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08/06/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo Comum

Evangelho: Mt 5, 17-19

17 «Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim para os abolir, mas sim para cumprir. 18 Porque em verdade vos digo: antes passarão o céu e a terra, que passe uma só letra ou um só traço da Lei, sem que tudo seja cumprido. 19 Aquele, pois, que violar um destes mandamentos mesmo dos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será considerado o mais pequeno no Reino dos Céus. Mas o que os guardar e ensinar, esse será considerado grande no Reino dos Céus.

Comentário:

A tremenda responsabilidade de quem ensina, sobretudo aos mais débeis e incultos sejam ou não crianças, tem de estar bem presente na mente de quem o faz.

Ensinar mal ou transmitir erradamente conceitos e doutrinas é um pecado gravíssimo com consequências devastadoras para quem os recebe.

Este é um “peso” que nenhum cristão deve querer suportar por isso mesmo deve documentar-se e estudar a fundo o que ensina.

(ama, comentário sobre Mt 5, 17-19, 2015.03.11)



Leitura espiritual



INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO

"Creio em Deus" – Hoje

SEGUNDA PARTE

JESUS CRISTO

CAPÍTULO PRIMEIRO

"Creio em Jesus Cristo seu Filho Unigénito, Nosso Senhor".

IV. Caminhos da Cristologia

3. Cristo, "o último Homem”.

Digressão: Estruturas do Crístico

1.   O individual e o todo.

Chegamos assim à pergunta inicial, podendo dizer: Igreja e ser-cristão giram em torno do homem assim compreendido. Seriam elementos sem função, se houvesse exclusivamente mónadas-humanas, seres do cogito, ergo sum. Estão relacionados ao homem que é "ser-com" (= participação) e que somente subsiste nos entrelaçamentos colectivos, consequência do princípio da corporeidade. Igreja e ser-cristão somente existem por causa da história, das implicações colectivas que caracterizam o homem; é neste plano que devem ser compreendidos. A sua razão de ser está em prestar serviço à história, como história, e em forçar ou modificar a prisão colectiva que forma o local da existência humana. Conforme a Carta aos Efésios, a obra salvadora de Cristo consistiu exactamente em obrigar a cair de joelhos os poderes e as dominações, nos quais Orígenes, no comentário sobre esse texto, via as forças colectivas que sufocam o homem: a força do meio ambiente, da tradição nacional; aquele impessoal "a gente" que humilha e destrói o homem. Categorias como pecado original, ressurreição da carne, juízo universal etc., só se podem compreender sob este ângulo, pois a sede do pecado original há-de ser procurada exactamente na teia colectiva que antecede a cada existência individual, como facto espiritual e não em alguma transmissão biológica entre indivíduos de resto totalmente isolados. Falar do pecado original significa que nenhum homem pode começar na estaca zero, num status integritatis (completamente intacto do toque da história). Ninguém se encontra naquela etapa inicial sem mancha, em que lhe bastaria desenvolver-se livremente e projectar o que tivesse de bom; cada qual vive em uma implicação que é parte da sua existência. Juízo universal, por sua vez, é a resposta a estes colectivos entrelaçamentos. Ressurreição exprime a ideia de que a imortalidade do homem só pode subsistir e ser imaginada na co-existência dos homens, no homem como o ser da co-existência, como mais tarde ainda será melhor exposto. Finalmente o conceito de redenção, como já se disse, também terá sentido somente nesta esfera; não se refere a um destino monádico, separado do indivíduo. Portanto, se o plano real do Cristianismo há-de ser procurado neste domínio, a que chamamos de "historicidade" na falta de termo melhor, segue-se que podemos prosseguir esclarecendo: ser-cristão, conforme a sua finalidade primeira, não é um carisma individual, mas social. Não se é cristão porque só cristãos se salvam, mas é-se cristão, porque a diaconia cristã tem sentido e é necessária para a história.

Contudo, a esta altura, segue-se um segundo passo muito decisivo que, à primeira vista, aparenta ser uma volta para o lado oposto, sendo, na verdade, consequência necessária do que foi exposto. Porquanto, se se é cristão para participar de uma diaconia em benefício do conjunto, isto denota, simultaneamente, que o cristianismo vive de cada um e para cada um, exactamente por causa deste nexo com o todo, porque a mudança da história, a supressão da ditadura do meio só pode dar-se pela participação de cada um. Vejo aqui, salvo melhor juízo, o fundamento daquele factor cristão incompreensível para o homem de hoje e para as outras religiões, a saber, que no Cristianismo tudo depende, afinal, do homem Jesus de Nazaré, crucificado pelo seu ambiente – a opinião pública – que exactamente na sua cruz despedaçou essa força do "a gente", o poder do anonimato, que conserva o homem prisioneiro. Em oposição a esta força anónima ergue-se o nome de um único: Jesus Cristo, a convidar o homem a segui-lo, isto é: a carregar a cruz como ele, para vencer o mundo, sendo crucificado para ele, contribuindo assim para a renovação da história. O apelo do Cristianismo dirige-se radicalmente a cada um em particular, exactamente por visar à história como um todo; precisamente por isto o cristianismo adere, como um todo, a este um e único no qual se realizou a ruptura com a derrota dos poderes e das violências. Repetido ainda de outro modo: o Cristianismo está polarizado para o todo, não podendo ser compreendido, a não ser da e para a comunidade; o Cristianismo não representa salvação do indivíduo isolado, mas o serviço em benefício do conjunto, do qual não pode nem deve escapar: precisamente por isto, em extremo radicalismo, ele conhece um princípio "individual". O escândalo inaudito de que um único – Jesus Cristo – é acreditado como a salvação do mundo, encontra, aqui, o ponto exacto da sua necessidade. O único é a salvação do todo, e o todo recebe a sua salvação exclusivamente do único, que realmente é único e que, exactamente por causa disto, cessa de existir só para si.

Creio que, visto assim, também se pode compreender não existir semelhante recurso ao indivíduo nas outras religiões. O hinduísmo não procura o todo, mas o indivíduo a salvar-se, fugindo do mundo, a roda de Maia. Precisamente por não visar o todo, na sua mais profunda intenção, mas desejar apenas desenvencilhar o indivíduo da sua situação perdida, o hinduísmo é incapaz de admitir outro indivíduo como importante e decisivo para a salvação de alguém. A sua desvalorização do todo resulta, portanto, em desvalorização também do individual, ao fazer cair o "para" como categoria.

Resumindo, eis o resultado das nossas considerações: o Cristianismo origina-se do princípio da "corporeidade" (historicidade), devendo ser pensado na esfera do todo, da qual recebe o seu sentido. Estabelece, contudo, forçosamente, um princípio do "individual", que é o seu escândalo, tornando-se, porém, visível, agora, na sua interna necessidade e racionalidade.

2.   O princípio do "para".

A fé cristã solicita cada um, querendo-o, porém, para o todo e não para si mesma; por isto a norma fundamental da existência cristã exprime-se na partícula "para", eis a conclusão a ser forçosamente tirada do que até agora foi dito. Por isto, no principal dos sacramentos cristãos, que forma o centro da liturgia, declara-se a existência de Jesus Cristo, como existência "para muitos" e "para vós", como existência aberta que cria e possibilita a comunicação de todos entre si pela comunicação nele. Por isso, como vimos, completa-se e realiza-se a existência de Cristo, como existência exemplar na sua abertura na cruz. Portanto, anunciando e explicando a sua morte, ele pode dizer: "Vou e venho a vós" (Jo 14,28): pela minha partida, será derrubada a parede da minha existência que agora me limita; assim este acontecimento representa a minha verdadeira chegada, na qual consumo o que sou, a saber: aquele que reúne a todos na unidade da sua existência que não é limite, mas unidade.

Neste sentido a Patrística apontou para os braços do Senhor, abertos na cruz. Vê neles, primeiro, o protótipo do gesto orante, tal como o encontramos reproduzido nas figuras orantes das catacumbas. Os braços do crucificado revelam-no como o adorador, conferindo, ao mesmo tempo, uma nova dimensão à adoração que representa o elemento específico da glorificação de Deus: os braços abertos de Cristo são expressão de adoração também e precisamente por exprimirem a total entrega aos homens, como gesto do abraço, da plena e indivisa fraternidade. A partir da cruz, a Teologia patrística encontrou, simbolicamente, o entrelaçamento de adoração e fraternidade, e viu representada no gesto cristão de orar a indissolubilidade do serviço aos homens e da glorificacção de Deus.

Ser-cristão denota, ao mesmo tempo, passagem do ser para si mesmo ao ser para os outros. Com o que se esclarece o sentido do conceito de escolha ("predestinação") que muitas vezes nos parece estranho. Escolha não quer dizer uma preferência do indivíduo, fechada em si, a segregá-lo dos outros, mas a admissão na tarefa comum da qual já se falou. De acordo com isso, a opção cristã fundamental significa a aceitação do "ser-cristão", a abjuração do concentramento sobre o "eu" e a adesão à existência de Jesus Cristo voltada para o todo. A mesma coisa está incluída no convite à sequela da cruz, que absolutamente não exprime uma devoção particular, mas está subordinada a um pensamento básico, a saber, que o homem, abandonando o isolamento e a tranqüilidade do próprio "eu", saia de si, para seguir o crucificado e existir para os outros, mediante a crucificação do seu "eu". De modo geral, os grandes painéis da história da salvação, que representam também as figuras básicas do culto cristão, são expressão do princípio "para". Pensemos, por exemplo, no quadro do êxodo clássico da história sagrada, ou seja, da saída do Egipto: tornou-se o êxodo perene da auto-ultrapassagem. O mesma ecoa na cena da páscoa, em que a fé formulou a nexo da mistério da cruz e da ressurreição com o pensamento da saída da Antigo Testamento.

João reproduziu tudo isto num quadro tomado de empréstimo aos fenómenos da natureza. Com o que o horizonte se amplia, para além do antropológico e do salvífico, tocando o cósmico. O que se declara como estrutura básica da vida cristã, no fundo já representa o cunho da mesma criação. "Em verdade, em verdade eu vos digo: se o grão de trigo lançado na terra não morrer, fica só, como é; mas, se morrer, produz abundante fruto" (Jo 12,24). Já na esfera cósmica domina a lei de que a vida só chega através da morte, mediante a auto-perdição. O que se configura deste modo na criação, alcança o seu ápice no homem e, finalmente, no homem exemplar, Jesus Cristo que abre os portais da vida autêntica aceitando o destino do grão de trigo, atravessando o auto-oblacção, deixando-se abrir e perdendo-se. Partindo das experiências da história da religião que justamente neste ponto se tocam estreitamente com as da Bíblia, poderíamos dizer: o mundo vive de sacrifício. Encontram aqui a sua realidade e validez os grandes mitos que declaram ter sido formado o cosmos por meio de um proto-sacrifício e viver exclusivamente de sua própria oblacção. O princípio cristão do êxodo torna-se patente através dos símbolos míticos: "Quem ama a própria vida, perde-a; e quem odeia a própria vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna" (Jo 12,25; cfr. Mc 8,35 par). Contudo, para terminar, é preciso declarar que jamais serão suficientes todas as auto-superações próprias do homem. Quem somente deseja dar, sem estar disposto a receber, quem só quer existir para os outros, não estando pronto a reconhecer que também ele, por sua vez, vive da dádiva inesperável e improvocável do "para" dos outros, deturpa a autêntica maneira de ser do homem, destruindo necessariamente o verdadeiro sentido da reciprocidade. Todas as auto-superações, para serem produtivas, precisam da aceitação da parte dos outros e, em última instância, da parte do Outro, que é o autêntico Outro da humanidade inteira e, ao mesmo tempo, é o todo unido a ela: o homem Deus Jesus Cristo.

(cont)

joseph ratzinger, Tübingen, verão de 1967.

(Revisão da versão portuguesa por ama)






02/03/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Quaresma
Semana III

Evangelho: Mt 5, 17-19

17 «Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim para os abolir, mas sim para cumprir. 18 Porque em verdade vos digo: antes passarão o céu e a terra, que passe uma só letra ou um só traço da Lei, sem que tudo seja cumprido. 19 Aquele, pois, que violar um destes mandamentos mesmo dos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será considerado o mais pequeno no Reino dos Céus. Mas o que os guardar e ensinar, esse será considerado grande no Reino dos Céus.

Comentário:

Refere-se, aqui, de forma muito clara, o que é a principal necessidade do cristão: a unidade de vida!

«Seja o vosso falar: Sim, sim; não, não. Tudo o que passa disto, procede do Maligno.»

Um cristão tem de ser assim, claro, objectivo, concreto. Não pode tergiversar nem no comportamento nem nas atitudes ou, ainda, conforme as circunstâncias.

Tem de ser conhecido – e exemplo – por ser veraz, íntegro e constante na sua vida que é, deve ser: seguir Cristo, fazer, em tudo, a vontade de Deus.

(ama, comentário sobre Mt 5, 17-19, 2014.02.16)



Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO CONFISSÕES

LIVRO PRIMEIRO

CAPÍTULO VII

Os pecados da primeira infância

Escuta-me, ó meu Deus! Ai dos pecados dos homens! E quem isto te diz é um homem, e tu te compadeces dele porque o criaste, e não foste autor do pecado que nele existe.
Quem me poderá lembrar o pecado da infância, já que ninguém está diante de ti limpo de pecado, nem mesmo a criança cuja vida conta um só dia sobre a terra? Quem mo recordará?
Acaso alguma criança pequena de hoje, em quem vejo a imagem do que não recordo de mim? E em que eu poderia pecar nesse tempo? Acaso por desejar o peito da nutriz, chorando? Se agora eu suspirasse com a mesma avidez, não pelo seio materno, mas pelo alimento próprio da minha idade, seria justamente escarnecido e censurado. Logo, era então digno de repreensão o meu proceder; mas como não podia entender a censura, nem o costume nem a razão permitiam que eu fosse repreendido. Prova está que, ao crescermos, extirpamos e afastamos de nós essa sofreguidão; e jamais vi homem sensato que, para limpar uma coisa viciosa, prive-a do que tem de bom.
Acaso, mesmo para aquela idade, era bom pedir chorando o que não se me podia dar sem dano, indignar-me acremente com as pessoas livres que não se submetiam, assim como as pessoas respeitáveis, e até com meus próprios pais, e com muitos outros que, mais sensatos, não davam atenção aos sinais de meus caprichos, enquanto eu me esforçava por agredi-los com os meus golpes, quanto podia, por não obedecerem às minhas ordens, que me teriam sido danosas?
Daqui se segue que o que é inocente nas crianças é a debilidade dos membros infantis, e não a alma.
Certa vez, vi e observei um menino invejoso. Ainda não falava, e já olhava pálido e com rosto amargurado para o irmãozinho colaço. Quem não terá testemunhado isso? Dizem que as mães e as amas tentam esconjurar este defeito com não sei que práticas. Mas se poderá considerar inocência o não suportar que se partilhe a fonte do leite, que mana copiosa e abundante, com quem está tão necessitado do mesmo socorro, e que sustenta a vida apenas com esse alimento? Mas costuma-se tolerar indulgentemente essas faltas, não porque sejam insignificantes, mas porque espera-se que desapareçam com os anos. Por isso, sendo tais coisas perdoáveis em um menino, quando se acham em um adulto, mal as podemos suportar.
Assim, pois, meu Senhor e meu Deus, tu que me deste a vida e corpo, o qual dotaste, como vemos, de sentidos e proveste de membros, adornando-o de beleza e de instintos naturais, com os quais pudesse defender sua integridade e conservação, tu me mandas que te louve por esses dons e te confesse e cante teu nome altíssimo. Serias Deus omnipotente e bom ainda que só tivesses criado apenas estas coisas, que nenhum outro pode fazer senão tu, ó Unidade, origem de todas as variedades, ó Beleza, que dás forma a todas as coisas, e com tua lei as ordenas!
Tenho vergonha, Senhor, de ter de somar à vida terrena que vivo aquela idade que não recordo ter vivido, na qual acredito pelo testemunho de outros, por vê-lo assim em outras crianças, embora essa conjectura mereça toda a fé. As trevas em que está envolto meu esquecimento a seu respeito assemelham-se à vida que vivi no ventre de minha mãe.
Assim, se fui concebido em iniquidade, e se em pecado me alimentou minha mãe, onde, suplico-te, meu Deus, onde, Senhor, eu, teu servo, onde e quando fui inocente? Mas eis que silencio sobre esse tempo. Para que ocupar-se dele, se dele já não conservo nenhuma lembrança?

CAPÍTULO VIII

As primeiras palavras

Acaso não foi caminhando da infância até aqui que cheguei à puerícia? Ou melhor, esta veio a mim e suplantou à infância sem que esta fosse embora, pois, para onde poderia ir?
Contudo deixou de existir, porque eu já não era um bebezinho que não falava, mas um menino que aprendia a falar. Disso me recordo; mas como aprendi a falar, só mais tarde é que vim a perceber. Não mo ensinaram os mais velhos apresentando-me as palavras com certa ordem e método, como logo depois fizeram com as letras; mas foi por mim mesmo, com o entendimento que me deste, meu Deus, quando queria manifestar meus sentimentos com gemidos, gritinhos, e vários movimentos do corpo, a fim de que atendessem meus desejos; e também ao ver que não podia exteriorizar tudo o que queria, nem ser compreendido por todos aqueles a quem me dirigia.
Assim, pois, quando chamavam alguma coisa pelo nome, eu a retinha na memória e, ao se pronunciar de novo a tal palavra, moviam o corpo na direção do objeto, eu entendia e notava que aquele objecto era o denominado com a palavra que pronunciavam, porque assim o chamavam quando o desejavam mostrar.
Que esta fosse sua intenção, era-me revelado pelos movimentos do corpo, que são como uma linguagem universal, feita com a expressão rosto, a atitude dos membros e o tom da voz, que indicam os afectos da alma para pedir, reter, rejeitar ou evitar alguma coisa. Deste modo, das palavras usadas nas e colocadas em várias frases e ouvidas repetidas vezes, ia eu aos poucos notando o significado e, domada a dificuldade de minha boca, comecei a dar a entender minhas vontades por meio delas.
Foi assim que comecei a comunicar meus desejos às pessoas entre as quais vivia, e entrei a fazer parte do tempestuoso mundo da sociedade, dependendo da autoridade de meus pais e obedecendo às pessoas mais velhas.

CAPÍTULO IX

Estudos e jogos

Ó meu Deus, meu Deus! Que de misérias e enganos não experimentei então, quando se me propunha, em criança, como norma de bem viver, obedecer os mestres que me instigavam a brilhar neste mundo, e me ilustrar nas artes da língua, fiel instrumento para obter honras humanas e satisfazer a cobiça! Mudaram-me à escola, para que aprendesse as letras, nas quais eu, miserável, desconhecia o que havia de útil. Contudo, se era preguiçoso para aprendê-las, era fustigado, num sistema louvado pelos mais velhos; muitos deles, que levavam esse género de vida antes de nós, nos traçaram caminhos tão dolorosos pelos quais éramos obrigados a caminhar, multiplicando assim o trabalho e a dor aos filhos de Adão.
Mas, por sorte, encontrei homens que te invocavam, Senhor, e com eles aprendi a te sentir, quanto possível, como a um Ser grande que podia escutar-nos e vir em nosso auxílio, embora sem a percepção dos sentidos. Ainda menino, pois, comecei a invocar-te como refúgio e amparo e, para te invocar, desatei os nós de minha língua; e, embora pequeno, te rogava já com grande fervor para que não me açoitassem na escola. E quando não me escutavas, o que servia para meu proveito os mestres, assim como meus próprios pais, que certamente não desejavam o meu mal, riam-se daquele castigo, que então era para mim grave suplício.
Porventura, Senhor, haverá alguma alma tão grande, unida a ti com tão ardente afecto, pois isto também pode ser produzido pela estultice – repito, uma alma que alcance tal grandeza de ânimo que despreze os cavaletes e garfos de ferro, e os demais instrumentos de martírio – para fugir dos quais se te dirigem súplicas de todas as partes do mundo? Haverá uma alma que assim os despreze – rindo-se dos que têm deles tanto horror – como se riam nossos pais dos tormentos que éramos castigados por nossos mestres quando meninos? Porque, na verdade, não os temíamos menos, nem te rogávamos com menor fervor para que nos livrasses deles.
Contudo, pecávamos por negligencia escrevendo ou lendo, estudando menos do que nos era exigido; e não era por falta de memória ou de inteligência, que para aquela idade, Senhor, me deste de modo suficiente, senão porque eu gostava de brincar, embora os que nos castigavam não fizessem outra coisa. Mas os jogos dos mais velhos chamavam-se negócios, enquanto que os dos meninos eram por eles castigados, sem que ninguém se compadecesse de uns e de outros, ou melhor, de ambos. Um juiz sensato poderia aprovar os castigos que eu, menino, recebia porque jogava bola, e porque com este jogo atrasava o aprendizado das letras, com as quais, adulto haveria de jogar menos inocentemente?
Acaso fazia outra coisa naquele que me castigava? Se nalguma questiúncula era vencido por algum colega seu, não era mais atormentado pela cólera e pela inveja do que eu, quando numa partida de bola era vencido por meu companheiro?

CAPÍTULO X

Amor ao jogo

Contudo, Senhor meu, ordenador e criador da natureza, mas do pecado somente ordenador, eu pecava; pecava desobedecendo as ordens de meus pais e mestres, uma vez que podia no futuro fazer bom uso das letras que desejavam ensinar-me, qualquer que fosse a sua intenção.
E não era desobediente para me ocupar de coisas melhores, mas por amor ao jogo; buscava nos combates orgulhosas vitórias; deleitava-me com histórias frívolas, com as quais incentivava sempre mais minha curiosidade. Igualmente curiosos, meus olhos se abriam sempre mais para os jogos e espectáculos dos adultos, jogos que dão tão grande dignidade a quem os oferece, que quase todos desejam as mesmas dignidades para seus filhos. Contudo, gostam de os castigar se com tais espectáculos fogem dos estudos, por meio dos quais desejam que eles venham um dia a oferecer espectáculos semelhantes. Senhor, olha misericordiosamente para essas coisas, e livra-nos delas a nós que já te invocamos; mas livra também os que ainda não te invocam, a fim de que te invoquem, e sejam igualmente libertados.

CAPÍTULO XI

O baptismo diferido

Ainda menino, ouvi falar da vida eterna, que nos está prometida pela humildade de Jesus, nosso Senhor, que desceu até nossa soberba; e fui marcado com o sinal da cruz, sendo-me dado saborear de seu sal logo que saí do ventre de minha mãe, que sempre esperou muito em ti.
Tu viste, Senhor, que numa ocasião, ainda menino, atacou-me repentinamente um dor de estômago que me abrasava, e que me aproximou da morte. Tu viste também, meu Deus, pois já me tinhas sob a tua guarda, com que fervor de espírito e com que fé pedi à piedade de minha mãe, e da mãe de todos nós, tua Igreja, o baptismo de teu Cristo, meu Deus e Senhor. Perturbou-se minha mãe carnal, pois que me criava com mais amor em seu casto coração em tua fé para a vida eterna e, solícita, já havia cuidado de que me iniciasse e purificasse com os sacramentos da salvação, confessando-te, ó meu Senhor Jesus, em remissão de meus pecados, quando, de repente, comecei a melhorar. Em vista disso, diferiu-se a minha purificação, considerando que seria impossível, se eu vivesse, que não me tornasse a manchar; pois a culpa dos pecados cometidos depois do beatismo é muito maior e mais perigosa.
Nesta época eu já tinha fé verdadeira, juntamente com minha mãe e com todos da casa, à excepção de meu pai, que, porém, não pôde vencer em mim a ascendência da piedade materna, para que deixasse de acreditar em Cristo, tal como ele não acreditava; minha mãe, solícita, cuidava de que tu, meu Deus, fosses mais pai para mim do que ele, e a ajudavas a triunfar do marido, a quem servia melhor, porque nele te servia a ti e a tuas ordens.
Mas, meu Deus, suplico-te que me mostres, se te apraz, por que motivo se diferiu então meu baptismo; se foi ou não para meu bem que me soltaram das rédeas do pecado. Por que razão ainda hoje se diz de uns e de outros, como ouvimos em muitos lugares: “Deixe que faça o que quiser, porque ainda não está baptizado” – embora não digamos da saúde do corpo: “Deixe que receba ainda mais feridas, porque ainda não está curado?”
Quanto melhor teria sido para mim receber logo a saúde, e que meus cuidados e os dos meus fossem empregados em conservar intacta debaixo da tua protecção a saúde da minha alma, que me havias concedido! Melhor fora, certamente; porém, como minha mãe, sem dúvida, já previa quantas e quão grandes ondas de tentações me ameaçariam depois da meninice, preferiu expor-me a elas como terra grosseira que depois receberia forma, do que expor-me já como imagem tua.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)


11/03/2015

Evangelho, coment. L esp. (Exort. Apost. Evangelli gaudium)

Tempo de Quaresma III Semana

Evangelho: Mt 5 17-19

17 «Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim para os abolir, mas sim para cumprir. 18 Porque em verdade vos digo: antes passarão o céu e a terra, que passe uma só letra ou um só traço da Lei, sem que tudo seja cumprido. 19 Aquele, pois, que violar um destes mandamentos mesmo dos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será considerado o mais pequeno no Reino dos Céus. Mas o que os guardar e ensinar, esse será considerado grande no Reino dos Céus.

Comentário:

O versículo 19 deste texto é lapidar e não deixa qualquer margem a dúvidas.
Ninguém pode dar o que não tem ou transmitir o que não sabe.
A necessidade de estudar – a fundo – a Doutrina Cristã é um imperativo para todo o cristão porque, tendo a obrigação de ser apóstolo, só adquirindo uma sólida formação doutrinal poderá cumprir o mandato de Cristo.

(ama, comentário sobre Mt 5, 17-19, 2013.06.12)

Leitura espiritual


EXORTAÇÃO APOSTÓLICA EVANGELII GAUDIUM
DO SANTO PADRE FRANCISCO
AO EPISCOPADO, AO CLERO ÀS PESSOAS CONSAGRADAS E AOS FIÉIS LEIGOS SOBRE O ANÚNCIO

Todos somos discípulos missionários

119. Em todos os baptizados, desde o primeiro ao último, actua a força santificadora do Espírito que impele a evangelizar. O povo de Deus é santo em virtude desta unção, que o torna infalível «in credendo», ou seja, ao crer, não pode enganar-se, ainda que não encontre palavras para explicar a sua fé. O Espírito guia-o na verdade e condu-lo à salvação.[i] Como parte do seu mistério de amor pela humanidade, Deus dota a totalidade dos fiéis com um instinto da fé – o sensus fidei – que os ajuda a discernir o que vem realmente de Deus. A presença do Espírito confere aos cristãos uma certa conaturalidade com as realidades divinas e uma sabedoria que lhes permite captá-las intuitivamente, embora não possuam os meios adequados para expressá-las com precisão.

120. Em virtude do Baptismo recebido, cada membro do povo de Deus tornou-se discípulo missionário[ii]. Cada um dos baptizados, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito activo de evangelização, e seria inapropriado pensar num esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas receptor das suas acções. A nova evangelização deve implicar um novo protagonismo de cada um dos baptizados. Esta convicção transforma-se num apelo dirigido a cada cristão para que ninguém renuncie ao seu compromisso de evangelização, porque, se uma pessoa experimentou verdadeiramente o amor de Deus que o salva, não precisa de muito tempo de preparação para sair a anunciá-lo, não pode esperar que lhe dêem muitas lições ou longas instruções. Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus; não digamos mais que somos «discípulos» e «missionários», mas sempre que somos «discípulos missionários». Se não estivermos convencidos disto, olhemos para os primeiros discípulos, que logo depois de terem conhecido o olhar de Jesus, saíram proclamando cheios de alegria: «Encontrámos o Messias»[iii]. A Samaritana, logo que terminou o seu diálogo com Jesus, tornou-se missionária, e muitos samaritanos acreditaram em Jesus «devido às palavras da mulher»[iv]. Também São Paulo, depois do seu encontro com Jesus Cristo, «começou imediatamente a proclamar (…) que Jesus era o Filho de Deus»[v]. Porque esperamos nós?

 121. Certamente todos somos chamados a crescer como evangelizadores. Devemos procurar simultaneamente uma melhor formação, um aprofundamento do nosso amor e um testemunho mais claro do Evangelho. Neste sentido, todos devemos deixar que os outros nos evangelizem constantemente; isto não significa que devemos renunciar à missão evangelizadora, mas encontrar o modo de comunicar Jesus que corresponda à situação em que vivemos. Seja como for, todos somos chamados a dar aos outros o testemunho explícito do amor salvífico do Senhor, que, sem olhar às nossas imperfeições, nos oferece a sua proximidade, a sua Palavra, a sua força, e dá sentido à nossa vida. O teu coração sabe que a vida não é a mesma coisa sem Ele; pois bem, aquilo que descobriste, o que te ajuda a viver e te dá esperança, isso é o que deves comunicar aos outros. A nossa imperfeição não deve ser desculpa; pelo contrário, a missão é um estímulo constante para não nos acomodarmos na mediocridade, mas continuarmos a crescer. O testemunho de fé, que todo o cristão é chamado a oferecer, implica dizer como São Paulo: «Não que já o tenha alcançado ou já seja perfeito; mas corro para ver se o alcanço, (…) lançando-me para o que vem à frente»[vi]. A força evangelizadora da piedade popular

122. Da mesma forma, podemos pensar que os diferentes povos, nos quais foi inculturado o Evangelho, são sujeitos colectivos activos, agentes da evangelização. Assim é, porque cada povo é o criador da sua cultura e o protagonista da sua história. A cultura é algo de dinâmico, que um povo recria constantemente, e cada geração transmite à seguinte um conjunto de atitudes relativas às diversas situações existenciais, que esta nova geração deve reelaborar face aos próprios desafios. O ser humano «é simultaneamente filho e pai da cultura onde está inserido».[vii] Quando o Evangelho se inculturou num povo, no seu processo de transmissão cultural também transmite a fé de maneira sempre nova; daí a importância da evangelização entendida como inculturação. Cada porção do povo de Deus, ao traduzir na vida o dom de Deus segundo a sua índole própria, dá testemunho da fé recebida e enriquece-a com novas expressões que falam por si. Pode dizer-se que «o povo se evangeliza continuamente a si mesmo».[viii] Aqui ganha importância a piedade popular, verdadeira expressão da actividade missionária espontânea do povo de Deus. Trata-se de uma realidade em permanente desenvolvimento, cujo protagonista é o Espírito Santo.[ix]

123. Na piedade popular, pode-se captar a modalidade em que a fé recebida se encarnou numa cultura e continua a transmitir-se. Vista por vezes com desconfiança, a piedade popular foi objecto de revalorização nas décadas posteriores ao Concílio. Quem deu um impulso decisivo nesta direcção, foi Paulo VI na sua Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi. Nela explica que a piedade popular «traduz em si uma certa sede de Deus, que somente os pobres e os simples podem experimentar»[x] e «torna as pessoas capazes para terem rasgos de generosidade e predispõe-nas para o sacrifício até ao heroísmo, quando se trata de manifestar a fé».[xi] Já mais perto dos nossos dias, Bento XVI, na América Latina, assinalou que se trata de um «precioso tesouro da Igreja Católica» e que nela «aparece a alma dos povos latino-americanos».[xii]

124. No Documento de Aparecida, descrevem-se as riquezas que o Espírito Santo explicita na piedade popular por sua iniciativa gratuita. Naquele amado Continente, onde uma multidão imensa de cristãos exprime a sua fé através da piedade popular, os Bispos chamam-na também «espiritualidade popular» ou «mística popular».[xiii] Trata-se de uma verdadeira «espiritualidade encarnada na cultura dos simples».[xiv] Não é vazia de conteúdos, mas descobre-os e exprime-os mais pela via simbólica do que pelo uso da razão instrumental e, no acto de fé, acentua mais o credere in Deum que o credere Deum.[xv]  É «uma maneira legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser missionários»;[xvi] comporta a graça da missionariedade, do sair de si e do peregrinar: «O caminhar juntos para os santuários e o participar em outras manifestações da piedade popular, levando também os filhos ou convidando a outras pessoas, é em si mesmo um gesto evangelizador».[xvii] Não coarctemos nem pretendamos controlar esta força missionária!

125. Para compreender esta necessidade, é preciso abordá-la com o olhar do Bom Pastor, que não procura julgar mas amar. Só a partir da conaturalidade afectiva que dá o amor é que podemos apreciar a vida teologal presente na piedade dos povos cristãos, especialmente nos pobres. Penso na fé firme das mães ao pé da cama do filho doente, que se agarram a um terço ainda que não saibam elencar os artigos do Credo; ou na carga imensa de esperança contida numa vela que se acende, numa casa humilde, para pedir ajuda a Maria, ou nos olhares de profundo amor a Cristo crucificado. Quem ama o povo fiel de Deus, não pode ver estas acções unicamente como uma busca natural da divindade; são a manifestação duma vida teologal animada pela acção do Espírito Santo, que foi derramado em nossos cora- ções[xviii].

126. Na piedade popular, por ser fruto do Evangelho inculturado, subjaz uma força activamente evangelizadora que não podemos subestimar: seria ignorar a obra do Espírito Santo. Ao contrário, somos chamados a encorajá-la e fortalecê-la para aprofundar o processo de inculturação, que é uma realidade nunca acabada. As expressões da piedade popular têm muito que nos ensinar e, para quem as sabe ler, são um lugar teológico a que devemos prestar atenção particularmente na hora de pensar a nova evangelização. 

De pessoa a pessoa

127. Hoje que a Igreja deseja viver uma profunda renovação missionária, há uma forma de pregação que nos compete a todos como tarefa diária: é cada um levar o Evangelho às pessoas com quem se encontra, tanto aos mais íntimos como aos desconhecidos. É a pregação informal que se pode realizar durante uma conversa, e é também a que realiza um missionário quando visita um lar. Ser discípulo significa ter a disposição permanente de levar aos outros o amor de Jesus; e isto sucede espontaneamente em qualquer lugar: na rua, na praça, no trabalho, num caminho.

128. Nesta pregação, sempre respeitosa e amável, o primeiro momento é um diálogo pessoal, no qual a outra pessoa se exprime e partilha as suas alegrias, as suas esperanças, as preocupações com os seus entes queridos e muitas coisas que enchem o coração. Só depois desta conversa é que se pode apresentar-lhe a Palavra, seja pela leitura de algum versículo ou de modo narrativo, mas sempre recordando o anúncio fundamental: o amor pessoal de Deus que Se fez homem, entregou-Se a Si mesmo por nós e, vivo, oferece a sua salvação e a sua amizade. É o anúncio que se partilha com uma atitude humilde e testemunhal de quem sempre sabe aprender, com a consciência de que esta mensagem é tão rica e profunda que sempre nos ultrapassa. Umas vezes exprime-se de maneira mais directa, outras através dum testemunho pessoal, uma história, um gesto, ou outra forma que o próprio Espírito Santo possa suscitar numa circunstância concreta. Se parecer prudente e houver condições, é bom que este encontro fraterno e missionário conclua com uma breve oração que se relacione com as preocupações que a pessoa manifestou. Assim ela sentirá mais claramente que foi ouvida e interpretada, que a sua situação foi posta nas mãos de Deus, e reconhecerá que a Palavra de Deus fala realmente à sua própria vida.

129. Contudo não se deve pensar que o anúncio evangélico tenha de ser transmitido sempre com determinadas fórmulas pré-estabelecidas ou com palavras concretas que exprimam um conteúdo absolutamente invariável. Transmite-se com formas tão diversas que seria impossível descrevê-las ou catalogá-las, e cujo sujeito colectivo é o povo de Deus com seus gestos e sinais inumeráveis. Por conseguinte, se o Evangelho se encarnou numa cultura, já não se comunica apenas através do anúncio de pessoa a pessoa. Isto deve fazer- -nos pensar que, nos países onde o cristianismo é minoria, para além de animar cada baptizado a anunciar o Evangelho, as Igrejas particulares hão-de promover activamente formas, pelo menos incipientes, de inculturação. Enfim, o que se deve procurar é que a pregação do Evangelho, expressa com categorias próprias da cultura onde é anunciado, provoque uma nova síntese com essa cultura. Embora estes processos sejam sempre lentos, às vezes o medo paralisa-nos demasiado. Se deixamos que as dúvidas e os medos sufoquem toda a ousadia, é possível que, em vez de sermos criativos, nos deixemos simplesmente ficar cómodos sem provocar qualquer avanço e, neste caso, não seremos participantes dos processos históricos com a nossa cooperação, mas simplesmente espectadores duma estagnação estéril da Igreja.

Carismas ao serviço da comunhão evangelizadora

130. O Espírito Santo enriquece toda a Igreja evangelizadora também com diferentes carismas. São dons para renovar e edificar a Igreja.[xix] Não se trata de um património fechado, entregue a um grupo para que o guarde; mas são presentes do Espírito integrados no corpo eclesial, atraídos para o centro que é Cristo, donde são canalizados num impulso evangelizador. Um sinal claro da autenticidade dum carisma é a sua eclesialidade, a sua capacidade de se integrar harmoniosamente na vida do povo santo de Deus para o bem de todos. Uma verdadeira novidade suscitada pelo Espírito não precisa de fazer sombra sobre outras espiritualidades e dons para se afirmar a si mesma. Quanto mais um carisma dirigir o seu olhar para o coração do Evangelho, tanto mais eclesial será o seu exercício. É na comunhão, mesmo que seja fadigosa, que um carisma se revela autêntica e misteriosamente fecundo. Se vive este desafio, a Igreja pode ser um modelo para a paz no mundo.

131. As diferenças entre as pessoas e as comunidades por vezes são incómodas, mas o Espírito Santo, que suscita esta diversidade, de tudo pode tirar algo de bom e transformá-lo em dinamismo evangelizador que actua por atracção. A diversidade deve ser sempre conciliada com a ajuda do Espírito Santo; só Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade. Ao invés, quando somos nós que pretendemos a diversidade e nos fechamos em nossos particularismos, em nossos exclusivismos, provocamos a divisão; e, por outro lado, quando somos nós que queremos construir a unidade com os nossos planos humanos, acabamos por impor a uniformidade, a homologação. Isto não ajuda a missão da Igreja.

Cultura, pensamento e educação

132. O anúncio às culturas implica também um anúncio às culturas profissionais, científicas e académicas. É o encontro entre a fé, a razão e as ciências, que visa desenvolver um novo discurso sobre a credibilidade, uma apologética original[xx] que ajude a criar as predisposições para que o Evangelho seja escutado por todos. Quando algumas categorias da razão e das ciências são acolhidas no anúncio da mensagem, tais categorias tornam-se instrumentos de evangelização; é a água transformada em vinho. É aquilo que, uma vez assumido, não só é redimido, mas torna-se instrumento do Espírito para iluminar e renovar o mundo.

133. Uma vez que não basta a preocupação do evangelizador por chegar a cada pessoa, mas o Evangelho também se anuncia às culturas no seu conjunto, a teologia – e não só a teologia pastoral – em diálogo com outras ciências e experiências humanas tem grande importância para pensar como fazer chegar a proposta do Evangelho à variedade dos contextos culturais e dos destinatários.[xxi] A Igreja, comprometida na evangelização, aprecia e encoraja o carisma dos teólogos e o seu esforço na investigação teológica, que promove o diálogo com o mundo da cultura e da ciência. Faço apelo aos teólogos para que cumpram este serviço como parte da missão salvífica da Igreja. Mas, para isso, é necessário que tenham a peito a finalidade evangelizadora da Igreja e da própria teologia, e não se contentem com uma teologia de gabinete.

134. As universidades são um âmbito privilegiado para pensar e desenvolver este compromisso de evangelização de modo interdisciplinar e inclusivo. As escolas católicas, que sempre procuram conjugar a tarefa educacional com o anúncio explícito do Evangelho, constituem uma contribuição muito válida para a evangelização da cultura, mesmo em países e cidades onde uma situação adversa nos incentiva a usar a nossa criatividade para se encontrar os caminhos adequados.[xxii]

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)

Notas:



[i] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 12.
[ii] cf. Mt 28, 19
[iii] Jo 1, 41
[iv] Jo 4, 39
[v] Act 9, 20
[vi] Fl 3, 12-13
[vii] João Paulo II, Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 71: AAS 91 (1999), 60.
[viii] III Conferência Geral do Episcopado Latino- -americano e do Caribe, Documento de Puebla (23 de Março de 1979), 450; cf. V Conferência Geral do Episcopado Latino- -americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29 de Junho de 2007), 264.
[ix] Cf. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Ecclesia in Asia (6 de Novembro de 1999), 21: AAS 92 (2000), 482-484
[x] N.º 48: AAS 68 (1976), 38.
[xi] 101 Ibid., 48: o. c., 38.
[xii] Discurso na Sessão inaugural da V Conferência geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe (13 de Maio de 2007), 1: AAS 99 (2007), 446-447
[xiii] V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29 de Junho de 2007), 262.
[xiv] Ibid., 263.
[xv] Cf. São Tomás de Aquino, Summa theologiae II-II, q. 2, a. 2.
[xvi] V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29 de Junho de 2007), 264.
[xvii] Ibid., 264
[xviii] cf. Rm 5, 5
[xix] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 12.106
[xx] Cf. Propositio 17.107
[xxi] Cf. Propositio 30.
[xxii] Cf. Propositio 27.