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02/05/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa


Evangelho: Jo 15. 26 – 16 4

26 Quando, porém, vier o Paráclito, que Eu vos enviarei do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, Ele dará testemunho de Mim.
16, 4 Ora Eu disse-vos estas coisas para que, quando chegar esse tempo, vos lembreis de que vo-las disse. Não vos disse isto, porém, desde o princípio, porque estava convosco.

Comentário:

Este trecho do Evangelho, à primeira vista, termina de forma algo enigmática. Porém, se atentarmos na realidade concreta podemos entender.
Estando Jesus fisicamente presente junto dos Seus discípulos não era necessário mais nada para que acreditassem nele, exactamente porque O viam e viam as Suas obras e ouviam as Suas palavras.
Quando, porém, Cristo Se ausentar fisicamente as coisas serão muito diferentes e todos irão precisar de uma fé forte e inamovível para permanecerem fiéis ao Mestre.
Esta Fé terá de ser alimentada e esclarecida pelo Espírito Santo, o Senhor que dá a Vida em plenitude e confirma a Verdade da Mensagem de Jesus Cristo, o Amor do Pai e a Esperança na Vida Eterna.

(ama, comentário sobre Jo 15, 26; 16, 4, 2013.05.06)



Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES


LIVRO DÉCIMO-TERCEIRO

CAPÍTULO XIV

Esperança

Também eu pergunto: “Onde estás, meu Deus? Onde estás?” – Respiro um pouco de ti quando a minha alma se expande dentro de mim mesmo em gritos de exaltação e de louvor, verdadeiro canto de festa. – Mas ela ainda está triste, porque torna a cair e a ser abismo, ou melhor, porque sente que ainda é abismo.

A minha fé, que tu acendeste à noite para conduzir os meus passos, diz-lhe: “Por que estás triste, ò minha alma, e por que me perturbas? Espera no Senhor. O Seu Verbo é uma lâmpada para os teus passos. Espera, persevera, até que a noite passe, a noite, mãe dos iníquos, até que passe a ira do Senhor, ira da qual outrora fomos filhos quando éramos trevas”. – Dessas trevas ainda arrastamos os restos neste corpo morto pelo pecado, até que alvoreça o dia e se dissipem as sombras. Espera no Senhor. Desde a manhã estarei diante deles, e o contemplarei, e o louvarei eternamente. Desde a manhã estarei diante dele e verei a salvação da minha face, meu Deus, que vivificará os nossos corpos mortais pelo seu Espírito que habita em nós, misericordiosamente levado por sobre as águas tenebrosas das nossas almas.

Por isso, na nossa peregrinação, recebemos dele o penhor de já sermos luz; ele já nos salvou pela esperança e, de filhos da noite e das trevas que éramos, ele fez filhos da luz e do dia.

Na incerteza da ciência humana, só tu és capaz de distinguir entre uns e outros, porque pões os nossos corações à prova e chamas à luz dia e às trevas noite. Quem, senão tu, sabe distinguir-nos? E que temos nós que não o tenhamos recebido de ti? Nós, feitos vasos de honra, fomos feitos da mesma argila que serviu para fazer os vasos de ignomínia.

CAPÍTULO XV

Símbolos

E quem, senão tu, nosso Deus, estendeu sobre nós um firmamento de autoridade, da tua divina Escritura? O céu se dobrará como um livro, e agora estende-se sobre nós como um pergaminho. Mais sublime é a autoridade de que goza a tua divina Escritura depois que morreram aqueles por cujo intermédio no-las comunicaste. E sabes, Senhor, sabes como cobriste de peles os homens, quando o pecado os tornou mortais. Por isso estendeste como um pergaminho o firmamento do teu Livro, e as tuas palavras em tudo concordes, que dispuseste sobre nós pelo ministério de homens mortais. Pela sua morte, a autoridade das tuas palavras, por eles divulgadas, desdobra a sua força sobre tudo o que existe em baixo; ela não se erguia tão alto enquanto eles viviam. É que ainda não tinhas desenrolado o céu como um pergaminho, nem tinhas ainda difundido a glória da sua morte por toda parte.

Senhor, faz com que contemplemos os céus, obra das tuas mãos! Dissipa dos e nossos olhares as nuvens com que os tens velado. Neles está o teu testemunho, dando sabedoria aos humildes. Meu Deus completa o teu louvor pela boca dos meninos que ainda mamam! Não conhecemos outros livros que assim destruam a soberba, e que abatam tão bem o inimigo que resiste a toda a reconciliação contigo, e defende os seus pecados. Não, Senhor, não conheci outras palavras tão puras, que tantos me persuadissem à confissão, e sujeitassem a minha mente ao teu jugo, convidando-me a servir-te tão desinteressadamente. Oxalá eu as compreenda, bondoso Pai!

Concede esta graça à minha submissão, pois firmaste-as para os corações submissos.

Há outras águas, creio eu, sobre esse firmamento: águas imortais e isentas da corrupção terrena. Que elas louvem o teu nome! Que os povos celestes dos teus anjos te bendigam, pois não têm necessidade de olhar esse firmamento, nem de ler para aprenderem a conhecer a tua palavra!

Eles veem sempre a tua face, e ali leem, sem as sílabas transitórias, o objecto da tua vontade eterna.

Leem, escolhem, amam. Leem perpetuamente, e o que eles leem jamais fenece; escolhendo e amando, leem a tua imutável vontade. O teu códice jamais se fecha, jamais se enrola, porque tu mesmo és eternamente esse livro; tu os estabeleceste acima deste firmamento, levantado por ti acima da fraqueza dos povos da terra, para que estes, olhando-o, reconheçam a tua misericórdia, que te anuncia no tempo, tu criador do tempo. A tua misericórdia está no céu, e a tua verdade eleva-se até às nuvens. As nuvens passam, mas o céu permanece. Os que pregam a tua palavra passam para uma outra vida, mas a tua Escritura estende-se sobre os povos até o fim dos séculos.

O céu e a terra passarão, mas as tuas palavras não passarão. O pergaminho será enrolado, e a erva sobre o qual se estendia passará com o seu esplendor, mas a tua palavra permanecerá eternamente. Agora ela aparece-nos no enigma das nuvens e através do espelho dos céus, e não como é na realidade, porque ainda não se manifestou o que havemos de ser, apesar de amados pelo teu filho. Ele olhou-nos através da teia da sua carne e acariciou-nos, e inflamou-nos de amor, e corremos atrás da sua fragrância. Mas quando ele aparecer seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. Vê-lo tal qual é será a nossa felicidade, mas nós ainda não o podemos contemplar.

CAPÍTULO XVI

Deus, fonte de luz

Assim como só tu existes plenamente, só tu possuis o conhecimento absoluto: imutável, com efeito, és no teu ser, imutável no teu saber, imutável na tua vontade. A tua essência sabe e quer imutavelmente, a tua ciência é e quer imutavelmente, a tua vontade é e sabe imutavelmente.

Não é justo a teus olhos que a luz imutável seja conhecida pelo ser mutável, que ela ilumina, como ela se conhece a si própria. Por isso, a minha alma é para ti como terra sem água, porque assim como não se pode iluminar a si mesma, não se pode saciar por seus próprios meios. Porque em ti está a fonte da vida, e graças à tua luz é que veremos a luz.

CAPÍTULO XVII

As águas amargas

Quem reuniu num só mar as águas amargas? O seu objectivo é o mesmo: uma felicidade temporal, terrena, alvo de todas as suas acções a despeito da grande diversidade de cuidados que as agitam. Quem, senão tu, Senhor, poderia dizer a essas águas que se reunissem num só lugar, e à terra enxuta que aparecesse, sedenta de ti? O mar é teu, pois tu o fizeste, e as tuas mãos formaram a terra enxuta. Não é à amargura das vontades mas à reunião das águas que chamamos mar. Também refreias as paixões más das almas e fixas os limites até onde permites que avancem as águas, para que as suas ondas se quebrem sobre si mesmas; e assim, crias o mar, submetido ao teu poder universal.

As almas sedentas de ti, que aparecem aos teus olhos separadas do mar com outra finalidade, tu as regas com um orvalho vivo, misterioso e doce, para que a terra produza seu fruto.

E a terra o produz; ao teu comando, ó Senhor que és seu Deus, nossa alma germina obras de misericórdia, de acordo com a sua condição: ela ama o próximo e vai em auxílio das suas necessidades materiais. Carrega em si a semente da compaixão, por uma semelhança de natureza, porque é o sentimento da nossa fraqueza que nos leva a compadecer das misérias dos que são necessitados, a socorrê-los, como desejaríamos que nos socorressem se tivéssemos as mesmas necessidades. E não se trata só de dar apoio fácil, como ervas nascidas de sementes, mas de protecção enérgica, vigorosa como a árvore que carrega frutos, símbolos das obras que arrebatam à mão do poderoso a vítima da injustiça, dando-lhe um abrigo à sombra protetora de um julgamento justo.

CAPÍTULO XVIII

Meditação

Senhor, assim como crias e concedes alegria e força, assim te peço que nasça da terra a vontade, e que a justiça lance os olhos sobre nós do alto dos céus, e que no firmamento brilhem os astros! Dividamos o nosso pão com quem tem fome, acolhamos em nossa casa o pobre sem teto, vistamos quem está nu, e não desprezemos os nossos semelhantes! Quando tais frutos nascem da nossa terra, olha, Senhor, e diz: Isso é bom; faz com que a tua luz brilho no momento oportuno. Por esta humilde messe de boas obras, faz que nos possamos elevar a uma contemplação deliciosa do Verbo da Vida, e que brilhemos no mundo como astros, fixados no firmamento da tua Escritura.

E aí, de facto, que nos ensinas a distinguir entre as realidades inteligíveis e as sensíveis, entre as almas espirituais e as almas que se entregam aos sentidos, como entre o dia e a noite.

Deste modo já não és mais o único, no segredo do teu discernimento, como eras antes da criação do firmamento, a distinguir entre a luz e as trevas. Também as tuas criaturas espirituais, dispostas e ordenadas nesse mesmo firmamento, depois que a tua graça se manifestou através do mundo, brilham sobre a terra, separam o dia da noite e marcam as diferenças dos tempos. De facto, as coisas antigas passaram, e eis que se fizeram novas, a nossa salvação está mais próxima do que quando começamos a crer, a noite avançou e aproximou-se o dia, coroas o ano com tua bênção, envias os teus operários à tua messe, semeada pelo trabalho de outros operários, enviando-os também para outra sementeira, cuja messe será colhida no fim dos séculos.

Assim ouves as preces do justo e abençoas os seus anos. Mas continuas eternamente o mesmo, e nos teus anos, que não terão fim, preparas um celeiro para os anos que passam.

Por desígnio eterno, lanças sobre a terra os bens do céu no tempo oportuno; a um, teu Espírito dá a palavra de sabedoria, luminar maior para os que encontram o seu deleite na luz de uma verdade clara como o raiar do dia; a outro dás, pelo mesmo Espírito, a palavra de ciência, luminar menor; a outro a fé; a outro o poder de curar; a outro o dom dos milagres; a outro a graça da profecia; a este o discernimento dos espíritos, àquele o dom de línguas. E todos esses dons são como estrelas, são obra de um só e mesmo Espírito, que reparte a cada um os seus dons como lhe agrada, e que faz aparecer tais astros para o bem comum.

Mas a palavra de ciência em que estão encerrados todos os mistérios, que variam com o tempo, como varia a lua, e os outros dons que mencionei ao compará-los com as estrelas, diferem a tal ponto desse brilho de sabedoria de que goza o raiar do dia, que não passam de crepúsculo.

Contudo, os teus dons são necessários àqueles homens, a quem o teu prudente servidor não pôde dirigir como a espirituais, mas como a carnais, ele que pregou a Sabedoria entre os perfeitos.

Quanto ao homem carnal, semelhante a um menino em Cristo, que só se alimenta de leite, que não se julgue abandonado na sua noite, que saiba contentar-se com a luz da lua e das estrelas, até que possa tomar alimento sólido e olhar para o sol. Eis o que nos ensinas na tua sabedoria, nosso Deus, no teu livro, que é o teu firmamento, para que distingamos todas as coisas em contemplação admirável, embora ainda estejamos sob a lei dos sinais, dos tempos, dos dias e dos anos.

(Revisão de versão portuguesa por ama)


11/05/2015

Evangelho, comentário .L Espiritual (A beleza de ser cristão)



Semana VI da Páscoa

Evangelho: Jo 15 26 – 16 4

26 Quando, porém, vier o Paráclito, que Eu vos enviarei do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, Ele dará testemunho de Mim.
16 4 Ora Eu disse-vos estas coisas para que, quando chegar esse tempo, vos lembreis de que vo-las disse. Não vos disse isto, porém, desde o princípio, porque estava convosco.

Comentário:

Compreendemos que Jesus Cristo não podia revelar todas as coisas aos Seus discípulos porque bem sabia que as suas capacidades não abrangeriam tal vastidão de conhecimentos.

O Espírito Santo se “encarregaria” de o fazer de forma integral e completa.

Como nós, homens, também vamos conhecendo gradualmente ao longo da nossa vida terrena as verdades da nossa Fé e, com a assistência do mesmo Espírito Santo, sempre presente na nossa alma em Graça, a compreensão dessas mesmas verdades.

(ama, comentário sobre Jo 15, 26; 16, 4, 2015.04.27)

Leitura espiritual

a beleza de ser cristão

PRIMEIRA PARTE


XII perspectiva da Redenção


B)  a redenção aceite pelo homem

Ao verificar o que comporta a Vida que Cristo nos oferece não podemos deixar de fazer algumas perguntas.

        É possível uma conversão plena de uma criatura a Deus?
        É possível que uma criatura esteja plena e integralmente dedicada a Deus?
        Que significa e o que supõe, em plenitude, amar a Deus com todo o coração, com toda a mente, com todas as forças?
        É possível que todo o actuar do homem seja ao mesmo tempo divino e humano?

Trataremos de ir dando respostas ao longo das páginas seguintes especialmente da Segunda Parte.

São Paulo ao mesmo tempo que recorda a Lei aos Coríntios e lhe manifesta a perspectiva da Redenção dá-lhe bons ensinamentos que abrem o caminho à esperança de chegar a viver a vida de Cristo.
Juntamente com as suas claras afirmações de não ter nada que remorda a consciência ante Deus, reconhece a sua luta, os seus esforços para conseguir o prémio e converter-se e convida os coríntios a imitar o seu exemplo.
«Não sabeis que nas corridas no estádio todos correm mas só um recebe o prémio?
Correi de tal modo que o alcanceis.
Os atletas privem-se de tudo, eles para alcançar uma coroa corruptível, nós, em troca, por uma incorruptível.
Eu corro (…) não como dando golpes no vazio, mas antes golpeio o meu corpo e submeto-o à servidão, não seja que, tendo pregado aos outros, seja eu reprovado».[i]

A conversão – originada no arrependimento, que analisaremos detidamente mais adiante – e a plenitude de vida cristã é algo muito pessoal de cada criatura.

O próprio Cristo quer viver e vive realmente com cada ser humano.
Deus quer que cada homem O receba no seu pensamento – fé -, na sua vida – caridade -, na sua história – esperança -, para que cada homem possa referir-se a Ele não só como Deus mas também como “meu Deus” e que toda a vida de cada homem seja na verdade «vida e obra de Deus».

Essa é a tarefa de enxertar a Redenção no homem que é a verdadeira obra do Espírito Santo na pessoa do crente, tarefa que nunca se concluirá.

A morte alcançará o cristão movido pela fé, pela caridade, pela esperança, na missão de se converter em «filho de Deus em Cristo».


XIII os mandamentos da lei de deus

        Como posso orientar a minha vida no caminho de desenvolver a «participação na natureza divina», a Graça, que está enraizada na minha própria vida?

        Consciente da vida divina que palpita no seu espirito é lógico que o cristão se faça essa pergunta.

        Já em páginas anteriores – cap VII e X – assinalámos que ssa vida da Graça torna possível no homem que a Fé, a Esperança e a Caridade se instalem e enraízem nele.
        Cabe-nos agora descobrir como na prática se manifesta essa vida, coo pode o cristão dizer no fundo da sua alma que vive de Fé, de Esperança, de Caridade ou que pelo menos está tentando fazê-lo.

        Entre os motivos da Encarnação o Catecismo recolhe o de Cristo ser «modelo e exemplo da nova criatura».

        Enxertado nem Cristo o cristão vive a vida de Cristo.
        Se o ser cristão fica reflectido na Fé, na Esperança, na Caridade, que actuar reflectira a realidade da nova criatura em Cristo?»

        A resposta é clara: os Mandamentos da Lei de Deus vividos com o no espírito - «como Eu vos amei» - que Cristo trouxe: o espírito da Bem-Aventuranças.

        O próprio Cristo deu a resposta a esta pergunta quando afirmou:

        «Quem me ama cumpre os meus mandamentos»[ii]

        O vínculo do amor a Deus do viver em Deus e com Deus, em obedecer-lhe e seguir os seus mandamentos está desde o princípio claramente expressa na Escritura.

        Jesus Cristo sublinha este vínculo pouco depois no mesmo capítulo de São João quendo ante a pergunta de Judas Tadeu: «Senhor, que aconteceu que vais manifestar-te a nós e não ao mundo»?, responde: «Se alguém me ama guardará a minha palavra e meu Pai o amará e viremos a ele e nele faremos morada».[iii]

        Se acrescentarmos a estas frases a consideração que Ele próprio faz acerca do cumprimento da Lei:
        «Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim abolir mas sim dar cumprimento»,[iv] podemos tirar algumas conclusões para descobrir o verdadeiro sentido do Mandamentos na vida da «nova criatura» do cristão.

        Está muito disseminada entre os crentes que os Mandamentos vêm a ser uma simples lista de obrigações imposta por Deus ao homem para dessa forma reforçar a sua autoridade sobre o homem.
        Do cumprimento ou desobediência dessas obrigações dependeria a salvação ou o castigo eterno.

        Vejamos agora o profundo e primordial significado dos Mandamentos.

        Ao convocar Moisés para estabelecer a aliança com Israel Yahvé recorda:
        «Se escutardes atentamente a minha voz e observardes a minha Aliança sereis minha especial propriedade estre todos os povos, um reino de sacerdotes, um povo santo».[v]

        Cristo, em fazer «novas todas coisas»;[vi] «se alguém está em Cristo é nova criatura. O antigo passou: tudo foi feito de novo», introduz a novidade do Espírito das Bem-Aventuranças que completam o sentido dos Mandamentos da Antiga Lei para os filhos de Deus em Cristo Jesus, o novo povo de Deus.

        Contemplados com esta perspectiva podemos afirmar que os Mandamentos são uma manifestação palpável do amor de Deus pelos homens, orientações para que os homens não percam o caminho para o Céu, obscurecido no seu coração depois do pecado e iluminado de novo na Encarnação e na Eucaristia.

        A mais preclara natureza dos Mandamentos é a de serem canais pelos quais há-de transcorrer o nosso viver cristão, caminhos que temos de percorrer na interminável conversão a Deus que é a vida do homem.
        No viver os Mandamentos tornam-se realidade na alma do crente as palavras de São Paulo:

        «O amor é a plenitude da Lei».[vii]

        Cristo não veio à terra somente para nos transmitir umas verdades, um conjunto de doutrina.
        A Sua missão não se esgota em ser «Mestre», um educador de multidões.
        Quer comunicar-nos a vida divina e quer também que a vivamos com Ele e que gozemos em vivê-la: os Mandamentos são o modo em que essa vida se manifesta e o canal para a viver, e as Bem-Aventuranças o espírito com o qual essa vida há-de ser vivida.

        Cristo vive a vida do homem e descobre-nos o seu amor em fazer-se igual a nós em tudo excepto no pecado.

        Aa Encarnação é fruto do amor que a Santíssima Trindade tem ao homem, nesse amor, Cristo aproxima-se vital e intimamente dos homens no desejo que alcancem descobrir nele o «aroma de Deus» e ao mesmo tempo transmitir – se se podem empregar estas palavras – ao seio da Trindade a realidade concreta do «aroma do homem», tergiversado e degradado pelo pecado.

        Nesta perspectiva, os Mandamentos são provas do amor de Deus, que não deixa o homem sozinho na tarefa de desenvolver a vida sobrenatural cristã.
        E compreende-se que ao cumpri-los o homem manifeste sem barreiras o amor que tem a Deus.

        Ao mesmo tempo esse cumprimento é uma mostra palpável do verdadeiro triunfo de Deus no homem porque o homem jamais poderia conseguir viver esses Mandamentos com as suas próprias forças.
        Ao vivê-los recobra a pela confiança em Deus e confiando ama verdadeiramente a Deus: a medida que o homem «guarda a doutrina» de Cristo o homem é consciente que a doutrina se converte em vida.
        Mais, que a doutrina é manifestação de vida e convite
à Vida: «o Pai amá-lo-á e iremos a ele e habitaremos nele».[viii]

        O Amor de Deus ao homem originou os Mandamentos, o amor do homem a Deus torna possível que se vivam na terra.
        E não só.
        Ao vivê-los alcançamos pelo menos vislumbrar algo do amor que Deus nos tem porque ao viver na nossa alma o Pai, o Filho e o Espírito Santo fazem-nos participar da visão com que Deus contempla o mundo e o amor com que olha sua criatura predilecta, àquela criatura, única que amou por si mesma, o homem.

(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)





[i] 1 Cor 9, 24-27
[ii] Jo 14, 15
[iii] Jo 14, 23
[iv] Mt 5, 17
[v] Ex 19, 6
[vi] 2 Cor 5, 17
[vii] Rm 13, 10
[viii] Jo 14, 23

26/05/2014

Evangelho diário, comentário, Leitura espiritual (Enc Mater et Magistra 2ª parte 82-115)

Tempo de Páscoa

VI Semana 


 (Santos do dia, ver nesta página)

Jo 15, 26; 16, 4

26 Quando, porém, vier o Paráclito, que Eu vos enviarei do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, Ele dará testemunho de Mim.
16 4 Ora Eu disse-vos estas coisas para que, quando chegar esse tempo, vos lembreis de que vo-las disse. Não vos disse isto, porém, desde o princípio, porque estava convosco.

Comentário:

‘Que futuro nos espera’, talvez pensassem alguns dos Apóstolos; em vez da participação activa num Reino de poder e glória, o Senhor anunciava-lhes perseguição, banimento a morte…
E estão ali, sentados à volta da mesa da Última Ceia, bebendo avidamente as palavras de Jesus, sem se atreverem a perguntar-lhe nada directamente.
Estão com medo mas estão confiantes. Lembram-se de muitas coisas que O Senhor disse e fez; têm bem vivas as imagens de Jesus a falar ao vento e ao mar agitado, a repartir uns poucos de peixes e de pães por milhares de pessoas… sabem que o Mestre não falhará, não os deixará desamparados.

Ele, que conhece o futuro, deverá partilhar esse futuro com eles.

(ama, comentário sobre Jo 15, 26; 16, 4, Fevereiro de 2009)

Leitura espiritual
Doc. do Conc. Vatic. II

CARTA ENCÍCLICA
MATER ET MAGISTRA
DE SUA SANTIDADE JOÃO XXIII
AOS VENERÁVEIS IRMÃOS PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS, BISPOS E OUTROS ORDINÁRIOS DO LUGAR, EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA, BEM COMO A TODO O CLERO E FIÉIS DO ORBE CATÓLICO

SOBRE A RECENTE EVOLUÇÃO DA QUESTÃO SOCIAL À LUZ DA DOUTRINA CRISTÃ
SEGUNDA PARTE

A REMUNERAÇÃO DO TRABALHO

AS EXIGÊNCIAS DA JUSTIÇA QUANTO ÀS ESTRUTURAS PRODUTIVAS

Estruturas conforme à dignidade do homem

82. A justiça há-de respeitar-se, não só na distribuição da riqueza, mas também na estrutura das empresas em que se exerce a actividade produtiva. Na verdade, exige a natureza que os homens, no exercício da actividade produtiva, encontrem possibilidade de empenhar a própria responsabilidade e aperfeiçoar o próprio ser.

83. Por isso, quando as estruturas, o funcionamento e o condicionalismo de um sistema económico comprometem a dignidade humana dos que nele trabalham, entorpecem sistematicamente o sentido da responsabilidade ou impedem que a iniciativa pessoal se manifeste, tal sistema é injusto, mesmo se, por hipótese, a riqueza nele produzida alcança altos níveis e é distribuída segundo as regras da justiça e da equidade.

Confirmação de uma directriz

84. Não é possível determinar, em pormenor, quais as estruturas do sistema económico que melhor correspondem à dignidade humana e mais eficazmente desenvolvem o sentido da responsabilidade. Contudo, o nosso predecessor Pio XII indica oportunamente esta directriz: "A propriedade agrícola pequena e média, a artesanal e profissional, comercial e industrial, deve ser assegurada e promovida; as uniões cooperativistas devem garantir-lhes as vantagens próprias da grande exploração; e nas grandes explorações deve ficar aberta a possibilidade de suavizar o contrato de trabalho pelo contrato da sociedade". [26]

Empresas artesanais e cooperativas de produção

85. Devem-se conservar e promover, de harmonia com o bem comum e conforme as possibilidades técnicas, a empresa artesanal, a exploração agrícola familiar, e também a empresa cooperativista, como integração das duas precedentes.

86. Mais adiante, voltaremos a falar da empresa agrícola familiar. Aqui, julgamos ser oportuno fazer algumas observações acerca da empresa artesanal e das cooperativas.

87. Antes de mais, é preciso notar que ambas as empresas, para conseguirem viver, devem adaptar-se constantemente nas estruturas, no funcionamento e nos tipos de produtos às situações sempre novas, determinadas pelos progressos das ciências e das técnicas, e ainda pela variação nas exigências e preferências dos consumidores. Adaptação que tem de realizar, primeiro que todos, o artesanato e os sócios das cooperativas.

88. Para este fim, é necessário que uns e outros possuam uma boa formação não só técnica mas também humana, e se encontrem organizados profissionalmente; e é também indispensável que se exerça uma política económica apropriada, no que diz respeito sobretudo à instrução, ao regime fiscal, ao crédito e à previdência social.

89. Por outro lado, a acção dos poderes públicos em favor do artesanato e dos sócios das cooperativas encontra-se também justificada pelo facto de representar categorias a que pertencem valores humanos genuínos e que contribuem para o progresso da civilização.

90. Por estes motivos, convidamos, com amor paternal, os nossos caríssimos filhos, artífices e sócios das cooperativas, espalhados pelo mundo inteiro, a tomarem consciência da nobreza da sua profissão e da importância do que fazem para nas comunidades nacionais se manter o sentimento da responsabilidade e espírito de colaboração, e se conservar vivo o amor do trabalho perfeito e original.

Presença activa dos trabalhadores nas médias e grandes empresas

91. Seguindo na direcção indicada pelos nossos predecessores também nós consideramos que é legítima nos trabalhadores a aspiração a participarem activamente na vida das empresas, em que estão inseridos e trabalham. Não é possível determinar antecipadamente o modo e o grau dessa participação, dependendo eles do estado concreto que apresenta cada empresa. Esta situação pode variar de empresa para empresa, e, dentro de cada empresa, está sujeita a alterações muitas vezes rápidas e fundamentais. Julgamos contudo útil chamar a atenção para a continuidade da presença activa dos trabalhadores, tanto na empresa particular como na pública; deve-se tender sempre para que a empresa se torne uma comunidade de pessoas, nas relações, nas funções e na situação de todo o seu pessoal.

92. Ora, isto exige que as relações entre empresários e dirigentes, por um lado, e trabalhadores, por outro, sejam caracterizadas pelo respeito, pela estima e compreensão, pela colaboração leal e activa, e pelo amor da obra comum; e que o trabalho seja considerado e vivido por todos os membros da empresa, não só como fonte de lucros, mas também como cumprimento de um dever e prestação de um serviço. O que supõe, também, poderem os trabalhadores fazer ouvir a sua voz e contribuir para o bom funcionamento e o progresso da empresa. Observava o nosso predecessor Pio XII: "A função económica e social, que todo o homem aspira a desempenhar, exige que a actividade de cada um não se encontre submetida totalmente à vontade alheia". [27] Uma concepção humana da empresa deve, sem dúvida, salvaguardar a autoridade e a eficiência necessária da unidade de direcção; mas não pode reduzir os colaboradores de todos os dias à condição de simples e silenciosos executores, sem qualquer possibilidade de fazerem valer a própria experiência, completamente passivos quanto às decisões que os dirigem.

93. É de notar, por último, que o exercício da responsabilidade, por parte dos empregados nos organismos produtivos, não só corresponde às exigências legítimas, próprias da natureza humana, mas está também em harmonia com o progresso histórico em matéria económica, social e política.

94. Infelizmente, como já indicamos e veremos ainda mais extensamente, não são poucos os desequilíbrios económicos e sociais que ofendem hoje a justiça e a humanidade; e erros gravíssimos ameaçam as actividades, os fins, as estruturas e o funcionamento do mundo económico. Apesar disso, não se pode negar que os regimes económicos, sob o impulso do progresso científico e técnico, se vão hoje modernizando e tornando mais eficientes, a um ritmo muito mais rápido que antigamente. Isto exige dos trabalhadores aptidões e habilitações profissionais mais elevadas. Ao mesmo tempo e como consequência, encontram eles a sua disposição maior número de meios e mais extensas margens de tempo, para se instruírem e actualizarem e para aperfeiçoarem a própria cultura e a formação moral e religiosa.

95. Torna-se também possível aumentar os anos destinados à educação de base e à formação profissional das novas gerações.

96. Vai-se deste modo criando um ambiente humano que favorece a possibilidade de as classes trabalhadoras assumirem maiores responsabilidades mesmo dentro das empresas; e as nações têm cada vez maior interesse em que todos os cidadãos se considerem responsáveis pela realização do bem comum, em todos os sectores da vida social.

Presença dos trabalhadores em todos os níveis

97. Na época moderna, aumentou notavelmente o movimento associativo dos trabalhadores; e foi reconhecido em geral nas disposições jurídicas dos estados e até no plano internacional, especialmente como instrumento de colaboração prestada sobretudo por meio do contrato colectivo. Não podemos, todavia, deixar de notar como é útil ou até necessário, que a voz dos trabalhadores tenha possibilidade de se fazer ouvir e atender, fora mesmo de cada organismo produtivo, e isto em todos os níveis.

98. A razão está em que os organismos produtivos, por mais extensas que sejam as suas dimensões e maior e mais profunda a sua eficiência, são órgãos vitais na estruturação económica e social das respectivas nações e estão condicionados por ela.

99. Todavia, as resoluções, que mais influem no conjunto, não são tomadas pelo organismo produtivo, mas sim pelos poderes públicos ou por instituições de alcance mundial, regional ou nacional, pertencentes à economia ou à produção. Daqui a oportunidade, ou mesmo necessidade, de fazerem parte desses poderes ou instituições, além dos que fornecem os capitais ou dos seus representantes, também os trabalhadores ou quem lhes representa os direitos, exigências e aspirações.

100. O nosso pensamento afectuoso e o nosso paternal estímulo dirigem-se para as associações profissionais e os movimentos sindicais de inspiração cristã, presentes e activos em vários continentes. Apesar de muitas dificuldades, por vezes bem sérias, têm sabido trabalhar e continuam a fazê-lo, a favor dos interesses dos trabalhadores e da sua elevação material e moral, tanto no interior de cada país como no plano mundial.

101. É com satisfação que julgamos nosso dever fazer notar que o seu trabalho não há-de ser medido apenas pelos resultados directos e imediatos, que se encontram à vista; mas também pelas repercussões positivas sobre todo o mundo do trabalho, onde difunde ideias bem orientadas e exerce um influxo cristãmente renovador.

102. Digno de estima é igualmente o influxo que os nossos amados filhos exercem, com espírito cristão, nas outras associações profissionais e sindicais, inspiradas nos princípios naturais da convivência e respeitadoras da liberdade de consciência.

103. Apraz-nos expressar a nossa estima sincera pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). Há dezenas de anos que ela vai contribuindo, de maneira eficaz e preciosa, para implantar no mundo uma ordem económica e social baseada na justiça e na humanidade, ordem que exprime também as legítimas reivindicações dos trabalhadores.

A PROPRIEDADE PRIVADA

Situação nova

104. Nestes últimos decénios, como é do conhecimento geral, nos maiores organismos económicos foi acentuando-se cada vez mais a separação entre a propriedade dos bens produtivos e as responsabilidades na direcção. Sabemos que nasceram daqui problemas difíceis de controlo para os poderes públicos, tendo eles de conseguir que os objectivos pretendidos pelos dirigentes de grandes organizações, sobretudo daqueles que têm maior influência em toda a vida económica de um país, não se oponham às exigências do bem comum. Esses problemas, como prova a experiência, surgem, tanto se os capitais das grandes empresas são de propriedade privada como se pertencem a entidades públicas.

105. É verdade que hoje já há um bom número de cidadãos, e cada dia vão sendo mais, que, dados em organismos de seguros ou de previdência social, olham com serenidade para o futuro: serenidade que, em outros tempos, se fundava sobre a posse de patrimónios, embora fossem modestos.

106. Por último, observe-se que nos nossos dias o homem aspira mais a conseguir habilitações profissionais do que tornar-se proprietário de bens; e tem maior confiança nos recursos que provém do trabalho ou no direito baseado no mesmo, do que em rendimentos vindos do capital ou em direitos nele fundados.

107. Isso encontra-se, aliás, em harmonia com a nobreza do trabalho como afirmação imediata da pessoa diante do capital, que é, por sua natureza, instrumento. Esta mudança de mentalidade há-de considerar-se, portanto, um progresso na civilização humana.

108. Os aspectos indicados do mundo económico, têm contribuído para espalhar a dúvida sobre se deixou de ter valor hoje, ou perdeu importância, um princípio de ordem económica e social constantemente ensinado e propugnado pelos nossos predecessores, o qual diz ser de direito natural a propriedade privada, mesmo tratando-se de bens produtivos.

Reafirmação do direito de propriedade

109. Essa dúvida não tem razão de ser. O direito de propriedade privada, mesmo sobre bens produtivos, tem valor permanente, pela simples razão de ser um direito natural fundado sobre a prioridade ontológica e finalista de cada ser humano em relação à sociedade. Seria, aliás, inútil insistir na livre iniciativa pessoal em campo económico se a essa iniciativa não fosse permitido dispor livremente dos meios indispensáveis para se afirmar. Além disso, a história e a experiência provam que, nos regimes políticos que não reconhecem o direito de propriedade privada sobre os bens produtivos, são oprimidas ou sufocadas as expressões fundamentais da liberdade; é legítimo, portanto, concluir que estas encontram naquele direito garantia e incentivo.

110. Assim se explica como certos movimentos sociais e políticos que se propõem conciliar na vida social a justiça com a liberdade e que eram, até há pouco, claramente opostos ao direito de propriedade privada dos bens de produção, hoje, melhor informados da realidade, reveem a própria posição e tomam uma atitude substancialmente favorável a esse direito.

111. Fazemos nossas, nesta matéria, as observações do nosso predecessor Pio XII: "Quando a Igreja defende o princípio da propriedade privada, tem em vista um alto fim ético e social. Não quer dizer que ela pretenda conservar pura e simplesmente o estado presente das coisas, como se nele visse a expressão da vontade divina, nem proteger por princípio o rico e o plutocrata, contra o pobre e o proletário... A Igreja pretende conseguir que a instituição da propriedade privada venha a ser o que deve, conforme o desígnio da Sabedoria Divina e as disposições da natureza". [28] Quer dizer, pretende que a propriedade privada seja garantia da liberdade essencial da pessoa humana e elemento insubstituível da ordem social.

112. Observamos também que hoje as economias, em muitos países, vão aumentando rapidamente a própria eficiência produtiva. Mas, crescendo o rendimento, exigem a justiça e a equidade, como já se viu, que seja também elevada a remuneração do trabalho, dentro dos limites consentidos pelo bem comum. Isto dará aos trabalhadores maior facilidade de poupar e constituir um património. Não se compreende, portanto, como se pode contestar o carácter natural de um direito que encontra a sua principal fonte e o seu alimento perpétuo na fecundidade do trabalho; que constitui um meio apropriado para a afirmação da pessoa humana e para o exercício da responsabilidade em todos os campos; e que é elemento de estabilidade serena para a família, e de pacífico e ordenado progresso na convivência social.

Difusão efectiva

113. Não basta afirmar que o carácter natural do direito de propriedade privada se aplica também aos bens produtivos; é necessário ainda insistir para que ela se difunda efectivamente entre todas as classes sociais.

114. Como afirma o nosso predecessor Pio XII, a dignidade da pessoa humana "exige normalmente, como fundamento natural para a vida, o direito ao uso dos bens da terra, ao qual corresponde a obrigação fundamental de conceder uma propriedade privada, na medida do possível a todos" [29] e, por outro lado, entre as exigências que derivam da nobreza moral do trabalho, encontra-se também "a da conservação e do aperfeiçoamento de uma ordem social que torne possível e assegure a todas as classes do povo a propriedade privada, embora modesta". [30]

115. Ainda mais se deve urgir a difusão da propriedade num tempo como o nosso, em que, como já se indicou, mais numerosos são os países que desenvolvem rapidamente os próprios sistemas económicos. Por isso, utilizando os vários recursos técnicos de eficiência comprovada, não é difícil promover iniciativas e exercer uma política económica e social que induza e facilite difusão mais extensa da propriedade particular dos bens de consumo duráveis, da habitação, das terras, das ferramentas dos artífices e alfaias da casa agrícola e de acções nas médias e grandes empresas. Alguns países, economicamente prósperos e socialmente avançados, já o estão experimentando com feliz resultado.

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Notas:
[26] Radiomensagem de 1° de setembro de 1944; cf. AAS, 36 (1944), p. 254.
[27] Alocução de 8 de outubro de 1956; cf. AAS, 48(1956), pp. 999-800.
[28] Radiomensagem de 1° de setembro de 1944; cf. AAS, 36 (1944), p. 253.
[29] Radiomensagem de 24 de dezembro de 1942, cf. AAS, 35 (1943), p.17.

[30] Cf. ibid. p. 20.