25/12/2016

Onde está o Rei dos judeus que acaba de nascer?

A humildade é outro bom caminho para chegar à paz interior. – Foi Ele que o disse: "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração... e encontrareis paz para as vossas almas". (Caminho, 607)

Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Também eu, instado por esta pergunta, contemplo agora Jesus, deitado numa manjedoura, num lugar que só é próprio para os animais. Onde está, Senhor, a tua realeza: o diadema, a espada, o ceptro? Pertencem-lhe e não os quer; reina envolto em panos. É um rei inerme, que se nos apresenta indefeso; é uma criança. Como não havemos de recordar aquelas palavras do Apóstolo: aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo.

Nosso Senhor encarnou para nos manifestar a vontade do Pai. E começa a instruir-nos estando ainda no berço. Jesus Cristo procura-nos – com uma vocação, que é vocação para a santidade –, a fim de consumarmos com Ele a Redenção. Considerai o seu primeiro ensinamento: temos de co-redimir à custa de triunfar, não sobre o próximo, mas sobre nós mesmos. Tal como Cristo, precisamos de nos aniquilar, de sentir-nos servidores dos outros para os conduzir a Deus.

Onde está o nosso Rei? Não será que Jesus quer reinar, antes de mais, no coração, no teu coração? Por isso se fez menino: quem é capaz de ter o coração fechado para uma criança? Onde está o nosso Rei? Onde está o Cristo que o Espírito Santo procura formar na nossa alma? Cristo não pode estar na soberba, que nos separa de Deus, nem na falta de caridade, que nos isola dos homens. Aí não podemos encontrar Cristo, mas apenas a solidão.

No dia da Epifania, prostrados aos pés de Jesus Menino, diante de um Rei que não ostenta sinais externos de realeza, podeis dizer-lhe: Senhor, expulsa a soberba da minha vida, subjuga o meu amor-próprio, esta minha vontade de afirmação pessoal e de imposição da minha vontade aos outros. Faz com que o fundamento da minha personalidade seja a identificação contigo. (Cristo que passa, 31)


Evangelho e comentário

Tempo do Natal

Evangelho: Jo 1, 1-18

No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, Ele estava com Deus. Tudo se fez por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito. N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas e as trevas não a receberam. Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. O Verbo era a luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem. Estava no mundo e o mundo, que foi feito por Ele, não O conheceu. Veio para o que era seu e os seus não O receberam. Mas àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai como Filho Unigénito, cheio de graça e de verdade. João dá testemunho d’Ele, exclamando: «É deste que eu dizia: ‘O que vem depois de mim passou à minha frente, porque existia antes de mim’». Na verdade, foi da sua plenitude que todos nós recebemos graça sobre graça. Porque, se a Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer.

Comentário:

São João dá-nos a exacta compreensão da Pessoa de Jesus Cristo: a Luz!

Mas trevas da morte da alma, do abismo dos desaires e dificuldades da vida corrente, no desânimo das missões por cumprir, na frustração da incapacidade de vencer o nosso orgulho que nos amarra a precon­ceitos e juízos temerários, enfim, na amálgama dos nossos defeitos e fraquezas, das faltas de confiança e coragem, a Luz de Cristo ilumina o nosso caminho, toda a nossa vida.

Seguir essa Luz é o bastante para alcançarmos a felicidade.

(ama, comentário sobre Jo 1, 1-18, 25.12.2000)



Leitura espiritual

Leitura espiritual




A Cidade de Deus 


Vol. 1

CAPÍTULO X

Os santos nada perdem quando perdem as coisas temporais.

…/2
Diz-se que uma prolongada fome matou muitos cristãos.
Também isto converteram em seu proveito os autênticos homens de fé, suportando-a com espírito de religião.
A fome, ao tirar-lhes a vida, como se fora uma enfermidade corporal, libertou-os dos males desta vida. Porém, aos que não matou, ensinou-lhes a viverem mais sobriamente e a jejuarem mais prolongadamente.

CAPÍTULO XI

Fim da vida temporal — longa ou breve.

Muitos foram na verdade os cristãos massacrados.
Muitos foram consumidos em hedionda variedade de muitas mortes. Isto é duro de suportar, mas é comum a todos os que foram gerados para esta vida. Uma coisa sei: ninguém teria morrido se não existisse para morrer um dia.
O fim da vida torna igual a vida longa à vida breve. Efectivamente, de duas coisas que já não existem nem uma é melhor nem a outra é pior; nem uma é mais longa nem a outra é mais breve. Que importa o género de morte que acabará com esta vida — quando ao que morre não se obrigará que morra de novo?
A cada mortal o ameaçam mortes de todos os lados. Nos quotidianos azares desta vida, enquanto durar a incerteza acerca de qual das mortes surgirá, eu pergunto se não será preferível suportar uma morrendo, a ser por todas ameaçado vivendo.
Não ignoro quão depressa preferimos viver longos anos sob o temor de tantas mortes, a morrermos de uma vez e já não temermos diante de nenhuma. Mas uma coisa é o que o sentido carnal, fraco como é, repele por medo — e outra o que a razão, convenientemente esclarecida, convence.
Não deve considerar-se má a morte que uma vida virtuosa precede. Na verdade, o que torna má a morte mais não é que o que à morte se segue. Àqueles que necessariamente hão-de morrer não deve preocupar muito o que acontecerá para que morram, mas antes para onde terão de ir irremediavelmente depois da morte. Os cristãos sabem que foi muito melhor a morte do pobre piedoso entre os cães que o lambiam, do que a do ímpio rico entre púrpuras e linhos. Em que podem então prejudicar aos que viveram sem mácula as formas horríveis de morrer?

CAPÍTULO XII

Mesmo que tenha sido negada sepultura aos corpos humanos — com isso de nada são privados os cristãos.

Tão grande era o montão de cadáveres, que nem os puderam sepultar. A fé autêntica nenhum medo tem disso, pois, tendo presente o que foi predito, — nem as feras devoradoras impedirão a ressurreição dos corpos daqueles de quem nem sequer um dos cabelos se perderá. De maneira nenhuma a Verdade teria dito  
não temais os que matam o corpo mas não podem matar a alma [i], se constituísse obstáculo para a vida futura o quer que fosse que quisessem fazer os inimigos nos corpos dos mortos.
Ninguém haverá tão insensato que sustente que, antes de sermos mortos, não devemos temer os que matam o corpo, mas devemos temer sim os que impedem que se dê sepultura aos cadáveres. Seria então falso o que Cristo disse:
Os que matam o corpo e depois já nada mais lhe podem fazer[ii],
se tivessem alguma coisa de importante a fazer ao cadáver. Longe de nós pensar que é falso o que disse a Verdade. Diz-se que eles realmente algum dano causam quando matam, pois, que o corpo tem sensações ao morrer.
Depois, já nada há a fazer, porque já não há sensibilidade no corpo morto. Na verdade, a terra não cobriu muitos corpos cristãos; mas o que não conseguiram foi expulsar ninguém dos espaços do Céu e da Terra, cheios como estão da presença d’Aquele que sabe onde fará surgir, pela ressurreição, o que Ele mesmo criou. Diz realmente o salmo:
Deixaram os cadáveres dos teus servos em pasto às aves do céu e a came dos teus santos às feras da terra. Derramaram o seu sangue como água à volta de Jerusalém e não havia quem os sepultasse[iii].
Mas estas palavras são mais para vincarem a crueldade dos que tal fizeram do que o infortúnio dos que tal sofreram.
Embora estas coisas pareçam efectivamente duras e cruéis aos olhos dos homens, todavia
preciosa é aos olhos de Deus a morte dos seus santos [iv].
Portanto, tudo isto, ou seja: os cuidados fúnebres, a qualidade da sepultura ou a solenidade das exéquias, constituem mais uma consolação dos vivos do que um alívio dos defuntos. Se ao ímpio serve de proveito uma sepultura de alto preço, ao piedoso tanto faz uma ordinária ou mesmo nenhuma. Brilhantes funerais, aos olhos humanos, prestou a multidão dos seus servidores ao famoso rico purpurado. Mas muito mais brilhantes perante o Senhor ofereceu ao pobre coberto de úlceras o exército dos anjos que não lhe erigiram um túmulo de mármore mas o colocaram no seio de Abraão.

Disto se rirão aqueles contra os quais decidimos defender a Cidade de Deus. Todavia, também os seus filósofos têm mostrado desprezo pelo cuidado com a sua sepultura. E até exércitos inteiros, ao morrerem pela pátria terrena, se não preocuparam com o lugar onde viriam a jazer nem de que feras seriam alimento. A este propósito puderam dizer os poetas com aplauso dos seus leitores:
Quem não tem uma é coberto pelo céu [v].

De forma nenhuma devem insultar os cristãos por causa dos corpos insepultos. A eles foi prometida a reforma da própria carne e de todos os membros, não somente à custa da terra mas ainda do seio mais secreto dos outros elementos em que se tenham convertido os cadáveres ao se desintegrarem. Num instante voltarão à sua integridade.

CAPÍTULO XIII

Porque se devem sepultar os corpos dos santos.

Mas nem por isso se devem desprezar e abandonar os corpos dos defuntos, principalmente os dos justos e dos fiéis dos quais o Espírito se serviu santamente como órgãos e receptáculos de todo o género de boas obras. Se as vestes e o anel dos pais, bem como as coisas deste género, são tanto mais queridos dos descendentes quanto maior tiver sido o afecto para com os pais, de maneira nenhuma se devem desprezar os corpos com os quais mantivemos muito mais familiaridade e intimidade do que com qualquer peça de vestuário que se usa. O corpo é parte natural do homem e de modo nenhum é um ornamento ou instrumento que se usa por fora. Por isso é que os funerais dos antigos justos eram tidos por um dever de piedade: celebravam-se exéquias e concedia-se sepultura. Eles próprios, enquanto vivos, deixavam instruções a seus filhos acerca do sepultamento e da trasladação dos seus corpos.
É louvado Tobias, que, por enterrar os mortos, alcançou, segundo o testemunho de um anjo, merecimento perante Deus. Também o próprio Senhor, que havia de ressuscitar ao terceiro dia, elogia a boa acção da mulher piedosa, — ou seja a de ela ter derramado um precioso unguento sobre os seus membros com vista à sepultura — e recomenda que essa acção seja divulgada como boa. E com louvor são lembrados no Evangelho aqueles que com delicadeza tiraram da cruz o seu corpo, com respeito o amortalharam e sepultaram. Porém estes documentos autorizados não pretendem convencer-nos de que nos cadáveres haja alguma sensibilidade: mas que a divina Providência, à qual agradam estes deveres de piedade porque reafirmam a nossa fé na ressurreição, se interessa também pelos corpos dos mortos. Também aqui nos é dada uma salutar lição: se, perante Deus, nem as obrigações e cuidados dispensados aos membros já sem vida dos homens perecem — quão grande será a recompensa que nos espera pelas esmolas que oferecemos aos que ainda têm vida e sensibilidade!

Há outras disposições que os santos patriarcas quiseram proferir com significado profético acerca da sepultura ou da trasladação dos seus corpos — mas para tratar disso não é este o lugar próprio. Basta o que já dissemos.

Quanto aos bens necessários ao sustento dos vivos, tais como o alimento e o vestuário, se é certo que a sua falta causa grave doença, também é certo que isso não quebra nos bons a fortaleza perante o sofrimento, nem arranca da alma a piedade, mas antes a torna mais fecunda pelo exercício. Quão menos se hão-de sentir infelizes os justos quando lhes faltam com os cuidados que é costume empregarem-se nos funerais e no sepultamento dos corpos dos defuntos — estando eles já em paz nas misteriosas moradas dos santos! Por isso quando, no saque daquela grande Urbe ou na de qualquer outra cidade, faltaram aos cadáveres dos cristãos estes cuidados, não houve culpa dos vivos que os não podiam prestar, nem pena para os mortos que a não podiam sentir [vi].

(cont)
(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] 1 Nolite timere eos qui corpus occidunt, animam autem non possunt occidere.
Mat., X, 28.
[ii] 2 Qui corpus occidunt et postea non habent quod faciant.
Luc., XII, 4
[iii] Posuerunt mortalia servorum tuorum escam volatilihus caeli, cames sanctorum tuorum bestiis terrae; effuderunt sanguinem eorum sicut aquam in circuitu Hierusalem, et non erat qui sepeliret.
Salmo LXXVIII, 2-3.
[iv] 4 Pretiosa in conspectu Domini mors sactorum ejus.
Salmo CXV, 15.
[v] 5 Caelo tegitur, qui non habet umam.
Lucano, Farsália, VII, 819.
[vi] Honras fúnebres.
Os pagãos ligaram às honras fúnebres uma importância exagerada.
Receavam que os mortos voltassem para apoquentar os vivos no caso denão lhes serem prestadas de forma condigna as respectivas honras fúnebres.
Depois deles, também muitos cristãos julgavam que os mortos não se levantariam no último dia ressurgindo, no caso de as suas ossadas terem sido impiamente dispersadas ou de o seu corpo ter ficado insepulto.
Contra estes exageros e a pedido de Paulino de Nola, escreveu Agostinho em 421 o tratado «De cura pro mortuis gerenda», expondo uma doutrina de respeito pelo corpo humano que foi templo de Deus, habitáculo do Espírito Santo e órgão e instrumento da alma para o bem, mas sem esquecer que para o cristão seria indiferente que o corpo tenha sido queimado ou devorado ou inumado.

Actos dos Apóstolos

Actos dos Apóstolos

I. A IGREJA DE JERUSALÉM [i]

Capítulo 5

Milagres dos Apóstolos

12Entretanto, pela intervenção dos Apóstolos, faziam-se muitos milagres e prodígios no meio do povo. Reuniam-se todos no Pórtico de Salomão 13e, dos restantes, ninguém se atrevia a juntar-se a eles, mas o povo não cessava de os enaltecer.

14Sempre em maior número, juntavam-se, em massa, homens e mulheres, acreditando no Senhor, 15a tal ponto que traziam os doentes para as ruas e colocavam-nos em enxergas e catres, a fim de que, à passagem de Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles. 16A multidão vinha também das cidades próximas de Jerusalém, transportando enfermos e atormentados por espíritos malignos, e todos eram curados.



[i] (1,12-6,7)

Graus da perfeição - 16

17 Graus da perfeição


16. Recordar-se sempre de que não se veio senão para ser santo, e, assim, não consentir que reine na alma o que não leve à santidade.


(são joão da cruz, em Pequenos Tratados Espirituais)


(tradução por ama)

Doutrina – 216

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Compêndio


PRIMEIRA PARTE: A PROFISSÃO DA FÉ
SEGUNDA SECÇÃO: A PROFISSÃO DA FÉ CRISTÃ
CAPÍTULO SEGUNDO

CREIO EM JESUS CRISTO, O FILHO UNIGÉNITO DE DEUS
«JESUS CRISTO PADECEU SOB PÔNCIO PILATOS, FOI CRUCIFICADO, MORTO E SEPULTADO»

120. Como se manifesta na última Ceia a oferta de Jesus?


Na última Ceia com os Apóstolos, na vigília da paixão, Jesus antecipa, isto é, significa e realiza antecipadamente a oferta voluntária de Si mesmo: «este é o meu corpo entregue por vós», «este é o meu sangue, que é derramado...» (Lc 22,19-20). Ele institui assim ao mesmo tempo a Eucaristia como «memorial» (1 Cor 11,25) do seu sacrifício e os seus Apóstolos como sacerdotes da nova Aliança.

Tratado da vida de Cristo 140

Questão 50: A morte de Cristo

Art. 2 — Se na morte de Cristo a divindade se separou da carne.

O segundo discute-se assim. — Parece que na morte de Cristo a divindade se separou da carne.

1. — Pois, como refere o Evangelho, o Senhor pendente da cruz exclamou: Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste? O que Ambrósio assim explica: Era o clamor do homem, no momento de morrer, pela separação da divindade; pois, a morte não tendo poder sobre a sua divindade, Cristo não podia morrer senão por ter-se a divindade, que é a vida, separado dele. Donde parece que na morte de Cristo a divindade se lhe separou da carne.

2. Demais. — A remoção do meio separa os extremos. Ora, a divindade está unida à carne mediante a alma, como se estabeleceu. Donde parece que, na morte de Cristo, a alma se separou da sua carne e, por consequência, dela também se separou a divindade.

3. Demais. — Maior é o poder vivificador de Deus que o da alma. Ora, o corpo não podia morrer senão pela separação da alma. Logo, com maior razão, não podia senão pela separação da divindade.

Mas, em contrário, os atributos da natureza humana não se predicam do Filho de Deus senão por causa da união, como se estabeleceu. Ora, do Filho de Deus se atribui o ser sepulto, que convém ao corpo de Cristo depois da morte. Isso o mostra o símbolo da fé, quando diz: O Filho de Deus foi concebido, nasceu da Virgem, sofreu, foi morto e sepultado. Logo, o corpo de Cristo, na morte,  não se separou da sua divindade.

O que Deus concede por graça nunca nos é tirado senão por nossa culpa. Por isso diz o Apóstolo: Os dons e a vocação de Deus são imutáveis. Ora, muito maior é a graça da união, pela qual a divindade se uniu à carne na pessoa de Cristo, que a graça da adopção, pela qual os outros são santificados. E também perdura mais, por natureza, porque essa graça se ordena à união pessoal, ao passo que a graça de adopção se ordena a uma união de certo modo afectiva. E, contudo vemos que a graça de adopção nunca é perdida sem culpa. Ora, Cristo não teve nenhum pecado. Logo, era impossível que se lhe rompesse a união entre a divindade e a carne. Donde, assim como antes da morte, a carne de Cristo estava unida, segundo a pessoa e a hipóstase, ao Verbo de Deus, assim lhe permaneceu unida depois da morte. De modo que não fosse uma a hipóstase do Verbo de Deus e outra a da carne de Cristo, depois da morte, como o diz Damasceno.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — O abandono referido não respeita à solução da união pessoal, mas ao facto de Deus Pai o ter exposto à Paixão. Assim, abandonar, no lugar citado, não significa senão proteger contra os perseguidores. — Ou Cristo se dizia abandonado, referindo-se ao pedido em que dizia: Pai, se é possível, passe este cálice de mim, como o expõe Agostinho.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Diz-se que o Verbo de Deus está unido à carne mediante a alma, porque a carne faz parte, por meio da alma, da natureza humana, que o Filho de Deus pretendia assumir. Não, porém, que a alma estivesse unida como um meio termo de ligação. Pois, a carne pertence à natureza humana, em virtude da alma, mesmo depois de separada esta daquela. Porque a carne morta conserva ainda, por ordenação divina, uma certa disposição para a ressurreição. Por isso não desapareceu a união da divindade com a carne.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A alma tem o poder de vivificar, como forma. Donde, enquanto presente ao corpo e com ele unida formalmente, há de ele necessariamente ser vivo. Ora, a divindade não tem a virtude de vivificar formalmente, mas efectivamente; pois, não pode ser a forma do corpo. Donde, não é necessário que, enquanto permanece a união da divindade com a carne esta seja viva; porque Deus não age por necessidade, mas voluntariamente.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Pequena agenda do cristão


DOMINGO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

24/12/2016

Canta diante de Maria Imaculada

Deus Omnipotente, Todo-Poderoso, Sapientíssimo tinha que escolher a sua Mãe. – Tu, que terias feito, se tivesses tido de escolhê-la? Penso que tu e eu teríamos escolhido a que temos, enchendo-a de todas as graças. Isso fez Deus. Portanto, depois da Santíssima Trindade, está Maria. Os teólogos estabelecem um raciocínio lógico desse cúmulo de graças, desse não poder estar sujeita a satanás: convinha, Deus podia fazê-lo, logo fê-lo. É a grande prova. A prova mais clara de que Deus rodeou a sua Mãe de todos os privilégios, desde o primeiro instante. E assim é: formosa e pura e limpa, em alma e corpo! (Forja, 482)

És toda formosa e não há mancha em ti. – És horto cerrado, minha irmã, Esposa, horto cerrado, fonte selada. – Veni: coronaberis. – Vem: serás coroada (Cant. IV, 7, 12 e 8).

Se tu e eu tivéssemos tido poder, tê-la-íamos feito também Rainha e Senhora de toda a criação.

Um grande sinal apareceu no céu uma mulher com uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça. – O vestido de sol. – A lua a seus pés (Apoc. XII, 1). Maria, Virgem sem mancha, reparou a queda de Eva; e esmagou, com o seu pé imaculado, a cabeça do dragão infernal. Filha de Deus, Mãe de Deus, Esposa de Deus.

O Pai, o Filho e o Espírito Santo coroaram-na como Imperatriz que é do Universo.


E rendem-lhe preito de vassalagem os Anjos..., e os patriarcas e os profetas e os Apóstolos..., e os mártires e os confessores e as virgens e todos os santos..., e todos os pecadores e tu e eu. (Santo Rosário, 5º mistério glorioso)

Evangelho e comentário

Tempo do Advento

Evangelho: Lc 1, 67-79

67 Zacarias, seu pai, ficou cheio do Espírito Santo, e profetizou dizendo: 68 «Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e resgatou o Seu povo; 69 e suscitou uma força para nos salvar, na casa do Seu servo David, 70 conforme anunciou pela boca dos Seus santos profetas de outrora; 71 que nos livraria dos nossos inimigos, e das mãos de todos os que nos odeiam; 72 para exercer a Sua misericórdia a favor de nossos pais, e lembrar-Se da Sua santa aliança, 73 segundo o juramento que fez a nosso pai Abraão, de nos conceder 74 que, livres das mãos dos nossos inimigos, O sirvamos sem temor ,75 diante d'Ele com santidade e justiça, durante todos os dias da nossa vida. 76 E tu, menino, serás chamado o profeta do Altíssimo, porque irás à frente do Senhor, a preparar os Seus caminhos; 77 para dar ao Seu povo o conhecimento da salvação, pela remissão dos seus pecados, 78 graças à terna misericórdia do nosso Deus, que nos trará do alto a visita do Sol Nascente, 79 para alumiar os que jazem nas trevas e na sombra da morte; para dirigir os nossos pés no caminho da paz».

Comentário:

A ligação íntima entre João Baptista e Jesus Cristo começa a desenhar-se com maior evidência logo que nasce o Percursor.

Nas palavras de Zacarias não há profecia mas constatação.

A pequena diferença de seis meses que separa os dois nascimentos é fundamental para que se cumpram os planos de Deus para a salvação humana.

De João começará a falar-se desde que vem ao mundo: "quem virá a ser este menino",[i] e cedo arrastará prosélitos, Jesus só será reconhe­cido passados trinta anos quando um dia André disser ao seu irmão Pedro: "encontramos o Senhor" [ii]

(ama, comentário sobre Lc 1, 67-79, 2015.12.24)









[i] Cfr. Lc 1, 57-66
[ii] Cfr. Jo 1, 41

Leitura espiritual

Leitura espiritual




A Cidade de Deus 


Vol. 1

CAPÍTULO IX

Causa dos castigos que atingem tanto os bons como os maus.

Nessa catástrofe, que é que os cristãos padeceram que lhes não tenha servido de proveito, se a considerarmos com espírito de fé? Em primeiro lugar, ao pensarem com humildade nos pecados por causa dos quais Deus, indignado, encheu o mundo de tamanhas calamidades, embora estejam longe dos facínoras, dos dissolutos e dos ímpios, não se julgarão, todavia, tão isentos de faltas que se considerem a si próprios livres de sofrerem algum mal temporal por sua causa. Efectivamente, além do caso de que todo o homem, por mais louvável que seja a sua vida, por vezes cede à concupiscência da carne e, sem cair em crimes monstruosos, nem no abismo da devassidão, nem na abominação da impiedade, deixa-se todavia arrastar para certos pecados, quer raras vezes quer, quando são mais leves, com mais frequência, — além deste caso, encontrar-se-á, acaso com facilidade, alguém que, no final de contas, trate como deve a esses ímpios por cujo horrível orgulho, luxúria, cupidez, iniquidade e abomináveis sacrilégios, Deus esmagou a terra como já ameaçadoramente tinha predito? Quem é que vive com tais pessoas como deveria viver? A maior parte das vezes, quando devíamos adverti-las, instruí-las, e por vezes mesmo repreendê-las e corrigi-las, dissimulamos culposamente, quer porque nos custa o esforço, quer porque receamos ofendê-las, quer porque procuramos evitar inimizades que podem tornar-se um estorvo ou até um dano para os bens temporais que a nossa cobiça procura alcançar ou que a nossa fraqueza receia perder. E assim, embora a vida dos maus desagrade aos bons e por isso estes não cheguem a cair na condenação que os espera após esta vida, — todavia, porque são indulgentes para com os seus condenáveis pecados, porque os temem e caem nos seus próprios pecados, embora leves e veniais, — justamente são atingidos pelo mesmo flagelo temporal, sem, todavia, sofrerem as penas eternas. É justo, pois, que sintam a amargura desta vida quando a divindade justamente com aqueles os castiga — pois foi por amor das doçuras desta vida que eles não quiseram causar amargura aos que pecavam.

Se, por isso, alguém se abstém de repreender e de corrigir os malcomportados, quer porque espera ocasiões mais oportunas, quer porque receia que assim se tomem piores ou impeçam a formação moral e religiosa dos mais débeis com pressões para que se afastem da fé — não me parece que seja isso má inclinação, mas antes conselho de caridade.

Mas há culpa quando as pessoas, que vivem de maneira diferente dos maus e aborrecem a sua conduta, são, todavia, indulgentes para com os pecados dos outros quando os deviam corrigir e exprobar. Têm o cuidado de os não ofenderem com medo de por eles serem lesados nos bens de que usam os bons, sem dúvida legítima e honestamente, mas mais avidamente do que convinha aos que peregrinam neste mundo e mostram a esperança da pátria superna.

Não se trata apenas dos mais débeis — dos que estão comprometidos na vida conjugal, tendo ou procurando ter filhos, com casas, família numerosa (como aqueles aos quais se dirige o Apóstolo nas Igrejas, ensinando-lhes e recordando-lhes como devem viver as mulheres com os seus maridos, os maridos com as mulheres, os filhos com os pais e os pais com os filhos, os servos com os senhores e os senhores com os servos). Estes adquirem com prazer muitos bens terrenos e temporais e perdem-nos com pesar. Por isso não se atrevem a ofender aqueles homens cuja vida tão contaminada e tão depravada lhes desagrada.

Trata-se também dos que mantêm um teor de vida superior, livres dos laços conjugais, que se servem de alimentação frugal e de vestuário simples, mas se abstêm de repreender os maus, com receio de que as insídias ou ataques deles ponham em perigo a sua fama ou segurança. E, embora não os temam tanto que cheguem a praticar acções idênticas, cedendo a qualquer das suas ameaças ou perversidades — , evitam porém censurar os desmandos que não cometem como eles, quando a sua censura poderia talvez corrigir alguns. Receiam pôr em perigo e perder a sua integridade e reputação no caso de falharem no seu intento — e isto, não porque as considerem indispensáveis para o serviço de ensinar os demais, mas sim em consequência daquela doentia fraqueza em que caem a língua e os juízos humanos quando se comprazem nas adulações e temem a opinião pública, os tormentos da carne ou da morte, isto é, por causa dos grilhões de certas paixões e não por causa do dever de caridade.

Parece-me, pois, que não é pequena a razão por que são castigados os bons juntam ente com os maus quando apraz a Deus castigar, mesmo com penas temporais, os maus hábitos. Juntos são castigados, não porque juntos levem má vida, mas porque juntos amam a vida temporal, não igualmente, mas juntamente. Os bons deviam desprezá-la para que os outros, repreendidos e corrigidos, alcançassem a vida eterna. E, se eles se recusam a acompanhá-los para a conseguirem, deveriam suportá-los, como inimigos, e amá-los porque, enquanto vivem, nunca se sabe se não se decidirão a mudar para melhor. Neste caso, têm responsabilidade não já igual, mas muito mais grave aqueles de que fala o profeta:
Perecerá por sua culpa, mas do seu sangue pedirei contas à sentinela [i].

Para isso há sentinelas, isto é, responsáveis pelos povos, colocadas como chefes das Igrejas, para que se não poupem a repreender o pecado [ii]. Mas também não está totalmente isento de culpa quem, embora não constituído chefe de igreja, conhece, naqueles a que está ligado pelas necessidades desta vida, muitas coisas que deve admoestar ou condenar, mas é negligente e evita indispor-se com eles, para tratar dos interesses de que nesta vida pode fazer um uso legítimo mas com que se deleita mais do que convém.

Os bons têm ainda outra razão para sofrerem os males temporais. E a mesma de Job: que o homem submeta o seu próprio espírito à prova e comprove e conheça com que grau de piedade e com que desinteresse ama a Deus.

CAPÍTULO X

Os santos nada perdem quando perdem as coisas temporais.

Depois de teres pensado nestas coisas e as teres examinado maduramente, repara se aos homens crentes e piedosos algum mal acontece que se lhes não converta em bem — a não ser que se julgue falha de sentido esta afirmação do Apóstolo:
Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem dos   que amam a Deus [iii].
Perderam tudo o que tinham. Perderam porém a fé? Perderam a sua religião? Perderam os bens do homem interior que, perante Deus, é rico? São estas as riquezas de Cristo com as quais o Apóstolo se considerava opulento.

É um grande lucro a religião, desde que nos baste.
Nada de facto trazemos para este mundo, assim como dele nada poderemos levar. Devemos estar contentes, desde que tenhamos que comer e que vestir. Os que pretendem ser ricos caem em tentações, em armadilhas e em muitos e loucos desejos, que afundam os homens na ruína e na perdição. A avareza é de facto a raiz de todos os males. Os que se lhe prendem desviaram-se da fé e envolveram-se em múltiplas dores [iv].

Portanto aqueles que na dita devastação perderam as riquezas terrenas, se as possuíssem como o ouviram àquele que fora pobre por fora e rico por dentro, isto é, se fizessem uso do mundo como se dele não fossem utentes, bem poderiam dizer o mesmo que ele, tão gravemente tentado mas nunca vencido:

Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei à terra. O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou. Aconteceu como ao Senhor aprouve. Seja bendito o nome do Senhor [v].
Como bom servo tinha por grande riqueza a vontade do Senhor; seguindo-O passo a passo, tomava-se rico em espírito e não se contristava ao abandonar em vida o que depressa deixaria ao morrer.

Mas os outros, mais fracos, que, sem anteporem os bens terrenos a Cristo, a eles estavam ligados com um certo apego, quando os perdem é que se apercebem até que ponto, amando-os, pecaram. E doem-se tanto mais quanto mais se meteram nas dores, como acima recordei pela boca do Apóstolo. Era necessária uma lição da experiência para aqueles que, durante tanto tempo, desprezaram a lição das palavras — pois o Apóstolo ao dizer:
Caem em tentação os que pretendem ser ricos [vi]
o que sem dúvida reprova nas riquezas é a cupidez e não a posse. E noutro lugar ordena:
Aos ricos deste mundo aconselha a que não sejam soberbos, não ponham a sua confiança na riqueza incerta, mas sim no Deus vivo que tudo nos concede com abundância para que o disfrutemos. Que façam o bem, que sejam ricos em boas obras, generosos, dêem sem dificuldade, com espírito de comunhão, adquiram um tesouro bem alicerçado para o futuro para que consigam a vida eterna [vii].
Os que assim usavam das suas riquezas foram compensados das suas ligeiras perdas com grandes lucros. A alegria que experimentaram por terem colocado a bom recato os bens que gostosamente distribuíram foi maior do que o desgosto sofrido com a perda alegre dos bens que possuíam sem apego. Pode bem perder-se na Terra o que, com pesar, dela se não pode levar. De facto, os que ouviram esta recomendação do Senhor

Não queirais amontoar tesouros na Terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e onde os ladrões cavam e os furtam; mas entesourai tesouros no Céu, onde o ladrão não chega nem a traça os rói: é que onde está o teu tesouro ai estará também o teu coração [viii]
— esses puderam experimentar no tempo da tribulação quão rectamente procederam por não terem desprezado os ensinamentos do mais verdadeiro dos mestres e do mais leal e invencível guardião do tesouro. Se muitos se alegraram por terem colocado as suas riquezas onde de facto o inimigo não chegou — com quanta maior certeza e segurança poderão alegrar-se os que seguiram o aviso de Deus e as levaram para onde jamais o inimigo poderá ter acesso!

O nosso Paulino, bispo de Nola, que voluntariamente passou de muito rico para muito pobre e eminentemente santo, quando os bárbaros devastaram Nola e por eles foi aprisionado, rezava assim no seu coração como posteriormente dele soubemos:
Senhor, que eu não seja torturado por causa do ouro ou da prata. Tu sabes bem onde estão todas as minhas coisas [ix] .

Ele tinha de facto todas as suas coisas onde lho tinha indicado Aquele que predissera que haviam de vir ao mundo todos estes males. Por isso é que, quando da invasão dos bárbaros, nem sequer as suas riquezas terrenas perderam aqueles que obedeceram ao mandamento do Senhor acerca de como e onde deviam entesourar. Mas alguns tiveram que se arrepender por não terem seguido as suas indicações, e aprenderam a lição acerca do uso de tais bens, se não com a sabedoria que previne, pelo menos com experiência consequente.

Houve de facto homens de bem, mesmo cristãos, que foram torturados para que entregassem os seus bens ao inimigo.
Porém nunca puderam entregar nem perder os bens pelos quais se tornaram bons. E se alguns preferiram ser torturados a entregarem as suas riquezas iníquas, nesse caso já não eram bons. Estes, que tanto sofreram por causa do ouro, deviam ter sido advertidos de quanto tinham que padecer por Cristo. Aprenderiam assim a amar quem faz ricos de vida eterna todos os que por ele padeceram, em vez de amarem o ouro ou a prata. A desgraça foi terem padecido pelo ouro e pela prata, quer mentindo para os ocultarem, quer confessando para os entregarem. Ninguém perdeu a Cristo confessando-o nas torturas; ninguém conserva o ouro senão negando-o. Por isso talvez fossem mais úteis os tormentos que ensinavam a amar o bem incorruptível do que os outros bens por que os seus donos sofriam tormentos sem qualquer proveito.

Também houve aqueles que, não possuindo bens alguns para entregarem, sofreram torturas por neles se não acreditar. Também desejavam talvez possuir: eram pobres mas não por vontade santa. Neles se verificou que não foi a posse mas sim a paixão das riquezas o que lhes valeu tais torturas. Se alguns, resolvidos a levarem uma vida mais perfeita, não tinham escondidos nem ouro nem prata, — ignoro se lhes sucedeu algo de parecido, isto é, serem torturados até neles acreditarem. Ainda mesmo que tal tenha acontecido, o que confessava a santa pobreza no meio daqueles tormentos, evidentemente que estava a confessar Cristo. E portanto, mesmo que não tenha conseguido que os inimigos nele acreditassem, conseguiu sim, com os seus tormentos, uma celestial recompensa como confessor da santa pobreza.
(cont)
(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Ille quidem irt suo peccato morietur, sanguinem autem ejus de manu Speculatoris requiram.
Ezeq, XXXIII, 6.
[ii] É deste teor o texto latino de que este período é a tradução:
Ad hoc enim speculatores, hoc est populorum praepositi, constituti sunt in ecclesiis, ut non parcant objurgando peccata.
Traduzi speculatores por «sentinelas» tendo em mente a raiz spec (observar). Como em Grego a raiz é oxott-óç (com inversão da ordem das concoantes x =c e n =p. v. Michel Bréal et Anatole Bailly in Leçons de mots — Dict. Etym. Lat, p. 360) poderia ter traduzido porèrrÍC T X o rro ç (episcopus = bispo). Que é este o sentido que Santo Agostinho pretendia dar à palavra speculatores, resulta da frase populorum praepositi (responsáveis pelos povos) e constituti in ecclesiis (chefes das igrejas).
[iii] Scimus quia diligentibus Deum omnia cooperantur in bonum.Rom. VIII, 28.
[iv] Est enim quaestus magnus pietas cum sufficientia. Nihil enim intulimus in hune mundum sed nec auferre aliquid possumus: habentes autem victum et tegumentum, his contenti sumus. Nam que volunt divites fieri, incidunt in temptationem et laqueum et desideria multa stulta et noxia, quae mergunt homines in interitum et perditionem. Radix est enim omnium malomm avaritia, quam, quidam adpetentes, afide pererraverunt et inseruerunt se doloribus multis.
Tim., VI, 10.
[v] Nu dus exii de utero matris meae, nu dus revertar in terram. Dominus dédit, Dominus abstulit; sicut Domino placuit, ita factum est: sit nomen Domini benedictum.Job I, 21.
[vi] 4 Qui volunt divites fieri, incidunt in temptationem, etc.
Tim., VI, 6.
[vii] Praecipe divitibus hujus mundi, non superbe sapere, neque sperare in incerto divitiarum; sed in Deo vivo, qui praestat nobis omnia abundanter ad fruendum; bene faciant, divites sint in operibus bonis, facile tribuant, communicent, thesaurizent sibi fundamentum bonum in futurum, ut adprehendant veram vitam.
Tim., VI, 17-19.
[viii]  Nolite vobis condere thesauros in terra, ubi tinea et rubigo exterminant, et ubi fures effodiunt et furantur; sed thesaurizate vobis thesauros in Caelo, quo fur non accedit, nec tinea corrumpit: ubi est thesaurus tuus, ibi erit et cor tuum.
Mat., VI, 19-21.
[ix] Domine, non excrucier propter aurum et argentum; ubi enim sint omnia mea tu seis
(a) Em parte nenhuma da correspondência trocada entre Santo Agostinho e S. Paulino de Nola se encontra referido este caso, provavelmente porque essa correspondência se perdeu.

Nasceu Paulino em Bordéus no ano de 353 e morreu em Nola em 431, de família patrícia romana. Exerceu cargos públicos em Itália, onde viveu durante muito tempo.
Viveu depois em Espanha, donde era a mulher com quem casou e onde foi ordenado presbítero. Voltou a Itália, onde foi sagrado bispo de Nola.

Trocou correspondência com Santo Ambrósio, Santo Agostinho e S. Jerónimo. Embora nunca, que se saiba, se tenha encontrado com Agostinho, a correspondência entre ambos trocada revela que os unia uma profunda amizade.

Por volta de 395, servindo Alípio de intermediário, Santo Agostinho enviou-lhe algumas das suas obras que Paulino, ainda por intermédio de Santo Alípio, agradeceu vivamente (Ep. 4 — Agost. Ep. 25— P.L. XXXIII, 101, 103). Por não ter obtido resposta imediata a esta carta e receando que ela se tivesse extraviado, Paulino voltou a escrever a Agostinho (Ep. 6 de Ag., ep. 30— P.L. XXXIII, 120-122). Agostinho, que já tinha respondido à primeira (Ep. 27— P.L. XXXIII, 107-111), respondeu igualmente à segunda (Ep. 3í — P.L. XXXIII, 121-125) pouco depois de ter recebido das mãos de Valério a sagração episcopal.

Da maior parte da correspondência trocada entre os dois, só nos restam fragmentos.
As últimas referências que lhe são feitas constam do «De cura pro tnortuis gerenda», escrita em 421 para responder a uma questão posta por Paulino. Nessa obra, Agostinho diz:
«Soubemos, não por vários rumores mas sérios testemunhos, que, durante o cerco de Nola pelos bárbaros, o confessor da fé Félix, cujo túmulo rodeias de religiosa afeição, não só se tinha mostrado aos habitantes por insignes benefícios, mas até tinha aparecido a seus olhos».
Segundo Filostérgio (Hist, eccl. XII, 3; ed. Bidez p. 142), os bárbaros pouco tempo se mantiveram em Nola.
Depois de a terem destruído, abandonaram-na e retiraram-se, com grande alegria do seu povo, como se vê duma inscrição na sua basílica (b).

De Paulino a Agostinho, temos as cartas com os números 25, 30, 94, 121 e oito de Agostinho a Paulino com os números 27, 31, 42, 45, 80, 95, 154 e 186 na Col. Migne.

Deixou-nos ainda Paulino 36 composições poéticas entre as quais duas, em forma de epístola, a Ausónio (c).
A este respeito, v., além da cit. Col. Migne e da obra de Santo Agostinho De cura pro mortuis gerenda, P. Fabre, Saint Paulin de Nole et Vamitié chrétienne; P. Courcelle, Hist. litter. des grandes invasions germaniques, Paris, 1948; id., Les lacunes de la corresp. entre Saint Augustin et Saint Paulin de Nole, in Reme des Études anciennes, t. LIII, 1951; P. Mouceaux, Hist. litt. lat. chret., Paris, 1924; Cayré, Précis de Patrol, Paris , 1927-30. Sobre Ausónio v. G. Boissier: La Fin du Paganisme.
(b) Filostérgio, historiador cristão leigo de Capadócia no século IV-V, ariano, discípulo de Eunómio, escreveu, em continuação de Eusébio de Cesareia, uma célebre História da Igreja em doze volumes, abrangendo o período de 300 a 425. Desta obra só restam alguns fragmentos e um Epítome. O que resta da História da Igreja está publicado em Migne in Patrologia Greca, t. LXV. Sobre Filostérgio v. P. Batiffol, Quaestiones Philostergianae. Paris, 1891.
(c) Ausónio, (Decimus Magnus Ausonius), conhecido poeta, nascido em Burdigala, actual Bordéus, em 309 e lá falecido em 395, foi mestre e amigo de S. Paulino de Nola, leccionou gramática e retórica em Bordéus durante trinta anos, ingressou depois na carreira administrativa, foi nomeado por Valentiniano I preceptor de seu filho Graciano, foi cônsul no reinado deste, tendo voltado, depois do assassinato de Graciano, a Bordéus onde morreu cristão.
Escreveu o poema Mosella, nome do rio que atravessa Treveris, a capital imperial de então. Além deste poema escreveu Commemoratio Professorum Burdigalensium (Memoriais dos professores Bordaleses); Parentalia (Parentálias, recordando parentes e amigos falecidos) e Ordo Nobilium Urbium (Importância de cidades ilustres) em que descreveu vinte cidades notáveis da época.