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02/06/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo Comum

Evangelho: Mc 12, 28-34

28 Então aproximou-se um dos escribas, que os tinha ouvido discutir. Vendo que Jesus lhes tinha respondido bem, perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?». 29 Jesus respondeu-lhe: «O primeiro de todos os mandamentos é este: “Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. 30 Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças”. 31 O segundo é este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Não há outro mandamento maior do que estes». 32 Então o escriba disse-Lhe: «Mestre, disseste bem e com verdade que Deus é um só, e que não há outro fora d'Ele; 33 e que amá-l'O com todo o coração, com todo o entendimento, com toda a alma, e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais que todos os holocaustos e sacrifícios». 34 Vendo Jesus que tinha respondido sabiamente, disse-lhe: «Não estás longe do reino de Deus». Desde então ninguém mais ousava interrogá-l'O.

Comentário:

O Senhor aproveita todas as circunstâncias que se deparam no Seu caminhar pela terra para tirar ilacções que logo se convertem em autênticas lições para quem O quer seguir.

Dar a Deus, seja o que for tem de ser uma atitude pessoal com um critério de justiça.

E, neste caso, justiça é dar tudo quanto somos e possuímos porque o Senhor não se contenta com "meias dádivas", medidas com cálculo e rigor mas apenas com o que Lhe dermos com Amor total e absoluto.

E, Ele paga sempre com imensa generosidade que é à medida do Seu Amor por nós, Amor que O levou a dar a própria vida.

(ama, comentário sobre Mc 12, 38-44, 2015.06.06)

Leitura espiritual





INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO

"Creio em Deus" – Hoje

SEGUNDA PARTE

JESUS CRISTO

CAPÍTULO PRIMEIRO

"Creio em Jesus Cristo seu Filho Unigénito, Nosso Senhor".

III. Jesus Cristo – verdadeiro Deus e verdadeiro Homem

2. Clichê moderno do "Jesus histórico"

É preciso avançar devagar. Afinal, quem foi Jesus de Nazaré? Que consciência tinha de si? A dar crédito ao clichê que começa a espalhar-se largamente como forma de vulgarização da Teologia hodierna, os factos ter-se-iam processado mais ou menos assim: Seria preciso imaginar o Jesus histórico como uma espécie de mestre profético que surgiu na atmosfera escatológica e excitada do judaísmo tardio do seu tempo, anunciando a proximidade do reino de Deus de acordo com a situação escatológica excitante. A sua pregação, de início, era toda condicionada pelo tempo: Virá, em breve – agora o reino de Deus, o fim do mundo. Contudo, Jesus acentuava o "agora" de modo tão forte que o futuro condicionado não podia mais valer como o elemento decisivo aos olhos do observador mais atento. Este elemento só podia ser percebido no apelo à decisão – mesmo se o próprio Jesus não pensasse em um futuro, em reino de Deus: o homem torna-se todo comprometido com o presente, com o "agora" que irrompe cada vez.

Não nos vamos deter em comentar que uma mensagem tão vazia de conteúdo com que se presume compreender a Jesus melhor do que ele mesmo se compreendeu, dificilmente teria algum significado para os outros. Ouçamos antes, qual tenha sido a continuação do caso. Por razões que não se conseguem mais reconstituir exactamente, Jesus foi executado, morrendo como um fracassado. Depois, de uma maneira que não é mais possível esclarecer, surgiu a fé na ressurreição e a ideia de que ele voltaria a viver ou, pelo menos, de que ele significava alguma coisa. Paulatinamente, esta fé cresceu dando existência a outra ideia que gira numa esfera semelhante: Jesus voltaria como Filho do homem ou Messias. O passo seguinte re-projetou essa esperança sobre o Jesus histórico, colocando-a nos seus lábios e re-interpretando-o de acordo. Passou-se então a declarar, como se ele pessoalmente se tivesse anunciado como o Filho do homem ou vindouro Messias. Em seguida – sempre dentro dos moldes do nosso clichê – a mensagem transferiu-se do mundo semita para o mundo helénico, o que trouxe consigo consideráveis consequências. No mundo judaico, Jesus era explicado mediante categorias judaicas (Filho de Deus, Messias). Tais categorias eram incompreensíveis para o mundo grego; portanto, lançou-se mão de modelos de representação helénicos. Em lugar dos esquemas judaicos de Filho do homem e de Messias, entraram as categorias helénicas de "homem divino" ou "homem-Deus" (theios aner) mediante as quais se tornou acessível a figura de Jesus.

Ora, o "homem Deus", no sentido grego, destaca-se sobretudo por duas características: é taumaturgo e é de origem divina. Esta última conota uma descendência qualquer de Deus como Pai; é sua origem semidivina, semi-humana que o torna um homem-Deus, um homem divino. Consequência da aplicação da categoria de homem divino foi que, forçosamente, se deveriam transferir para Jesus as citadas características. Portanto, começou-se a descrevê-lo como taumaturgo, e o "mito" do nascimento virginal foi criado pela mesma razão. E este, por sua vez, tornou a descrever a Jesus como Filho de Deus, porque Deus, de maneira mítica, entrou em cena como seu Pai. Assim a interpretação helénica de Jesus como "homem divino", unida às suas consequências, transforma em ideia "ontológica" da descendência de Deus o que antes fora distintivo de Jesus, ou seja, o acontecimento da sua proximidade com Deus. E a fé da antiga Igreja prosseguiu nesta senda mítica até à definitiva cristalização do conjunto, no dogma de Calcedónia com o seu conceito da divina filiação ontológica de Jesus. Com a ideia da origem divina ontológica de Jesus, esse concílio dogmatizou aquele mito, cercando-o de uma abstrusa erudição a ponto de elevar a schibboleth da ortodoxia esta declaração mítica, invertendo assim definitivamente o ponto de saída.

O historiador vê em tudo isso um quadro absurdo que, no entanto encontra hoje em dia multidões de adeptos. Por mim, também abstraindo da fé cristã, estou em condições de acreditar mais facilmente e de preferência numa hominização (encarnação) de Deus do que na possibilidade de realizar-se um tal conjunto de hipóteses. Lastimo não me permitir a limitação aqui imposta descer a detalhes da problemática histórica, que exigiriam uma pesquisa demorada e completa. Devemos (e podemos) limitar-nos ao ponto decisivo, em torno do qual gira o nosso problema: a filiação divina de Jesus. Abordando linguisticamente o assunto com cuidado, sem baralhar tudo o que se gostaria de ver interligado, pode-se constatar o que segue.

3. O direito do dogma cristológico

a)   O problema do "homem-Deus".

O conceito de homem divino ou seja de homem-Deus (theios aner) não se encontra em parte alguma no Novo Testamento. Inversamente, na literatura antiga (grega, etc.) não se encontra em nenhum lugar a designação "Filho de Deus". Eis duas constatações importantes. Os dois conceitos de modo algum dependem um do outro historicamente, nada têm em comum, nem real nem linguisticamente. Nem a Bíblia conhece o homem divino, nem a Antiguidade, na esfera do homem divino, conhece a ideia de filiação divina. Pesquisas mais recentes mostram, além disto, que mesmo o conceito de "homem divino" dificilmente encontra cobertura na era pré-cristã, tendo surgido apenas mais tarde.

Mas, mesmo abstraindo disto, continua valendo que o título de "Filho de Deus" e os nexos reais com ele expressos não podem ser esclarecidos mediante a relação de título e ideia do homem divino: os dois esquemas de representação, olhados historicamente, são totalmente estranhos um ao outro e jamais tiveram pontos de contacto.

b)  A terminologia bíblica e sua relação com o dogma.

Na terminologia bíblica do Novo Testamento deve distinguir-se exactamente entre a expressão "Filho de Deus" e a simples designação "o Filho". Para quem não procede linguisticamente com a devida exactidão, ambas parecem denotar a mesma coisa. Realmente as duas têm algo de comum entre si e movimentam-se sempre uma em direcção à outra. Contudo, originariamente pertencem a contextos totalmente diversos, têm origem diferentes e exprimem coisas diversas.

α) "Filho de Deus".

A expressão origina-se da teologia régia do Antigo Testamento que, por sua vez, se baseia em uma desmitização da teologia régia do Oriente, exprimindo a teologia de escolha de Israel. Exemplo clássico de tal processo de desmitização encontra-se no Salmo 2,7 ou seja, no mesmo texto que se tornou um dos pontos básicos para o pensamento cristológico. Neste verso o rei de Israel ouve o seguinte oráculo: "Promulgarei o decreto divino. Disse-me Deus: Tu és meu filho; eu hoje te gerei. Pede-me e dar-te-ei em posse as nações e para teu domínio, os confins da terra". Este versículo pertence ao contexto da entronização dos reis de Israel e origina-se, como já se disse, de ritos de coroação arcaico-orientais, em que o rei era declarado o filho gerado por Deus; aliás, toda a extensão da imagem de geração só foi conservada, ao que parece, no Egipto: ali o Faraó era considerado um ser gerado miticamente por Deus, enquanto na Babilónia o mesmo ritual já tinha sido bastante desmitizado, tendo sido concebido como ato jurídico o pensamento de que o rei era filho de Deus.

Ao ser aceita a fórmula pela corte davídica, seu sentido mitológico foi completamente rejeitado. A ideia de uma geração física do rei pela divindade foi substituída pelo pensamento de que o rei se torna filho hoje; o acto gerador conota acto de escolha por Deus. O rei é filho não porque engendrado, mas porque eleito por Deus. Não se reivindica um processo físico, mas o poder da vontade divina capaz de criar um ser novo. Sem tardança a teologia inteira do povo escolhido concentra-se na ideia da filiação assim compreendida. Em textos mais antigos, todo Israel é chamado o filho primogénito, dilecto de Iahvé (por exemplo, Ex 4,22). Na época dos reis, ao passar tal modo de falar ao monarca, significa que nele, no descendente de David, está resumida a vocação de Israel; que o rei representa Israel, reunindo na sua pessoa o mistério da promessa, da vocação, do amor que envolve a Israel.

E mais, diante da situação real de Israel, devia parecer zombaria cruel a aplicação do ritual oriental aos reis de Israel, tal como se faz no salmo. Havia sentido, quando, à entronização do faraó ou do rei da Babilónia, se lhes declarava: "Os povos pertencem-te por herança, o mundo é teu; governá-los-ás com vara de ferro, quais vasos de argila poderás despedaçá-los". Tal linguagem correspondia às pretensões de domínio mundial daqueles monarcas. Quando um texto assim, cheio de sentido em se aplicando aos reis do Egipto ou da Babilónia, passa a ser usado com referência ao rei de Sião, transforma-se em pura ironia, pois os reis da terra não tremem diante dele, sendo bem o contrário o que sucede. E o domínio mundial expresso pelos lábios de um mísero príncipe de terceira classe, como o rei de Sião, quase deveria parecer uma piada. Dito de outra maneira: o manto do Salmo, tomado de empréstimo ao rito oriental, era grande demais para os ombros do verdadeiro rei do monte Sião. Portanto, foi uma imposição da história que transformou esse Salmo, que visto sob o prisma do presente, devia parecer quase insuportável, e o revestiu mais e mais de um nimbo de esperança naquele relativamente ao qual ele de facto adquiriria todo o seu valor. Isto é: a Teologia do rei, alterada num primeiro estágio em teologia de geração e de escolha, num segundo passo modificou-se em teologia de esperança no rei que viria; o oráculo da entronização passou progressivamente a um lema de promessa de que um dia viria o rei no qual se tornaria realidade: "Meu Filho és tu; eu hoje te gerei. Pede-me e dar-te-ei os povos da terra por herança".

(cont)

joseph ratzinger, Tübingen, verão de 1967.

(Revisão da versão portuguesa por ama)


04/03/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Quaresma
Semana III

Evangelho: Mc 12, 28-34

28 Então aproximou-se um dos escribas, que os tinha ouvido discutir. Vendo que Jesus lhes tinha respondido bem, perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?». 29 Jesus respondeu-lhe: «O primeiro de todos os mandamentos é este: “Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. 30 Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças”. 31 O segundo é este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Não há outro mandamento maior do que estes». 32 Então o escriba disse-Lhe: «Mestre, disseste bem e com verdade que Deus é um só, e que não há outro fora d'Ele; 33 e que amá-l'O com todo o coração, com todo o entendimento, com toda a alma, e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais que todos os holocaustos e sacrifícios». 34 Vendo Jesus que tinha respondido sabiamente, disse-lhe: «Não estás longe do reino de Deus». Desde então ninguém mais ousava interrogá-l'O.

Comentário:

Mais tarde, Jesus Cristo dirigindo-se directamente aos Seus discípulos voltará a este tema para especificar, deixando bem claro que só o amor entre eles os identificará como tal.

O Amor de Deus pelos homens tem de se reflectir no amor-dos-homens entre si.

Em síntese, esta é a condição para alcançar o Reino de Deus.

Parece lógico!

Como se poderia entrar no Reino do Amor sem amor?

(ama, comentário sobre Mc 12, 28-34, 2015.06.04)


Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO CONFISSÕES

LIVRO PRIMEIRO

CAPÍTULO XVII

Êxitos escolares

Permite-me, Senhor, que diga também algo de meu talento, dádiva tua, e dos desatinos em que o empregava. Propunha-se-me como desafio – coisa mui preocupante para minha alma, tanto pelo louvor ou descrédito, como por medo dos açoites – que repetisse as palavras de Juno, irada e ressentida por não podem “afastar da Itália ao rei dos troianos”, embora jamais tenha sabido que tivessem sido pronunciadas por Juno. Mas obrigavam-nos a errar seguindo os passos das ficções poéticas, e a repetir em prosa o que o poeta havia dito em verso. Era mais elogiado aquele que, conforme a dignidade da pessoa representada, soubesse pintar com mais vivacidade e semelhança, e revestir com palavras mais apropriadas seus afectos de ira ou de dor.

Mas qual o proveito disso – ó vida verdadeira, meu Deus – de que me servia ser aplaudido por minha declamação mais que todos os meus coetâneos e condiscípulos? Não era tudo aquilo fumo e vento? Acaso não havia outra coisa em que exercitar meu talento e minha língua? Teus louvores, Senhor, teus louvores, consignados nas Escrituras, poderiam soerguer a frágil planta de meu coração, e eu não teria sido arrebatado pela vaidade de vãs quimeras, presa imunda das aves. Com efeito, há diversas maneiras de oferecer sacrifício aos anjos rebeldes.

CAPÍTULO XVIII

Leis gramaticais, lei de Deus

Mas, por que admirar-se que eu me deixasse arrastar pelas vaidades e me afastar de ti, meu Deus, se me propunham como exemplos para imitar a uns homens que se, ao contar alguma boa acção, deslizassem nalgum barbarismo ou solecismo cobriam-me de críticas e, pelo contrário, que eram elogiados por narrar suas torpezas com palavras castiças e apropriadas, de modo eloquente e elegante, e que os inchavam de vaidade?

Tu vês, Senhor, estas coisas, e te calas compassivo, paciente, cheio de misericórdia e verdade. Mas te calarás para sempre? Arranca, pois, agora deste espantoso abismo a alma que te busca sedenta de teus deleites, e que te diz de coração: Procurei, Senhor, teu rosto; o teu rosto, Senhor, ainda procurarei. Longe está do teu rosto quem anda ocupado com afectos tenebrosos, porque não é com os pés carnais, nem cobrindo distâncias que nos aproximamos ou nos afastamos de ti. Porventura aquele teu filho menor procurou cavalos, ou carros, ou naves, ou voou com asas invisíveis, ou viajou a pé para alcançar aquela região longínqua onde dissipou o que lhes havia dado, ó Pai, meigo ao lhe entregar a substância, e mais carinhoso ainda ao recebê-lo andrajoso? Assim, pois, viver nas paixões da luxúria, é o mesmo que viver em paixões tenebrosas, é viver longe de teu rosto.

Olha, meu Senhor e meu Deus, é vê paciente, como costumas ver, de que modo diligente os filhos dos homens observam as regras de ortografia recebidas dos primeiros mestres, e desprezam as leis eternas de salvação perpétua recebidas de ti; de tal modo que, se alguns dos que sabem ou ensinam as regras antigas dos sons pronunciasse a palavra homo, sem aspirar a primeira letra, desagradaria mais aos homens do que se, contra teus preceitos, odiasse a outro homem, sendo este homem.

Como se o homem pudesse ter inimigo mais pernicioso que o ódio com que se irrita contra si mesmo, ou como se pudesse causar a outrem maior dano, perseguindo-o, do que causa a seu próprio coração odiando! Com certeza, não nos é mais íntima a ciência das letras do que a consciência, que manda não fazer a outrem o que não queremos que não nos façam.

Oh! Como és misericordioso, tu, que habitando silencioso nos céus, Deus grande e único, espalhas com lei infatigável, cegueiras vingadoras sobre as paixões ilícitas! Quando o homem, aspirando à fama de eloquente, ataca a seu inimigo com ódio feroz diante do juiz, rodeado de grande multidão de homens, toma todo o cuidado para que, por um lapsus linguae, não se lhe escape um inter ominibus, sem aspirar o h, sem cuidar que com o furor de seu ódio se tire um homem de entre os homens.

CAPÍTULO XIX

Mau perdedor

À beira de tal lodaçal jazia eu, pobre criança, sendo esta a arena em que me exercitava, temendo mais cometer um barbarismo de linguagem do que cuidando de não invejar, se o cometia, aqueles que o tinham evitado.

Digo e confesso diante de ti, meu Deus, essas misérias, que me angariavam o louvor daqueles cuja simpatia equivalia para mim a uma vida honesta, pois não via o abismo pois não via o abismo de torpeza em que tudo isso me lançara, longe dos teus olhos. Aos teus olhos quem era mais repelente do que eu? E eu até desagradava tais homens, enganando com infinidade de mentiras a meus criados, mestres e pais por amor dos jogos, por gosto de ver espectáculos frívolos e o desejo inquieto de os imitar.

Também cometia furtos na despensa e na mesa de meus pais, ora impelido pela gula, ora para ter de dar aos meninos para brincar com eles, folguedos que os deleitavam tanto quanto a mim, e que eles me faziam pagar. No jogo, frequentemente, conseguia vitórias fraudulentas, vencido pelo desejo de me sobressair. Contudo, nada havia que eu quisesse mais evitar e que eu repreendesse mais atrozmente se o descobrisse em outros, que o mesmo eu fazia aos demais.

Se acaso eu era o prejudicado, e o acusado ficava furioso, eu não cedia. Será esta a inocência infantil? Não, Senhor, não o é, eu to confesso, meu Deus. Porque essas mesmas coisas que se fazem com os criados e mestres por causa de nozes, bolas e passarinhos, se avultam na maioridade com os magistrados e reis por causa de dinheiro, palácios e servos, do mesmo modo que à palmatória sucedem-se maiores castigos.

Assim, quando tu, nosso rei, disseste: Delas é o reino dos céus – quiseste sem dúvida louvar na pequenez de sua estatura um símbolo de humildade.

CAPÍTULO XX

Acção de graças

Contudo, Senhor, graças te sejam dadas, excelso e óptimo criador e ordenador do universo, nosso Deus, mesmo que te limitasses a me fazer apenas menino. Porque então, eu já existia, vivia, sentia, cuidava da minha integridade, eco de tua profunda unidade, fonte de minha existência.

Guardava também, com o secreto instinto, a integridade dos meus outros sentidos, e deleitava-me com a verdade nos pequenos pensamentos que formava sobre coisas pequenas.

Não queria ser enganado, tinha boa memória, e me ia instruindo com a conversação. Alegrava-me com a amizade, fugia à dor, ao desprezo, à ignorância. E não seria isto, em tal criatura, digno de admiração e de louvor? Pois todas essas coisas são dons do meu Deus, que eu não dei a mim mesmo. E todos são bons, e tudo isso constitui o meu eu.

O que me criou, portanto, é bom, e ele próprio é o meu bem; a ele louvo por todos estes bens que integravam meu ser de criança. Eu pecava em buscar em mim próprio e nas demais criaturas, e não nele, os deleites, grandezas e verdades; por isso caia logo em dores, confusões e erros.

Graças a ti, minha doçura, minha esperança e meu Deus, graças a ti por teus dons; que eles fiquem em ti conservados. Assim me guardarás também a mim, e aumentarão e aperfeiçoarão os dons que me deste, e eu estarei contigo, porque também me deste a existência.

LIVRO SEGUNDO

CAPÍTULO I

A adolescência

Quero recordar minhas torpezas passadas e as degradações carnais de minha alma, não porque as ame, mas por te amar, ó meu Deus. É por amor de teu amor que o faço, percorrendo com a memória amargurada, aqueles meus perversos caminhos, para que tu me sejas doce, doçura sem engano, ditosa e eterna doçura. Resgata-me da dispersão em que me dissipei quando, afastando-me de tua unidade, me desvaneci em muitas coisas.

Tempo houve de minha adolescência em que ardi em desejos de me fartar dos prazeres mais baixos, e ousei a bestialidade de vários e sombrios amores, e se murchou minha beleza, e me transformei em podridão diante de teus olhos, para agradar a mim mesmo e desejar agradar aos olhos dos homens.

CAPÍTULO II

As primeiras paixões

E que me deleitava, senão amar e ser amada? Mas eu não era moderado, indo de alma para alma de acordo com os sinais luminosos da amizade, pois, da lodosa concupiscência da minha carne e do fervilhar da puberdade levantava-se como que uma névoa que obscurecia e ofuscava o meu coração, a ponto de não discernir a serena amizade da tenebrosa libido. Uma e outra, confusamente, me abrasavam; arrastavam minha fraca idade pelo declive íngreme de meus apetites, afogando-me em um mar de torpezas. A Tua ira se acumulava sobre mim, e eu não o sabia. Ensurdeci com o ruído da cadeia da minha mortalidade, e cada vez mais me afastava de ti, e tu o consentias; e me agitava, e me dissipava, e me derramava e fervia em minha devassidão, e tu te calavas – ó alegria que tão tarde encontrei! – tu te calavas então, e eu ia cada vez mais para longe de ti, sempre atrás de estéreis sementes de dores, com vil soberba e inquieto cansaço.

Oh! Se alguém refreasse aquela minha miséria, para que fizesse bom uso da fugaz beleza das criaturas inferiores; limitasse suas delicias, a fim de que as vagas daquela minha idade rompessem na praia do matrimonio, já que de outro modo não podia haver paz – contendo-se nos limites da geração, como prescreve tua lei, Senhor, tu que crias o gérmen transmissor da nossa vida mortal, e que com mão bondosa podes suavizar a agudeza dos espinhos, que mantiveste fora do paraíso! Porque a tua omnipotência está perto de nós, mesmo quando vagueamos longe de ti.

Pelo menos eu deveria atender com mais diligência à voz de tuas nuvens: Também eles sofrerão as tribulações da carne; mas eu quisera poupar-vos; e bom é ao homem não tocar em mulher; o que está sem mulher pensa nas coisas de Deus, de como o há de agradar; mas o que está ligado pelo matrimonio pensa nas coisas do mundo, e em como há de agradar à mulher.

Estas são as palavras que eu deveria ter ouvido mais atentamente; e, eunuco pelo amor ao reino de Deus, teria suspirado mais feliz por teus abraços.

Mas eu, miserável, tornei-me em torrente, seguindo o ímpeto de minha paixão, te abandonei e transgredi a todos os teus preceitos, sem porém, escapar de teus castigos. E quem o poderia dentre os mortais? Sempre estavas ao meu lado, irritando-se misericordiosamente comigo, e aspergindo com amaríssimos desgostos todos os meus gozos ilícitos, para que eu buscasse a alegria sem te ofender e, quando a achasse, de modo algum fosse fora de ti, Senhor.

Fora de ti, que impões a dor em mandamento, e feres para sarar, e tiras-nos a vida para que não morramos sem ti.

Mas onde estava eu? Oh! Quão longe, exilado das delícias de tua casa naqueles meus dezasseis anos de idade carnal, quando esta empunhou seu ceptro sobre mim, e eu me rendi totalmente a ela, à fúria da concupiscência que a degradação humana legítima, porém, ilícita, de acordo com as tuas leis.

Nem mesmo os meus cogitaram em me sustentar na queda, pelo casamento, ao ver-me cair; cuidavam apenas que eu aprendesse a compor discursos magníficos e a persuadir com a palavra.

(cont)


(Revisão da versão portuguesa por ama)

04/06/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)



Tempo comum IX Semana


Evangelho: Mc 12 28-34

28 Então aproximou-se um dos escribas, que os tinha ouvido discutir. Vendo que Jesus lhes tinha respondido bem, perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?». 29 Jesus respondeu-lhe: «O primeiro de todos os mandamentos é este: “Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. 30 Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças”. 31 O segundo é este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Não há outro mandamento maior do que estes». 32 Então o escriba disse-Lhe: «Mestre, disseste bem e com verdade que Deus é um só, e que não há outro fora d'Ele; 33 e que amá-l'O com todo o coração, com todo o entendimento, com toda a alma, e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais que todos os holocaustos e sacrifícios». 34 Vendo Jesus que tinha respondido sabiamente, disse-lhe: «Não estás longe do reino de Deus». Desde então ninguém mais ousava interrogá-l'O.

Comentário:

Jesus Cristo faz como que uma síntese dos Mandamentos da Lei de Deus.
Os Dez podem reduzir-se a estes dois?
Não é bem assim!
Cada Mandamento é específico e a sua observância é obrigatória.
O que acontece é que observando aqueles dois primeiros é possível – com verdade e são critério - praticar melhor outros.
Porquê? Porque os outros são mandamentos da Lei Natural a observar por qualquer pessoa humana; por exemplo ninguém deve roubar ou prejudicar intencionalmente o seu semelhante, um ateu pode muito bem observá-los.
Mas a um baptizado acresce a responsabilidade e agrava a sua não observância.

(ama, comentário sobre Mc 12, 28-34, 2015.03.13)


Leitura espiritual



a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS




iv o processo da conversão

…/2

        Ascética é uma palavra de origem grega que significa «preparação para algo».
Comporta, logicamente, privações, exercícios, etc., com vista a obter um fim.

        Na ascese põe-se o ênfase nos esforço que o homem realiza para lutar contra o que pode opor-se ao seu processo de conversão de viver mais plenamente como filho de Deus em Cristo Jesus e viver em Cristo no seu sacerdócio, como mais adiante veremos.
Ou seja, a conversão leva o cristão a identificar-se com Cristo, com o seu Viver e com a sua Missão.

        Para encontrar melhor este caminho e tendo em conta que a conversão tem como finalidade que Cristo viva no crente e o crente viva em Cristo, fazemos um precisão – antes de entrar com mais detalhe na matéria da conversão – para sublinhar a importância de uma prática de ajuda nessa «luta ascética» que teve grande relevância a longo do séculos e que se mantém vigente nos momentos actuais: a direcção espiritual.

        O que é e em que consiste esta prática?
No seu encontro com os discípulos de Emaús, Nosso Senhor Jesus Cristo explica-o claramente.

        Os discípulos eram homens crentes que ainda que tendo ouvido rumores acerca da Ressurreição se retiram do grupo dos Apóstolos talvez sem esperança que Cristo cumpra verdadeiramente as suas promessas.

        O Senhor sai ao seu encontro.
Não interrompe bruscamente o seu processo de abandono. Nem sequer os recrimina.
Simplesmente põe-se a seu lado e caminha com eles.
Interessa-se pela sua situação, a sua tristeza e ante o protesto dos dois homens e a sua estranheza que não estivesse informado do que recentemente acontecera em Jerusalém, começa a explicar-lhes as Escrituras recriminando-os ao mesmo tempo pela sua dureza de coração para as entender.

        Depois de algum tempo e aproximando-se já o anoitecer, faz menção de prosseguir viajem enquanto eles se preparam para descansar um pouco.
Aceita o convite de ficar com eles e na conversa durante a ceia, abre-lhes definitivamente os olhos para compreender a realidade da Ressurreição e desaparece da sua vista.

        Esta forma de actuar de Cristo é o exemplo mais claro de uma verdadeira direcção espiritual, ou ajuda espiritual, como queira chamar-se.
Não lhes impõe nada nem os deslumbra com a manifestação da Verdade.
Respeita as suas dívidas, as suas tribulações e não os liberta do seu pesar, da sua pena sem mais nem menos.
Unicamente se põe a seu lado, fala-lhes e esforça-se para que eles, pessoalmente e a partir do seu interior, consigam desvelar o sentido das Escrituras que manifestam a realidade de Cristo.
Procura com as suas palavras provocar que o espírito dos discípulos e inflame no amor a Deus que um dia os moveu a seguir pessoalmente Nosso Senhor Jesus Cristo.
Esse amor tornará possível o seu arrependimento.

        Cristo sabe que, salvo em casos muito excepcionais, de nada vale uma conversação fruto de um deslumbramento fulgurante e irresistível e que o importante e decisivo é que q luz chegue – e penetre – suavemente no espírito e se inculque com raízes profundas na inteligência e no coração dos homens.

        O Senhor depois espera o convite para ficar para que seja a liberdade dos discípulos que clame uma nova luz.
Uma vez consciente que a preparação do espírito dos dois homens alcançou o grau adequado para gozar da luz e considerada a colaboração no seu actuar que eles manifestam ao convidá-lo a partilhar a ceia, revela-lhes o mistério da sua Ressurreição: nesse momento os seus olhos são capazes de ver Cristo.
A oração de petição «fica connosco» preparou o seu espírito para receber a luz da Redenção.

Essa é a função da ajuda espiritual – a direcção espiritual – que qualquer cristão pode receber de outro cristão qualquer, seja ou não sacerdote, como se vive em não poucas instituições da Igreja e como João Paulo II sublinhou com estas palavras:
«a ‘direcção espiritual’, ou ‘diálogo espiritual’, como por vezes se lhe chama, também se pode levar a cabo fora do sacramento da Penitência e também pelos que não estão ordenados» [1].

        Esta ajuda consiste essencialmente em mover a sua livre vontade a manter-se firme na procura do Senhor e a não permitir que nenhum obstáculo impeça a sua mente de iluminar-se com a luz recebida de Deus.

        Convém acrescentar um esclarecimento: essa ajuda produz-se no seio da família de Deus que é e Igreja, quer dizer, no âmbito da comunhão dos santos que se dá entre todos os que acreditam em Cristo.

        Este é um aspecto que talvez não sublinhamos bastante e caímos na tentação de considerar toda a ajuda espiritual como um assunto entre quem a dá e quem a recebe.
Essa não é a verdadeira perspectiva.
Todo o director espiritual, por chamar-lhe assim, deve saber-se transmissor da verdade de Cristo na Igreja.
De contrário o seu trabalho será inútil ou nefasto.
Santo Agostinho recorda-o com palavras muito claras:

        «Quem quiser viver, tem onde viver, tem do que viver.
Que se aproxime, que acredite, que se deixe incorporar para ser vivificado.
Não rejeite a companhia dos membros» [2].
Os discípulos de Emaús compreenderam muito bem e, apenas terem reconhecido Cristo Ressuscitado, foram diligentes a comunicar a notícia a Pedro e aos Apóstolos: à Igreja.

        Concluído este breve preâmbulo, entramos no exame da conversão que todo o cristão está chamado a realizar em si mesmo, com perseverança, ao longo de toda a sua vida.


v o que é verdadeiramente uma conversão?


        Lembrámos que o Senhor fala sempre de dois momentos no caminho do espírito: arrependei-vos e acreditai no Evangelho.

        Agora temos de acrescentar a queixa de Deus ante os que «o honram com as palavras e o seu coração está longe dele» [3].

        Nestas breves citações esconde-se todo o significado de uma conversão: converte-se quem, arrependido dos seus pecados, crê no Evangelho e, pela fé, dirige o seu coração em busca do Senhor, como o cervo procura a fonte das águas.

        Lembremos que a conversão de que agora nos ocupa se realiza nos que já receberam a primeira e definitiva conversão pelo Baptismo.
«O Baptismo é o lugar principal da primeira e fundamental conversão.
Pela fé na Boa Nova e pelo Baptismo renuncia-se ao mal e alcança-se a salvação, quer dizer a remissão de todos os pecados e o dom da vida nova» [4].

        Esse «dom da vida nova», a nova condição de filhos de Deus em Cristo Jesus que o cristão recebe no Baptismo, origina no seu espírito uma tendência espiritual para que essa «vida nova» se desenvolva e cresça: essa é a perene conversão cristã.

        O Catecismo também nos recorda com palavras muito explícitas:
«A chamada de Cristo à conversão continua a ressoar na vida dos cristãos.
Esta segunda conversão é uma tarefa ininterrupta para toda a Igreja que ‘recebe os pecadores no seu próprio seio’ e que sendo santa e  ao mesmo tempo necessitada de constante purificação, procura sem cessar a penitência a e a renovação’.
Este esforço de conversão não é só obra humana.
É o movimento do ‘coração contrito’ atraído e movido pela graça a responder ao amor misericordioso de Deus que nos amou primeiro» [5].

        Em seguida parece oportuno assinalar «o que a conversa não é», para que não caíamos em engano.
A conversa não é «alcançar um ideal», não é tampouco chegar a viver as virtudes em certo grau de intensidade, e muito menos é libertar-nos completamente do pecado.

        A conversa de que estamos tratando é o germinar da Graça de ser «filhos de Deus em Cristo», nas nossas almas.
Um germinar fruto da acção do Espírito Santo na alma que permite ao homem abrir-se à acção da Graça, convencer-se do pecado e reconstruir no seu coração a verdade e o amor [6].

        Como este «germinar» nunca se conclui o converter-se do cristão comporta a cadeia ininterrupta de conversões ao longo da vida.
Em suma, o pôr em prática essa segunda conversão de que nos fala o Catecismo.
Segunda conversão que estará sempre viva na mediada em que «procuremos Cristo».

        «Arrependei-vos e acreditai no Evangelho» [7].




(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)







[1] João Paulo II, Audiência, 12-IV-1984
[2] San Agustin, Tratado sobre el Evangelio de San Juan, 26, 13
[3] Cfr. Is 29, 13
[4] Catecismo, n. 1427
[5] Catecismo, n. 1428
[6] Cfr. Juan Pablo II, Dominum et vivificantem, n. 45
[7] Mc 1, 15