12/04/2020

Domingo de Páscoa


Devemos fazer nossas, por assimilação, aquelas palavras de Jesus: «desiderio desideravi hoc Pascha manducare vobiscum», desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco. De nenhuma forma poderemos manifestar melhor o nosso máximo interesse e amor pelo Santo Sacrifício, que observando esmeradamente até a mais pequena das cerimónias prescritas pela sabedoria da Igreja.

E, além do Amor, deve urgir-nos a "necessidade" de nos parecermos com Jesus Cristo, não só interiormente, mas também externamente, movendo-nos - nos amplos espaços do altar cristão - com aquele ritmo e harmonia da santidade obediente, que se identifica com a vontade da Esposa de Cristo, quer dizer, com a Vontade do próprio Cristo. (Forja, 833)

Cristo vive. Esta é a grande verdade que enche de conteúdo a nossa fé. Jesus, que morreu na cruz, ressuscitou; triunfou da morte, do poder das trevas, da dor e da angústia. Não temais - foi com esta invocação que um anjo saudou as mulheres que iam ao sepulcro. Não temais. Procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ressuscitou; não está aqui. Haec est dies quam fecit Dominus, exultemus et laetemur in ea - este é o dia que o Senhor fez; alegremo-nos.
O tempo pascal é tempo de alegria, de uma alegria que não se limita a esta época do ano litúrgico, mas mora sempre no coração dos cristãos. Porque Cristo vive. Cristo não é uma figura que passou, que existiu em certo tempo e que se foi embora, deixando-nos uma recordação e um exemplo maravilhosos. Não. Cristo vive. Jesus é Emanuel: Deus connosco. A sua Ressurreição revela-nos que Deus não abandona os seus. Pode a mulher esquecer o fruto do seu seio e não se compadecer do filho das suas entranhas? Pois ainda que ela se esquecesse, Eu não me esquecerei de ti, havia-nos Ele prometido. E cumpriu a promessa. Deus continua a ter as Suas delícias entre os filhos dos homens.
Cristo vive na sua Igreja. «Digo-vos a verdade: convém-vos que Eu vá; porque se Eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, se Eu for, enviar-vo-Lo-ei». Esses eram os desígnios de Deus: Jesus morrendo na Cruz, dava-nos o Espírito de Verdade e de Vida. Cristo permanece na sua Igreja: nos seus sacramentos, na sua liturgia, na sua pregação, em toda a sua actividade.
De modo especial, Cristo continua presente entre nós nessa entrega diária que é a Sagrada Eucaristia. Por isso a Missa é o centro e a raiz da vida cristã. Em todas as Missas está sempre presente o Cristo total, Cabeça e Corpo. Per Ipsum, et cum Ipso, et in Ipso. Porque Cristo é o Caminho, o Mediador. Nele tudo encontramos; fora d'Ele a nossa vida torna-se vazia. Em Jesus Cristo, e instruídos por Ele, atrevemo-nos a dizer - audemus dicere - Pater noster, Pai nosso. Atrevemo-nos a chamar Pai ao Senhor dos Céus e da Terra.
A presença de Jesus vivo na Sagrada Hóstia é a garantia, a raiz e a consumação da sua presença no Mundo. (Cristo que Passa,102)

São muitos os cristãos persuadidos de que a Redenção se há-de realizar em todos os ambientes do mundo, e de que deve haver algumas almas (não sabem quais) que contribuam para a realizar com Cristo. Mas vêem-na a um prazo de séculos, de muito séculos... de uma eternidade, se se levasse a cabo ao passo da sua entrega.
Assim pensavas tu, até que vieram "despertar-te". (Sulco, 1)

Pasma ante a magnanimidade de Deus: fez-se Homem para nos redimir, para que tu e eu - que não valemos nada, reconhece-o! - O tratemos com confiança. (Forja , 30)

       
Egoísta! - Tu, sempre tu, sempre o que é "teu". - Pareces incapaz de sentir a fraternidade de Cristo: nos outros, não vês irmãos; vês "degraus".

Pressinto o teu rotundo fracasso. - E, quando te tiveres afundado, quererás que tenham para contigo a caridade que agora não queres ter. (Caminho, 31)

       
O chamamento do Senhor - a vocação - apresenta-se sempre assim: "Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-Me".

Sim, a vocação exige renúncia, sacrifício. Mas que agradável acaba por ser o sacrifício ("gaudium cum pace", alegria e paz), se a renúncia é completa! (Sulco, 8)

Pequena agenda do cristão

DOMINGO

PEQUENA AGENDA DO CRISTÃO

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

LEITURA ESPIRITUAL

COMENTANDO OS EVANGELHOS

São Mateus

Cap. XII


1 Naquele tempo, num dia de Sábado, passava Jesus por umas searas, e os Seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas e a comê-las.2 Vendo isto os fariseus disseram-Lhe: «Olha que os Teus discípulos fazem o que não é permitido fazer ao Sábado». 3 Jesus respondeu-lhes: «Não lestes o que fez David e os seus companheiros, quando tiveram fome? 4 Como entrou na casa de Deus, e comeu os pães sagrados, dos quais que não era lícito comer, nem a ele, nem aos que iam com ele, mas só aos sacerdotes? 5 Não lestes na Lei que ao Sábado os sacerdotes no Templo violam o Sábado e ficam sem culpa? 6 Ora Eu digo-vos que aqui está alguém que é maior que o Templo. 7 Se vós soubésseis o que quer dizer: “Quero misericórdia e não sacrifício”, jamais condenaríeis inocentes. 8 Porque o Filho do Homem é senhor do próprio Sábado». 9partindo dali foi à sinagoga deles, onde se encontrava um homem que tinha uma das mãos atrofiada 10 e eles, para terem de que O acusar, perguntaram-lhe: «É permitido curar aos sábados?» 11 Ele respondeu-lhes: «Que homem haverá entre vós que, tendo uma ovelha, se esta cair num dia de Sábado a uma cova, não agarre e não a tire de lá? 12 Ora quanto mais vale um homem que uma ovelha? Logo é permitido fazer o bem no dia de Sábado». 13 Então disse ao homem: «Estende a tua mão. Ele estendeu-a e ela tornou-se são como a outra. 14 Os fariseus, saindo dali, tiveram conselho contra Ele sobre o modo de O levarem á morte. 15 Jesus, sabendo isto, retirou-se daquele lugar. 16 Muitos seguiram-no, e curou-os a todos. 17 Ordenou-lhes que não O descobrissem, para que se cumprisse o que tinha sido anunciado pelo profeta Isaías: 18 «Eis o Meu servo, que Eu escolhi, o Meu amado, em quem a Minha alma pôs as suas complacências. Farei repousar sobre Ele o Meu Espírito, e Ele anunciará a justiça às nações. 19 Não discutirá nem clamará, nem ouvirá alguém a Sua voz nas praças; 20 Não quebrará a cana rachada, nem apagará a torcida que fumega, até que faça triunfar a justiça; 21 e as nações esperarão no Seu nome». 22 Então trouxeram-lhe um endemoninhado cego e mudo, e Ele curou-o, de modo que falava e via. 23 E as multidões ficaram admiradas e diziam: «Não será este o Filho de David?».  24 Mas os fariseus, ouvindo isto, disseram: «Este não expulsa os demónios senão por virtude de Belzebu, príncipe dos demónios. 25 Porém, Jesus, conhecendo os pensamentos deles, disse-lhes: «Todo o reino dividido contra si mesmo será destruído; e toda a cidade ou família dividida contra si mesma não subsistirá.26 Ora, se Satanás expulsa a Satanás, está dividido contra si mesmo, como subsistirá, então, o seu reino?» 27 E se Eu expulso os demónios por virtude de Belzebu, por virtude de quem os expulsam os vossos filhos? Por isso é que eles serão os vossos juízes. 28 Se Eu, porém, expulso os demónios por virtude do Espírito de Deus, chegou a vós o reino de Deus. 29 Como pode alguém entrar em casa de um valente, e saquear os seus móveis, se antes não prender o valente? Só então poderá saquear a casa. 30 Quem não é comigo é contra Mim; e quem não junta comigo, desperdiça. 31 Por isso vos digo: todo o pecado e blasfémia será perdoado aos homens, mas a blasfémia contra o Espírito Santo não será perdoada. 32 Todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á perdoado; porém, o que a disser contra o Espírito Santo, não se lhe perdoará, nem neste mundo nem no futuro.33 Ou dizeis que a árvore é boa e o seu fruto bom, ou dizeis que a árvore é má e o seu fruto mau, porque pelo fruto se conhece a árvore. 34 Raça de víboras, como podeis dizer coisas boas, vós que sois maus? Porque a boca fala da abundância do coração. 35 O homem bom tira coisas boas do seu bom tesouro, e o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro. 36 Ora eu digo-vos que de qualquer palavra inútil que os homens tiverem proferido, darão conta dela no dia do juízo. 37 Porque pelas suas palavras será justificado ou condenado.38 Então replicaram-lhe alguns dos escribas e fariseus, dizendo: «Mestre, nós desejávamos ver algum prodígio Teu». 39 Ele respondeu-lhes: «Esta geração má e adúltera pede um prodígio, mas não lhe será dado outro prodígio senão o prodígio do profeta Jonas.40 Porque, assim como Jonas esteve no centro da baleia três dias e três noites, assim estará o Filho do Homem e três dias e três noites no centro da terra. 41 Os habitantes de Nínive levantar-se-ão no dia do juízo contra esta geração, e a condenarão, porque se converteram com a pregação de Jonas. Ora aqui está Quem é maior que Jonas. 42  A rainha do Meio-Dia levantar-se-à no dia do Juízo contra esta geração e a condenará, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. Ora aqui está Quem é mais que Salomão. 43  «Quando o espírito imundo de um homem, anda errando por lugares áridos, à busca de repouso, e não o encontra. 44 Então diz: voltarei para minha casa, donde saí. E, quando vem, a encontra desocupada, varrida e adornada. 45 Então vai e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, habitam ali; e o último estado daquele homem torna-se pior que o primeiro. 46 Estando Ele ainda a falar ao povo, eis que Sua mãe e Seus irmãos se achavam fora desejando falar-lhe. 47 Alguém disse-Lhe: «Tua mãe e teus irmãos estão ali fora e desejam falar-Te». 48 Ele, porém, respondeu ao que falava: «Quem é a Minha mãe e quem são os meus irmãos?» 49 E, estendendo a mão para os Seus discípulos, disse: 50 «Eis Minha mãe e Meus irmãos. Porque todo aquele que fizer a vontade de Meu Pai que está nos Céus, esse é Meu irmão e Minha irmã e Minha mãe».

Comentários:

1-8 -

O constante conflito entre os chefes do povo e Jesus Cristo por causa do Sábado é por demais comentado e, parece-me, pouco há a acrescentar ao que tem sido dito a propósito. Prefiro, antes, deter-me um pouco sobre os dois primeiros versículos deste Capítulo XII de São Mateus para realçar a escassez de meios que Jesus e os Seus discípulos dispunham ao ponto de serem “forçados” a uma frugalidade por demais evidente: saciar a fome com umas simples espigas! Todos sabemos – os Evangelhos referem-nos algumas vezes – que o muito trabalho mal lhes consentia tempo para comer ou como nem um simples estáter - moeda de prata que equivalia a quatro denários - possuíam para pagar os impostos. Não fora o auxílio inestimável de algumas mulheres que os assistiam com os seus bens dificilmente sobreviveriam. Seria como parte da sua formação como futuros apóstolos tal como Jesus lhes confirmará: «não vos preocupeis nem com o que vestir ou o que comer, Deus não vos faltará com o sustento…»
Há, infelizmente, muitas pessoas que cumprem com rigor todas as chamadas “ regras de comportamento” e, com tal, sentem que o seu papel nesta vida que vivemos está completo e, mais, servirá de exemplo a outros. Decerto estaria correcto se não se ficassem por aí porque o rigor no cumprimento das leis não é suficiente quando não há amor. Referimo-nos, claro está, às Leis da Igreja e, em última análise, à Lei de Deus. Cumprir, observar, ser rigoroso na observância de deveres e obrigações fica-se aquém de fazer tudo isto – que normalmente são escrúpulos – sem a oferta pessoal de si mesmo a Deus e aos outros.
     Umas espigas de trigo para "matar a fome"! A gente pasma com a exiguidade de bens ou recursos  de Cristo e os Seus discípulos! E, no entanto, segem-No, porque, sabem que segui-Lo é garantia de encontrar alimento bastante para todas as necessidades que possam ter. A grande família de Cristo - que somos todos os baptizados - reúne-se sob o manto protector da Mãe comum para expressar com o coração, desejos e sobretudo obras a decisão de fazer em tudo a Vontade do Pai.

14-21 -
Quanto Jesus Cristo fez durante a Sua passagem pela terra está rigorosamente de acordo com a Escritura. Mais se acentua a obrigação dos Doutores da Lei em reconhecerem na Sua Pessoa O Filho de Deus, o Messias Salvador e Redentor.
      São Mateus cita com alguma extensão, o Profeta Jeremias. Parece clara a sua intenção de, mais uma vez, esclarecer o povo sobre a Figura, a Pessoa de Jesus Cristo e a missão que O trouxe até nós. O próprio Jesus tinha afirmado mais que uma vez que não vinha abolir a Lei mas completá-la e dar-lhe o verdadeiro sentido divino retirando quanto tinha sido acrescentado ao longo dos tempos pelos Escribas e Doutores da Lei. Mais: afirma que nunca, absolutamente, as Suas palavras deixarão de se cumprir e que nem um simples acento seria retira do da Lei Divina.

38-42 -
Sinais, sinais... eis o que muitos pedem e até exigem para acreditar. Talvez desejem que o próprio Deus Nosso Senhor lhes apareça pessoalmente! Só que, nem mesmo se tal acontecesse, acreditariam porque, ter fé, não é um direito, mas um privilégio que Deus concede a quem entende e sobretudo aqueles que verdadeiramente a desejam.
Não se compreende o que os escribas e os fariseus entendem por “prodígio”. Jesus Cristo tem feito – aos olhos de todos – inúmeros prodígios como dar vista aos cegos, ouvido aos surdos, ressuscitar mortos, alimentar milhares com uns poucos de pães e peixes… então, tudo isto – e muito mais – não são prodígios? A esta “cegueira” persistente, Jesus só dá uma resposta: a geração dos que assim O interpelam é uma «geração má e adúltera» que será condenada por todos os que virão a seguir e, também pelos que a antecederam e, a razão é simples e concreta: Não se converteu!
 Também hoje em dia – desde sempre, aliás – há quem diga: ‘Mostra-me Deus e acreditarei’! Como se tal fosse possível a um ser humano! Como se Deus fosse um Ser – Superior, embora – mas que estivesse às nossas ordens, para satisfazer os nossos caprichos! Quem quer – de facto, realmente – acreditar, não precisa nem de prodígios nem de evidências concretas, bastando-lhe o que consta nos Evangelhos que, se ler com são espírito e recta intenção, contêm tudo quanto baste para remover dúvidas, aclarar questões, resolver preconceitos. A Fé não se obtém, não se adquire, não está, assim, disponível para quem se “lembre que lhe convém”. A Fé é um dom de Deus que a dará aos que lha pedirem com são espírito e desejo verdadeiro.

46-50 -

Penso que não há muito a dizer acerca das palavras de Cristo. Deixam-nos um misto de alegria e responsabilidade: Alegria porque Ele quer que façamos parte da Sua família mais íntima: a Sua Mãe, os Seus Irmãos. Responsabilidade porque apenas depende de nós alcançar tal "estatuto".
Eis mais uma resposta de Jesus algo desconcertante. Das três vezes que os Evangelhos relatam uma intervenção directa da Virgem, as respostas de Jesus surpreendem. A primeira em Jerusalém: ‘porque me procuráveis?’. Depois em Caná ‘o que temos nós com isso…’ E, agora... Como se as relações de Jesus com Sua Mãe fossem frias, distantes, sem amor. A importância das relações entre Mãe e Filho ficam como que num segundo plano em relação às relações do homem com Deus que estão sempre em primeiro lugar e, uma não colide com as outras, bem ao contrário, o amor de Mãe, de Jesus, é semelhante ao amor que devemos a Deus.
     Jesus não poderia ter sido mais claro e – perdoe-se a expressão – lógico. Fazer a Vontade de Deus significa estar com Ele em todos os momentos e circunstâncias da vida corrente, ora, isto, é exactamente o que acontece numa família unida, daí a lógica. O que é extremamente relevante é que Cristo parece comparar-nos – aos homens cumpridores da Vontade de Deus – à Sua Excelsa Mãe. Mas, de facto, Ele não disse tal, o que disse foi que a Sua Família divina se completa com a Sua família humana dos filhos de Deus.
Quando nos deparamos com estas declarações de Jesus Cristo ficamos como que paralisados na nossa compreensão ou, melhor, nos nossos esforços por compreender o alcance que as mesmas têm. Ficamos assim porque temos consciência que somos simples criaturas e que, O Senhor, nos compara à Sua Família mais íntima. Aliás, mais que comparar, afirma claramente que sim, o somos só pelo facto de cumprirmos a Vontade de Deus. Como não desejar de todo o coração fazê-lo? Como não pedir auxílio, coragem, determinação e perseverança para conseguir tão extraordinário bem?





Temas para reflectir e meditar


Força de vontade



Deveria perguntar-me: quando digo que não posso, ou quando, depois de muitas tentativas, desisto e atribuo a desistência à falta de condições pessoais ou a mil obstáculos reais ou imaginários, já pensei nalguma vez que o problema real não está ali, nesses motivos, mas aqui, dentro de mim: na falta de força de vontade?

(Rafael Llano Cifuentes, Fortaleza, Quadrante, pg. 29)





11/04/2020

Sábado Santo

Empti enim estis pretio magno (I Cor VI, 20) !, tu e eu fomos comprados por alto preço.

Temos de fazer vida nossa a vida e a morte de Cristo. Morrer pela mortificação e a penitência, para que Cristo viva em nós pelo Amor. E seguir, então, as pisadas de Cristo, com ânsia de co-redimir todas as almas.

Dar a vida pelos outros. Só assim se vive a vida de Jesus e nos fazemos uma só coisa com Ele.

PONTOS DE MEDITAÇÃO

1. Dos altos cargos que ocupam Nicodemos e José de Arimateia - discípulos ocultos de Cristo - intercedem por Ele. Na hora da solidão, do abandono total e do desprezo..., então expõem-se audacter (Mc XV, 43)...: valentia heróica!

Eu subirei com eles ao pé da Cruz, apertar-me-ei ao Corpo frio, cadáver de Cristo, com o fogo do meu amor..., despregá-Lo-ei com os meus desagravos e mortificações..., envolvê-Lo-ei com o lençol novo da minha vida limpa e enterrá-Lo-ei no meu peito de rocha viva, donde ninguém mO poderá arrancar; e, aí, Senhor, descansai!

Mesmo que todos Vos abandonem e desprezem..., ,serviam!, servir-Vos-ei, Senhor.

2. Sabei que . fostes resgatados da vossa vã conduta..., não com prata ou ouro, que são coisas perecíveis, mas com o sangue precioso de Cristo (I Ped I, 18-19).

Não nos pertencemos. Jesus comprou-nos com a Sua Paixão e com a Sua Morte. Somos vida Sua. Só já há um único modo de viver na terra: morrer com Cristo para ressuscitar com Ele, até que possamos dizer com o Apóstolo: não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim (Gal II, 20).

3. A Paixão de Jesus é manancial inesgotável de vida.

Umas vezes, renovamos o gozoso impulso que levou o Senhor a Jerusalém. Outras, a dor da agonia que culminou no Calvário... Ou a glória do Seu triunfo sobre a morte e o pecado. Mas, sempre, o amor - gozoso, doloroso, glorioso - do Coração de Jesus Cristo.

4. Pensa primeiro nos outros. Assim, passarás pela terra com erros, sim - que são inevitáveis -, mas deixando um rasto de bem.

E, quando chegar a hora da morte, que virá inexorável, acolhê-la-ás com júbilo, como Cristo, porque como Ele também ressuscitaremos para receber o prémio do Seu Amor.

5. Quando me sinto capaz de todos os horrores e de todos os erros que cometeram as pessoas mais vis, compreendo bem que posso não ser fiel... Mas essa incerteza é uma das bondades do Amor de Deus, que me leva a estar, como uma criança, agarrado aos braços do meu Pai, lutando cada dia um pouco para não me afastar d'Ele.

Assim, tenho a certeza de que Deus não me largará da Sua mão.

Pode a mulher esquecer-se do fruto do seu ventre, não se compadecer do filho da suas entranhas? Pois, ainda que ela se esqueça, eu não te esquecerei (Is XLIX, 15).

Temas para reflectir e meditar


Obediência



É uma grande lição (cfr. Mt 27, 21-26), que ensina os cristãos à submissão ao poder soberano, a finde que ninguém se permita desobedecer aos éditos de um rei da terra.

Se o Filho de Deus pagou o tributo, julgas que tu és maior para deixar de pagá-lo?

Até Ele, que nada possuía, pagou o tributo; e tu, que procuras os bens deste mundo, porque não reconheces as cargas do mesmo?

Porque te consideras acima do mundo?



(Santo Ambrósio, Comentário ao Evangelho de S. Lucas, IV, 73)







SÁBADO SANTO


Noite de Sábado Santo

Acabei de ver o filme da Paixão de Cristo [1]; absolutamente nada me impede dizer que chorei lágrimas verdadeiras que brotaram expon-tâneamente de um coração apertado e contrito.
Um coração esmagado pela crueza das imagens que não obstante contarem acontecimentos que muito bem conhecemos, todos os cristãos, devem ficar muito aquém da realidade.´
Alguém poderá aduzir que será talvez uma atitude desnecessária, a violência e horror das cenas são por demais “chocantes”.
Contraporei dizendo que, bem ao contrário, todos os cristãos deveríamos tê-las gravadas no nosso espírito – gravadas a fogo para que não se apaguem – e, muito possivelmente a sua lembrança nos impeça de ceder a tentações e misérias.
Os homens têm uma capacidade de sofrimento extraordinária que muitos não conhecem ou rejeitam. É lógico: ninguém gosta de sofrer.
Jesus Cristo também não sofreu por gostar do sofrimento mas sim porque era necessário que sofresse para poder salvar-nos definitivamente.
Sim o Seu sofrimento, a Sua Paixão dolorosíssima e a Sua Morte ignominiosa, devem-se a todos os homens de todos os tempos, dos que já passaram, do presente, e dos que estão para vir.
O pecado é uma ofensa de tal magnitude que só o perdão da Cruz o pode resgatar.
E, as minhas lágrimas, que são, sem dúvida de dor e pena, são também de alegria e acções de graças porque Jesus Cristo me salvou, me perdoou e me deu um Caminho, me mostrou a Verdade e concedeu a Vida.
Sim, Ele é O Caminho que convém andar, a Verdade que importa conhecer e a Vida que interessa viver.

(ama, 2016)






[1] de Mel Gibson

Sábado Santo

Num horto muito perto do Calvário, José de Arimateia tinha mandado lavrar, na rocha, um sepulcro novo. E, por ser a véspera da grande Páscoa dos judeus, põem Jesus ali. Depois, José rolou uma grande pedra, para diante da boca do sepulcro, e retirou-se (Mt XXVII, 60).

Sem nada veio Jesus ao mundo e sem nada - nem sequer o lugar onde repousa - se nos foi.

A Mãe do Senhor - minha Mãe - e as mulheres que seguiram o Mestre desde a Galileia, depois de observar tudo atentamente, partem também. Cai a noite.

Agora consumou-se tudo. Cumpriu-se a obra da nossa Redenção. Já somos filhos de Deus, porque Jesus morreu por nós e a Sua morte resgatou-nos.

Empti enim estis pretio magno (I Cor VI, 20) !, tu e eu fomos comprados por alto preço.

Temos de fazer vida nossa a vida e a morte de Cristo. Morrer pela mortificação e a penitência, para que Cristo viva em nós pelo Amor. E seguir, então, as pisadas de Cristo, com ânsia de co-redimir todas as almas.

Dar a vida pelos outros. Só assim se vive a vida de Jesus e nos fazemos uma só coisa com Ele.

PONTOS DE MEDITAÇÃO

1. Dos altos cargos que ocupam Nicodemos e José de Arimateia - discípulos ocultos de Cristo - intercedem por Ele. Na hora da solidão, do abandono total e do desprezo..., então expõem-se audacter (Mc XV, 43)...: valentia heróica!

Eu subirei com eles ao pé da Cruz, apertar-me-ei ao Corpo frio, cadáver de Cristo, com o fogo do meu amor..., despregá-Lo-ei com os meus desagravos e mortificações..., envolvê-Lo-ei com o lençol novo da minha vida limpa e enterrá-Lo-ei no meu peito de rocha viva, donde ninguém m'O poderá arrancar; e, aí, Senhor, descansai!

Mesmo que todos Vos abandonem e desprezem..., ,serviam!, servir-Vos-ei, Senhor.

2. Sabei que . fostes resgatados da vossa vã conduta..., não com prata ou ouro, que são coisas perecíveis, mas com o sangue precioso de Cristo (I Ped I, 18-19).

Não nos pertencemos. Jesus comprou-nos com a Sua Paixão e com a Sua Morte. Somos vida Sua. Só já há um único modo de viver na terra: morrer com Cristo para ressuscitar com Ele, até que possamos dizer com o Apóstolo: não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim (Gal II, 20).

3. A Paixão de Jesus é manancial inesgotável de vida.

Umas vezes, renovamos o gozoso impulso que levou o Senhor a Jerusalém. Outras, a dor da agonia que culminou no Calvário... Ou a glória do Seu triunfo sobre a morte e o pecado. Mas, sempre, o amor - gozoso, doloroso, glorioso - do Coração de Jesus Cristo.

4. Pensa primeiro nos outros. Assim, passarás pela terra com erros, sim - que são inevitáveis -, mas deixando um rasto de bem.

E, quando chegar a hora da morte, que virá inexorável, acolhê-la-ás com júbilo, como Cristo, porque como Ele também ressuscitaremos para receber o prémio do Seu Amor.

5. Quando me sinto capaz de todos os horrores e de todos os erros que cometeram as pessoas mais vis, compreendo bem que posso não ser fiel... Mas essa incerteza é uma das bondades do Amor de Deus, que me leva a estar, como uma criança, agarrado aos braços do meu Pai, lutando cada dia um pouco para não me afastar d'Ele.

Assim, tenho a certeza de que Deus não me largará da Sua mão.

Pode a mulher esquecer-se do fruto do seu ventre, não se compadecer do filho da suas entranhas? Pois, ainda que ela se esqueça, eu não te esquecerei (Is XLIX, 15). (Via Sacra, XIV Estação)

Pequena agenda do cristão

SÁBADO

PEQUENA AGENDA DO CRISTÃO

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?




Orações sugeridas:

LEITURA ESPIRITUAL

COMENTANDO OS EVANGELHOS

São Mateus

Cap. XI

1 Quando Jesus acabou de dar estas instruções aos doze discípulos, partiu dali, a fim de ir ensinar e pregar nas suas cidades. 2 Ora João, que estava no cárcere, tendo ouvido falar das obras de Cristo, enviou-lhe os seus discípulos 3 com esta pergunta: «És Tu aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro?» 4 Jesus respondeu-lhes: «Ide contar a João o que vedes e ouvis: 5 Os cegos vêem e os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa-Nova é anunciada aos pobres. 6 E bem-aventurado aquele que não encontra em mim ocasião de escândalo.» 7 Depois de eles terem partido, Jesus começou a falar às multidões a respeito de João: «Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? 8 Então que fostes ver? Um homem vestido de roupas luxuosas? Mas aqueles que usam roupas luxuosas encontram-se nos palácios dos reis. 9 Que fostes, então, ver? Um profeta? Sim, Eu vo-lo digo, e mais que um profeta. 10 É aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu mensageiro diante de ti, para te preparar o caminho. 11 Em verdade vos digo: Entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista; e, no entanto, o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele. 12 Desde o tempo de João Baptista até agora, o Reino do Céu tem sido objecto de violência e os violentos apoderam-se dele à força. 13 Porque todos os Profetas e a Lei anunciaram isto até João. 14 E, quer acrediteis ou não, ele é o Elias que estava para vir. 15 Quem tem ouvidos, oiça!» 16 «Com quem poderei comparar esta geração? É semelhante a crianças sentadas na praça, que se interpelam umas às outras, 17 dizendo: ‘Tocámos flauta para vós e não dançastes; entoámos lamentações e não batestes no peito!’ 18 Na verdade, veio João, que não come nem bebe, e dizem dele: ‘Está possesso!’ 19 Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: ‘Aí está um glutão e bebedor de vinho, amigo de cobradores de impostos e pecadores!’ Mas a sabedoria foi justificada pelas suas próprias obras.» 20 Jesus começou então a censurar as cidades onde tinha realizado a maior parte dos seus milagres, por não se terem convertido: 21 «Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se os milagres realizados entre vós, tivessem sido feitos em Tiro e em Sídon, de há muito se teriam convertido, vestindo-se de saco e com cinza. 22 Aliás, digo-vos Eu: No dia do juízo, haverá mais tolerância para Tiro e Sídon do que para vós. 23 E tu, Cafarnaúm, julgas que serás exaltada até ao céu? Serás precipitada no abismo. Porque, se os milagres que em ti se realizaram tivessem sido feitos em Sodoma, ela ainda hoje existiria. 24 Aliás, digo-vos Eu: No dia do juízo, haverá mais tolerância para os de Sodoma do que para ti.» 25 Naquela ocasião, Jesus tomou a palavra e disse: «Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos. 26 Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.» 28 «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. 29 Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. 30 Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.»

Comentários:

1-8 -

Compreende-se a atitude de João: quer que os seus enviados confirmem pessoalmente quanto lhes tem dito sobre Jesus Cristo. Ouvindo da boca do próprio Senhor o que tem feito na sua missão por terras de Israel, compreendem que tal corresponde ao que estava anunciado a respeito do Messias, ou seja, que as Escrituras se cumprem à letra na Pessoa de Cristo. Assim se confirma a sua fé e podem seguir sem medo os ensinamentos de João Baptista seguros que eles os levam ao Redentor.


2-11 -
       Será que, ao ler este trecho de São Mateus, podemos concluir que João não sabia quem era Jesus? Não! Em primeiro lugar eram primos, familiares próximos, João tinha – ainda no seio de sua mãe, Isabel, reconhecido Cristo como consta no trecho de São Lucas relativo à Visitação de Nossa Senhora – então, porque envia os seus discípulos a obter, directamente, uma confirmação do que já sabe? Pois… por eles mesmos, os seus discípulos que vendo o Senhor e ouvindo as Suas palavras ficam sem dúvidas ou quaisquer perguntas por responder. E, isto, é muito importante, porque serão estes mesmos discípulos de João que, mais tarde, se tornarão discípulos de Jesus, certos que seguem o caminho certo e a Pessoa que convém. Assim, o mestre, seja quem for, deve pôr à disposição dos seus seguidores a “chave” do conhecimento que tem e a origem do mesmo para que, quando oportuno, possam beber directamente da “fonte”, quanto lhes transmitiu e, assim, fortalecerem a sua fé e garantirem a verdade do que aprenderam.

11-15 -

Terão os ouvintes de Jesus percebido exactamente o que lhes disse sobre João Baptista? Talvez não e, por isso mesmo, o Senhor termina com um apelo: «Quem tem ouvidos, oiça!» Isto como se dissesse: Perguntai o que não sabeis, esclarecei o que não entenderdes, não vos fiqueis na dúvida, na interrogação, dando voltas à imaginação. Se quiserdes e assim pedirdes, tudo vos será explicado com meridiana clareza.

O Senhor discorre sobre a figura do Baptista com palavras simples que só podem ter uma interpretação. Deve-se ouvir mas também compreender o que se ouve. As dúvidas, se as houver, devem ser expostas de modo que fique bem ciente do que se ouviu e não haja “desculpas” para não proceder de acordo com o que se aprendeu.



11, 1. 16 -
A Liturgia apresenta-nos hoje o último versículo do capítulo 10 e o primeiro do capítulo 11 do Evangelho escrito por São Mateus. Acaba, por assim dizer, o longo discurso de instruções para a missão de Apóstolos com uma frase lapidar. Ele próprio declara que traz a espada ou seja, que a salvação dos homens não será feita sem luta – por vezes bem acesa – entre os inimigos do Reino de Deus e aqueles que o querem receber sem olhar a dificuldades e sacrifícios. Por outras palavras, diz-lhes que a missão que os espera será dura e, por vezes, exigente até à morte mas que, a implantação do Reino de Deus será levada a cabo e que, de alguma forma, se cumprirá o Seu desejo, de haja «um só rebanho e um só pastor». A espada significa exactamente esse corte definitivo e irreversível dos que que não aceitarem a condição necessária para a salvação: o cumprimento – em tudo – da vontade de Deus.

16-19 -

O que na realidade interessa na vida do cristão são as obras que leva a cabo e não as intenções que possa ter. Qualquer pessoa é avaliada pelo que faz e não pelo que apregoa ou sugere. Porquê? Porque o exemplo vem das acções e não das intenções e, para arrastar outros há que dar o exemplo.
Muitos pensam que basta falar apregoar até pregar para arrastar outros para o caminho que leva a Deus. Não chega! Sem o exemplo de obras concretas que correspondam tudo não passará de intenções e acabará por não resultar.
Quando, mais tarde, Jesus afirmar que «Elias já veio» não fará mais que confirmar as palavras do Arcanjo na sua mensagem a Zacarias. Confirma, portanto, que o Baptista é um profeta que, como Elias, tem como principal missão anunciar a vinda do Messias.

20-24 -

     João negará que seja Elias e não há aqui qualquer contradição, bem ao contrário, afirma o seu papel, a sua missão de Percursor. O Senhor que sabe tudo - o passado, o presente e o futuro - lamenta e deixa o Seu Coração Amantíssimo exprimir essa pena que sente. Ao mesmo tempo deixa um claro aviso: as acções divinas, os milagres, as graças, têm o objectivo claro de nos chamar a atenção para a necessidade de correcção de vida - emendatio vitae - enquanto temos tempo, isto é, agora! Esperar para mais tarde é um risco enorme que não devemos correr. Não sabemos nem o dia nem a hora. Portanto...
Jesus Cristo é O Profeta por excelência porque Ele sabe, conhece o passado, o presente e o futuro. Por isso mesmo não profetiza: afirma! Ao revelar o que acontecerá aquelas cidades quer que os que O ouvem tomem consciência da gravidade dos seus actos e as consequências destes no futuro. Apela à conversão e à penitência como o caminho a seguir – com urgência – para evitarem esses terríveis castigos.
Por vezes pode parecer-nos que Jesus Cristo tem um discurso algo “duro” e pronunciador de desgraças e cataclismos. Sim, também estes “elementos” fazem parte do discurso de Jesus porque, a Sua Missão principal – diria – é conduzir os homens ao arrependimento absolutamente necessário para obterem o perdão pelas suas faltas e, com esse perdão, conquistarem a Vida Eterna. Portanto, do que realmente se trata, é que o Senhor que só diz a verdade “doa a quem doer” e, a verdade que é por vezes difícil de aceitar, não pode ser escondida ou “camuflada” com belas palavras. Nunca – absolutamente – ninguém poderá dizer: ‘Se eu tivesse sabido a tempo…’
Os milagres que o Senhor prodigaliza destinam-se fundamentalmente a consolidar a fé dos que os constatam e a empreender uma revisão de vida conducente com o objectivo de alcançar a felicidade eterna. Não são um espectáculo mas sim sinais marcantes da verdade que O Senhor nos trouxe: «Quem puser em prática as Minhas palavras será salvo».

25-27 -
Nós cristãos dos dias de hoje, somos mais afortunados que os Apóstolos porque graças ao Espírito Santo conhecemos as verdades da nossa fé. Sabemos que Deus é Uno e Trino: Pai, Filho e Espírito Santo. De tal forma acreditamos que este é o Símbolo da nossa Fé.
Porquê o Senhor escondeu as verdades aos prudentes? O próprio Jesus Cristo aconselha os Seus discípulos a serem prudentes com as serpentes! Uma coisa não tem que ver com a outra. O conselho de Cristo refere-se ao apostolado, à difusão do Reino de Deus. As escolhas têm de obedecer a critérios que necessitam por sua vez de direcção espiritual. O que no Evangelho se refere é aquela prudência que leva muitos a tudo questionarem antes de aceitar seja o que for, mesmo que seja uma verdade evidente e venha de quem merece todo o crédito. Muitos dizem: ‘esperar para ver.´ É uma atitude cobarde e perigosa porque pode acontecer que essa espera não traga nenhum resultado.
Pode parecer que se as revelações de Jesus tivessem sido feitas aos sábios – os chefes do povo – estes poderiam ter acreditado e, assim, conduzirem por caminho seguro aqueles que deles dependiam. Mas, de facto, o Senhor falou sempre para todos e, a prova disso, é que vários chefes – do Sinédrio, como Nicodemos, ou de sinagogas – ouviram, entenderam e acreditaram. Mas, também de facto, os que acreditaram em Jesus e O seguiram, foram muito mais gente do povo anónimo, talvez sem grande instrução, mas sequiosos de uma doutrina que lhes trouxesse esperança e alívio ao mesmo tempo. Quem sabe muito tem muito maior responsabilidade, esta é a verdade, mas, quem sabe pouco tem em si mesmo uma muito maior disposição para ver e ouvir e, sobretudo, acreditar no que vêm e ouvem.
Uma e outra vez, a Liturgia apresenta este trecho do Evangelho escrito por São Mateus. A intenção é clara: que os cristãos fixem bem a importância – sim, digo bem – a importância que Jesus dá aos Seus irmãos os homens, a todos, sem fazer acepção de pessoas nem com critérios de cultura ou conhecimentos. Naturalmente que compreendemos que, quem mais precisa, serão aqueles que menos sabem, porque são menos dotados ou, simplesmente porque ninguém os ensina. As pessoas simples têm uma avidez - que não disfarçam – de ouvir as palavras de Jesus Cristo porque as compreendem e, compreendendo, acreditam e, acreditando, sabem que têm aberto o caminho para a salvação.
A revelação da figura de Deus Pai não está aberta a todos os homens? Segundo as palavras de Jesus Cristo, essa revelação depende exclusivamente da Sua vontade. Parece ser absolutamente natural já que "ninguém vai ao Pai senão através do Filho". Daí que seja fundamental conhecer intimamente o Filho antes de tudo o resto.


25-30 -
Acaso já pensámos que de facto somos esses "pequeninos" que o Senhor refere no Evangelho aos quais revela e mostra as verdades da fé, dando a conhecer o Pai? E, chegando a esta conclusão, não é natural e lógico que nos enchamos de alegria e demos frequentes graças por tão grandes benefícios? Aliás, a nossa vida inteira deveria ser uma constante acção de graças por tudo – absolutamente – tudo quanto temos e recebemos nos vem das mãos de Deus.
Nos dias de hoje a "pressão" sobre as pessoas é quase insuportável. Os "media" encarregam-se de nos fazer chegar em profusão notícias preocupantes de toda a ordem e, muitos, não sabemos os que fazer e, até, o que pensar. São as sociedades - os países - a desfazer-se nos princípios, nas raízes, nos costumes. É a "sanha" legislativa que atenta contra os mais elementares direitos das pessoas, das famílias, de sociedades inteiras impondo - ou pelo menos tentado impor - leis atentatórias da moral mais básica e elementar, os direitos decorrentes da própria dignidade do ser humano. De facto, nada disto é inteiramente novo, - basta-nos ler as Epístolas de São Paulo - mas a facilidade de comunicação e difusão actuais tornam-nos como que participantes involuntários e não podemos ignorar ou descartar o perigo - autêntico, real - para os mais novos, desprotegidos, ignorantes. Os "pequeninos" de que Jesus fala! Ponhamo-nos a Seu lado e confiemos na Sua protecção e Amor, rezemos sem descanso por todos esses "que não sabem o que fazem", mas que são nossos irmãos em Cristo.
A "escolha" de Deus a quem revelar as verdades da Fé, os princípios do comportamento dos Seus filhos de modo a merecerem o destino glorioso que lhes tem reservado, fica bem claro nas palavras de Jesus. A mim parece-me lógico e muito justo. Lógico porque os "sábios" não deveriam precisar de revelações, mas sim, utilizando os seus conhecimentos, chegarem a conhecer o que precisavam. Justo porque os "pequeninos" como Jesus lhes chama, não recebiam - como era seu direito - os ensinamentos fundamentais da doutrina. Apenas eram "massacrados" por um sem-fim de regras e disposições que os convertiam em "ovelhas sem pastor", ou seja, sem guia nem programa, auxílio ou refúgio. Nós somos, afortunadamente, esses pequeninos que o Senhor elegeu dando-nos os meios de salvação suficientes e seguros - os Sacramentos - e a possibilidade de a Ele recorrer sempre que necessário. Depois, o Espírito Santo infundiu em nós os Seus Dons tornando-nos aptos a compreender as verdades da Fé.
Jesus Cristo diz a respeito de Si próprio que é «manso e humilde de coração» duas virtudes que qualquer um de nós, cristãos, deve esforçar-se por cultivar. A mansidão é a virtude dos que «verão a Deus», segundo dirá no Sermão da Montanha. A humildade será, talvez, a mais perfeita e difícil de obter. A mansidão atrai, a humildade convence e não há apostolado credível sem que estas duas virtudes estejam presentes. Ambas são a expressão mais completa do cristão autêntico e, atrevo-me a dizer, arrastam com elas muitas outras virtudes necessárias para uma vida coerente e unidade de comportamento.
Somos, a maioria dos cristãos, pessoas normais e correntes, isto é, sem nenhuns atributos especiais que nos distingam. Somos, portanto, desses “pequeninos” que o Senhor elege com especial carinho. Que afortunados somos!

28-30 -

Mansidão o que é? Parece-me que a melhor definição se encontra no próprio Jesus Cristo: Ser como Ele foi em todas as circunstâncias da Sua vida terrena. Nunca deixou de afirmar e, por vezes com expressa veemência, a verdade, a justiça e, sempre, denunciando o erro, a hipocrisia, os falsos e pusilânimes. Ser manso não é fugir á luta quando é preciso lutar, evitar o confronto quando a verdade está em causa. Note-se que o Senhor, associa a mansidão à humildade e, se esta virtude é difícil de alcançar aquela não o será menos de conseguir.
Quer queiramos quer não, aceitemos ou repudiemos, Deus é o nosso Senhor. Criou-nos, mantém a nossa vida, pertence-lhe a decisão do momento da nossa morte. Ignorar estas verdades é andar pela vida de olhos fechados e ouvidos moucos comparando-nos aos irracionais que não pensam nem dominam a vontade. Para alguns, tal é limitar a sua liberdade que tanto estimam e defendem, mas estão errados porque o Senhor apenas convida não impõe. 
São Mateus encerra o capítulo 11 do Evangelho que escreveu com estas palavras de Jesus. São palavras de misericórdia, de esperança, de confiança. Deseja que todos saibam que, Ele, está sempre presente para nos ajudar e socorrer e que o que temos de fazer para obter esse auxílio e conforto não pesa, não esmaga, antes é suave e compensador.
Sabendo o que somos e como somos, conhecendo intimamente os nossos defeitos e debilidades o Senhor propõe-nos como que um contrato de amor adequado para cada um. Esse contrato de amor não é mais que aceitar e cumprir, em tudo, a Sua vontade tendo a certeza que não só é o melhor para nós como a garantia do Seu auxílio para o fazer. No fim e ao cabo: confiança e humildade!
Um jugo suave e uma carga leve! É com certeza o que desejamos. Por vezes a vida traz-nos cargas difíceis de suportar sofrimento amargura e não sabemos o que fazer para ultrapassar esses momentos. Outras vezes é o jugo dos nossos defeitos e vícios que nos mantém amarrados, incapazes de dar um passo em frente. (O jugo era um colar, normalmente de ferro que os conquistadores colocavam ao pescoço dos conquistados não só para marcar a sua propriedade mas, também, para mais facilmente os poderem amarrar obrigando-os a ir para onde queriam.) Rezar é a única solução. Não pedir ao Senhor que nos poupe até porque Ele nunca consentirá que sejamos provados além das nossas forças, mas antes oferecer essa provação pedindo que nos ajude a superá-la.
Quantas vezes não comprovámos a realidade prática destas palavras de Cristo! Sabemos muito bem recorrer a Ele quando os revezes da vida parecem esmagar-nos e não encontramos soluções. Espanta-me sempre a atenção com que O Senhor escuta os meus pedidos de ajuda como se eu merecesse! Depois penso que nunca merecerei e que apenas e exclusivamente se deve à Bondade do Senhor. Sim, é verdade, sou pronto e rápido na petição, mas, e em agradecer?