17/12/2016

Oxalá te não falte a simplicidade

Repara: os apóstolos, com todas as suas misérias patentes e inegáveis, eram sinceros, simples... transparentes. Tu também tens misérias patentes e inegáveis. – Oxalá te não falte a simplicidade. (Caminho, 932)

Aqueles primeiros doze apóstolos – a quem tenho grande devoção e carinho – eram, segundo os critérios humanos, bem pouca coisa. Quanto à posição social, com excepção de Mateus – que com certeza ganhava bem a vida e deixou tudo quando Jesus lhe pediu – eram pescadores; viviam do dia-a-dia, trabalhando até de noite para poderem alcançar o seu sustento.

Mas a posição social é o de menos. Não eram cultos, nem sequer muito inteligentes, pelo menos no que diz respeito às realidades sobrenaturais. Até os exemplos e as comparações mais simples lhes eram incompreensíveis e pediam ao Mestre: Domine, edissere nobis parabolam, Senhor, explica-nos a parábola. Quando Jesus, com uma imagem, alude ao fermento dos fariseus, supõem que os está a recriminar por não terem comprado pão.

Pobres, ignorantes. E nem sequer eram simples, humildes. Dentro das suas limitações, eram ambiciosos. Muitas vezes discutem sobre quem seria o maior, quando – segundo a sua mentalidade – Cristo instaurasse na terra o reino definitivo de Israel. Discutem e excitam-se até naquela hora sublime em que Jesus está prestes a imolar-se pela humanidade, na intimidade do Cenáculo.

Fé? Pouca. O próprio Jesus Cristo o diz. Viram ressuscitar mortos, curar todo o tipo de doenças, multiplicar o pão e os peixes, acalmar tempestades, expulsar demónios. Pois S. Pedro, escolhido como cabeça, é o único que sabe responder com prontidão: Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo. Mas é uma fé que ele interpreta à sua maneira; por isso atreve-se a enfrentar Jesus Cristo, a fim de que Ele não se entregue pela redenção dos homens. E Jesus tem de responder-lhe: Retira-te de mim, Satanás; tu serves-me de escândalo, porque não tens a sabedoria das coisas de Deus mas das coisas dos homens. Pedro raciocinava humanamente, comenta S. João Crisóstomo, e concluía que tudo aquilo (a Paixão e a Morte) era indigno de Cristo, reprovável. Por isso Jesus repreende-o e diz-lhe: não, sofrer não é coisa indigna de Mim; tu pensas assim porque raciocinas com ideias carnais, humanas.


Em que sobressaem então aqueles homens de pouca fé? Talvez no amor a Cristo? Sem dúvida que O amavam, pelo menos de palavra. (…) São homens correntes, com defeitos, com debilidades, com palavras maiores do que as suas obras. E, contudo, Jesus chama-os para fazer deles pescadores de homens, corredentores, administradores da graça de Deus. (Cristo que passa, 2)

Evangelho e comentário

Tempo do Advento

Evangelho: Mt 1, 1-17

Genealogia de Jesus Cristo, Filho de David, Filho de Abraão: Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacob; Jacob gerou Judá e seus irmãos. Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara; Farés gerou Esrom; Esrom gerou Arão; Arão gerou Aminadab; Aminadab gerou Naasson; Naasson gerou Salmon; Salmon gerou, de Raab, Booz; Booz gerou, de Rute, Obed; Obed gerou Jessé; Jessé gerou o rei David. David, da mulher de Urias, gerou Salomão; Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa; Asa gerou Josafat; Josafat gerou Jorão; Jorão gerou Ozias; Ozias gerou Joatão; Joatão gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias; Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias; Josias gerou Jeconias e seus irmãos, ao tempo do desterro de Babilónia. Depois do desterro de Babilónia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel; Zorobabel gerou Abiud; Abiud gerou Eliacim; Eliacim gerou Azor; Azor gerou Sadoc; Sadoc gerou Aquim; Aquim gerou Eliud; Eliud gerou Eleazar; Eleazar gerou Matã; Matã gerou Jacob; Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. Assim, todas estas gerações são: de Abraão a David, catorze gerações; de David ao desterro de Babilónia, catorze gerações; do desterro de Babilónia até Cristo, catorze gerações.

Comentário:

Talvez seja escusado - podemos pensar - ler esta descrição pormenorizada da genealogia de Jesus Cristo. Basta-nos saber - e acreditar firmemente - que, Ele, é o Filho de Deus feito homem gerado por obra e graça do Espírito Santo no seio puríssimo da Virgem Maria.
Não!

O Evangelho foi escrito para ser lido e meditado e nada do que nele consta é dispensável.
De facto, conhecemos o Evangelho e podemos citar de cor muitas das suas passagens, mas o que temos de considerar é que, ler e meditar as páginas do Evangelho - todas - é fazer oração e, nesta, não se omite ou "salta" o que já sabemos ou é repetitivo.

(ama, comentário sobre Mt 1, 1-17, 17.12.2010)






Leitura espiritual



JESUS CRISTO NOSSO SALVADOR

Iniciação à Cristologia


SEGUNDA PARTE

A OBRA REDENTORA DE JESUS CRISTO


A cristologia estuda o mistério de Cristo: o mistério da sua pessoa e da sua obra redentora numa unidade indissolúvel. Jesus é o Filho de Deus feito homem e, ao mesmo tempo, Salvador esperado.


Já dissemos que não se podem separar esses dois aspectos, em primeiro lugar, porque a finalidade da sua vinda ao mundo, a razão de ser de toda a sua vida, é precisamente a salvação dos homens. Assim o ensina a Escritura: «o Pai enviou o seu Filho para ser Salvador do mundo» (Jo 4,10); assim o confessamos no símbolo da fé: o Filho de Deus «por nós, os homens, e por nossa salvação baixou do céu».


E, em segundo lugar, porque a função e a obra de Cristo como Salvador dos homens não se pode separar do seu ser de Verbo encarnado mas sim, pelo contrário, está em dependência da sua pessoa. Unicamente o Filho de Deus pode realizar uma autêntica redenção do pecado no mundo: «Quem pode perdoar os pecados, senão só Deus?» (Mc 2,7). Somente o Filho de Deus pode livrar o género humano da morte eterna e pode dar-nos a vida eterna porque Ele é a Vida (cf. Jo 14,6).


Assim pois, depois de, na primeira parte, ter estudado o mistério de Jesus Cristo em si mesmo, vamos abordar nesta segunda parte a sua acção redentora, tendo presente o que vimos anteriormente acerca da sua pessoa.


Como a obra da Salvação realizada por Cristo se designa comummente por redenção, nós empregaremos indistintamente esses termos, assim como os de Salvador e Redentor, ainda que teoricamente se possam distinguir.


Capítulo VII

O MISTÉRIO DA REDENÇÃO

1, A condição humana e a libertação do mal


Todos os seres humanos experimentam a rotura entre os desejos de vida e de felicidade, e a experiência e insatisfação do sofrimento. Por isso a humanidade procura superar esses elementos negativos e alberga uma esperança profunda em libertar-se do mal, assim como também um anelo de conseguir a plenitude da felicidade.


Daí que em todas as épocas os homens tenham tentado diversas soluções para se libertar do mal que os aflige Entre esses intentos humanos de salvação encontram-se as diversas religiões mundiais (p. Ex. O hinduísmo, o budismo, etc.) que pretenderam dar uma explicação do mal que existe no homem e propuseram vários caminhos para se livrar dele. Pensaram que a origem do mal estava na ignorância espiritual, ou nos desejos humanos que não se podem satisfazer, etc. E propuseram fórmulas para o superar através de boas obras, da contemplação espiritual, do domínio de si, do intento de apagar todo o desejo e libertar-se deste mundo, etc.

De modo semelhante o pensamento racionalista dominante nestes últimos séculos, e que afirma a independência do homem em relação a Deus, imagina que o ser humano pode conseguir por si mesmo a sua plenitude, e põe a esperança de libertação de todo o mal na cultura, na ciência, na técnica ou no progresso social.

2. O ensinamento da Bíblia sobre a redenção do homem

a) O destino do homem e a felicidade e a origem dos males que padece

A Palavra de Deus ensina-nos que estamos destinados a bens muito mais altos do que os que essas tentativas humanas nos propõem. Jesus Cristo revelou-nos que Deus nos amou e destinou antes da criação do mundo a uma aliança connosco para nos fazer partícipes da sua vida imensamente feliz. Por isso criou o homem à sua própria imagem, capaz de uma comunhão de vida com Ele. E achou que a sua criação era «muito boa» (Gen 1,31).


Todavia, deparamos que a realidade da actividade dos homens não é «tão boa», e «gememos interiormente esperando a adopção de filhos, a redenção do nosso corpo» (Rom 8,23). E a Bíblia ensina-nos que a origem de todos estes males e sofrimentos se encontra no «mistério de iniquidade» que é o pecado (cf. 2 Tes 2,7): principalmente no pecado original, mas também no pecado actual dos seres humanos que agora vivemos (no nosso egoísmo, na dureza de coração, na avidez de prazer e poder, na debilidade ante o mal, et.).


Mas, ainda que a imagem de Deus na pessoa humana tenha ficado obscurecida e desfigurada pelo pecado, nunca foi completamente destruída. O homem continua aspirando à felicidade plena, como reconhece Santo Agostinho: «Criaste-nos, Senhor, para ti; e o nosso coração está inquieto até que descanse em ti»[1]

Todavia, o homem só com as suas forças não pode libertar-se do pecado e das suas consequências, como são a privação de Deus, a proclividade ao mal, a desordem da concupiscência e a morte. Por isso, ainda que as tentativas humanas de libertação tenham uma raiz positiva, são insuficientes para curar a verdadeira raiz dos males que afligem a humanidade, que aninha no coração do homem.

b) A salvação do homem é iniciativa e obra de Deus, rico em misericórdia

A salvação é obra da iniciativa divina, pois Deus nunca abandonou o homem pecador, antes, pelo contrário, movido pelo seu amor misericordioso, dispôs-se fazer uma Nova Aliança com o género humano par nos associar à sua vida e comunicar-nos o seu bem e libertar-nos de todo o mal. Esta Nova Aliança será estabelecida por meio de Cristo.
A palavra de Deus ensina-nos que a libertação verdadeira e completa do homem procede unicamente de Deus, e é, antes de mais nada, dom misericordiosos de Deus à humanidade. Ao entregar o seu Filho pelos nossos pecados, Deus manifesta o seu desígnio de amor benevolente que precede todo o mérito da nossa parte: «A prova de que Deus nos ama é que Cristo, sendo nós todavia pecadores, morreu por nós» (Rom 5,8).

c) Principais expressões bíblicas sobre a salvação que Jesus Cristo realiza

A revelação ensina-nos que o Filho de Deus feito homem, segundo desígnio divino, empregou a sua vida para nos libertar do pecado e ressuscitou par nos comunicar a nova vida (cf. 1 Cor 15,3; Rom 4,25). Vejamos algumas explicações da Sagrada Escritura acerca de como esses mistérios de Cristo, têm eficácia salvífica para nós.

Redenção ou resgate.

O valor salvador da vida e Morte de Cristo apresenta-se com frequência na Sagrada Escritura sob a imagem de um resgate ou redenção que nos liberta da escravidão do pecado: «Entregou-se a si mesmo por nós para nos redimir de toda a iniquidade» (Tit 2,14), Ele deu a sua vida «em resgate por muitos» (Mt 20,28).

«Redimir» ou «resgatar» é – em linguagem jurídica antiga – salvar alguém da prisão ou da escravidão dando algo em troca, a modo de preço. Seguindo esta imagem, diz-se que Jesus nos salva da escravidão do pecado, do diabo e da morte, dando a sua vida por nós: «Fostes resgatados (...) não com bens corruptíveis, prata ou ouro, mas com o sangue precioso de Cristo» (1 Pd 1,18-19).

Libertação.

Unida à imagem do resgate está a ideia de uma «libertação» da escravidão do pecado e da carne: «Cristo libertou-nos para esta liberdade» (Gal 5,1) até chegar à «liberdade gloriosa dos filhos de Deus» (Rom 8,21).




Sacrifício.

O Novo Testamento apresenta também a vida e a morte de Cristo na cruz sob a imagem de um sacrifício. «Cristo amou-nos e entregou-se por nós em oblação e sacrifício de suave olor» (Ef 5,2).

Sacrifício é oferta que se faz a Deus para entrar em comunicação com Ele. E Jesus oferece a seu Pai, como Cabeça da humanidade, a entrega rendida da sua vida com o fim de reparar a desobediência do pecado e estabelecer a aliança que devolve ao homem a comunhão com Deus: «É o meu sangue da Nova Aliança, que é derramado por muitos para a remissão dos pecados» (Mt 26,28).

A Escritura apresenta também muitas outras imagens para se referir ao modo como Cristo nos liberta do pecado. Por exemplo, a de uma vitória sobre o demónio, o pecado e a morte, a de uma reconciliação dos homens com Deus pois o pecado é como uma inimizade ou ruptura da união com Deus; etc.

d) Uma clarificação conveniente: o sentido teológico das expressões analógicas que se aplicam a Deus

Por causa da transcendência do divino, a Sagrada Escritura e a teologia usam imagens e conceitos humanos e aplicam-nos a Deus em razão de alguma semelhança. Nestes casos há que entender bem o sentido com que os atribuímos a Deus, pois só se usam segundo uma analogia e não em sentido unívoco. Por isso, ao interpretar essas expressões, que são legítimas, não nos podemos deixar levar por impressões imediatas demasiado humanas que nos levam a tirar consequências equivocadas: não podemos imaginar Deus ao modo humano, pois Ele não é como nós. Por exemplo, aqueles conceitos que encerram em si mesmos alguma imperfeição não se atribuem a Deus propriamente mas só em sentido figurado[2].


No nosso caso é especialmente necessário entender o sentido das expressões que empregamos, pois a soteriologia serve-se de muitas metáforas e exemplo tomados das relações humanas para ilustrar a obra de Cristo (v. g.: ofensa, perdão;, castigo, satisfação; escravidão, resgate; inimizade, reconciliação, etc.). De facto, têm-se dado explicações inadequadas da redenção que têm como base uma concepção muito humana de Deus e das elações entre Ele e os homens; por exemplo, quando a obra de Cristo se apresenta em termos de uma compensação a Deus por algum mal que se lhe tenha causado pelo pecado, ou como castigo pelos nossos pecados[3]. Por isso, procuremos agora clarificar alguns conceitos.

O pecado.

O pecado é um acto desordenado da nossa vontade que nos aparta de Deus: é um mal que está em nós, não é um mal inferido a Deus em si mesmo.

Portanto, quando dizemos analogicamente que é uma «ofensa ou um agravo a Deus» significamos que o pecado é uma acção injusta que tem da nossa parte uma semelhança com aquelas que ofendem ou agravam a outro homem; mas não significamos que Deus tenha sofrido algum menosprezo, ou que se lhe tenha causado alguma pena ou tenha diminuído a sua felicidade. A Igreja sempre sustentou a imutabilidade de Deus, que não pode mudar: não pode diminuir, nem sofrer. O mal produzido pelo pecado só se dá na criatura que erra, se envilece e, sobretudo, perde a união com Deus nosso bem. Assim, ante a infidelidade do seu povo, pergunta o Senhor: «Mas acaso me ofendem a mim, não ofendem antes a eles mesmos, para sua vergonha?» (Jer 7,19). O mal não sofre quem dá coices contra o aguilhão pontegudo (cf. Act 9,5 Vg).

A reparação do pecado.

A reparação do pecado consiste na libertação da desordem, do mal introduzido no homem; é restaurar o homem caído segundo a imagem de Deus na qual foi criado. Concretamente, consiste na conversão do homem a Deus mediante a graça que o une a Deus e corrige a sua separação d Deus (a culpa), e também na eliminação das penalidades que o pecado leva consigo (a pena).


Portanto quando falamos analogicamente de satisfação do pecado» ou de «desagravo» significamos que se requerem algumas acções do homem para a completa reparação do pecado, o que tem uma semelhança com o que se costuma fazer entre os homens para o perdão de uma ofensa; mas não significamos que essas acções consistam em oferecer a Deus uma compensação adequada para restaurar o bem divino que estivesse diminuído pelo pecado, ou por um mal que a Ele se tivesse inferido. Além do mais, que poderia dar o homem a Deus como compensação, que não tenha recebido d’Ele? (cf. 1 Cor 4,7; Rom 11, 35).


3. As principais explicações da Tradição patrística sobre a redenção


Ao tratar da obra da salvação, os Padres da Igreja  empregaram as imagens e a terminologia do Novo Testamento, mas, além disso, foram desenvolvendo outras explicações diferentes da obra de Cristo. Vejamos somente as linhas mais gerais.

A divinização do homem, nos Padres orientais.


Os Padres gregos sublinham que Cristo veio comunicar-nos a semelhança com Deus perdida com o pecado O Verbo, com a sua própria Encarnação santifica tudo o que toca. Santo Atanásio e outros Padres orientais empregam com gosto a imagem do «intercambio»: o Verbo fez-se particípe do nosso, da humanidade, para fazer-nos particípes do seu, a divindade.

Os Padres gregos fixam-se sobretudo no aspecto descendente e gratuito da salvação, ainda que também assinalem que a fonte da salvação, tornada possível pela Encarnação, é a Morte e Ressurreição de Cristo.

O sacrifício redentor, nos Padres ocidentais.


Os padres latinos fixam-se sobretudo no aspecto ascendente da salvação, quer dizer, na obra realizada pela nossa Cabeça em nome de toda a humanidade para nos ganhar a salvação; ainda que assinalem também claramente que a redenção é pura graça. Santo Ambrósio, Santo Agostinho e outros Padres ocidentais sublinham especialmente que Cristo, como nossa Cabeça, oferece a seu Pai o sacrifício perfeito da sua vida para reparar o nosso pecado e reconciliar-nos com Deus.


(cont)

Vicente Ferrer Barriendos

(Tradução do castelhano por ama)





[1] S. AGOSTINHO, Confissões, 1,1,1.
[2] É o caso de atribuir paixões a Deus (a tristeza, a ira, a vingança); ou o que supõe falta de bondade n’Ele (odiar ou causar o mal a alguém); ou falta de providência (não proteger ou abandonar alguém); ou o que supõe mudança n’Ele (arrepender-se, ser agravado ou ofendido pelo pecado, perdoar), etc.
[3] Cf. COMISIÓN TEOLÓGICA INTERNACIONAL, Cuestiones selectas sobre Dios redentor (1994), em Documentos 1969-1996, BAC, pp. 511-512; 527.

Actos dos Apóstolos

Actos dos Apóstolos

I. A IGREJA DE JERUSALÉM [i]

Capítulo 2

Primeiras conversões

37Ouvindo estas palavras, ficaram emocionados até ao fundo do coração e perguntaram a Pedro e aos outros Apóstolos: «Que havemos de fazer, irmãos?»

38Pedro respondeu-lhes: «Convertei-vos e peça cada um o baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo. 39Na verdade, a promessa de Deus é para vós, para os vossos filhos, assim como para todos os que estão longe: para todos os que o Senhor nosso Deus quiser chamar.» 40Com estas e muitas outras palavras, Pedro exortava-os e dizia-lhes: «Afastai-vos desta geração perversa.» 41Os que aceitaram a sua palavra receberam o baptismo e, naquele dia, juntaram-se a eles cerca de três mil pessoas.



[i] (1,12-6,7)

Graus da perfeição - 8

17 Graus da perfeição


8. Em todas as coisas, altas e baixas, ter a Deus por fim, pois de outro modo não se crescerá em perfeição e mérito.



(são joão da cruz, em Pequenos Tratados Espirituais)


(tradução por ama)

Antigo testamento / Levítico

Levítico 7

A oferta pela culpa

1 "Esta é a regulamentação da oferta pela culpa, que é oferta santíssima:

2 O animal da oferta pela culpa será morto no local onde são sacrificados os holocaustos, e seu sangue será derramado nos lados do altar.

3 Toda a sua gordura será oferecida: a parte gorda da cauda e a gordura que cobre as vísceras, os dois rins com a gordura que os cobre e que está perto dos lombos, e o lóbulo do fígado, que será removido com os rins.

4 O sacerdote os queimará no altar como oferta dedicada ao Senhor, preparada no fogo. É oferta pela culpa.

5 Somente os homens da família dos sacerdotes poderão comê-la, mas deve ser comida em lugar sagrado; é oferta santíssima.

6 "A mesma regulamentação aplica-se tanto à oferta pelo pecado quanto à oferta pela culpa: a carne pertence ao sacerdote que faz propiciação pela culpa.

7 O sacerdote que oferecer um holocausto por alguém ficará com o couro do animal.

8 Toda oferta de cereal, assada num forno ou cozida numa panela ou numa assadeira, pertence ao sacerdote que a oferecer, e toda oferta de cereal, amassada com óleo ou não, pertence igualmente aos descendentes de Arão.

A oferta de paz

9 "Esta é a regulamentação da oferta de comunhão que pode ser apresentada ao Senhor:

10 "Se alguém a fizer por gratidão, então, com sua oferta de gratidão, terá que oferecer bolos sem fermento e amassados com óleo, pães finos sem fermento e untados com óleo, e bolos da melhor farinha bem amassados e misturados com óleo.

11 Com a sua oferta de comunhão por gratidão, apresentará uma oferta que inclua bolos com fermento.

12 De cada oferta trará uma contribuição ao Senhor, que será dada ao sacerdote que asperge o sangue das ofertas de comunhão.

13 A carne da sua oferta de comunhão por gratidão será comida no dia em que for oferecida; nada poderá sobrar até o amanhecer.

14 "Se, contudo, sua oferta for resultado de um voto ou for uma oferta voluntária, a carne do sacrifício será comida no dia em que for oferecida, e o que sobrar poderá ser comido no dia seguinte.

15 Mas a carne que sobrar do sacrifício até o terceiro dia será queimada no fogo.

16 Se a carne da oferta de comunhão for comida ao terceiro dia, ela não será aceite. A oferta não será atribuída àquele que a ofereceu, pois a carne estará estragada; e quem dela comer sofrerá as consequências da sua iniquidade.

17 "A carne que tocar em qualquer coisa impura não será comida; será queimada no fogo. A carne do sacrifício, porém, poderá ser comida por quem estiver puro.

18 Mas, se alguém que, estando impuro, comer da carne da oferta de comunhão que pertence ao Senhor, será eliminado do meio do seu povo.

19 Se alguém tocar em alguma coisa impura - seja impureza humana, seja de animal, seja qualquer outra coisa impura e proibida - e comer da carne da oferta de comunhão que pertence ao Senhor, será eliminado do meio do seu povo".

Proibido comer sangue e gordura

20 E disse o Senhor a Moisés:

21 "Diz aos israelitas: Não comam gordura alguma de boi, carneiro ou cabrito.

22 A gordura de um animal encontrado morto ou despedaçado por animais selvagens pode ser usada para qualquer outra finalidade, mas nunca poderá ser comida.

23 Quem comer a gordura de um animal dedicado ao Senhor numa oferta preparada no fogo, será eliminado do meio do seu povo.

24 Onde quer que vivam, não comam o sangue de nenhuma ave nem de animal.

25 Quem comer sangue será eliminado do meio do seu povo".

A porção de Arão e seus filhos

26 Disse mais o Senhor a Moisés:

27 "Diz aos israelitas: Todo aquele que trouxer sacrifício de comunhão ao Senhor terá que dedicar parte dele ao Senhor.

28 Com as suas próprias mãos trará ao Senhor as ofertas preparadas no fogo; trará a gordura com o peito, e o moverá perante o Senhor como gesto ritual de apresentação.

29 O sacerdote queimará a gordura no altar, mas o peito pertence a Arão e a seus descendentes.

30 Deverão dar a coxa direita das ofertas de comunhão ao sacerdote como contribuição.

31 O descendente de Arão que oferecer o sangue e a gordura da oferta de comunhão receberá a coxa direita como porção.

32 Das ofertas de comunhão dos israelitas, tomei o peito que é movido ritualmente e a coxa que é ofertada, e dei-os ao sacerdote Arão e aos seus descendentes por decreto perpétuo para os israelitas".

33 Essa é a parte das ofertas dedicadas ao Senhor, preparadas no fogo, destinada a Arão e a seus filhos no dia em que foram apresentados para servirem ao Senhor como sacerdotes.

34 Foi isso que o Senhor ordenou dar-lhes, no dia em que foram ungidos dentre os israelitas. É um decreto perpétuo para as suas gerações.

35 Essa é a regulamentação acerca do holocausto, da oferta de cereal, da oferta pelo pecado, da oferta pela culpa, da oferta de ordenação e da oferta de comunhão.

36 O Senhor entregou-a a Moisés no monte Sinai, no dia em que ordenou aos israelitas que trouxessem suas ofertas ao Senhor, no deserto do Sinai.


(Revisão da versão portuguesa por ama)

Pequena agenda do cristão



SÁBADO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





16/12/2016

O Advento

Olhai e levantai as vossas cabeças porque está próxima a vossa redenção (Lc 21, 28), lemos no Evangelho. O tempo do Advento é o tempo da esperança. Todo o panorama da nossa vocação cristã, a unidade de vida que tem como nervo a presença de Deus, Nosso Pai, pode e deve ser uma realidade diária. (Cristo que passa, 11, 4)

Procura a união com Deus e enche-te de esperança – virtude segura! –, porque Jesus te iluminará, mesmo na noite mais escura, com a luz da sua misericórdia. (Forja, 293)

Jesus Christus, Deus Homo, Jesus Cristo, Deus-Homem! Eis uma magnalia Dei (Act. II, 11), uma das maravilhas de Deus em que temos de meditar e que temos de agradecer a este Senhor que veio trazer a paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2, 14), a todos os homens que querem unir a sua vontade à Vontade boa de Deus. Não só aos ricos, nem só aos pobres! A todos os homens, a todos os irmãos! Pois irmãos somos todos em Jesus; filhos de Deus, irmãos de Cristo. Sua Mãe é nossa Mãe.


É preciso ver o Menino, nosso Amor, no seu berço. Olhar para Ele, sabendo que estamos perante um mistério. Precisamos de aceitar o mistério pela fé, aprofundar o seu conteúdo. Para isso necessitamos das disposições humildes da alma cristã: não pretender reduzir a grandeza de Deus aos nossos pobres conceitos, às nossas explicações humanas, mas compreender que esse mistério, na sua obscuridade, é uma luz que guia a vida dos homens. (Cristo que passa, 13)

Evangelho e comentário

Tempo do Advento

Evangelho: Jo 5, 33-36

Naquele tempo, disse Jesus aos judeus: Vós mandastes emissários a João Baptista e ele deu testemunho da verdade. Não é de um homem que Eu recebo testemunho, mas digo-vos isto para que sejais salvos. João era uma lâmpada que ardia e brilhava e vós, por um momento, quisestes alegrar-vos com a sua luz. Mas Eu tenho um testemunho maior que o de João, pois as obras que o Pai Me deu para consumar – as obras que Eu realizo – dão testemunho de que o Pai Me enviou».

Comentário:

Durante séculos vários profetas tinham anunciado a vinda do Messias.
Alguns, com linguagem mais hermética ou figurativa outros, os mais recentes, acrescentando detalhes às profecias anteriores. Foi-se, as­sim, instalando no povo de Israel a convicção que, um dia, o Messias viria de facto ao seu encontro com a história.

Este Messias foi ganhando "forma" na mente das pessoas consoante conviria em cada momento, mas, em algo quase todos estariam de acordo: seria o indómito chefe que libertaria Israel de toda a opressão e lhe restituiria a importância e grandeza dos tempos de Salomão.

O Precursor é o último profeta e o seu discurso é, já, claríssimo:

Ele já veio, está no meio de nós!

Como entender que se acredite nos que dizem que "há-de vir" e não se dê crédito ao que diz "já veio"?

(ama, comentário sobre Jo 5, 33-36, 2011.12.16)







Leitura espiritual


JESUS CRISTO NOSSO SALVADOR

Iniciação à Cristologia


PRIMEIRA PARTE


A PESSOA DE JESUS CRISTO



Capítulo VI

OUTRAS CARACTERÍSTICAS QUE COMPLETAM A FIGURA DE JE­SUS CRISTO ENQUANTO HOMEM


3. As acções humanas de Jesus Cristo

a) A existência de uma operação humana em Cristo

Já dissemos que o monoergismo propugnava uma só operação em Cristo, que chamava teándrica (divino-humana); de modo que a sua humanidade seria um instrumento passivo sem uma acção própria, como uma marioneta da divindade. E foi condenado no III concílio de Constantinopla que confessou «duas operações naturais sem divisão, sem comutação, sem separação, sem confusão, no mesmo nosso Se­nhor Jesus Cristo, nosso verdadeiro Deus, isto é, uma operação divina e outra operação humana»[1].
   

Já o tinha dito São Leão Magno a propósito do monofisismo: «Uma e outra natureza operam, com comunicação da outra, o que é próprio dela: quer dizer, que o Verbo obra o que pertence ao Verbo e carne executa o que toca à carne»[2].


A razão é que ainda que as acções sejam das pessoas, são-no segundo o princípio dessas operações. «E a natureza é o princípio da operação. Por isso em Cristo não há uma só operação por ser um único sujeito, mas duas operações porque são duas as naturezas. Enquanto na Santíssima Trindade, pelo contrário, não há mais que uma só operação (e não três) por causa da unidade da natureza»[3].


A natureza humana de Cristo tem a sua própria forma e virtude pelas quais actua do modo que lhe é próprio: sente, conhece, quer livremente, etc. Daí que a natureza humana tenha a sua própria operação diferente da operação divina.


b) O poder próprio, natural e sobrenatural, das acções de Cristo homem


Qual é o poder e alcance das acções próprias de Cristo homem? Digamos em primeiro lugar que a sua natureza humana, como a de todo o homem, tem poder para realizar todas as acções humanas naturais: para conhecer, querer, falar, caminhar, etc.


Mas também, como todo o homem em estado de graça, tem o poder para realizar obras sobrenaturais: trata-se de um poder participado pelo Espírito Santo, mas outorgado ao homem para que este possa realizar por si mesmo obras sobrenaturais; p. ex. amar a Deus e ao próximo, orar, obedecer ou merecer. Jesus, como homem cheio de graça e de verdade, tinha a capacidade sobrenatural de revelar o Pai e ensinar-nos as palavras de Deus, assim como de merecer por todos os homens e satisfazer por todo o género humano.


Tão importante é esta capacidade sobrenatural, que sem ela não poderíamos afirmar a realidade da obra redentora que Jesus levou a cabo por meio dessas acções.


É de notar que todas estas acções naturais e sobrenaturais na huma­nidade assumida na unidade de pessoa pelo Filho de Deus são «pró­prias» da segunda pessoa da Trindade: não são acções comuns com o Pai e o Espírito Santo.


c) O mérito das acções humanas próprias de Cristo


A condescendência divina é tal que nos prometeu dar os bens divinos em modo de uma retribuição pelas boas acções que realizemos em estado de graça e seguindo as inspirações do Espírito Santo, pois torna-se mais digno para o homem ter esses bens por si mesmo, como devidos a alguém, que recebê-los por pura dádiva.

Como as acções humanas de Cristo eram livres e nasciam do imenso amor ao Pai que o Espírito Santo tinha infundido na sua alma, todas elas eram meritórias, quer dizer, eram dignas de alcançar o fim ao qual as tinha ordenado o desígnio divino.

Assim pois, Cristo, antes da sua Ressurreição, mereceu para si mesmo aqueles bens que ainda não possuía, como eram a perfeita glorificação e exaltação da sua humanidade. Isto é o que a Escritura manifesta quando diz: «humilhou-se a si mesmo fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz. E por isso Deus o exaltou» (Flp 2,9).


E Cristo também mereceu para nós a salvação. Ainda que, em princípio, o mérito – o título para o prémio – olha só à retribuição da pessoa que realizou determinada obra, todavia, a fé ensina-nos que Cristo mereceu a graça para todos os homens, pois a este fim estava ordenada a Encarnação do Verbo. Mais adiante, ao estudar a Paixão de Cristo, veremos melhor este ponto.


d) As acções humanas de Cristo enquanto são instrumento da divindade


A humanidade de Cristo, além do poder próprio que possui pela natureza ou pela graça, tem a capacidade, como toda a criatura, de que Deus se sirva dela como instrumento para levar a cabo obras acima do poder da sua natureza.


Assim na ordem física a divindade serviu-se de alguns gestos e pala­vras humanas de Jesus para produzir milagres, que são acções admi­ráveis que superam a capacidade da natureza humana e facilitam a fé dos testemunhos, tais como dar a vista aos cegos, curar leprosos e paralíticos, ou ressuscitar mortos.


A teologia conservou o nome de teándricas, mas num claro sentido diferente do monoergismo, para estas acções humanas de Cristo enquanto servem de instrumento à divindade para realizar obras próprias da omnipotência divina. Mas neste caso trata-se de duas operações naturais coordenadas para produzir esse efeito, não se trata de uma só operação confusa, mistura de ambas[4]. Por exemplo, na cura milagrosa de um cego há uma acção própria da natureza divina (dar-lhe a vista) que se serve da acção própria da natureza humana de Jesus (das suas palavras e do gesto de lhe ungir os olhos).


E igualmente na ordem espiritual, mais importante, a divindade serviu-se do seu querer humano e das suas palavras para perdoar os pecados (cf. Mt 9,6). Ainda assim a escritura diz-nos que a sua humanidade participa do poder de comunicar aos homens a vida eterna (cf. Jo 17,2), que é uma acção própria de Deus. E igualmente as acções de Cristo são instrumento da divindade para comunicar a graça a todos os homens.


Em todas estas acções a causa eficiente principal é a natureza e o poder divino do Verbo, que tem em comum com o Pai e o Espírito Santo; e a humanidade de Cristo é a causa instrumental. Portanto, estas acções não são próprias e exclusivas do Verbo, pois nelas também intervêm as outras pessoas divinas; p. ex. as três pessoas divinas comunicam a salvação aos homens tornando-os partícipes da obra redentora de Cristo mediante os sacramentos.


4. A afectividade humana de Cristo


A afectividade humana, ponto de união entre o sensível e o intelectual no homem, compreende os sentimentos, afectos, emoções e paixões. Ainda que cada um desses termos tenha conotações diferentes, aqui falaremos dos sentimentos e das paixões de uma forma genérica para ganhar em clareza e simplicidade.


a) Os sentimentos e as paixões de Jesus Cristo


Os sentimentos ou paixões são os actos ou movimentos reactivos na­turais da nossa sensibilidade, produzidos pelos objectos percebidos pe­los sentidos.

E Cristo teve aqueles sentimentos e paixões próprios da natureza humana compatíveis com a sua plenitude de graça e que serviam para a nossa redenção. Assim os Evangelhos testemunham que Cristo teve alegria pelas obras de seu Pai (cf. Lc 10,21) e de saber-se amado pelo pai (cf. Jo 15,10-11); ou que teve desejos ardentes da nossa redenção (cf. Lc 12,50) e de ficar-se na Eucaristia (cf. Lc 22,15), etc.


A Escritura mostra-nos igualmente que em Cristo houve tristeza ao contemplar os sofrimentos da sua Paixão e o pecado dos seus (cf. Mt 26,38); ou que teve dor de alma até chorar pela morte de Lázaro ou pela ruína do seu povo (cf. Jo 11,33-35; Lc 19,41); ou que teve a ira ante a hipocrisia de alguns (cf. Mc 3,5), etc.


Mas n’Ele esses sentimentos e paixões, que em si mesmos são parte da natureza humana e são bons, deram-se de modo diferente que em nós, pois em nós normalmente antecedem o juízo da razão, frequentemente tendem para o ilícito, e por vezes arrastam a razão. Em Cristo, ao invés, a razão regia e controlava perfeitamente toda a sua afectividade ainda que deixasse que cada uma das tendências sensíveis regesse com o seu próprio movimento para o bem e do modo mais conveniente: esses sentimentos jamais antecederam o juízo da razão, nem se dirigiram ao que não fosse conveniente mas antes estavam ordenados ao bem, nem lhe impediram a serenidade dos seus juízos, nem o arrastaram na sua actuação[5].


b) O amor de Cristo. O sagrado Coração de Jesus


Em Jesus não faltou o sentimento principal, do qual derivam todos os outros, que é o amor e que é sobre naturalizado pela caridade. Mais, este foi o motor da sua vida, e a chave da harmonia e unidade de todo o seu ser: o seu amor e entrega ao pai e a nós.


O amor a seu Pai nasce de saber-se o Filho muito amado (cf. Mt 3,17). O seu amor filial ressoa em todas as suas palavras e resplandece em todos os seus actos. Vivia do amor e da entrega à vontade de seu Pai: «Faço sempre o que lhe agrada» (Jo 8,29).


O amor por nós foi o prolongamento desse amor a seu Pai. Assim nos dizem os Evangelhos, que quis aos seus (cf. Lc12,4; Jo 11,11); e que «Jesus amava Marta, a sua irmã e a Lázaro» (Jo 11,5); ou que mostrou afecto e compaixão para com muitos. Esse amor manifestava-se exterior­mente com facilidade, de modo que era patente e notório para todos (cf. Jo 11,3-35).


E esse amor de Jesus não se estendia só aos mais próximos, mas tam­bém abarcava a todos e cada um. O Novo Testamento certifica-o: «amou-nos e entregou-se por nós» (Ef 5,2; cf. Rom 8,37); com um amor até ao extremo: «ninguém tem maior amor que o que dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15,13). «Jesus, durante a sua vida, a sua agonia e a sua Paixão conheceu-nos e amou-nos a todos e a cada um de nós e entregou-se por cada um de nós: ‘O Filho de Deus amou-me e entregou-se a si mesmo por mim’ (Gal 2,20).[6]


O Sagrado Coração de Jesus.

Jesus Cristo amou-nos e ama-nos com o seu infinito amor divino, que tem em comum com o Pai e o Espírito Santo, e também com o seu amor humano que o levou a entregar-se por nós: ama-nos com o seu coração humano cheio da imensa caridade infundida na sua alma e o seu afecto carinhoso[7].


«Amou-nos a todos com um coração humano. Por esta razão, o Sa­grado Coração de Jesus, trespassado pelos nossos pecados e para nossa salvação (cf. Jo 19,34), ‘é considerado como o principal indicador e símbolo (…) o amor com que o divino Redentor ama continuamente o eterno Pai e todos os homens,’ (Pio XII, Auretis aquas, DES, 3924)»[8].


5. Fisionomia de Jesus


No que respeita ao rosto e ao aspecto físico de Jesus, os Evangelhos não nos transmitiram nenhuma descrição directa sobre a sua estatura, os seus traços físicos, sobre a cor dos seus olhos ou do cabelo, etc. Ainda que neste ponto indubitavelmente os Apóstolos devem ter satisfeito a legítima curiosidade dos primeiros cristãos, logo se perdeu a memória daquelas notícias. Por isso ao longo da história têm-se dado múltiplas opiniões sobre a fisionomia de Jesus e a arte representou-o inúmeras vezes, mas trata-se de imagens muito diferentes que procedem só da imaginação dos cristãos.


Todavia, de modo indirecto, a Sagrada Escritura sugere-nos alguns dados que nos servem para fazermos uma ideia, ainda que vaga e geral, do aspecto físico do Senhor.

Assim, podemos dizer devia ter uma presença agradável, amável e atraente, para que muitos acudissem a Ele com facilidade, ou para que o chamassem «bom mestre» (Mc 10,17), ou lhe levassem crianças para que lhes impusesse as mãos, etc.
   

Devia ter um porte e uns modos dignos que inspiravam o respeito e o afecto de pessoas de todas as condições, tanto da gente simples das aldeias, como pessoas de categoria social ou intelectual elevada, tais como José de Arimateia, Nicodemos, etc.


Tinha no seu interior transparecia no seu rosto uma profunda paz e alegria, das quais desejava que participassem os seus (cf. Jo 14,27; 15,11). Com efeito vemo-lo sempre sereno, dono das suas palavras e dos seus actos. E habitualmente ao seu rosto devia assomar um sorriso sincero, inclusive vemo-lo manifestamente feliz, em ocasiões, com o bem espi­ritual das almas (cf. Lc 10,21), e compara a sua vida com umas bodas nas quais ninguém pode estar triste (cf. Mt 9,15).


O olhar de Jesus normalmente era alegre, carinhoso e profundo, de modo que chegava ao fundo das almas. Esse olhar manifesta-se afec­tuoso com o jovem rico (cf. Mc 10,21), compassivo coma viúva de Naim (cf. Lc 7,13), com pena para com Pedro depois das negações (cf. Lc 22,61). Que teria o seu olhar, que removeu e arrastou Pedro, Mateus, e tantos outros a que o seguissem, deixando todas as coisas!


Todavia, o atractivo de Jesus provinha sobretudo do seu interior: da sua bondade, das suas palavras, e dos seus milagres. Talvez Deu tenha permitido que não nos ficasse um retrato de Jesus, e que a sua presença física entre nós finalizasse com a Ascensão, para que não fossemos atraídos a Ele por motivos meramente humanos mas para que nos fixássemos principalmente na sua alma, e o procurássemos como nosso salvador e nosso Deus.

***

Ao terminar estas páginas que pretendiam dar a conhecer um pouco mais a figura de Jesus, fica-nos a pena de não ter reflectido em absoluto «a insondável riqueza de Cristo» (Ef 3,38), de não ter mostrado apenas como era. Seria preciso percorrer uma a uma todas as virtudes e citar a maior parte dos Evangelhos se quiséssemos contemplar todas as qualidades do Salvador; e sempre ficaríamos muito longe da plenitude e perfeição que n’Ele existem e do conjunto maravilhosamente harmonioso e completo que todas elas constituem em Jesus.


Só no céu nos será dado ver e conhecer a amável figura de Jesus face a face. Na terra resta-nos a tarefa pessoal de ir descobrindo mais e mais como era e como é, mediante a leitura meditada dos Evangelhos e do trato pessoal e imediato de cada um com Jesus na oração e na santíssima Eucaristia.


(cont)

Vicente Ferrer Barriendos

(Tradução do castelhano por ama)





[1] CONC. III DE CONSTANTINOPLA, DS, 557.
[2] S. LEÃO MAGNO, DS, 294.
[3] S. TOMÁS DE AQUINO, Compendium theologiae, cap. 212, n. 419; cf. S.Th. III,19,2, ad 3-4.
[4] Cf. CONC. LATERANENSE, ano 649, DS, 515.
[5] Cf. DS, 299; S. TOMÁS DE AQUINO, S. Th. III, 15,4-9; Compendium theologiae, cp. 232.
[6] CCE, 478.
[7] Cf. S. JOSEMARÍA ESCRIVÁ, Cristo que passa, 164.
[8] CCE, 478.