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17/10/2019

Temas para reflectir e meditar

Felicidade

Porque continuas a caminhar por caminhos difíceis e penosos? 

O descanso não está onde tu o procuras. 
Fazes bem em procurar o que procurar, mas deves saber que não está onde o procuras. 

Procuras a vida feliz na região da morte.

Não está ali! 

Como é possível que haja vida feliz onde nem sequer há vida?

(Stº Agostinho, Confissões, 4, 12,18)

05/05/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Jo 16, 16-20

16 «Um pouco, e já não Me vereis; outra vez um pouco, e ver-Me-eis, porque vou para o Pai». 17 Disseram então entre si alguns dos Seus discípulos: «Que é isto que Ele nos diz: Um pouco, e já não Me vereis, e outra vez um pouco, e ver-Me-eis? Que significa também: Porque vou para o Pai?». 18 Diziam pois: «Que é isto que Ele diz: Um pouco? Não sabemos o que Ele quer dizer». 19 Jesus, conhecendo que queriam interrogá-l'O, disse-lhes: «Vós perguntais uns aos outros porque é que Eu disse: Um pouco, e já não Me vereis, e outra vez um pouco, e ver-Me-eis. 20 Em verdade, em verdade vos digo que haveis de chorar e gemer, e o mundo se há-de alegrar; haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há-de converter-se em alegria.

Comentário:

Jesus Cristo está a falar-nos da “alegria cristã” que é própria dos que acreditam nele e O seguem.

E porquê?

Porque, para o cristão, Jesus Cristo está sempre presente em todos os momentos e circunstâncias da sua vida, participa – quer participar – das ocorrências, pequenas ou grandes, importantes ou de escasso relevo, de tudo o que diga respeito aos Seus Fiéis.

E, se mais fora necessário, o cristão sabe que pode receber directamente o Seu próprio Corpo, Alma e Divindade no Santíssimo Sacramento da Eucaristia.

(ama, comentário sobre Jo 16, 16-20, 2014.05.29)


Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES

LIVRO DÉCIMO-TERCEIRO

CAPÍTULO XXVI

O dom e o fruto

Nutrem-se com esses alimentos os que neles se alegram; neles não encontram alegria os homens cujo deus é o seu ventre. E até entre os que oferecem esses frutos, o fruto não é o que eles dão, mas o espírito com que o oferece. Por isso, naquele que servia o seu Deus e não o seu ventre percebo claramente a fonte da sua alegria; e participo fortemente do seu regozijo. Paulo recebera os presentes que os filipenses lhes tinham mandado por intermédio de Epafrodito. Vejo bem a razão da sua alegria. E é dela que se nutria, porque ele diz com verdade: “Alegrei-me muito no Senhor, vendo enfim reflorescer para mim a vossa estima, da qual já andáveis desgostados”.

Eles, de facto, tinham estado realmente aborrecidos e, tornados áridos, não produziam mais o fruto das boas obras; e Paulo alegra-se por eles, porque as suas simpatias tornaram a florescer, e não por o terem socorrido na sua indigência. Porque ele diz em seguida: “Não é por causa das privações que sofro que falo assim: aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei acomodar-me às privações, e sei viver na abundância. Em tudo e por tudo habituei-me à saciedade e à fome, à abundância e à penúria. Tudo posso naquele que me fortalece”.

Qual então o motivo da tua alegria, ó grande Paulo? De onde vem tal júbilo, de que te alimentas, ó homem renovado para o conhecimento de Deus, conforme a imagem do teu Criador, alma viva que possui tal domínio de si, língua alada que exprime os mistérios? É certamente a tais almas que se deve este alimento. O que foi para ti esse alimento substancioso? A alegria.

Ouçamos o que segue: “Contudo, fizestes bem ao partilhar das minhas tribulações” – Esta é a fonte da alegria, isto é o que o nutre, as boas obras, e não o conforto que aliviou a sua miséria. Ele diz: “Na tribulação dilatastes o meu coração” – pois ele aprendeu a viver na abundância e sofrer as privações, em ti, que o confortas. – “Bem sabeis, filipenses – diz ele – que nos primórdios da minha pregação do Evangelho, quando deixei a Macedónia, nenhuma Igreja me assistiu com os seus bens quanto ao dar e receber, com excepção de vós, que, várias vezes me enviaste, para Tessalónica, com que suprir às minhas necessidades”. – Alegra-se agora por voltarem à prática de boas acções, felicitando-se por eles terem reflorido como campo fértil e verdejante.

Referia-se por acaso às próprias necessidades quando dizia: “Socorrestes às minhas necessidades”? – Será este o motivo da sua alegria? Certamente que não. E como o sabemos?

Porque ele diz em seguida: “Eu não procuro a dádiva, mas o fruto”. – Aprendi de ti, meu Deus, a discernir a dádiva do fruto. O dom é a própria coisa dada por aquele que acode às nossas necessidades; é o dinheiro, a comida, a bebida, a roupa, um abrigo, e auxílio. O fruto é a vontade boa e recta do doador. O bom Mestre não se limita a dizer: “Aquele que receber um profeta” – mas acrescenta: “Aquele que receber um justo...” – mas acrescenta: “na qualidade de justo”. – E assim, aquele receberá a recompensa do profeta, e o outro, a do justo. Ele não diz apenas: “Aquele que der um copo de água fresca a um dos meus pequeninos” – mas acrescenta: “na qualidade de discípulo”. – E prossegue: “Na verdade vos digo: este não ficará sem recompensa”.

– Dom é receber o profeta, receber o justo, dar um copo de água fresca a um discípulo; fruto é fazer isso em consideração da sua qualidade de profeta, de justo, de discípulo. É com este fruto que Elias era alimentado pela viúva: ela sabia que alimentava um homem de Deus, e por isso o fazia. Os alimentos, porém, que lhe eram levados pelo corvo, não passavam de dom, e não era o Elias interior, mas o Elias exterior que recebia esse alimento, o que poderia morrer se lhe faltasse esse alimento.

CAPÍTULO XXVII

Peixes e cetáceos

Por isso, Senhor, direi diante de ti a verdade. Por vezes, ignorantes e infiéis que, para serem iniciados e conquistados para a fé, precisam desses rituais de iniciação e de milagres mirabolantes, simbolizados, a meu ver, pelos peixes e pelos cetáceos, acolhem os teus servos e os socorrem, ou os auxiliam nas necessidades da vida presente, sem saber por que o fazem nem em vista de que devem agir. Desse modo, nem aqueles os alimentam, nem estes são alimentados por eles, pois os primeiros não são movidos por vontade santa e recta, e os segundos não se alegram com os dons recebidos, não descobrindo neles fruto algum. Ora, a alma só se alimenta com o que lhe traz alegria. É esta a razão pela qual os peixes e os cetáceos se nutrem de alimentos que a terra só pode produzir depois de separados e purificados de amargura das águas do mar.

CAPÍTULO XXVIII

A bondade da criação

Viste, meu Deus, que tudo o que criaste te pareceu excelente. Também nós vemos a tua criação, e ela nos parece excelente. Para cada espécie de obra criada, disseste: “Faça-se” e quando elas se fizeram, viste que eram boas. Sete vezes está escrito – eu contei-as – que viste a excelência da tua obra; e na oitava vez contemplaste toda a criação, e disseste que, no seu conjunto, era não apenas boa, mas muito boa. Tomadas separadamente, as tuas obras eram boas; consideradas no seu conjunto, elas eram boas e até excelentes. O mesmo julgamento se pode fazer da beleza dos corpos. Um corpo, formado de membros todos belos, é muito mais bonito que cada um desses membros cuja harmoniosa organização forma o conjunto, embora, considerados à parte, também eles tenham sua beleza própria.

CAPÍTULO XXIX

A palavra de Deus e o tempo

Procurei ver com atenção se foram sete ou oito as vezes que constataste a bondade das tuas obras quando elas te agradaram. Mas não encontrei uma sequência temporal não tua visão, de onde pudesse deduzir que foi esse o número de vezes que viste as tuas criaturas. Então disse: “Senhor, não será verdadeira a tua Escritura, inspirada por ti, que és a própria verdade? Porque então me dizes que a tua visão das coisas não está sujeita ao tempo, enquanto a tua Escritura me diz que dia por dia viste a bondade das tuas obras? E calculei quantas vezes o fizeste.”

A isto respondes-me, porque és meu Deus, falando com voz forte no ouvido interior do teu servo, rompendo a minha surdez, exclamas-me: “Ó homem, o que a minha Escritura diz, eu digo o mesmo.

Mas ela fala no tempo, enquanto este não atinge o meu verbo, que permanece em mim, eterno como eu. Assim, o que vês pelo meu Espírito, sou eu quem o vê; o que dizes pelo meu Espírito, sou eu quem o diz. Mas o que vês no tempo, eu não o vejo no tempo; e o que dizes no tempo, eu não digo no tempo.”

CAPÍTULO XXX

Erro dos maniqueus

Ouvi, Senhor, meu Deus, a tua voz, e recolhi no meu coração uma gota de doçura da tua verdade. Compreendi que há uns aos quais as tuas obras desagradam. Eles sustentam que fizeste muitas delas constrangido pela necessidade, como a estrutura dos céus, a ordem dos astros; afirmam que não as criaste por ti mesmo, mas que elas já existiam alhures, criadas por outra fonte; que te limitaste a reuni-las, a ordená-las, a entrelaçá-las; que com elas construíste as muralhas do mundo, depois de teres vencido os teus inimigos, para que essa construção os mantivesse captivos, e não mais pudessem revoltar-se contra ti; que não criaste nem organizaste outros seres, como os corpos carnais, os animais pequenos e tudo o que se prende à terra por meio de raízes; que foi um espírito hostil, uma outra natureza, não criada por ti, e que se opõe a ti nas regiões inferiores do mundo, que as gerou e organizou. Esses insensatos falam assim porque não veem as tuas obras através do teu Espírito, nem te reconhecem neles.

CAPÍTULO XXXI

A luz do espírito divino

O oposto sucede aos que veem as tuas obras através do teu Espírito, pois és tu é quem as vê neles. Portanto, quando veem que elas são boas, tu também vês essa bondade; em tudo o que lhes agrada por tua causa, tu és que nos agradas, e o que nos agrada através do teu Espírito é em nós que te agrada. Com efeito, quem dentre os homens sabe das coisas do homem, senão o espírito do homem que nele habita? Do mesmo modo o que pertence a Deus ninguém o sabe, a não ser o Espírito de Deus. “Quanto a nós, diz ainda Paulo, não recebemos e espírito deste mundo, mas o Espírito de Deus, para que conheçamos os dons que nos vêm de Deus”.

E isto fez-me perguntar: Posto que certamente ninguém sabe das coisas de Deus, com excepção do Espírito de Deus, como então nós conhecemos os dons que nos vêm de Deus? Eis a resposta que recebi: As coisas que sabemos pelo seu Espírito, ninguém as sabe a não ser o Espírito de Deus. É pois justo que foi dito aos que falavam, inspirados pelo Espírito de Deus: “Não sois vós os que falais” – e aos que obtêm o seu saber do Espírito de Deus: “Não sois vós os que sabeis”. – E com igual razão se diz aos que veem através do Espírito de Deus: “Não sois vós os que veem”. Assim, em tudo o que vemos de bom pelo Espírito de Deus, não somos nós que vemos, mas Deus.

Por isso, uma coisa é julgar mau o que é bom, como o fazem aqueles de quem falei acima, e outra coisa é o homem ver o que é bom. Todavia, muitos amam a tua criação porque é boa, mas não te amam nessa criação; e por isso preferem gozar dela que de ti. Há ainda outro caso, quando alguém vê que uma coisa é boa, mas é Deus que nele vê que essa coisa é boa, e é Deus que é amado na sua criação. Ele só o pode ser graças ao Espírito que Deus nos deu, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Por ele, vemos que tudo o que de algum modo existe é bom, pois recebe o seu ser daquele que é, não de um modo qualquer, mas de modo absoluto.

(Revisão de versão portuguesa por ama)



04/05/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Jo 16, 12-15

12 Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não as podeis compreender agora. 13 Quando vier, porém, o Espírito da Verdade, Ele vos guiará no caminho da verdade total, porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e anunciar-vos-á as coisas que estão para vir. 14 Ele Me glorificará, porque receberá do que é Meu e vo-lo anunciará. 15 Tudo quanto o Pai tem é Meu. Por isso Eu vos disse que Ele receberá do que é Meu e vo-lo anunciará.

Comentário:

O Espírito Santo não virá dizer-nos coisas diferentes das que Jesus Cristo nos disse.

Mas, então, porque se dará essa compreensão mas almas que em muitos casos, parece faltar aos que ouvem Jesus?

Porque traz consigo os seus Dons, nomeadamente os de ciência e de entendimento que abrirão as inteligências e ajudarão as almas a compreender e, compreendendo, a acreditar.


(ama, comentário sobre Jo 16, 12-15, 2013.05.26)



Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES


LIVRO DÉCIMO-TERCEIRO

CAPÍTULO XXII

Sentido místico da criação do homem

Assim, Senhor, nosso Deus e nosso Criador, quando os nossos afectos mundanos, que nos causam a morte porque nos faziam viver mal, se afastarem do amor do mundo, quando a nossa alma, vivendo bem, se tornar alma viva, e quando se cumprir a palavra que proferiste pela boca do teu Apóstolo: “Não vos conformeis com o mundo em que vivemos” – então seguir-se-á aquilo que acrescentaste imediatamente ao dizer: “Mas reformai-vos na novidade de vossa mente”. – E já não será “segundo a vossa espécie” – como se fosse imitar os nossos predecessores ou viver seguindo os exemplos de alguém melhor que nós. Não disseste: “Que o homem seja feito de acordo com a sua espécie” – mas “façamos o homem à nossa imagem e semelhança” – para que pudéssemos reconhecer a tua vontade. Para tanto, o divulgador do teu pensamento, que gerou filhos pelo Evangelho, não querendo que continuassem como crianças os que alimentara com leite e agasalhara no teu seio como uma ama, dizia: “Reformai-vos renovando o vosso coração, para discernir a vontade de Deus, que é bom, agradável e perfeito”. – Também não dizes: “Faça-se o homem” – mas “à nossa imagem e semelhança”. Aquele que é renovado no espírito, que compreende e conhece tua verdade, não mais carece que um outro lhe ensine a imitar a sua espécie. Graças às tuas lições, ele reconhece por si qual é a tua vontade, o que é bom, agradável e perfeito. Tu ensinas-lhe, pois agora é capaz deste ensinamento, a ver a Trindade da Unidade e a Unidade da Trindade. Eis por que, depois de falar no plural: “Façamos o homem” se diz no singular: “E Deus criou o homem”. Depois deste plural: “À nossa imagem” – este singular: “À imagem de Deus”. Assim o homem “se renova pelo conhecimento de Deus, à imagem do seu criador” – e “tornando-se espiritual, julga todas as coisas”, que certamente hão-de ser julgadas, “mas ele não é julgado por ninguém”.

CAPÍTULO XXIII

O julgamento do homem espiritual

Ele julga tudo, significa que tem autoridade sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu, sobre os animais domésticos e selvagens, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que nela se arrastam. Exerce esse poder pela inteligência, pela qual percebe as coisas que são do Espírito de Deus. Mas, elevado a tão grande honra, o homem não entendeu a sua dignidade, igualou-se aos jumentos insensatos, tornando-se semelhante a eles.

Por isso, na tua Igreja, Senhor, pela graça que lhe concedeste – pois somos obra tua, e criados para obras boas, tanto os que governam como os que obedecem segundo o Espírito tem o dom de julgar. Porque assim fizeste a criatura humana homem e mulher, na tua graça espiritual, onde não há distinção conforme o sexo, nem judeu nem grego, nem escravo nem homem livre. Os espirituais, portanto, tanto os que presidem como os que obedecem, julgam espiritualmente. Eles não julgam conhecimentos espirituais que brilham no firmamento, pois não lhes cabe fazer juízos sobre tão sublime autoridade. Nem julgam a tua Escritura, mesmo nas suas passagens obscuras nós lhe submetemos a nossa inteligência, e temos certeza de que até aquilo que está oculto à nossa compreensão é justo e verdadeiro. O homem, pois, embora já espiritual e renovado pelo conhecimento, conforme a imagem do seu criador, deve ser cumpridor da lei, e não seu juiz. Nem pode ajuizar sobre o que distingue espirituais e carnais. Somente os teus olhos, meu Senhor, os distinguem, mesmo que nenhuma obra sua os tenha revelado a nós, para que os reconheçamos pelos seus frutos. Mas tu, Senhor, já os conheces e os classificaste, e os chamaste no segredo de teu pensamento, antes de ter criado o firmamento.

Tampouco julga, o homem espiritual, os povos inquietos deste mundo. De facto, porque julgaria ele os que estão fora, ignorando quem alcançará a doçura da tua graça, e quem permanecerá na eterna amargura da impiedade?

Por isso, o homem que criaste à tua imagem, não recebeu poder sobre os astros do céu, nem sobre o mesmo céu misterioso, nem sobre o dia e a noite que chamaste à existência antes da criação do céu, nem sobre a massa das águas, que é o mar. Mas recebeu poder sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre todos os animais, sobre toda a terra, e sobre tudo o que se arrasta pela superfície do solo.

Ele julga e aprova o que acha bom, e reprova o que acha mau, quer na celebração dos sacramentos, com que são iniciados os que na tua misericórdia tira das águas profundas, quer no banquete em que se serve o peixe tirado das profundezas para alimento da terra fiel; quer nas palavras e expressões sujeitas à autoridade do teu Livro que, semelhantes aos pássaros, voam sob o firmamento: interpretações, exposições, discussões, bênçãos e invocações que brotam sonoras da boca, para que o povo responda: Amém! É necessário que essas palavras sejam enunciadas fisicamente, por causa do abismo do mundo e da cegueira da carne que, impossibilitada de ver o pensamento, tem necessidade de sons que firam os ouvidos. Assim, sem dúvida é sobre a terra que as aves se multiplicam, embora tenham as suas origens na água.

O homem espiritual julga também aprovando o que acha correcto e reprovando o que é vicioso nas obras e nos costumes dos fiéis. Julga as suas esmolas, comparáveis aos frutos da terra; julga a alma viva pelas paixões domadas pela castidade, os jejuns, e pelos pensamentos piedosos, na medida em que essas coisas se manifestam aos sentidos do corpo. Em resumo, é juiz de tudo o que pode se corrigir.

CAPÍTULO XXIV

Crescei e multiplicai-vos

Mas que é isto? Que mistério é este? Abençoas os homens, Senhor, para que eles cresçam, se multipliquem, e encham a terra. Não queres nisto dar-nos a entender alguma coisa?

Por que não abençoaste também a luz, que chamaste dia, nem a terra, nem o mar? Eu diria, meu Deus, que nos criaste à tua imagem, diria que quiseste conceder especialmente ao homem esta bênção, se não tivesses abençoado igualmente os peixes e os cetáceos, para que cresçam, se multipliquem, encham as águas do mar, e os pássaros para que se multipliquem sobre a terra.

Afirmaria ainda que essa bênção foi reservada às espécies vivas que se reproduzem por meio de geração, caso a encontrasse também nas árvores, nas plantas, nos animais da terra. Mas não foi dito nem às plantas, nem às árvores, nem aos répteis: “Crescei e multiplicai-vos” – embora todas essas criaturas se multipliquem pela procriação, como os peixes, os pássaros e os homens, conservando assim a sua espécie.

Quer dizer, então, ó minha Luz, ó Verdade? Que tais palavras carecem de senso e foram ditas em vão? De nenhum modo, ó Pai de misericórdia. Longe de mim, longe do servidor do teu Verbo, uma tal afirmação! Apenas não compreendo o sentido dessas palavras, e espero que os melhores que eu, ou seja, os mais inteligentes, a entendam melhor, segundo a sabedoria que deste, meu Deus, a cada um. Que te agrade ao menos a confissão, que faço diante de ti, da minha certeza de que não disseste em vão aquelas palavras.

Não calarei as reflexões que, a leitura dessas palavras, me sugerem. O que penso é verdadeiro, e nada vejo que impeça de explicar assim os textos figurados dos teus livros. Sei que sinais corporais podem exprimir de vários modos uma ideia que o espírito concebe em um só sentido; uma ideia expressa de um só modo. Como exemplo, cito a simples ideia do amor de Deus e do próximo. Quantos símbolos, quantas línguas, e em cada uma, inúmeras locuções lhe dão uma expressão concreta! É assim que crescem e se multiplicam os peixes das águas.

E note ainda nisto, meu leitor. Há uma frase que a Escritura declara de uma só forma, e que a voz fala apenas dessa maneira: “No princípio criou Deus o céu e a terra” – E não pode a frase ser interpretada diversamente – descartando o erro ou o sofisma – conforme os diversos pontos de vista legítimos? É assim que crescem e se multiplicam as gerações dos homens!

Se consideramos a natureza das coisas, não alegoricamente, mas em sentido próprio, a sentença: “Crescei e multiplicai-vos” –aplica-se a todas as criaturas que nascem de uma semente. Se, ao contrário, a interpretamos em sentido figurado, como penso que foi a intenção da Escritura, que não limita inutilmente essa bênção aos peixes e aos homens, encontramos então multidões de criaturas espirituais e temporais, como no céu e na terra; de almas justas e injustas, como na luz e nas trevas; de escritores sagrados que nos anunciaram a Lei, como no firmamento estabelecido entre as águas; na sociedade amargurada dos povos, como no mar; no zelo das almas piedosas, como em terra enxuta; nas obras de misericórdia praticadas nesta vida, como nas plantas que nascem de semente e nas árvore frutíferas; nos dons espirituais concedidos para o bem de todos, como nos luminares do céu; nas paixões dominadas pela temperança, como na alma viva. Em todas essas coisas encontramos multidões, fecundidade, crescimento. Mas que esse crescimento e essa proliferação exprimam uma mesma ideia de vários modos e que uma só expressão possa ser entendida de muitas maneiras, esse facto, apenas o encontramos nos sinais sensíveis e nos conceitos intelectuais.

Os sinais corpóreos, originados da profundidade da nossa cegueira carnal, correspondem, segundo penso, às gerações das águas; os conceitos intelectuais, gerados pela fecundidade da inteligência, simbolizam, parece-me, as gerações humanas.

E é por isso, Senhor, que creio que disseste tanto às águas como aos homens: “Crescei e multiplicai-vos” – Nessa bênção, penso que nos deste a faculdade, o poder de formular de várias maneiras uma única ideia, e de compreender também de muitas maneiras uma expressão única, mas obscura.

É assim que as águas do mar se povoam, e não se moveriam sem as várias interpretações das palavras. É assim que a terra se povoa de gerações humanas; a sua aridez fecunda-se pela sua paixão da verdade, sob o poder da razão.

CAPÍTULO XXV

Os frutos da terra

Quero ainda dizer, Senhor meu Deus, o que me inspiram as palavras que seguem da tua Escritura. E o farei sem medo, porque direi a verdade; pois não vem de ti, por acaso, a inspiração do que queres que eu diga? Não creio que possa dizer a verdade se tu não me inspirares, pois tu és a própria verdade, e todo homem é mentiroso. Por isto, quem mente fala do que é seu. Logo, para falar a verdade, só falarei o que me inspiras.

Tu deste-nos para alimento todas as ervas que produzem semente e que cobrem a terra, e todas as árvores que contém em si, em germe, os seus frutos. E não foi somente a nós que deste esse alimento, mas também às aves do céu, aos animais da terra e aos répteis, mas não aos peixes e aos grandes cetáceos. Dizíamos que esses frutos da terra significam e representam alegoricamente as obras de misericórdia, que a terra fecunda produz para as necessidades desta vida. Era semelhante a uma terra assim o piedoso Onesíforo, cuja casa recebeu a graça da tua misericórdia, porque muitas vezes assistira a teu Paulo, sem se envergonhar por suas cadeias.

É o mesmo que fizeram os irmãos que, de Macedónia, lhe forneceram o que lhe era necessário, produzindo também abundante fruto. E contudo, o Apóstolo queixa-se de certas árvores que não lhe tinham dado o fruto devido, quando escreve: “na minha primeira defesa ninguém me assistiu; todos me abandonaram. Que isto não lhes seja imputado!” – Tais frutos são devidos aos que nos ministram doutrina racional, ajudando-nos a compreender os mistérios divinos. E nós lhes devemos exemplos de todas as virtudes; e também lhes devemos os frutos como a pássaros do céu, por causa das bênçãos que distribuem abundantemente sobre a terra, pois sua voz se fez ouvir por toda a terra.

(Revisão de versão portuguesa por ama)


03/05/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Jo 14, 16-14

6 Jesus disse-lhe: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai senão por Mim. 7 Se Me conhecesseis, também certamente conheceríeis Meu Pai; mas desde agora O conheceis e já O vistes». 8 Filipe disse-Lhe: «Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta». 9 Jesus disse-lhe: «Há tanto tempo que estou convosco, e ainda não Me conheces, Filipe? Quem Me viu, viu também o Pai. Como dizes, pois: Mostra-nos o Pai? 10 Não acreditais que Eu estou no Pai e que o Pai está em Mim? As palavras que vos digo, não as digo por Mim mesmo. O Pai, que está em Mim, Esse é que faz as obras. 11 Crede em Mim: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim. 12 Crede-o ao menos por causa das mesmas obras. «Em verdade, em verdade vos digo, que aquele que crê em Mim fará também as obras que Eu faço. Fará outras ainda maiores, porque Eu vou para o Pai. 13 Tudo o que pedirdes em Meu nome, Eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. 14 Se Me pedirdes alguma coisa em Meu nome, Eu a farei.

Comentário:

Uma vez mais Jesus Cristo assegura que atenderá aos pedidos feitos em Seu Nome.

Não tenhamos, pois, receio de não ser atendidos.

Se o que pedimos não for conveniente ou mal endereçado Ele fará com que seja satisfeito da forma mais justa para nós.

(ama, comentário sobre Jo 14, 6-14, 2014.05.03)



Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES


LIVRO DÉCIMO-TERCEIRO

CAPÍTULO XIX

Ainda a terra seca

Mas antes, lavai-vos, purificai-vos, arrancai a iniquidade dos vossos corações e dos meus olhos, para que apareça a terra seca. Aprendei a fazer o bem, sede justos para com o órfão e defendei a viúva, para que a terra produza a erva tenra e árvores cheias de frutos. Vinde e dialoguemos, diz o Senhor, e assim no firmamento do céu se acenderão luminares que brilharão por sobre a terra.

Aquele rico perguntava ao bom Mestre o que deveria fazer para ganhar a vida eterna. E o bom Mestre, que é bom porque é Deus, e não um homem como o rico o considerava, declarou-lhe: “O que deseja conseguir a vida deve observar os mandamentos, afastar de si a amargura da malícia e da iniquidade, não matar, não cometer adultério, não roubar, não prestar falso testemunho, a fim de que se mostre a terra seca, geradora do respeito do pai e da mãe e do amor ao próximo.

– Tudo isto já fiz – diz o rico. – De onde vêm pois tantos espinhos, se a terra é fértil? – Vai, arranca os espessos emaranhados da avareza, vende os teus bens, enriquece-te dando tudo aos pobres, e possuirás um tesouro no céu; segue o Senhor se queres ser perfeito, junta-te aos que ele instrui nas palavras de sabedoria, ele que sabe o que se deve dar ao dia e à noite. Também tu o saberás, e eles se tornarão para ti luminares no firmamento do céu. Mas isso não se realizará se ali não estiver o teu coração, e o teu coração, não estará onde não estiver o teu tesouro – Assim falou o teu bom Mestre. Mas a terra estéril entristeceu, e os espinhos sufocaram a Palavra divina.

Mas vós, geração escolhida, fracos aos olhos do mundo, que tudo deixaste-te para seguir o Senhor, caminhais após ele, confundi os fortes; segui-o com os vossos pés resplandecentes, e brilhai no firmamento para que os céus cantem as suas glórias, distinguindo a luz dos perfeitos, que ainda não são semelhantes aos anjos, e as trevas dos pequenos, que ainda não perderam a esperança. Brilhai sobre toda a terra! Que o dia resplandecente de sol transmita ao dia seguinte a palavra de Sabedoria, e que a noite, iluminada pela lua, transmita à noite a palavra de Ciência. A lua e as estrelas brilham na noite, mas a noite não as obscurece, porque são elas que iluminam a noite, de acordo com a sua capacidade.

Como se Deus tivesse dito: Façam-se luminares no firmamento, e logo se fez ouvir um ruído vindo do céu, semelhante ao de um vento violento, e foram vistas línguas de fogo, que se dividiram e se colocaram sobre cada um deles. E apareceram luminares no céu, que possuíam a palavra de vida. Correi por toda parte, chamas sagradas, fogos admiráveis. Vós sois a luz do mundo, e não estais debaixo do alqueire. Aquele a quem vos unistes foi exaltado e ele vos exaltou. Correi e dai-vos a conhecer a todas as nações.

CAPÍTULO XX

Os répteis e as aves

Que o mar também conceba e dê à luz às tuas obras; que as águas produzam répteis dotados de almas vivas. De facto, separando o precioso do vil, tornastes-vos a boca de Deus, pela qual ele diz: “Produzam as águas...” não a alma viva, filha da terra, mas répteis dotados de almas vivas, e pássaros que voam sobre a terra. Assim como esses répteis, os teus sacramentos, ó meu Deus, deslizaram, graças às obras dos teus santos, por entre as ondas das tentações do século para regenerarem os povos com o teu nome, no teu baptismo.

Então operaram-se grandes maravilhas, semelhantes a enormes cetáceos, e as palavras dos teus mensageiros percorreram a terra, sob o firmamento do teu Livro, que com a tua autoridade deveria proteger o seu voo para onde quer que fossem. Não há língua nem palavras em que não se ouçam as suas vozes; o seu som espalhou-se por toda a terra, e as suas palavras até os confins do mundo, porque tu, Senhor, abençoando-os, os multiplicaste.

Estaria eu mentindo? Ou confundindo a questão, não distinguindo as claras noções das coisas do firmamento das obras corpóreas que se realizam no mar agitado e sob o firmamento?

Por certo que não. Há coisas cuja ideia é completa, acabada, que não se multiplicam no curso das gerações, tais como as luzes da sabedoria e da ciência. Mas esses seres são o objecto de operações materiais múltiplas e variadas e, crescendo umas de outras, multiplicam-se sob a tua bênção, meu Deus. É assim que refreias a impertinência dos nossos sentidos, dando a uma verdade única o meio de se exprimir de varias maneiras, por movimentos do corpo. Eis o que produziram as tuas águas, pela omnipotência do teu Verbo. Tudo isto se originou das necessidades de povos afastados da tua verdade eterna, por meio do teu Evangelho. De facto foram essas águas que fizeram brotar essas coisas, e a sua amargura estagnante foi a causa de que o teu Verbo as criasse.

Todas as tuas obras são belas, mas és indizivelmente mais belo tu, que criaste tudo o que existe. Se Adão não se tivesse separado de ti, na sua queda, do seu seio não teria saído o oceano amargo do género humano, com a sua profunda curiosidade, o seu orgulho cheio de tempestades, as suas ondas instáveis. E os dispensadores das tuas palavras não teriam a necessidade de representar, no meio de tantas águas, por meio de sinais físicos e sensíveis, os teus actos e palavras místicas. Foi nesse sentido que entendi esses répteis e essas aves. Mas até os homens iniciados nesses sinais e deles imbuídos, não avançariam no conhecimento desses mistérios, aos quais estão sujeitos, se a sua alma não se elevasse à vida do espírito, e, após a palavra inicial, não aspirasse à perfeição.

CAPÍTULO XXI

A alma viva

E assim não foi a profundeza do mar, mas a terra livre do amargor das águas que, impelida pelo teu Verbo gerou não mais os répteis dotados de almas vivas e os pássaros, mas a alma viva.

E esta não tem mais necessidade de baptismo (necessário para os gentios), como tinha necessidade enquanto as cobriam. Pois não se entra de outro modo no reino dos céus, desde que assim o determinaste. Para ter fé, ela já não exige grandes maravilhas. Ela crê sem ter visto sinais e prodígios, porque é terra fiel, já distinta das águas do mar que a incredulidade torna amargas: e as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis.

A terra que estendeste acima das águas não tem necessidade dessa espécie de aves que as águas produziram por ordem do teu Verbo. Envia-lhe, pois, o teu Verbo, por meio dos teus mensageiros. Nós falamos das suas obras, mas quem age por seu intermédio, para que produzam uma alma viva, és tu. A terra a germina porque é a causa dos fenómenos que ocorrem na superfície, assim como o mar foi causa da produção dos répteis dotados de almas vivas, e das aves sob o firmamento do céu. A terra já não necessita destas criaturas, embora ela se alimente de peixes pescados nas profundezas do mar, nessa mesa que preparaste na presença dos crentes; porque eles foram pescados nas profundezas do mar para alimentar a terra árida.

Também as aves, ainda que nascidas no mar, se multiplicam sobre a terra. As primeiras gerações evangélicas foram motivadas pela incredulidade dos homens, mas os também fiéis nela encontram diariamente copiosas exortações e bênçãos. Todavia, a alma viva, extrai da terra a sua origem, porque somente aos fiéis é meritório abster-se de amar este mundo, para que a sua alma viva por ti, essa alma que estava morta quando vivia em delícias mortíferas. Ó Senhor, só tu fazes as delicias de um coração puro.

Que os teus ministros trabalhem na terra, não como nas águas da incredulidade, quando pregavam e falavam utilizando-se de milagres, de sinais misteriosos, de termos místicos, para capturar atenção da ignorância, mãe da admiração, pelo medo desses sinais secretos. Por esta porta, de facto, os filhos de Adão têm acesso à fé, esquecidos de ti enquanto se escondem da tua face e se tornam abismos. Que os teus ministros trabalhem como em terra seca, separada das fauces do abismo; e que sejam modelo para os fiéis, vivendo sob os teus olhares e incitando-os à imitação. E assim ouve não só para ouvir, mas também para praticar. “Procurai a Deus, e a vossa alma viverá, e a terra dará nascimento a uma alma viva. Não vos conformeis com este mundo em que vivemos, abstendo-vos dele. A alma vive evitando as coisas cujo desejo lhe causa a morte.

Abstende-vos das violências selvagens da soberba, das ociosas voluptuosidades da luxúria, da falsidade que engana em nome da ciência, para que os animais ferozes sejam domesticados, os brutos domados e para que as serpentes sejam inofensivas: todos representam alegoricamente os movimentos da alma humana. O fastio do orgulho, as delícias da luxúria, o veneno da curiosidade, são movimentos da alma morta, mas não morta a ponto de carecer de todo movimento; é afastando-se da fonte da vida que ela morre, o mundo a arrebata ao passar, e a este se amolda.

Mas a tua palavra, meu Deus, é a fonte da vida eterna, e não passa. Ela mesma nos proíbe que nos afastemos de ti por essas palavras: “Não vos conformeis com o mundo em que vivemos, para que a terra, fertilizada pela fonte da vida, produza uma alma viva, uma alma que busque na tua palavra, transmitida pelos teus evangelistas, se fortificar, imitando os imitadores do teu Cristo”.

Eis o sentido da expressão “segundo a sua espécie”, porque o homem imita a quem ama. “Sede como eu” – diz o Apostolo, - porque sou como vós. – Assim haverá na alma viva apenas feras sem maldade, agindo com doçura. Pois nos deste este mandamento: “Fazei as vossas obras com mansidão, e sereis amados por todos” – Também os animais domésticos serão bons: se comerem, não sofrerão fastio e, se não comerem, não terão fome. As serpentes, tornando-se boas, serão incapazes de causar danos, mas continuarão astutas e cautelosas; não investigarão a natureza temporal, senão na medida necessária para compreender e contemplar a eternidade através das coisas criadas. Esses animais, as paixões, obedecem à razão, quando refreados nos seus caminhos mortais, vivem e tornam-se bons.

(Revisão de versão portuguesa por ama)


02/05/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa


Evangelho: Jo 15. 26 – 16 4

26 Quando, porém, vier o Paráclito, que Eu vos enviarei do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, Ele dará testemunho de Mim.
16, 4 Ora Eu disse-vos estas coisas para que, quando chegar esse tempo, vos lembreis de que vo-las disse. Não vos disse isto, porém, desde o princípio, porque estava convosco.

Comentário:

Este trecho do Evangelho, à primeira vista, termina de forma algo enigmática. Porém, se atentarmos na realidade concreta podemos entender.
Estando Jesus fisicamente presente junto dos Seus discípulos não era necessário mais nada para que acreditassem nele, exactamente porque O viam e viam as Suas obras e ouviam as Suas palavras.
Quando, porém, Cristo Se ausentar fisicamente as coisas serão muito diferentes e todos irão precisar de uma fé forte e inamovível para permanecerem fiéis ao Mestre.
Esta Fé terá de ser alimentada e esclarecida pelo Espírito Santo, o Senhor que dá a Vida em plenitude e confirma a Verdade da Mensagem de Jesus Cristo, o Amor do Pai e a Esperança na Vida Eterna.

(ama, comentário sobre Jo 15, 26; 16, 4, 2013.05.06)



Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES


LIVRO DÉCIMO-TERCEIRO

CAPÍTULO XIV

Esperança

Também eu pergunto: “Onde estás, meu Deus? Onde estás?” – Respiro um pouco de ti quando a minha alma se expande dentro de mim mesmo em gritos de exaltação e de louvor, verdadeiro canto de festa. – Mas ela ainda está triste, porque torna a cair e a ser abismo, ou melhor, porque sente que ainda é abismo.

A minha fé, que tu acendeste à noite para conduzir os meus passos, diz-lhe: “Por que estás triste, ò minha alma, e por que me perturbas? Espera no Senhor. O Seu Verbo é uma lâmpada para os teus passos. Espera, persevera, até que a noite passe, a noite, mãe dos iníquos, até que passe a ira do Senhor, ira da qual outrora fomos filhos quando éramos trevas”. – Dessas trevas ainda arrastamos os restos neste corpo morto pelo pecado, até que alvoreça o dia e se dissipem as sombras. Espera no Senhor. Desde a manhã estarei diante deles, e o contemplarei, e o louvarei eternamente. Desde a manhã estarei diante dele e verei a salvação da minha face, meu Deus, que vivificará os nossos corpos mortais pelo seu Espírito que habita em nós, misericordiosamente levado por sobre as águas tenebrosas das nossas almas.

Por isso, na nossa peregrinação, recebemos dele o penhor de já sermos luz; ele já nos salvou pela esperança e, de filhos da noite e das trevas que éramos, ele fez filhos da luz e do dia.

Na incerteza da ciência humana, só tu és capaz de distinguir entre uns e outros, porque pões os nossos corações à prova e chamas à luz dia e às trevas noite. Quem, senão tu, sabe distinguir-nos? E que temos nós que não o tenhamos recebido de ti? Nós, feitos vasos de honra, fomos feitos da mesma argila que serviu para fazer os vasos de ignomínia.

CAPÍTULO XV

Símbolos

E quem, senão tu, nosso Deus, estendeu sobre nós um firmamento de autoridade, da tua divina Escritura? O céu se dobrará como um livro, e agora estende-se sobre nós como um pergaminho. Mais sublime é a autoridade de que goza a tua divina Escritura depois que morreram aqueles por cujo intermédio no-las comunicaste. E sabes, Senhor, sabes como cobriste de peles os homens, quando o pecado os tornou mortais. Por isso estendeste como um pergaminho o firmamento do teu Livro, e as tuas palavras em tudo concordes, que dispuseste sobre nós pelo ministério de homens mortais. Pela sua morte, a autoridade das tuas palavras, por eles divulgadas, desdobra a sua força sobre tudo o que existe em baixo; ela não se erguia tão alto enquanto eles viviam. É que ainda não tinhas desenrolado o céu como um pergaminho, nem tinhas ainda difundido a glória da sua morte por toda parte.

Senhor, faz com que contemplemos os céus, obra das tuas mãos! Dissipa dos e nossos olhares as nuvens com que os tens velado. Neles está o teu testemunho, dando sabedoria aos humildes. Meu Deus completa o teu louvor pela boca dos meninos que ainda mamam! Não conhecemos outros livros que assim destruam a soberba, e que abatam tão bem o inimigo que resiste a toda a reconciliação contigo, e defende os seus pecados. Não, Senhor, não conheci outras palavras tão puras, que tantos me persuadissem à confissão, e sujeitassem a minha mente ao teu jugo, convidando-me a servir-te tão desinteressadamente. Oxalá eu as compreenda, bondoso Pai!

Concede esta graça à minha submissão, pois firmaste-as para os corações submissos.

Há outras águas, creio eu, sobre esse firmamento: águas imortais e isentas da corrupção terrena. Que elas louvem o teu nome! Que os povos celestes dos teus anjos te bendigam, pois não têm necessidade de olhar esse firmamento, nem de ler para aprenderem a conhecer a tua palavra!

Eles veem sempre a tua face, e ali leem, sem as sílabas transitórias, o objecto da tua vontade eterna.

Leem, escolhem, amam. Leem perpetuamente, e o que eles leem jamais fenece; escolhendo e amando, leem a tua imutável vontade. O teu códice jamais se fecha, jamais se enrola, porque tu mesmo és eternamente esse livro; tu os estabeleceste acima deste firmamento, levantado por ti acima da fraqueza dos povos da terra, para que estes, olhando-o, reconheçam a tua misericórdia, que te anuncia no tempo, tu criador do tempo. A tua misericórdia está no céu, e a tua verdade eleva-se até às nuvens. As nuvens passam, mas o céu permanece. Os que pregam a tua palavra passam para uma outra vida, mas a tua Escritura estende-se sobre os povos até o fim dos séculos.

O céu e a terra passarão, mas as tuas palavras não passarão. O pergaminho será enrolado, e a erva sobre o qual se estendia passará com o seu esplendor, mas a tua palavra permanecerá eternamente. Agora ela aparece-nos no enigma das nuvens e através do espelho dos céus, e não como é na realidade, porque ainda não se manifestou o que havemos de ser, apesar de amados pelo teu filho. Ele olhou-nos através da teia da sua carne e acariciou-nos, e inflamou-nos de amor, e corremos atrás da sua fragrância. Mas quando ele aparecer seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. Vê-lo tal qual é será a nossa felicidade, mas nós ainda não o podemos contemplar.

CAPÍTULO XVI

Deus, fonte de luz

Assim como só tu existes plenamente, só tu possuis o conhecimento absoluto: imutável, com efeito, és no teu ser, imutável no teu saber, imutável na tua vontade. A tua essência sabe e quer imutavelmente, a tua ciência é e quer imutavelmente, a tua vontade é e sabe imutavelmente.

Não é justo a teus olhos que a luz imutável seja conhecida pelo ser mutável, que ela ilumina, como ela se conhece a si própria. Por isso, a minha alma é para ti como terra sem água, porque assim como não se pode iluminar a si mesma, não se pode saciar por seus próprios meios. Porque em ti está a fonte da vida, e graças à tua luz é que veremos a luz.

CAPÍTULO XVII

As águas amargas

Quem reuniu num só mar as águas amargas? O seu objectivo é o mesmo: uma felicidade temporal, terrena, alvo de todas as suas acções a despeito da grande diversidade de cuidados que as agitam. Quem, senão tu, Senhor, poderia dizer a essas águas que se reunissem num só lugar, e à terra enxuta que aparecesse, sedenta de ti? O mar é teu, pois tu o fizeste, e as tuas mãos formaram a terra enxuta. Não é à amargura das vontades mas à reunião das águas que chamamos mar. Também refreias as paixões más das almas e fixas os limites até onde permites que avancem as águas, para que as suas ondas se quebrem sobre si mesmas; e assim, crias o mar, submetido ao teu poder universal.

As almas sedentas de ti, que aparecem aos teus olhos separadas do mar com outra finalidade, tu as regas com um orvalho vivo, misterioso e doce, para que a terra produza seu fruto.

E a terra o produz; ao teu comando, ó Senhor que és seu Deus, nossa alma germina obras de misericórdia, de acordo com a sua condição: ela ama o próximo e vai em auxílio das suas necessidades materiais. Carrega em si a semente da compaixão, por uma semelhança de natureza, porque é o sentimento da nossa fraqueza que nos leva a compadecer das misérias dos que são necessitados, a socorrê-los, como desejaríamos que nos socorressem se tivéssemos as mesmas necessidades. E não se trata só de dar apoio fácil, como ervas nascidas de sementes, mas de protecção enérgica, vigorosa como a árvore que carrega frutos, símbolos das obras que arrebatam à mão do poderoso a vítima da injustiça, dando-lhe um abrigo à sombra protetora de um julgamento justo.

CAPÍTULO XVIII

Meditação

Senhor, assim como crias e concedes alegria e força, assim te peço que nasça da terra a vontade, e que a justiça lance os olhos sobre nós do alto dos céus, e que no firmamento brilhem os astros! Dividamos o nosso pão com quem tem fome, acolhamos em nossa casa o pobre sem teto, vistamos quem está nu, e não desprezemos os nossos semelhantes! Quando tais frutos nascem da nossa terra, olha, Senhor, e diz: Isso é bom; faz com que a tua luz brilho no momento oportuno. Por esta humilde messe de boas obras, faz que nos possamos elevar a uma contemplação deliciosa do Verbo da Vida, e que brilhemos no mundo como astros, fixados no firmamento da tua Escritura.

E aí, de facto, que nos ensinas a distinguir entre as realidades inteligíveis e as sensíveis, entre as almas espirituais e as almas que se entregam aos sentidos, como entre o dia e a noite.

Deste modo já não és mais o único, no segredo do teu discernimento, como eras antes da criação do firmamento, a distinguir entre a luz e as trevas. Também as tuas criaturas espirituais, dispostas e ordenadas nesse mesmo firmamento, depois que a tua graça se manifestou através do mundo, brilham sobre a terra, separam o dia da noite e marcam as diferenças dos tempos. De facto, as coisas antigas passaram, e eis que se fizeram novas, a nossa salvação está mais próxima do que quando começamos a crer, a noite avançou e aproximou-se o dia, coroas o ano com tua bênção, envias os teus operários à tua messe, semeada pelo trabalho de outros operários, enviando-os também para outra sementeira, cuja messe será colhida no fim dos séculos.

Assim ouves as preces do justo e abençoas os seus anos. Mas continuas eternamente o mesmo, e nos teus anos, que não terão fim, preparas um celeiro para os anos que passam.

Por desígnio eterno, lanças sobre a terra os bens do céu no tempo oportuno; a um, teu Espírito dá a palavra de sabedoria, luminar maior para os que encontram o seu deleite na luz de uma verdade clara como o raiar do dia; a outro dás, pelo mesmo Espírito, a palavra de ciência, luminar menor; a outro a fé; a outro o poder de curar; a outro o dom dos milagres; a outro a graça da profecia; a este o discernimento dos espíritos, àquele o dom de línguas. E todos esses dons são como estrelas, são obra de um só e mesmo Espírito, que reparte a cada um os seus dons como lhe agrada, e que faz aparecer tais astros para o bem comum.

Mas a palavra de ciência em que estão encerrados todos os mistérios, que variam com o tempo, como varia a lua, e os outros dons que mencionei ao compará-los com as estrelas, diferem a tal ponto desse brilho de sabedoria de que goza o raiar do dia, que não passam de crepúsculo.

Contudo, os teus dons são necessários àqueles homens, a quem o teu prudente servidor não pôde dirigir como a espirituais, mas como a carnais, ele que pregou a Sabedoria entre os perfeitos.

Quanto ao homem carnal, semelhante a um menino em Cristo, que só se alimenta de leite, que não se julgue abandonado na sua noite, que saiba contentar-se com a luz da lua e das estrelas, até que possa tomar alimento sólido e olhar para o sol. Eis o que nos ensinas na tua sabedoria, nosso Deus, no teu livro, que é o teu firmamento, para que distingamos todas as coisas em contemplação admirável, embora ainda estejamos sob a lei dos sinais, dos tempos, dos dias e dos anos.

(Revisão de versão portuguesa por ama)