16/02/2015

Que vos saibais perdoar

Com quanta insistência o Apóstolo S. João pregava o "mandatum novum"! "Amai-vos uns aos outros!". Pôr-me-ia de joelhos, sem fazer teatro – grita-mo o coração –, para vos pedir, por amor de Deus, que vos estimeis, que vos ajudeis, que vos deis a mão, que vos saibais perdoar. Portanto, vamos banir a soberba, ser compassivos, ter caridade; prestar-nos mutuamente o auxílio da oração e da amizade sincera. (Forja, 454)


Jesus Cristo, Nosso Senhor, encarnou e tomou a nossa natureza, para se mostrar à humanidade como modelo de todas as virtudes. Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, convida-nos Ele.

Mais tarde, quando explica aos Apóstolos o sinal pelo qual os reconhecerão como cristãos, não diz: porque sois humildes. Ele é a pureza mais sublime, o Cordeiro imaculado. Nada podia manchar a sua santidade perfeita, sem mácula. Mas também não diz: saberão que se encontram diante de discípulos meus, porque sois castos e limpos.

Passou por este mundo com o mais completo desprendimento dos bens da terra. Sendo Criador e Senhor de todo o universo, faltava-lhe até um sítio onde pudesse reclinar a cabeça. No entanto, não comenta: saberão que sois dos meus porque não vos apegastes às riquezas. Permanece quarenta dias e quarenta noites no deserto em jejum rigoroso, antes de se dedicar à pregação do Evangelho. E também não afirma aos seus: compreenderão que servis a Deus, porque não sois comilões nem bebedores.


A característica que distinguirá os apóstolos, os cristãos autênticos de todos os tempos, já a ouvimos: nisto – precisamente nisto – conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros. (Amigos de Deus, 224)

A importância da figura paterna


Amados irmãos e irmãs, bom dia!

Retomamos o caminho das catequeses sobre a família. Hoje deixamo-nos guiar pela palavra «pai». Uma palavra que a nós cristãos é muito querida, porque é o nome com o qual Jesus nos ensinou a dirigir-nos a Deus: pai. O sentido deste nome recebeu uma nova profundidade precisamente a partir do momento em que Jesus o usava para se dirigir a Deus e manifestar a sua relação especial com Ele. O mistério bendito da intimidade de Deus, Pai, Filho e Espírito, revelado por Jesus, é o coração da nossa fé cristã.

«Pai» é uma palavra que todos conhecem, é uma palavra universal. Ela indica uma relação fundamental cuja realidade é antiga como a história do homem. Contudo, hoje chegou-se a afirmar que a nossa seria «uma sociedade sem pais». Noutros termos, sobretudo na cultura ocidental, a figura do pai estaria simbolicamente ausente, esvaecida, removida. Num primeiro momento, isto foi sentido como uma libertação: libertação do pai-patrão, do pai como representante da lei que se impõe de fora, do pai como censor da felicidade dos filhos e impedimento à emancipação e à autonomia dos jovens. Por vezes havia casas em que no passado reinava o autoritarismo, em certos casos até a prepotência: pais que tratavam os filhos como servos, sem respeitar as exigências pessoais do seu crescimento; pais que não os ajudavam a empreender o seu caminho com liberdade — mas não é fácil educar um filho em liberdade —; pais que não os ajudavam a assumir as próprias responsabilidades para construir o seu futuro e o da sociedade.

Certamente, esta não é uma boa atitude; mas, como acontece muitas vezes, passa-se de um extremo ao outro. O problema nos nossos dias não parece ser tanto a presença invadente dos pais, mas ao contrário a sua ausência, o seu afastamento. Por vezes os pais estão tão concentrados em si mesmos e no próprio trabalho ou então nas próprias realizações pessoais, que se esquecem até da família. E deixam as crianças e os jovens sozinhos. Quando eu era bispo de Buenos Aires apercebia-me do sentido de orfandade que vivem os jovens de hoje; e muitas vezes perguntava aos pais se brincavam com os seus filhos, se tinham a coragem e o amor de perder tempo com os filhos. E a resposta era feia, na maioria dos casos: «Mas, não posso, porque tenho tanto trabalho...». E o pai estava ausente daquele filho que crescia, não brincava com ele, não, não perdia tempo com ele.

Mas, neste caminho comum de reflexão sobre a família, gostaria de dizer a todas as comunidades cristãs que devemos estar mais atentos: a ausência da figura paterna da vida das crianças e dos jovens causa lacunas e feridas que podem até ser muito graves. Com efeito os desvios das crianças e dos adolescentes em grande parte podem estar relacionados com esta falta, com a carência de exemplos e de guias respeitáveis na sua vida de todos os dias, com a falta de proximidade, com a carência de amor por parte dos pais. É mais profundo de quanto pensamos o sentido de orfandade que vivem tantos jovens.

São órfãos na família, não dão aos filhos, com o seu exemplo acompanhado pelas palavras, aqueles princípios, aqueles valores, aquelas regras de vida das quais precisam como do pão. A qualidade educativa da presença paterna é tanto mais necessária quanto mais o pai é obrigado pelo trabalho a estar distante de casa. Por vezes parece que os pais não sabem bem que lugar ocupar na família e como educar os filhos. E então, na dúvida, abstêm-se, retiram-se e descuidam as suas responsabilidades, talvez refugiando-se numa relação improvável «ao nível» dos filhos. É verdade que deves ser «companheiro» do teu filho, mas sem esquecer que és o pai! Se te comportas só como um companheiro igual ao teu filho, isto não será bom para o jovem. E vemos este problema também na comunidade civil. A comunidade civil com as suas instituições, tem uma certa responsabilidade — podemos dizer paterna — em relação aos jovens, uma responsabilidade que por vezes descuida e exerce mal. Também ela muitas vezes os deixa órfãos e não lhes propõe uma verdadeira perspectiva. Assim, os jovens permanecem órfãos de caminhos seguros para percorrer, órfãos de mestres nos quais confiar, órfãos de ideais que aqueçam o coração, órfãos de valores e de esperanças que os amparem diariamente. Talvez sejam ídolos em abundância mas é-lhes roubado o coração; são estimulados a sonhar divertimentos e prazeres, mas não lhes é dado trabalho; são iludidos com o deus dinheiro, mas são-lhes negadas as verdadeiras riquezas.

E então fará bem a todos, aos pais e aos filhos, ouvir de novo a promessa que Jesus fez aos seus discípulos: «Não vos deixarei órfãos» (Jo 14, 18). De facto, Ele é o Caminho a percorrer, o Mestre a ouvir, a Esperança de que o mundo pode mudar, de que o amor vence o ódio, que pode haver um futuro de fraternidade e de paz para todos. Algum de vós poderia dizer-me: «Mas Padre, hoje foi demasiado negativo. Só falou da ausência dos pais, do que acontece quando os pais não acompanham o crescimento dos filhos... É verdade, quis frisar isto, porque na próxima quarta-feira continuarei esta catequese pondo em evidência a beleza da paternidade. Por isso escolhi começar pela escuridão para chegar à luz. Que o Senhor nos ajude a compreender bem estas coisas. Obrigado.


28 de Janeiro de 2015

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Tratado do verbo encarnado 123

Questão 18: Da unidade de Cristo quanto a vontade

Art. 6 — Se havia em Cristo vontades contrárias.

O sexto discute-se assim. — Parece que havia em Cristo vontades contrárias.

1 — Pois, vontades contrárias supõem a contrariedade dos seus objectos, assim como também a contrariedade dos movimentos supõe a contrariedade dos seus termos, como está claro no Filósofo. Ora, Cristo, pelas suas diferentes vontades, queria coisas contrárias, assim, pela vontade divina queria a morte, que repugnava à sua vontade humana. Donde o dizer Atanásio: Quando o Cristo exclama — Pai, se é possível, passe de mim este cálix, todavia não se faça nisto a minha vontade, mas sim: a tua, e ainda — o espírito está pronto mas a carne é fraca, revela ter duas vontades, - a humana que, pela fraqueza da carne, fugia o sofrimento, e a divina, pronta para a paixão. Logo, havia em Cristo vontades contrárias.

2. Demais. — O Apóstolo diz: Porque a carne deseja contra o espírito e o espírito contra a carne. Há, pois, vontades contrárias, quando o espírito deseja uma coisa e a carne, outra. Ora, tal se dava com Cristo, pois, pela vontade de caridade, que o Espírito Santo lhe causava na alma, queria o sofrimento, segundo a Escritura. — Foi oferecido porque ele mesmo quis, ao contrário, pela carne, fugia o sofrimento. Logo, nele havia contrariedade de vontades.

3. Demais. — O Evangelho diz que posto em agonia Jesus orava com maior instância. Ora, a agonia implica uma luta da alma, que tende para uma direcção oposta. Logo, parece que em Cristo havia vontades contrárias.

Mas, em contrário, determina o Sexto Sínodo: Afirmamos duas vontades naturais não contrárias, ao invés do que os impios ensinam hereticamente, e que a vontade humana de Cristo obedece, sem resistência nem relutância, antes com sujeição, à sua vontade divina e omnipotente.

Não pode haver contrariedade, sem haver oposição fundada num mesmo sujeito e no mesmo ponto de vista. Pois, a diversidade fundada em coisas diferentes e a luzes diversas não basta para constituir uma contrariedade, nem ainda uma contradição, assim, se um homem for belo ou são de mãos e não de pés.

Donde, para haver vontades contrárias é necessário, primeiro, que essa contrariedade tenha o mesmo sujeito. Assim, se a vontade de um quiser fazer uma coisa fundada numa razão universal, e a de outro não quiser fazer a mesma coisa por uma razão particular, não há absolutamente contrariedade de vontades. Por exemplo, se o rei quiser que um ladrão seja enforcado, para o bem da república, e um dos parentes deste não o quiser, pelo amor particular que lhe tem, não haverá contrariedade de vontades. Salvo talvez se a vontade do particular chegar a ponto de querer impedir o bem público, para conservar o seu bem particular, pois, então, a repugnância das vontades funda-se no mesmo objecto.

Em segundo lugar para haver vontades contrárias é necessário que a contrariedade se funde na mesma vontade. Assim, se quisermos uma coisa pelo apetite racional e outra, pelo sensitivo, não há aí nenhuma contrariedade, salvo se o apetite sensitivo prevalecer a ponto de alterar ou retardar o apetite racional, pois, então, já o movimento contrário do apetite sensitivo teria, de certo modo, atingido a vontade racional em si mesma.

Donde devemos concluir, que embora a vontade natural e a vontade sensitiva, em Cristo, quisessem coisas diferentes das queridas pela vontade divina e pela sua própria vontade racional, não havia contudo nele nenhuma contrariedade de vontades. — Primeiro, porque nem a vontade sensitiva repudiava aquela razão pela qual a vontade divina e a vontade da razão humana, em Cristo, queriam a paixão. Pois, a vontade absoluta de Cristo queria a salvação do género humano, não podiam porém querê-la como um meio. Quanto, ao movimento da sensibilidade, ele não podia elevar-se até aí. — Segundo, porque nem a vontade divina nem a racional eram impedidas ou retardadas em Cristo pela vontade natural ou pelo apetite sensível. Semelhantemente e ao contrário, nem a sua vontade divina ou a vontade racional evitavam ou retardavam o movimento da vontade natural humana e o movimento da sensibilidade. Pois, aprazia a Cristo, pela sua vontade divina e também pela vontade racional, que a sua vontade natural e a sua vontade sensível se movessem conforme a ordem das suas naturezas. — Donde é claro, que em Cristo não havia nenhuma repugnância ou contrariedade de vontades.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Mesmo a vontade humana de Cristo querer coisa diferente do que quisesse a sua vontade divina procedia da própria vontade divina, a cujo beneplácito a natureza humana de Cristo se movia com seu movimento próprio, como diz Damasceno.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A concupiscência da carne retarda ou impede em nós a concupiscência do espírito, o que não se dava em Cristo. E por isso em Cristo não havia, como há em nós, contrariedade entre a carne e o espírito.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Cristo não sofreu agonia na parte racional da alma, enquanto isso implica um choque de vontades procedente de razões diversas, por exemplo, quando queremos uma coisa que a razão nos oferece, e queremos também o contrário, que ela nos propõe. O que provém da fraqueza da razão, incapaz de discernir o que é absolutamente melhor. E tal não se dava em Cristo, que, com a sua razão julgava ser, absolutamente, melhor cumprir pela sua paixão a vontade divina, no tocante à salvação do género humano. Houve porém agonia em Cristo quanto à parte sensitiva, que implica o temor do infortúnio iminente, como diz Damasceno.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho, comt. L esp. (Vida de Maria I)

Tempo Comum VI Semana

Evangelho: Mc 8 11-13

11 Apareceram os fariseus, e começaram a discutir com Ele, pedindo-Lhe, para O tentarem, um sinal do céu. 12 Porém, Jesus, suspirando profundamente, disse: «Porque pede esta geração um sinal? Em verdade vos digo que a esta geração não será dado sinal algum». 13 Depois, deixando-os, entrou novamente na barca e passou à outra margem.

Comentário

Há quem nunca esteja satisfeito com os “sinais” que Nosso Senhor envia aos homens de forma tão abundante e continuamente.
Ou então – e esta será a principal razão – não se apercebem deles as suas muitas ocupações e prioridades não deixam lugar ou disponibilidade para os ver, ouvir e entender.
Há que ter o coração limpo e desprendido para se estar bem disposto para tal.

(ama, comentário sobre Mc 8 11-13, Malta, 2015.01.26)

Leitura espiritual


Santíssima Virgem

Vida de Maria (V)


O diálogo mais importante da história teve lugar no interior de uma casa pobre de Nazaré. Os seus protagonistas são o próprio Deus, que se serve do ministério de um Arcanjo e uma Virgem chamada Maria, da casa de David, desposada com um artesão de nome José.

Muito provavelmente Maria encontrava-se recolhida em oração, talvez meditando alguma passagem da Sagrada Escritura referente à salvação prometida pelo Senhor. É assim que a mostra a arte cristã, que se inspirou nessa cena para compor as melhores representações da Virgem. Ou talvez estivesse ocupada nos trabalhos da casa e, nesse caso, também se encontraria absorvida em oração: tudo n’Ela era ocasião e motivo para manter um diálogo constante com Deus.

— Salve, ó cheia de graça, o Senhor é contigo (Lc 1, 28).

Ao ouvir estas palavras, Maria perturbou-se e discorria pensativa que saudação seria esta (Lc 1, 29). Fica confusa, não tanto pela aparição do anjo, mas pelas suas palavras. Sobressaltada, questiona-se sobre o motivo de tais louvores. Perturba-se porque, na sua humildade, sente-se pouca coisa. Boa conhecedora da Escritura, dá-se imediatamente conta de que o mensageiro celestial lhe está a transmitir uma mensagem inaudita. Quem é Ela para merecer esses elogios? O que é que fez na sua breve existência? Certamente deseja servir a Deus com todo o seu coração e com toda a sua alma; mas vê-se muito longe daquelas façanhas que valeram louvores a Débora, a Judite, a Ester, mulheres muito exaltadas na Bíblia. No entanto, compreende que a embaixada divina é para Ela. Ave, gratia plena!

"NÃO HÁ NA SUA RESPOSTA A MÍNIMA SOMBRA DE DÚVIDA OU DE INCREDULIDADE; SIM, DESDE A SUA MAIS TENRA INFÂNCIA, SÓ ANSIAVA POR CUMPRIR A VONTADE DIVINA!"

Neste primeiro momento, Gabriel dirige-se a Maria dando-lhe um nome — a cheia de graça — que explica a profunda perturbação de Nossa Senhora. São Lucas utiliza um verbo que, em língua grega, indica que a Virgem de Nazaré estava completamente transformada, santificada pela graça de Deus. Como posteriormente definiria a Igreja, isto tinha ocorrido no primeiro momento da sua concepção, em consideração da missão que havia de cumprir: ser Mãe de Deus na Sua natureza humana, permanecendo ao mesmo tempo Virgem.

O Arcanjo apercebe-se do sobressalto da Senhora e, para a tranquilizar, dirige-se a Ela chamando-a — agora sim — pelo seu próprio nome e explicando-lhe as razões dessa saudação excepcional.

— Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus; eis que conceberás no teu ventre e darás à luz um filho, a Quem porás o nome de Jesus. Será grande e será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor Deus Lhe dará o trono de Seu pai David; reinará sobre a casa de Jacob eternamente e o Seu reino não terá fim (Lc 1, 30-33).

"NÃO SE LIMITA A UM GENÉRICO DAR LICENÇA, MAS PRONUNCIA UM SIM — FIAT! — NO QUAL ENVOLVE TODA A SUA ALMA E TODO O SEU CORAÇÃO".

Maria, que conhece bem as profecias messiânicas e as meditou muitas vezes, compreende que será a Mãe do Messias. Não há na sua resposta a mínima sombra de dúvida ou de incredulidade; sim, desde a sua mais tenra infância, só ansiava por cumprir a Vontade divina! Mas deseja saber como se realizará esse prodígio, pois, inspirada pelo Espírito Santo, tinha decidido entregar-se a Deus em virgindade de coração, de corpo e de mente.

São Gabriel comunica-lhe então o modo diviníssimo em que maternidade e virgindade se conciliarão no seu seio.

— O Espírito Santo descerá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra; por isso mesmo o Santo que há-de nascer de ti será chamado Filho de Deus. Eis que também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na sua velhice; e este é o sexto mês da que se dizia estéril, porque a Deus nada é impossível (Lc 1, 35-37):

O anjo cala-se. Um grande silêncio se apodera do céu e da terra, enquanto Maria medita no seu coração a resposta que vai dar ao mensageiro divino. Tudo depende dos lábios desta Virgem: a Encarnação do Filho de Deus, a salvação da humanidade inteira.

Maria não demora. E, ao responder ao convite do Céu, fá-lo com toda a energia da sua vontade. Não se limita a um genérico dar licença, mas pronuncia um sim — fiat! — no qual envolve toda a sua alma e todo o seu coração, aderindo plenamente à Vontade de Deus: Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38).

E o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1, 14). Ao contemplar uma vez mais este mistério da humildade de Deus e a humildade da criatura, irrompemos numa exclamação de gratidão que gostaríamos que não terminasse nunca: «Ó Mãe, Mãe! com essa tua palavra — "fiat" — tornaste-nos irmãos de Deus e herdeiros da Sua glória. — Bendita sejas!» (Caminho, n. 512).


J.A. Loarte

Temas para meditar - 367

Temor de Deus 



Bem-aventurada a alma de quem teme a Deus, pois está forte contra as tentações do diabo: Bem-aventurado o homem que persevera no temor de Deus (Prov. 28, 14) e a quem foi dado ter sempre diante dos olhos o temor de Deus. Quem teme o Senhor afasta-se do mau caminho e dirige os seus passos pela senda da virtude; o temor de Deus torna o homem precavido e vigilante para não pecar. Onde não há temor de Deus reina a vida dissoluta.



(santo agostinho, Sermão sobre a Humildade e o Temor de Deus)

Pequena agenda do cristão

SeGUNDa-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

15/02/2015

Nunca amarás bastante

Por muito que ames, nunca amarás bastante. O coração humano tem um coeficiente de dilatação enorme. Quando ama, dilata-se num crescendo de carinho que supera todas as barreiras. Se amas o Senhor, não haverá criatura que não encontre lugar no teu coração. (Via Sacra, 8ª Estação, n. 5)

Vede agora o mestre reunido com os seus discípulos na intimidade do Cenáculo. Ao aproximar-se o momento da sua Paixão, o Coração de Cristo, rodeado por aqueles que ama, abre-se em inefáveis labaredas: dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros e que, do mesmo modo que eu vos amei, vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros. (Ioh XIII, 34–35.) (...).

Senhor, porque chamas novo a este mandamento? Como acabamos de ouvir, o amor ao próximo estava prescrito no Antigo Testamento e recordareis também que Jesus, mal começa a sua vida pública, amplia essa exigência com divina generosidade: ouvistes que foi dito: amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo. Eu peço-vos mais: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos aborrecem e orai pelos que vos perseguem e caluniam.

Senhor, deixa-nos insistir: porque continuas a chamar novo a este preceito? Naquela noite, poucas horas antes de te imolares na Cruz, durante aquela conversa íntima com os que - apesar das suas fraquezas e misérias pessoais, como as nossas - te acompanharam até Jerusalém. Tu revelaste-nos a medida insuspeitada da caridade: como eu vos amei. Como não haviam de te entender os Apóstolos, se tinham sido testemunhas do teu amor insondável!


Se professamos essa mesma fé, se ambicionamos verdadeiramente seguir as pegadas, tão nítidas, que os passos de Cristo deixaram na terra, não podemos conformar-nos com evitar aos outros os males que não desejamos para nós mesmos. Isto é muito, mas é muito pouco, quando compreendemos que a medida do nosso amor é definida pelo comportamento de Jesus. Além disso, Ele não nos propõe essa norma de conduta como uma meta longínqua, como o coroamento de toda uma vida de luta. É – e insisto que deve sê-lo para que o traduzas em propósitos concretos – o ponto de partida, porque Nosso Senhor o indica como sinal prévio: nisto conhecerão que sois meus discípulos. (Amigos de Deus, nn. 222-223)

Tratado do verbo encarnado 122

Questão 18: Da unidade de Cristo quanto a vontade

Art. 5 — Se a vontade humana de Cristo quis coisas diferentes das que Deus quer.

O quinto discute-se assim. — Parece que a vontade humana de Cristo não quis coisas diferentes das que Deus quer.

1. — Pois, diz a Escritura: Para fazer a tua vontade, Deus meu, eu o quis. Ora, quem quer fazer a vontade de outrem quer o que este quer. Logo, parece que a vontade humana de Cristo não queria senão o que a sua vontade divina queria.

2. Demais. — A alma de Cristo tinha uma caridade perfeitíssima, excelente mesmo à compreensão da nossa ciência, segundo aquilo do Apóstolo: A caridade de Cristo, que excede todo entendimento. Ora, a caridade faz querermos o que Deus quer, donde o dizer o Filósofo, que uma das características dos amigos é querer e escolher as mesmas coisas. Logo, a vontade humana de Cristo nada mais queria do que queria a sua vontade divina.

3. Demais. — Cristo gozava realmente da visão beatífica. Ora, os santos que gozam da visão beatífica no céu, não querem senão o que Deus quer. Do contrário, não seriam santos, por não terem tudo quanto quisessem, pois, como diz Agostinho, bem-aventurado é quem tem tudo o que quer e nada quer de mau. Logo, Cristo nada mais quis, pela sua vontade humana, senão o que a vontade divina queria.

Mas, em contrário, Agostinho diz: Quando Cristo disse — não o que eu quero, mas o que tu queres — mostrou querer coisa diferente que a querida pelo Pai. E isso só o podia pela sua vontade humana, pois, transfigurou a nossa fraqueza no seu desejo, não divino, mas humano.

Como dissemos, a natureza humana de Cristo encerra vontade dupla, a sensitiva, chamada vontade por participação, e a racional, considerada quer como natureza, quer como razão. Ora, como dissemos, o Filho de Deus, por uma certa dispensa e antes da sua paixão, permitia à carne fazer e sofrer como carne. E semelhantemente, permitia a todas as suas faculdades agir como lhes era próprio. Ora, é manifesto que a vontade sensitiva evita naturalmente as dores sensíveis e os sofrimentos do corpo. Semelhantemente, a vontade como natureza evita o que lhe é contrário e o mal em si mesmo, como a morte e males semelhantes. Ora, tais coisas a vontade, como razão, pode às vezes eleger, em dependência do fim, assim como a sensualidade, e mesmo a vontade, absolutamente considerada, de um homem tal, enquanto tal, evita uma queimadura, que contudo a vontade racional elege, em vista da saúde adquiri-la. Ora, a vontade de Deus era, que Cristo padecesse dores, sofrimentos e a morte, não por Deus os querer como tais, mas em ordem ao fim da salvação humana. Donde é claro, que Cristo, pela vontade da sensualidade, e pela vontade racional, considerada como natureza, podia querer coisas diferentes das queridas por Deus. Mas, pela vontade racional queria sempre o mesmo que Deus. Isso resulta das próprias palavras de Cristo: Não se faça a minha vontade, mas sim a tua. Pois, queria, pela vontade racional, cumprir a vontade divina, embora diga que quer coisa diversa, pela sua outra vontade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Cristo queria que a vontade do Pai se cumprisse, não porém pela vontade sensitiva, cujo movimento não se eleva até a vontade de Deus, nem pela vontade considerada como natureza, que busca um objecto absolutamente considerado, e não em ordem à vontade divina.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A conformidade da vontade humana com a divina funda-se na vontade racional, pela qual também concordam as vontades dos amigos, enquanto a razão considera a coisa querida, relativamente à vontade do amigo.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Cristo ao mesmo tempo que vivia esta vida, contemplava a essência divina, enquanto a sua alma gozava de Deus, e tinha uma carne passível. E por isso, pela sua carne passível, podia padecer alguns sofrimentos repugnantes à sua vontade natural e mesmo ao apetite sensitivo.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Temas para meditar - 366

Tibieza – Fervor 




Nada há, por fácil que seja, que a nossa tibieza não o apresente difícil e pesado; como tão pouco nada há tão difícil e penoso que o nosso fervor e determinação não torne totalmente fácil e leve. 



(são joão crisóstomo, De ompuntione, 1, 5)

Ev. comentário, L esp. (Vida de Maria IV)

Tempo Comum VI Semana

Evangelho: Mc 1 40-45

40 Foi ter com Ele um leproso que, suplicando e pondo-se de joelhos, Lhe disse: «Se quiseres podes limpar-me». 41 Jesus, compadecido dele, estendeu a mão e, tocando-o, disse-lhe: «Quero, fica limpo». 42 Imediatamente desapareceu dele a lepra e ficou limpo. 43 E logo mandou-o embora, dizendo-lhe com tom severo: 44 «Guarda-te de o dizer a alguém, mas vai, mostra-te ao sacerdote, e oferece pela purificação o que Moisés ordenou, para que lhes sirva de testemunho». 45 Ele, porém, retirando-se, começou a contar e a divulgar o sucedido, de modo que Jesus já não podia entrar abertamente numa cidade, mas ficava fora nos lugares desertos, e de toda a parte vinham ter com Ele.

Comentário

É simples e ao mesmo tempo muito difícil – pelo menos para mim – comentar este trecho do Evangelho de São Marcos sem me envolver numa emoção pessoal que poderá desfocar a clareza de raciocínio.
Sim… o gesto do Senhor é de tal forma carinhoso e cheio de ternura que me deixa abismado na grandeza de um Deus e Senhor de todas as coisas que estende a mão a tocar-me como algo natural e sem qualquer reserva!
Imagino os meus pecados que desfiguram a minha alma e acredito – firmemente acredito – que Ele me toca e me abraça, aceita o meu pedido de perdão e me envia em paz completamente limpo!
Admirável Sacramento!

(ama, comentário sobre MC 1, 40 - 50 2015.01.12)


Leitura espiritual


Santíssima Virgem

Vida de Maria (IV

A VOZ DO MAGISTÉRIO

«O evangelho de Lucas, ao apresentar Maria como virgem, acrescenta que estava "desposada com um varão chamado José, da casa de David" (Lc 1, 27). Estas informações parecem, à primeira vista, contraditórias».

«Há que notar que o termo grego utilizado nesta passagem não indica a situação de uma mulher que contraiu matrimónio e, portanto, vive no estado matrimonial, mas a de noivado. Mas, de forma diferente do que acontece nas culturas modernas, no costume judaico antigo a instituição do noivado previa um contrato e tinha normalmente valor definitivo; efectivamente, introduzia os noivos no estado matrimonial embora o matrimónio se cumprisse plenamente apenas quando o jovem conduzia a noiva para sua casa».

«No momento da Anunciação, Maria encontra-se pois, na situação de esposa prometida. Podemos perguntar-nos porque razão tinha aceite o noivado, dado que tinha feito o propósito de permanecer virgem para sempre. Lucas tem consciência desta dificuldade, mas limita-se a registar a situação sem dar explicações. O facto do evangelista, mesmo pondo em relevo o propósito de virgindade de Maria, a apresente igualmente como esposa de José, constitui um sinal de que ambas as notícias são historicamente dignas de crédito».

«Pode supor-se que entre José e Maria, no momento do compromisso, existisse um entendimento sobre o projecto de vida virginal. Além disso, o Espírito Santo, que tinha inspirado a Maria a opção da virgindade com vista ao mistério da Encarnação e que queria que esta acontecesse num contexto familiar idóneo para o crescimento do Menino, pôde muito bem suscitar também em José o ideal da virgindade».

«O anjo do Senhor, aparecendo-lhe em sonhos, diz-lhe: "José, filho de David, não temas receber em tua casa Maria tua esposa porque o que n’Ela foi concebido é obra do Espírito Santo" (Mt 1, 20). Desta forma recebe a confirmação de estar chamado a viver de modo totalmente especial o caminho do matrimónio. Através da comunhão virginal com a mulher predestinada para dar Jesus à luz, Deus chama-o a cooperar na realização do Seu desígnio de salvação».

«O tipo de matrimónio para o qual o Espírito Santo orienta Maria e José é compreensível apenas no contexto do plano salvífico e no âmbito de uma elevada espiritualidade. A realização concreta do mistério da Encarnação exigia um nascimento virginal que pusesse em evidência a filiação divina e, ao mesmo tempo, uma família que pudesse assegurar o desenvolvimento normal da personalidade do Menino».

«José e Maria, precisamente tendo em vista o seu contributo para o mistério da Encarnação do Verbo, receberam a graça de viver juntos o carisma da virgindade e o dom do matrimónio. A comunhão de amor virginal de Maria e José, embora constituindo um caso especialíssimo, vinculado à realização concreta do mistério da Encarnação, foi, no entanto, um verdadeiro matrimónio».

«A dificuldade de se aproximar do mistério sublime da sua comunhão esponsal induziu alguns, já desde o século II, a atribuir a José uma idade avançada e a considerá-lo o custódio de Maria, mais do que seu esposo. É caso para supor, pelo contrário, que não fosse um homem idoso, mas que a sua perfeição interior, fruto da graça, o levasse a viver com afecto virginal a relação esponsal com Maria».

«A cooperação de José no mistério da Encarnação abarca também o exercício do papel paterno relativamente a Jesus. Esta função é-lhe reconhecida pelo anjo que, aparecendo-lhe em sonhos, o convida a pôr o nome ao Menino: "Dará à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o Seu povo dos seus pecados" (Mt 1, 21)».

João Paulo II (séc. XX), Catequese mariana na audiência de 21-VIII-1996.

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A VOZ DOS PADRES DA IGREJA

«A menina ao crescer, quando já não era necessário amamentá-la, os seus pais apressaram-se a levá-la ao templo para a oferecer a Deus e cumprir, assim, a promessa que tinham feito. Os sacerdotes educaram-na no santuário, do mesmo modo que Samuel tinha sido educado (cfr. 1 Sam 1, 24 ss). Depois, quando se tornou uma adolescente, reuniram-se em conselho para decidir o que fazer daquele corpo santo sem ofender o Senhor. Pareceu um absurdo submetê-la às leis da natureza dando-a como esposa a um varão; pensavam que seria sacrílego que um homem se convertesse em dono do que tinha sido consagrado ao Senhor. Efectivamente, era conforme à lei que o varão se convertesse em dono da sua esposa».

«Por outro lado, a lei não permitia que uma mulher habitasse o templo junto dos sacerdotes e se mostrasse no interior do santuário, coisa contrária também à honestidade e à dignidade da lei. Após discutir esses problemas, tomaram uma decisão verdadeiramente inspirada: confiá-la, sob a forma de um matrimónio, a um homem que oferecesse todas as garantias de respeito pela sua virgindade».

«Encontrou-se em José o homem adequado para aquela situação. Além disso, era da mesma tribo e família da Virgem. Seguindo o conselho dos sacerdotes, José desposou a donzela, mas a relação matrimonial ficou excluída daquelas núpcias».

São Gregório de Nisa (séc. IV), Homilia sobre a Natividade do Senhor (PG 46, 1140 A-B).

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«Sem dúvida os mistérios divinos são ocultos e, como disse o profeta, não é fácil ao homem, qualquer que seja, chegar a conhecer os desígnios de Deus (cfr. Is 40, 13). Por isso, o conjunto de acções e ensinamentos de nosso Senhor e Salvador dão-nos a entender que um desígnio bem pensado fez escolher com preferência, para Mãe do Senhor, aquela que tinha sido desposada com um varão».

«Mas porque é que não foi feita mãe antes dos seus esponsais? Pode ser para que não se possa dizer que tinha concebido adulteramente. E com razão a Escritura indicou estas duas coisas: Ela era esposa e virgem; virgem, para que aparecesse limpa de toda a relação com um varão; desposada, para a poupar ao estigma infamante de uma virgindade perdida, podendo a sua gravidez manifestar a sua queda. O Senhor quis antes permitir que alguns duvidassem da sua origem do que da pureza da Sua Mãe; sabia Ele quão delicada é a honra de uma virgem, quão frágil a fama do pudor; não julgou conveniente estabelecer a verdade da Sua origem à custa da Sua Mãe. Assim foi preservada a virgindade de Santa Maria, sem detrimento da sua pureza, sem violar a sua reputação».

Santo Ambrósio (séc. IV). Tratado sobre o Evangelho de São Lucas, livro II, n. 1.

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A VOZ DOS SANTOS

"É regra geral de todas as graças singulares comunicadas a uma criatura racional que, quando a graça divina escolhe alguém para uma tarefa especial ou algum estado muito elevado, concede todos os carismas necessários àquela pessoa para o ministério que há-de desempenhar adornando-a com eles profusamente».

«Isto realizou-se de um modo excelente na pessoa de São José, que fez as vezes de pai de nosso Senhor Jesus Cristo e que foi verdadeiro esposo da Rainha do universo e Senhora dos anjos. José foi escolhido pelo eterno Pai como protector e guarda fiel dos Seus principais tesouros, isto é, do Seu Filho e de Sua Esposa e cumpriu a sua tarefa com absoluta fidelidade. Por isso lhe diz o Senhor: Está bem, servo bom e fiel; entra no gozo do teu Senhor (Mt 25, 21)».

«Se observarmos a relação que José tem com a Igreja universal, não é este o homem especialmente escolhido, pelo qual e sob o qual Cristo foi introduzido no mundo de um modo ordenado e honesto? Portanto, se toda a Igreja está em dívida com a Virgem Mãe, já que por meio d’Ela recebeu Cristo, de modo semelhante deve a José, a seguir a Maria, uma especial gratidão e reverência».

«José vem a ser a jóia que fecha o Antigo Testamento, já que nele a dignidade patriarcal e profética alcançam o fruto prometido. Além disso, ele é o único que possuiu corporalmente o que a condescendência divina tinha prometido aos patriarcas e aos profetas».

«Temos que supor, sem qualquer dúvida, que aquela familiaridade, respeito e altíssima dignidade que Cristo tributou a José enquanto vivia na terra, como um filho ao seu pai, não lha negou no céu; pelo contrário, colmou-a e consumou-a».

São Bernardino de Siena (séc. XV). Sermão 2, sobre São José, 7. 16. 27-30.

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«Tomei por advogado e senhor o glorioso São José e encomendei-me muito a ele. Vi claramente que assim desta necessidade, como de outras maiores de honra e perda de alma, este pai e senhor meu me conseguiu mais bem do que eu lhe sabia pedir. Não me recordo, até agora, de lhe ter suplicado coisa que tenha deixado de fazer. É coisa que espanta, as grandes mercês que me fez Deus por intermédio deste bem-aventurado Santo, dos perigos de que me livrou, tanto do corpo como da alma; que a outros santos parece que lhes deu o Senhor graça para socorrer numa necessidade, a este glorioso Santo tenho experiência que socorre em todas e que o Senhor quer dar-nos a entender que assim como lhe esteve sujeito na terra — que como tinha o nome de pai, sendo aio, lhe podia mandar — assim no Céu faz quanto lhe pede».

«Quereria eu persuadir a todos para que fossem devotos deste glorioso Santo, pela grande experiência que tenho dos bens que consegue de Deus. Não conheci pessoa que lhe seja verdadeiramente devota e faça particulares serviços, que não a veja mais aproveitada na virtude; porque aproveita em grande medida às almas que a ele se encomendam. Parece-me, há alguns anos, que cada ano no seu dia lhe peço uma coisa e sempre a vejo cumprida. Se a petição vai algo torcida, ele orienta-a para maior bem meu».

«Se fosse pessoa que tivesse autoridade de escrever, de boa vontade me alargaria a dizer com muito pormenor as mercês que este glorioso Santo me fez a mim e a outras pessoas; mas para não fazer mais do que me mandaram, em muitas coisas serei mais curta do que gostaria, noutras mais longa do que devia; enfim, como quem em tudo que é bom tem pouca discrição. Só peço por amor de Deus que o tente quem não me creia e verá por experiência o grande bem que é encomendar-se a este glorioso Patriarca e ter-lhe devoção. Em especial, pessoas de oração sempre lhe deviam ser aficionadas; que não sei como se pode pensar na Rainha dos anjos em tanto tempo que passou com o Menino Jesus, que não deem graças a São José pelo bem que lhes fez. Quem não encontrar mestre que lhe ensine oração, tome este glorioso Santo por mestre e não errará no caminho».

Santa Teresa de Jesus (séc. XVI). Livro da sua vida, cap. 6, nn. 6-8.

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«Não estou de acordo com a forma clássica de representar S. José como um homem velho, apesar da boa intenção de se destacar a perpétua virgindade de Maria. Eu imagino-o jovem, forte, talvez com alguns anos mais do que a Virgem, mas na plenitude da vida e das forças humanas.

Para viver a virtude da castidade não é preciso ser-se velho ou carecer de vigor. A pureza nasce do amor e a força e a alegria da juventude não constituem obstáculo para um amor limpo. Jovens eram o coração e o corpo de S. José quando contraiu matrimónio com Maria, quando soube do mistério da sua Maternidade Divina, quando viveu junto d'Ela respeitando a integridade que Deus queria oferecer ao mundo como mais um sinal da sua vinda às criaturas. Quem não for capaz de compreender um amor assim, conhece muito mal o verdadeiro amor e desconhece por completo o sentido cristão da castidade».

São Josemaría Escrivá de Balaguer (séc. XX). Cristo que passa, n. 40.