25/12/2016

Leitura espiritual

Leitura espiritual




A Cidade de Deus 


Vol. 1

CAPÍTULO X

Os santos nada perdem quando perdem as coisas temporais.

…/2
Diz-se que uma prolongada fome matou muitos cristãos.
Também isto converteram em seu proveito os autênticos homens de fé, suportando-a com espírito de religião.
A fome, ao tirar-lhes a vida, como se fora uma enfermidade corporal, libertou-os dos males desta vida. Porém, aos que não matou, ensinou-lhes a viverem mais sobriamente e a jejuarem mais prolongadamente.

CAPÍTULO XI

Fim da vida temporal — longa ou breve.

Muitos foram na verdade os cristãos massacrados.
Muitos foram consumidos em hedionda variedade de muitas mortes. Isto é duro de suportar, mas é comum a todos os que foram gerados para esta vida. Uma coisa sei: ninguém teria morrido se não existisse para morrer um dia.
O fim da vida torna igual a vida longa à vida breve. Efectivamente, de duas coisas que já não existem nem uma é melhor nem a outra é pior; nem uma é mais longa nem a outra é mais breve. Que importa o género de morte que acabará com esta vida — quando ao que morre não se obrigará que morra de novo?
A cada mortal o ameaçam mortes de todos os lados. Nos quotidianos azares desta vida, enquanto durar a incerteza acerca de qual das mortes surgirá, eu pergunto se não será preferível suportar uma morrendo, a ser por todas ameaçado vivendo.
Não ignoro quão depressa preferimos viver longos anos sob o temor de tantas mortes, a morrermos de uma vez e já não temermos diante de nenhuma. Mas uma coisa é o que o sentido carnal, fraco como é, repele por medo — e outra o que a razão, convenientemente esclarecida, convence.
Não deve considerar-se má a morte que uma vida virtuosa precede. Na verdade, o que torna má a morte mais não é que o que à morte se segue. Àqueles que necessariamente hão-de morrer não deve preocupar muito o que acontecerá para que morram, mas antes para onde terão de ir irremediavelmente depois da morte. Os cristãos sabem que foi muito melhor a morte do pobre piedoso entre os cães que o lambiam, do que a do ímpio rico entre púrpuras e linhos. Em que podem então prejudicar aos que viveram sem mácula as formas horríveis de morrer?

CAPÍTULO XII

Mesmo que tenha sido negada sepultura aos corpos humanos — com isso de nada são privados os cristãos.

Tão grande era o montão de cadáveres, que nem os puderam sepultar. A fé autêntica nenhum medo tem disso, pois, tendo presente o que foi predito, — nem as feras devoradoras impedirão a ressurreição dos corpos daqueles de quem nem sequer um dos cabelos se perderá. De maneira nenhuma a Verdade teria dito  
não temais os que matam o corpo mas não podem matar a alma [i], se constituísse obstáculo para a vida futura o quer que fosse que quisessem fazer os inimigos nos corpos dos mortos.
Ninguém haverá tão insensato que sustente que, antes de sermos mortos, não devemos temer os que matam o corpo, mas devemos temer sim os que impedem que se dê sepultura aos cadáveres. Seria então falso o que Cristo disse:
Os que matam o corpo e depois já nada mais lhe podem fazer[ii],
se tivessem alguma coisa de importante a fazer ao cadáver. Longe de nós pensar que é falso o que disse a Verdade. Diz-se que eles realmente algum dano causam quando matam, pois, que o corpo tem sensações ao morrer.
Depois, já nada há a fazer, porque já não há sensibilidade no corpo morto. Na verdade, a terra não cobriu muitos corpos cristãos; mas o que não conseguiram foi expulsar ninguém dos espaços do Céu e da Terra, cheios como estão da presença d’Aquele que sabe onde fará surgir, pela ressurreição, o que Ele mesmo criou. Diz realmente o salmo:
Deixaram os cadáveres dos teus servos em pasto às aves do céu e a came dos teus santos às feras da terra. Derramaram o seu sangue como água à volta de Jerusalém e não havia quem os sepultasse[iii].
Mas estas palavras são mais para vincarem a crueldade dos que tal fizeram do que o infortúnio dos que tal sofreram.
Embora estas coisas pareçam efectivamente duras e cruéis aos olhos dos homens, todavia
preciosa é aos olhos de Deus a morte dos seus santos [iv].
Portanto, tudo isto, ou seja: os cuidados fúnebres, a qualidade da sepultura ou a solenidade das exéquias, constituem mais uma consolação dos vivos do que um alívio dos defuntos. Se ao ímpio serve de proveito uma sepultura de alto preço, ao piedoso tanto faz uma ordinária ou mesmo nenhuma. Brilhantes funerais, aos olhos humanos, prestou a multidão dos seus servidores ao famoso rico purpurado. Mas muito mais brilhantes perante o Senhor ofereceu ao pobre coberto de úlceras o exército dos anjos que não lhe erigiram um túmulo de mármore mas o colocaram no seio de Abraão.

Disto se rirão aqueles contra os quais decidimos defender a Cidade de Deus. Todavia, também os seus filósofos têm mostrado desprezo pelo cuidado com a sua sepultura. E até exércitos inteiros, ao morrerem pela pátria terrena, se não preocuparam com o lugar onde viriam a jazer nem de que feras seriam alimento. A este propósito puderam dizer os poetas com aplauso dos seus leitores:
Quem não tem uma é coberto pelo céu [v].

De forma nenhuma devem insultar os cristãos por causa dos corpos insepultos. A eles foi prometida a reforma da própria carne e de todos os membros, não somente à custa da terra mas ainda do seio mais secreto dos outros elementos em que se tenham convertido os cadáveres ao se desintegrarem. Num instante voltarão à sua integridade.

CAPÍTULO XIII

Porque se devem sepultar os corpos dos santos.

Mas nem por isso se devem desprezar e abandonar os corpos dos defuntos, principalmente os dos justos e dos fiéis dos quais o Espírito se serviu santamente como órgãos e receptáculos de todo o género de boas obras. Se as vestes e o anel dos pais, bem como as coisas deste género, são tanto mais queridos dos descendentes quanto maior tiver sido o afecto para com os pais, de maneira nenhuma se devem desprezar os corpos com os quais mantivemos muito mais familiaridade e intimidade do que com qualquer peça de vestuário que se usa. O corpo é parte natural do homem e de modo nenhum é um ornamento ou instrumento que se usa por fora. Por isso é que os funerais dos antigos justos eram tidos por um dever de piedade: celebravam-se exéquias e concedia-se sepultura. Eles próprios, enquanto vivos, deixavam instruções a seus filhos acerca do sepultamento e da trasladação dos seus corpos.
É louvado Tobias, que, por enterrar os mortos, alcançou, segundo o testemunho de um anjo, merecimento perante Deus. Também o próprio Senhor, que havia de ressuscitar ao terceiro dia, elogia a boa acção da mulher piedosa, — ou seja a de ela ter derramado um precioso unguento sobre os seus membros com vista à sepultura — e recomenda que essa acção seja divulgada como boa. E com louvor são lembrados no Evangelho aqueles que com delicadeza tiraram da cruz o seu corpo, com respeito o amortalharam e sepultaram. Porém estes documentos autorizados não pretendem convencer-nos de que nos cadáveres haja alguma sensibilidade: mas que a divina Providência, à qual agradam estes deveres de piedade porque reafirmam a nossa fé na ressurreição, se interessa também pelos corpos dos mortos. Também aqui nos é dada uma salutar lição: se, perante Deus, nem as obrigações e cuidados dispensados aos membros já sem vida dos homens perecem — quão grande será a recompensa que nos espera pelas esmolas que oferecemos aos que ainda têm vida e sensibilidade!

Há outras disposições que os santos patriarcas quiseram proferir com significado profético acerca da sepultura ou da trasladação dos seus corpos — mas para tratar disso não é este o lugar próprio. Basta o que já dissemos.

Quanto aos bens necessários ao sustento dos vivos, tais como o alimento e o vestuário, se é certo que a sua falta causa grave doença, também é certo que isso não quebra nos bons a fortaleza perante o sofrimento, nem arranca da alma a piedade, mas antes a torna mais fecunda pelo exercício. Quão menos se hão-de sentir infelizes os justos quando lhes faltam com os cuidados que é costume empregarem-se nos funerais e no sepultamento dos corpos dos defuntos — estando eles já em paz nas misteriosas moradas dos santos! Por isso quando, no saque daquela grande Urbe ou na de qualquer outra cidade, faltaram aos cadáveres dos cristãos estes cuidados, não houve culpa dos vivos que os não podiam prestar, nem pena para os mortos que a não podiam sentir [vi].

(cont)
(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] 1 Nolite timere eos qui corpus occidunt, animam autem non possunt occidere.
Mat., X, 28.
[ii] 2 Qui corpus occidunt et postea non habent quod faciant.
Luc., XII, 4
[iii] Posuerunt mortalia servorum tuorum escam volatilihus caeli, cames sanctorum tuorum bestiis terrae; effuderunt sanguinem eorum sicut aquam in circuitu Hierusalem, et non erat qui sepeliret.
Salmo LXXVIII, 2-3.
[iv] 4 Pretiosa in conspectu Domini mors sactorum ejus.
Salmo CXV, 15.
[v] 5 Caelo tegitur, qui non habet umam.
Lucano, Farsália, VII, 819.
[vi] Honras fúnebres.
Os pagãos ligaram às honras fúnebres uma importância exagerada.
Receavam que os mortos voltassem para apoquentar os vivos no caso denão lhes serem prestadas de forma condigna as respectivas honras fúnebres.
Depois deles, também muitos cristãos julgavam que os mortos não se levantariam no último dia ressurgindo, no caso de as suas ossadas terem sido impiamente dispersadas ou de o seu corpo ter ficado insepulto.
Contra estes exageros e a pedido de Paulino de Nola, escreveu Agostinho em 421 o tratado «De cura pro mortuis gerenda», expondo uma doutrina de respeito pelo corpo humano que foi templo de Deus, habitáculo do Espírito Santo e órgão e instrumento da alma para o bem, mas sem esquecer que para o cristão seria indiferente que o corpo tenha sido queimado ou devorado ou inumado.

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