06/01/2018

Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?

A humildade é outro bom caminho para chegar à paz interior. – Foi Ele que o disse: "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração... e encontrareis paz para as vossas almas". (Caminho, 607)

Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Também eu, instado por esta pergunta, contemplo agora Jesus, deitado numa manjedoura, num lugar que só é próprio para os animais. Onde está, Senhor, a tua realeza: o diadema, a espada, o ceptro? Pertencem-lhe e não os quer; reina envolto em panos. É um rei inerme, que se nos apresenta indefeso; é uma criança. Como não havemos de recordar aquelas palavras do Apóstolo: aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo.

Nosso Senhor encarnou para nos manifestar a vontade do Pai. E começa a instruir-nos estando ainda no berço. Jesus Cristo procura-nos – com uma vocação, que é vocação para a santidade –, a fim de consumarmos com Ele a Redenção. Considerai o seu primeiro ensinamento: temos de co-redimir à custa de triunfar, não sobre o próximo, mas sobre nós mesmos. Tal como Cristo, precisamos de nos aniquilar, de sentir-nos servidores dos outros para os conduzir a Deus.

Onde está o nosso Rei? Não será que Jesus quer reinar, antes de mais, no coração, no teu coração? Por isso se fez menino: quem é capaz de ter o coração fechado para uma criança? Onde está o nosso Rei? Onde está o Cristo que o Espírito Santo procura formar na nossa alma? Cristo não pode estar na soberba, que nos separa de Deus, nem na falta de caridade, que nos isola dos homens. Aí não podemos encontrar Cristo, mas apenas a solidão.

No dia da Epifania, prostrados aos pés de Jesus Menino, diante de um Rei que não ostenta sinais externos de realeza, podeis dizer-lhe: Senhor, expulsa a soberba da minha vida, subjuga o meu amor-próprio, esta minha vontade de afirmação pessoal e de imposição da minha vontade aos outros. Faz com que o fundamento da minha personalidade seja a identificação contigo. (Cristo que passa, 31)


Temas para reflectir e meditar

Apostolado


O verdadeiramente importante é tratar as almas, uma a uma, para aproximá-las de Cristo.


(BEATO ÁLVARO DEL PORTILLO, Carta, 1985.12.25 nr. 9)



Evangelho e comentário

Tempo de Natal


Evangelho: Mc 1, 7-11 

7 E pregava assim: «Depois de mim vai chegar outro que é mais forte do que eu, diante do qual não sou digno de me inclinar para lhe desatar as correias das sandálias. 8 Eu baptizei-vos em água, mas Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo.» 9 Por aqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi baptizado por João no Jordão. 10 Quando saía da água, viu serem rasgados os céus e o Espírito descer sobre Ele como uma pomba. 11 E do céu veio uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus todo o meu agrado.»

Comentário:

Ao querer ser baptizado, Jesus Cristo segue escrupulosamente as Escrituras.

É o que fará sempre ao longo da Sua vida na terra.

Poderíamos dizer que foi um acto desnecessário porque Deus não precisa de Baptismo, ou não fará muito sentido já que, o Baptismo é a integração do homem seio da família divina.

Mas é preciso que Cristo seja baptizado para assim elevar à categoria de Sacramento de iniciação da fé.

Nada do que o Senhor faz ou diz deixa ter um propósito, uma intenção muito concreta:

dar aos homens todos os meios necessários para a sua salvação.


(AMA, comentário sobre Mc 1, 7-11, 06.01.2017)







Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus
CAPÍTULO I

«SEMELHANTE A NÓS EM TUDO, EXCEPTO NO PECADO»

A santidade da humanidade de Cristo

6. A caminho da santidade

A nossa propensão para a santidade assemelha-se muito à caminhada no deserto em direcção à terra prometida do povo eleito.
De facto, é também ela um caminho feito de contínuas paragens e recomeços de viagem.
DE vez em quando o povo parava no deserto e armava as tendas, ou porque estava extenuado, ou porque tinha encontrado água ou alimentos, ou até porque lhe apetecia descansar.
Mas eis então que, de improviso, chegava a ordem do Senhor para levantar o acampamento e pôr-se de novo a caminho:
«Parte daqui, tu e o povo, e ide para a terra que vos prometi», diz Deus a Moisés; então, toda a comunidade levantava acampamento e se punha novamente a caminho [i].

Na vida da Igreja, estas pausas periódicas e recomeços no caminho são representadas pelo início de um novo ano litúrgico, ou de uma quadra do ano mais activa, como o Advento e a Quaresma.
Para cada um de nós particularmente, o tempo de levantar a tenda e retomar o caminho, é quando sentimos, no nosso íntimo, o misterioso apelo que nos vem através da graça.
Esta não é uma vontade que pode vir «da carne ou do sangue», mas somente do Pai que está nos céus.
Trata-se de um momento abençoado, de um inefável encontro entre Deus e a criatura, entre a graça e a liberdade, que terá consequências, positivas ou negativas, por toda a eternidade.
No começo, há um momento de reflexão.
Cada um detém-se no turbilhão dos seus afazeres ou no ritmo das ocupações quotidianas; desliga-se de tudo por instantes.
Mede as distâncias, como costuma dizer-se, para dar uma vista de olhos à vida e ver para onde está caminhando.
É o momento da verdade, das perguntas fundamentais:
«Quem sou? De onde venho? Para onde vou? Que é que eu quero?».

Conta-se que também S. Bernardo, de vez em quando, interrompia as suas tarefas e, como que entrando em diálogo consigo mesmo, dizia:
«Bernarde, ad quid venisti?»; Bernardo, para que te fizeste monge? [ii]
O mesmo deveremos fazer nós também.
Chamar-nos pelo nome (porque isso ajuda) e perguntar-nos:
Porque estás aqui e fazes esse trabalho?
Não será porventura para cumprir a vontade de Deus de te fazeres santo?
E se é para te fazeres santo, estás mesmo a fazeres-te santo?
Há só há uma desgraça verdadeiramente tal e irreparável na vida – disse alguém com profunda verdade – é a de não sermos santos.

No Novo Testamento está descrito um tipo de conversão que poderemos definir como a conversão-despertar, ou a conversão da tibieza.
Encontra-se no Apocalipse.
No Apocalipse podemos ler as sete cartas escritas aos anjos (que alguém interpreta dirigidas aso «bispos» de outras tantas Igrejas da Ásia Menor.
Estas cartas são todas construídas sobre um esquema comum.
É Jesus ressuscitado, o Santo, quem fala.
Na carta ao anjo de Éfeso, ele começa por reconhecer tudo aquilo que o destinatário fez de bom:
«Conheço as tuas obras, o teu trabalho e a tua paciência… És constante e sofreste muito pelo Meu nome, sem desfalecimentos».
Depois, passa a citar aquilo que, pelo contrário, O desgosta:
«Deixaste a tua caridade de outrora!»
E eis que, então, ressoa na noite como um tinido de trombeta, entre os que dormem, o grito do Ressuscitado:
Metaòeson, isto é, converte-te! Mexe-te! Acorda! [iii]

Esta a primeira de sete cartas.
Sabemos como é severa a última das sete cartas e que foi endereçada ao anjo da Igreja da Laodiceia:
«Conheço as tuas obras; sei que não és nem frio nem quente; oxalá fosse frio ou quente!»
Converte-te e volta a ser zeloso e fervoroso
Zeleue oun kai matanòeson! [iv]
Como todas as outras, também esta carta termina com a misteriosa advertência:
«Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas» [v].
Pelo contexto, não há dúvida alguma sobre o que o Espírito diz às Igrejas; Ele diz:
Conversão, vida nova!

Que fazer então?
Santo Agostinho dá-nos um conselho de como despertar a vontade:
«Toda a vida do bom cristão consiste num desejo santo (ou num desejo de santidade):
Tota vita christiani boni, sactum desiderium est.
Através da vontade tu dilatas-te para que possas ser repleto, quando chegares à visão.
Deus, mediante a esperança, aumenta o nosso ânimo e, dilatando-o, torna-o mais capaz.
Vivamos, portanto, irmãos, com esse desejo, pois que devemos ser repletos» [vi]
Ninguém se faz santo sem um grande desejo de que tal aconteça.
Nada de grandioso se faz sem desejo.
O desejo é o vento que enfuna as velas e faz andar o barco; é o motor da vida espiritual.

Mas quem poderá ter o desejo de santidade, se o Espírito Santo não o infundir?
Por isso, São Boaventura, terminava o seu Itinerário da mente para Deus com estas palavras inspiradas:
«Esta sabedoria misteriosa e escondida, ninguém a conhece senão quem a recebe, ninguém a recebe senão quem a deseja, e ninguém a deseja senão aquele que está inflamado no seu coração pelo Espírito Santo enviado por Cristo»  [vii].

(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Cfr. Ex 15,22;17,1.
[ii] Guilherme de Saint-Thierry, Vita prima, I, 4 (PI. 185,238).
[iii] Ap 2,1ss.
[iv]  Ap 3,5sss.
[v] Ap 3,22.
[vi] Stº Agostinho, In Epist. Ioh., 4,6 (PL 35,2008.
[vii] S. Boaventura, Itnerarium mentis in Deum, VII, 4.

Hoy el reto del Amor es que pidas ayuda.

LA GRAN HAZAÑA 

Día de orden y limpieza: unas, la sala; y otras otra, parte del Noviciado.

Recibí una llamada y, al ver que se alargaba bastante, observé la galería llena de cajas y cajas, bolsas y más bolsas de basura de gran tamaño... desplegadas por todos los sitios, pues estamos vaciando una sala que hace años que no se tocaba.

Agarrando el teléfono con la oreja aplastada sobre el hombro, mientras "escuchaba" la llamada, bajé una gran bolsa en la que, por el peso, se abrió un agujero y fui dejando un rastro que luego tuve que recoger de vuelta; otra bolsa en que, mientras "escuchaba", coincidió que mi pierna, a cada escalón, golpeaba un patito de goma que se dedicaba a delatarme con un "cuack" "cuack" continuo; otra tenía un juego para llevar a las monjas que se activó, y no paraba de decir: "¡Bienvenido a la guerra de las galaxias!", seguido de una musiquilla imparable... y yo..."escuchando" y, a su vez, sintiéndome una heroína por poder sorprender dejando vacía la galería.

Se acabó la conversación y yo sola seguí con la galería que entre todas debíamos haber vaciado después de acabar todo. Pero ya sólo miraba por el "logro" de conseguirlo sola. No me conformé y, una vez que bajé todo, sola también me dediqué a llevar todo a la otra punta del monasterio: un viaje, otro, otro...

¿Me ofrecieron ayuda? Sí, ¡incluso Israel apareció con dos carretillas! Pero, ante mi "gran acogida", desaparecieron... ¡era mi hazaña! Dentro de mí sabía que tenía que pedir ayuda, que era algo de equipo, pero no paré. Al día siguiente, el dolor de espalda se reía de mí, ¿quién no?

Cuántas veces nos ponemos metas a alcanzar solos, sin poder ver a los hermanos. Nuestro valor no depende de las grandes hazañas, de nuestra autosuficiencia, de lo sorprendidos que podamos dejar al resto con nuestra tenacidad, de lo perfectas que creamos hacer las cosas... Sin Amor, sólo crece nuestro Yo y no dejamos que Cristo, el Amor, crezca en nosotros. Y sí, yo dejé la galería impoluta, llevé todo a su sitio pero... no escuché con calma la llamada de teléfono y no me dejé ayudar. ¡Ésa era la hazaña que me pedía el Señor en ese momento!

Puede que tengas que presentar algo en el trabajo, hacer la programación de una actividad, la comida, desplazarte a algún sitio, ir a la consulta del médico, puede que te estén haciendo pasarlo mal en el cole o en el trabajo... prueba a pedir ayuda, prueba a dejar que los demás entren en lo que tienes entre manos, también en tus problemas y preocupaciones. No tengas miedo a tu debilidad, a sentirte juzgado; seguro que te sorprendes. Cristo no quiere que vivas todo solo y te pone cerca a mucha gente buena.

Hoy el reto del Amor es que pidas ayuda. Pero no te pongas este reto sólo para hoy: prueba cada día pedir ayuda en algo. Verás que no es fácil pero que esta hazaña sí es grande.


VIVE DE CRISTO

Pequena agenda do cristão

SÁBADO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





05/01/2018

Temos de ser humildes

Não ponhas o teu "eu" na tua saúde, no teu nome, na tua carreira, na tua ocupação, em cada passo que dás... Que coisa tão maçadora! Parece que te esqueceste que "tu" não tens nada, é tudo d'Ele. Quando ao longo do dia te sentires, talvez sem razão, humilhado; quando pensares que o teu critério deveria prevalecer; quando notares que a cada instante borbota o teu "eu", o teu, o teu, o teu..., convence-te de que estás a matar o tempo e que estás a precisar que "matem" o teu egoísmo. (Forja, 1050)

Pertransiit benefaciendo... Que fez Jesus para derramar tanto bem, e só bem, por onde quer que passou? Os Santos Evangelhos transmitiram-nos outra biografia de Jesus, resumida em três palavras latinas, que nos dá a resposta: erat subditus illis, obedecia. Hoje, que o ambiente está cheio de desobediência, de murmuração, de desunião, havemos de estimar especialmente a obediência.

Sou muito amigo da liberdade e precisamente por isso amo tanto essa virtude cristã. Devemos sentir-nos filhos de Deus e viver com o empenho de cumprir a vontade do nosso Pai, de realizar tudo segundo o querer de Deus, porque nos dá na gana, que é a razão mais sobrenatural.


O espírito do Opus Dei, que tenho procurado praticar e ensinar desde há mais de trinta e cinco anos, fez-me compreender e amar a liberdade pessoal. Quando Deus Nosso Senhor concede a sua graça aos homens, quando os chama com uma vocação específica, é como se lhes estendesse a mão, uma mão paternal, cheia de fortaleza, repleta sobretudo de amor, porque nos busca um a um, como filhas e filhos seus, e porque conhece a nossa debilidade. O Senhor espera que façamos o esforço de agarrar a sua mão, essa mão que Ele nos estende. Deus pede-nos um esforço, prova da nossa liberdade. E para conseguirmos isso, temos de ser humildes, temos de sentir-nos filhos pequenos e amar a bendita obediência com que respondemos à bendita paternidade de Deus. (Cristo que passa, 17)

Temas para reflectir e meditar

Rectidão


Oh, que recta coisa Vos peço, meu Deus verdadeiro:

que queirais a quem não Vos quer, que abrais a quem não Vos chama, que deis saúde a quem gosta de estar doente e anda procurando a doença.


(SANTA TERESA DE JESUS, Exclamaciones, nr. 8 trad ama)



Evangelho e comentário

Tempo de Natal


Evangelho: Jo 1, 43-51

43 No dia seguinte, Jesus resolveu sair para a Galileia. Encontrou Filipe, e disse-lhe: «Segue-me!» 44 Filipe era de Betsaida, a cidade de André e de Pedro. 45 Filipe encontrou Natanael e disse-lhe: «Encontrámos aquele sobre quem escreveram Moisés, na Lei, e os Profetas: Jesus, filho de José de Nazaré.» 46 Então disse-lhe Natanael: «De Nazaré pode vir alguma coisa boa?» Filipe respondeu-lhe: «Vem e verás!» 47 Jesus viu Natanael, que vinha ao seu encontro, e disse dele: «Aí vem um verdadeiro israelita, em quem não há fingimento.» 48 Disse-lhe Natanael: «Donde me conheces?» Respondeu-lhe Jesus: «Antes de Filipe te chamar, Eu vi-te quando estavas debaixo da figueira!» 49 Respondeu Natanael: «Rabi, Tu és o Filho de Deus! Tu és o Rei de Israel!» 50 Retorquiu-lhe Jesus: «Tu crês por Eu te ter dito: ‘Vi-te debaixo da figueira’? Hás-de ver coisas maiores do que estas!» 51 E acrescentou: «Em verdade, em verdade vos digo: vereis o Céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo por meio do Filho do Homem.»

Comentário:

A forma como o Senhor convida alguém a segui-lo parece não admitir recusa.

De facto, não conhecemos o tom de voz de Jesus:

lmperioso, amável, persuasivo?...

Penso que deveria ter todas essas características e, ainda, pelo menos mais uma:

a serenidade convincente de quem deseja verdadeiramente o que pede.

Sim, porque o Senhor dos senhores, o Rei e Dono de quanto existe, não força, não coage, não pressiona, convida!

Esta delicadeza de Quem tudo pode esmaga o nosso orgulho e auto convencimento de que somos importantes, dignos de admiração e, até talvez, inveja.


(AMA, comentário sobre Jo 1, 43-51, 2017.01.05)







Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

CAPÍTULO I

«SEMELHANTE A NÓS EM TUDO, EXCEPTO NO PECADO»

A santidade da humanidade de Cristo

4. Santificados em Cristo Jesus

Existem dois meios que nos permitem, acima de tudo, alcançar a santidade de Cristo: a Fé e os Sacramentos.
A Fé é a única possibilidade que temos para entrar em contacto com Cristo.
«Alcança Cristo – diz Santo Agostinho – quem crê em Cristo» [i].
Se nos perguntarmos como pode a experiência de Deus, feita por um homem que viveu há dois mil anos num ponto limitado do tempo e do espaço, superar tempo e espaço e comunicar-se a todos os homens, tornando-se a sua experiência e a sua santidade, a resposta está na Fé.
Da parte de Cristo que comunica tal santidade, isso foi possível elo facto de que Ele é Deus e homem, é o mediador; que a salvação por Ele operada aconteceu dentro da humanidade, que a mesma foi pensada e desejada para todos os homens e por isso foi a eles destinada e é, em certo sentido, Sua de direito.
Mas da parte daquele ao qual tal santidade é comunicada, isto é, da parte do homem, isso só é possível através da Fé.
É pela Fé – diz S. Paulo – que Cristo habita nos nossos corações [ii].
Também os Sacramentos, sem a Fé, são válidos, mas ineficazes, são operados mas não operantes.

O segundo meio com que nos apropriamos da santidade de Cristo é constituído pelos Sacramentos, em particular pela Eucaristia.
Com a Eucaristia não entramos somente em contacto – como na audição da Palavra – com esta ou aquela doutrina de Cristo, mas com o próprio «Santo de Deus».
Na Eucaristia «Cristo derrama-se em nós e funde-se connosco, mudando-nos e transformando-nos em Si como uma gota de água num oceano infinito de unguento perfumado.
Tais são os efeitos que pode produzir este unguento naqueles que o encontram: não os torna somente perfumados e não somente os faz respirar aquele perfuma, mas transforma a sua própria substância no perfume daquele unguento e nós tornamo-nos o bom odor de Cristo» [iii].

5. «Chamados a ser santos»

Até agora, fizemos duas coisas, a respeito da santidade de Cristo: contemplámo-la e, de seguida, apropriámo-nos dela.
Resta-nos ainda fazer uma última coisa, sem a qual tudo fica em risco de ficar em suspenso no vazio e sem fruto: é imitá-la.
Agindo deste modo, nós não passamos a «outro género», isto é, da exegese à ascese, da teologia a uma pia meditação.
Este é o engano que levou a teologia para uma falsa neutralidade e ciência, pelo qual um certo estudo da teologia muitas vezes torna áridas a fé e a piedade dos jovens, em vez de a incrementar.
Para o Novo Testamento é inconcebível uma consideração sobre Cristo, a qual não termine com um apelo, com um «portanto»…
«Exorto-vos, portanto, irmãos, a oferecer os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus»: é deste modo que S. Paulo conclui a exposição do mistério de Cristo na sua carta aos Romanos [iv].
Foi dito com razão que «sob o ponto de vista cristão, tudo, mas mesmo tudo, deve ser edificante, e aquele género de representação científica que não acaba por edificar é, por isso mesmo, anticristão» [v].
Não quer dizer que a dimensão edificante deva estar presente sempre da mesma maneira e no mesmo grau de explicitação, mas é decerto necessário que ela possa ser vista como por transparência e seja, às vezes, manifestada.

Depois da contemplação da santidade de Cristo, e da sua apropriação mediante a fé chegamos então à sua imitação.
Mas o que nos falta ainda, se já fomos «santificados em Jesus Cristo»?
A resposta encontramo-la continuando a ler o que S. Paulo escreve depois destas palavras:
«Àqueles que foram santificados em Jesus Cristo, chamados a ser santos» com todos os que, em qualquer lugar, invocam o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo» [vi].
Os crentes são «santificados em Jesus Cristo» e, ao mesmo tempo, «chamados a ser santos».
Santificados e santificandos.
À boa nova de que somos santos, de que a santidade de Cristo também é nossa, segue-se imediatamente o apelo a tornar-nos santos:
«Como é santo Aquele que vos chamou, sede vós também santos, em toda a vossa maneira de viver, poi como está escrito: sereis santos porque Eu sou santo» [vii].

Vimos já também Jesus, ao longo da Sua vida, é santificado («Aquele que o Pai santificou e enviou ao mundo») e «Se faz» santo («por eles Eu santifico-me a Mim mesmo»).
Também em Jesus houve uma santidade que Lhe foi dada e uma santidade adquirida.
Isto conduz-nos ao grande horizonte da imitação de Cristo.
«Pois que – foi escrito – a Idade Média tinha-se desviado cada vez mais ao acentuar ao lado de Cristo enquanto modelo, Lutero acentuou o outro lado, afirmando que Ele é dom e que este dom pertence à fé aceitá-lo» [viii]
Mas o mesmo autor que comentava este facto acrescentava, embora fosse também ele protestante, que agora «aquilo em que se deve insistir é no lado de Cristo como modelo», para que a doutrina sobre a Fé não se reduza a uma folha de figueira que cobre as omissões mais anti-cristãs. [ix]

Sobre este tema existe um esplêndido tratado do Concílio Vaticano II, onde é focada a vocação universal dos baptizados à santidade.
Também o Concílio Vaticano fomenta o apelo à santidade dos cristãos na santidade de Jesus que é o «Santo de Deus».
Depois de evocar os textos bíblicos que falam da santidade de Cristo e da Igreja por Ele santificada, o texto conciliar prossegue dizendo:
«Por isso, todos na Igreja, tanto os que pertencem à hierarquia com os que são por ela pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo.
«Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação» [x],[xi].
Não se trata de uma nova santidade a acrescentar à santidade recebida de Cristo, através da Fé e dos Sacramentos, mas de manter, desenvolver e manifestar, no dia-a-dia, a mesma santidade recebida de Cristo:
«Eles – prossegue ainda o mesmo texto do Concílio – devem com o auxílio divino, conservar e aperfeiçoar, vivendo-a, esta santidade que receberam» [xii]
A santidade de Cristo divide-se em mil cores diferentes quantas são os Santos na Igreja, não havendo nenhum Santo igual a outro; mas essa santidade é produzida por uma única luz.
«Ninguém adquire a santidade por si mesmo, e esta não é obra de virtude humana, poi todos a recebem de Cristo e através dele; é como se muitos espelhos fossem expostos ao sol: todos brilham e emitem raios, de tal modo que parece haver muitos sóis, quando na realidade é um único sol que brilha em todos eles» [xiii]

Este apelo à santidade é mais necessária e indispensável observância do Concílio.
Sem ele todas as outras observâncias são impossíveis ou inúteis; e, no entanto, esta observância é a que está em risco de ser mais negligenciada, já que somente Deus e a consciência no-la exigem e reclamam e não as pressões ou interesses de grupos humanos particulares da Igreja.
Por vezes tem-se a impressão de que, em certas comunidades e em certas Famílias Religiosas, depois do Concílio, se tenha dado mais importância ao «fazer os Santos», do que «fazer-se santos», isto é, ter mais empenho em levar aos altares os Fundadores das suas Congregações ou dos seus confrades que em imitar-lhes os exemplos e as virtudes.

(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Santo Agostinho, Sermo 243,2 (PL 8,1144.
[ii] Cfr. Ef 3,17.
[iii] N. Cabasillas, Vida em Cristo, IV, 3 (PG 150,593).
[iv] Rm 12,1.
[v] S. Kierkegaard, A doença mortal, pref., in Obras, op. Cit. P. 621.
[vi] 1Cor 1,2.
[vii] 1Pd 1,15-16.
[viii] S. Kierkegaard, Diário, X, 1, A, 154.
[ix] Ibidem
[x] !Ts 4,3.
[xi] Lumen gentium, 39
[xii] Lumen gentium, 40
[xiii] N. Cabasilas, Comentário à divina liturgia, 36 (PG 150,449).

Doutrina – 390

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Compêndio


PRIMEIRA PARTE: A PROFISSÃO DA FÉ
SEGUNDA SECÇÃO: A PROFISSÃO DA FÉ CRISTÃ
CAPÍTULO TERCEIRO

CREIO NA SANTA IGREJA CATÓLICA

A Igreja é una, santa, católica e apostólica

168. Quem pertence à Igreja católica?



Todos os homens, de diferentes modos, pertencem ou estão ordenados à unidade católica do povo de Deus. Estão plenamente incorporados na Igreja católica aqueles que, tendo o Espírito de Cristo, se encontram unidos a ela pelos vínculos da profissão de fé, dos sacramentos, do governo eclesiástico e da comunhão. Os baptizados que não se encontram plenamente nesta unidade católica estão numa certa comunhão, ainda que imperfeita, com a Igreja Católica.