17/01/2011

Papa escolhe protestante para liderar departamento científico.


MAIS ALTO



Ecumenismo

O Papa escolheu um protestante para chear a Academia de Ciências do Vaticano.
O escolhido foi Werner Arber, um biólogo molecular de nacionalidade suíça que dividiu um prémio Nobel de Medicina em 1978.
Um porta-voz do Vaticano, Ciro Benedettini, sublinhou que, pela primeira vez, um não-católico preside à Academia Pontifícia de Ciências, nos seus quatro séculos de existência.
A academia, de que Arber se tornou membro em 1981, ajuda os pontífices a compreender os avanços científicos em áreas que vão da genética à física nuclear.
Entre outros não-católicos que foram membros proeminentes da academia, mas não presidentes, encontra-se Rita Levi Montalcini, uma judia italiana que ganhou o Nobel de Medicina em 1986.
A decisão de Bento XVI não podia surgir num momento mais adequado, uma vez que por estes dias os cristãos de todo o mundo celebram a Semana de Oração para a Unidade Cristã, durante a qual se realizam diversos encontros ecuménicos e se reza para ultrapassar as barreiras que separam as Igrejas.

(fonte: Página 1)

VOTAR EM CONSCIÊNCIA


Os católicos têm a mais absoluta liberdade de voto, pois só em circunstâncias de excepcional gravidade a Igreja, através da voz autorizada da sua hierarquia, pode exigir aos seus fiéis que exerçam esse direito de uma forma concreta. Mas não sendo este o caso, na medida em que o episcopado não se pronunciou nesse sentido, cada cidadão cristão está chamado a decidir, em consciência, a modalidade da sua participação no próximo acto eleitoral.

P. Gonçalo Portocarrero de Almada  

Diálogos apostólicos



Precisas de descansar. Isso parece-me óbvio.

Que tens coisas urgentes a fazer?

Olha que não há nada urgente que não possa esperar ao contrário da saúde que não se compadece com adiamentos.

50

 (ama, 2011.01.17)

Ataques contra a Igreja em Espanha


OBSERVANDO

Pero detrás de este episodio barcelonés (Se suspenden las misas en una capilla de la Universidad de Barcelona), que no es sino una expresión más del despepitado odium fidei que sacude Occidente, como un escalofrío premonitorio de los dolores del parto (y lo que nazca de ese parto no quiero ni imaginarlo), subyace algo mucho más grave que una mera dejación de responsabilidades por parte de la autoridad académica, siendo esto asaz grave.
Y lo que detrás subyace no es sino el entendimiento —cada vez más extendido entre amplias capas de la sociedad, y alentado desde instancias de poder— de que la mera expresión pública de la fe católica es, en sí misma, conflictiva e indeseable; y que el mejor modo de evitar los problemas provocados por tal expresión de la fe es impedirla, o siquiera expulsarla de aquellos ámbitos donde pueda tropezarse con reacciones hostiles.
Tales reacciones, por supuesto, no son espontáneas, sino inducidas por un clima laicista irresponsablemente azuzado desde instancias de poder; y, una vez instauradas, no harán sino ganar terreno, en su voraz apetito colonizador.
Hoy se adueñan de una universidad, mañana lo harán de tal o cual barrio, pasado campearán triunfantes por doquier, expulsando a la clandestinidad la fe católica. Que en eso consiste, al fin y a la postre, la abominación de la desolación. 

Juan Manuel de Prada (Fonte INFOVITAE)

APOLOGIA DO VOTO INÚTIL

Entre o muito mau e o péssimo, o diabo que escolha!

Em tempos de eleições presidenciais, legislativas ou autárquicas, é recorrente o recurso ao argumento do voto útil. Na gíria política entende-se por voto útil a escolha do candidato ou do partido que, mesmo não reunindo as condições que o eleitor desejaria sufragar, é no entanto o menos mau dos candidatos com hipóteses de ganhar. Na perspectiva eleitoral, o voto num partido ou candidato que nunca poderá vencer é sempre um voto perdido ou, pior ainda, um voto nas candidaturas que ficariam beneficiadas com a inutilidade prática desse voto idealista.

Gonçalo Portocarrero de Almada

O Poder: a Verdade e a Mentira



OBSERVANDO

Há um ror de anos, vi um filme que, até hoje, tenho bem presente na memória e cujo enredo era:

“No início do fascismo em Itália, quando Mussolini se preparava para assumir o poder e já tinha apaniguados seus aos “comandos” de várias comarcas, numa pequena cidade aconteceram uma série de crimes de violação de jovens.

A polícia fascista da cidade empenhou-se a fundo e conseguiu descobrir o famigerado violador.

Claro que, as parangonas nos jornais e panfletos afixados em todas as ruas da cidade com a fotografia do criminoso, exaltavam a capacidade da justiça fascista, a celeridade com que o sujeito tinha sido descoberto, julgado e condenado a uns bons anos de cárcere. Toda a gente ficou a saber quem era o desgraçado, o que tinha feito e louvou a excelência da justiça fascista. Como o criminoso era casado e tinha filhos, a mulher e a restante família tiveram de mudar-se para outro local bem afastado da cidade onde os crimes tinham ocorrido, uma vez que não suportavam a vergonha de serem apontados nas ruas, as crianças expulsas das escolas etc.

Passados uns meses, quando Mussolini já era o Duce, com poderes supremos sobre toda a Itália, é, na mesma cidade, apanhado um fulano em flagrante acto de violação de uma menor.

Prontamente detido e depois de severamente interrogado, confessou que era ele o perpetrador de todas as violações ocorridas e algumas mais que a policia desconhecia. Claro que foi preso e condenado a pesadíssima pena e o desgraçado que estava preso foi libertado sem mais.

Posto perante os factos, Mussolini dá ordens terminantes à imprensa, rádio etc., que não emitisse nem uma palavra sobre ao assunto. Era imperioso que ninguém pudesse tomar conhecimento do erro monumental cometido pelas autoridades fascistas meses atrás. O fascismo não podia enganar-se nem arcar com a responsabilidade de uma injustiça de tal calibre.

Assim foi que, o pobre homem não podia sair à rua já que, conhecido como era e não tendo sido dita, ou escrita, uma palavra sobre a sua libertação e a que se devia, toda a gente pensava que era um foragido e caiam em cima dele sem dó nem piedade entregando-o sob os piores maus tratos, na esquadra próxima. Pela noite, a polícia soltava-o novamente, sempre, sem uma palavra, uma breve explicação que fosse.

Obviamente, ninguém lhe dava emprego e, a morrer de fome, e tendo conseguido descobrir o paradeiro da família lá conseguiu ir ao seu encontro.

A recepção foi catastrófica porque por mais que contasse à mulher e aos filhos o que tinha acontecido, estes não acreditavam nele e não o receberam.

O filme acaba da pior maneira: desesperado, sem eira nem beira, profundamente ferido na honra que não conseguia recuperar, ostracizado pela sociedade e pela própria família, o pobre homem enforca-se, tal como Judas, numa oliveira.”

Percebe-se a razão do título em epígrafe? Se o Poder não diz a verdade...mente?

AMA, 2011.01.19

Doutrina

«RERUM NOVARUM»

Pela Sua superabundante redenção, Jesus Cristo não suprimiu as aflições que formam quase toda a trama da vida mortal; fez delas estímulos de virtude e fontes de mérito, de sorte que não há homem que possa pretender as recompensas eternas, se não caminhar sobre os traços sanguinolentos de Jesus Cristo: «Se sofremos com Ele, com Ele reinaremos» (2Tm 2,12). Por outra parte, escolhendo Ele mesmo a cruz e os tormentos, minorou-lhes singularmente o peso e a amargura, e, a fim de nos tornar ainda mais suportável o sofrimento, ao exemplo acrescentou a Sua graça e a promessa duma recompensa sem fim: «Porque o momento tão curto e tão ligeiro das aflições, que sofremos nesta vida, produz em nós o peso eterno duma glória soberana incomparável» (2Cor 4,7)

Assim, os afortunados deste mundo são advertidos de que as riquezas não os isentam da dor; que elas não são de nenhuma utilidade para a vida eterna, mas antes um obstáculo (Mt 19,23-24); que eles devem tremer diante das ameaças severas que Jesus Cristo profere contra os ricos (Lc 6,24-25); que, enfim, virá um dia em que deverão prestar a Deus, seu juiz, rigorosíssimas contas do uso que hajam feito da sua fortuna

A Meditação

TEMA PARA BREVE REFLEXÃO



A meditação considera minuciosamente, um a um, os objectos mais próprios a comover-nos, mas a contemplação lança um olhar simples e concentrado no objecto que ama; a consideração assim concentrada, produz um movimento mais vivo e forte.
Pode-se apreciar a beleza de uma rica coroa de duas formas: ou analisando um por um, todos os florões e pedras preciosas de que é composta, ou então, depois de examinar deste modo cada uma das peças, observando com um simples olhar o efeito brilhante do conjunto.
Na meditação parece que examinamos em separado as perfeições divinas que resultam dum mistério; na contemplação juntamo-las num total. 

(S. Francisco de Sales, Tratado do Amor de Deus, Livro VI, Cap. V )

Evangelho e comentário do dia


Tempo comum - II Semana


Evangelho: Mc 2, 18-22

18 Os discípulos de João e os fariseus estavam a jejuar. Foram ter com Jesus, e disseram-Lhe: «Porque jejuam os discípulos de João e os fariseus, e os Teus discípulos não jejuam?». 19 Jesus respondeu-lhes: «Podem porventura jejuar os companheiros do esposo, enquanto o esposo está com eles? Enquanto têm consigo o esposo não podem jejuar. 20 Mas virão dias em que lhes será tirado o esposo e, então, nesses dias, jejuarão. 21 Ninguém cose um remendo de pano novo num vestido velho; pois o remendo novo arranca parte do velho, e o rasgão torna-se maior. 22 Ninguém deita vinho novo em odres velhos; de contrário, o vinho fará arrebentar os odres, e perder-se-á o vinho e os odres; mas, para vinho novo, odres novos».

Comentário:

A “novidade” que Cristo traz ao mundo é a interpretação da Lei de forma correcta, de forma nunca antes vista. Até então, os Rabis e Escribas interpretavam-na adaptando-a, como melhor lhes parecia como adequada às circunstâncias ou, até, aos seus interesses pessoais ou de classe.

Jesus faz ver e compreender que a Lei é imutável no seu conteúdo concreto e não pode nem ser mudada – num único til – nem adaptada em nenhum caso. 
A Lei de Deus aplica-se a toda a humanidade independentemente da condição, cultura, idade ou quaisquer outras circunstâncias que podem ocorrer. 


A Lei parece simples e é-o de facto, porque Deus nunca obrigaria o homem a nada que não estivesse ao seu alcance fazer e, muito menos a que cada um pudesse considerar-se, seja porque motivo for, mais ou menos obrigado a cumpri-la. 


(ama, Comentário sobre Mc 2, 8-22, 2010.12.22)


16/01/2011

Diálogos apostólicos



Apareceste-me com semblante carregado como se arrastasses uma carga insuportável.

À minha pergunta respondeste que estavas metido num grande sarilho.
Insisti e acabaste por dizer que te sentias como que espartilhado no meio de uma série de obrigações e compromissos que tinhas assumido.

Tive de te pôr as coisas com clareza: subir, aparentemente, custa mais que descer. 

De facto, leva-se mais tempo a atingir o cume do que a chegar ao fundo. 

A diferença - a grande diferença - está na perspectiva; no cume, quanto mais alto mais a vista se perde na lonjura, no fundo, quanto mais fundo mais reduzido é o ângulo de visão.

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 (ama, 2011.01.16)

A pobreza é ilegal



OBSERVANDO

Porque aliviar a pobreza não é erradicá-la

ORAÇÃO E MÚSICA 4

Gloria a Deus:




Glória a Deus nas alturas
e paz na terra aos homens por Ele amados.


Senhor Deus, Rei dos céus, Deus Pai todo-poderoso:
nós Vos louvamos,
nós Vos bendizemos,
nós Vos adoramos,
nós Vos glorificamos,
nós Vos damos graças,
por vossa imensa glória.

Senhor Jesus Cristo, Filho Unigénito,
Senhor Deus, Cordeiro de Deus, Filho de Deus Pai:
Vós que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós;
Vós que tirais o pecado do mundo, acolhei a nossa súplica;
Vós que estais à direita do Pai, tende piedade de nós.

Só Vós sois o Santo;
só Vós, o Senhor;
só Vós, o Altíssimo, Jesus Cristo;
com o Espírito Santo na glória de Deus Pai.

Ámen.

Evangelho e comentário do dia


Tempo comum - II Semana



Evangelho: Jo 1, 29-34

29 No dia seguinte João viu Jesus, que vinha ter com ele, e disse: «Eis o Cordeiro de Deus, eis O que tira o pecado do mundo. 30 Este é Aquele de Quem eu disse: Depois de mim vem um homem que é superior a mim, porque era antes de mim, 31 eu não O conhecia, mas vim baptizar em água, para Ele ser reconhecido em Israel». 32 João deu este testemunho: «Vi o Espírito descer do céu em forma de pomba e repousou sobre Ele. 33 Eu não O conhecia, mas O que me mandou baptizar em água, disse-me: Aquele sobre quem vires descer e repousar o Espírito, esse é O que baptiza no Espírito Santo. 34 Eu O vi, e dei testemunho de que Ele é o Filho de Deus».
Comentário:

O presente Evangelho explica de forma clara quem é Jesus Cristo  e porquê deseja o baptismo de João. Na verdade, ao ser baptizado segundo o rito de João, Jesus quer dar uma indicação clara que este baptismo é necessário para se ingressar no Reino que Ele vem anunciar. Com uma humildade sem limites, dispõe-se a que seja outro a fazer o que Ele próprio deseja que todos façam. 


Mais tarde dirá aos Seus discípulos como fazer: «Baptizai em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo», consagrando assim a “fórmula” do ritual. 


Não há outro título para os que aderem ao seu reino: Baptizados!


Este Baptismo, tal como o de João, limpa dos pecados que o baptizado possa ter cometido e, principalmente, restabelece a relação de Deus com a criatura que é baptizada. 


(ama, comentário sobre Jo 1, 29-34, 2010.12.22)


O Salvador e a Cruz

TEMA PARA BREVE REFLEXÃO


O Senhor salvou-nos com a Cruz; com a Sua morte voltou a dar-nos a esperança, o direito à vida. Não podemos honrar Cristo se não O reconhecemos como nosso Salvador, se não O honramos no Mistério da Cruz...
O Senhor fez da dor um meio de redenção; redimiu-nos com a Sua dor, sempre que nós não recusemos unir a nossa dor à Sua e fazer desta com a Sua um meio de redenção. 

(paulo VIAlocução, 24.11.1967)


Doutrina





«RERUM NOVARUM»

11. Todavia a Igreja, instruída e dirigida por Jesus Cristo, eleva o seu olhar ainda para mais alto; propõe um conjunto de preceitos mais completo, porque ambiciona estreitar a união das duas classes até as unir uma à outra por laços de verdadeira amizade. Ninguém pode ter uma verdadeira compreensão da vida mortal, nem estimá-la no seu devido valor, se não se eleva à consideração da outra vida que é imortal. Suprimi esta, e imediatamente toda a forma e toda a verdadeira noção de honestidade desaparecerá; mais ainda: todo o universo se tornará um impenetrável mistério.
Quando tivermos abandonado esta vida, só então começaremos a viver: esta verdade, que a mesma natureza nos ensina, é um dogma cristão sobre o qual assenta, como sobre o seu primeiro fundamento, toda a economia da religião.

Não, Deus não nos fez para estas coisas frágeis e caducas, mas para as coisas celestes e eternas; não nos deu esta terra como nossa morada fixa, mas como lugar de exílio. Que abundeis em riquezas ou outros bens, chamados bens de fortuna, ou que estejais privados deles, isto nada importa à eterna beatitude: o uso que fizerdes deles é o que interessa.

15/01/2011

Diálogos apostólicos




Volto a repetir: não lhes dês ouvidos. 

Não são teus amigos e ponto!

Quem, de verdade quer o teu bem só pode desejar que sejas feliz e tu, meu caro, já sabes muito bem onde está a felicidade.

48

 (ama, 2011.01.15)

O mistério da felicidade (Afonso Cabral)


Navegando pela minha cidade
Sempre que passo pela Rua de Camões lembro-me do meu pai. Lembro-me do meu pai e da história que um dia escreveu sobre um dos seus doentes. É essa história que passo a transcrever:

«Tive um amigo que se chamava Francisco e era criado de Café. Nasceu em qualquer aldeia do Minho e radicara-se no Porto, em busca de trabalho.
Foi numa característica casa portuense, que encontrei, pela segunda e última vez, o meu amigo Francisco.
A casa, como tantas outras do Porto, tinha o seu longo e estreito jardim rectangular, encostado à zona de serviço do rés-do-chão por um pátio lajeado sobre o qual descia, da varanda do primeiro andar, uma escada de largos degraus de granito, formando um desvão fechado onde se guardava o carvão e a lenha que abasteciam os fogões, no tempo em que ainda não havia gás nem electrodomésticos.

Conheci o Francisco, três semanas antes, no consultório.
Logo à primeira vista, todo o seu aspecto revelava um lamentável estado de saúde. Era um homem novo, impressionantemente magro, muito pálido, com uma tosse húmida e impertinente.
O seu fato castanho-listrado, polido e bastante coçado pelo uso, não disfarçava a perfurante magreza dos joelhos e omoplatas.
O olhar mantinha-se vivo e brilhante, denunciando um misto de profunda tristeza, bem dominada, e de revolta agressiva que, a cada momento, se inflamava.
A temperatura reconfortante do consultório e o repouso, foram-lhe restituindo as forças e diminuindo a “falta de ar”.
Contou, lentamente, a história de uma vida em que o pouco que ganhava era gasto no jogo e no deboche.
Já há bastante tempo se sentia enfraquecer e que sobreviera aquela “maldita” tosse acompanhada de pequenas e frequentes hemoptises. Sabia que estava tuberculoso, e não lhe interessava viver. Apesar disso, completei a consulta. O Francisco estava tísico no último grau, de nada valendo qualquer tentativa de tratamento entre os poucos recursos de que então se dispunha e que ele, aliás, recusava tenazmente.
Procurei conduzir a conversa para zonas mais profundas e íntimas, com a intenção de o ajudar a sofrer e a morrer: não era difícil prever que teria uma sobrevivência muito curta.
Disse-me que vivia absolutamente só e que há muitos anos abandonara todas as práticas de vida de piedade religiosa. Segundo declarava, tinha fé em Deus, mas abominava os padres. Explicou-me que a atitude abusiva do abade da sua aldeia tinha “atirado para a desgraça” uma jovem que ele então namorava.
O tempo e a vida que levou haviam apagado os ódios pessoais que naquele momento se projectavam sobre todo o clero e sobre a Igreja.
Tentei, em vão, oferecer-lhe os apoios morais que me ocorreram; procurei, discretamente, desalojá-lo da posição rígida em que se encaixava; por fim, pedi-lhe que me mandasse chamar sempre que precisasse ou quisesse.
Negou-se a indicar o seu endereço: “tinha vergonha que fosse a sua casa...”.
Despediu-se mais sério e mais triste. Senti-me desarmado, mas pedi à Secretária que atendesse com urgência, qualquer recado que recebesse daquele doente.
Passadas três semanas chegou um pedido para o visitar na Rua de Camões. Adiei todo o programa desse fim de dia, nevoento e frio. Com a velocidade que o trânsito permitia, parei à sua porta, e bati insistentemente. Alguém me apontou o caminho escuro do pátio lajeado e do desvão da escada de granito.

A carvoeira, caiada de branco, estava transformada num quarto de dormir onde mal cabiam três móveis rudimentares e toscos.
O Francisco, sentado na cama, apoiava-se no colchão sobre as duas mãos espalmadas, os braços esqueléticos esticados, os ombros salientes. Voltou para mim uma cara desfigurada, arroxeada-escura, boca entreaberta e seca, olhos arregalados, gritando por socorro. Sem ter tempo para mais nada, correspondi a esse apelo aflitivo: “Já sei, meu amigo, você quer que lhe vá buscar um padre”. Um vago movimento de cabeça e uma mudança quase imperceptível no olhar, fizeram-me sair apressadamente. Voltei acompanhado por um Capuchinho.
A porta da carvoeira fechou-se. Fiquei no pátio escuro e húmido, fixando a luz amarelenta que saía pelas frinchas da velha porta.
Passado pouco tempo, o padre Capuchinho fez-me sinal para entrar. O meu amigo Francisco, agarrando-se com firmeza à minha mão direita disse textualmente o seguinte, com muita dificuldade mas com muita clareza: “muito obrigado; “vou-me lembrar do que fez por mim”.
Pouco depois, puxou-me para mais perto de si e, pronunciando muito bem cada palavra, acrescentou: “nunca imaginei ser tão feliz”. E repetiu, acentuando: “nunca, nunca....”. Alguns minutos depois perdia a consciência e, em pouco tempo, deixava de respirar.
Aos pés da cama, o padre Capuchinho rezava baixo; e eu, entre imprecisas orações, perdia-me em desgarrados pensamentos sobre a dor e a morte.

Desde esse dia, sobretudo nas horas de maior preocupação, as últimas palavras do meu amigo Francisco, voltavam a soar aos meus ouvidos, com extrema clareza.
Não esquecerei jamais a expressão de sofrimento de todo o seu corpo sentado na cama e lutando desesperadamente contra a asfixia. Mas o que domina sempre o campo da minha memória, com serenidade e confiança, é o misterioso segredo da sua imensa e profunda felicidade.»

Afonso Cabral, 2011.01.15

                                                                                        






Maturidade

TEMA PARA BREVE REFLEXÃO


A maturidade humana, manifesta-se, sobretudo, em certa estabilidade de ânimo, na capacidade de tomar decisões ponderadas e no modo recto de julgar os acontecimentos e os homens. 

(Concílio Vaticano II, Decreto Optatum Totius, nr. 11)



Evangelho e comentário do dia


Tempo comum - I Semana


Evangelho: Mc 2, 13-17

13 Foi outra vez para a beira mar. Todo o povo ia ter com Ele e Ele ensinava-os.14 Ao passar viu Levi, filho de Alfeu, sentado no banco dos cobradores de impostos, e disse-lhe: «Segue-Me». Ele, levantando-se, seguiu-O. 15 Aconteceu que, estando Jesus sentado à mesa em casa dele, estavam também à mesma mesa com Jesus e os Seus discípulos muitos publicanos e pecadores; porque eram muitos que também O seguiam. 16 Os escribas e fariseus, vendo que Jesus comia com os pecadores e publicanos, diziam aos discípulos: «Porque come e bebe o vosso Mestre com os publicanos e pecadores?». 17 Ouvindo isto, Jesus disse-lhes: «Não têm necessidade de médico os sãos, mas os doentes; Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores».

Comentário:

Este: “segue-me” de Jesus deveria ter tal inflexão de voz, tal profundidade de tom, tal alcance que não era possível a quem ouvia esta interpelação deixar-se ficar sem reagir de imediato. Segue-me, talvez fosse uma interpelação comum feita pelos Mestres de Israel aos seus discípulos. Não parece contudo que se possa pôr no mesmo plano que esta convocatória de Jesus. Aqui há uma decisão súbita, não preparada. Não houve uma apresentação prévia entre Jesus e Mateus. 


O Evangelista refere claramente que Jesus ia a passar e que viu Levi no seu posto de trabalho. Não cita nenhuma troca de palavras entre os dois, nem sequer um cumprimento em que ambos se dão a conhecer um ao outro.

Logo, esta interpelação de Jesus, mais que um convite, soa como que uma ordem imperativa que não admite recusa.

De facto, Levi, não tem qualquer hesitação e, levantando-se segue Jesus com tal naturalidade que, provavelmente, alguns dos circunstantes poderia ter pensado que se tratava de algo combinado previamente.
Constatamos que este seguimento de Jesus, esta correspondência pela parte de Mateus ao chamamento do Mestre, é para valer, uma decisão para toda a vida. A partir daquele momento, o cobrador de impostos tem a sua vida intimamente ligada à vida de Jesus Cristo.
Não faz a mais pequena ideia do que Cristo lhe vai pedir, nem sequer lhe pode passar pela cabeça que virá a ser um dos quatro inspirados a contar a história da salvação concentrada na narrativa da vida de Jesus na terra.

Durante o banquete percebe perfeitamente que as palavras de Jesus lhe dizem respeito, quando refere que não veio para chamar os justos mas os pecadores. E sente-se de tal forma honrado como pecador que se transforma num justo demonstrando o seu arrependimento e desejos de ressarcir o mal eventualmente praticado.

A outros, Jesus explicou os Seus planos: «farei de vós pescadores de homens», a Mateus não, deixa-o descobrir por si mesmo o que quer que faça. E, afortunadamente, Mateus, descobre a sua missão, o papel que, a partir de agora, lhe compete desempenhar na campanha do anúncio da chegada do Reino de Deus: assistir e ouvir com redobrada atenção, à actuação e palavras do Senhor para, mais tarde, as poder lavrar em livro para que a posteridade saiba, fidedignamente, o que o Salvador fez e disse. 


(ama, comentário sobre Mt 2, 13-17, 2010.12.07)


Doutrina

«RERUM NOVARUM»

Obrigações dos operários e dos patrões

10. Entre estes deveres, eis os que dizem respeito ao pobre e ao operário: deve fornecer integral e fielmente todo o trabalho a que se comprometeu por contrato livre e conforme à equidade; não deve lesar o seu patrão, nem nos seus bens, nem na sua pessoa; as suas reivindicações devem ser isentas de violências e nunca revestirem a forma de sedições; deve fugir dos homens perversos que, nos seus discursos artificiosos, lhe sugerem esperanças exageradas e lhe fazem grandes promessas, as quais só conduzem a estéreis pesares e à ruína das fortunas.

Quanto aos ricos e aos patrões, não devem tratar o operário como escravo, mas respeitar nele a dignidade do homem, realçada ainda pela do Cristão. O trabalho do corpo, pelo testemunho comum da razão e da filosofia cristã, longe de ser um objecto de vergonha, honra o homem, porque lhe fornece um nobre meio de sustentar a sua vida. O que é vergonhoso e desumano é usar dos homens como de vis instrumentos de lucro, e não os estimar senão na proporção do vigor dos seus braços. O cristianismo, além disso, prescreve que se tenham em consideração os interesses espirituais do operário e o bem da sua alma. Aos patrões compete velar para que a isto seja dada plena satisfação, para que o operário não seja entregue à sedução e às solicitações corruptoras, que nada venha enfraquecer o espírito de família nem os hábitos de economia. Proíbe também aos patrões que imponham aos seus subordinados um trabalho superior às suas forças ou em desarmonia com a sua idade ou o seu sexo.

Mas, entre os deveres principais do patrão, é necessário colocar, em primeiro lugar, o de dar a cada um o salário que convém. Certamente, para fixar a justa medida do salário, há numerosos pontos de vista a considerar. Duma maneira geral, recordem-se o rico e o patrão de que explorar a pobreza e a miséria e especular com a indigência, são coisas igualmente reprovadas pelas leis divinas e humanas; que cometeria um crime de clamar vingança ao céu quem defraudasse a qualquer no preço dos seus labores: «Eis que o salário, que tendes extorquido por fraude aos vossos operários, clama contra vós: e o seu clamor subiu até aos ouvidos do Deus dos Exércitos» (Tg 5,4). Enfim, os ricos devem precaver-se religiosamente de todo o acto violento, toda a fraude, toda a manobra usurária que seja de natureza a atentar contra a economia do pobre, e isto mais ainda, porque este é menos apto para defender-se, e porque os seus haveres, por serem de mínima importância, revestem um carácter mais sagrado. 
A obediência a estas leis — pergunta-mos nós — não bastaria, só de per si, para fazer cessar todo o antagonismo e suprimir-lhe as causas?