28/10/2018

Estando Ele connosco nada há a temer.

O chamamento do Senhor – a vocação – apresenta-se sempre assim: "Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-Me". Sim, a vocação exige renúncia, sacrifício. Mas que agradável acaba por ser o sacrifício ("gaudium cum pace", alegria e paz), se a renúncia é completa! (Sulco, 8)

Se consentires que Deus seja o senhor da tua nave, que Ele seja o amo, que segurança!..., mesmo quando a tempestade se levanta no meio das trevas mais escuras e parece que Ele se ausenta, que está a dormir, que não se preocupa. S. Marcos relata que os Apóstolos se encontravam nessas circunstâncias; e Jesus, vendo-os cansados de remar (porque o vento lhes era contrário), cerca da quarta vigília da noite foi ter com eles, andando sobre o mar... Tende confiança, sou eu, não temais. E subiu para a barca, para junto deles e cessou o vento.
Meus filhos, acontecem tantas coisas na terra...! Podia pôr-me a falar de penas, de sofrimentos, de maus tratos, de martírios – não tiro nem uma letra –, do heroísmo de muitas almas. Aos nossos olhos, na nossa inteligência, surge às vezes a impressão de que Jesus dorme, de que não nos ouve; mas S. Lucas narra como Nosso Senhor se comporta com os seus: Enquanto iam navegando, Jesus adormeceu e levantou-se uma tempestade de vento sobre o lago e a barca enchia-se de água e estavam em perigo. Aproximando-se dele, despertaram-no dizendo: Mestre, nós perecemos! Ele, levantando-se, increpou o vento e as ondas, que acalmaram e veio a bonança. Então disse-lhes: onde está a vossa fé?

Se nos dermos, Ele dá-se-nos. Temos de confiar plenamente no Mestre, temos de nos abandonar nas suas mãos sem mesquinhez; de lhe manifestar, com as nossas obras, que a barca é dele, que queremos que disponha à vontade de tudo o que nos pertence. (Amigos de Deus, 22)

Temas para reflectir e meditar


Formação humana e cristã – 91


Mas, muitos aduzem, se eu não tenho pecados graves de que vou acusar-me?

Em primeiro lugar a confissão sacramental é um lugar e um momento de reconvenção em que nos apresentamos ao Senhor tal qual somos, o que fizemos e deveríamos ter evitado, o que não fizemos e era nossa obrigação fazer.
Depois o sacramento infunde na alma graças especiais que nos ajudarão a resistir às tentações.

Ajudará muito o exame de que já falamos que nos proporcionará uma visão mais actual e realista do estado da nossa alma.

AMA, reflexões.

Evangelho e comentário


Tempo comum


Evangelho: Mc 10, 46-52

46 Chegaram a Jericó. Quando ia a sair de Jericó com os seus discípulos e uma grande multidão, um mendigo cego, Bartimeu, o filho de Timeu, estava sentado à beira do caminho. 47 E ouvindo dizer que se tratava de Jesus de Nazaré, começou a gritar e a dizer: «Jesus, filho de David, tem misericórdia de mim!» 48 Muitos repreendiam-no para o fazer calar, mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem misericórdia de mim!» 49 Jesus parou e disse: «Chamai-o.» Chamaram o cego, dizendo-lhe: «Coragem, levanta-te que Ele chama-te.» 50 E ele, atirando fora a capa, deu um salto e veio ter com Jesus. 51 Jesus perguntou-lhe: «Que queres que te faça?» «Mestre, que eu veja!» - respondeu o cego. 52 Jesus disse-lhe: «Vai, a tua fé te salvou!» E logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.

Comentário:

Como Bartimeu a minha resposta seria pedir-te visão, luz, claridade.
Para ter tudo isto, bem sei, são necessários olhos puros.

Então… é exactamente isso que Te peço: pureza no olhar, ajuda para guardar a vista.

(ama, comentário sobre Mc 10, 46-52, 25.10.2015)




Leitura espiritual

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LEGENDA MAIOR 

Vida de São Francisco de Assis

SEGUNDA PARTE

CAPITULO 8

O seu sentimento de compaixão e o amor que as criaturas lhe devotavam

1. A verdadeira piedade, que, na palavra do Apóstolo, é útil a todas as coisas, enchera o coração de Francisco, compenetrando-o tão intimamente, que parecia dominar totalmente a personalidade do homem de Deus. Nasciam daí a devoção que o elevava até Deus, a compaixão que fazia dele um outro Cristo, a amabilidade que o inclinava para o próximo, e uma amizade com cada uma das criaturas, que lembra nosso estado de inocência primitiva. Mas, embora atraído espontaneamente por todas as criaturas, seu coração o levava especialmente às almas resgatadas pelo sangue precioso de Cristo Jesus, e quando nelas percebia qualquer mancha de pecado, chorava sua desgraça com uma sensibilidade tão patética que as gerava todo dia, como uma mãe, em Cristo. Entende-se a veneração que tinha pelos pregadores, ministros da palavra de Deus, porque eles suscitam para seu irmão morto, para Jesus Cristo crucificado pelos pecadores, filhos que seu zelo e actividade convertem e dirigem. E dizia que esse ministério de misericórdia é muito mais agradável ao Pai de todas as misericórdias do que qualquer sacrifício, sobretudo se o faz em espírito de perfeita caridade, mais pelo exemplo do que pela palavra, mais pela oração e pelas lágrimas do que por discursos excessivos

2. Por isso dizia que se deveria deplorar como destituído de verdadeira piedade todo pregador que na pregação procura mais a própria glória do que a salvação das almas ou que destrói com seu mau exemplo aquilo que ele edifica com a verdade de sua doutrina. Por isso afirmava que se deve preferir sempre um irmão simples e iletrado a semelhante pregador, pois aquele por sua simplicidade e santidade de vida move os outros a praticar o bem. E insistindo nesse ponto, recordava as palavras da Escritura: “A estéril deu à luz muitos filhos” (1Rs 2,5), e assim interpretava esse versículo: “A estéril é o irmão humilde e simples que não tem na Igreja de Deus o cargo de gerar filhos espirituais. Este dará à luz no dia do juízo muitos filhos, pois naquele dia o Juiz atribuirá à sua glória aqueles que ele agora converte com suas preces ocultas. Aquela que tem muitos filhos ficará estéril, porque o pregador vão e loquaz, que agora se gloria de haver gerado espiritualmente a muitos, saberá então que nenhuma parte teve em sua geração espiritual”.

3. Procurava a salvação das almas com todo o ardor e com todo o zelo e dizia-se inundado de suavíssimo consolo e de um gozo inefável ao saber que, atraídos pelo odor de santidade de seus irmãos espalhados pelo mundo, muitos homens abraçavam o caminho da virtude. Ao ouvir tais coisas, exultava de alegria, cumulava das bênçãos mais copiosas, dignas do maior apreço, a todos aqueles irmãos que com a palavra ou o exemplo convertiam a Cristo os pecadores. Pelo contrário, todos aqueles que com sua depravada vida manchavam a honra de sua religião sagrada incorriam no terrível anátema da sua maldição: “Por ti, altíssimo Senhor, e por toda a corte celestial, e por mim, pequenino servo vosso, sejam malditos aqueles que com seu mau exemplo confundem e destroem o que edificastes e nunca cessais de edificar pelos santos irmãos desta Ordem”. Enchia-se muitas vezes de tanta tristeza ao ver escandalizados os pequeninos, que julgava perder a vida, não fossem as forças que lhe dava a divina clemência. Certo dia, perturbado por causa dos maus exemplos, orava fervorosamente ao Pai das misericórdias em favor de seus filhos, e ouviu do Senhor estas palavras: “Por que te perturbas, vil homenzinho? Porventura o poder que te dei sobre minha Ordem te teria feito esquecer que sou eu o seu principal protector?
Se eu te escolhi a ti, homem simples, é para que tudo aquilo que realizarei em ti não seja atribuído ao trabalho do homem mas à graça do alto. Eu te chamei, te guardarei e alimentarei; se alguns irmãos caírem, levantarei outros em seu lugar, e, se preciso, farei nascer outros mais; e por maiores que sejam as perseguições suscitadas contra esta pobre religião, ela permanecerá sempre firme com meu auxílio”.

4. Fugia da maledicência como se foge da picada de uma serpente ou de uma epidemia horrível, por ser mortal para a piedade e a graça, objecto de abominação de Deus infinitamente bom, dizia ele, porque o maledicente se alimenta do sangue das almas que ele matou com a espada de sua língua. Ouviu certo dia um irmão denegrindo o bom nome de um outro; voltou-se para o seu vigário e lhe disse: “Apressa-te, faze uma investigação minuciosa. E se verificares que o irmão acusado é inocente, impõe ao acusador um castigo exemplar!” Na sua opinião, aquele que havia despojado um irmão de sua reputação devia ser despojado do hábito com proibição de levantar os olhos para o céu, enquanto não houvesse procurado, segundo suas possibilidades, restituir aquilo que havia roubado. “E a maledicência é um pecado maior que um roubo, dizia ele, pois a lei de Cristo que cumprimos por amor nos obriga a desejar a salvação das almas mais do que a do corpo”.

5. Com grande ternura se compadecia Francisco de todos os que se encontravam aflitos por causa de alguma enfermidade corporal. E quando notava em alguém indigência ou necessidade, na suave piedade do coração, a considerava como sofrimento do próprio Cristo. A caridade de Cristo, infusa em sua alma, havia multiplicado a bondade inata. Seu coração se comovia de piedade à vista dos pobres e doentes. E quando não podia socorrê-los materialmente, procurava ao menos mostrar-lhes seu amor. Ouviu um dia um irmão maltratar um mendigo importuno; amante que era de todos os pobres, ordenou ao irmão: “Tira o hábito, lança-te aos pés deste pobre, reconhece publicamente tua falta, pede-lhe perdão e que reze por ti!” O outro obedeceu humildemente, e o Pai lhe disse com bondade: “Quando vês um pobre, irmão, é a imagem do Senhor e de sua pobre Mãe que tens diante dos olhos. De igual modo deves considerar nos enfermos as misérias a que Cristo quis se sujeitar por nosso amor”. Em todos os pobres ele, que era pobre e de espírito cristão, via a imagem de Cristo.
Por isso, quando os encontrava, dava-lhes generosamente tudo quanto havia recebido de esmola, ainda que necessário para viver. Estava convencido de que devia restituir-lhes o que era deles. E voltando um dia de Sena, encontrou um pobre; ele mesmo, por causa de sua doença, levava além do hábito um pequeno manto. Viu a miséria do pobre e não se conteve: “É preciso, disse ele ao companheiro, que devolvamos a esse homem o manto que lhe pertence. Nós o recebemos emprestado até encontrar uma pessoa mais pobre que nós”. Mas o companheiro sabia os cuidados que exigia o estado do Pai e se opôs terminantemente a que socorresse o outro com prejuízo próprio. Mas ele disse: “Minha convicção é que o Grande Esmoler me repreenderia como um roubo não dar a alguém que fosse mais necessitado aquilo que eu levo”. Aliás, ao receber qualquer coisa em vista de sua saúde, costumava pedir licença ao doador para dar de presente a oferta, caso encontrasse quem fosse mais pobre do que ele. Distribuía tudo o que recebia: mantos, túnicas, livros, toalhas de altar ou tapetes, tudo o que servisse de esmola aos pobres, para cumprir o dever da caridade. Muitas vezes ao se encontrar com pobres carregando pesadas cargas, punha-as sobre seus próprios ombros para auxiliá-los.

6. Acostumado a voltar continuamente à origem primeira de todas as coisas, concebeu por elas todas uma amizade extraordinária e chamava irmãos e irmãs as criaturas, mesmo as menores, pois sabia que elas e ele procediam do mesmo e único princípio. Contudo, tratava com muito maior ternura e mais suavemente as criaturas que representam de certo modo natural a piedosa mansidão de Cristo. As vezes resgatava cordeiros levados ao matadouro, em lembrança do Cordeiro mansíssimo que desejou ser levado à morte para resgatar os pecadores. Uma noite em que se hospedara no mosteiro de São Verecundo, na diocese de Gúbio, uma ovelha deu à luz um cordeiro. Mas uma porca impiedosa se encontrava no estábulo; sem comiseração pelo inocente, matou-o barbaramente e o devorou. Ao saber disso, o Pai compassivo, muito comovido e recordando-se do Cordeiro sem mancha, chorou diante de todos a morte do cordeirinho: “Ai de mim, irmão cordeirinho, animal inocente, que és para os homens a imagem da mansidão de Cristo! Maldita seja a ímpia que te causou a morte; que nenhum homem nem animal algum se alimente de suas carnes!” Coisa admirável! No mesmo instante começou a porca a ficar doente, e depois de haver sofrido durante três dias dores horríveis, pagou enfim com a morte aquela crueldade.
Lançada para fora da cerca do mosteiro, esteve ali seca como uma tábua por muito tempo, de modo que não serviu de alimento para nenhum faminto. Considere aqui a impiedade humana com que castigo tão atroz será castigada no fim dos tempos, se com morte tão horrenda se castigou a ferocidade de um irracional; e advirta igualmente a piedade dos fiéis quão admirável foi no servo de Deus a virtude da misericórdia e a ternura para com todos, que mereceu de certo modo ser louvada pelos próprios animais.

7. Viajando certa vez pelos arredores de Sena, encontrou nos campos um grande rebanho de ovelhas. Mal as saudou, afavelmente, e todas pararam de pastar e correram para ele, levantando a cabeça e fixando-o com os olhos. Fez-lhes tanta festa, que os pastores e irmãos ficaram maravilhados de as ver tão contentes, desde os cordeiros até aos carneiros. Em Santa Maria da Porciúncula, certo dia ofereceram ao homem de Deus uma ovelha que ele de boa mente aceitou, tanto ele amava a inocência e simplicidade que esses animais manifestam espontaneamente. O santo lhe fazia suas recomendações: estar atenta aos louvores divinos, não causar dano aos irmãos por menor que fosse... E ela, sensível à afeição do homem de Deus, fazia o que podia para se conformar. Quando ouvia o canto dos irmãos no coro, também entrava na igreja, dobrava os joelhos sem que ninguém lhe tivesse ensinado e. como saudação, dava alguns vagidos diante do altar da Virgem, Mãe do Cordeiro. Além disso, quando na celebração da missa chegava o momento em que o sacerdote levantava o sacratíssimo corpo de Cristo, a ovelhinha dobrava os joelhos em atitude reverente como se desse modo quisesse censurar a irreverência dos maus cristãos e convidar aos devotos à maior veneração de tão grande sacramento. Por um certo tempo em que se encontrava na cidade de Roma, teve também sob sua guarda, em recordação do Cordeiro sem mancha, um cordeirinho, o qual entregou à nobre e devota matrona Jacoba de Settesoli. O cordeirinho, como se estivesse instruído pelo santo nas coisas espirituais, era um companheiro inseparável dessa senhora, seguia-a à igreja, aí ficava com ela e com ela voltava para casa.
E se acaso a senhora não se mostrava tão diligente em levantar-se pela manhã, o cordeirinho acordava-a com seus balidos e golpeava-a com seus pequenos chifres, exortando-a com tais gestos a apressar-se a ir à igreja. Por esse motivo, aquela senhora guardava com admiração e amor o cordeirinho, discípulo de Francisco, que era então já mestre na vida devota.


São Boaventura

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por AMA)

Pequena agenda do cristão

DOMINGO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

27/10/2018

Temas para reflectir e meditar


Formação humana e cristã – 90


Parece haver como que uma ignorância sobre as disposições que se devem ter para receber condignamente Jesus no Santíssimo Sacramento da Eucaristia e, a culpa desta ignorância ou, displicência é nossa, de todos os cristãos que somos, devemos ser, apóstolos, não só não damos exemplo como nos abstemos de tomar qualquer iniciativa sobre o assunto.

Quantas vezes, numa Igreja, se verifica que quando alguém se dirige ao confessionário, passados momentos se vai formando uma fila de gente com o mesmo propósito. É verdade: o exemplo arrasta, desperta a apatia, ajuda a decidir.

Infelizmente não há nas nossas Igrejas sacerdotes disponíveis para o confessionário; além de serem poucos muitos têm grandes preocupações com actividades de carácter social de assistência etc. o que sem deixar de ser meritório não deveria ser uma ocupação que condicione ainda mais o tempo que devem dedicar ao seu múnus que é - deve ser - eminentemente pastoral.
Mas nós de facto temos muitas vezes esse comodismo que exige que o Confessor esteja disponível quando a nós melhor convier.
Com bom espírito não custa nada agendar com o sacerdote a data e hora. Seguramente encontraremos uma solução.
Aliás esta preocupação deve constatar no nosso plano de vida tal como já se referiu.

AMA, reflexões.

Leitura espiritual

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LEGENDA MAIOR 

Vida de São Francisco de Assis

CAPITULO 7

Amor à pobreza e intervenções miraculosas nas necessidades

7. Por amor da santa pobreza, o servo de Deus omnipotente preferia alimentar-se das esmolas colectadas de porta em porta àquelas que lhes eram oferecidas espontaneamente.
Sendo convidado alguma vez por grandes personagens e não podendo eximir-se da honra de assentar-se às mesas sumptuosas, ia primeiro mendigando pelas casas mais próximas alguns pedaços de pão, e, enriquecido depois com essa esmola, não rejeitava o convite. Foi o que fez certa vez ao ser convidado pelo cardeal de Óstia, extraordinariamente afeiçoado ao pobre de Cristo. Queixou-se o cardeal julgando ser pouco honroso para ele que, devendo comer em sua casa, tivesse pedido esmola. Francisco respondeu-lhe: “Senhor, grande honra vos tributei, honrando ao outro Senhor mais excelente. Porque na verdade o Senhor se compraz na pobreza, e muito mais naquela que por amor de Cristo se converte em mendicância voluntária. Não quero trocar por essas vãs riquezas que vos foram concedidas aquela dignidade real que Cristo, que se fez pobre por nós, tomou para si, a fim de nos enriquecer com sua pobreza e tornar-nos, como verdadeiros pobres de espírito, herdeiros e reis do reino dos céus”.
8. Ao exortar os irmãos a pedir esmolas, Francisco costumava dizer-lhes: “Ide, porque nestes últimos dias os irmãos menores foram dados ao mundo como benefício, para que os eleitos os tratem de tal modo que mereçam ser louvados pelo supremo Juiz no dia do juízo e ouvir estas palavras: ‘Quando fizestes isso ao menor de meus irmãos, a mim o fizestes’” (Mt 25,40). Por isso julgava ele honroso pedir esmola com o título de irmãos menores, pois o próprio Senhor o usou nos Evangelhos, ao falar da recompensa reservada aos eleitos. Sempre que podia, ia pedir esmola nas principais festas do ano, lembrado das palavras do salmista: “O homem comeu o pão dos anjos” (Sl 77,25), pois para ele era realmente o pão dos anjos, esmolado de porta em porta pela santa Pobreza por amor de Deus, e concedido pelos benfeitores por amor de Deus sob a inspiração dos anjos bem-aventurados.

9. Certo dia de Páscoa, encontrando-se em um santuário ou eremitério, tão distanciado do contacto dos homens que não podia facilmente mendigar seu alimento, lembrou-se daquele que no mesmo dia apareceu em traje de peregrino aos discípulos no caminho de Emaús. Pediu esmola a seus irmãos, considerando-se a si mesmo como um pobre peregrino. E tendo-a recebido com humildade, instruiu-os nas divinas letras, exortando-os a que no deserto deste mundo se julgassem peregrinos e estrangeiros, isto é, como verdadeiros israelitas, e a que celebrassem continuamente em pobreza de espírito a Páscoa do Senhor, ou seja, o trânsito desta vida à vida eterna. Não era o desejo do ganho que o animava a pedir esmolas, mas a força do Espírito que o dominava; e por isso Deus, Pai dos pobres, sempre teve com ele um cuidado todo particular.

10. Certa ocasião, ele adoecera gravemente no pequeno convento de Nocera, e o povo de Assis, em sua veneração pelo santo, enviou-lhe uma escolta para reconduzi-lo a Assis. Sempre seguindo o servo de Cristo, chegaram a Satriano, pequena aldeia pobre; era hora da refeição; estavam com fome; percorreram a cidade em todas as direcções: não havia meio algum de comprar o que quer que fosse, e voltaram de mãos vazias. Disse-lhes então o santo: “Se nada encontrastes, é porque tivestes mais confiança em vossas ‘moscas’ (chamava assim o dinheiro) do que em Deus. Voltai às casas aonde já fostes bater e pedi esmola por amor de Deus. E não creiais que isso seja um gesto vergonhoso ou humilhante - seria errado pensar assim – pois todas as coisas, desde o pecado, nos foram dadas a título de esmola, aos dignos e aos indignos, pela magnânima bondade de nosso Grande Esmoler”. Os soldados deixam de lado a vergonha e vão pedir esmola espontaneamente, recebendo por amor de Deus muito mais do que poderiam comprar com o dinheiro que possuíam; pois a graça de Deus agiu com tanta eficácia, que os pobres habitantes, comovidos profundamente, não só se contentaram em dar o que tinham como também se puseram generosamente a serviço deles. Foi assim que a pobreza, tesouro de Francisco, conseguiu aliviar a indigência que o ouro não pudera.

11. No tempo que esteve doente num eremitério perto de Rieti, um médico o visitava com frequência. Mas como o pobrezinho de Cristo não tivesse condições de recompensá-lo dignamente por seu trabalho, o próprio Deus em sua infinita liberalidade, para que o médico não ficasse sem a devida recompensa, remunerou, em nome do pobrezinho, os serviços dele com este singular benefício. Havia o médico construído por esse tempo e às próprias custas uma casa inteiramente nova, e logo se abriram em suas paredes, de alto a baixo, grandes fendas que ameaçavam fazer ruir a casa, não havendo recurso humano nenhum capaz de impedir o desabamento da casa. O médico, cheio de confiança nos méritos do santo, pediu a seus companheiros com grande fé e devoção que lhe dessem alguma coisa que houvesse sido tocada pelas mãos de Francisco. À força de repetidas instâncias conseguiu obter uma mecha dos cabelos do santo, a qual pela tarde introduziu cuidadosamente em uma das fendas da parede, e ao levantar-se no dia seguinte observou que a fenda se fechara tão perfeitamente que não pôde extrair as próprias relíquias colocadas no dia anterior nem encontrar vestígio algum das referidas fendas. Eis como aquele que com tanto zelo se devotara aos cuidados do pobre corpo em ruína do servo de Deus preservou da ruína a sua própria casa.

12. Certa ocasião, querendo o homem de Deus transferir-se a um eremitério para se dedicar mais livremente à contemplação, e como estava enfermo, pediu a um pobre que o transportasse em seu burro. No calor do verão, o homem seguia a pé o servo de Deus montanha acima. Cansado do percurso muito longo e difícil e forçado pela sede, a um certo ponto começou a gritar ao santo: “Morro de sede se não encontrar um pouco d’água imediatamente!” No mesmo instante, Francisco apeou do burro e prostrado de joelhos em terra, levantou as mãos ao céu, não deixando de rezar fervorosamente até conhecer que o Senhor ouvira sua oração. Concluída a oração, disse afavelmente ao homem: “Vai até aquela pedra, irmão, e ali encontrarás água fresca e abundante, que neste momento Cristo, em sua misericórdia, fez jorrar da pedra para ti”. Estupenda comiseração de Deus, que com tanta facilidade se inclina aos desejos de seus servos! O homem sedento pôde beber de uma água nascida da rocha pela virtude de um santo em oração e foi um rochedo bem duro que lhe forneceu com que matar a sede. Não existia nenhum fio d’água anteriormente nesse local. E por mais que se procurasse, não se encontrou resquício sequer de água naquele lugar.

13. Mais adiante, no devido lugar, contaremos como Cristo, pelos méritos de seu pobre, multiplicou os víveres em pleno mar. Agora recordemos apenas esta aventura. Com um pouco de alimento recebido como esmola, salvou durante vários dias da morte toda a tripulação que morria de fome. Não podemos deixar de ressaltar aqui que o servo do Deus omnipotente, semelhante a Moisés, ao fazer jorrar água do rochedo, também se parece com Eliseu, ao multiplicar os víveres.
Lancem, pois, os pobres para longe de si qualquer desconfiança, porque se a pobreza de Francisco foi bastante rica para fornecer a seus benfeitores o que lhes faltava: alimento, bebida, moradia, quando o dinheiro, a técnica e a natureza pareciam impotentes, com tanto mais razão nos merecerá ela os bens que procedem da ordem habitual da divina Providência. Se a aridez da pedra, à voz de um pobre, produziu uma abundante bebida a um infeliz que morria de sede, nenhuma criatura com toda certeza negará os próprios serviços àqueles que abandonaram tudo para escolherem o Criador de todas as coisas.

São Boaventura

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por AMA)

Pequena agenda do cristão

SÁBADO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





Luta contra essa frouxidão

És tíbio se fazes preguiçosamente e de má vontade as coisas que se referem ao Senhor; se procuras com cálculo ou "manha" o modo de diminuir os teus deveres; se não pensas senão em ti e na tua comodidade; se as tuas conversas são ociosas e vãs; se não aborreces o pecado venial; se ages por motivos humanos. (Caminho, 331)

Luta contra essa frouxidão que te faz preguiçoso e desleixado na tua vida espiritual. – Olha que pode ser o princípio da tibieza..., e, na frase da Escritura, os tíbios, Deus os vomitará. (Caminho, 325)

Que pouco Amor de Deus tens quando cedes sem luta porque não é pecado grave! (Caminho, 328)

Como hás-de sair tu desse estado de tibieza, de lamentável languidez, se não empregas os meios? Lutas muito pouco e, quando te esforças, faze-lo como que zangado e com falta de gosto, quase com o desejo de que os teus fracos esforços não produzam efeito, para te justificares: para não te exigires e para que não te exijam mais. (Sulco, 146)

Evangelho e comentário


Tempo comum


Evangelho: Lc 13, 1-9

1 Nessa ocasião, apareceram alguns a falar-lhe dos galileus, cujo sangue Pilatos tinha misturado com o dos sacrifícios que eles ofereciam. 2 Respondeu-lhes: «Julgais que esses galileus eram mais pecadores que todos os outros galileus, por terem assim sofrido? 3 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos igualmente. 4 E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé, matando-os, eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5 Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos da mesma forma.» 6 Disse-lhes, também, a seguinte parábola: «Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha e foi lá procurar frutos, mas não os encontrou. 7 Disse ao encarregado da vinha: ‘Há três anos que venho procurar fruto nesta figueira e não o encontro. Corta-a; para que está ela a ocupar a terra?’ 8 Mas ele respondeu: ‘Senhor, deixa-a mais este ano, para que eu possa escavar a terra em volta e deitar-lhe estrume. 9 Se der frutos na próxima estação, ficará; senão, poderás cortá-la.’»

Comentário:

Este trecho de São Lucas encerra, uma lição que se refere ao que muitas vezes se pensa: que o mal que acontece – terramotos, inundações, cataclismos - é culpa dos homens e, portanto, um castigo de Deus.

Evidentemente que sabemos que Deus não castiga ninguém muito menos tirando-lhe a vida. Permite que os acontecimentos da vida corrente – maus ou bons – aconteçam sem interferir porque respeita a inteira liberdade do homem.

A verdade é que, por mais terríveis que possam ser os acontecimentos na natureza não têm nunca as consequências dos actos extremos praticados pelo homem: violências, extermínios, guerras, torturas inauditas.

(AMA, comentário sobre Lc 13, 1-9, 11.07.2018)




26/10/2018

Santíssima Virgem

Los ingleses redescubren la devoción mariana y el Rosario, privado y público, tras medio siglo de decadencia

Temas para reflectir e meditar

Formação humana e cristã – 89


O mistério da Santa Missa, repetimos, é, como todos os mistérios, impossível de abarcar na totalidade.
Convém muito pedir ao Espírito Santo que nos ilumine com os Seus dons em particular os de Ciência e Entendimento para irmos chegando cada vez mais perto de, não apenas acreditar, mas, ter uma fé esclarecida e bem estruturada.
O dia de Quinta-feira é particularmente indicado para meditar de forma mais cuidada e detida sobre a Santíssima Eucaristia e, naturalmente sobre a Santa Missa.
Penso que por nós próprios nunca seríamos capazes de comungar, esmagados pela realidade da nossa pobre condição humana comparada com a majestade e omnipotência do nosso Deus e senhor.
Mas fazemo-lo porque foi Ele próprio quem assim dispôs.
Porque sentimos uma necessidade imperiosa de nos convertermos em Cristo faculdade extraordinária que a Sagrada Comunhão nos proporciona.
Somos, embora por breves minutos, elevados a uma categoria divina de tal modo o Corpo o Sangue a Alma e a Divindade de Jesus Cristo se "misturam" com todo o nosso ser.
Então somos levados também a compreender e a dar-nos conta da dignidade do ser humano.
Consideramos o respeito com que devemos tratar o nosso corpo e o dos outros com quem nos cruzamos nos caminhos da vida.
Percebemos que todos, como filhos de Deus, temos uns direitos e uns deveres que por ninguém nem por nós próprios podem ser violados.
Assusta - e preocupa - muitos, verificarem que são milhares de pessoas que se aproximam da Comunhão Eucarística mas que o mesmo não se passa no que respeita à Confissão Sacramental.

AMA, reflexões.

Leitura espiritual

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LEGENDA MAIOR  

Vida de São Francisco de Assis

CAPITULO 7

Amor à pobreza e intervenções miraculosas nas necessidades

1 . Entre outros dons e carismas que o Doador de todos os bens concedeu a Francisco, houve um privilégio singular: o de crescer nas riquezas da simplicidade através do amor pela altíssima pobreza.
Considerando o santo que esta virtude havia sido familiar ao Filho de Deus e vendo-a quase desterrada do mundo, quis torná-la sua esposa, amando-a com amor eterno, e por ela não só deixou pai e mãe, mas generosamente distribuiu tudo quanto possuía. Ninguém foi tão ávido de ouro quanto o foi Francisco da pobreza e ninguém pôs tanto cuidado em guardar os seus tesouros como o foi ele em conservar tão preciosa pérola.
Por isso nada o ofendia tanto como ver em seus irmãos qualquer coisa que não estivesse inteiramente de acordo com a pobreza.
E na verdade, o santo, desde o início de sua vida religiosa até a morte possuiu estas riquezas: a túnica, o cordão e as roupas de baixo; e vivia contente.
Muitas vezes recordava, sem poder conter as lágrimas, a pobreza de Cristo e de sua Mãe.
Afirmava que esta é a rainha das virtudes, porque a vemos brilhar com pleno fulgor mais do que todas as outras, no Rei dos reis e na Rainha sua Mãe.
Por essa razão, certa vez, reunidos os irmãos e tendo-lhe um deles perguntado qual a virtude mais apropriada do que qualquer outra para se captar a perfeita amizade de Cristo, respondeu como quem descobre um segredo íntimo do coração.
“Sabei, irmãos, que a pobreza é o caminho mais seguro para a salvação, como fundamento que é da humildade e raiz de toda perfeição, e os seus frutos, embora ocultos, são múltiplos e abundantíssimos. Essa virtude é aquele tesouro evangélico escondido no campo; para comprá-lo deve-se vender tudo e por seu amor desprezar tudo o que não se pode vender”.

2. E dizia: “Quem pretende chegar ao cume da pobreza deve renunciar não somente à prudência segundo o mundo, mas também às letras e às ciências; assim despojado daquilo que ainda é uma forma de posse, proclamará o poder do Senhor (cf. SI 73,15-16) e se oferecerá nu ao abraço do Crucificado.
Aquele que guarda sua reservazinha de amor-próprio no íntimo do coração ainda não renunciou inteiramente ao mundo”.
Nos seus sermões aos irmãos sobre a pobreza, muitas vezes citava esta passagem do Evangelho: “As raposas têm suas covas e os pássaros seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20).
Daí concluía que os irmãos não devem construir senão casas pequenas e pobres, como os pobres fazem, nem se instalar nelas como proprietários mas comportar-se como peregrinos e estrangeiros na casa dos outros. Ser peregrino, dizia ele, é ser recebido na casa dos outros, ter nostalgia da pátria e irradiar a paz à sua passagem.
Mandava mesmo derrubar casas já construídas ou fazia sair delas os irmãos, quando as considerava contrárias à pobreza evangélica por terem os irmãos aceite a propriedade deles ou exagerado o seu conforto. Para ele a pobreza era a pedra fundamental da Ordem, fundamento de todo esse edifício que permanecerá sólido enquanto ela for sólida e se um dia ela desaparecer, ficará completamente destruído.
“Para se entrar na vida religiosa, ensinava ele de acordo com uma revelação, é preciso começar praticando esta palavra do Evangelho: ‘Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuis e dá-o aos pobres”’ (Mt 19,21).  
Por essa razão só admitia à Ordem aquele que houvesse renunciado à propriedade e nada absolutamente, retivesse para si.
Assim se conformava ao Evangelho e evitava o escândalo que provocaria o costume das bolsas particulares.
Um homem da Marca de Ancona pediu-lhe um dia admissão na Ordem. “Se quiseres partilhar a vida dos pobres de Cristo, disse-lhe Francisco, distribui entre os pobres do mundo tudo o que possuis”.
Ao ouvir isso, retirou-se ele, distribuiu seus bens à própria família e os pobres ficaram sem nada. Era um amor bem carnal que assim o fazia agir. Voltou ele e contou tudo ao santo, que o repreendeu duramente:
“Segue teu caminho, irmão Mosca. Nunca deixaste a tua casa ou a tua família. Repartiste os teus bens com a parentela e defraudaste os pobres. Não és, pois, digno de viver com os pobres evangélicos. Começaste por espírito carnal: para um edifício espiritual é um fundamento que não vale nada!”
Voltou o homem carnal para os seus, exigiu de volta os bens que havia deixado e que não quis distribuir aos pobres, abandonando assim imediatamente seus propósitos de virtude.

3. Em outra época, vivia a comunidade de Santa Maria da Porciúncula em tanta miséria que nada tinham para oferecer aos irmãos que chegavam de visita.
O vigário de Francisco aproximou-se dele e falou-lhe da penúria que sofriam e pediu-lhe permissão para reservar algo dos bens dos noviços que entravam na Ordem para poderem recorrer a esses bens quando parecesse indispensável. Francisco, que tinha a protecção da divina Sabedoria, replicou:
“Irmão caríssimo, Deus proibiu que atentássemos contra a Regra por qualquer motivo que seja. Se a situação é precária, prefiro que se suprimam os adornos do altar da gloriosa Virgem ao menor atentado contra o voto de pobreza e observância do Evangelho. Pois a bem-aventurada Virgem Maria ficará muito mais satisfeita se, despojando embora o seu altar, seguirmos perfeitamente os conselhos do santo Evangelho do que se, enfeitando o seu altar, transgredirmos os conselhos que seu Filho nos deixou e nós prometemos seguir”.

4. Andando o santo certo dia com um companheiro através da Apúlia, viu, ao sair da cidade de Bari, no caminho, uma bolsa que parecia repleta de dinheiro. O companheiro insistiu com o pobrezinho de Cristo que seria conveniente recolher do chão aquela bolsa e distribuir o dinheiro aos pobres. Francisco recusou ouvir esse pedido, suspeitando que naquela bolsa se escondia, sem dúvida, alguma cilada diabólica. Por isso julgava que o companheiro lhe estava aconselhando uma coisa não meritória, ou até mesmo pecaminosa, isto é, apoderar-se do alheio a pretexto de o dar aos pobres. Por esta recusa afastaram-se daquele lugar e apressaram o passo continuando a viagem começada.
Mas aquele irmão não ficou tranquilo, levado de uma falsa piedade, chegando mesmo ao extremo de repreender a Francisco e acusá-lo de não querer socorrer as necessidades dos pobres.
Importunado com tanta insistência, consentiu o santo em voltar ao local mencionado, não para satisfazer o irmão, mas para pôr à luz o ardil do demónio. Volta até a bolsa com o irmão e um jovem que passava; põe-se em oração e ordena a seu companheiro que pegue o dinheiro. O irmão tremia já de medo, pois começava a pressentir uma aparição do demónio; mas forçado pelo preceito da santa obediência, pôs de lado toda dúvida e estendeu a mão para pegar o dinheiro.
No mesmo instante, uma serpente descomunal saiu da bolsa e, ao desaparecer, no mesmo instante, levou-a consigo, ficando bem claro o ardil do demónio. Uma vez desmascarada a dita astúcia, disse Francisco a seu companheiro:
“O dinheiro, irmão caríssimo, para os servos de Deus é apenas o demónio e uma serpente venenosa!”

5. Depois disso, ao dirigir-se à cidade de Sena por motivo urgente, aconteceu ao santo um facto extraordinário.
Três senhoras pobres, perfeitamente semelhantes de estatura, idade e semblante, saíram-lhe ao encontro na grande planície que se estende entre Campiglia e San Quirico, as quais o saudaram de um modo completamente inusitado:
“Seja bem-vinda a Senhora Pobreza”.
A essas palavras, uma alegria inefável inundou o coração apaixonado daquele amante da Pobreza, pois se houvesse nele qualquer virtude a saudar, nenhuma outra melhor existiria.
Tendo elas desaparecido subitamente, os companheiros de Francisco, ao considerar nas três senhoras semelhança tão admirável e a surpresa de tal aparição, a forma que usaram de saudação e o repentino desaparecimento delas, julgaram com toda razão que nisso tudo se ocultava algum segredo misterioso relacionado com o santo fundador.
De facto, essas três senhoras pobres com traços tão semelhantes, saudação tão estranha e desaparecimento tão inesperado, podem perfeitamente simbolizar a perfeição evangélica, cuja tríplice beleza: pobreza, castidade e obediência, resplandecia igualmente no homem de Deus, que havia preferido orgulhar-se na pobreza.
Tinha como um privilégio e ora a chamava sua mãe, ora sua esposa, ora sua senhora. Na pobreza buscava Francisco superar a todos os outros, ele que aprendera da própria pobreza a se considerar inferior a todos. Se lhe acontecia encontrar alguma pessoa mais pobre que ele, ao menos na aparência, logo se censurava e se empenhava a ser também como ela, como se tivesse medo de ser vencido pelo outro na amorosa porfia da pobreza.
Certa ocasião, sucedeu-lhe encontrar um pobre. Vendo-lhe a nudez, compadeceu-se profundamente dele, e voltando-se ao companheiro, com voz lastimosa lhe disse:
“Que vergonha deve causar-nos, irmãos, a nudez deste mendigo!
Escolhemos a pobreza como nossa riqueza mais estimada, e eis que neste homem ela resplandece muito mais do que em nós”.


São Boaventura

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por AMA)

Pequena agenda do cristão

Sexta-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Contenção; alguma privação; ser humilde.


Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.

Lembrar-me:
Filiação divina.

Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





Quem ama a Deus dá-se a si mesmo


O tempo é o nosso tesouro, o "dinheiro" para comprarmos a eternidade. (Sulco 882)

Que pena viver tendo como ocupação matar o tempo, que é um tesouro de Deus! Não há desculpas para justificar essa actuação. Que ninguém diga: só tenho um talento, não posso ganhar nada. Também com um só talento podes agir de modo meritório. Que tristeza não tirar partido, autêntico rendimento de todas as faculdades, poucas ou muitas, que Deus concede ao homem para que se dedique a servir as almas e a sociedade!

Quando o cristão mata o seu tempo na Terra, coloca-se em perigo de matar o seu Céu, se, pelo seu egoísmo, se retrai, se esconde, se despreocupa. Quem ama a Deus, não entrega só o que tem, o que é, ao serviço de Deus: dá-se a si mesmo. Não vê – em perspectiva rasteira – o seu eu na saúde, no nome, na carreira. (Amigos de Deus, 46)