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31/12/2017

Leitura espiritual

MARIA, A MÃE DE JESUS 8


A DEVOÇÃO A MARIA SANTÍSSIMA

O nosso relacionamento, a nossa intimidade com Maria é essencialmente filial. O vínculo filiação-maternidade “determina sempre – como lembra a Encíclica Redemptoris Mater – uma relação única e irrepetível entre duas pessoas: da mãe com o filho e do filho com a mãe” [i]. E a medula desse vínculo, evidentemente, é o amor. Por isso, só perguntando-nos pelas características que tornam autêntico esse amor é que descobriremos os traços da verdadeira devoção a Maria Santíssima. Com isso, perceberemos também melhor o que Deus quis que representasse para nós o imenso dom que nos fez, dando-nos Maria como Mãe. Comecemos pelos aspectos dessa devoção que se nos impõem de maneira mais imediata. Um cristão que vive de fé sabe que Maria o ama e o auxilia com carinho de Mãe. Sabe-a voltada maternalmente para ele. É natural que, dessa certeza, flua espontaneamente uma sincera afeição filial. “Nada convida tanto ao amor – comenta São Tomás – como a consciência de sentir-se amado” [ii].
A devoção mariana manifesta-se, por isso, em mil expressões, delicadas e fervorosas, de carinho de filho: no tom afetuoso da oração que dirigimos a Ela, na alegria de visitá-la nos lugares onde se quis fazer especialmente presente, nos muitos pormenores íntimos do coração, que o pudor vedaria externar. Juntamente com esse afeto filial, e impregnando-o intimamente, brota também espontaneamente um sentimento de profunda confiança. “Nunca se ouviu dizer – reza uma bela oração atribuída a São Bernardo – que algum daqueles que tivesse recorrido à vossa proteção, implorado a vossa assistência, reclamado o vosso socorro, fosse por Vós desamparado”. Esta certeira confiança dos fiéis exprimiu-se num leque multicolorido de invocações marianas, que traduzem a segura experiência do coração cristão: Mãe de misericórdia, Virgem poderosa, Auxílio dos cristãos, Consoladora dos aflitos, Onipotência suplicante... Era essa a confiança que fazia Dante escrever estes preciosos versos: Donna, se' tanto grande e tanto vali, / che qual vuol grazia e a te non ricorre, / sua disianza vuol volar sanz'ali; “Senhora, és tão grande e tanto podes, que para quem quer graça e a ti não recorre, o seu desejo quer voar sem asas” [iii]. Amor e confiança. Trata-se de sentimentos com fortes raízes no coração. Ora é bem sabido que os afectos do coração possuem muitas vezes uma sutil ambivalência: são sentimentos que a custo se equilibram na difícil passarela onde o amor beira sempre o egoísmo. Não é raro que os muito sentimentais sejam também muito egoístas. Por isso, se a devoção a Maria não estivesse fundamentada nos alicerces da fé – da doutrina – e da caridade, poderia deslizar imperceptívelmente para os declives do egoísmo. Tal coisa aconteceria no caso de uma devoção meramente sentimental – não animada por desejos de entrega e de amor operante – que, embora cheia de efusões de ternura, não incidisse fortemente na vida para modificá-la. Mais facilmente ainda se daria essa deturpação se a devoção mariana se reduzisse a um simples recurso para alcançar uma “proteção” ou uns “favores” meramente interesseiros. Esses desvios, contudo, não se darão se o nosso amor filial a Maria entrar, como deve, em sintonia com o seu amor maternal. Pensemos que o coração da nossa Mãe, “cheia de graça”, é uma fornalha ardente de caridade, de amor a Deus e aos homens. Nele se encontra, em medida quase infinita, a caridade derramada pelo Espírito Santo [iv]. Isto significa que quem se aproximar dEla com um coração reto e sincero se sentirá necessariamente impelido para o amor a Deus e ao próximo. Este é o segredo divino da devoção a Maria. Foi de fato para nos facilitar a entrega a esse duplo amor – o mandamento que resume todos os outros – que Deus, em sua misericórdia, quis dar-nos Maria como Mãe. É por isso que a devoção a Maria, bem vivida, é sempre como um sopro – fecundo, cálido e suave – que acende o amor na alma, inflama a generosidade e move a abraçar sem reservas a vontade de Deus. “Se procurarmos Maria, encontraremos Jesus”, diz Mons. Escrivá, fazendo-se eco da tradição cristã [v].

No fundo de tudo o que a Virgem Santíssima sugere ao coração dos homens, sempre pulsam as suas palavras em Caná: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. A verdadeira devoção é, por isso, radicalmente “cristocêntrica” – conduz a Cristo –, é “teocêntrica”. Nossa Senhora vive e faz viver em função de Jesus. Não pode haver aí nem sombra de “idolatria”. Ao mesmo tempo, é claro que, se Maria nos leva a Jesus, indefectívelmente nos aproxima também dos nossos irmãos, que são irmãos de seu Filho e filhos dEla. Ela é a Mãe comum que nos faz sentir fraternalmente vinculados em Cristo, membros da família de Deus [vi], e nos desperta na alma ânsias de doação e de serviço aos outros. O Coração de Maria infunde calor e força ao amor dos irmãos. Como vemos, se a Virgem Santíssima nos auxilia – e esta é a sua missão maternal –, é única e exclusivamente para nos colocar mais plenamente em face das exigências da nossa vocação cristã. É com este fim que Ela intercede por nós junto de Deus e distribui as graças que o Senhor colocou em suas mãos. Mesmo os favores maternos que Ela nos obtém em pequenas coisas – como em Caná – são incentivos de carinho que nos ajudam a agradecer e a retribuir a Deus as suas bondades. Em qualquer caso, Ela estende a sua mão para nos elevar – suave e fortemente – até à meta da nossa vocação cristã, que é a santidade. Com razão se pode afirmar, por isso, que o amor de Maria por seus filhos é simultaneamente doce e exigente. “Nossa Senhora, sem deixar de se comportar como Mãe, sabe colocar os seus filhos em face de suas precisas responsabilidades. Aos que dEla se aproximam e contemplam a sua vida, Maria faz sempre o imenso favor de os levar até a Cruz, de os colocar bem diante do exemplo do Filho de Deus. E nesse confronto em que se decide a vida cristã, Maria intercede para que a nossa conduta culmine com uma reconciliação do irmão menor – tu e eu – com o Filho primogênito do Pai” [vii]. A Jesus “se vai” por Maria, e a Jesus “se volta” por Ela, diz Caminho [viii].
Quando, ao rezar a Ave-Maria, nós lhe pedimos “rogai por nós, pecadores”, fazemo-lo com a consciência de que demasiadas vezes nos afastamos de Deus e, como o filho pródigo, precisamos voltar para a casa do Pai. Maria torna suave, também, e esperançado esse retorno. Não é verdade que, perto da Mãe, nos tornamos a sentir crianças? Despojamo-nos da nossa triste armadura de adultos, forjada pelo orgulho, pela vergonha ou pela decepção. E então o fardo das nossas misérias já não nos esmaga. Com Maria, sentimo-nos crianças reanimadas pela ternura da Mãe, alegres por descobrir que, para um filho pequeno, sempre é possível levantar-se, sempre é possível recomeçar, sempre é hora de esperar. Ela é a porta perpetuamente aberta na Casa do Pai. A Estrela da manhã, a Estrela do mar, a nossa Mãe, guia-nos por toda a estrada da vida, passo a passo, na bonança e na tormenta, nos avanços e nas quedas, até alcançarmos o repouso definitivo no coração do Pai. Nunca percamos de vista que “foi Deus quem nos deu Maria: não temos o direito de rejeitá-la, antes pelo contrário, devemos recorrer a Ela com amor e com alegria de filhos” [ix]. Há um antigo adágio teológico que diz: De Maria numquam satis, isto é, “nunca diremos o bastante de Maria”. Nestas páginas, tentamos aproximar-nos do esplendor do mistério de Maria. Pudemos captar apenas alguns dos seus fulgores. Mas, para alcançarmos uma luz mais plena, devemos imitar a Santíssima Virgem, procurando como Ela “guardar, meditando-as no coração” [x], todas as coisas que Deus nos quis dizer acerca de Maria. Então compreenderemos cada vez melhor por que a Igreja aplica a Nossa Senhora estas palavras do livro dos Provérbios: Aquele que me achar encontrará a Vida e alcançará do Senhor a salvação [xi].

FRANCISCO FAUS.




[i] Enc. Redemptoris Mater, n. 45
[ii] cfr. São Tomás de Aquino, Summa contra gentes, IV, XXIII
[iii] Dante Alighieri, Divina Comédia, Par. XXXIII, 13-15
[iv] cfr. Rom 5, 5
[v] Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, cit., pág. 190
[vi] cfr. Ef 2, 19
[vii] Josemaría Escrivá, ib., pág. 195
[viii] Josemaría Escrivá, Caminho, cit., n. 495
[ix] Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, cit., pág. 189
[x] cfr. Lc 2, 51
[xi] Prov 8, 35

30/12/2017

Leitura espiritual

MARIA, A MÃE DE JESUS 7


DO ALTO DA CRUZ

Caná é o início da vida pública de Cristo. O sacrifício da Cruz é o seu fecho e a sua culminação. Procuremos agora aproximar-nos do coração de Maria e tentemos captar o que “Maria guardava no coração” naquela hora em que a salvação da humanidade se consumava por meio do sacrifício redentor de Jesus Cristo. São João descreve a presença de Maria ao pé da Cruz, junto das santas mulheres, com uma palavra cheia de têmpera: stabat. Literalmente, significa “estar firme, de pé”. Mas o termo indica muito mais do que um simples modo de permanecer. A expressão original empregada pelo Evangelho sugere um conteúdo moral, isto é, que Maria acompanhava o sofrimento do Filho com fortaleza de alma; e que, no seu coração, não só havia inteireza, mas adesão. Nessa “hora” definitiva, em que o Filho dá a vida para a salvação de muitos [i], a atitude espiritual de Maria é exatamente a mesma que no dia da Anunciação: fiat, “faça-se”. Adesão incondicional, plena, à vontade de Deus, e concretamente ao plano salvífico que Cristo está realizando no mundo, plano no qual Ela foi chamada a colaborar da forma mais estreita. Podemos dizer que o fiat, a união com a vontade de Deus – como já mencionávamos anteriormente – é a alma de Maria. Aquilo que faz dela a Mãe, no sentido mais profundo, não é apenas nem primariamente o fato de ter gerado fisicamente Jesus, mas de se ter unido perfeitamente à vontade de Deus em cada um dos instantes da vida e da missão do Filho. Lembremo-nos de que, certo dia, quando uma mulher da multidão louvou em voz alta o ventre que te trouxe e os peitos que te amamentaram, Jesus lhe respondeu: Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática [ii].
Teria com isso desviado de Maria o louvor espontâneo daquela mulher? Não, sem dúvida, pois porventura não foi a Virgem quem melhor ouviu e cumpriu a palavra de Deus? Com essas palavras, Cristo mostrava de fato qual é a mais profunda razão para louvá-la. Análogo sentido se deve ver no comentário, frio e distante na aparência, feito por Jesus certa vez em que lhe advertiram que sua Mãe acabava de chegar: Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe [iii].
Ao pé da Cruz, a adesão de Maria à vontade divina atinge o seu cume. A Virgem Santa conhecia bem – como todo o judeu piedoso – as profecias que, de um fundo de séculos, prenunciavam o Messias como “Servo sofredor”, que seria levado à morte como manso cordeiro conduzido ao sacrifício: pelas suas chagas, todos nós seríamos curados [iv]. Por isso, ao dizer “faça-se” ao Anjo, Ela aceitara o destino do seu Filho. Quando o apresentou no Templo a Deus Pai – já o lembrávamos antes –, o seu gesto foi uma antecipação do oferecimento definitivo que iria fazer ao pé da Cruz, aceitando a Paixão e a Morte de seu Filho pela nossa salvação; mais ainda, oferecendo voluntariamente – com a alma transpassada de dor e numa completa generosidade – o sacrifício de Jesus por nós, Maria – por amor a Deus e por amor aos homens necessitados de redenção – aceitou morrer de dor, no íntimo da sua alma, juntamente com Cristo. Uniu-se assim ao seu sacrifício redentor e assumiu-o como próprio. Por isso é chamada Corredentora. Foi, de fato, na Cruz que Cristo, dando a sua vida, mereceu para nós a vida divina da graça. O seu holocausto de Amor, por ter um valor infinito – divino –, é uma inesgotável fonte de méritos em favor dos homens. Pois bem, o Salvador quis associar tão intimamente a sua Mãe bendita ao sacrifício da Redenção que a Igreja pode afirmar que Maria mereceu com “mérito de conveniência” – como se diz na linguagem teológica – todas as graças que Jesus nos mereceu por justiça na Cruz [v]. Ela é, também por este título, a “Mãe da divina graça”. A vida sobrenatural, que brota copiosamente da Cruz, também é, de alguma maneira, vida dEla, vida que recebemos por Ela: isso a torna mais profundamente a nossa Mãe. Convém lembrar ainda que Jesus Cristo, com os seus padecimentos, pagou – expiou, satisfez – pelos nossos pecados: Fostes resgatados – escreve São Pedro – (...) pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e sem mancha [vi].
A Virgem Imaculada, unindo-se totalmente aos sofrimentos do Filho – com os mesmos sentimentos de Cristo Jesus [vii] – aceitou, com amor imenso, pagar também Ela com a sua própria dor pelos nossos pecados. Junto da Cruz, entregou a sua alma, fundida com o sacrifício de Jesus, pela nossa salvação [viii].
A dilacerante agonia do seu coração, junto do Crucificado, foi então como que um novo parto – desta vez com dor –, através do qual Maria nos deu à luz espiritualmente. Não se trata de uma frase poética, mas de uma inefável realidade: todos e cada um de nós nascemos de Maria naquele momento. Aí, perto da árvore da Cruz, Ela se tornou plenamente a “nova Eva”, a nova e verdadeira “mãe dos viventes”, como gostava de repetir a piedade mariana dos primeiros séculos [ix].

EIS O TEU FILHO

Logo após as palavras pronunciadas por Cristo na Cruz – “eis a tua Mãe”, “eis o teu filho” – , conta o Evangelho que desta hora em diante, o discípulo a levou para sua casa [x]. Esse “discípulo” – já o víamos no começo destas páginas – representava todos os discípulos: os que na altura seguiam Jesus e todos os homens chamados depois a segui-Lo, fazendo parte do Povo de Deus que é a Igreja. O facto de o discípulo ter assumido ao pé da letra a “filiação” a Maria, “levando-a para sua casa”, reflete bem a intenção de Cristo – que João compreendeu – de que a Igreja, a que São Paulo chama o Corpo de Cristo [xi], tivesse a sua existência inseparavelmente unida à Mãe de Jesus. Ela é a Mãe da Cabeça deste Corpo – de Cristo –, e é a Mãe dos membros deste Corpo, que somos nós. É a Mãe da Igreja, do “Cristo total”, como gostava de dizer Santo Agostinho. Na mente de Deus, portanto, a Igreja é concebida também como uma família, como um lar que tem uma Mãe. No centro dessa família, pulsa o Coração da Virgem e nela irradia o aconchego da sua maternidade. É muitíssimo significativo que a Igreja tenha nascido no dia de Pentecostes, quando os discípulos e as santas mulheres estavam reunidos – em união de corações e de preces – com Maria, a Mãe de Jesus [xii].
São Lucas, o evangelista que melhor captou o papel de Maria no começo da vida do Redentor, é o mesmo que nos Atos dos Apóstolos sublinha a presença central de Nossa Senhora nos começos da vida da Igreja, mostrando que a Igreja recebeu o Espírito Santo – a sua alma divina – estando aglutinada como uma família em volta da Virgem Santíssima.

O CORAÇÃO DE MARIA NO TEMPO E NA ETERNIDADE

Havia de chegar, porém, um dia em que a presença de Maria já não seria visível para os olhos dos seus filhos. Deus a chamou a Si. João, o discípulo-filho por excelência, a vislumbrará então gloriosa – Mãe, sempre Mãe – no céu. Assim descreve a sua visão no livro do Apocalipse: Depois, apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça. Estava grávida e clamava com dores de parto... [xiii].
Adivinha-se nesta imagem celeste a Virgem-Mãe, aquela que víamos associada ao sacrifício de Jesus, dando à luz com dor os filhos de Deus. A visão de São João mostra-nos que, desde que foi glorificada no céu – Rainha coroada de estrelas –, Maria continua a ser Mãe de todos os homens, dos filhos de Deus e irmãos de Jesus Cristo, até o fim dos séculos. Uma das mais doces verdades da nossa fé é o mistério da Assunção de Nossa Senhora em corpo e alma aos céus. A cheia de graça, a que nunca pecou, não podia ficar sujeita à corrupção da morte, estabelecida por Deus como castigo do pecado. Por isso, a Igreja definiu solenemente – expressando uma verdade que, desde tempos antiquíssimos, era património da fé do povo cristão – que “a Imaculada Mãe de Deus, sempre Virgem Maria, completado o curso da sua vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória do Céu” [xiv].
Eis a consoladora verdade: a nossa Mãe Santa Maria, na glória do céu, está agora junto da Trindade Santíssima em corpo e alma. Compreendemos bem o que isto significa? Quer dizer que Maria vive no céu a cuidar de nós, a olhar-nos, a interceder por nós, com o mesmo coração, com os mesmos sentimentos e com os mesmos afetos que tinha na terra. Não é um puro espírito. É uma Mãe humana, glorificada, mas plenamente humana. Agora, junto de Deus, Ela contempla – na luz da glória divina – todos e cada um dos seus filhos, em todos e cada um dos momentos da sua existência, e olha por eles: nas horas de alegria e de dor, nos transes difíceis, nos tempos de solidão, nas suas quedas e nos seus reerguimentos... Não há um passo da nossa vida, não há um latejar do nosso coração, que não esteja sendo acompanhado amorosamente pelo Coração humano da nossa Mãe. E não há um passo que não esteja sendo assumido – visto e sentido como algo próprio – por esse Coração. Contemplando este mistério delicado, Mons. Escrivá aponta-nos uma das suas consequências: “Surge assim em nós, de forma espontânea e natural, o desejo de procurarmos a intimidade com a Mãe de Deus, que é também a nossa Mãe; de convivermos com Ela como se convive com uma pessoa viva, já que sobre Ela não triunfou a morte, antes está em corpo e alma junto de Deus Pai, junto de seu Filho, junto do Espírito Santo” [xv]. É nesse clima de intimidade filial que discorre a devoção a Nossa Senhora.

(cont)

FRANCISCO FAUS. [xvi]




[i] Mt 20, 28
[ii] Lc 11, 27-28
[iii] Mc 3, 35
[iv] cfr. Is 53, 1-7
[v] cfr. São Pio X, Enc. Ad diem illum, de 02.02.1904; in Enchiridion Symbolorum, cit., n. 1978a
[vi] I Pedr. 1, 18-19
[vii] cfr. Fil 2, 5
[viii] cfr. Const. Lumen Gentium, n. 58
[ix] cfr. Aldama, op. cit., págs. 264 ss.
[x] Jo 19, 27
[xi] Col 1, 18
[xii] Act 1, 14
[xiii] Apoc 12, 1-2
[xiv] Pio XII, Const. Ap. Munificentissimus Deus, de 01.11.1950, in Enchiridion Symbolorum, cit., n. 2333
[xv] Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, cit., pág. 187
[xvi] MARIA, A MÃE DE JESUS QUADRANTE, São Paulo Copyright © 1987 Quadrante, Sociedade de Publicações Culturais

29/12/2017

Leitura espiritual

MARIA, A MÃE DE JESUS 6


DIMENSÕES DA MATERNIDADE DE MARIA

Tem-se afirmado com muita frequência que o Evangelho mariano por excelência é o de São Lucas. Nele, com efeito, encontramos a maior parte das informações que possuímos sobre a infância e a vida oculta de Cristo. No entanto, parece que não falta razão aos que, sem diminuírem em nada o valor ímpar das passagens marianas de São Lucas, pensam que é o Evangelho de São João que penetra com maior profundidade no mistério de Maria. No Evangelho de João, não encontramos nenhuma referência – a não ser muito indireta – às primeiras etapas da vida de Cristo. Após elevar-se, no prólogo, até às alturas da contemplação do mistério de Deus feito homem, João passa logo em seguida a narrar episódios da vida pública do Senhor. Que nos diz acerca de Maria? Se prestarmos atenção, perceberemos que as contadas referências que João faz à Virgem Santíssima não são, primordialmente, narrações de passagens da “vida de Maria”. João focaliza Maria apenas em alguns momentos de grande significação em que Ela está presente na missão de Jesus. Descreve esses momentos – esses fatos – no estilo sóbrio e objetivo que caracteriza todos os Evangelhos, mas a sua narração, sem dúvida alguma, vai além dos fatos: capta e transmite-nos uma “mensagem”. Percebe-se, nesses textos do seu Evangelho, que João compreendeu – e quer fazer entender aos seus leitores – a importância atribuída por Deus à colaboração de Maria nas etapas mais decisivas da missão salvadora de Cristo. São aqueles três anos em que Jesus se volta – e é da maior relevância atentar para isto – de maneira direta e total para os homens necessitados de salvação: anunciando-lhes que se completou o tempo e o Reino de Deus está próximo [i], atraindo-os para a luz da Verdade e entregando-se na Cruz para o seu resgate. Duas importantes cenas marianas emolduram, como intensos pontos de luz, o começo e o final da vida pública de Cristo no Evangelho de São João: o milagre das bodas de Caná, e as palavras dirigidas por Jesus a Maria e ao discípulo amado do alto da Cruz. Antes de focalizarmos com algum vagar essas cenas, podemos adiantar que é a partir do início da vida pública que vemos desvendar-se com a maior clareza uma especial “dimensão” da maternidade de Maria. Até o fim da vida oculta, essa maternidade concentrava-se primordialmente – quase exclusivamente – no Filho, em Jesus. Mal começa a vida pública, porém, contemplamos essa maternidade alargando-se, abrindo-se para os homens que Jesus veio salvar. Vai-se revelando assim mais plenamente a maternidade espiritual de Nossa Senhora em relação a todos e cada um dos homens [ii].
As duas passagens-chave de São João, antes citadas, projetam esclarecimentos decisivos sobre esta dimensão da maternidade de Nossa Senhora.

MARIA EM CANÁ DA GALILEIA

Quando Jesus, juntamente com sua Mãe, foi convidado às bodas de Caná, era ainda muito recente a vocação dos Apóstolos. Já começavam a acompanhar o Mestre e, conforme o costume da época, foram convidados também para o casamento [iii].
A cena é conhecida. Num dado momento da ruidosa festa campesina, fica faltando vinho. Ninguém o percebe. Ninguém, a não ser Maria. Com delicada intuição, pressente que a alegria dos esposos pode ficar toldada por uma imprevidência. Maria faz “seu” o problema, assume-o com sensibilidade materna, com um interesse impregnado de coração. E não hesita em falar confiadamente a Jesus: Não têm vinho. As suas palavras não são um simples comentário preocupado, mas encerram um discreto pedido. Assim o entende Jesus, quando lhe responde: Que importa isso a mim e a ti, mulher? Ainda não chegou a minha hora. A nossa lógica bem-comportada subscreveria as palavras de Jesus. Elas têm a aparência de uma compreensível e amável censura a um pedido saído do coração, mas pouco razoável. Maria, no entanto, não as entende assim. E Ela é quem tem a sintonia mais perfeita com a alma do Filho. Por isso, não duvida em solicitar imediatamente aos que servem: Fazei tudo o que Ele vos disser. Mostra saber que será escutada, sem que para isso possa ser obstáculo a dificuldade muito ponderável mencionada por Jesus: “Não chegou a minha hora”. O atendimento de Jesus ao pedido da Mãe não demora. Sob o olhar sorridente de Maria, Cristo manda aos servidores que encham de água seis grandes recipientes de pedra. Ordena-lhes depois que tirem a água já convertida em vinho e a apresentem ao mestre-sala, que não sai do seu assombro por julgar que os donos da festa tinham deixado o bom vinho guardado até agora. A cena termina com um comentário de João: Este primeiro milagre, fê-lo Jesus em Caná da Galileia, e manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele [iv].
Falávamos há pouco da “mensagem” encerrada no fato que se acaba de sintetizar. Ela aparece aí de maneira muito clara. É patente que Maria está ativamente presente no começo do ministério público de Cristo, e está presente de uma forma central, não marginal. Prestemos atenção: * É por intercessão dEla que Cristo adianta misteriosamente a “hora” de iniciar os seus milagres, que serão “sinais” [v] da sua divindade e testemunhos visíveis da veracidade da sua doutrina. É por intercessão dEla que este primeiro sinal faz com que os discípulos creiam em Jesus. 
Finalmente, manifesta-se nesse instante a disposição de Jesus de acolher todos os pedidos que, mesmo em coisas pouco relevantes – “não têm vinho” –, cheguem a Ele por intermédio da solicitude da Mãe, que se mostra amorosamente atenta às necessidades espirituais e materiais dos homens, seus filhos. “Maria – comenta a propósito desta cena João Paulo II – põe-se de permeio entre o seu Filho e os homens na realidade das suas privações, das suas indigências, dos seus sofrimentos. Põese de permeio, isto é, faz de mediadora, não como uma estranha, mas na sua posição de mãe, consciente de que como tal pode – ou antes, “tem o direito de” – fazer presentes ao seu Filho as necessidades dos homens (...) E não é tudo: como Mãe, deseja também que se manifeste o poder messiânico do Filho, ou seja, o seu poder salvífico que se destina a socorrer as desventuras humanas, a libertar o homem do mal que, sob diversas formas e diversas proporções, faz sentir o peso na sua vida”. Contemplando esta passagem do Evangelho, a imaginação evoca algumas das cenas mais simples da piedade popular, que por vezes escandalizam os “sábios”. Como num filme, focalizamos mentalmente os rostos enxutos, requeimados pelo sol do sertão, de um grupo de romeiros que acaba de descer do ônibus na esplanada do Santuário de Aparecida. Os devotos, entrando na basílica, cravam o olhar esperançado no retrato da Mãe, a pequenina imagem de barro escurecido. E, de cada coração, eleva-se uma súplica: pelas necessidades cotidianas, pela saúde, pela volta ao bom caminho do marido, de um filho... “Dai-nos a bênção, ó Mãe querida!” Eles sabem por dentro, têm a certeza, de que – assim como em Caná – a Virgem Santa não deixará de dizer ao Filho: “Não têm...”. E o Filho a atenderá, o Filho lhe “obedecerá”... Não é evidente a sintonia existente entre a sincera devoção popular e o Santo Evangelho? Em Caná, Cristo disse com atos, mais expressivos do que as palavras, que, na realização da sua obra salvadora em favor dos homens, deseja que ocupe um lugar de destaque a mediação maternal de sua Mãe. Não era necessário que fosse assim, mas Deus quis que assim fosse. Maria tem verdadeiramente uma função de mediação materna entre Cristo e os homens. Não é certamente uma função autônoma, nem obscurece o fato incontestável de que Jesus Cristo é o único Mediador propriamente dito entre Deus e os homens [vi]. Mas, mesmo assim, fica em pé a existência de uma autêntica mediação de Maria, subordinada mas entranhadamente unida à mediação de Cristo [vii].
A mediação de Maria está nos desígnios de Deus. Não foi imaginada pela devoção dos cristãos, em épocas mais ou menos tardias. Pelo contrário, foi sendo descoberta pela fé, cada vez com maior profundidade, como um tesouro escondido, o que é muito diferente. Bem entendia esta verdade São Bernardo, o “trovador da Virgem”, quando pregava que Maria é “o aqueduto que, recebendo a plenitude da própria fonte do coração do Pai, no-la faz acessível... Com o mais íntimo, pois, da nossa alma, com todos os afetos do nosso coração e com todos os sentimentos e desejos da nossa vontade, veneremos Maria, porque esta é a vontade daquele Senhor que quis que tudo recebêssemos por Maria” [viii].
Antes de concluirmos o comentário às bodas de Caná, detenhamo-nos por uns instantes a olhar outras riquezas dessa cena. Tem sido observado, e com razão, que nessa passagem de Caná se encontram as únicas palavras dirigidas por Maria aos homens que o Evangelho registra: “Fazei tudo o que Ele vos disser” [ix].
Aí está o sentido da mediação de Maria: levar as almas para Cristo, mover os corações dos homens a aderir à vontade de Cristo e a “fazê-la” de facto: “tudo o que Ele vos disser”. Ao mesmo tempo, aí se compreende qual é o eixo da verdadeira devoção a Nossa Senhora, e o teste da sua autenticidade. A autêntica devoção a Maria sempre conduz a Cristo. É função do amor maternal de Maria “gerar” constantemente “irmãos” de seu Filho, que se disponham a viver até às últimas consequências a verdade e a vida que Jesus lhes oferece. Por isso, a devoção a Maria Santíssima não só não afasta ou desvia as almas da união com Cristo pela fé e pelo amor – e nisso reside a essência da vida cristã –, mas a facilita sobremaneira, tornando-a mais acessível e mais suave, e também mais eficaz. “A Jesus, sempre se vai e se «volta» por Maria” [x]. “A nossa alma – diz São Luís Maria Grignion de Montfort – só encontrará Deus em Maria... Só Deus habita nela e, longe de reter uma alma para si, Ela – muito ao contrário – a impele para Deus e a une a Ele” [xi].

(cont)

FRANCISCO FAUS. [xii]




[i] Mc 1, 15
[ii] Enc. Redemptoris Mater, n. 21
[iii] cfr. Jo 2, 2
[iv] cfr. Jo 2, 1-11
[v] cfr. Jo 6, 26
[vi] cfr. I Tim 2, 5
[vii] cfr. Const. Lumen Gentium, n. 62
[viii] São Bernardo, Sermo in Nativitate B. V. Mariae; in Migne, Patrologia Latina, 183, 437, ns. 4 e 7
[ix] Jo 2, 5
[x] Josemaría Escrivá, Caminho, 6ª. ed., Quadrante, São Paulo, 1983, n. 495
[xi] Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, Ed. Secrétariat de Marie Médiatrice, 4ª. ed., Lovaina, 1952, cap. I, art. 1
[xii] MARIA, A MÃE DE JESUS QUADRANTE, São Paulo Copyright © 1987 Quadrante, Sociedade de Publicações Culturais

28/12/2017

Leitura espiritual

MARIA, A MÃE DE JESUS 5


A MÃE DO REDENTOR

Considerávamos nas páginas anteriores o facto da maternidade divina de Maria: Ela é verdadeira Mãe de Deus.
Agora vamos dar mais um passo, adentrando no mistério dessa maternidade e procurando ver o seu alcance, as suas dimensões.
Vimos que Maria não foi meramente receptora passiva das graças e dons de Deus. Foi “chamada” por Deus para ser a Mãe do Seu Filho, e correspondeu ao chamamento com um amor livre e uma entrega total. Poderia ter recusado. Não o fez. Pela sua livre e completa correspondência, quis ser Mãe. “Jesus nasceu – escreve Guitton – do consentimento de Maria” [i].
Não há dúvida de que Deus, querendo a resposta livre de Maria, mostrou que desejava contar com a sua cooperação para realizar a Redenção da humanidade.
O Concílio Vaticano II, na Constituição Lumen Gentium, expressa com clareza este desígnio de Deus: “É com razão que os Santos Padres consideram Maria não como um mero instrumento passivo, mas julgam-na cooperando para a salvação humana com livre fé e obediência. Pois Ela, como diz Santo Irineu, «obedecendo, fez-se causa de salvação tanto para si como para todo o gênero humano» [ii].
Esta colaboração de Maria não ficou limitada ao momento do “faça-se”, no dia da Anunciação, mas acompanhou todas as etapas da vida e da missão salvadora de Cristo, “desde o momento da sua conceição virginal até o momento da sua morte” [iii].

A VIDA OCULTA DE CRISTO

Pensemos, primeiro, na infância de Jesus.
Foi um período em que Deus confiou o seu Filho inteiramente aos cuidados de Maria. Dela Jesus dependia em tudo, como qualquer criança depende de sua mãe: da sua solicitude, do seu amor, da sua dedicação. Podemos até dizer que, falando humanamente, Jesus Menino subsistia ao amparo da maternidade de Maria. E foi no clima desse amor materno – e do aconchego dado também pelo amor de São José – que o Menino cresceu e se desenvolveu. Mas, já na infância o papel de Maria vai além dessa dedicação materna.
Por acaso já reparamos que foi precisamente a Virgem Santíssima quem, pela primeira vez, manifestou Jesus aos homens como seu Salvador?
É um facto. A graça de Cristo em favor dos homens começou a actuar no mundo pelas mãos de Maria. Foi aos pés de Nossa Senhora que desabrochou a fé dos pastores e dos Magos, os primeiros adoradores daquele recém-nascido que, como anunciaram os Anjos na noite de Natal, “é o Cristo, o Senhor” [iv].
Como é significativo que Deus tenha disposto que os primeiros encontros das almas com Jesus ocorressem através da Mãe! Vislumbra-se aí um desígnio divino, que o Evangelho irá explicitando cada vez mais. Ainda na infância de Cristo, é também Maria – acompanhada por seu esposo castíssimo, São José – quem apresenta Jesus no Templo de Jerusalém, oferecendo-o a Deus Pai. A apresentação do Menino vem a ser como um prenúncio da oferenda definitiva do Filho que Maria irá fazer trinta e três anos depois, ao pé da Cruz. No momento da apresentação, o Espírito Santo já vaticina à Mãe, através das palavras proféticas de Simeão, esta última e radical oferenda: Uma espada – uma espada de dor – transpassará a tua alma [v].
À infância de Jesus une-se, perfazendo trinta anos, a vida oculta no lar de Nazaré. Trinta anos! É a maior parte da vida do Senhor. Um longo período em que Cristo já está a salvar-nos. Porque esse período de vida oculta não foi um compasso de espera, sem relevo nem transcendência. Nesses anos, Jesus, vivendo junto de Maria e de José, estava redimindo a humanidade. Cada um dos seus atos, cada um dos seus gestos tinha infinito valor redentor. Pois bem, na vida oculta – como causa alegria considerar esta verdade! –, Cristo nos salva justamente cumulando de amor e de sentido divino as pequenas coisas da existência cotidiana: a vida em família, de que a Mãe é o centro; o trabalho na oficina de José; o descanso e as pequenas alegrias e sacrifícios do cotidiano..., enchendo de luz divina o caminho por onde discorre a vida da imensa maioria dos homens [vi].
Mas, se prestarmos atenção ao que o Evangelho nos relata sobre a vida oculta, descobriremos ainda algo mais. Como é que o Evangelho resume a atitude interior de Jesus ao longo desses trinta anos? De uma maneira muito simples, mas carregada de ensinamentos. São Lucas define com três palavras essa atitude: Era-lhes submisso [vii].
Quanto não diz esta breve frase! O Filho de Deus, o próprio Deus feito homem, quis passar a maior parte da sua vida obedecendo a Maria e a José – numa voluntária e amorosa submissão – e deixando-se guiar por eles. Sejam quais forem as consequências espirituais que se possam deduzir disto – e são muitas –, basta-nos agora sublinhar duas realidades: por um lado, Jesus Cristo quis ligar, vincular estreitamente a maior parte da sua vida terrena à vida de sua Mãe; por outro, decidiu – se nos é permitido falar assim – dar um enorme peso à vontade de sua Mãe, até o ponto de, como dizíamos, ter vivido trinta anos fazendo-lhe caso, obedecendo-lhe. Esta disposição de obediência de Cristo à Mãe é de grande importância para compreendermos o papel que Deus quis atribuir a Maria.

A VIDA PÚBLICA

A vida oculta de Jesus – envolta na normalidade do cotidiano no lar de Nazaré – teve, contudo, o seu termo. Com a idade de trinta anos, Cristo inicia uma nova etapa, completamente diferente: sai aos campos, às ruas e praças, prega a Boa Nova, faz milagres, rodeia-se de multidões... É a vida pública. Aparentemente, há uma ruptura radical com a sua anterior forma de existência. E também parece quebrar-se de maneira quase completa o encanto vivido no lar de Nazaré. Quem lê o Evangelho depara na vida pública com a ausência quase total de Maria. Teria Ela encerrado a sua missão? Não seria isso o que Jesus já teria insinuado aos doze anos, quando ficou no Templo, separando-se de seus pais? Após três dias de procura aflita, quando Maria e José reencontram o Menino conversando no Templo com os doutores da Lei, a Mãe pergunta-lhe com ansiedade: Filho, por que procedeste assim connosco? A resposta parece prenunciar que a futura missão do Messias deverá realizar-se com completa independência da Mãe: Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai? [viii]. Será que essas palavras excluem a Mãe de Jesus da sua vida pública, quando o Filho de Deus se ocupa plenamente nas coisas de seu Pai? Todas estas interrogações exigem que prestemos uma particular atenção a tudo o que o Evangelho nos diz sobre Maria ao longo da nova etapa que se abre na vida de Cristo com o seu ministério público.

(cont)

FRANCISCO FAUS. [ix]





[i] Jean Guitton, A Virgem Maria, Tavares Martins, Porto, 1959, pág. 233
[ii] Concílio Vaticano II, Const. Lumen Gentium, n. 56
[iii] Const. Lumen Gentium, n. 57
[iv] Lc 2, 11
[v] cfr. Lc 2, 22-35
[vi] cfr. Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, Quadrante, São Paulo, 1975, págs. 14-15
[vii] Lc 2, 51
[viii] cfr. Lc 2, 41-52
[ix] MARIA, A MÃE DE JESUS QUADRANTE, São Paulo Copyright © 1987 Quadrante, Sociedade de Publicações Culturais