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07/01/2012

Porquê Deus se esconde? 7

Mas na nossa vida a nossa relação com Deus não é tão simples nem rápida.  A presença do Senhor já não é evidente para os nossos sentidos. Procuramos Deus porque ouvimos falar dele; o Senhor pergunta-nos e nós seguimo-lo torpemente com o nosso pecado. Mas continuamos sem saber onde mora. E perguntamos “onde te escondes, Senhor?”, “por que te escondes?”, como se realmente quisesse aborrecer-nos escondendo-se. Na realidade o que perguntamos é “Senhor para onde foste viver, que não te encontro?”.
O Senhor nem se esconde nem se oculta: a sua Presencia impregna tudo e está em tudo. Começando pelo nosso próprio coração. A nossa cegueira impede-nos de viver com Ele quando Ele já vive em nós. O maravilhoso de tudo isto é que, pela sua misericórdia, nos permite crer que Ele se esconde e, assim, possamos sentir a Sua falta ainda que esteja connosco sempre.    
A ausência de Deus é presença do Amor. O silêncio de Deus é grito de Salvação. Procura continua para encontrar  a Aquele que sempre está.

(carlos jariod borrego [1], trad  ama)



[1] Professor de filosofia num Instituto de Toledo e professor convidado de teoria educativa num instituto de ciências religiosas da mesma cidade. Interessado pela educação, presidiu à Federação toledana de CONCAPA durante quatro anos e é co-fundador e presidente da associação toledana de professores Educação e Pessoa.

06/01/2012

Porquê Deus se esconde? 6

Mas o mais interessante é a resposta dos discípulos do Baptista. “Onde vives?”, respondem a Jesus. A sua resposta é outra pergunta, mas sobre a morada de Jesus, a sua casa, o lugar onde se torna presente de modo mais cálido e habitual. O que dois homens procuram é onde vive Jesus. É como se para saber quem é Jesus tivessem que conhecer onde vive. Para tal perguntam-lho a Ele. A passagem termina informando que foram, viram onde vivia e ficaram com Ele aquele dia. Insolitamente o Evangelho precisa a hora do dia –“era cerca da hora décima”-.
A resposta dos discípulos é a resposta de quem quer encontrar Deus na sua vida. Não basta já a autoridade de quem nos assinala Cristo como rei do universo; já não é suficiente  uma busca  honesta mas imatura. Quem diz que quer saber onde vive Jesus para partilhar com Ele a sua vida é alguém que sabe o que quer. É um homem que além do mais lho pergunta a Ele (oração), que é ele o único que pode responder. Viver na morada de Deus, na sua Presença é o que o cristão procura na sua vida.
Costumamos ler esta passajem do Evangelho de João de modo linear. Viram Jesus, seguiram-no, foram interpelados por Ele, responderam-lhe e todos foram à casa do Messias onde passaram o dia.

(carlos jariod borrego [1], trad  ama)


[1] Professor de filosofia num Instituto de Toledo e professor convidado de teoria educativa num instituto de ciências religiosas da mesma cidade. Interessado pela educação, presidiu à Federação toledana de CONCAPA durante quatro anos e é co-fundador e presidente da associação toledana de professores Educação e Pessoa.

05/01/2012

Porquê Deus se esconde? 5

No primeiro capítulo do Evangelho de João conta-se que dois discípulos do Baptista seguiram Jesus. Ele volta-se e pergunta-lhes: “Que procurais?”. Antes, o Baptista tinha assinalado Jesus como o Cordeiro de Deus. Pois bem, à pergunta de Jesus os discípulos respondem-lhe: “Onde vives?”, ao que o Senhor os convida a segui-lo: “vinde e vereis”. Atrevo-me a sugerir que, esta passajem, descreve a estrutura básica da relação entre nosso Senhor e os seus seguidores. Nesta passajem, parece-me, podemos encontrar luz para a pergunta sobre um Deus que se oculta. Vejamo-lo.
Em primeiro lugar, os discípulos do Baptista seguem a Jesus porque o seu mestre o assinalou como o Cordeiro de Deus. Basta esta observação para que os discípulos sigam Jesus. Seguem-no sem O conhecer talvez com curiosidade, porque o seu mestre o tinha identificado com o Cordeiro. É uma notícia extraordinária, mas todavia estranha para eles. Provavelmente o que procuram é comprovar a verdade das palavras de João Baptista.
Com efeito, na nossa vida  Jesus costuma tornar-se presente através de outros que no-lo assinalaram como o Deus vivo, salvador. Outros falaram-nos dele. Padres, catequistas, sacerdotes, amigos. A noticia do Deus feito carne ouvimo-la como uma estranha informação de alguém que fez o bem, milagres, prodígios. A importância pessoal  da notícia de Deus é variável: uns ouvem-na e ignoram-na, outros pelo contrário sentem curiosidade suficiente para saber algo mais  dele. Os discípulos do Baptista, deixando o seu mestre por umas horas, seguem o Messias.
Em segundo lugar, quando o Senhor comprova que alguém se interessa por Ele, volta-se e interpela pessoalmente (“o que procurais?”). É a pergunta que também nos dirige a nós. Não pergunta “o que queres?”, “porque me segues?”. É uma pergunta indefinida quanto ao objecto, mas que supõe que quem o segue busca “algo”. O que buscamos quando nos interessamos pelo Senhor?   É possível que nós próprios não possamos responder com clareza. Num primeiro encontro só sabemos que sentimos uma certa curiosidade por Ele; talvez noutros casos admiração ou inclusive uma pitada de sedução misturada com  desconfiança.

(carlos jariod borrego [1], trad  ama)


[1] Professor de filosofia num Instituto de Toledo e professor convidado de teoria educativa num instituto de ciências religiosas da mesma cidade. Interessado pela educação, presidiu à Federação toledana de CONCAPA durante quatro anos e é co-fundador e presidente da associação toledana de professores Educação e Pessoa.

04/01/2012

Porquê Deus se esconde? 4

 “Mestre, onde vives? Vinde e vereis”
Jo 1, 38.

Às vezes o silencio é mais eloquente que a palavra; em certas ocasiões, a ausência de uma presença  interpela mais que a própria presença. Basta que um ser querido esteja longe durante dias, para que notemos a necessidade que temos dele. A sua ausência descobre-nos a importância da sua presença na nossa vida, às vezes obscurecida pelo tráfego de acontecimentos diários.
Deus oculta-se para que sintamos a Sua falta. O seu silêncio, a sua ausência suscita no nosso coração um anseio dele, uma procura. “Onde estás?”, perguntamos, “para onde foi Deus?”, “esqueceu-se de mim”? Os salmos são um excelente exemplo desta experiencia humana de desolação e solidão.
Todavia, para sentir a falta de Deus é imprescindível ter tido experiência dele.
Em qualquer caso, lidamos com metáforas; mas estas por vezes podem enganar-nos. Realmente Deus “não está ao nosso lado”?
Realmente o Senhor “abandona-nos” para logo voltar? Será que acaso brinca connosco para provocar em nós um maior desejo dele? Brinca connosco às escondidas? Metáforas que podem confundir-nos.

(carlos jariod borrego, [1], trad  ama)


[1] Professor de filosofia num Instituto de Toledo e professor convidado de teoria educativa num instituto de ciências religiosas da mesma cidade. Interessado pela educação, presidiu à Federação toledana de CONCAPA durante quatro anos e é co-fundador e presidente da associação toledana de professores Educação e Pessoa.

03/01/2012

Porquê Deus se esconde? 3

Um Deus poderoso, que renega a cruz e o amor, que pela força do poder domina o homem, não é realmente um Deus: é demónio transfigurado em Deus. Não é de estranhar que Jesus chamasse “Satanás” a Pedro quando este resistiu a que o Senhor viajasse par Jerusalém para ser crucificado (Mt 16, 23).  
Falando de física, Hegel ensinava que a luz se manifesta como tal na medida em que se distingue da escuridão. Porque há escuridão, há luz. O ensino hegeliano é também válido no espiritual. É imprescindível a escuridão para poder ver a luz. A nossa escuridão – o pecado, a terrível miséria humana que há em nós - permite procurar e viver  a luz de Deus.  Felix culpa.
Só porque podemos dizer não a Deus podemos ser abraçados por Ele. Paradoxo doloroso? Sem dúvida. Mas quereríamos um Deus cuja luz nos abrasasse? Sim, é verdade, tudo seria mais fácil. Todo o fácil que o demónio quereria. Mas Deus nega-se a tal.
Quando pedimos que Deus se nos revele com a claridade do dia, quando exigimos a Deus que se torne presente na nossa vida como se não o estivesse já ou quando lhe atiramos à cara o seu silencio, a sua ausência aparente, estamos reproduzindo sem o sabe a petição do tentador.  
Tal como no deserto Deus deixa-se tentar por nós. Tal como naquela ocasião Deus não cai na tentação. Para nosso bem e para maior desespero do príncipe deste mundo.

(carlos jariod borrego [i], trad  ama)


[i] Profesor de filosofía de un Instituto de Toledo y profesor invitado de teoría educativa en el instituto de ciencias religiosas de la misma ciudad. Interesado por la educación, ha presidido la Federación toledana de CONCAPA durante cuatro años y es cofundador y presidente de la asociación toledana de profesores Educación y Persona.

02/01/2012

Porquê Deus se esconde? 2

Sempre me impressionaram aquelas passagens evangélicas nas quais o Senhor pede discrição aos seus discípulos sobre a sua condição divina; em muitos outros textos Jesus adverte com severidade quem curou milagrosamente que não fale com ninguém sobre a sua cura. Por exemplo, quando ressuscitou a filha de Jairo (Mc 5, 43) Jesus pede que ninguém se inteirasse de semelhante prodígio.
Tanta discrição não será contraditória com a mensagem de Jesus? Porquê calar o que, por outro lado, se anuncia?
Diz Fabrice Hadjadj que Deus joga às escondidas connosco. Não estou muito seguro de que seja assim. Imaginemos um Deus que se mostra em todo o seu esplendor ou, pelo menos, no esplendor que o homem possa suportar. Uma situação destas,  obrigaria o homem a crer nele. Como não crer num Deus que se nos apresenta en cada Eucaristia não sob as modestas espécies de pão e vinho, mas em  grandiosas manifestações perceptíveis pelos nossos sentidos?
Um Deus assim impor-se-ia à nossa consciência pela força da sua gloria, pelo seu poder inabarcável, todo-poderoso. Este Deus submeteria o homem à sua magnificência e o homem, atazanado por um Deus esplendente, ver-se-ia encadeado pela sua luz. Com efeito, todos acreditaríamos, o poder de Deus reinaria na Terra, o ateísmo desapareceria e a Igreja, por fim! Poderia, sem obstáculo, ser portadora da  Revelação celestial.
Tudo sem amor. Tudo sem liberdade.   Satã teria vencido. Não tem outro significado a terceira tentação do demónio a Jesus no deserto:
“De novo o diabo o levou a um monte altíssimo e lhe mostrou os reinos do mundo e a sua glória, e disse-lhe: ‘Todo isto te darei, se prostrado me adorares’. Então disse-lhe Jesus: ‘Vai-te, Satanás, porque está escrito “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e a Ele só darás culto”’ (Mt 4,8-10).

(carlos jariod borrego [i], trad  ama)


[i] Profesor de filosofía de un Instituto de Toledo y profesor invitado de teoría educativa en el instituto de ciencias religiosas de la misma ciudad. Interesado por la educación, ha presidido la Federación toledana de CONCAPA durante cuatro años y es cofundador y presidente de la asociación toledana de profesores Educación y Persona.

01/01/2012

Porquê se esconde Deus? 1

 “Se não houvesse escuridão,
o homem não notaria a sua corrupção
Pascal.

Porque o Senhor não se apresentou ante o sinédrio já ressuscitado?, Porque não apareceu ante Herodes ou Pilatos mostrando-lhes as suas mãos e  pés chagados? Porque na Eucaristia não surge uma corte celestial de anjos coroada pelo mesmíssimo Senhor no corpo glorioso?  Ante espectáculos semelhantes, figuram-se a perplexidade de Herodes, de Caifás, de Pilatos? Não se teriam caído redondos suplicando misericórdia e, convertidos ao novo Deus, teriam sido os melhores propagadores da nova fé?
Por outro lado as nossas Eucaristias estariam muito concorridas de fiéis: cada vez que o sacerdote consagrasse,   produzir-se-iam prodígios celestiais ante nós confirmando-nos na fé católica. Suspeito que a Igreja experimentaria um novo renascer; os ateus e agnósticos ficariam muito mal colocados e uma nova época se apresentaria à humanidade.

Mas por sorte nada disto se passou. Nada de isto se passará. Porquê?

Sempre me impressionaram aquelas passagens evangélicas em que o Senhor pede discrição aos seus discípulos sobre a sua condição divina; em muitos outros textos Jesus adverte com severidade os que curou milagrosamente que não falem com ninguém sobre a sua cura. Por exemplo, quando ressuscitou a filha de Jairo (Mc 5, 43) Jesus pede que ninguém se inteirasse de semelhante prodígio.
Tanta discrição não é contraditória com a mensagem de Jesus? Porquê calar o que, por outro lado, se anuncia?

Diz Fabrice Hadjadj que Deus joga às escondidas connosco. Não estou muito seguro de que seja assim. Imaginemo-nos um Deus que se mostra em todo o seu esplendor ou, pelo menos, num esplendor que o homem possa suportar. Uma situação destas,  obrigaria o homem a crer nele. Como não crer num Deus que se nos apresenta em cada Eucaristia sob as modestas espécies de pão e vinho, mas no  grande Deus nas manifestações perceptíveis pelos nossos sentidos?

Um Deus assim impor-se-ia à nossa consciência pela força da sua glória, pelo seu poder inabarcável, todo-poderoso. Este Deus submeteria o homem à sua magnificência e o homem, atazanado por um Deus resplandecente, ver-se-ia encadeado na sua luz. Com efeito, todos creríamos, o poder de Deus reinaria na Terra, o ateísmo desapareceria e a Igreja, e por fim!, poderia sem obstáculo ser portadora da  Revelação celestial.

Tudo sem amor. Tudo sem liberdade.   Satã teria vencido. A terceira tentação do demónio a Jesus no deserto não tem outro significado:

“De novo o diabo o levou a um monte altíssimo e lhe mostrou os reinos do mundo e a sua glória, e lhe disse: ‘Tudo isto te darei, se te prostrares e me adorares’. Então disse-lhe Jesus ‘Vai-te, Satanás, porque está escrito “Ao Senhor, tu Deus, adorarás e a ele só darás culto”’ (Mt 4,8-10).

Um Deus poderoso, que renega de a cruz e do amor, que pela força do poder domina ao homem, não é realmente um Deus: é o demónio transfigurado no Deus. Não é de estranhar que Jesus chamasse “Satanás” a Pedro quando este resistiu a que o Senhor viajasse para Jerusalém para ser crucificado (Mt 16, 23).  

Falando de física, Hegel ensinava que a luz se manifesta como tal na medida em que se distingue da escuridão. Porque há escuridão, há luz. O ensinamento hegeliano é também válido no espiritual. É imprescindível a escuridão para poder ver a luz. A nossa escuridão – o pecado, a terrível miséria humana que há em nós - permite buscar e viver  a luz de Deus.  Felix culpa.

Só porque podemos dizer não a Deus podemos ser abraçados por Ele. Paradoxo doloroso? Sem dúvida. Mas quereríamos um Deus cuja luz nos abrasasse? Sim, é verdade, tudo seria mais fácil. Todo o fácil que o demónio quereria. Mas Deus nega-se a tal.

Quando pedimos que Deus se nos revele com a claridade do dia, quando exigimos a Deus que se faça presente na nossa vida como se já não o estivesse ou quando lhe reprovamos o seu silêncio, a sua aparente ausência,   estamos reproduzindo sem o saber a petição do tentador.  

Tal como no deserto Deus deixa-se tentar por nós. Tal como naquela ocasião Deus não cai na tentação. Para nosso bem e para maior desespero do príncipe deste mundo.

carlos jariod borrego, trad ama