Mostrar mensagens com a etiqueta R Valdés. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta R Valdés. Mostrar todas as mensagens

23/02/2016

Tempos de silêncio

Cultivar a interioridade na era digital - 4 

Proteger os tempos de silêncio

A temperança prepara o caminho para a santidade, pois constrói uma ordem interior que permite empregar a inteligência e a vontade naquilo que se tem entre mãos: Queres deveras ser santo? – Cumpre o pequeno dever de cada momento, faz o que deves e está no que fazes [i]. Para receber a graça divina, para crescer em santidade, o cristão tem de se meter na actividade que é a sua matéria de santificação.

As novas tecnologias favorecem a superficialidade? Dependerá, sem dúvida, do modo como se utilizem. No entanto, é necessário estar prevenido contra a dissipação: Deixas que os teus sentidos e potências se embebam em qualquer charco. - Assim andas tu depois: sem te fixares em nada, dispersa a atenção, adormecida a vontade, e desperta a concupiscência. [ii].

Evidentemente, quando se cede à dissipação por um emprego desordenado do telefone ou da internet, a vida de oração encontra obstáculos para o seu desenvolvimento. Não obstante, o espírito cristão leva a conservar a calma enquanto nos movemos com facilidade nas diversas circunstâncias da vida moderna: Os filhos de Deus têm de ser contemplativos: pessoas que, no meio do fragor da multidão, sabem encontrar o silêncio da alma em colóquio permanente com Nosso Senhor [iii].

S. Josemaria salientava que o silêncio é como que o porteiro da vida interior [iv], e nesta linha encorajava os fiéis que vivem no meio do mundo a ter momentos de maior recolhimento, compatíveis com um trabalho intenso. Dava especial importância à preparação da Santa Missa. Num ambiente penetrado pelas novas tecnologias, os cristãos sabem encontrar tempos para o trato com Deus, onde os sentidos, a imaginação, a inteligência, a vontade se podem recolher. Como o profeta Elias, descobrimos o Senhor não no ruído dos elementos e no ambiente, mas num sussurro de brisa suave [v].

O recolhimento que abre espaço ao colóquio com Jesus Cristo exige deixar para segundo plano outras atividades que reclamam a nossa atenção. A oração pede para que nos desliguemos do que nos possa distrair e, com frequência, será oportuno que esse desligar seja físico, desativando as notificações de um dispositivo, fechando os programas em execução ou, eventualmente, desligando o equipamento. É o momento de dirigir o olhar para o Senhor, e deixar nas Suas mãos o resto.

Por outro lado, o silêncio leva a estar atento aos outros e reforça a fraternidade, para descobrir pessoas que necessitam de ajuda, caridade e carinho [vi]. Numa época em que contamos com recursos tecnológicos que parecem empurrar-nos para encher o nosso dia de iniciativas, de atividades, de ruído, é bom fazer silêncio fora e dentro de nós. Neste sentido, ao refletir sobre o papel dos meios de comunicação social na cultura atual, o Papa Francisco convidou a «recuperar um certo sentido de pausa e de calma. Isto requer tempo e capacidade de guardar silêncio para escutar. (…) Se temos o genuíno desejo de escutar os outros, então aprenderemos a olhar o mundo com olhos diferentes e a apreciar a experiência humana tal como se manifesta nas diferentes culturas e tradições» [vii]. O esforço por formar uma atitude pessoal de escuta, e a promoção de espaços de silêncio, abre-nos aos outros e, de modo especial, à acção de Deus nas nossas almas e no mundo.

j.c. vásconez ‒ r. valdés





[i] Caminho, n. 815.
[ii] Ibid., n. 375.
[iii] Forja, n. 738.
[iv] Caminho, n. 281.
[v] Cfr.1 Re19, 11-13.
[vi] Temas actuais do cristianismo, n. 96.
[vii] Francisco, Mensagem para a XLVIII Jornada Mundial das comunicações sociais, 24 de Janeiro de 2014.

22/02/2016

O valor do estudo

Cultivar a interioridade na era digital - 3

O valor do estudo

O hábito do estudo, que ordena o desejo de chegar a metas nobres, costuma relacionar-se com a temperança. Santo Tomás caracteriza a virtude da studiositas como um «certo entusiasmante interesse por adquirir o conhecimento das coisas» [i], que implica a superação da comodidade e da preguiça. Quanto mais intensamente a mente se aplicar em algo pelo facto de o ter conhecido, tanto mais se desenvolve regularmente o seu desejo de aprender e de saber.

O desejo de saber é enriquecedor quando se põe ao serviço dos outros e contribui para fomentar um reto amor ao mundo, que nos impulsiona a seguir a evolução das realidades culturais e sociais em que nos movemos e que queremos levar para Deus. Mas isto é diferente de viver para o exterior, dominado por uma curiosidade que se manifestaria, por exemplo, na ânsia de estar informados de tudo ou de não querer perder nada. Essa atitude desordenada acabaria por conduzir à superficialidade, à dispersão intelectual, à dificuldade para cultivar o convívio com Deus, à perda do interesse apostólico.

As novas tecnologias, ao ampliarem as fontes de informação disponíveis, são uma ajuda valiosa no estudo de assuntos tão variados como um projeto académico de investigação, a escolha de um local para as férias familiares, etc. No entanto, existem também várias formas de desordem do apetite ou desejo de conhecimento: uma pessoa pode abandonar um determinado estudo que constitui para ela uma obrigação e começar «outra investigação menos proveitosa» [ii]. Por exemplo, quando a atenção se centra na resposta a uma mensagem ou à última actualização, em vez de se concentrar no estudo ou no trabalho.

A curiosidade desmedida, que São Tomás caracterizava como uma «inquietação errante do espírito» [iii], pode conduzir à acídia: uma tristeza do coração, um peso da alma que não consegue responder à sua vocação que exige pôr atenção e esforço no convívio com o próximo e com Deus. A acídia é compatível com uma certa agitação da mente e do corpo, mas que só reflecte a instabilidade interior. Por outro lado, o hábito do estudo mantém o vigor à hora de trabalhar e de se relacionar com os outros, dá eficácia ao tempo que gasto e, ainda, ajuda a poder apreciar as actividades que exigem um esforço mental.

j.c. vásconez ‒ r. valdés





[i] São Tomás, S. Th.II-II, q. 166, a. 2 ad 3.
[ii] São Tomás, S. Th.II-II, q. 167, a. 1 resp.
[iii] São Tomás, De Malo, q. 11, a. 4.

21/02/2016

Cultivar a interioridade na era digital

Cultivar a interioridade na era digital - 2 

A virtude da temperança, uma aliada

S. Josemaria indica uma experiência com a qual é fácil identificar-se: "Os assuntos fervilham-me na cabeça nos momentos mais inoportunos...", dizes. Por isso te recomendei que procurasses conseguir uns tempos de silêncio interior... e a guarda dos sentidos externos e internos. [i]. Para conseguir um recolhimento que leve a envolver as potências na tarefa que realizamos, e assim poder santificá-la, é preciso exercitar-se na guarda dos sentidos. E isto aplica-se de modo especial ao uso dos recursos informáticos, que ‒ como todos os bens materiais ‒ se devem empregar com moderação.

A virtude da temperança é uma aliada para conservar a liberdade interior ao movimentar-se pelos ambientes digitais. Temperança é senhorio [ii], porque ordena as nossas inclinações para o bem no uso dos instrumentos com que contamos. Leva a agir de maneira que se empreguem retamente as coisas, porque se lhes dá o seu justo valor, de acordo com a dignidade de filhos de Deus.

Se quisermos acertar na escolha de aparelhos electrónicos, na contratação de serviços, ou, mesmo, ao utilizar um recurso informático gratuito, é lógico que consideremos o seu atractivo ou utilidade, mas também verificar se corresponde a um estilo temperado de viver: isto leva-me a aproveitar mais o tempo, ou vai-me causar distracções inoportunas? As funcionalidades adicionais justificam uma nova compra, ou é possível continuar a utilizar o aparelho que já possuo?

O ideal da santidade implica ir mais além do que é meramente lícito ‒ se se pode… ‒ para perguntar-se: isto, aproximar-me-á mais de Deus? Dá muita luz aquela resposta de São Paulo aos de Corinto: «Tudo me é lícito». Mas nem tudo me convém. «Tudo me é lícito». Mas não me deixarei dominar por nada [iii]. Esta afirmação de autodomínio do Apóstolo tem nova actualidade, quando consideramos alguns produtos ou serviços informáticos que, ao procurar uma recompensa imediata ou relativamente rápida, estimulam a repetição. Saber pôr um limite ao seu uso evitará fenómenos como a ansiedade ou, em casos extremos, uma espécie de dependência. Pode servir-nos neste campo aquele breve conselho: Acostuma-te a dizer que não [iv], atrás do qual se encontra uma chamada a lutar com sentido positivo, como o próprio S. Josemaria explicava: Porque desta vitória interna sai a paz para o nosso coração, e a paz que levamos para os nossos lares – cada um, ao seu – e a paz que levamos à sociedade e ao mundo inteiro [v].

O uso das novas tecnologias dependerá das circunstâncias e necessidades próprias. Por isso, neste âmbito cada um ‒ ajudado pelo conselho dos outros ‒ deve encontrar a sua medida. Deve-se sempre perguntar se o uso é moderado. As mensagens, por exemplo, podem ser úteis para manifestar proximidade a um amigo, mas se fossem tão numerosas que implicassem interrupções contínuas no trabalho ou no estudo, é porque, provavelmente, estaríamos a cair na banalidade e na perda de tempo. Neste caso, o autodomínio ajudar-nos-á a vencer a impaciência e a deixar a resposta para mais tarde, de modo que possamos ocupar-nos de uma actividade que exigia concentração, ou, simplesmente, prestar atenção a uma pessoa com quem estávamos a conversar.

Certas atitudes ajudam a viver a temperança neste âmbito. Por exemplo, conectar o acesso às redes a partir de uma hora determinada, fixar um número de vezes por dia para olhar para a conta de uma rede social ou para ver o correio eletrónico, desligar os dispositivos à noite, evitar o seu uso durante as refeições e nos momentos de maior recolhimento, como são os dias dedicados a um retiro espiritual. A Internet pode consultar-se em momentos e locais apropriados, de modo a não se colocar numa situação de navegar pela internet sem um objectivo concreto, com o risco de deparar com conteúdos que contradizem uma postura cristã da vida ou, pelo menos, perder o tempo com trivialidades.

O convencimento de que as nossas aspirações mais elevadas estão para além das satisfações rápidas que nos poderia dar um click, dá sentido ao esforço por viver a temperança. Através desta virtude, forja-se uma personalidade sólida e a vida ganha então as perspectivas que a intemperança esbate; ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos o que nos pertence, de nos dedicarmos a tarefas grandes [vi].

j.c. vásconez ‒ r. valdés





[i] Sulco, n. 670.
[ii] Amigos de Deus, n. 84.
[iii] 1 Cor 6, 12.
[iv] Caminho, n. 5.
[v] S. Josemaria, Apontamentos tomados numa tertúlia, 28-X-1972.
[vi] Amigos de Deus, n. 84.

20/02/2016

Gerir os recursos informáticos

Cultivar a interioridade na era digital - 1

Chamadas, mensagens, tweets, alertas... telefones e computadores alteraram o nosso acesso à realidade. Como conseguir que sejam uma ajuda para a nossa vida normal ao serviço de Deus e dos outros?
As novas tecnologias aumentaram o volume de informação que recebemos em cada instante e talvez hoje já não nos surpreenda que nos cheguem em tempo real notícias de sítios longínquos. Estar informado e ter dados do que acontece é cada vez mais fácil. Surgem, no entanto, novos reptos, e em particular este: como gerir os recursos informáticos?

O aumento da informação disponível impõe a cada um de nós a necessidade de cultivar uma atitude reflexiva, o que quer dizer, ter a capacidade de discernir os dados que são valiosos, daqueles que o não são. Por vezes é complicado, pois «a velocidade da informação supera a nossa capacidade de reflexão e discernimento, e não permite uma expressão equilibrada e correcta de si mesmo» [i]. Se ao que se referiu se juntar que as tecnologias de informação nos oferecem uma grande quantidade de estímulos que reclamam a nossa atenção (mensagens de texto, imagens, música), é evidente o risco de nos acostumarmos a responder-lhes imediatamente, sem ter em conta a atividade que estávamos a realizar nesse momento.

O silêncio faz parte do processo comunicativo, porque facilita momentos de reflexão que permitirão assimilar aquilo que se capta e dar uma resposta adequada ao interlocutor: «Escutamos e conhecemo-nos melhor a nós mesmos; nasce e aprofunda-se o pensamento, compreendemos com maior clareza o que queremos dizer ou o que esperamos do outro; escolhemos como expressar-nos» [ii].

Na vida cristã, o silêncio tem um papel importantíssimo, pois é condição para cultivar uma interioridade que permite ouvir a voz do Espírito Santo e secundar as suas moções. São Josemaria relacionava o silêncio, a fecundidade e a eficácia [iii], e o Papa Francisco pediu orações «para que os homens e mulheres do nosso tempo, tantas vezes mergulhados num ritmo frenético de vida, redescubram o valor do silêncio e saibam escutar Deus e os irmãos» [iv]. Como conseguir esta interioridade, num ambiente marcado pelas novas tecnologias?

j.c. vásconez ‒ r. valdés





[i] Francisco, Mensagem para a Jornada Mundial das comunicações sociais, 24-I-2014.
[ii] Bento XVI, Mensagem para Jornada Mundial das comunicações sociais, 24-I-2012.
[iii] Cfr. Sulco, nn. 300 e 530.
[iv] Francisco, Intenção geral para o apostolado da oração para Setembro de 2013.

25/01/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


 Tempo Comum
Semana III

Conversão de São Paulo

Evangelho: Mc 16, 15-18

15 E disse-lhes: «Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda a criatura. 16 Quem crer e for baptizado, será salvo; mas quem não crer, será condenado. 17 Eis os milagres que acompanharão os que crerem: Expulsarão os demónios em Meu nome, falarão novas línguas, 18 pegarão em serpentes e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará mal; imporão as mãos sobre os doentes, e serão curados».

Comentário:

A Igreja comemora hoje a conversão de São Paulo e, este trecho do Evangelho de São Marcos é muito apropriado à efeméride que se celebra.

De facto, São Paulo é o Apóstolo “tardio”, quero dizer, o que foi chamado já depois de Jesus Cristo ter subido ao Céu. 
Não fez parte dos Doze iniciais, não percorreu as terras da Palestina na companhia do Mestre ouvindo da Sua boca, como os outros, os ensinamentos e instruções, não assistiu aos Seus milagres, provavelmente, não foi testemunha da Sua Paixão e Morte.

Mas Jesus Cristo chama-o directamente, como relata São Marcos nos Actos dos Apóstolos, e, o homem recto e justo reconhece de imediato a Verdade, descobre o Caminho, encontra a Vida.

(ama, comentário sobre Mc 16, 15-18, 2014.01.25)


Leitura espiritual



Vida cristã

Do contacto virtual às relações pessoais

Que fazer para alcançar a vida eterna?

O Evangelho de São Lucas recolhe esta pergunta, que um doutor da Lei dirigiu a Jesus Cristo [i].

Nosso Senhor convidou o seu interlocutor a fixar-se no que diziam as Escrituras, onde se encontra o mandamento do amor a Deus e ao próximo.

Mas ele, querendo justificar-se, disse a Jesus:

«E quem é o meu próximo? [ii]

O Mestre respondeu com a parábola do bom samaritano, que, posta agora à nossa consideração, nos pode ajudar a alargar o horizonte das relações pessoais, como Jesus fez com aquele doutor da Lei, para incluir todos os homens, sem distinção de classes ou origens.

Ser sinceramente próximos das pessoas que nos rodeiam é um ensinamento que adquire uma especial vigência na nossa cultura, permeada pelas tecnologias de comunicação.

O Papa Francisco recorre ao relato do bom samaritano para assinalar como estas novas realidades se hão-de converter num autêntico lugar de encontro entre pessoas, um meio para viver a caridade com os outros:

«Não basta passar pelas “auto-estradas" digitais, ou seja, estar simplesmente conectados: é necessário que a conexão vá acompanhada de um verdadeiro encontro.
Não podemos viver sós, encerrados em nós mesmos.
Necessitamos de amar e ser amados.
Necessitamos de ternura» [iii].

Actualmente, os momentos em que entramos em contacto com familiares, amigos ou colegas de trabalho, multiplicam-se.
Graças às novas tecnologias, a frequência da comunicação aumenta; é possível conversar com alguém que vive, talvez, a milhares de quilómetros de distância e mesmo partilhar imagens e vídeos sobre o que fazemos nesse mesmo instante.
Face a esta situação, cabe a cada um perguntar o que fazer para que esses gestos sejam, mais do que um simples intercâmbio de informação, um meio para estabelecer relações autênticas, com sentido cristão.


A identidade nas redes


A virtude da sinceridade é imprescindível nas relações sociais. «Os homens não poderiam viver juntos se não tivessem confiança recíproca, quer dizer, se não manifestassem a verdade» [iv], observa São Tomás de Aquino.

Assim, para manter a ordem numa comunidade é indispensável que aqueles que a compõem digam a verdade: de outro modo seria difícil empreender projectos juntos ou confiar num líder, para dar alguns exemplos.
Esta sinceridade abrange não só os actos externos (o preço de um produto, os resultados de uma sondagem, etc.), mas também a identidade das próprias pessoas envolvidas: quem são, qual a sua posição na sociedade, qual a sua história, etc.


Para que as relações com os outros sejam enriquecedoras e duradoiras, é lógico que no mundo digital procuremos apresentar-nos de um modo coerente com o que somos. Isto implica, por exemplo, que a identidade ‒ ou “perfil" ‒ que se cria nas redes sociais reflita o nosso modo de ser e de atuar.
Assim, quem entra em contacto connosco na rede tem a confiança de que os conteúdos que partilhamos correspondem à vida que levamos e que não usaremos esses meios para fins dos quais talvez nos envergonhássemos no mundo “real".

É próprio da condição social do homem que, à medida que as relações crescem e amadurecem – no seio de uma família ou entre amigos ‒ a sinceridade adquira um matiz especial: comunicam-se, não tanto os factos externos, mas o que sucede no mundo interior; expressam-se os próprios gostos, os estados de alma, o modo de ser, opiniões.
E passa a ser fundamental mostrar-se a si próprio com franqueza, sem ocultar a própria identidade.
No contexto actual, esta manifestação costuma apoiar-se nos recursos que oferecem as novas tecnologias: uma mensagem instantânea, uma publicação numa rede social, um correio electrónico.
Por esse motivo, não podemos esquecer que, ao mesmo tempo que partilhamos notícias ou opiniões, também nos estamos a dar a conhecer.

Assim o salientava Bento XVI ao falar das redes sociais:

«As pessoas que participam nelas devem esforçar-se por ser autênticas, porque nesses espaços não se partilham apenas ideias e informações mas, em última instância, são elas próprias o objeto da comunicação» [v].


Proteger as relações humanas


No ambiente digital, além de viver a sinceridade, que leva a não ocultar a própria identidade, a prudência levará a conhecer bem o alcance que têm os aparelhos e aplicações que utilizamos para manter o contacto com os outros, de modo que possamos adotar um estilo comunicativo adequado ao meio.
O público que verá os conteúdos na rede nem sempre será o mesmo, pois por vezes dirigimo-nos a familiares, companheiros, conhecidos, membros de um grupo, etc.
Ao mesmo tempo, estamos conscientes de que as publicações podem ser partilhadas e, eventualmente, alcançar uma visibilidade muito mais ampla do que a inicial (tornou-se uma prática habitual partilhar mensagens ou fotografias de terceiros).
Por vezes, este efeito é precisamente o que se procurava, por exemplo ao dar informação sobre uma notícia positiva ou de iniciativas às quais vale a pena aderir.
No entanto, quando se partilham elementos que têm a ver com a vida pessoal, a difusão excessiva já não é tão desejável.
Além disso, esses conteúdos costumam deixar rastos no ambiente digital e, com certa facilidade, podem ser consultados tempo depois, tendo mudado o contexto que ajudava a entender o que se pretendia dizer.

Definir e controlar limites do público e do privado na rede nem sempre é fácil.
Certamente, os provedores de serviços estão cada vez mais conscientes dessa necessidade e ajuda ter conhecimento das soluções técnicas disponíveis.
No entanto, isso não dispensa da responsabilidade pessoal na gestão da própria informação: as imagens que se partilham na rede, os comentários que se publicam.
Por exemplo, uma frase que na linguagem falada seria entendida como uma piada – pelo tom de voz, pela expressão do rosto, etc. – na rede poderia tornar-se desagradável ou rude.
Uma mensagem escrita, talvez, com precipitação, pode fazer perder o tempo aos outros, ser ambígua em relação aos sentimentos relativamente a outras pessoas, e sem o pretender, poderia gerar uma confusão pouco feliz.

As novas tecnologias e, mais em concreto, as redes sociais estimulam o utilizador a ter um papel activo, criando e alimentando conteúdos. Por isso, convém ser especialmente prudentes ao partilhar elementos que se aproximam da intimidade, própria ou alheia.
Não é uma questão de mero controlo da informação.
Diz respeito, de modo particular, ao sentido do pudor, que leva a salvaguardar a própria intimidade e a dos outros, reservando-se aqueles dados pessoais ou familiares que, postos ao alcance de outros, podem despertar simplesmente a curiosidade e fomentar a vaidade.
 Com autodomínio, é bom perguntar-se, antes de publicar algo que implique mais pessoas, se estas estariam de acordo em aparecer nesse contexto, ou se talvez preferissem que determinados eventos ou situações não fossem mostrados na rede.


Conseguir um diálogo autêntico


«O desenvolvimento das redes sociais requer compromisso: as pessoas envolvem-se nelas para construir relações e encontrar amizade, buscar respostas para as suas questões, divertir-se, mas também para ser estimuladas intelectualmente e partilhar competências e conhecimentos.» [vi].

As redes favorecem o diálogo e com frequência enriquecem-no, pois pode ir acompanhado de imagens e textos alusivos; além disso, permitem interagir com pessoas que se desenvolvem em culturas muito diferentes da própria, em locais longínquos. Esta possibilidade situa-nos diante o repto de estabelecer um diálogo frutífero, conservando a capacidade de reflexão quando a velocidade das conexões parece exigir-nos respostas cada vez mais imediatas. Sem o pretender, poderíamos afectar o diálogo por não saber esperar e considerar as coisas com mais calma.

Como ensina a epístola de São Tiago, o domínio da língua é um acto de verdadeira caridade, pois descontrolada pode causar danos incalculáveis: Vede como um pouco de fogo incendeia um grande bosque! [vii].

Neste sentido, pergunta São Josemaria:

Sabes o mal que podes ocasionar atirando para longe uma pedra com os olhos vendados? [viii]

Se um comentário oral pode ter um efeito imprevisível, quanto cuidado não será necessário ter no ambiente digital, onde se pode difundir a uma velocidade insuspeitada?
Afirmava Bento XVI:

«Os meios de comunicação social necessitam, portanto, do compromisso de todos aqueles que estão conscientes do valor do diálogo, do debate racional (…); de pessoas que procuram cultivar formas de discurso e de expressão que apelem às mais nobres aspirações de quem está envolvido no processo comunicativo» [ix].

Neste contexto daremos um testemunho cristão se na rede nos empenhamos em viver uma especial delicadeza, adotando um estilo positivo e respeitoso na rede.


Amizade e apostolado na rede


É natural que quem recebeu o dom da fé deseje partilhá-la, com respeito e sensibilidade, com aqueles com quem interage no ambiente digital, já que temos que conquistar, para Cristo, todos os valores humanos que sejam nobres [x].

É uma consequência do ser cristão, que leva a difundir o Evangelho através dos canais que tem à sua disposição.
No entanto, para transmitir a mensagem cristã, convém conhecer as peculiaridades do meio que se utiliza e como funcionam as relações que aí se estabelecem.
A caridade leva, mais do que ao envio de mensagens religiosas explícitas a uma lista de contactos, a interessar-se pelas pessoas e ajudar cada uma, dentro e fora da rede.



Quem conta com suficiente preparação – também técnica – pode difundir a fé através do ambiente digital.
Em qualquer caso, convém ter em conta sempre o impacto real que estes meios têm, evitando perder energias que caberia investir noutras iniciativas de maior impacto apostólico.
De facto, existem meios simples e eficazes para influir na sociedade que estão ao alcance de todos, como reenviar alguma notícia ou artigo positivo e enviar mensagens ao autor de uma publicação.
Com esta perspectiva, e tendo em conta as próprias circunstâncias pessoais, saberemos dar a justa dimensão às novas tecnologias, mediante um uso adequado, virtuoso, próprio de um cristão corrente no meio do mundo.

As novas tecnologias são um novo canal para expressar a amizade.

Nessa medida, também podem contribuir para aquilo que São Josemaria chamava o apostolado de amizade e de confidência [xi] onde através do trato pessoal, de uma amizade leal e autêntica, se desperta nos outros a fome de Deus ajudando-os a descobrir horizontes novos [xii].

Por vezes uma rede social foi o meio para recuperar o trato com um antigo companheiro, ou para manter a relação com alguém que mudou de residência.
No entanto, temos a experiência de que as relações pessoais se forjam especialmente durante a convivência no mundo real, e não podemos esquecer que o apostolado cristão conta especialmente com o contacto directo, pois «o Evangelho convida-nos sempre a correr o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com a sua dor e os seus pedidos, com a sua alegria que contagia» [xiii].


O desejo sincero de transmitir o tesouro da fé impulsionará os cristãos a sair ao encontro dos outros, num autêntico trato apostólico, que sabe servir-se de todos os meios de que dispõe ao seu alcance, também os digitais.

r. valdés

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Cfr. Lc 10, 25ss.
[ii] Lc 10, 29.
[iii] Francisco, Mensagem para a Jornada Mundial das comunicações sociais, 24-I-2014.
[iv] São Tomás, S. Th. II-II, q. 109, a. 3 ad 1.
[v] Bento XVI, Mensagem para a Jornada Mundial das comunicações sociais, 24-I-2013.
[vi] Bento XVI, Mensagem para a Jornada Mundial das comunicações sociais, 24-I-2013.
[vii] Tg3, 5.
[viii] Caminho, n. 455.
[ix] Bento XVI, Mensagem para a Jornada Mundial das comunicações sociais, 24-I-2013.
[x] Forja, n. 682.
[xi] Temas actuais do cristianismo, n. 66.
[xii] Cristo que passa, n. 149.
[xiii] Francisco, Exhort. apost. Evangelii gaudium, 24-XI-2013, n. 88.