25/12/2016

Tratado da vida de Cristo 140

Questão 50: A morte de Cristo

Art. 2 — Se na morte de Cristo a divindade se separou da carne.

O segundo discute-se assim. — Parece que na morte de Cristo a divindade se separou da carne.

1. — Pois, como refere o Evangelho, o Senhor pendente da cruz exclamou: Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste? O que Ambrósio assim explica: Era o clamor do homem, no momento de morrer, pela separação da divindade; pois, a morte não tendo poder sobre a sua divindade, Cristo não podia morrer senão por ter-se a divindade, que é a vida, separado dele. Donde parece que na morte de Cristo a divindade se lhe separou da carne.

2. Demais. — A remoção do meio separa os extremos. Ora, a divindade está unida à carne mediante a alma, como se estabeleceu. Donde parece que, na morte de Cristo, a alma se separou da sua carne e, por consequência, dela também se separou a divindade.

3. Demais. — Maior é o poder vivificador de Deus que o da alma. Ora, o corpo não podia morrer senão pela separação da alma. Logo, com maior razão, não podia senão pela separação da divindade.

Mas, em contrário, os atributos da natureza humana não se predicam do Filho de Deus senão por causa da união, como se estabeleceu. Ora, do Filho de Deus se atribui o ser sepulto, que convém ao corpo de Cristo depois da morte. Isso o mostra o símbolo da fé, quando diz: O Filho de Deus foi concebido, nasceu da Virgem, sofreu, foi morto e sepultado. Logo, o corpo de Cristo, na morte,  não se separou da sua divindade.

O que Deus concede por graça nunca nos é tirado senão por nossa culpa. Por isso diz o Apóstolo: Os dons e a vocação de Deus são imutáveis. Ora, muito maior é a graça da união, pela qual a divindade se uniu à carne na pessoa de Cristo, que a graça da adopção, pela qual os outros são santificados. E também perdura mais, por natureza, porque essa graça se ordena à união pessoal, ao passo que a graça de adopção se ordena a uma união de certo modo afectiva. E, contudo vemos que a graça de adopção nunca é perdida sem culpa. Ora, Cristo não teve nenhum pecado. Logo, era impossível que se lhe rompesse a união entre a divindade e a carne. Donde, assim como antes da morte, a carne de Cristo estava unida, segundo a pessoa e a hipóstase, ao Verbo de Deus, assim lhe permaneceu unida depois da morte. De modo que não fosse uma a hipóstase do Verbo de Deus e outra a da carne de Cristo, depois da morte, como o diz Damasceno.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — O abandono referido não respeita à solução da união pessoal, mas ao facto de Deus Pai o ter exposto à Paixão. Assim, abandonar, no lugar citado, não significa senão proteger contra os perseguidores. — Ou Cristo se dizia abandonado, referindo-se ao pedido em que dizia: Pai, se é possível, passe este cálice de mim, como o expõe Agostinho.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Diz-se que o Verbo de Deus está unido à carne mediante a alma, porque a carne faz parte, por meio da alma, da natureza humana, que o Filho de Deus pretendia assumir. Não, porém, que a alma estivesse unida como um meio termo de ligação. Pois, a carne pertence à natureza humana, em virtude da alma, mesmo depois de separada esta daquela. Porque a carne morta conserva ainda, por ordenação divina, uma certa disposição para a ressurreição. Por isso não desapareceu a união da divindade com a carne.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A alma tem o poder de vivificar, como forma. Donde, enquanto presente ao corpo e com ele unida formalmente, há de ele necessariamente ser vivo. Ora, a divindade não tem a virtude de vivificar formalmente, mas efectivamente; pois, não pode ser a forma do corpo. Donde, não é necessário que, enquanto permanece a união da divindade com a carne esta seja viva; porque Deus não age por necessidade, mas voluntariamente.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


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