25/12/2017

É Natal

Quando chega o Natal, gosto de contemplar as imagens do Menino Jesus. Essas figuras que nos mostram o Senhor tão apoucado, recordam-me que Deus nos chama, que o Omnipotente Se quis apresentar desvalido, quis necessitar dos homens. Do berço de Belém, Cristo diz-me a mim e diz-te a ti que precisa de nós; reclama de nós uma vida cristã sem hesitações, uma vida de entrega, de trabalho, de alegria.
Não conseguiremos jamais o verdadeiro bom humor se não imitarmos deveras Jesus, se não formos humildes como Ele. Insistirei de novo: vedes onde se oculta a grandeza de Deus? Num presépio, nuns paninhos, numa gruta. A eficácia redentora das nossas vidas só se pode dar com humildade, deixando de pensar em nós mesmos e sentindo a responsabilidade de ajudar os outros.
É corrente, às vezes até entre almas boas, criar conflitos íntimos, que chegam a produzir sérias preocupações, mas que carecem de qualquer base objectiva. A sua origem está na falta de conhecimento próprio, que conduz à soberba: o desejo de se tornarem o centro da atenção e da estima de todos, a preocupação de não ficarem mal, de não se resignarem a fazer o bem e desaparecerem, a ânsia da segurança pessoal... E assim, muitas almas que poderiam gozar de uma paz extraordinária, que poderiam saborear um imenso júbilo, por orgulho e presunção tornam-se desgraçadas e infecundas!
Cristo foi humilde de coração. Ao longo da Sua vida, não quis para Si nenhuma coisa especial, nenhum privilégio. Começa por estar nove meses no seio de Sua Mãe, como qualquer outro homem, com extrema naturalidade. Sabia o Senhor de sobra que a Humanidade padecia de uma urgente necessidade d’Ele. Tinha, portanto, fome de vir à terra para salvar todas as almas; mas não precipita o tempo; vem na Sua hora, como chegam ao mundo os outros homens. Desde a concepção ao nascimento, ninguém, salvo S. José e Santa Isabel, adverte esta maravilha: Deus veio habitar entre os homens!
O Natal também está rodeado de uma simplicidade admirável: o Senhor vem sem aparato, desconhecido de todos. Na Terra, só Maria e José participam na divina aventura. Depois, os pastores, avisados pelos Anjos. E mais tarde os sábios do Oriente. Assim acontece o facto transcendente que une o Céu à Terra, Deus ao homem!
Como é possível tanta dureza de coração que cheguemos a acostumar-nos a estes episódios? Deus humilha-Se para que possamos aproximar-nos d’Ele, para que possamos corresponder ao seu Amor com o nosso amor, para que a nossa liberdade se renda, não só ante o espectáculo do Seu poder, como também ante a maravilha da Sua humildade.
Grandeza de um Menino que é Deus! O Seu Pai é o Deus que fez os Céus e a Terra, e Ele ali está, num presépio, quia non erat eis locus in diversorio, porque não havia outro sítio na Terra para o dono de toda a Criação! (Cristo que passa, 18)

Nosso Senhor dirige-se a todos os homens, para que venham ao seu encontro, para que sejam santos. Não chama só os Reis Magos, que eram sábios e poderosos; antes disso tinha enviado aos pastores de Belém, não simplesmente uma estrela, mas um dos seus anjos. Mas tanto uns como outros – os pobres e os ricos, os sábios e os menos sábios – têm de fomentar na sua alma a disposição de humildade que permite ouvir a voz de Deus. (Cristo que passa, 33)


"Hoje brilhará sobre nós a luz, porque nos nasceu o Senhor!" Eis a grande novidade que comove os cristãos e que, através deles, se dirige à Humanidade inteira. Deus está aqui! Esta verdade deve encher as nossas vidas. Cada Natal deve ser para nós um novo encontro especial com Deus, deixando que a Sua luz e a Sua graça entrem até ao fundo da nossa alma. (Cristo que passa, 12)

Temas para meditar

A força do Silêncio, 165


O silêncio de Deus compreende-se pela fé, na meditação da comunhão que pode existir entre Ele e os homens.
O Silêncio divino é uma relação misteriosa.
Deus não é insensível ao mal.

Num primeiro momento, podemos pensar que Deus deixa que o mal destrua os homens.
Mas, embora Deus permaneça em silêncio, nem por isso sofre menos connosco por causa do mal que dilacera e desfigura a Terra.
Se procurarmos ficar com Deus no silêncio, compreenderemos a sua presença e o seu amor.


CARDEAL ROBERT SARAH

Evangelho e comentário

Tempo de Natal


Evangelho: Jo 1, 1-18

1 No princípio existia o Verbo; o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus.2 No princípo Ele estava em Deus. 3 Por Ele é que tudo começou a existir; e sem Ele nada veio à existência. 4 Nele é que estava a Vida de tudo o que veio a existir. E a Vida era a Luz dos homens. 5 A Luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam. 6 Apareceu um homem, enviado por Deus, que se chamava João. 7 Este vinha como testemunha, para dar testemunho da Luz e todos crerem por meio dele. 8 Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz. 9 O Verbo era a Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina. 10 Ele estava no mundo e por Ele o mundo veio à existência, mas o mundo não o reconheceu. 11 Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. 12 Mas, a quantos o receberam, aos que nele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. 13 Estes não nasceram de laços de sangue, nem de um impulso da carne, nem da vontade de um homem, mas sim de Deus.14 E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco. E nós contemplámos a sua glória, a glória que possui como Filho Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade. 15 João deu testemunho dele ao clamar: «Este era aquele de quem eu disse: ‘O que vem depois de mim passou-me à frente, porque existia antes de mim.’»16 Sim, todos nós participamos da sua plenitude, recebendo graças sobre graças. 17 É que a Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram-nos por Jesus Cristo. 18 A Deus jamais alguém o viu. O Filho Unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer.

Comentário:

Deus Criador conduz o Seu povo por etapas.
Começa por escolher o “fundador” desse povo na figura de Abraão a quem submete a várias provas para consolidar a sua confiança e obediência. Só se pode obedecer em quem se confia.
Dá-lhes uma série de regras a cumprir – a Lei Natural – a que se chamaram Mandamentos, da sua observância depende a Sua ‘amizade’ com esse mesmo povo, isto é, a manutenção do vínculo estabelecido com Abraão.
Finalmente, envia o Seu Filho para trazer «a graça e a verdade foram trazidas por Jesus Cristo» que serão indispensáveis para a salvação do homem.
Assim, se completam os planos e desígnios do Criador em relação ao homem.

(AMA, comentário sobre Jo 1, 1-18, 2012.12.31)









Leitura espiritual

MARIA, A MÃE DE JESUS 2


DEUS FALA DE MARIA

É um facto que o Evangelho fala relativamente pouco da Mãe de Jesus. Os textos mais extensos circunscrevem-se, principalmente, à concepção, nascimento e infância de Cristo.
No entanto, se o Evangelho fala pouco, ao mesmo tempo diz muito. Não acompanharemos aqui passo a passo todos os “evangelhos de Maria”.
Debruçar-nos-emos apenas sobre alguns textos evangélicos, guiados pelo desejo de captar o que acima se mencionava:
Que nos diz Deus de Maria?
O que é que Ele pensa e quer dela?
Simultaneamente, guiar-nos-á o propósito de verificar se a devoção a Maria, tal como a vivem os fiéis católicos, está em sintonia com a vontade de Deus.
Para este fim, parece-nos especialmente esclarecedor, como ponto de partida, meditar a narração de São Lucas sobre a Visitação de Maria a sua prima Santa Isabel.

Quando Maria se encaminhou à casa de Isabel, ainda soavam nos seus ouvidos e no seu coração os ecos da mensagem da Anunciação.
No seu seio, o Verbo – a segunda Pessoa da Santíssima Trindade – já se fizera carne.
Ela era mãe e, em seu corpo virginal, trazia Deus feito homem, formava-lhe um corpo.
Por uma alusão incidental do Anjo Gabriel na Anunciação, Maria tomou conhecimento de que também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na sua velhice; e este é o sexto mês daquela que se dizia estéril [i].
A sua reação imediata foi pensar que Isabel precisaria de ajuda.
E é por isso que vai sem demora oferecer o seu auxílio à prima idosa, que se preparava para a primeira experiência da maternidade:
Levantando-se Maria, foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel [ii].

Até aqui, o Evangelho apresenta uma cena de delicada caridade.
Mas, a partir desse momento da narrativa, a cena familiar do encontro das duas mulheres eleva-se a um plano diverso, ganhando uma significação inesperada.
Deus intervém.

São Lucas descreve o que se passou com os acentos do imprevisto:
«Aconteceu», diz. Passou-se algo que não era esperado. «Aconteceu que, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou no seu ventre e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Exclamou ela em alta voz e disse... [iii]».

Não há a menor dúvida de que o Evangelho mostra neste texto que Deus vai falar por boca de Isabel.
Vai falar como o fizera pelos Profetas, cheios do Espírito Santo; e todos sabemos que a voz dos Profetas era a voz de Deus:
“Deus falou outrora muitas vezes e de muitos modos aos nossos pais pelos Profetas” – assim começa a Epístola aos Hebreus [iv].
Agora dispõe-se a falar de novo.
Pensando bem, o que é que seria lógico esperar dos lábios de Isabel, quando o Espírito Santo a invade – a ela e ao filho que traz nas entranhas –, inundando-a da alegria de receber em sua casa o Salvador de que Maria é portadora, o Messias esperado por séculos e séculos a fio, o próprio Deus habitando entre os homens?
Em princípio, seria razoável esperar que, perante um facto de tal transcendência, Isabel – movida pelo Espírito Santo – entoasse um cântico de adoração e de agradecimento ao Deus, Senhor de céus e terra, que se dignava chegar a sua casa.
Diante da presença do Deus vivo, tudo se obscurece, todas as criaturas passam a um segundo plano, como sombras que, quando muito, refletem tenuemente os raios do Sol divino.
Certamente Isabel louva o seu Senhor e exulta n’Ele em alegre agradecimento. Mas a verdade é que todas as palavras que pronuncia são – do começo ao fim – um louvor e uma glorificação de Maria.
É Deus quem fala por ela – precisamos repisá-lo –, e em consequência essas palavras inspiradas expressam o que Deus nosso Senhor “pensa” e “quer dizer” daquela que escolheu como Mãe.
Prestemos atenção ao texto do Evangelho:

«...Isabel ficou repleta do Espírito Santo». Exclamou ela em alta voz e disse:
«Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que a mãe do meu Senhor venha ter comigo? Porque logo que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas» [v].

Cada palavra, cada frase, tem um peso.
Se acompanharmos o ritmo das expressões de Isabel, na sua sequência linear, perceberemos logo que começam com um louvor a Maria, que identifica a Virgem com a mulher abençoada por Deus de uma forma única entre todas as mulheres; e que se segue um louvor a Cristo, mas a Cristo contemplado através de Maria, precisamente como filho dela: «bendito o fruto do teu ventre».
Esta é a primeira palavra que Deus profere sobre Nossa Senhora por intermédio de Isabel.

Lê-se a seguir uma segunda frase, cujo significado é este: a proximidade de Maria, a presença e a conversa com a Virgem, é um bem, é uma bênção para a alma a quem Ela se chega.

«Donde me é dado que a mãe do meu Senhor venha ter comigo?»
 Isabel sente-se beneficiada por um dom imerecido.
Não se limita a agradecer à sua parenta a atenção que está tendo com ela; se se sente honrada, para além de todo o merecimento, é porque recebeu a visita da “Mãe do meu Senhor”.
É isto justamente o que a comove: que, diante dos seus olhos, está a Mãe de Deus, e a Mãe de Deus é portadora das bênçãos do céu.
Esta referência emocionada de Isabel ao dom, ao benefício recebido pela visita da Mãe do seu Senhor, torna-se ainda mais explícita e clara nas palavras que profere a seguir, com a fluência de um cântico:

«Porque logo que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre».

Só entenderemos cabalmente esta frase se não esquecermos que, pouco antes, São Lucas já se referira a um duplo efeito – um duplo dom – produzido pelas palavras de “saudação” proferidas por Maria:
Por um lado, a alegria sobrenatural de João Batista, que saltou no seio de sua mãe; por outro, a efusão do Espírito Santo na alma de Isabel. É da maior importância perceber que esse duplo dom, conforme diz o Evangelho, tenha sido concedido por Deus em virtude da presença de Maria.
O texto, com efeito, expressa uma autêntica relação de causalidade entre a chegada de Maria, a voz de Maria, e os dons divinos derramados na alma de Isabel e do seu filho.
Tudo aconteceu “apenas Isabel ouviu a voz de Maria”, «logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos», e aconteceu “por isso”.

Aqui não se está falando de sentimentos ou de reações emocionais subjectivas – do estado psicológico provocado humanamente pela visita de Maria –, mas de uma iniciativa divina, de uma acção directa de Deus sobre Isabel – «ficou repleta do Espírito Santo» –, que o Evangelho vincula a Maria como causa instrumental.
Deus agiu por intermédio d’Ela.
Também encerram uma grande riqueza as últimas palavras pronunciadas por Isabel. Trata-se de um novo louvor:
«Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas».
Se esta frase não se encontrasse no Evangelho, provavelmente acharíamos excessivo o que ela diz.
Surpreendentemente, Isabel – Deus por ela – afirma sem ambiguidades que “as coisas que da parte do Senhor foram ditas a Maria” se cumprirão porque Ela acreditou.
Ora, o que é que são essas coisas ditas da parte do Senhor, senão as que pouco antes o Anjo Gabriel anunciara à Virgem?
Darás à luz um filho..., será grande, será chamado Filho do Altíssimo..., reinará sobre a casa de Jacob eternamente, e o seu Reino não terá fim [vi].
Sem dúvida, as “coisas que foram ditas” são, nem mais nem menos, o plano divino da Redenção da humanidade através da Encarnação, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Então, também é fora de dúvida que Isabel afirma que este plano se há de cumprir porque Maria acreditou, isto é, porque abraçou com fé e confiança plenas o convite de Deus para ser a Mãe do Redentor.
Isto significa que Deus, em seus desígnios imperscrutáveis, quis fazer depender a Redenção da humanidade, de algum modo, da colaboração de Maria.
Por outras palavras, Deus quis contar com a Virgem Santíssima, não como simples instrumento passivo, mas como parte activa e colaboradora livre da obra da Redenção.
Estas considerações simples abrem-nos desde já como que uma janela, através da qual podemos contemplar o mistério de Maria a partir da perspectiva de Deus, e, simultaneamente, permitem-nos avaliar – segundo a mesma perspectiva – o sentido da devoção que o povo cristão dedica a Maria Santíssima.
Na verdade, esses “pensamentos” de Deus são verdadeiros focos de luz, que iluminam por dentro os mistérios da vida e da vocação de Nossa Senhora.

(cont)

FRANCISCO FAUS. [vii]




[i] Lc 1,36
[ii] Lc 1, 39-40
[iii] Lc 1, 41-42
[iv] 1, 1
[v] Lc 1, 41-45
[vi] Lc 1, 31-32
[vii] MARIA, A MÃE DE JESUS QUADRANTE, São Paulo Copyright © 1987 Quadrante, Sociedade de Publicações Culturais

Diálogos apostólicos - II Parte

O DIVÓRCIO – 1 

A. O PROBLEMA DO DIVÓRCIO


Pergunto:

Que bens protege o casamento?


Respondo:

A indissolubilidade matrimonial guarda vários bens:
A estabilidade, a paz e a segurança pessoal, familiar e social. A segurança de amor e afecto na velhice.
A educação, crescimento harmónico e estabilidade afectiva dos filhos. Por vezes até a sua alimentação.
A dignidade do corpo humano que não deve ser objecto de troca (hoje com uma pessoa, amanhã com outra).

A indissolubilidade também protege o amor, compreensão e ajuda mútua entre os esposos, sobretudo quando existem dificuldades, pois o saberem-se unidos para sempre ajuda a pôr o esforço necessário para uma convivência melhor.

Natal. É Deus que nos pede esmola. (2017)

Neste Natal em que tanta gente tem de recorrer à esmola e tanta outra procura atender generosamente essa dolorosa necessidade, é bom ver Nosso Senhor também a pedir esmola e a agradecer a esmola que Lhe dermos, a Ele directamente, pelo amor, e a todos os que passam fome e com quem Ele se identificam: «Porque tive fome e me destes de comer, sede e me destes de beber, estava nu e me vestistes…», enfim, porque «tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes…» (Mt 25, 35 e 40).

Grande mistério, que a todos nos comove: o próprio Deus, Deus Criador e Omnipotente, a pedir e a agradecer esmolas das suas criaturas!

É uma verdade estranha, mas evidente; e quanto mais evidente, mais estranha parece. Mas não veio Ele pedir-nos licença de entrar neste nosso mundo? Ele, que é o Senhor do mundo; Ele, «em Quem nós nos movemos, existimos e somos» (Act 17, 28); Ele que nos criou e nos mantém na existência; Ele, Deus todo-poderoso; não envia porventura um embaixador insigne, um Príncipe celestial, a pedir a uma menina de Nazaré a esmola de O receber no seu seio?
Mistério maravilhoso! Estabelece-se um diálogo diplomático; ela pergunta em que condições o Senhor deseja ser concebido; é esclarecida; e, com a maior simplicidade, responde que sim. - Sim, Senhor Embaixador, aceito Deus como meu Filho. Pode entrar no meu seio desde já. «Faça-se em mim, segundo a tua palavra» (Lc 1, 38).

Porque é que o Senhor é tão cerimonioso e delicado? Porque precisa de nos pedir licença para encarnar?

Reparemos na diferença entre a filiação humana e a procriação animal: a mesma que há entre o homem e o animal - a consciência e a liberdade. A geração humana é consciente e livre; a procriação animal é inconsciente e fatal.

Nosso Senhor quis ser verdadeiramente «filho do homem», isto é, verdadeiro homem, entrando no mundo segundo uma autêntica e plena geração humana. Podia ter assumido natureza humana sem mãe nem pai, mas nesse caso seria para nós um extra-terrestre; teria uma natureza igual à nossa, mas não faria parte da nossa natureza. Não faria parte da humanidade que vinha salvar. Ou podia nascer de uma mulher, sem lhe pedir licença, mas, nesse caso, não teria verdadeira mãe, não seria verdadeiro filho nosso, da nossa raça; seria um intruso; a sua entrada no mundo seria uma violência divina.

Nosso Senhor fez-Se verdadeiro pedinte. Pediu primeiro um coração e um seio maternos. As crianças não pedem a sua própria concepção, porque só existem a partir dela; mas Cristo é anterior à sua própria concepção, e pediu-a expressamente. E continuou a pedir: pediu para vir ao mundo dentro de uma família, e isso já foi mais difícil, porque José demorou a compreender o pedido. Foi preciso explicar-lhe que, embora Ele não fosse filho seu pela carne, queria ser Filho seu por vontade divina… E também José acabou por aceitá-Lo como verdadeiro pai. Como dizia Santo Agostinho, «à piedade e caridade de José nasceu o Filho da Virgem Maria, que é o mesmo Filho de Deus». (Sermo 51, 30). Quem afirma que Ele não é filho de José por não ter sido gerado carnalmente, explica o santo doutor, dá mais importância à libido do que ao amor, quando o amor é que determina a paternidade humana (Cf. idem, 26). Enfim, assim como Maria não O gerou pela carne, mas pelo Espírito Santo, também José O recebeu do Pai pelo seu Espírito de Amor.

Pediu um pai, pediu uma família, pediu toda uma parentela, como qualquer homem recebe desde o primeiro momento; pediu que O deixássemos nascer e uma casa onde vir ao mundo… Essa foi a primeira esmola que Lhe recusámos. Fechámos-Lhe todas as portas. E teve de vir à luz na escuridão de uma toca de animais!

«Coitadinho de Nosso Senhor!», dizemos nós agora, como os Pastorinhos em Fátima, ao contemplá-Lo agora no presépio. Tem algum sentido esta exclamação? Sim, é a expressão da nossa misericórdia; misericórdia é a virtude que consiste na compaixão pelas carências alheias e nos leva a socorrer quem padece alguma necessidade; é a virtude que nos leva a partilhar a miséria dos outros e a procurar remediá-la; da misericórdia é que procede a esmola; e a primeira esmola é precisamente a compaixão, a companhia de outrem no seu sofrimento. Mas isto remedeia alguma coisa? Com certeza, sobretudo quando uma das coisas de que o próximo mais necessita é o nosso amor.

Ora, o que buscava Jesus Cristo no mundo não eram certamente as coisas materiais, porque d’Ele é tudo o que existe; o que buscava e continua a buscar é o nosso coração, o nosso amor. Isso era o que mais queria e vinha pedir-nos. Se lho damos agora, estamos a remediar, de facto, o que de nós esperava nessa altura e continua a esperar.

H.A (em «Celebração Litúrgica» 1 /2017-2018)

Bento XVI – Pensamentos espirituais 168

Jesus e a Igreja

Reconciliação

Para respondermos à chamada de Deus e nos metermos ao caminho, não precisamos de ter atingido a perfeição. Sabemos que a consciência do pecado permitiu ao filho pródigo empreender o caminho de regresso e experimentar, assim, a alegria da reconciliação com o Pai.

As fragilidades e as limitações humanas não constituem obstáculo, desde que contribuam para nos tornarmos cada vez mais conscientes da necessidade que temos da graça redentora de Cristo.

Mensagem para o 43.e Dia Mundial de Oração pelas Vocações, (30.Mar.06)

(in “Bento XVI, Pensamentos Espirituais”, Lucerna 2006)

Pequena agenda do cristão

SeGUNDa-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





24/12/2017

Tempos diários de oração

Se desejas deveras ser alma penitente – penitente e alegre –, deves defender, acima de tudo, os teus tempos diários de oração, de oração íntima, generosa, prolongada, e hás-de procurar que esses tempos não sejam ao acaso, mas a hora fixa, sempre que te for possível. Sê escravo deste culto quotidiano a Deus, e garanto-te que te sentirás constantemente alegre. (Sulco, 994)


Como anda a tua vida de oração? Não sentes às vezes, durante o dia, desejos de falar mais devagar com Ele? Não Lhe dizes: logo vou contar-te isto e aquilo; logo vou conversar sobre isso contigo?

Nos momentos dedicados expressamente a esse colóquio com o Senhor o coração expande-se, a vontade fortalece-se, a inteligência – ajudada pela graça – enche a realidade humana com a realidade sobrenatural. E, como fruto, sairão sempre propósitos claros, práticos, de melhorares a tua conduta, de tratares delicadamente, com caridade, todos os homens, de te empenhares a fundo – com o empenho dos bons desportistas – nesta luta cristã de amor e de paz.

A oração torna-se contínua como o bater do coração, como as pulsações. Sem essa presença de Deus não há vida contemplativa. E sem vida contemplativa de pouco vale trabalhar por Cristo, porque em vão se esforçam os que constroem se Deus não sustenta a casa.


Para se santificar, o cristão corrente – que não é um religioso e não se afasta do mundo, porque o mundo é o lugar do seu encontro com Cristo – não precisa de hábito externo nem sinais distintivos. Os seus sinais são internos: a constante presença de Deus e o espírito de mortificação. Na realidade, são uma só coisa, porque a mortificação é apenas a oração dos sentidos. (Cristo que passa, nn. 8–9)

Temas para meditar

A força do Silêncio, 159




A maior dificuldade do homem é procurar Deus no silêncio.

Essa luz silenciosa não é palavra humana, mas luz humilde e pobre.




CARDEAL ROBERT SARAH

Evangelho e comentário

Tempo do Advento


Evangelho: Lc 1, 26-38

26 Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, 27 a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. 28 Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.» 29 Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação. 30 Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. 31 Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. 32 Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, 33 reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.» 34 Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» 35 O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. 36 Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, 37 porque nada é impossível a Deus.» 38 Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo retirou-se de junto dela.

Comentário:

A Liturgia repete este texto de São Lucas precisamente na véspera do dia em que celebramos o nascimento do Salvador.

E, evidentemente, tem uma intenção clara ao fazê-lo:
Que todos os cristãos retenham de forma indelével os acontecimentos que marcaram para sempre a humanidade.

Não podemos senão imaginar esta cena íntima, reservada, simples e solene ao mesmo tempo.
O que foi dito pelo Anjo, o que a Senhora respondeu; à grandeza do anúncio pergunta como será; obtida a resposta aceita rendidamente a Vontade de Deus.

Mas, e além disso, aquela que foi escolhida e designada como única entre todas as mulheres declara-se escrava, humilde e simples e, por isso mesmo não diz ‘quero… aceito’ mas «faça-se a Sua Vontade».

(AMA, comentário sobre, Lc 1, 26-38, 15.09.2017)






Leitura espiritual

MARIA, A MÃE DE JESUS

MARIA NA PERSPECTIVA DE DEUS UM TESTAMENTO DE CRISTO

Faltam apenas alguns minutos para que Cristo, no alto da Cruz, entregue a sua alma ao Pai.
O Seu olhar inclina-se para baixo e busca primeiro os olhos de sua Mãe; depois, desvia-se para João, o discípulo amado.
Os seus lábios esforçam-se por articular umas poucas palavras. Jesus está exausto, agonizante, mas quer falar.
A sua voz enfraquecida esforça-se por dizer exatamente o que o Filho de Deus, naquele momento em que se consuma a Redenção dos homens, está querendo dizer.
Vendo Jesus a sua Mãe e junto dela o discípulo que ele amava, disse à sua Mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí a tua Mãe. E, desta hora em diante, o discípulo a levou para sua casa [i].
É da maior importância perceber o que Cristo, nessa hora, realmente quis afirmar.
O seu pensamento humano tinha toda a lucidez do pensamento divino; e, por sua vez, essas derradeiras palavras, pouco antes de morrer, possuíam a força de uma mensagem precisa, que devia ficar gravada sem equívocos, pois expressava uma “última vontade” de Deus feito homem.
Qual foi, portanto, o sentido dessa dupla afirmação: “Eis a tua Mãe” e “eis o teu filho”?
Para o compreendermos com exatidão, pode ser conveniente que pensemos primeiro naquilo que Jesus não disse.
Poderia, por exemplo, ter pedido a João:
 “Cuida da minha Mãe, toma conta dela”.
Mas não o disse, e seria pouco explicável que a sua intenção se polarizasse apenas nisso – o cuidado material da Mãe –, tendo em conta que Maria, conforme sabemos pelo Evangelho, tinha perto dela parentes próximos, que eventualmente a podiam atender, e nos consta que em parte já o estavam fazendo [ii].
Também não teria sido lógico que, com as palavras “Eis aí o teu filho”, quisesse
e colocar o discípulo sob o amparo de uma nova mãe adoptiva, Maria. É bem conhecido, pelo Evangelho, que o discípulo amado tinha a mãe viva, Salomé, que esta era uma das santas mulheres que fielmente seguiam Jesus [iii], e que, além disso, zelava maternalmente, até exageradamente, pelos seus filhos Tiago e João, ao ponto de ter pedido a Cristo que lhes concedesse os primeiros lugares no seu Reino [iv].
Fica excluído, por isso, que na sua última hora Jesus tenha pretendido resolver apenas, ou principalmente, problemas relativos ao futuro da Mãe ou do discípulo.
Resta então uma só hipótese, a que se depreende das palavras de Jesus, tal como João – que escreve no Evangelho as suas recordações vividas – as compreendeu. João era, na agonia de Jesus, o único discípulo que se encontrava ao pé da Cruz.
E é precisamente com essa palavra – “discípulo” – que se designa a si mesmo.
Entende que a sua condição de discípulo de Jesus vale mais do que o seu nome e a sua ascendência.
Naquele momento, com efeito, ele era acima de tudo “o discípulo”, aquele que encarnava e, por assim dizer, representava todos os discípulos, mais ainda, todos os homens resgatados na Cruz pelo divino Mestre e chamados a segui-Lo.
Sendo assim, a intenção de Cristo torna-se transparente.
Está proclamando uma nova e sobrenatural maternidade, atribuída por Deus a Maria sobre todos os chamados a ser discípulos do Redentor.
É a clara expressão da Vontade de Deus, que confere a Maria – dentro dos planos da Salvação – uma maternidade de ordem espiritual sobre todos os homens e, especialmente, sobre aqueles que, por serem “discípulos”, têm em Jesus, o Filho de Maria, o Primogénito entre muitos irmãos [v].
Toda a vinculação da alma cristã com Maria se resume, assim, nos laços de uma relação filial: “Eis a tua Mãe”.
Ora, a filiação – como a maternidade – é um vínculo real e também, inseparavelmente, um sentimento; e o sentimento, mais do que a razão, atinge o coração, aquelas fibras secretas e íntimas da afectividade que a razão só muito a custo consegue penetrar.
Tendo a devoção a Maria – o amor filial a Maria – raízes fundas e próprias no coração dos cristãos, é natural que extravase com frequência naqueles modos e “razões do coração” que – como dizia Pascal – “a razão não conhece”. E é também explicável que esse amor filial, ao desabrochar ao ritmo pouco esquematizado do afecto, se expresse em transbordamentos cordiais e detalhes espontâneos, que façam estremecer os moldes mentais um tanto geométricos do pensamento racionalista.
Seria muito difícil chegar a ter autêntico acesso a uma mãe pela via do raciocínio filosófico ou da lógica estreita e bem comportada. Sem dúvida é por isso – melhor, por não ter compreendido isso – que alguns se escandalizam com o que julgam “exageros” católicos da devoção a Maria.
Quem é que não conta no seu histórico com a lembrança de uma conversa – talvez de uma discussão – com um amigo protestante de boa fé, que recriminava à Igreja Católica os “absurdos” da devoção a Maria? – Vocês, os católicos, fazem da devoção a Nossa Senhora uma idolatria; será que não percebem que esse culto a Maria chega a ser uma verdadeira superstição? Até parece que colocam Maria num plano de igualdade ou mesmo acima de Cristo, esquecendo-se de que só Ele é o Salvador, o único Mediador entre Deus e os homens...

Uma vez por outra, todos tivemos de tentar esclarecer invectivas deste tipo.
Na realidade, a única coisa que essas censuras pretendem afirmar é que a Igreja Católica, com a devoção a Maria – santuários, rezas, velas, procissões, imagens em todas as igrejas, nos lares, etc. – se teria afastado da pureza do Evangelho, introduzindo no cristianismo uma excrescência espúria, ou no mínimo um exagero supersticioso, que toldaria, se não desvirtuaria, a autenticidade evangélica da fé cristã.
É possível que, ao surgirem essas questões, nos tenhamos esforçado por aduzir as nossas razões em favor da devoção a Maria.
Se eram apenas razões pessoais, mal fundamentadas, pouco peso podiam ter.

Na realidade, o que afinal importa não é o que nós, católicos ou protestantes, possamos pensar ou dizer particularmente a respeito da Mãe de Jesus.
O que é absolutamente decisivo é o que Deus pensa e diz de Maria.

Estas páginas pretendem ser, sobretudo, uma escuta atenta e serena precisamente disso: que nos diz Deus sobre Maria?

O que é que Ele afirma sobre o papel de Maria na salvação dos homens?
 Uma vez colocado assim o problema, é natural que se levante uma pergunta: como é que nós podemos sabê-lo?

Se Deus não tivesse falado, certamente não o poderíamos.
Acontece, porém, que Deus falou. Se há um ponto de absoluta coincidência entre todos os cristãos, católicos ou não, é que a Bíblia contém a palavra de Deus, e que essa palavra se tornou plena na Palavra – no Verbo – que se fez carne, isto é, em Jesus Cristo e no seu Evangelho.
É nele, portanto, que deve ser buscada e achada a resposta, antes de mais nada.
Qualquer esclarecimento válido deve mergulhar aí as suas raízes e deduzir daí as suas conclusões.

(cont)

FRANCISCO FAUS. [vi]




[i] Jo 19, 26-27
[ii] cfr Mc 3, 31
[iii] cfr Mc 15, 40-41
[iv] cfr. Mt 20, 20 e segs.
[v] Rom 8, 29
[vi] MARIA, A MÃE DE JESUS QUADRANTE, São Paulo Copyright © 1987 Quadrante, Sociedade de Publicações Culturais