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07/03/2018

Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

CAPÍTULO VI

«TU AMAS-ME?»

O AMOR POR JESUS


2.Que significa amar Jesus Cristo

…/3

Mas vejamos como é que o dogma da única pessoa de Cristo pode dar uma resposta adequada a todos estes problemas postos no passado pela mística da essência divina e, nos nossos dias, pela difusão das formas da espiritualidade oriental.
Noutras palavras, vejamos como se pode dar uma justificação teológica à afirmação teológica segundo a qual absolutamente nada se deve antepor ao amor de Cristo, nem no âmbito humano, nem no âmbito divino.
Em quem, de facto, termina o amor?
Quem é o seu objecto?
Vimos mais atrás que o amor de concupiscência, o eros, pode terminar também nas coisas, ao passo que o amor de amizade, ou ágape, que é o do nosso caso, só pode terminar na pessoa, enquanto pessoa.
Mas quem é a pessoa de Cristo?
É Verdade que na linha das cristologias que falam de Cristo como de uma “pessoa humana”, tudo é diferente,
Segundo elas, não só é possível, mas absolutamente obrigatório transcender o próprio Cristo, se não se quiser permanecer no âmbito das coisas criadas.
Porém, se com a fé da Igreja acreditam que Cristo é “uma pessoa divina”, a pessoa do Filho de Deus, então o amor de Cristo é o próprio amor de Deus.
Sem diferença qualitativa.
Aliás é essa a forma que o amor de Deus tomou para com o homem em consequência da Encarnação.
Aquele que disse: «Quem Me odeia, odeia também a Meu Pai» [i], pode dizer também e de igual modo: «Quem Me ama, ama também o Meu Pai».
Em Cristo, nós alcançamos Deus directamente, sem intermediários.
Eu disse mais atrás que amar Jesus significa essencialmente fazer a vontade do Pai; vemos todavia que isto, em vez de criar diferença e inferioridade em relação ao Pai, cria igualdade.
O Filho é igual ao Pai, precisamente por causa da Sua dependência absoluta do Pai.

Se o significado perene da definição de Niceia é que, em todas as épocas e culturas, Cristo deve ser proclamado “Deus”, não numa acepção qualquer derivada ou secundária, mas sim na acepção mais forte que a palavra Deus tem em tais culturas, então também é verdade que Cristo não deve ser amado com um amor secundário ou derivado, mas como a Deus.
Noutras palavras, quem nenhuma cultura se pode conceber um ideal mais alto do que amar Jesus Cristo.

Todavia, é bem verdade que Jesus é também “homem”, e, enquanto tal, é um nosso “próximo”, um nosso “irmão” como Ele Se chama a Si próprio [ii],, ou melhor, o “primogénito entre muitos irmãos” [iii].
Portanto, Ele deve ser amado também com outro amor.
Ele é o vértice não somente do primeiro, mas também do segundo mandamento.
Ele é a síntese dos dois maiores mandamentos que n’Ele se tornam em certo sentido num único mandamento.
Ele é, como dizia S. Leão Magno, tudo pelo lado de Deus e tudo pelo nosso lado.
De resto, Ele próprio identificou-Se com o nosso próximo, dizendo que aquilo que se fizer ao mais pequena dos irmãos, será como fazê-lo a Ele mesmo [iv].

Houve alguns grandes pensadores e teólogos que, sem situarem o problema nestes mesmos nossos termos, obtiveram, porém, perfeitamente e exprimiram esta exigência central da fé cristã.
Um deles foi S. Boaventura.
Ele aponta algumas diferenças entre Cristo e Deus naquilo que diz respeito ao grande mandamento do amor.
Por vezes o seu objecto é “Deus”, outras vezes, é “o Senhor nosso Jesus Cristo”.
«Deve-se amar o Senhor Deus Jesus Cristo com todo o coração e toda a alma [v], escreveu ele comentando esta mandamento.
O amor de Cristo é para ele a forma definitiva e conveniente que para nós tomou o amor de Deus:
«Por isso me fiz homem visível – faz ele dizer ao Verbo de Deus – a fim de que, podendo veres-me tu, Eu pudesse ser amado por ti, já que Eu não podia ser amado por ti se não Me visses e Eu não fosse visível na Minha divindade.
Dá, portanto, o valor devido à Minha Encarnação e paixão, tu por quem Eu me fiz homem e padeci.
Eu dei-Me a ti, dá-te tu a Mim» [vi].

Ainda mais explícita e corajosa é a posição que toma Cabasillas, representando um rico filão do pensamento oriental.
Se eu cito tão frequentemente este autor da Idade Média bizantina e tão pouco conhecido, é porque considero que na sua Vida em Cristo representa em absoluto uma das obras-primas da literatura teológico-espiritual do cristianismo.
Toda ela está baseada sobre esta instituição de fundo tao simples e grandiosa. O homem, criado em Cristo e para Cristo, não encontra a sua meta e o seu repouso a não ser no amor de Cristo.
«Os olhos – escreve ele – foram criados para a luz, os ouvidos para os sons, e todas coisas para aquilo que lhes compete.
Mas o desejo da alma tende unicamente para Cristo.
É n’Ele que reside o seu repouso, porque só Ele é o bem, a verdade, e tudo aquilo que inspira amor.
O homem tende para Cristo com a sua natureza, a sua vontade, os seus pensamentos, não somente pela divindade de Cristo que é o fim de todas as coisas, mas também pela Sua humanidade:
O amor do homem encontra repouso em Cristo, Cristo é a delícia dos seus pensamentos» [vii].



(cont)
rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Jo 15,23
[ii] Cfr. Mt 28,10
[iii] Rm8,29
[iv] Cfr.25,35ssss
[v] S. Boaventura, De perf. Vitae ad soror, 7
[vi] S. Boaventura, Vitis mystica, 24
[vii] N. Cabasillas, Vida em Cristo, II, 9; VI, 10

05/03/2018

Leitura espiirual

Jesus Cristo o Santo de Deus

CAPÍTULO VI

«TU AMAS-ME?»

O AMOR POR JESUS


2.Que significa amar Jesus Cristo

…/2

Esta ideia de que algo está acima do amor por Cristo apareceu, por vezes, no decorrer dos séculos, sob uma forma de uma “mística da essência divina”.

É colocada nela como vértice absoluto de amor divino, a contemplação e a união da própria essência simplicíssima de Deus, sem forma e sem nome, que se desenvolvendo âmago da alma, na ausência total de todas as imagens sensíveis, incluindo a imagem de Cristo e da Sua paixão.
O filósofo mestre Eckart fala de uma imersão da alma “no abismo indeterminado da divindade”, dando a impressão de que considera o “fundo da alma”, mais que a pessoa de Cristo, como o lugar e o meio para encontrar a Deus sem intermediários.
«O poder da alma, atinge Deus no Seu ser essencial, despojado de tudo» [i].

Santa Teresa de Ávila sentiu a necessidade de reagir a esta tendência presente também no seu tempo, em alguns ambientes espirituais, e fê-lo com esta página famosa em que ela afirma com grande vigor que não existe fase alguma da vida espiritual, por mais elevada que seja, na qual a pessoa se possa ou, pior ainda, se deva prescindir da humanidade de Cristo, para fixar-se directamente na essência divina [ii].
A santa explica ainda como um pouco de instrução e de contemplação, a tinham distraído, durante algum tempo, da humanidade do Salvador, mas, como em contrapartida, o progresso na instrução ena contemplação a tinham reconduzido definitivamente à humanidade de Cristo.

É significativo o facto que, na história da espiritualidade cristã, a tendência que defendeu uma união directa com a essência divina foi sempre olhada com desconfiança (como no caso da mística especulativa renana do séc. XV e, mais tarde, dos assim chamados “iluminados” e, sobretudo, o facto de ela não ter produzido nenhum santo reconhecido pela Igreja, embora tenha deixado obras de alto valor teórico e religioso.

O problema que aflorei até aqui voltou a ser actual nos nossos dias, num contexto diferente, por causa da difusão, entre os cristãos, de formas de oração e técnicas de espiritualidade de procedência oriental.
Sob o ponto de vista da fé cristã, elas não são em si mesmas prácticas más.
De certo modo, pertencem, também elas, àquela vasta “preparação evangélica”, de que faziam parte, segundo alguns padres, certas instituições religiosas dos gregos.
O mártir S. Justino dizia que tudo aquilo que fora dito ou inventado como verdadeiro e bom por alguém se deveria atribuir aos cristãos, visto que eles adoram o Verbo total; essas “sementes de verdade” não eram mais que manifestações suas, parciais e passageiras [iii].
A Igreja primitiva seguiu de facto este princípio, por exemplo, no seu relacionamento com as religiões e cultos daquela época, também, eles, em geral, de origem asiática,
Na verdade, embora rejeitasse todo o conteúdo mitológico e idolátrico implicado em tais cultos, a Igreja primitiva não hesitou em se apropriar da linguagem e até de alguns ritos e símbolos dos cultos mistéricos quando apresentava os mistérios cristãos.
Embora não se deva, de facto, exagerar a influência dos cultos pagãos sobre a liturgia cristã, também não a podemos negar de todo.

 Justamente por isso, num recente documento do magistério dedicado ao problema destas formas de espiritualidade oriental, afirma que «não se devem menosprezar excepcionalmente estas indicações como não cristãs» [iv].
O mesmo documento do magistério tem razão, porém, quando alerta os crentes sobres os perigos de se introduzir, também, juntamente com as técnicas de oração e meditação, outros assuntos alheios à fé cristã.
O ponto mais delicado é precisamente aquele que diz respeito a lugar de Jesus Cristo, homem-Deus.
Na lógica interna do budismo e do induísmo, nas quais se inspiram geralmente estas técnicas, existe a necessidade de superar tudo aquilo que é particular, sensível e histórico, para se poder mergulhar do Tudo ou Nada divino.
Elas podem, por isso, induzir a que se limite tacitamente a mediação de Jesus, já que para nós, cristãos, essa é a única possibilidade oferecida aos homens para atingirem a eternidade e o absoluto.
Portanto, não é possível deixar Cristo de lado para nos aproximarmos de Deus, pois somente podemos fazer essa aproximação «por meio d’Ele» [v].
Ele é o “caminho e a verdade”, isto é, não é somente o meio para se chegar, mas também a própria meta.

Aquelas formas de espiritualidade são por isso positivas na via que nos leva a Cristo, mas mudam totalmente e tornam-se negativas, no momento em que, em vez de serem colocadas “antes”, são colocadas “depois”, ou para “além” de Cristo.
Nesse caso, são uma tentativa para ultrapassar a fé, tentativa essa que já o evangelista S. João censurava nos antigos gnósticos [vi].
São o resvalar da fé para se confiar nas obras.
São o contentar-se novamente com os “elementos do mundo”, menosprezando-se o facto de que é somente em Cristo que está a “plenitude da divindade”.
É repetir o erro que o Apóstolo censurava aos Colossenses [vii].

Porém, neste recurso dos cristãos a formas de espiritualidade oriental, talvez não baste fazer somente crítica; é preciso fazer também uma autocrítica.
Devemos perguntar-nos, noutras palavras, porque que é que isso acontece e tantos cristãos à procura de uma experiência pessoal e vivida de Deus são levados a procura-la fora das nossas estruturas e comunidades.
Se se assiste à procura do Espírito sem Cristo, é talvez porque foi apresentado um Cristo e um cristianismo sem o Espírito.


(cont)
rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Eckart, Deutsche Predigten und Tratakt
[ii] Stª Teresa de Ávila, Vida, 22, Iss
[iii] Cfr. S. Justino, III Apologia, 10,13
[iv] Congregação para a doutrina da Fé. «Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre alguns aspectos da meditação cristã», V, 16.
[v] Cfr. Jo 14,6
[vi] Cfr. 2Jo 9
[vii] Cfr. C1 2,8-9