03/01/2018

Devemos amar a Santa Missa

Luta por conseguir que o Santo Sacrifício do Altar seja o centro e a raiz da tua vida interior, de maneira que toda a jornada se converta num acto de culto – prolongamento da Missa que ouviste e preparação para a seguinte –, que vai transbordando em jaculatórias, em visitas ao Santíssimo, no oferecimento do teu trabalho profissional e da tua vida familiar... (Forja, 69)

Não compreendo como se possa viver cristãmente sem sentir a necessidade de uma amizade constante com Jesus na Palavra e no Pão, na oração e na Eucaristia. E entendo perfeitamente que, ao longo dos séculos, as sucessivas gerações de fiéis tenham vindo a concretizar essa piedade eucarística. Umas vezes com práticas multitudinárias, professando publicamente a sua fé; outras, com gestos silenciosos e calados, na sagrada paz do templo ou na intimidade do coração.

Antes de mais, devemos amar a Santa Missa, que deve ser o centro do nosso dia. Se vivemos bem a Missa, como não havemos depois de continuar o resto da jornada com o pensamento no Senhor, com o desejo ardente de não nos afastarmos da sua presença, para trabalhar como Ele trabalhava e amar como Ele amava? Aprendemos então a agradecer ao Senhor essa sua outra delicadeza: não quis limitar a sua presença ao momento do Sacrifício do Altar, mas decidiu permanecer na Hóstia Santa que se reserva no Tabernáculo, no Sacrário. (Cristo que passa, n. 154)

Temas para reflectir e meditar

A força do Silêncio, 286


Querendo controlar tudo e tudo colocar sob o signo da revolta, o homem corre o risco de não remeter nada para Deus.
E fica só, perante os seus limites e a sua impotência.
Ora, o homem sem Deus está perdido.
Sem a fé vivida no silêncio confiante, ele afasta-se do seu Deus e do seu Redentor.


CARDEAL ROBERT SARAH

Evangelho e comentário

Tempo de Natal

Santíssimo Nome de Jesus

Evangelho: Jo 1, 29-34

29 No dia seguinte, ao ver Jesus, que se dirigia para ele, exclamou: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! 30 É aquele de quem eu disse: ‘Depois de mim vem um homem que me passou à frente, porque existia antes de mim.’ 31 Eu não o conhecia bem; mas foi para Ele se manifestar a Israel que eu vim baptizar com água.» 32 E João testemunhou: «Vi o Espírito que descia do céu como uma pomba e permanecia sobre Ele. 33 E eu não o conhecia, mas quem me enviou a baptizar com água é que me disse: ‘Aquele sobre quem vires descer o Espírito e poisar sobre Ele, é o que baptiza com o Espírito Santo’. 34 Pois bem: eu vi e dou testemunho de que este é o Filho de Deus.» 

Comentário:

João declara que não conhecia bem Jesus, o que é natural porque, embora fossem primos com apenas seis meses de diferença de idades um vivia em Nazaré e outro nas montanhas de Judá.

Esperou por um sinal – tal como lhe fora dito – para ter a certeza e, quando esse sinal foi evidente faz a primeira declaração conhecida da verdadeira identidade de Cristo:

O Filho de Deus!

Natanael, passados tempos, fará o mesmo e também de uma forma absolutamente clara e convicta.

Também, neste caso, houve um sinal: «vi-te quando estavas debaixo da figueira».

Entender, perceber e aceitar os sinais que ao longo da vida Deus nos vai mandando é fundamental para consolidar a nossa Fé e aumentar o nosso Amor a Deus.

Mas, atenção, é preciso estar bem disposto e usar de são critério com um espírito livre e sem preconceitos ou ideias pré-concebidas.

(ama, comentário sobre Jo 1, 29-34, 15.01.2017)








Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

CAPÍTULO I

«SEMELHANTE A NÓS EM TUDO, EXCEPTO NO PECADO»

A santidade da humanidade de Cristo

3. «Tu solus Sanctus»

A liturgia da Igreja convida-nos à contemplação desta santidade de Cristo, quando, no «Glória», dirigindo-se a Ele em oração, exclama: «Tu solus Sanctus!», só Tu és Santo.
«Só» deve entender-se, não no seio da Trindade.
Só Tu és o totalmente e plenamente santo, o verdadeiro «Santo dos Santos» [i]
É precisamente pela Sua santidade que Jesus constitui o vértice absoluto de toda a verdade e da História.
Pascal formulou o célebre princípio das três ordens ou planos da realidade:
A ordem dos corpos ou da matéria;
A ordem do espírito ou da inteligência,
E a ordem da santidade.

Há uma distância infinita, qualitativa, a separar a ordem da inteligência da ordem da matéria, mas há uma distância «infinitamente mais infinita» que separa a ordem da santidade da ordem da inteligência, porque aquela está acima da natureza.
Os génios que pertencem à ordem da inteligência, não precisam das grandezas carnais e materiais; essas grandezas não lhes vêm acrescentar maiores faculdades.
Também os santos, que pertencem à ordem da caridade, «não precisam das grandezas carnais e intelectuais, as quais não lhes aumentam nem diminuem as boas qualidades.
Eles são apreciados por Deus e pelos anjos, não por pessoas e mentes estranhas: a eles só Deus basta».
Assim sucede com o Santo dos Santos, Jesus Cristo.
«Jesus, sem riquezas e sem sinal algum de ciência, está na Sua própria ordem de santidade.
E não fez inventos, não reinou; pelo contrário, foi humilde, paciente, santo, santo para Deus, terrível para o demónio, sem pecado...
A Nosso Senhor Jesus Cristo, teria sido inútil, para resplandecer no Seu reino de santidade, vir ao mundo como um rei; pelo contrário, veio com o esplendor próprio da Sua ordem» [ii]
Jesus não é somente o vértice da ordem de santidade, mas também a sua fonte, porque é dele que emana historicamente toda a santidade dos Santos e da Igreja.
A santidade de Cristo é o reflexo da própria santidade de Deus, a Sua manifestação visível, a Sua imagem.
Os Padres atribuem a Cristo o título de «imagem da bondade de Deus» [iii] dado à sabedoria [iv]
Aquilo que a epístola aos Hebreus diz de Cristo em relação à glória e à substância do Pai, tem a ver também em relação à Sua santidade:
«O Filho é a irradiação e a marca da Sua santidade» [v]
A própria exclamação «Tu solus Sanctus», que a Igreja dirige a Cristo, é a mesma que, no Apocalipse, é dirigida a Deus:
«Quem Te não temerá, é Senhor, e quem não glorificará o Teu nome? Porque só Tu és Santo» [vi]

«Santo», Qadosh, é a mais excelsa denominação de Deus que existe na Bíblia.
Nada nos consegue dar a ideia de Deus como a proximidade e a percepção da Sua santidade.
A impressão mais forte com que o profeta Isaías ficou após a sua visão de Deus, foi a da Sua santidade, proclamada pelos Serafins com as palavras:
«Santo, Santo, Santo é o Senhor dos exércitos» [vii]
Também em relação a Jesus acontecia algo semelhante.

O termo bíblico Qadosh sugere a ideia de separação, de diversidade.
Deus é Santo porque é o «Totalmente Outro», a respeito de tudo aquilo que o homem pode pensar e fazer.
È o Absoluto, no sentido originário de ab-solutus, isto é, separado de tudo e à parte de tudo.
É o Transcendente, no sentido de que está para além das nossas categorias.
Mas tudo isto deve ser entendido no sentido não só metafísico como moral, isto é, naquilo que diz respeito não somente à essência, mas, sobretudo, às obras de Deus.
Santos ou Justos são chamados, na Bíblia, sobretudo os desígnios de Deus, as Sua obras e os Seus caminhos. [viii]
Todavia, santo não é um conceito principalmente negativo que indica separação ou ausência de mal e de mistura em Deus, mas sim um conceito sumamente positivo.
Indica uma «pura plenitude».
Em nós, a «plenitude» nunca condiz com a «pureza».
Uma contradiz a outra.
A nossa pureza é obtida sempre «por artes de correcção», isto é, purificando-nos, tirando o mal das nossas acções.
Em Deus e no homem Jesus de Nazaré, não se passa assim,
A plenitude e a pureza coexistem juntamente e constituem a suma «simplicidade» e a santidade de Deus.
A Bíblia exprime este conceito, dizendo que a Deus «nada pode ser acrescentado e nada tirado» [ix]
Como suma pureza que é, nada Lhe deve ser tirado; e como suma plenitude, nada Lhe pode ser acrescentado.

Neste sentido, a santidade de Cristo, como pura plenitude, coincide com a Sua beleza.
Contemplar a santidade de Jesus é contemplar, ao mesmo tempo, a Sua inefável beleza.
Alguns ícones orientais de Cristo Senhor e Pancreator, como por exemplo o de Rubley, parecem exprimir plasticamente a ideia do Deus que é «majestoso em santidade» [x]

Nos Evangelhos encontramos frequentemente o sentimento de bondade e santidade de Jesus expresso mediante o conceito de beleza.
«Fez todas as coisas de forma bela (kalós)», dizem dele as multidões. [xi]
O próprio Jesus define-se a Si mesmo como o «belo (kalós) Pastor» e diz ter mostrado aos homens muitas obras belas (kalá). [xii]
Pedro, no Tabor, exclamou:
«Senhor, é belo (kalós) para nós ficarmos aqui». [xiii]

A palavra belo, assim como a palavra santo, significam, na Bíblia, tudo aquilo que está relacionado com Deus.
São Gregório Nisseno escreveu:
«Excepto Tu, ninguém me parece belo, és o único verdadeiramente belo. E não és somente belo; Tu és a própria essência eterna e pessoal da beleza» [xiv]
Dostoiewsky, que tinha tentado representar numa sua personagem o ideal de uma beleza feita de bondade, sem todavia o ter conseguido inteiramente, escrevia numa carta:
«No mundo só existe um ser absolutamente belo, o Cristo, mas a aparição deste ser infinitamente belo é certamente um infinito milagre» [xv]
Também a Igreja exprime esta sensação de beleza que se sente na presença de Cristo e fá-lo dirigindo-lhe a exclamação do salmo:
«Tu és o mais belo dos filhos dos homens!» [xvi]
«Veio com o esplendor próprio da Sua ordem» [xvii]

(cont)
rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Dn 9.240
[ii] B. Pascal, Pensamentos. 793 Brunsvic.
[iii] Sb 7, 26
[iv] Cfr. orígenes, In Ioh. Evang. XIII, 36 (pg 14,461)
[v] Hb 1,3
[vi] Ap 15,4
[vii] Is 6,3
[viii] Dt 32,4; Dn 3,27; Ap 16,7
[ix] Eclo 42,21
[x] Ex 15,11
[xi] Jo 10, 11.32
[xii] Jo 10,111.32
[xiii] Mt 17,4
[xiv] S. Gregório Nisseno, In Cant. Hom. IV (Pg 44,836)
[xv] F. Dostoiewsky, Carta à sobrinha Sonja Ivánova, in O Idiota, Milão, 1982, p. XII.
[xvi] L 45,2
[xvii] B. Pascal, Pensamentos. 793 Brunsvic.

Perguntas e respostas

A EUTANÁSIA


6. Nestes casos pode-se aplicar a eutanásia?


Não, não.
Para entendê-lo pode ser suficiente pensar na questão temporal: se em vez de ser incurável, fosse uma enfermidade que durasse uma semana ou um mês, seria correcta a eutanásia?...
E se em vez de um mês durasse um ano ou três a curar-se?...
E se fossem oito ou quinze?
E se a saúde voltasse ao fim de 30 ou 40 anos?...
E se fosse ao fim de cinquenta anos que se restabelecesse, seria correcto matá-lo agora?...
E se ao cabo de uns anos os médicos descobrissem um antídoto ou uma prótese, ou uma técnica por computador nova?...

Definitivamente, uma circunstância de tempo não legitima um assassinato.

Pequena agenda do cristão

Quarta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?







02/01/2018

Depois da morte vos receberá o Amor

Agora compreendes quanto fizeste sofrer Jesus, e enches-te de dor: como lhe pedes perdão, deveras e choras pelas tuas traições passadas! Não te cabem no peito as ânsias de reparar! Bem. Mas não esqueças que o espírito de penitência está principalmente em cumprir, custe o que custar, o dever de cada instante. (Via Sacra, 9ª Estação, n. 5)


Como será maravilhoso quando o nosso Pai nos disser: servo bom e fiel, porque foste fiel nas coisas pequenas, eu te confiarei as grandes: entra no gozo do teu Senhor!. Esperançados! Esse é o prodígio da alma contemplativa. Vivemos de Fé, de Esperança e de Amor; e a Esperança torna-nos poderosos. Recordais-vos de S. João? Eu vos escrevo, jovens, porque sois valentes e a palavra de Deus permanece em vós e vencestes o maligno. Deus urge-nos, para a juventude eterna da Igreja e de toda a humanidade. Podeis transformar em divino todo o humano, como o rei Midas convertia em ouro tudo o que tocava!


Nunca esqueçais que depois da morte vos receberá o Amor. E no amor de Deus encontrareis, além do mais, todos os amores limpos que tenhais tido na terra. O Senhor dispôs que passemos esta breve jornada da nossa existência, trabalhando e, como o seu Unigénito, fazendo o bem. Entretanto, temos de estar alerta, à escuta daquelas chamadas que Santo Inácio de Antioquia notava na sua alma, ao aproximar-se a hora do martírio: vem para junto do Pai, vem para o teu Pai que te espera ansioso (Amigos de Deus, n. 221)

Temas para reflectir emeditar

Família Divina


O nosso Deus, no seu mistério íntimo, não está em solidão, mas como uma família que leva, em Si mesmo, paternidade, filiação e a essência da família, que é o Amor.


(SÃO JOÃO PAULO II Hom. 1979.01.28)




Temas para reflectir e meditar

Tentações no deserto

A resposta de Jesus (à tentação no deserto) é um acto de confiança na providência paternal de Deus.

Quem O impeliu a ir para o deserto como preparação da Sua obra messiânica, ocupar-Se-á de que Jesus não desfaleça (...)

Assim, pois, Jesus, em contraste com o antigo Israel, que se impacientou perante a fome no deserto, entrega confiadamente o Seu cuidado à providência do Pai.

(Bíblia Sagrada anot. pela Fac. de Teol. da Univ. de Navarra, Comentário Mt 4 4)




Evangelho e comentário

Tempo de Natal


Evangelho: Jo 1, 19-28

19 Este foi o testemunho de João, quando as autoridades judaicas lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para lhe perguntarem: «Tu quem és?» 20 Então ele confessou a verdade e não a negou, afirmando: «Eu não sou o Messias.» 21 E perguntaram-lhe: «Quem és, então? És tu Elias?» Ele disse: «Não sou.» «És tu o profeta?» Respondeu: «Não.» 22 Disseram-lhe, por fim: «Quem és tu, para podermos dar uma resposta aos que nos enviaram? Que dizes de ti mesmo?» 23 Ele declarou: ‘«Eu sou a voz de quem grita no deserto: Rectificai o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías.» 24 Ora, havia enviados dos fariseus que lhe perguntaram: 25 «Então porque baptizas, se tu não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?» 26 João respondeu-lhes: «Eu baptizo com água, mas no meio de vós está quem vós não conheceis. 27 É aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias.» 28 Isto passou-se em Betânia, na margem além do Jordão, onde João estava a baptizar.

Comentário:

Os que perguntam sabem perfeitamente o que significava baptizar donde não deveriam ter dúvidas sobre João.
Mas insistem porque estranhamente querem demonstrar que conhecem as Escrituras e se preocupam com a aparente insignificância ou falta de relevo do baptismo de João quando, no seu entender, o mesmo baptismo deveria estar rodeado de aparato e solenidade.

(ama, comentário sobre Jo 1 19-28, 02.01.2015)







Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus
CAPÍTULO I

«SEMELHANTE A NÓS EM TUDO, EXCEPTO NO PECADO»

A santidade da humanidade de Cristo

Uma santidade absoluta

…/2

A ressurreição foi o momento em que o Espírito Santo convenceu o mundo «quanto à justiça» de Cristo [i].
Sem este juízo de Deus, teria sido vedada aos Apóstolos e a nós toda a possibilidade desse conhecimento.
A impecabilidade de Jesus, portanto, não resulta de um a priori, mas de um a posteriori, não resulta daquilo que aparece no início da Sua existência - união hipostática - mas daquilo que aparece no fim: a ressurreição.

Tudo isto constitui certamente um progresso.
Todavia, a perspectiva recente, querigmática, não contradiz e não torna inútil ou ultrapassada a perspectiva tradicional dos Padres e dos Concílios, como por vezes se procura fazer crer; pelo contrário, completa-a e é por ela completada; ambas se complementam.

Na ressurreição, Jesus foi manifestado e reconhecido sem pecado, do mesmo modo que - sempre na ressurreição – foi manifestado «Filho de Deus com poder» [ii].

Mas este facto exclui porventura que Ele fosse Filho de Deus antes daquele momento?

A ressurreição trouxe à luz a realidade, não a criou do nada; dizer o contrário equivaleria a recair na heresia adopcionista.
O mesmo se pode dizer da impecabilidade.
Ela não deixaria de ser uma realidade na vida de Cristo, mesmo que, por hipótese, ninguém tivesse reparado nela.
Os Padres não formulam portanto um falso problema, quando indagam sobre o fundamento desta impecabilidade e o descobrem na união, operada n'Ele, da humanidade com a divindade.

O que se deve fazer não é, por isso, repudiar a explicação tradicional ontológica, trocando-a pela querigmática moderna, nem, de modo inverso, repudiar a fecunda explicação moderna, para se perfilhar exclusivamente a antiga.
É preciso fazer uma síntese entre as duas.
Isto salva o princípio da Tradição que é a de se enriquecer progredindo, ao passo que o contrário o destrói, pondo no lugar do princípio de Tradição o de substituição.
Temos duas fontes de luz para descobrir, de vertentes opostas, a santidade de Jesus: a ressurreição e a encarnação.

A ressurreição permite-nos afirmar que em Cristo não houve qualquer pecado; a união hipostática permite-nos afirmar que em Cristo não poderia ter havido pecado.
Uma fundamenta a ausência de pecado em Cristo, a outra fundamenta também a Sua impecabilidade, o que é algo mais.
Devemos utilizar estas duas fontes de luz.
Cada uma delas, considerada isoladamente, apresenta o grave inconveniente de tornar praticamente irrelevante a santidade real do Jesus dos evangelhos que é, pelo contrário, o facto mais importante para a nossa imitação.
Fundamentar a santidade de Cristo unilateralmente sobre a Sua ressurreição, pode comportar também um perigo: o de se conceber tacitamente, a Ressurreição de Cristo – à luz do conceito luterano de justificação – como que uma imputação da justiça, a partir do interior; como uma absolvição, que se opera no sobrano juízo de Deus, prescindindo do facto se esta justiça e santidade existem ou não na pessoa.
A inocência ou a ausência de pecado em Cristo consistiria, neste caso, no juízo que Deus tem da mesma, ressuscitando Jesus da morte.

«Também a justiça de Jesus – lê-se num desses autores – assentava extra se, nas mãos do Pai, no juízo de Deus» [iii].

Admitem, é verdade, que «Jesus viveu, de facto, em Si mesmo, sem pecado», mas não parece que isto conte muito; ao passo que, para os autores do Novo Testamento, esse facto é tão importante que o abordam continuamente.

2. Uma santidade vivida

Não se deve ter receio, portanto-, mesmo no actual contexto teológico, de voltar aos evangelhos para contemplar neles a santidade de Cristo, como se esta santidade de Jesus fosse somente uma projecção para trás de uma convicção adquirida pelos Apóstolos só depois da Páscoa.

A observação dos evangelhos permite-nos logo saber que a santidade Jesus não é somente um princípio abstracto, ou uma dedução metafísica, mas uma santidade real, vivida momento a momento e nas situações mais concretas da vida.
As Bem-Aventuranças, para dar um exemplo, não são somente um belo programa de vida que Jesus traça para os, outros; é a Sua própria vida e a sua experiência que Ele revela aos discípulos, chamando-os a entrar na Sua esfera de santidade.
Ele ensina aquilo que faz por isso pôde dizer:

«Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração» [iv], Ele diz que perdoa aos inimigos, aliás supera-se a si mesmo, até perdoar aos que estavam a crucificá-l'O, com as palavras: «pai, perdoa--lhes, porque não sabem o que fazem» [v].

De resto, não é este ou aquele episódio que se presta para ilustrar a santidade de Jesus, mas sim todas as acções, todas as palavras saídas da Sua boca.
«Nunca - escreve Kierkegaard - foi encontrada mentira na Sua boca [vi], tudo n'Ele era verdade.
No Seu amor não havia distância alguma entre a exigência da lei e o seu cumprimento, nem sequer de um momento, de um sentimento, de um projecto.
Ele não disse que sim como o primeiro irmão e não disse que não como o segundo [vii], pois que o Seu alimento era fazer a vontade do Pai [viii].
Assim, Ele era uma coisa só com o Pai, uma coisa só com todas as exigências da lei, de modo que a Sua única necessidade era cumpri-la.
Nele, o amor era uma acção contínua.
Não houve momento algum da Sua vida, nem por um só instante, em que o Seu amor se dissipasse no vazio de um sentimento, contentando-Se com palavras que o tempo dispersa, em que tivesse havido uma simples impressão de comprazimento de Si mesmo; não, o Seu amor é uma acção constante; mesmo quando chorou, isso não foi uma perda de tempo, porque Jerusalém não conheceu aquilo que servia para a sua paz. [ix]
Mas Ele sabia-o.
E se os que rodeavam, chorosos, o sepulcro de Lázaro não sabiam o que iria acontecer, Ele sabia o que deveria fazer.
O Seu amor estava presente tanto em todas as pequenas como nas grandes coisas; e Ele não Se concentrava com maior intensidade nalguns momentos grandiosos, como se as outras horas da vida quotidiana fossem alheias à exigência da lei.
Ele era igual em todos os momentos: mesmo quando expirou sobre a cruz do Calvário, não foi mais grandioso que quando nasceu na gruta de Belém» [x]
Este texto revela a perfeição de Jesus considerada sob o ponto de vista do amor. A história da espiritualidade cristã deu-nos a conhecer muitas e diversas formas de santidade e ou consciência, de nele não haver pecado, e de que fazia sempre a vontade do Pai.
A consciência de Jesus é transparente como cristal!
Não existe nele a mais ínfima admissão de ofensa, ou pedido de desculpa e de perdão, tanto em relação a Deus como em relação aos homens.
Existe nele sempre a certeza tranquila de estar com a verdade e a justiça e de ter agido bem.
Isto é bem diferente da presunção humana de justiça.
Uma tal ausência de culpa não está ligada a este ou àquele passo do Evangelho, de cuja historicidade se possa duvidar, mas ressalta de todo o Evangelho.
É um estilo de vida que se reflecte em tudo.
Pode procurar-se nos trechos mais recônditos dos Evangelhos, que o resultado é sempre o mesmo.
Isto é um sinal totalmente divino, um sinal de que este homem não é somente homem, embora excelso.
Para explicar tudo isto, não é suficiente a ideia de uma humanidade excepcionalmente santa e exemplar.
De facto, esta seria antes desmentida por esse sinal.
Uma tal segurança, uma tal omissão de pecado como se verifica em Jesus de Nazaré, indicaria, sim, uma humanidade excepcional, mas excepcional no orgulho e não na santidade.
Uma consciência formada deste modo ou é, em si mesma, o maior dos pecados jamais cometido, maior ainda que o de Lúcifer, ou então é a pura verdade.
A ressurreição de Cristo veio demonstrar que era a pura verdade.
A consciência que Jesus tinha de que Ele era isento de pecado é mais fácil de explicar do que a consciência de que era o Filho de Deus.
De facto, a culpa, quando existe, manifesta-se sob a forma de sentimento de culpa e de remorso.
Existe toda uma fenomenologia do pecado que cai sob a nossa observação.
Como homem, Jesus podia não ter a consciência de ser o Filho unigénito do Pai ou, se a tinha, nós não podemos explicar como tal acontecia visto que há no meio o salto de uma natureza para a outra.
Todavia, como homem, Ele podia perfeitamente ter conhecimento de que em Si não havia pecado algum, porque essa faculdade pertence ao âmbito da própria natureza humana.
É este conhecimento de ausência de culpa que João quis afirmar, ao pôr na boca de Jesus aquelas inauditas palavras que já atrás recordámos:
«Quem de entre vós pode convencer-me de pecado?»

(cont)
rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] (cfr. Jo 16,10)
[ii] (Rm 1,4)
[iii] w. pannenmberg, Grundzuge der Christologie, Gutersloh, 1964, pp. 337sss.
[iv] Mt 2,29
[v] Lc 23,34
[vi] cfr. lpd 2,22
[vii] cfr. Mt 21,28ss
[viii] cfr. Jo 4,34
[ix] Cfr. Lc 19, 41
[x] S. Kierkgaard, Os actos de amor, C. Fabro, Milão, 1983, p. 260.