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19/04/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Jo 10, 22-30

22 Celebrava-se em Jerusalém a festa da Dedicação. Era Inverno. 23 Jesus andava a passear no templo, no pórtico de Salomão. 24 Rodearam-n'O os judeus e disseram-Lhe: «Até quando nos manterás em suspenso? Se és o Messias, di-no-lo claramente». 25 Jesus respondeu-lhes: «Já vo-lo disse, e vós não Me credes. As obras que faço em nome de Meu Pai, essas dão testemunho de Mim; 26 porém vós não credes, porque não sois das Minhas ovelhas. 27 As Minhas ovelhas ouvem a Minha voz, e Eu conheço-as, e elas seguem-Me. 28 Eu dou-lhes a vida eterna; elas jamais hão-de perecer, e ninguém as arrebatará da Minha mão. 29 Meu Pai, que Mas deu, é maior que todas as coisas; e ninguém pode arrebatá-las da mão de Meu Pai. 30 Eu e o Pai somos um».  

Comentário:

Ut omnes unum sint!

Seria assim a sociedade humana como Deus a desejou desde o primeiro momento.

Infelizmente estamos bem longe dessa unidade.

Diz-se correntemente: ''cada um é como cada qual'', como se fosse algo bom e natural.

Não é!

Demo-nos conta deste facto simples e evidente: todos nós nascemos nus, sem nada; apenas nos marca o sinal de Deus em nós, a Sua imagem que, mais não é que a nossa alma.

E, aqui, sim, somos iguais, cada um com o mesmo valor perante o Criador que nos ama a todos por igual desde o princípio.


(ama, comentário sobre Jo 10, 22-30, 2010.04.07)


Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES

LIVRO DÉCIMO

CAPÍTULO III

O que disse Moisés

Concede-me, Senhor, que eu ouça e compreenda como no princípio criaste o céu e a terra. Moisés assim o escreveu. Escreveu e partiu deste mundo, para onde lhe falaste, para junto de ti, e já não está presente para nós. Se estivesse aqui, detê-lo-ia, e dele indagaria, no teu nome, o sentido de tais palavras, e absorveria com atenção as palavras que brotassem da sua boca. Se me falasse em hebraico, em vão sua voz bateria nos meus ouvidos, e nenhuma ideia chegaria à minha mente; mas se me falasse em latim, eu compreenderia as suas palavras.

Mas, como saberia eu se ele dizia a verdade? E, posto que o soubesse, sabê-lo-ia por seu intermédio? Não, mas seria dentro de mim, no íntimo recesso do pensamento que a Verdade, que nem é hebraica, nem grega, nem latina, nem bárbara, sem auxílio de lábios ou de língua, sem ruído de sílabas, me diria: “Ele fala a verdade”. – e eu, imediatamente, com a certeza da fé, diria àquele teu servo: “Tu dizes a verdade!”.

Mas, como não posso consultar a Moisés, é a ti, ó Verdade, cuja plenitude ele possuía quando enunciou tais palavras, é a ti, meu Deus, que dirijo minha súplica, perdoa os meus pecados.

Concedeste que um tem servo dissesse essas coisas: faz agora com que eu as compreenda.

CAPÍTULO IV

O céu e a terra

Existem pois o céu e a terra, e clamam que foram criados, mediante das suas transformações e mudanças. Mas o que não foi criado na sua forma definitiva, e todavia existe, nada pode conter que antes já não existisse na sua forma potencial, e nisso consiste a mudança e a variação. Proclamam também, os seres, que não foram criados por si mesmos: “Existimos porque fomos criados. Não existíamos antes, de modo que nos pudéssemos criar a nós mesmos.” – E essa voz é a voz da própria evidência. És tu, Senhor, quem os criaste. E porque és belo, eles são belos; porque és bom, eles são bons; porque existes, eles existem. Mas as tuas obras não são belas, não são boas, não existem de modo perfeito como tu, seu Criador. Comparados contigo, os seres nem são bons, nem belos, nem existem. Sabemos isso, e por isso te rendemos graças; mas o nosso saber, comparado com tua ciência, é ignorância.

CAPÍTULO V

A palavra e a criação

De que modo criaste o céu e a terra, e de que instrumento te serviste para levar a cabo tão grandiosa obra? Pois não procedeste como artesão, que forma um corpo de outro, conforme a concepção do seu espírito, que tem o poder de exteriorizar a forma que vê em si mesmo com o olhar do espírito. De onde lhe vem esse poder do espírito, senão de ti, que o criaste? E essa forma, ele impõe-na a uma matéria que preexistia, apta para ser transformada, como a terra, a pedra, a madeira, o outro e tantas outras substâncias.

Mas de onde proviriam essas coisas se não as tivesses criado? Criaste o corpo do artista, a alma que governa os seus membros, a matéria que ele plasma, a inspiração que concebe e vê interiormente o que executará exteriormente. Deste-lhe os órgãos dos sentidos, intérpretes pelos quais materializa as intenções da sua alma; informam o espírito do que fizeram, para que este consulte a verdade, o juiz interior, para saber se a obra é boa. Tudo isso te louva como criador de todas as coisas.

Mas como os fizeste? Como criaste, meu Deus, o céu e a terra? Por certo não criaste o céu e a terra no céu e na terra. Nem tampouco os criaste no ar, nem sob as águas que pertencem ao céu e à terra. Não criaste o universo no universo, porque não havia espaço onde pudesse existir. Não tinhas à mão a matéria com que modelar o céu e a terra. E de onde viria essa matéria que não tinhas ainda feito para dela fazer alguma coisa? Que criatura pode existir que não exija a tua existência? Contudo, falaste e o mundo foi feito. A tua palavra o criou.

CAPÍTULO VI

Como falou Deus?

Mas, como falaste? Porventura do mesmo modo como aquela voz que, saindo da nuvem, disse: Este é meu Filho bem-amado? – Essa voz fez-se ouvir, e passou; teve começo e fim; as suas sílabas ressoaram, depois passaram, em sucessão ordenada até a última, que vem depois de todas as outras – e depois foi o silêncio. Donde se vê claramente que essa voz foi gerada por órgão temporal de uma criatura a serviço da tua vontade eterna. E essas palavras, pronunciadas no tempo, foram comunicadas pelo ouvido material à inteligência, cujo ouvido interior está atento à tua palavra eterna. E a razão comparou essas palavras, proferidas no tempo, com o silêncio do teu Verbo eterno, e disse: “È diferente, muito diferente. Tais palavras estão bem abaixo de mim, nem sequer existem, pois fogem e passam; mas o Verbo de Deus permanece sobre mim eternamente”.

Se foi portanto com estas palavras sonoras e passageiras que ordenaste: Que se façam o céu e a terra! – se foi assim que os criaste, conclui-se que já havia, antes do céu e da terra, uma criatura temporal, cujos movimentos puderam fazer vibrar essa voz no tempo. Ora, não havia corpo algum antes do céu e da terra; ou se algum existia, tu certamente já o tinhas criado não por meio de uma voz passageira, justamente para que pudesse soar essa voz passageira para dizer:
“Façam-se o céu e a terra!” E fosse o que fosse o ser de onde saísse tal voz, não teria existido se não o tivesses criado. Mas para criar esse corpo, necessário à emissão destas palavras, de que palavra te serviste?

CAPÍTULO VII

A palavra coeterna

É assim que nos convidas a compreender o Verbo, que é Deus junto de ti, que também és Deus, Verbo pronunciado eternamente e pelo qual tudo é pronunciado eternamente. O que é dito, não é uma sequência de palavras, ou uma palavra que é seguida por outra, como que a concluir uma frase; mas tudo é dito simultânea e eternamente. De contrário, já haveria tempo e mudança, e não a verdadeira eternidade nem a verdadeira imortalidade.

Isto eu sei-o, meu Deus, e por isso te dou graças. Eu o sei, e eu to confesso, Senhor; e também o sabe todo aquele que não é ingrato à infalível verdade. Sabemos, Senhor, sabemos que não ser mais depois de ter existido, ou passar a ser quando ainda não se existia é o morrer e o nascer. Mas no teu Verbo, por ser verdadeiramente imortal e eterno, nada desaparece nem tem sucessão. Com o teu Verbo que é coeterno, enuncias eternamente e a um só tempo tudo o que dizes. E o que se realiza é o que dizes que se faça. Não é de outro modo, senão pelo Verbo, que crias. Todavia os seres criados pela tua palavra não chegam à existência simultaneamente, desde toda a eternidade.

CAPÍTULO VIII

A verdadeira luz

Imploro-te, Senhor meu Deus, qual o porquê disso tudo? De certo modo eu compreendo-o, mas não sei como exprimi-lo. Poderei dizer que tudo o que tem começo e fim, começa e acaba quando a razão eterna, que não tem começo nem fim, sabe que deve começar ou acabar? Essa inteligência é o teu Verbo, que é o princípio, porque também nos fala. Assim nos falou no Evangelho com voz humana, e a palavra ecoou exteriormente nos ouvidos dos homens, para que cressem nele, e o buscassem no seu íntimo, e o encontrassem na eterna Verdade, onde um bom e único mestre instrui todos os seus discípulos.

Aí, Senhor, ouço tua voz a dizer-me que só nos fala verdadeiramente quem nos ensina, e quem não nos instrui, mesmo que fale, não nos diz nada. Mas quem nos ensina, senão a Verdade imutável? As lições da criatura mutável têm o único valor de nos conduzir à Verdade, que é imutável. Nela, verdadeiramente aprendemos quando, de pé, a ouvimos, alegrando-nos por cauda da voz do Esposo, que nos reconduz àquele de quem viemos. Por isso, ele é o princípio, pois se ele não permanecesse, não teríamos para onde voltar dos nossos erros. Quando voltamos de um erro, temos plena consciência dessa volta; e é para que tomemos consciência dos nossos erros que ele nos instrui, porque ele é o princípio, e a sua palavra é para nós.

CAPÍTULO IX

A voz do Verbo

É nesse princípio, ó Deus, que criaste o céu e a terra; no teu Verbo, no teu Filho, na tua virtude, na tua sabedoria, na tua verdade, falando e agindo de modo admirável. Quem o poderá compreender ou explicar? Que luz é essa que por vezes me ilumina, e que fere o meu coração sem o lesar? Atemorizo-me e inflamo-me: tremo porque, de certo modo, sou tão diferente dela; e inflamo-me, porque também sou semelhante a ela. A Sabedoria é a mesma sabedoria que brilha em mim de vez em quando: rasga as nuvens da minha alma, que novamente me encobrem quando dela me afasto, pelas trevas e pelo peso das minhas memórias. Na indigência, o meu vigor enfraqueceu de tal modo, que nem posso mais suportar o meu bem, até que tu, Senhor que te mostraste compassivo com todas as minhas iniquidades, cures também todas as minhas fraquezas. Redimirás a minha vida da corrupção; hás de me coroar na piedade e na misericórdia, e saciarás com os teus bens os meus desejos, porque a minha juventude será renovada com a da águia.

Pela esperança formos salvos, e aguardamos com paciência o cumprimento das tuas promessas.

Ouça, pois, a Tua voz no seu interior, quem puder, e eu quero clamar, cheio de fé no teu oráculo: “Como são magníficas as tuas obras, Senhor, que tudo criaste na tua Sabedoria! Ela é o princípio e nesse princípio criaste o céu e a terra”.

(Revisão de versão portuguesa por ama)


28/04/2015

Evangelho, comentário L. Espiritual (A beleza de ser cristão)



Semana IV da Páscoa

Evangelho: Jo 10 22-30

22 Celebrava-se em Jerusalém a festa da Dedicação. Era Inverno. 23 Jesus andava a passear no templo, no pórtico de Salomão. 24 Rodearam-n'O os judeus e disseram-Lhe: «Até quando nos manterás em suspenso? Se és o Messias, di-no-lo claramente». 25 Jesus respondeu-lhes: «Já vo-lo disse, e vós não Me credes. As obras que faço em nome de Meu Pai, essas dão testemunho de Mim; 26 porém vós não credes, porque não sois das Minhas ovelhas. 27 As Minhas ovelhas ouvem a Minha voz, e Eu conheço-as, e elas seguem-Me. 28 Eu dou-lhes a vida eterna; elas jamais hão-de perecer, e ninguém as arrebatará da Minha mão. 29 Meu Pai, que Mas deu, é maior que todas as coisas; e ninguém pode arrebatá-las da mão de Meu Pai. 30 Eu e o Pai somos um».  

Comentário:

Continua o discurso do Bom Pastor com a insistência clara de Jesus Cristo na segurança que os homens podem esperar quando O seguem sem condições.

Segurança em todos os aspectos da vida humana mas, sobretudo, e o que é mais importante, de que o caminho que Ele indica é o único que conduz à salvação.

Duas coisas são absolutamente necessárias: confiança e entrega.

Confiança em Cristo e na Sua palavra, entrega sem reservas ou preconceitos seguindo-o sem desvios.

(ama, comentário sobre Jo 10, 22-30, 2013.04.23)

Leitura espiritual


a beleza de ser cristão

PRIMEIRA PARTE

O QUE É SER CRISTÃO?

I.            Relações que Deus estabelece com o homem.

…/14


VIII. OS SACRAMENTOS (I)

Depois de ter examinado a realidade da «Graça” e a sua acção de converter o cristão em «filho de Deus em Jesus Cristo”, temo agora de considerar os canais pelos quais o homem a recebe.
Esses cabais são os sacramentos.
Nos capítulos seguintes veremos a manifestação da acção da graça no homem e a finalidade dessa acção, que é a de transformar o ser humano – e não só aos olhos de Deus, mas no mais íntimo do seu ser – em «nova criatura”. Para não sairmos dos limites deste livro, o estudo dos sacramentos centrar-se-á exclusivamente na relação de cada sacramento com a Graça e na configuração dessa «nova criatura”, sem nos adentrar-mos em nenhum outro as aspecto teológico, litúrgico, espiritual que cada sacramento comporta.
Recordemos que os sacramentos são «sinais visíveis, instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo, que dão a «Graça”.
Até à vinda de Cristo Deus servia-se de sinais, cerimónias, para nos dar a conhecer a sua benevolência e a sua presença entre os homens; a sua participação na história da humanidade. Daí em diante, e como consequência da nova economia estabelecida por Cristo das relações de Deus com os homens, esses sinais deixaram de ter qualquer significado.
Os sacramentos convertem-se não já nas «marcas de Cristo na terra” e nem sequer tampouco nos «cominhos que unem para sempre o céu e a terra”, mas sim no encontro pessoal-vital de cada cristão com o próprio Cristo, e que nos fazem viver os mistérios da vida de Deus em nós. [i]
«Os sacramentos da Nova Lei foram instituídos por Cristo e são sete, saber, Baptismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Unção dos doentes, Ordem Sacerdotal e Matrimónio.
Os sete sacramentos correspondem a todas as etapas e a todos os momentos importantes da vida do cristão: dão nascimento e crescimento, cura e missão à vida de fé dos cristãos. Há aqui uma certa semelhança entre as etapas da vida natural e as etapas da vida espiritual”.[ii]
Os sacramentos são, em resumo os caminhos ordinários para o encontro pessoal com Cristo e, para receber nesse encontro, a Graça que nos converte em «novas criaturas”, que nos faz «filhos de Deus em Cristo”.
Um esclarecimento prévio antes de seguir os nossos raciocínios.
 A Graça que se nos concede nos sacramentos, não supõe, de modo algum, o desaparecimento da graça que Deus concede a todos os homens, inclusive àqueles que nada sabem de Cristo e da sua Igreja, para que alcancem a salvação por outros caminhos, que, sem deixar de passar por Cristo, não comportam Fé nele.
O desenvolvimento dos planos de salvação de cada um dos seres humanos é um mistério escondido em Deus até ao fim dos tempos. E no interior desse mistério está, com a Encarnação de Jesus Cristo num local e num tempo bem definidos na história dos homens, a realidade que a Graça não vivifica a todos e cada um dos seres humanos, porque nem Cristo é conhecido por todos os homens nem todos os homens participam dos sacramentos.
Ao referirmo-nos de novo aos sacramentos e ver neles os canais ordinários nos quais o homem recebe a graça divina, convém-nos desde o início não esquecer a «semelhança entre as etapas da vida natural e as etapas da vida sobrenatural”, que o Catecismo já sublinhou.
Com efeito; é o próprio homem, criatura de Deus, quem há-de ser redimido, liberto do pecado e convertido em «filho de Deus em Cristo” e tudo, sem deixar em absoluto, e sob qualquer conceito, de ser plena e naturalmente homem.
A graça jamais destrói a natureza, e, por outro lado, requer a cooperação da natureza, da liberdade do homem, para produzir os seus frutos.
É certo que, nos sacramentos, a Graça se origina «ex opere operato”, da acção – dos sinais externos – surge necessariamente o efeito, a Graça.
E, ao mesmo tempo, para que essa Graça seja eficaz na pessoa que recebe o sacramento, requer que o homem não ponha obstáculo. Um penitente pode tornar ineficaz o sacramento da Reconciliação por não o receber com as disposições requeridas; e também, ainda que acolhendo-o em condições adequadas, não permitir que a graça produza nele profunda e permanente para Deus.
No primeiro caso, a sua actuação com verte o sacramento em inútil; no segundo, torna-o ineficaz.

O BAPTISMO

Os três primeiros sacramentos – Baptismo, Confirmação, Eucaristia – denominam-se de «iniciação cristã”, porque têm a finalidade de nos converter em «nova criatura”, em «filhos de Deus em Cristo”.
O Baptismo é o nascimento da vida pessoal cristã; a Confirmação, o desenvolvimento e o estabelecimento na alma dessa vida; e a Eucaristia, o enraizamento dessa vida de Cristo na alma, vivida mais pessoalmente com Ele.
«Mediante os sacramentos da iniciação cristã, o Baptismo, a Confirmação e a Eucaristia, colocam-se todos os fundamentos de toda a vida cristã.
A participação na natureza divina que os homens recebem como dom mediante a graça de Cristo tem certa analogia com a origem, o crescimento e o sustento da vida natural.
Com efeito, os fieis renascidos no Baptismo fortalecem-se com o sacramento da Confirmação, e finalmente são alimentados na Eucaristia com o manjar da vida eterna e, assim, por meio destes sacramentos da iniciação cristã, recebem cada com mais abundancia os tesouros da vida divina e avançam para a perfeição da caridade”.[iii]
O nascimento e a conversão à vida divina não são simplesmente fruto de uma ajuda externa que Deus nos dá; como se nos pegasse na mão e elevasse até à sua própria altura.
Não.
São resultado de receber «a participação na natureza divina”, que enxerta em nós um princípio de vida sobrenatural, e dizemo-lo uma vez mais para que nunca o percamos de vista.
Convertemo-nos em «filhos de Deus em Cristo” sem deixar de ser seres humanos e, sendo «homens-filhos de Deus em Cristo, começamos a viver actuar.
Este processo, repetimos, começa com o Baptismo:
“O santo Baptismo é o fundamento de toda a vida cristã, o pórtico da vida no espírito e a porta que abre o acesso aos outros sacramentos.
Pelo Baptismo somos libertados do pecado e regenerados como filhos de Deus, chegamos a ser membros de Cristo e somos incorporados na Igreja e feitos partícipes da sua missão.
O Batismo é o sacramento do novo nascimento pela água e a palavra”.[iv]
É necessário sublinhar o verdadeiro significado do Baptismo, para superar a visão estreita tão disseminada entre os crentes, que reduz os seus efeitos a perdoar o pecado original e todos os outros pecados que, no caso do baptismo de adultos, o baptizando pudesse ter cometido.
«O Batismo não só purifica de todos os pecados, converte também o neófito “numa nova criação”, um filho adoptivo de Deus, que foi feito “partícipe da natureza divina”, membro de Cristo, co-herdeiro com Ele e templo do Espírito Santo”.[v]
Aqui radica a verdadeira natureza e o verdadeiro significado do Baptismo: a «nova criação”, ao fazer-nos «partícipes da natureza divina”. Essa participação é o que chamamos Graça.
A acção desta Graça na pessoa do baptizado pode resumir-se nestas palavras do catecismo a que teremos ocasião de nos referirmos ao longo destas páginas.
«-torna-o capaz de crer em Deus, de esperar nele e de amá-lo mediante as virtudes teologais (Fé, Esperança. Caridade).
-concede-lhe poder viver e actuar sob a moção do Espírito Santo mediante os dons do Espírito santo.
-Permite-lhe crescer no bem mediante as virtudes morais.
Assim todo o organismo da vida sobrenatural do cristão tema sua raiz no santo Baptismo”.[vi]
Com o Baptismo, o baptizado deixa de ser somente uma criatura «a imagem e semelhança”, par se converter em verdadeiro «filho de Deus em Cristo”: ao actualizar-se, a torar-se «acto”, nessa «participação a capacidade – potência – de ser «filho de Deus”, com a qual todo o ser humano chega a este mundo.
Esta nova condição do homem baptizado não se perde jamais. «O Baptismo imprime no cristão um selo espiritual indelével (carácter) da sua pertença a Cristo.
Este selo não é apagado por nenhum pecado, ainda que o pecado impeça o Baptismo de dar frutos de salvação” [vii]
Esta afirmação significa que o baptizado nunca perde a sua condição de «filho de Deus em Cristo”, que é a raiz e o fundamento da vida cristã, do nosso viver em Deus, com Cristo, no Espírito santo; e do viver Deus Pai, Filho e Espírito Santo em nós. É o fundamento e a razão pela qual podemos dizer que todo o cristão está «enxertado” em Cristo; e que com São Paulo, possamos também chegar a afirmar que «Cristo vive em mim”.
Alguns consideram que, com Baptismo, o homem perde a sua liberdade, ao jamais poder abandonar a sua condição de «filho de Deus em Cristo”.
É outra a realidade e fica claramente expressa na segunda parte do n. 1272 do Catecismo que acabámos de transcrever: «Este selo não á apagado por nenhum pecado, ainda que o o pecado impeça Baptismo de dar frutos de salvação”.
Ou seja, o homem nunca perde no plano do seu «actuar”, e poderá portanto, opor-se não só à acção de Deus, mas também rejeitar a sua realidade ante o próprio Deus, de reafirmar, em suma, o seu próprio «eu” diante e em oposição a Deus ou, simplesmente, de paralisar toda a possível acção da sua própria pessoa.
A obstinação no pecado pode debilitar a vontade do homem, mas nunca até ao ponto de impedir o exercício da sua liberdade.
Em suma, salvo casos patológicos, o homem nunca deixa de ser livre, ainda eu no seu espírito e esteja indelével o «carácter” de «filho de Deus em Cristo Nosso Senhor”.

(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)






[i] Cfr. louis bouyer, Introduzione alla vita spirituale, Borla Editore, Torino, 1965, cap. IV.
[ii] Catecismo n. 1210
[iii] Catecismo n. 1212.
[iv] Catecismo n. 1213
[v] Catecismo n. 1265
[vi] Catecismo n. 1266
[vii] Catecismo n. 1272