07/03/2018

Não cries necessidades

Não esqueças: tem mais aquele que precisa de menos. – Não cries necessidades. (Caminho, 630)


Há muitos anos – mais de vinte e cinco – eu costumava passar por um refeitório de caridade, para mendigos que não comiam em cada dia outro alimento senão o que ali lhes davam. Tratava-se de um local grande, entregue aos cuidados de um grupo de senhoras bondosas. Depois da primeira distribuição, acudiam outros mendigos, para recolher as sobras. Entre os deste segundo grupo houve um que me chamou a atenção: era proprietário de uma colher de lata! Tirava-a cuidadosamente do bolso, com avareza, olhava-a com satisfação e, quando acabava de saborear a sua ração, voltava a olhar para a colher com uns olhos que gritavam: é minha! Dava-lhe duas lambedelas para a limpar e guardava-a de novo, satisfeito, nas pregas dos seus andrajos. Efectiva mente era sua! Um pobre miserável que, entre aquela gente, companheira de desventura, se considerava rico.


Por essa altura, conhecia também uma senhora com título nobiliárquico, Grande de Espanha. Isto não conta nada diante de Deus: somos todos iguais, todos filhos de Adão e Eva, criaturas débeis, com virtudes e com defeitos, capazes dos piores crimes, se o senhor nos abandona. Desde que Cristo nos redimiu, não há diferença de raça, nem de língua, nem de cor, nem de estirpe, nem de riquezas... Somos todos filhos de Deus. Essa pessoa de que vos falo agora residia numa casa solarenga, mas não gastava consigo mesma nem duas pesetas por dia. Por outro lado, pagava muito bem aos seus empregados e o resto destinava-o a ajudar os necessitados, passando ela própria privações de todo o género. A esta mulher não lhe faltavam muitos desses bens que tantos ambicionam, mas ela era pessoalmente pobre, muito mortificada, completamente desprendida de tudo. Compreendestes bem? Aliás, basta escutar as palavras do Senhor: bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus.



Se desejas alcançar esse espírito, aconselho-te a que sejas sóbrio contigo e muito generoso com os outros. Evita os gastos supérfluos por luxo, por capricho, por vaidade, por comodidade...; não cries necessidades. Numa palavra, aprende com S. Paulo a viver na pobreza e a viver na abundância, a ter fartura e a passar fome, a ter de sobra e a padecer necessidade. Tudo posso naquele que me conforta. E, como o Apóstolo, também sairemos vencedores da luta espiritual, se mantivermos o coração desapegado, livre de ataduras. (Amigos de Deus, nn. 123–124)

Temas para meditar e reflectir

Eucaristia


Quando ouvia dizer a algumas pessoas que quereriam ser do tempo em que Cristo, nosso bem, andava pelo mundo, ria-me para comigo, parecendo-me que tendo-O tão verdadeiramente no Santíssimo Sacramento como agora, que mais queriam.


(SANTA TERESA DE JESUS, Caminho de perfeição, 34, 6)





Evangelho e comentário

Tempo de Quaresma

Evangelho: Mt 5, 17-19

17 «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas levá-los à perfeição. 18 Porque em verdade vos digo: Até que passem o céu e a terra, não passará um só jota ou um só ápice da Lei, sem que tudo se cumpra. 19 Portanto, se alguém violar um destes preceitos mais pequenos, e ensinar assim aos homens, será o menor no Reino do Céu. Mas aquele que os praticar e ensinar, esse será grande no Reino do Céu.

Comentários:

 Deve ser terrível a responsabilidade de alguém que propositadamente ensina, propaga o erro, a falsa doutrina

Quanto mais grave, quanto maior a inocência e fragilidade de quem é objecto de tal procedimento, mais “apertadas” serão as contas que terá de prestar.


(AMA, comentário sobre Mt 5, 17-19, HGSA, 23.02.2017)


Quaresma




Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

CAPÍTULO VI

«TU AMAS-ME?»

O AMOR POR JESUS


2.Que significa amar Jesus Cristo

…/3

Mas vejamos como é que o dogma da única pessoa de Cristo pode dar uma resposta adequada a todos estes problemas postos no passado pela mística da essência divina e, nos nossos dias, pela difusão das formas da espiritualidade oriental.
Noutras palavras, vejamos como se pode dar uma justificação teológica à afirmação teológica segundo a qual absolutamente nada se deve antepor ao amor de Cristo, nem no âmbito humano, nem no âmbito divino.
Em quem, de facto, termina o amor?
Quem é o seu objecto?
Vimos mais atrás que o amor de concupiscência, o eros, pode terminar também nas coisas, ao passo que o amor de amizade, ou ágape, que é o do nosso caso, só pode terminar na pessoa, enquanto pessoa.
Mas quem é a pessoa de Cristo?
É Verdade que na linha das cristologias que falam de Cristo como de uma “pessoa humana”, tudo é diferente,
Segundo elas, não só é possível, mas absolutamente obrigatório transcender o próprio Cristo, se não se quiser permanecer no âmbito das coisas criadas.
Porém, se com a fé da Igreja acreditam que Cristo é “uma pessoa divina”, a pessoa do Filho de Deus, então o amor de Cristo é o próprio amor de Deus.
Sem diferença qualitativa.
Aliás é essa a forma que o amor de Deus tomou para com o homem em consequência da Encarnação.
Aquele que disse: «Quem Me odeia, odeia também a Meu Pai» [i], pode dizer também e de igual modo: «Quem Me ama, ama também o Meu Pai».
Em Cristo, nós alcançamos Deus directamente, sem intermediários.
Eu disse mais atrás que amar Jesus significa essencialmente fazer a vontade do Pai; vemos todavia que isto, em vez de criar diferença e inferioridade em relação ao Pai, cria igualdade.
O Filho é igual ao Pai, precisamente por causa da Sua dependência absoluta do Pai.

Se o significado perene da definição de Niceia é que, em todas as épocas e culturas, Cristo deve ser proclamado “Deus”, não numa acepção qualquer derivada ou secundária, mas sim na acepção mais forte que a palavra Deus tem em tais culturas, então também é verdade que Cristo não deve ser amado com um amor secundário ou derivado, mas como a Deus.
Noutras palavras, quem nenhuma cultura se pode conceber um ideal mais alto do que amar Jesus Cristo.

Todavia, é bem verdade que Jesus é também “homem”, e, enquanto tal, é um nosso “próximo”, um nosso “irmão” como Ele Se chama a Si próprio [ii],, ou melhor, o “primogénito entre muitos irmãos” [iii].
Portanto, Ele deve ser amado também com outro amor.
Ele é o vértice não somente do primeiro, mas também do segundo mandamento.
Ele é a síntese dos dois maiores mandamentos que n’Ele se tornam em certo sentido num único mandamento.
Ele é, como dizia S. Leão Magno, tudo pelo lado de Deus e tudo pelo nosso lado.
De resto, Ele próprio identificou-Se com o nosso próximo, dizendo que aquilo que se fizer ao mais pequena dos irmãos, será como fazê-lo a Ele mesmo [iv].

Houve alguns grandes pensadores e teólogos que, sem situarem o problema nestes mesmos nossos termos, obtiveram, porém, perfeitamente e exprimiram esta exigência central da fé cristã.
Um deles foi S. Boaventura.
Ele aponta algumas diferenças entre Cristo e Deus naquilo que diz respeito ao grande mandamento do amor.
Por vezes o seu objecto é “Deus”, outras vezes, é “o Senhor nosso Jesus Cristo”.
«Deve-se amar o Senhor Deus Jesus Cristo com todo o coração e toda a alma [v], escreveu ele comentando esta mandamento.
O amor de Cristo é para ele a forma definitiva e conveniente que para nós tomou o amor de Deus:
«Por isso me fiz homem visível – faz ele dizer ao Verbo de Deus – a fim de que, podendo veres-me tu, Eu pudesse ser amado por ti, já que Eu não podia ser amado por ti se não Me visses e Eu não fosse visível na Minha divindade.
Dá, portanto, o valor devido à Minha Encarnação e paixão, tu por quem Eu me fiz homem e padeci.
Eu dei-Me a ti, dá-te tu a Mim» [vi].

Ainda mais explícita e corajosa é a posição que toma Cabasillas, representando um rico filão do pensamento oriental.
Se eu cito tão frequentemente este autor da Idade Média bizantina e tão pouco conhecido, é porque considero que na sua Vida em Cristo representa em absoluto uma das obras-primas da literatura teológico-espiritual do cristianismo.
Toda ela está baseada sobre esta instituição de fundo tao simples e grandiosa. O homem, criado em Cristo e para Cristo, não encontra a sua meta e o seu repouso a não ser no amor de Cristo.
«Os olhos – escreve ele – foram criados para a luz, os ouvidos para os sons, e todas coisas para aquilo que lhes compete.
Mas o desejo da alma tende unicamente para Cristo.
É n’Ele que reside o seu repouso, porque só Ele é o bem, a verdade, e tudo aquilo que inspira amor.
O homem tende para Cristo com a sua natureza, a sua vontade, os seus pensamentos, não somente pela divindade de Cristo que é o fim de todas as coisas, mas também pela Sua humanidade:
O amor do homem encontra repouso em Cristo, Cristo é a delícia dos seus pensamentos» [vii].



(cont)
rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Jo 15,23
[ii] Cfr. Mt 28,10
[iii] Rm8,29
[iv] Cfr.25,35ssss
[v] S. Boaventura, De perf. Vitae ad soror, 7
[vi] S. Boaventura, Vitis mystica, 24
[vii] N. Cabasillas, Vida em Cristo, II, 9; VI, 10

Devoción a la Virgen



Un oficial del Ejército de EEUU explica cómo descubrió la verdadera masculinidad a través de la Virgen María

Pequena agenda do cristão

Quarta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?







06/03/2018

Não ponhas o coração em nada caduco

Não ponhas o coração em nada caduco: imita Cristo, que se fez pobre por nós e não tinha onde reclinar a cabeça. Pede-lhe que te conceda, no meio do mundo, um desprendimento efectivo, sem atenuantes. (Forja, 523)


Somos homens da rua, cristãos correntes, metidos na corrente circulatória da sociedade e o Senhor quer-nos santos, apostólicos, precisamente no nosso trabalho profissional, isto é, santificando-nos nesse trabalho, santificando esse trabalho e ajudando os outros a santificarem-se com esse trabalho. Convencei-vos de que Deus vos espera nesse ambiente, com solicitude de Pai, de Amigo. Pensai que com a vossa actividade profissional realizada com responsabilidade, além de vos sustentardes economicamente, prestais um serviço directíssimo ao desenvolvimento da sociedade, aliviais as cargas dos outros e ajudais a manter muitas obras assistenciais – a nível local e universal – em prol dos indivíduos e dos povos mais desfavorecidos.



Ao comportarmo-nos com normalidade – como os nossos semelhantes – e com sentido sobrenatural, não fazemos mais que seguir o exemplo de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Reparai que toda a sua vida está cheia de naturalidade. Passa trinta anos oculto, sem chamar a atenção, como qualquer outro trabalhador e conhecem-no na sua aldeia como o filho do carpinteiro. Ao longo da sua vida pública, também não se nota nada que destoe, que pareça estranho ou excêntrico. Rodeava-se de amigos, como qualquer dos seus concidadãos, e no seu porte não se diferenciava deles. De tal maneira que Judas, para o denunciar, precisa de combinar um sinal: aquele a quem eu beijar, é esse. Não havia em Jesus nenhum indício extravagante. A mim, emociona-me esta norma de conduta do nosso Mestre, que passa como mais um entre os homens. (Amigos de Deus, nn. 120–121)

Temas para reflectir e meditar

Caridade cristã


A caridade cristã não consiste no amor a uma humanidade abstracta ou genérica, mas a uma humanidade concreta, formada por pessoas singulares, uma a uma, que devem ser queridas uma a uma.


(JAVIER ECHEVARRÍA, Itinerários de Vida Cristiana, Planeta, 2001, pg. 205, trad ama)





Evangelho e comentário

Tempo de Quaresma

Evangelho: Mt 18, 21-35

21 Então, Pedro aproximou-se e perguntou-lhe: «Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?» 22 Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23 Por isso, o Reino do Céu é comparável a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. 24 Logo ao princípio, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. 25 Não tendo com que pagar, o senhor ordenou que fosse vendido com a mulher, os filhos e todos os seus bens, a fim de pagar a dívida. 26 O servo lançou-se, então, aos seus pés, dizendo: ‘Concede-me um prazo e tudo te pagarei.’ 27 Levado pela compaixão, o senhor daquele servo mandou-o em liberdade e perdoou-lhe a dívida. 28 Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, apertou-lhe o pescoço e sufocava-o, dizendo: ‘Paga o que me deves!’ 29 O seu companheiro caiu a seus pés, suplicando: ‘Concede-me um prazo que eu te pagarei.’ 30 Mas ele não concordou e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto lhe devia. 31 Ao verem o que tinha acontecido, os outros companheiros, contristados, foram contá-lo ao seu senhor. 32 O senhor mandou-o, então, chamar e disse-lhe: ‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque assim mo suplicaste; 33 não devias também ter piedade do teu companheiro, como eu tive de ti?’ 34E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos até que pagasse tudo o que devia. 35 Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar ao seu irmão do íntimo do coração.»

Comentários:

Choca-nos a crueza dos factos que S. Mateus relata neste trecho do evangelho que escreveu.


Mas, infelizmente, esse “choque” advém mais da constatação da actualidade do que ali se relata.


Custa-nos muito perdoar e, sobretudo, esquecer.


“Eu perdoar… perdoo, mas… esquecer não esqueço”!


Quantas vezes se ouve esta sentença terrível?


Alguém que guarda agravos, ofensas, dívidas com cuidadosa contabilidade como um acervo importantíssimo a que dão o nome de “experiência”.


E não interessa se é muito ou de escasso valor, importante ou sem grande relevância, toma-se nota, guarda-se e retém-se no coração.


E… a misericórdia? Onde está?


Bom… a misericórdia… “quem mas faz paga-mas”!


Não há outra palavra para descrever estas pessoas: têm coração de pedra e intransigente comportamento.


Se, ao menos, lhes ocorresse que o Senhor poderia usar o mesmo critério para com eles?



(AMA, comentário sobre Mt 18, 21-35, 06.11.2017)





Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

CAPÍTULO VI

«TU AMAS-ME?»

O AMOR POR JESUS

1.   Porquê amar Jesus Cristo?

…2

Não “são a carne e o sangue”, ou seja, não é a inteligência e a pesquisa humana que revelam Jesus; quem O revela é o «Pai que está nos céus» [i] e o Pai não o revela aos curiosos, mas aos que amam; não o revela nem aos sábios nem aos inteligentes, mas aos mais pequenos [ii].

Finalmente, deve-se amar Jesus, porque só assim é possível cumprir a Sua palavra e pôr em práctica os Seus mandamentos.

«Se Me amais – disse Ele mesmo – cumprireis os Meus mandamentos; quem não Me ama não guarda as Minhas palavras» [iii] .
Isto quer dizer que não é possível ser cristão a sério, isto é, seguir concretamente os ditames e as exigências do Evangelho, sem um verdadeiro amor por Jesus Cristo.
Se, por hipótese, alguém conseguisse fazê-lo, seria igualmente inútil; sem o amor de nada lhe serviria.
Mesmo que alguém entregasse o corpo para ser queimado, mas não tivesse caridade, de nada lhe serviria [iv].
Sem o amor, falta a força para agir e obedecer.
Pelo contrário, a quem ama, lhe parece impossível ou muito difícil.

2.Que significa amar Jesus Cristo

A pergunta ”que significa amar Jesus Cristo?” pode ter um sentido muito prático: saber o que comporta amar Jesus Cristo e em que consiste o amor por Ele.
Neste caso, a resposta é muito simples e é-nos dada pelo próprio Jesus no Evangelho.
Não consiste em dizer: «Senhor, Senhor[v], mas em fazer a vontade do Pai e cumprir a Sua palavra [vi].
Quando se trata de uma criatura – o cônjuge, os filhos, os pais, o amigo – “querer bem” significa procurar o bem da pessoa amada, desejar e diligenciar para ela coisas boas…
Mas que bem podemos nós desejar a Jesus ressuscitado que Ele não possua já?
Querer bem, no caso de Cristo, significa algo de diferente.
O “bem” de Jesus – ou melhor, o Seu alimento -é a vontade do Pai.
Fazê-la cada vez mais plenamente, cada vez mais alegremente.
«Quem cumpre a vontade de Deus – diz Jesus – esse é Meu irmão, Minha irmã e Minha Mãe» [vii].
Todas as qualidades mais belas do amor por Ele estão resumidas naquele acto que é o da fazer a vontade do Pai.

O amor por Jesus não consiste, poderemos então dizer, nas palavras ou em bons sentimentos, mas sim em actos; fazer como Ele fez, que não nos amou somente com palavras, mas com actos!
Humilhou-Se por nós e, de rico que era, fez-SE Pobre.
“Não te amei por brincadeira” ouviu um dia dizer a Jesus a bem-aventurada Ângela de Foligno; quando escutou aquelas palavras, ela sentiu-se morrer de dor, ao ver como, em comparação, o seu amor por Jesus não passava precisamente de uma brincadeira [viii].

Mas eu quero tomar a pergunta “que significa amar Jesus Cristo?” num ponto de vista menos habitual.
São dois os grandes mandamentos acerca do amor.
O primeiro é: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma a com toda a tua mente»;
O segundo é: «amarás o próximo como a ti mesmo» [ix].
A qual dos dois mandamentos pertence o amor, de que estamos falando, pela pessoa de Cristo?
E ainda: Cristo é o objecto supremo e último do amor humano, ou o seu termo?

São perguntas de extrema importância para a fé cristã e para a própria vida de oração dos crentes, e é preciso dizer que, sobre elas, há uma grande incerteza e ambiguidade, pelo menos a nível prático.
Existem tratados sobre o amor de Deus (De diligendo Deo), nos quais se fala exaustivamente do amor de Deus, sem apontar, todavia, de que modo se insere nele o amor por Cristo: se se trata da mesma coisa ou se, pelo contrário, o amor de Deus, sem outros acréscimos, significa um grau superior, um objecto mais alto que o amor.
Todos, naturalmente, estão convencidos de que o problema do amor a Deus por parte do homem, não se põe, depois de Cristo, do mesmo modo que se punha antes de Cristo, ou que se põe fora do cristianismo.
A Encarnação do Verbo não trouxe ao mundo, acerca do amor de Deus somente um motivo mais para amar a Deus, ou somente um exemplo a mais, o mais alto deste amor.
Trouxe uma novidade bem maior: revelou um rosto novo de Deus e, portanto, uma maneira nova de O amar e uma nova “forma” do amor de Deus.
Mas nem sempre se extraem desse facto todas as consequências ou, pelo menos, nem sempre elas se tornaram explícitas.

É certo que desde o tempo da regra de S. Bento se repete o provérbio:
«Não antepor absolutamente nada ao amor por Cristo» [x].
A Imitação de Cristo tem um belíssimo capítulo intitulado «Amar Jesus Cristo todas as coisas» [xi], e Santo Afonso Maria de Ligório escreveu um opúsculo muito popular intitulado A prática de amar Jesus Cristo.
Mas em todos estes casos, a comparação é, por assim dizer, de Cristo para baixo, isto é, entre Ele e todas as outras criaturas.
O sentido é não se deve antepor ao amor de Cristo qualquer criatura humana, nem sequer nós mesmos.
Pelo contrário, fica em aberto o problema senão se deve antepor ao amor por Cristo alguma coisa da esfera divina.

Trata-se de um problema real que se põe por causa de alguns precedentes históricos.
Orígenes, de facto influenciado pela visão platónica do mundo, - toda impregnada pela tendência em superar aquilo que se refere a este mundo visível – estabeleceu um princípio que teve um grande peso no desenvolvimento da espiritualidade cristã.
Ele fez entrever uma meta para além do amor de Cristo enquanto Verbo Encarnado; põe mesmo em perspectiva uma fase mais perfeita do amor, que é aquela que se contempla e se ama o Verbo exclusivamente na Sua forma divina, tal como Ele era antes de ter encarnado, ultrapassando, portanto, a Sua forma humana.
Por outras palavras, ama-se propriamente o Verbo de Deus, não a Jesus Cristo.
A Encarnação era necessária, segundo Orígenes, para atrair as almas, do mesmo modo que é necessário o derramamento de um perfume, fora do seu vaso, a fim de que possa ser respirado.
Uma vez atraídas pelo perfume divino, as almas correm para chegarem a alcançar não já um simples perfume divino, mas a sua própria substância [xii].


(cont)
rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Cfr.Mt 16,17
[ii] Cfr. Mt 25,1
[iii] Jo 14, 15-24
[iv] Cfr. 1Cor 13,3
[v] Cf Mt 7,21
[vi] Cfr. 1Cor 13,3
[vii] Mc3,3-35
[viii] El Libro della B. Angela da Foligno, Quarachi, Grottaferrata, 1985, p,612
[ix] Mt 22, 37-39
[x] Regra de S. Bento, c. IV; cfr. S. Cipriano, De orat, domin. C. 15.
[xi] Imitação de Cristo, 11, 7
[xii] Orígenes, «Comentário ao Cântico dos Cânticos, 1,3-4 (PG 13,93)

Morte e vida

À espera da morte ou a lutar pela vida eterna?

02 mar, 2018

A existência faz-se passo a passo, degrau a degrau. Por vezes, chegamos a pontos onde não há mais caminho. Aí, ou voltamos para trás ou saltamos para diante. Sem certezas, pois que umas vezes o certo é recuar e outras é arriscar.
A existência é muito maior e mais rica do que julgamos. No entanto, há quem considere que não há mais mundo para além daquele que conhece. Como se tudo aquilo que não entendemos não pudesse existir!
As razões da vida não têm que ser compreendidas dentro os limites da nossa inteligência.
O que são as nossas certezas absolutas senão dúvidas mascaradas de orgulho?
O que são as nossas dúvidas senão sinais de certezas maiores que não conseguimos compreender?
Enquanto uns preferem admirar o céu, outros vivem de olhos no chão. Os primeiros voam, os segundos caíram.
Nesta tempestade que é a vida, muitos são os que preferem ficar à margem em vez de irem para a frente da batalha e assumir um papel ativo. Os poucos que o fazem, vivem. Qualquer que seja o desfecho da sua luta, vencem.
Perante as adversidades da vida, qual é o teu lugar? A margem ou a frente de batalha?
Uma vida com sentido é prova de que, apesar de tudo, o infinito se abre ao finito quando o divino se faz humano.
No meio da desordem e da injustiça deste mundo, o céu rasga-se para acolher e fazer justiça a cada um dos que se recusaram a acreditar nas certezas que não vão para além desta vida.
São muitos os momentos em que devemos fazer o que não compreendemos, mas que sentimos, sem saber como, que é o certo.
Cada um de nós decide quem é. As nossas decisões de cada dia esculpem e definem a nossa alma.
A existência faz-se passo a passo, degrau a degrau. Por vezes, chegamos a pontos onde não há mais caminho. Aí, ou voltamos para trás ou saltamos para diante. Sem certezas, pois que umas vezes o certo é recuar e outras é arriscar.
A vida não se esgota aqui.
Neste mundo, só o que decidimos para nós é definitivo, tudo o resto... passa.

(Renascença - José Nunes Martins)