiosa. Escreveu importantes obras de espiritualidade, cheias de boa doutrina e de inspiração celeste. Morreu no ano 1380.

Saboreei e vi

Ó Divindade eterna, ó eterna Trindade, que, pela união com a natureza divina, tanto fizestes valer o Sangue de vosso Filho Unigénito! Vós, Trindade eterna, sois como um mar profundo, no qual quanto mais procuro mais encontro, e quanto mais encontro, mais cresce a sede de Vos procurar. Saciais a alma, mas dum modo insaciável, porque, saciando-se no vosso abismo, a alma permanece sempre faminta e sedenta de Vós, ó Trindade eterna, desejando ver-Vos com a luz da vossa luz.
Saboreei e vi com a luz da inteligência, ilustrada na vossa luz, o vosso abismo insondável, ó Trindade eterna, e a beleza da vossa criatura. Por isso, vendo-me em Vós, vi que sou imagem vossa por aquela inteligência que me é dada como participação do vosso poder, ó Pai eterno, e também da vossa sabedoria, que é apropriada ao vosso Filho Unigénito. E o Espírito Santo, que procede de Vós e do vosso Filho, me deu a vontade com que posso amar-Vos.
Porque Vós, Trindade eterna, sois criador e eu criatura; e conheci – porque Vós mo fizestes compreender quando me criastes de novo no Sangue do vosso Filho – conheci que estais enamorado da beleza da vossa criatura.
Oh abismo, oh Trindade eterna, oh Divindade, oh mar profundo! Que mais me podíeis dar do que dar-Vos a Vós mesmo? Sois um fogo que arde sempre e não se consome. Sois Vós que consumis com o vosso calor todo o amor profundo da alma. Sois um fogo que dissipa toda a frialdade e iluminais as mentes com a vossa luz, aquela luz com que me fizestes conhecer a vossa verdade.
Espelhando-me nesta luz, conheço-Vos como sumo bem, o bem que está acima de todo o bem, o bem feliz, o bem incompreensível, o bem inestimável, a beleza sobre toda a beleza, a sabedoria sobre toda a sabedoria: porque Vós sois a própria sabedoria, o alimento dos Anjos, que com o fogo da caridade Vos destes aos homens.
Sois a veste que cobre toda a minha nudez; e alimentais a nossa fome com a vossa doçura, porque sois doce sem qualquer amargor. Oh Trindade eterna!

(Do «Diálogo da Divina Providência», de Santa Catarina de Sena, virgem, Cap. 167: ed. lat. Ingolstadii 1583, ff. 290v-291, Sec. XIV)

(SNL)


Tratado dos vícios e pecados 74

Questão 85: Dos efeitos do pecado e, primeiro, da corrupção do bem da natureza.

Art. 5 — Se a morte e as outras misérias do corpo são efeitos do pecado.

(IIª-IIªª, q. 164, a 1; II Sent., dist. XXX, q. 1, a 1; III, dist. XVI, q. 1, a. 1; IV, Protog.; dist. IV, q. 2, a. 1, qª 3; IV, Cont. Gent., cap. LII; De Malo, q. 5, a. 4; Compend. Theol., cap. CXCIII; Ad Rom., cap. V, lect. III; Ad Hebr., cap. IX, lect V).

O quinto discute-se assim. — Parece que a morte e as outras misérias do corpo não são efeitos do pecado.

1. — Pois, causas iguais produzem efeitos iguais. Ora, as referidas misérias não são iguais para todos, mas abundam nuns mais que noutros; embora, como já disse (q. 82, a. 4), para todos seja o mesmo o pecado original, de que elas são o principal efeito. Logo, a morte e as misérias do corpo não são efeitos do pecado.

2. Demais. — Removida a causa, removido fica o efeito. Ora, removido todo pecado, pelo baptismo ou pela penitência, não ficam removidas as misérias do corpo. Logo, não são efeitos do pecado.

3. Demais. — O pecado actual é mais essencialmente pecado que o original. Ora, o pecado actual não altera a natureza do corpo, sendo causa de alguma de suas misérias. Logo, com maior razão, nem o pecado original. Portanto, a morte e as outras misérias do corpo não são efeitos do pecado.

Mas, em contrário, diz o Apóstolo (Rm 5, 12): por um homem entrou o pecado neste mundo e, pelo pecado, a morte.

Uma causa pode produzir um efeito de dois modos: essencial e acidentalmente. Essencialmente, quando o produz em virtude da sua natureza ou forma; donde se conclui ter sido o efeito em si mesmo o fim da causa. Donde, estando a morte e as outras misérias do corpo fora da intenção do pecador, é manifesto que o pecado não é, em si mesmo, causa dessas misérias.

Acidentalmente, quando remove um obstáculo; assim, como diz Aristóteles, quem arranca uma coluna move acidentalmente a pedra que lhe estava sobreposta. E deste modo, o pecado do primeiro pai é causa da morte e de todas as misérias do corpo na natureza humana. Pois, esse pecado privou-nos da justiça original, que continha sujeitas à razão, sem nenhuma desordem, não só as potências inferiores da alma, mas sujeitava também todo o corpo à alma, sem nenhuma deficiência, como estabelecemos na Primeira parte (q. 97, a. 1). Donde, perdida essa justiça original, pelo pecado do primeiro pai, assim como a natureza humana ficou lesada na alma, pela desordem das potências, segundo já provamos (q. 82, a. 3); assim também se tornou corruptível pela desordem do próprio corpo.

Ora, a perda da justiça original, como a da graça, constitui uma pena. Donde, também a morte, e todos as misérias corpóreas consequentes, são penas do pecado original. E embora essas misérias não estivessem na intenção do pecador, foram contudo pela justiça punitiva de Deus.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Causas iguais essenciais produzem, por si mesmas, efeitos iguais. Pois, aumentada ou diminuída a causa essencial, aumenta ou diminui o efeito. Mas da igualdade de causas, que removem apenas um obstáculo, não se lhes deduz a igualdade dos efeitos. Assim, de derrubarmos, com igual impulso, duas colunas, não se segue sejam as pedras, que lhes estão sobrepostas, igualmente movidas; mas, há-de mover-se mais velozmente a que for mais pesada, segundo a sua propriedade, e que fica abandonada a si mesma, uma vez removido o obstáculo. Do mesmo modo, removida a justiça original, a natureza do corpo humano ficou abandonada a si própria. E desde então, segundo a diversidade da compleição natural, os corpos de uns ficam sujeitos a maiores misérias; os de outros, a menores, embora o pecado original afecte igualmente a todos.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A culpa original e a actual removem-se do mesmo sujeito de que se removem as misérias corpóreas, conforme o Apóstolo (Rm 8, 11): dará vida aos vossos corpos mortais, pelo Espírito, que habita em vós. Mas, uma e outra coisa se realizarão em tempo oportuno, segundo a ordem da divina sabedoria. Pois, havemos de chegar à imortalidade e à impassibilidade da glória, começada em Cristo, que no-la adquiriu, depois de termos, durante a vida, participado dos Seus sofrimentos. Por isso, é necessário que, conformes com Cristo, a sua passibilidade perdure nos nossos corpos, para merecermos a impassibilidade de glória.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Podemos considerar dois elementos no pecado actual: a substância própria do acto e a culpa. Quanto àquela, o pecado actual pode causar misérias ao corpo; assim muitos adoecem e morrem por comerem demais. Quanto à esta, priva da graça, que nos é dada para rectificar os actos da alma, e não para impedir as misérias do corpo, como o fazia a justiça original. Donde, o pecado actual não causa, como o original, essas misérias.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho do dia, comentário e Leitura espiritual (Santificação do tabalho quotidiano)

Tempo de Páscoa

II Semana 


Vd santos do dia (nesta página)

Evangelho: Mt 11, 25-30

25 Então Jesus, falando novamente, disse: «Eu Te louvo ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e aos prudentes, e as revelaste aos pequeninos. 26 Assim é, ó Pai, porque assim foi do Teu agrado. 27 «Todas as coisas Me foram entregues por Meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai; nem ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 28 O «Vinde a Mim todos os que estais fatigados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. 29 Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas. 30 Porque o Meu jugo é suave, e o Meu fardo leve».

Comentário:

Porque é que a Revelação não é "aberta" a todos?


Mas...é!
Revelação é feita a todos os homens, alguns, todavia não querem saber dela ou, então, não reúnem as condições necessárias para a receber e guardar.

Essas condições são aquelas disposições da alma e do coração que é frequente encontrar nas pessoas humildes e simples.

(ama, comentário sobre Mt 11, 25-27, 2011.07.13)

Leitura espiritual




Temas para leitura espiritual






Santificação do trabalho quotidiano

O que é "Santificar o trabalho"? Neste artigo explica-se que é dar-lhe um motivo, uma razão, um amor a Deus e aos outros por Deus que influi radicalmente na própria actividade, fazendo com que se realize bem, com competência e perfeição.

Dizia São Josemaria que o espírito do Opus Dei recolhe a realidade formosíssima de que qualquer tarefa digna e humanamente nobre, pode converter-se num trabalho divino. 

"Homens e mulheres que trabalham apenas com horizontes terrenos, de duas dimensões, entusiasmam-se ao saber que o seu trabalho profissional pode adquirir uma dimensão transcendente". A vida de muitas pessoas deu uma volta ao conhecerem esta doutrina e, por vezes, por ouvirem falar de santificação do trabalho. Homens e mulheres que trabalham só com horizontes terrenos, de duas dimensões, entusiasmam-se ao saber que o seu trabalho profissional pode adquirir uma dimensão transcendente, com relevo de vida eterna. Como não pensar no gozo daquele personagem do Evangelho que ao encontrar um tesouro escondido num campo, foi e vendeu tudo o que tinha para comprar aquele campo? 1

O Espírito Santo fez descobrir a São Josemaria este tesouro na doutrina do Evangelho, especialmente nos longos anos da vida de Jesus em Nazaré, anos de sombra, mas para nós claros como a luz do sol 2, porque esses anos ocultos do Senhor não são algo sem significado, nem uma simples preparação dos anos que viriam depois, os da Sua vida pública. Desde 1928 compreendi claramente que Deus deseja que os cristãos tomem exemplo de toda a vida do Senhor. Entendi especialmente a Sua vida escondida, a Sua vida de trabalho corrente no meio dos homens 3.

"O trabalho é ocasião de desenvolvimento da própria personalidade, vínculo de união com os outros seres".
Graças à luz de Deus, o Fundador do Opus Dei ensinou constantemente que o trabalho profissional é realidade santificável e santificadora. Verdade simples e grandiosa que o Magistério da Igreja ensinou sobretudo a partir do Concilio Vaticano II 4 e recolheu depois no Catecismo, assinalando que «o trabalho pode ser um meio de santificação e de animação das realidades terrenas no Espírito de Cristo» 5.

«Com sobrenatural intuição» – afirmou João Paulo II – «o Beato Josemaria pregou incansavelmente a chamada universal à santidade e ao apostolado. Cristo convoca todos a santificarem-se na realidade da vida quotidiana; por isso, o trabalho é também meio de santificação pessoal e de apostolado quando se vive em união com Jesus Cristo» 6.

 O nosso Fundador foi instrumento querido por Deus para difundir esta doutrina abrindo perspectivas imensas à santidade pessoal de uma multidão de cristãos e para a santificação da sociedade humana a partir de dentro, ou seja, a partir da própria malha das relações profissionais que a configuram.

"O trabalho acompanha inevitavelmente a vida do homem sobre a terra".
Esta semente dará os frutos que o Senhor espera, se nós pusermos o empenho necessário para a meditar na presença de Deus, a pusermos em prática com a Sua ajuda, porque a santificação do trabalho não é só una ideia que basta explicar para que se aprenda; é um ideal que se procura e se conquista por amor a Deus, conduzidos pela Sua graça.

SENTIDO DO TRABALHO

Logo no início da Sagrada Escritura, no livro do Génesis, se nos revela o sentido do trabalho. Deus, que fez boas todas as coisas, «quis livremente criar um mundo "em estado de caminho" para a perfeição última» 7, e criou o homem ut operaretur 8, para que com o seu trabalho «prolongasse de certo modo a obra criadora e alcançasse a sua própria perfeição» 9.

Como consequência do pecado, o trabalho é acompanhado de fadiga e muitas vezes de dor 10. Mas ao assumir a nossa natureza para nos salvar, Jesus Cristo Nosso Senhor transformou a fadiga e a dor em meios para manifestar o amor e a obediência à Vontade divina e reparar a desobediência do pecado. Assim viveu Jesus durante seis lustros: era fabri filius (Mt 13, 55), o filho do carpinteiro. (...) Era o faber, filius Mariae (Mc 6, 3), o carpinteiro, filho de Maria. E era Deus e estava a realizar a redenção do género humano, e estava a atrair a Si todas as coisas (Jo 12, 32) 11.

Para um cristão "o trabalho aparece como participação na obra criadora de Deus".

Juntamente com esta realidade do trabalho de Jesus Cristo, que nos mostra a plenitude do seu sentido, temos de considerar que, por graça sobrenatural, fomos feitos filhos de Deus formando uma só coisa com Jesus Cristo, um só corpo. A Sua Vida sobrenatural é vida nossa e fez-nos participantes do Seu sacerdócio para que sejamos co-redentores com Ele.

Esta profunda união do cristão com Cristo ilumina o sentido de todas as nossas actividades e, em particular, o trabalho. Nos ensinamentos de São Josemaria, o fundamento da santificação do trabalho, é o sentido da filiação divina, a consciência de que Cristo quer encarnar nos nossos afazer 12.

Toda esta visão cristã do sentido do trabalho, se compendia nas palavras seguintes: O trabalho acompanha necessariamente a vida do homem sobre a terra. Com ele nascem o esforço, a fadiga, o cansaço, as manifestações de dor e de luta que fazem parte da nossa existência humana actual e que são sinais da realidade do pecado e da necessidade da redenção. Mas o trabalho, em si mesmo, não é uma pena nem uma maldição ou castigo: os que assim falam não leram bem a Sagrada Escritura.

(...) O trabalho, todo o trabalho, é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação. É um meio de desenvolvimento da personalidade. É um vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para sustentar a família; meio de contribuir para o melhoramento da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a Humanidade.

"O trabalho santifica-se de facto quando se realiza por amor a Deus".

 Para um cristão, essas perspectivas alargam-se e ampliam-se, porque o trabalho aparece como participação na obra criadora de Deus que, ao criar o homem, o abençoou dizendo-lhe: Procriai e multiplicai-vos e enchei a terra e subjugai-a, e dominai sobre todo o animal que se mova à superfície da terra. Além disso, ao ser assumido por Cristo, o trabalho apresenta-se-nos como uma realidade redimida e redentora: é, não só o âmbito em que o homem vive, mas também meio e caminho de santidade, realidade santificável e santificadora. 13.

SANTIFICAR A ACTIVIDADE DE TRABALHAR

Uma expressão de São Josemaria, que saía com frequência dos seus lábios e da sua caneta, introduz-nos no esplêndido panorama da santidade e do apostolado no exercício de um trabalho profissional: para a grande maioria dos homens, ser santo supõe santificar o próprio trabalho, santificar-se no seu trabalho, e santificar os outros com o trabalho 14.

São três aspectos de uma mesma realidade, inseparáveis e ordenados entre si. Primeiro santificar – fazer santo – o trabalho, a actividade de trabalhar 15. Santificar o trabalho é tornar santa essa actividade, fazer santo o acto da pessoa que trabalha. 

Disto dependem os outros dois aspectos, porque o trabalho santificado é também santificador; santifica-nos a nós próprios e é meio para a santificação dos outros e para empapar a sociedade com o espírito cristão. Convém, portanto, que nos detenhamos a considerar o primeiro ponto; o que significa tornar santo o trabalho profissional.

"É imprescindível procurar de um ou de outro modo a presença de Deus".

  Um acto nosso é santo quando é um acto de amor a Deus e aos outros por Deus, um acto de amor sobrenatural – de caridade – o que pressupõe, nesta terra, a fé e a esperança. Um acto assim é santo porque a caridade é participação da infinita Caridade, que é o Espírito Santo 16, o Amor subsistente do Pai e do Filho, de modo que um acto de caridade é um tomar parte na Vida sobrenatural da Santíssima Trindade, um tomar parte na santidade de Deus. 

No caso do trabalho profissional, há que ter em conta que a actividade de trabalhar tem por objecto as realidades deste mundo – cultivar um campo, investigar uma ciência, proporcionar serviços, etc. – e que, para ser humanamente boa e santificável, há-de ser exercício das virtudes humanas. Mas isto não basta para que seja santa. 

O trabalho santifica-se de facto quando se realiza por amor a Deus, para Lhe dar glória – e, consequentemente, como Deus quer, cumprindo a Sua Vontade, praticando as virtudes cristãs informadas pela caridade – para o oferecer a Deus em união com Cristo, já que «por Ele, com Ele e n’Ele, a Ti, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória» 17.

Dá um motivo sobrenatural à tua actividade profissional de cada dia e terás santificado o trabalho 18. Com estas breves palavras o fundador do Opus Dei mostra a chave da santificação do trabalho. A actividade humana de trabalhar santifica-se quando se leva a cabo por um motivo sobrenatural. 

O decisivo não é, portanto, que saia bem, mas que trabalhemos por amor a Deus, já que é isto o que Ele procura em nós: Deus olha o coração 19. O decisivo é o motivo sobrenatural, a finalidade última, a rectidão de intenção da vontade, o realizar o trabalho por amor a Deus e para servir os outros por Deus. Eleva-se assim o trabalho à ordem da graça, santifica-se, converte-se em obra de Deus, operatio Dei, opus Dei. 20.

"O decisivo não é, portanto, que saia bem, mas que trabalhemos por amor a Deus. Deus olha o coração".

QUALIDADES DO MOTIVO SOBRENATURAL

O motivo sobrenatural é sincero se influi eficaz e radicalmente no modo de trabalhar, levando a cumprir a nossa tarefa com perfeição, como Deus quer, dentro das limitações pessoais com que Ele conta. 

O motivo sobrenatural que torna santo o trabalho, não é algo que simplesmente se justapõe à actividade profissional, mas um amor a Deus e aos outros por Deus que influi radicalmente na própria actividade, impulsionando a que se realize bem, com competência e perfeição, porque não podemos oferecer ao Senhor uma coisa que, dentro das pobres limitações humanas, não seja perfeita, sem defeitos e realizada com toda a atenção mesmo nos aspectos mais insignificantes, porque Deus não aceita o que é mal feito. Não ofereçais nada que tenha defeito porque não seria aceite favoravelmente (Lv 22, 20), adverte-nos a Escritura Santa. Por isso, o trabalho de cada um de nós, esse trabalho que ocupa as nossas jornadas e as nossas energias, há-de ser uma oferenda digna do Criador, operatio Dei, trabalho de Deus e para Deus. Numa palavra, uma tarefa bem cumprida e impecável 20.

Uma "boa intenção" que não levasse a trabalhar bem, não seria uma boa intenção, não seria amor a Deus. Seria uma intenção ineficaz e oca, um desejo débil, que não consegue superar o obstáculo da preguiça ou do comodismo. O verdadeiro amor plasma-se no trabalho.

"O amor a Deus torna grandes as coisas pequenas".

Pôr um motivo sobrenatural não é sequer acrescentar algo santo à actividade de trabalhar. Para santificar o trabalho não é suficiente rezar enquanto se trabalha, embora – quando seja possível fazê-lo – seja um sinal de que se trabalha por amor a Deus e um meio para crescer nesse amor. 

Mais ainda, para santificar o trabalho pondo um motivo sobrenatural, é imprescindível procurar de um ou de outro modo a presença de Deus e muitas vezes isto concretiza-se em actos de amor, em orações e jaculatórias, às vezes por ocasião de uma pausa ou de outras circunstâncias que oferece o ritmo do trabalho. Para isso são de grande ajuda as indústrias humanas. 

Mas vale a pena insistir em que não há que ficar por aí, porque santificar o trabalho não consiste essencialmente em realizar algo santo enquanto se trabalha, mas em tornar santo o próprio trabalho pondo o motivo sobrenatural que configura essa actividade e a empapa tão profundamente que a converte num acto de fé, de esperança e de caridade, transformando o trabalho em oração.

"Santificar o trabalho não consiste essencialmente em realizar algo santo enquanto se trabalha, mas em tornar santo o próprio trabalho".

Outra consequência importante de que a raiz da santificação do trabalho se encontra no motivo sobrenatural, é que todo o trabalho profissional é santificável, desde o mais brilhante aos olhos humanos até o mais humilde, pois a santificação não depende do tipo de trabalho mas do amor a Deus com que se realiza. Basta pensar nos trabalhos de Jesus, Maria e José em Nazaré, tarefas correntes, habituais, semelhantes às de milhões de pessoas, mas realizadas com o maior amor. 

«A dignidade do trabalho depende, não tanto do que se faz, mas de quem o executa, o homem, que é um ser espiritual, inteligente e livre» 22. A maior ou menor categoria do trabalho depende da sua bondade enquanto acção espiritual e livre, quer dizer, do amor electivo do fim, que é acto próprio da liberdade.

Convém não esquecer, portanto, que esta dignidade do trabalho está fundamentada no Amor. O grande privilégio do homem é poder amar, transcendendo assim o efémero e o transitório. O homem pode amar as outras criaturas, dizer um tu e um eu cheios de sentido. E pode amar a Deus, que nos abre as portas do Céu, que nos constitui membros da Sua família, que nos autoriza a falar também de tu a Tu, face a face.

Por isso, o homem não pode limitar-se a fazer coisas, a construir objectos. O trabalho nasce do amor, manifesta o amor, ordena-se ao amor 23.

"A maior ou menor categoria do trabalho depende da sua bondade enquanto acção espiritual e livre".

O amor a Deus torna grandes as pequenas coisas; os detalhes de ordem, de pontualidade, de serviço ou de amabilidade, que contribuem para a perfeição do trabalho. Fazei tudo por Amor. – Assim não há coisas pequenas: tudo é grande. – A perseverança nas coisas pequenas, por Amor, é heroísmo 24.

Quem compreende que o valor santificador do trabalho depende essencialmente do amor a Deus com que se leva a cabo e não do seu relevo social e humano, aprecia em muito as coisas pequenas, especialmente as que passam inadvertidas aos olhos dos outros, porque só Deus as vê.

Pelo contrário, trabalhar por motivos egoístas, como o afã de auto-afirmação, de brilhar ou de realizar, acima de tudo, os próprios projectos e gostos, ou a ambição de prestígio por vaidade, ou de poder ou de dinheiro como meta suprema, impede radicalmente santificar o trabalho, porque equivale a oferecê-lo ao ídolo do amor-próprio. 

Estes motivos apresentam-se poucas vezes em estado puro, mas podem conviver com intenções nobres e inclusive sobrenaturais, permanecendo latentes – quiçá durante longo tempo – como os sedimentos de lodo no fundo da água límpida. Seria uma imprudência ignorá-los, porque em qualquer momento – quiçá aquando de alguma dificuldade, uma humilhação ou um fracasso profissional – podem agitar-se e turvar toda a conduta. É preciso detectar esses motivos egoístas, reconhecê-los sinceramente e combatê-los purificando a intenção com oração, sacrifício, humildade, serviço generoso aos outros, cuidado nas coisas pequenas...

Voltemos o olhar uma vez e outra para o trabalho de Jesus nos anos da Sua vida oculta, para aprender a santificar a nossa actividade. Senhor, concede-nos a Tua graça. Abre-nos a porta da oficina de Nazaré, para aprendermos a contemplar-Te a Ti, com a Tua Mãe Santa Maria e com o Santo Patriarca José – a quem tanto amo e venero – todos três dedicados a uma vida de trabalho santo. Sensibilizar-se-ão os nossos pobres corações, procurar-Te-emos e encontrar-Te-emos no trabalho diário, que Tu desejas que convertamos em obra de Deus, obra de Amor 25.

f. j. lópez díaz
2012/09/20
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