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22/05/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo Comum

Evangelho: Jo 16, 12-15

12 Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não as podeis compreender agora. 13 Quando vier, porém, o Espírito da Verdade, Ele vos guiará no caminho da verdade total, porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e anunciar-vos-á as coisas que estão para vir. 14 Ele Me glorificará, porque receberá do que é Meu e vo-lo anunciará. 15 Tudo quanto o Pai tem é Meu. Por isso Eu vos disse que Ele receberá do que é Meu e vo-lo anunciará.

Comentário:

O Espírito Santo não virá dizer-nos coisas diferentes das que Jesus Cristo nos disse.

Mas, então, porque se dará essa compreensão mas almas que em muitos casos, parece faltar aos que ouvem Jesus?

Porque traz consigo os seus Dons, nomeadamente os de ciência e de entendimento que abrirão as inteligências e ajudarão as almas a compreender e, compreendendo, a acreditar.

(ama, comentário sobre Jo 16, 12-15, 2013.05.26)


Leitura espiritual



INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO

INTRODUÇÃO

“CREIO – AMÉM”

«Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do céu e da terra"

CAPÍTULO TERCEIRO

O Deus da Fé e o Deus dos Filósofos

1.   Opção da Igreja antiga pela filosofia

A opção contida na imagem bíblica de Deus devia ser reiterada nos alvores do cristianismo e da Igreja; aliás deve ser renovada no início de cada situação nova, pois continua sendo simultaneamente tarefa e dádiva. O anúncio proto-cristão e a fé da Igreja primitiva encontravam-se de novo num meio ambiente saturado de deuses e, por isso, diante do problema que coube a Israel resolver na época de sua origem e no seu embate com os poderes do tempo do exílio e pós-exílio. Tratava-se novamente de declarar que espécie de Deus, afinal, era visado pela fé cristã. Sem dúvida a opção da Igreja primitiva tinha a vantagem de poder apelar para toda a luta pretérita, sobretudo para a sua fase derradeira, a obra do Deutero-Isaías e a literatura sapiencial, para o passo dado na versão grega do Antigo Testamento e, afinal, para os escritos do Novo Testamento, principalmente para o Evangelho de S. João. Com a cobertura de toda esta história, a cristandade antiga decidiu a sua escolha e a sua purificação, concretizando-a com audácia, optando pelo Deus dos filósofos contra os deuses das religiões. Surgindo a pergunta: a que Deus correspondia o Deus cristão, quiçá a Júpiter ou Hermes ou Dionísio ou a outro qualquer, a resposta era: a nenhum deles. A nenhuma das divindades às quais fazeis preces, mas única e exclusivamente àquele Deus ao qual não rezais, àquele ser supremo do qual falam os vossos filósofos. A Igreja primitiva recusou decididamente o cosmos inteiro das religiões antigas, considerando-o como ilusão e engano, e expondo a sua fé do seguinte modo: ao proferir a palavra "Deus", não veneramos, nem temos em vista nada de tudo isto, mas exclusivamente o próprio ser, aquilo que os filósofos destacaram como fundamento de todo o ser, como o Deus acima de todas as potências – somente ele é o nosso Deus. Nesse processo estão uma escolha e uma decisão não menos decisivas e duráveis para o futuro do que o foram, no seu tempo, a escolha de El ou iah contra Moloch e Baal e a evolução de ambos para Elohim e Iahvé, na direcção da ideia do ser. A opção assim feita conotava escolha do Logos contra qualquer espécie de mito, ou seja, significava a definitiva demitização do mundo e da religião.

Teria sido certo o caminho da opção em favor do Logos contra o mito? Para encontrar a resposta certa cumpre não perder de vista todas as nossas considerações sobre a evolução interna do conceito bíblico de Deus, através de cujos últimos passos já se encontra confirmada, de facto, neste sentido, a posição do crístico no mundo helénico. Por outro lado é mister considerar que o próprio mundo antigo conhecia, de forma bem distinta, o dilema entre o Deus da fé e o Deus dos filósofos. Entre as divindades míticas das religiões e o conhecimento filosófico de Deus desenvolveu-se, no correr da história, uma tensão sempre mais forte contida na crítica dos mitos, feita pelos filósofos desde Xenófanes até Platão, que se preocupava com a tentativa de abolir o mito homérico clássico, substituindo-o por um mito novo, em consonância com o Logos. A pesquisa actual convence-se sempre mais da existência de um paralelo extraordinário de carácter temporal e real entre a crítica filosófica dos mitos na Grécia e a crítica profética dos deuses em Israel. É certo que ambos partem de hipóteses totalmente diversas, visando metas completamente diferentes. Mas o movimento do Logos contra o mito, tal como se deu na mentalidade grega, no esclarecimento filosófico a ponto de acabar causando a queda dos deuses, está em paralelo intrínseco com o esclarecimento da literatura profética e sapiencial na sua demitização dos poderes idolátricos, em favor do único Deus. Ambos os movimentos convergem no Logos, apesar de todas as antíteses. O esclarecimento filosófico e a sua mentalidade "física" do ser desalojam sempre mais a aparência mítica, mas sem afastar a forma religiosa da veneração dos deuses. Por isso a religião antiga desfez-se totalmente no abismo entre o Deus da fé e o Deus dos filósofos, na diástase total entre razão e piedade. Não se conseguiu reunir ambas as coisas, já que razão e fé se afastaram sempre mais, separando-se o Deus da fé e o Deus dos filósofos: estava aí o descalabro interno da religião antiga. A religião cristã não tinha a esperar outro destino, se concordasse com separação semelhante da razão e com uma correspondente retirada para o terreno puramente religioso, como Schleiermacher defende e como, em certo sentido, se encontra, paradoxalmente, no grande crítico e adversário de Schleiermacher, que foi Karl Barth.

O destino oposto do mito e do Evangelho no mundo antigo, o fim do mito e a vitória do Evangelho, sob o enfoque da história da filosofia, devem ser, essencialmente, explicados a partir da relação antitética criada, em ambos os casos, entre religião e filosofia, entre fé e razão. O paradoxo da filosofia antiga, sob o enfoque religioso-histórico, consiste no facto de ela ter destruído o mito, racionalmente, tentando, ao mesmo tempo, re-legitimá-lo religiosamente – isto é: não foi revolucionária religiosamente, mas, no máximo, evolucionária, tratando a religião como questão do teor de vida e não como questão da verdade. Paulo descreveu muito exactamente este processo na Epístola aos Romanos [1], apoiando-se na literatura sapiencial, usando a linguagem profética (e respectivamente, o estilo antigo-testamentário dos livros sapienciais). Já no livro da Sabedoria [2] encontra-se a alusão a esse destino trágico da religião antiga e ao paradoxo inerente à separação de verdade e piedade (ou fé). Paulo reassume o que ali se disse em poucos versículos, descrevendo a sorte da religião antiga a partir desse divórcio entre Logos e mito: "O que de Deus se pode conhecer... é para eles manifesto, tendo-lho Deus manifestado... Mas, conhecendo embora a Deus, não o honraram como Deus... Trocaram a glória do Deus indefectível pela reprodução em imagens do homem corruptível, de aves, de quadrúpedes e de répteis... " [3].

A religião não segue a senda do Logos, mas persiste no mito compreendido como vazio de qualquer realidade. Com tal era inevitável a sua ruína, consequência do afastamento da verdade, que levou a considerar a religião como mera institutio vitae, simples convenção e forma de vida. Em contraste com semelhante situação, Tertuliano descreveu a posição cristã com muita ênfase, em frase ousada, ao dizer: "Cristo denominou-se a verdade, não o costume". Vejo aí uma das grandes frases da teologia patrística. Está aí condensada de modo único a luta da Igreja antiga e a tarefa permanente imposta à fé cristã, caso queira conservar-se fiel a si mesma. A divinização da consuetudo Romana, da "origem" da cidade de Roma, que transformava os seus costumes em norma auto-suficiente do comportamento contrapõe-se à pretensão exclusivista da verdade. Com tal o cristianismo colocou-se decididamente ao lado da verdade, voltando as costas a uma ideia de religião que se satisfazia em ser figura cerimonial, à qual se podia acrescentar um sentido qualquer na fase da interpretação.

Uma indicação ainda para esclarecer o que foi dito. A antiguidade adaptou, afinal, o dilema da sua religião, da sua separação da verdade do conhecimento filosófico, na ideia de três teologias cuja existência era afirmada: teologia física, política e mítica. Justificou a pendência de mito e Logos com a consideração pelo sentir do povo e pela utilidade do estado na medida em que a teologia mítica possibilitava também uma teologia política. Por outras palavras: de facto colocou a verdade contra o costume, a utilidade contra a verdade. Os representantes da filosofia neo-platónica deram um passo para a frente interpretando o mito ontologicamente, explicando-o como teologia do símbolo, tentando assim colocá-lo como mediador no caminho da exegese da verdade. Mas, cessou realmente de existir o que só pode sobreviver graças à interpretação. O espírito humano, com razão, volta-se para a própria verdade e não para o que ainda se pode declarar como concorde com a verdade por meio do método da interpretação, usando de atalhos, de subterfúgios, muito embora não possua mais nenhuma verdade.

Ambos os processos revelam algo presente no nosso momento histórico, prenhe de preocupações. Numa situação onde a verdade do crístico parece em vias de se desfazer, tornam a delinear-se na luta em torno do cristianismo hodierno exactamente aqueles dois métodos com que outrora o politeísmo antigo travou o seu combate mortal e foi derrotado. De um lado, está a retirada do âmbito da verdade da razão para uma esfera de pura piedade, de pura fé, de simples revelação; retirada que, na realidade, queira-se ou não, concedida ou negada, se assemelha de maneira fatal à retirada da religião antiga frente ao Logos, à fuga face à verdade, para os domínios de lindos costumes ou tradições, e face à física, para o seio da política. Do outro lado está o processo, que eu denominaria resumidamente cristianismo interpretativo. Aqui se desfaz, com o método da interpretação, o escândalo do crístico e, ao tornar-se assim não escandaloso, faz, ao mesmo tempo, da sua própria causa uma frase dispensável, um atalho inútil para dizer o simples que aqui é explicado mediante complicadas artimanhas interpretativas.

Ao contrário disto, a opção cristã original é completamente outra. A fé cristã optou – já o vimos – pelo Deus dos filósofos, isto é, contra o mero mito do costume, optou exclusivamente pela verdade do próprio ser. A objecção contra a Igreja antiga – de que os seus membros eram sequazes do ateísmo – procedia desse processo. Realmente, consequência disto foi que a antiga Igreja repudiou o mundo inteiro da religião antiga, que declarou nada disto aceitável, mas afastou de si tudo isto como sendo costume vazio, que se opõe à verdade. O Deus dos filósofos que foi conservado, não era considerado pela antiguidade como religiosamente importante, mas apenas como uma realidade académica, extra-religiosa. O facto de só deixar este Deus e de somente e exclusivamente declarar-se por ele foi considerado como irreligiosidade, como negação da religião e como ateísmo. Na suspeita de ateísmo com que o cristianismo antigo tinha de lutar, torna-se claramente reconhecível a sua orientação espiritual, a sua opção contra a religião e contra o seu costume vazio de verdade, opção feita unicamente em favor da verdade do ser.

(cont)

joseph ratzinger, Tübingen, verão de 1967.

(Revisão da versão portuguesa por ama)









[1] 1,18-31
[2] cap. 13-15
[3] Rom 1,19-23

04/05/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Jo 16, 12-15

12 Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não as podeis compreender agora. 13 Quando vier, porém, o Espírito da Verdade, Ele vos guiará no caminho da verdade total, porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e anunciar-vos-á as coisas que estão para vir. 14 Ele Me glorificará, porque receberá do que é Meu e vo-lo anunciará. 15 Tudo quanto o Pai tem é Meu. Por isso Eu vos disse que Ele receberá do que é Meu e vo-lo anunciará.

Comentário:

O Espírito Santo não virá dizer-nos coisas diferentes das que Jesus Cristo nos disse.

Mas, então, porque se dará essa compreensão mas almas que em muitos casos, parece faltar aos que ouvem Jesus?

Porque traz consigo os seus Dons, nomeadamente os de ciência e de entendimento que abrirão as inteligências e ajudarão as almas a compreender e, compreendendo, a acreditar.


(ama, comentário sobre Jo 16, 12-15, 2013.05.26)



Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES


LIVRO DÉCIMO-TERCEIRO

CAPÍTULO XXII

Sentido místico da criação do homem

Assim, Senhor, nosso Deus e nosso Criador, quando os nossos afectos mundanos, que nos causam a morte porque nos faziam viver mal, se afastarem do amor do mundo, quando a nossa alma, vivendo bem, se tornar alma viva, e quando se cumprir a palavra que proferiste pela boca do teu Apóstolo: “Não vos conformeis com o mundo em que vivemos” – então seguir-se-á aquilo que acrescentaste imediatamente ao dizer: “Mas reformai-vos na novidade de vossa mente”. – E já não será “segundo a vossa espécie” – como se fosse imitar os nossos predecessores ou viver seguindo os exemplos de alguém melhor que nós. Não disseste: “Que o homem seja feito de acordo com a sua espécie” – mas “façamos o homem à nossa imagem e semelhança” – para que pudéssemos reconhecer a tua vontade. Para tanto, o divulgador do teu pensamento, que gerou filhos pelo Evangelho, não querendo que continuassem como crianças os que alimentara com leite e agasalhara no teu seio como uma ama, dizia: “Reformai-vos renovando o vosso coração, para discernir a vontade de Deus, que é bom, agradável e perfeito”. – Também não dizes: “Faça-se o homem” – mas “à nossa imagem e semelhança”. Aquele que é renovado no espírito, que compreende e conhece tua verdade, não mais carece que um outro lhe ensine a imitar a sua espécie. Graças às tuas lições, ele reconhece por si qual é a tua vontade, o que é bom, agradável e perfeito. Tu ensinas-lhe, pois agora é capaz deste ensinamento, a ver a Trindade da Unidade e a Unidade da Trindade. Eis por que, depois de falar no plural: “Façamos o homem” se diz no singular: “E Deus criou o homem”. Depois deste plural: “À nossa imagem” – este singular: “À imagem de Deus”. Assim o homem “se renova pelo conhecimento de Deus, à imagem do seu criador” – e “tornando-se espiritual, julga todas as coisas”, que certamente hão-de ser julgadas, “mas ele não é julgado por ninguém”.

CAPÍTULO XXIII

O julgamento do homem espiritual

Ele julga tudo, significa que tem autoridade sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu, sobre os animais domésticos e selvagens, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que nela se arrastam. Exerce esse poder pela inteligência, pela qual percebe as coisas que são do Espírito de Deus. Mas, elevado a tão grande honra, o homem não entendeu a sua dignidade, igualou-se aos jumentos insensatos, tornando-se semelhante a eles.

Por isso, na tua Igreja, Senhor, pela graça que lhe concedeste – pois somos obra tua, e criados para obras boas, tanto os que governam como os que obedecem segundo o Espírito tem o dom de julgar. Porque assim fizeste a criatura humana homem e mulher, na tua graça espiritual, onde não há distinção conforme o sexo, nem judeu nem grego, nem escravo nem homem livre. Os espirituais, portanto, tanto os que presidem como os que obedecem, julgam espiritualmente. Eles não julgam conhecimentos espirituais que brilham no firmamento, pois não lhes cabe fazer juízos sobre tão sublime autoridade. Nem julgam a tua Escritura, mesmo nas suas passagens obscuras nós lhe submetemos a nossa inteligência, e temos certeza de que até aquilo que está oculto à nossa compreensão é justo e verdadeiro. O homem, pois, embora já espiritual e renovado pelo conhecimento, conforme a imagem do seu criador, deve ser cumpridor da lei, e não seu juiz. Nem pode ajuizar sobre o que distingue espirituais e carnais. Somente os teus olhos, meu Senhor, os distinguem, mesmo que nenhuma obra sua os tenha revelado a nós, para que os reconheçamos pelos seus frutos. Mas tu, Senhor, já os conheces e os classificaste, e os chamaste no segredo de teu pensamento, antes de ter criado o firmamento.

Tampouco julga, o homem espiritual, os povos inquietos deste mundo. De facto, porque julgaria ele os que estão fora, ignorando quem alcançará a doçura da tua graça, e quem permanecerá na eterna amargura da impiedade?

Por isso, o homem que criaste à tua imagem, não recebeu poder sobre os astros do céu, nem sobre o mesmo céu misterioso, nem sobre o dia e a noite que chamaste à existência antes da criação do céu, nem sobre a massa das águas, que é o mar. Mas recebeu poder sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre todos os animais, sobre toda a terra, e sobre tudo o que se arrasta pela superfície do solo.

Ele julga e aprova o que acha bom, e reprova o que acha mau, quer na celebração dos sacramentos, com que são iniciados os que na tua misericórdia tira das águas profundas, quer no banquete em que se serve o peixe tirado das profundezas para alimento da terra fiel; quer nas palavras e expressões sujeitas à autoridade do teu Livro que, semelhantes aos pássaros, voam sob o firmamento: interpretações, exposições, discussões, bênçãos e invocações que brotam sonoras da boca, para que o povo responda: Amém! É necessário que essas palavras sejam enunciadas fisicamente, por causa do abismo do mundo e da cegueira da carne que, impossibilitada de ver o pensamento, tem necessidade de sons que firam os ouvidos. Assim, sem dúvida é sobre a terra que as aves se multiplicam, embora tenham as suas origens na água.

O homem espiritual julga também aprovando o que acha correcto e reprovando o que é vicioso nas obras e nos costumes dos fiéis. Julga as suas esmolas, comparáveis aos frutos da terra; julga a alma viva pelas paixões domadas pela castidade, os jejuns, e pelos pensamentos piedosos, na medida em que essas coisas se manifestam aos sentidos do corpo. Em resumo, é juiz de tudo o que pode se corrigir.

CAPÍTULO XXIV

Crescei e multiplicai-vos

Mas que é isto? Que mistério é este? Abençoas os homens, Senhor, para que eles cresçam, se multipliquem, e encham a terra. Não queres nisto dar-nos a entender alguma coisa?

Por que não abençoaste também a luz, que chamaste dia, nem a terra, nem o mar? Eu diria, meu Deus, que nos criaste à tua imagem, diria que quiseste conceder especialmente ao homem esta bênção, se não tivesses abençoado igualmente os peixes e os cetáceos, para que cresçam, se multipliquem, encham as águas do mar, e os pássaros para que se multipliquem sobre a terra.

Afirmaria ainda que essa bênção foi reservada às espécies vivas que se reproduzem por meio de geração, caso a encontrasse também nas árvores, nas plantas, nos animais da terra. Mas não foi dito nem às plantas, nem às árvores, nem aos répteis: “Crescei e multiplicai-vos” – embora todas essas criaturas se multipliquem pela procriação, como os peixes, os pássaros e os homens, conservando assim a sua espécie.

Quer dizer, então, ó minha Luz, ó Verdade? Que tais palavras carecem de senso e foram ditas em vão? De nenhum modo, ó Pai de misericórdia. Longe de mim, longe do servidor do teu Verbo, uma tal afirmação! Apenas não compreendo o sentido dessas palavras, e espero que os melhores que eu, ou seja, os mais inteligentes, a entendam melhor, segundo a sabedoria que deste, meu Deus, a cada um. Que te agrade ao menos a confissão, que faço diante de ti, da minha certeza de que não disseste em vão aquelas palavras.

Não calarei as reflexões que, a leitura dessas palavras, me sugerem. O que penso é verdadeiro, e nada vejo que impeça de explicar assim os textos figurados dos teus livros. Sei que sinais corporais podem exprimir de vários modos uma ideia que o espírito concebe em um só sentido; uma ideia expressa de um só modo. Como exemplo, cito a simples ideia do amor de Deus e do próximo. Quantos símbolos, quantas línguas, e em cada uma, inúmeras locuções lhe dão uma expressão concreta! É assim que crescem e se multiplicam os peixes das águas.

E note ainda nisto, meu leitor. Há uma frase que a Escritura declara de uma só forma, e que a voz fala apenas dessa maneira: “No princípio criou Deus o céu e a terra” – E não pode a frase ser interpretada diversamente – descartando o erro ou o sofisma – conforme os diversos pontos de vista legítimos? É assim que crescem e se multiplicam as gerações dos homens!

Se consideramos a natureza das coisas, não alegoricamente, mas em sentido próprio, a sentença: “Crescei e multiplicai-vos” –aplica-se a todas as criaturas que nascem de uma semente. Se, ao contrário, a interpretamos em sentido figurado, como penso que foi a intenção da Escritura, que não limita inutilmente essa bênção aos peixes e aos homens, encontramos então multidões de criaturas espirituais e temporais, como no céu e na terra; de almas justas e injustas, como na luz e nas trevas; de escritores sagrados que nos anunciaram a Lei, como no firmamento estabelecido entre as águas; na sociedade amargurada dos povos, como no mar; no zelo das almas piedosas, como em terra enxuta; nas obras de misericórdia praticadas nesta vida, como nas plantas que nascem de semente e nas árvore frutíferas; nos dons espirituais concedidos para o bem de todos, como nos luminares do céu; nas paixões dominadas pela temperança, como na alma viva. Em todas essas coisas encontramos multidões, fecundidade, crescimento. Mas que esse crescimento e essa proliferação exprimam uma mesma ideia de vários modos e que uma só expressão possa ser entendida de muitas maneiras, esse facto, apenas o encontramos nos sinais sensíveis e nos conceitos intelectuais.

Os sinais corpóreos, originados da profundidade da nossa cegueira carnal, correspondem, segundo penso, às gerações das águas; os conceitos intelectuais, gerados pela fecundidade da inteligência, simbolizam, parece-me, as gerações humanas.

E é por isso, Senhor, que creio que disseste tanto às águas como aos homens: “Crescei e multiplicai-vos” – Nessa bênção, penso que nos deste a faculdade, o poder de formular de várias maneiras uma única ideia, e de compreender também de muitas maneiras uma expressão única, mas obscura.

É assim que as águas do mar se povoam, e não se moveriam sem as várias interpretações das palavras. É assim que a terra se povoa de gerações humanas; a sua aridez fecunda-se pela sua paixão da verdade, sob o poder da razão.

CAPÍTULO XXV

Os frutos da terra

Quero ainda dizer, Senhor meu Deus, o que me inspiram as palavras que seguem da tua Escritura. E o farei sem medo, porque direi a verdade; pois não vem de ti, por acaso, a inspiração do que queres que eu diga? Não creio que possa dizer a verdade se tu não me inspirares, pois tu és a própria verdade, e todo homem é mentiroso. Por isto, quem mente fala do que é seu. Logo, para falar a verdade, só falarei o que me inspiras.

Tu deste-nos para alimento todas as ervas que produzem semente e que cobrem a terra, e todas as árvores que contém em si, em germe, os seus frutos. E não foi somente a nós que deste esse alimento, mas também às aves do céu, aos animais da terra e aos répteis, mas não aos peixes e aos grandes cetáceos. Dizíamos que esses frutos da terra significam e representam alegoricamente as obras de misericórdia, que a terra fecunda produz para as necessidades desta vida. Era semelhante a uma terra assim o piedoso Onesíforo, cuja casa recebeu a graça da tua misericórdia, porque muitas vezes assistira a teu Paulo, sem se envergonhar por suas cadeias.

É o mesmo que fizeram os irmãos que, de Macedónia, lhe forneceram o que lhe era necessário, produzindo também abundante fruto. E contudo, o Apóstolo queixa-se de certas árvores que não lhe tinham dado o fruto devido, quando escreve: “na minha primeira defesa ninguém me assistiu; todos me abandonaram. Que isto não lhes seja imputado!” – Tais frutos são devidos aos que nos ministram doutrina racional, ajudando-nos a compreender os mistérios divinos. E nós lhes devemos exemplos de todas as virtudes; e também lhes devemos os frutos como a pássaros do céu, por causa das bênçãos que distribuem abundantemente sobre a terra, pois sua voz se fez ouvir por toda a terra.

(Revisão de versão portuguesa por ama)