26/06/2014

Reflectindo - 26

      Reflectindo

Pequenez

O sofrimento humano é um mistério enorme e, diria eu, complicadíssimo de entender (se é que se pode entender...!); de facto, à natureza humana, repugna o sofrimento, seja ele qual for.

É, diria, "anti-natural".

Porquê, então, Deus permite algo assim... "anti-natural"?

Quem sou eu para tentar responder e, portanto, não o faço.
Limito-me, no meu nada, a ficar abismado ante tantas pessoas que sofrem, algumas terrível e dolorosamente, e a única reacção visível é um sorriso que procura, não poucas vezes, esconder o esgar de dor.
E não posso deixar de pensar na pequenez da minha vida, confortável e "normal" se a comparo com a "grandeza" dessas vidas de sofrimento e dor!
E sinto uma vergonha imensa de me queixar tantas vezes... ai! tantas vezes!... que não tenho isto; que me falta aquilo; que ando com uma dor de cabeça; que me incomodam os joelhos; que as costas me achacam...coisas de nada, que toda a gente tem.
Fico-me a pensar que, Deus, na Sua Infinita Sabedoria, deve achar que eu mereço sofrer, porque se me queixo por tão pouco, o que não seria se sofresse a sério?

(AMA, reflexões, 2004)


Temas para meditar 157

Imitar Cristo

Quisera sentir o que sentes, mas não é possível. A Tua sensibilidade - eras perfeito homem - é muito mais aguda que a minha. A Teu lado comprovo, uma vez mais, que não sei sofrer. Por isso me assusta a Tua capacidade de dar tudo sem reservas.
Jesus, necessito dizer-te que sou cobarde, muito cobarde. Mas ao contemplar-te cravado já no madeiro “sofrendo quanto se possa sofrer, com os braços estendidos nesse gesto de sacerdote eterno“ (cf. S. Josemaria, Santo Rosário, 5º Mistério Doloroso ), vou pedir-te uma loucura: quero imitar-te, Senhor. Quero entregar-me de uma vez, de verdade, e estar disposto a chegar até onde Tu me leves. Sei que é uma petição muito acima das minhas forças. Mas sei, Jesus, que Te quero.

(m. montenegro, Via crucis, trad ama)

Apresentação de Migalhas para o Caminho


Lançamento de livro - Convite

Rev. Cónego António Ferreira dos Santos
Reitor da Igreja da Lapa
Igreja da Lapa (Porto)
Altar Mor




                                                                                                          

A formosura da santa pureza

Não se pode levar uma vida limpa sem a ajuda divina. Deus quer a nossa humildade, quer que lhe peçamos a sua ajuda, através da nossa Mãe e sua Mãe. Tens que dizer a Nossa Senhora, agora mesmo, na solidão acompanhada do teu coração, falando sem ruído de palavras: – Minha Mãe, este meu pobre coração rebela-se algumas vezes... Mas se Tu me ajudares... E ajudar-te-á, para que o conserves limpo e continues pelo caminho a que Deus te chamou: Nossa Senhora facilitar-te-á sempre o cumprimento da Vontade de Deus (Forja, 315)

Devemos ser o mais limpos possível em relação ao corpo, mas sem medo, porque o sexo, é algo santo e nobre – participação no poder criador de Deus–, foi feito para o matrimónio. Assim, limpos e sem medo, dareis com a vossa conduta o testemunho da viabilidade e da formosura da santa pureza. (…)


Cuidai com esmero da castidade e também das virtudes que a acompanham e a salvaguardam: a modéstia e o pudor. Não olheis com ligeireza as normas, tão eficazes, que nos ajudam a conservarmo-nos dignos do olhar de Deus: a guarda atenta dos sentidos e do coração; a valentia de ser cobarde para fugir das tentações; a frequência dos sacramentos, especialmente da Confissão sacramental; a sinceridade total na direcção espiritual pessoal; a dor, a contrição e a reparação depois das faltas. E tudo isto ungido com uma terna devoção a Nossa Senhora, de modo que ela nos obtenha de Deus o dom de uma vida limpa e santa. (Amigos de Deus, 185)

Pequena agenda do cristão

Quinta-Feira






(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Participar na Santa Missa.


Senhor, vendo-me tal como sou, nada, absolutamente, tenho esta percepção da grandeza que me está reservada dentro de momentos: Receber o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do Rei e Senhor do Universo.
O meu coração palpita de alegria, confiança e amor. Alegria por ser convidado, confiança em que saberei esforçar-me por merecer o convite e amor sem limites pela caridade que me fazes. Aqui me tens, tal como sou e não como gostaria e deveria ser.
Não sou digno, não sou digno, não sou digno! Sei porém, que a uma palavra Tua a minha dignidade de filho e irmão me dará o direito a receber-te tal como Tu mesmo quiseste que fosse. Aqui me tens, Senhor. Convidaste-me e eu vim.


Lembrar-me:
Comunhões espirituais.


Senhor, eu quisera receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe, com o espírito e fervor dos Santos.

Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?



Tratado da lei 35

Questão 98: Da lei antiga.

Art. 3 — Se a lei antiga foi dada pelos anjos, ou imediatamente por Deus.

(In Isaiam, cap. VI; Ad Galat., cap. III, lect. VII; Ad. Coloss., cap. II, lect. IV; Ad Hebr., cap. II, lect. I).

Parece que a lei antiga não foi dada pelos anjos, mas imediatamente por Deus.

1. — Pois, anjo significando núncio, esse nome implica um ministério e não domínio, conforme a Escritura (Sl 102, 20-21): Bendizei ao Senhor, todos os seus anjos. Ora, a mesma Escritura diz, que a lei antiga foi dada pelo Senhor (Ex 33, 11): Falou o Senhor todas estas palavras; e acrescenta: Eu sou o Senhor teu Deus. E o mesmo modo de falar é frequentemente repetido no Êxodo e nos livros seguintes da lei. Logo, a lei foi imediatamente dada por Deus.

2. Demais. — A Escritura diz (Jo 1, 17): A lei foi dada por Moisés. Ora, este a recebeu de Deus, imediatamente, conforme ainda a Escritura (Ex 33, 11): O Senhor falava a Moisés cara a cara, bem como um homem costuma falar ao seu amigo. Logo, a lei antiga foi imediatamente dada por Deus.

3. Demais. — Só o chefe pode legislar, como se disse (q. 90, a. 3). Ora, só Deus é o chefe, no atinente à salvação das almas; os anjos são apenas espíritos administradores, como diz a Escritura (Heb 1, 14). Logo, a lei antiga não devia ser dada pelos anjos, pois se ordenava à salvação das almas.

Mas, em contrário, diz o Apóstolo (Gl 3, 19): a lei foi dada pelos anjos na mão dum Mediador; e ainda (At 7, 53): recebestes a lei por ministério dos anjos.

A lei foi dada por Deus, por meio dos anjos. E além da razão geral assinalada por Dionísio, que as coisas divinas devem ser transmitidas aos homens por meio dos anjos, há uma razão especial pela qual era necessário que a lei antiga fosse dada por meio deles. Pois, como já dissemos (a. 1, a. 2), a lei antiga era imperfeita, mas dispunha para a salvação perfeita do género humano, que haveria de vir de Cristo. Ora, vemos que em todas as faculdades e artes ordenadas, o superior pratica por si mesma o acto principal e perfeito, e, pelos seus ministros, os disponentes à perfeição última. Assim, o construtor de um navio o compõe por si mesmo; mas prepara o material diante artífices, trabalhando sob as suas ordens. Por isso foi conveniente a lei perfeita do Novo Testamento ter sido dada imediatamente pelo próprio Deus; e que a lei antiga fosse dada aos homens pelos ministros de Deus, i. é, pelos anjos. E deste modo o Apóstolo mostra a eminência da lei nova sobre a antiga; porque, no Novo Testamento, Deus nos falou pelo Filho; ao passo que, no antigo, falou pelos anjos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Como diz Gregório, o anjo que se descreve como tendo aparecido a Moisés, é tido, ora, como anjo, ora, como o Senhor. Anjo porque, falando, exteriormente, servia; Senhor, por outro lado, porque, presidindo interiormente, dava eficácia à linguagem. E por isso, também o anjo representava a pessoa de Deus.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Como explica Agostinho, o Êxodo diz: O Senhor falava a Moisés cara a cara; e pouco depois, acrescenta: Mostra­me a tua glória. Logo, sentia o que via e desejava o que não via. Logo, não via a própria essência de Deus, e portanto não era instruído imediatamente por ela. Donde, o dito da Escritura — falava com ele cara a cara — é de acordo com a opinião do povo, que pensava que Moisés falava cara a cara com Deus, por Deus lhe aparecer e falar-lhe por meio de uma sua criatura, como o anjo e a nuvem. Ou, por essa visão da face se entende uma certa contemplação eminente e familiar, inferior à essência da visão divina.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Só o chefe pode, por sua autoridade, instituir a lei; mas às vezes promulga instituída por outros. Assim, Deus institui a lei por sua autoridade, mas promulgou-a pelos anjos.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, comentário e leitura espiritual (A paz na familia 7)


Tempo comum XII Semana

São Josemaria Escrivá

Evangelho: Mt 7, 21-29

21 «Nem todo o que Me diz: “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos Céus, mas só o que faz a vontade de Meu Pai que está nos céus. 22 Muitos Me dirão naquele dia: “Senhor, Senhor, não profetizámos nós em Teu nome, e em Teu nome expulsámos os demónios, e em Teu nome fizemos muitos milagres?”. 23 E então Eu lhes direi bem alto: “Nunca vos conheci. Apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade”. 24 «Todo aquele, pois, que ouve estas Minhas palavras e as observa será semelhante ao homem prudente que edificou a sua casa sobre rocha. 25 Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram e investiram os ventos contra aquela casa, mas ela não caiu, porque estava fundada sobre rocha. 26 Todo aquele que ouve estas Minhas palavras e não as pratica será semelhante a um homem insensato que edificou a sua casa sobre areia. 27 Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram e investiram os ventos contra aquela casa, e ela caiu, e foi grande a sua ruína». 28 Quando Jesus acabou estes discursos, estavam as multidões admiradas com a Sua doutrina, 29 porque os ensinava como quem tinha autoridade, e não como os seus escribas.


Comentário:


Atentemos neste texto – que pode parecer controverso – e veremos com meridiana clareza o que se passa em tantas partes do mundo, talvez hoje mais que nunca, com pessoas, organizações e grupos que fazem e actuam em nome de Cristo quando, na verdade, o que pretendem, na maior parte dos casos, é encontrar uma “forma de ganhar a vida” à custa de outros. Procuram os incautos, pouco cultos ou formação, para inculcarem as suas ideias dando aos que os ouvem e seguem uma falsa impressão de que actuam com autoridade concedida por Deus e, não poucas vezes, até com poderes extraordinários.


Na terra, esta terra em que vivemos, existe uma única entidade que pode actuar em nome de Jesus Cristo: A Santa Igreja Católica Apostólica Romana que Ele próprio instituiu e cuja cabeça visível é o Papa.

(ama, comentário sobre Mt 7, 21-29, 2013.12.05)


Leitura espiritual



Temas

A PAZ NA FAMÍLIA
…/7

O CUME DA MISERICÓRDIA

O cume da misericórdia, como ensina Cristo, é o perdão. Mas, na vida em família, o perdão, muitas vezes é o cúmulo da dificuldade. Como custa perdoar no lar! E, no entanto, é muito mais daninho para a paz familiar guardar rancores, curtir ressentimentos e andar com revides, do que explodir momentaneamente, dando vazão à ira, ao grito e ao sopapo.

Creio que todos nós experimentamos um estremecimento quando encaramos de frente duas declarações de Cristo:

– depois de ensinar-nos a rezar: perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, Jesus acrescenta: Mas, se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará (Mt 6, 12.15).

Já imaginamos o que seria, para nós, o dia do Juízo, se Deus nos perdoasse só como nós perdoamos os outros?

– o segundo ensinamento deixa-nos pensativos e um tanto perturbados.

Repetindo de certa forma o anterior, introduz um novo matiz. Cristo acaba de narrar a parábola do servo cruel, que tendo sido perdoado de uma grande dívida pelo seu senhor, não perdoa um companheiro que lhe deve uma insignificância. O senhor do servo castiga-o severamente e, como moral da parábola, Cristo conclui: Assim vos tratará meu Pai celeste, se cada um não perdoar a seu irmão de todo o coração (Mt 18, 35).

Há pessoas que parecem ter no coração um computador com capacidade de muitos gigas, em cuja memória se vão guardando todas as mágoas, perfeitamente contabilizadas:
“Não se lembrou do meu aniversário”,
“Faz dez anos que não me traz flores nem bombons”,
“Ela não aceitou a minha explicação «verdadeira» sobre os meus atrasos à noite e acusa-me de infidelidade”,
“Quando éramos namorados, no dia tantos de tantos de mil novecentos e tantos, às dezoito e trinta e cinco horas, na esquina das ruas tal e qual, ele me ofendeu dizendo xis ou ípsilon”,
“Ela passa o dia na casa da sua mãe, como se não tivesse marido e filhos”,
“Ele não quis ir ao casamento do meu sobrinho, sabendo que magoava toda a minha família”,
“Você disse isso porque meus pais são pobres”, e assim por diante.

Basta que qualquer faísca provoque uma irritação, basta uma má interpretação, uma crítica, uma zombaria ou um protesto, para que a pessoa que se sente ofendida “clique” no seu computador invisível e apareça no vídeo o arquivo dos “agravos”, com uma lista interminável.
Essa enxurrada de reminiscências negativas cai então como um raio sobre o outro, reacende a fogueira das acusações mútuas e aumenta o círculo vicioso dos rancores e das recriminações.
Adeus à paz!

São Paulo sabia bem de que massa estamos feitos e, por isso, pensando no amor que gera a paz, dizia, como víamos acima:
Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se um tiver contra outro motivo de queixa. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós (Ef 3, 13).

Como são importantes os pequenos perdões no lar!

Esforcemo-nos, pelo menos, por calar-nos: não retruquemos, não firamos sensibilidades.
Façamos um propósito espiritual altamente recomendável:
“Nas discussões, lá em casa, eu faço questão de dizer a penúltima palavra”.
Quem se obstina em dizer a última, inevitavelmente atiça a chama da discussão.

Mas calar-se não é carneirismo?
Será que tenho que aceitar todas as injustiças e humilhações?

Não.

Às vezes, pode-se – e deve-se – cortar energicamente e na hora um despropósito, mas não há necessidade de cair numa interminável discussão, nem de ficar remoendo horas e dias.

Outras vezes, convirá calar e esperar, e mais tarde, tentar um diálogo sereno e esclarecedor ou fazer uma correção tranquila; em outras ocasiões, nada facilitará tanto o arrependimento do outro como mostrar-lhe – sem humilhá-lo – grandeza de alma.
Uma pessoa ofendida que trata bem, com coração magnânimo, aquele que o ofendeu, é moralmente “superior”, não pelo orgulho, mas pela bondade. Com isso, desarma o agressor, que pode perceber a sua tola mesquinhez em contraste com esse amor maior.

PERDOAR DE TODO O CORAÇÃO

“Certo – pode dizer alguém –, eu perdoo, gostaria de perdoar, mas não consigo esquecer.
Portanto, o meu perdão não vale nada, pois Cristo manda perdoar de todo o coração”.

Quantos não sofrem, angustiados, por essa incapacidade que têm de esquecer mágoas e ofensas!
“Eu tento – dizem –, eu quereria esquecer, eu me esforço, mas continuo lembrando-me e, de cada vez que lembro, vem-me aquela fervura, sinto raiva, sinto antipatia, não agüento ver a pessoa na minha frente”.

Deus não nos pede impossíveis, e mudar sentimentos involuntários, muitas vezes, é um impossível.
Então, o que é que Deus pede quando nos fala de perdoar de todo o coração? Com muita clareza no-lo diz o Catecismo da Igreja Católica:
 “Não está em nosso poder não mais sentir e esquecer a ofensa; mas o coração que se entrega ao Espírito Santo transforma a ferida em compaixão e purifica a memória, transformando a ofensa em intercessão” (n. 2843).

É um jato de luz e um conforto, porque é algo que uma pessoa de boa vontade sempre pode fazer.

Primeiro, transformar “a ferida em compaixão”.
Não, naturalmente, na compaixão que despreza, olhando o “coitado” de cima para baixo.
Mas na compaixão verdadeira que, sabendo passar por alto a mágoa pessoal – ainda que essa continue como um sentimento que não conseguimos eliminar –, percebe que a atitude errada do outro é uma ferida que ele próprio infligiu a si mesmo.
Como é lógico, a “compaixão” vivida conscientemente – com autêntico esforço de compreensão – deixa cada vez menos espaço no nosso coração para o rancor.

Depois, o Catecismo fala de “purificar a memória, transformando a ofensa em intercessão”, isto é, em oração, pedindo a Deus por aquele que nos ofendeu.
Esse é exactamente o ensinamento de Cristo: Orai pelos que vos maltratam e perseguem (Mt 5, 44).

Todos nos comovemos quando lemos as histórias dos mártires que, a exemplo de Cristo, rezavam fervorosamente pelos seus algozes. Mas, por que achamos que isso não é conosco?

A esposa, o marido, os filhos, podem ser difíceis, mas não são – normalmente – os nossos algozes.
Quantas vezes rezamos por eles?
Mais concretamente, lembramo-nos de rezar por eles – depois do primeiro sufoco, mesmo que o ânimo continue a ferver – todas as vezes que nos ofendem ou nos tratam com desconsideração?
Será que isso nos parece esquisito ou impossível?
Seria uma pena se fosse assim, porque é um ponto básico do espírito cristão.
É preciso decidir-nos a lutar por vivê-lo.

NÃO APENAS ESQUECER, MAS ESQUECER-SE

E agora vejamos a humildade.

É mais uma virtude que São Paulo cita como arma de paz, e não poderia deixar de ser assim, uma vez que, como vimos acima, o orgulho é o principal inimigo da paz.

Há uma manifestação de humildade que deveríamos pedir insistentemente a Deus, pois favorece a paz: é a graça de não sermos suscetíveis.
O orgulhoso é muito sensível, é desconfiado, magoa-se por tudo e por nada.
Têm que se medir as palavras para falar com ele: – “Cuidado com o que dizes, cuidado com o modo de olhá-lo, porque pode interpretar mal!”

“A maioria dos conflitos em que se debate a vida interior de muita gente – dizia Mons. Escrivá – é fabricada pela imaginação: é que disseram..., é que podem pensar..., é que não me consideram... E essa pobre alma sofre, pela sua triste fatuidade, com suspeitas que não são reais. Nessa aventura infeliz, a sua amargura é contínua, e procura produzir desassossego nos outros: porque não sabe ser humilde, porque não aprendeu a esquecer-se de si própria para se dar generosamente ao serviço dos outros por amor a Deus” 16.

Nestas palavras, ao lado do diagnóstico da susceptibilidade, indicam-se os dois principais remédios: aprender a esquecer-nos de nós mesmos; e dar-nos generosamente ao serviço dos outros.
São dois aspectos da humildade que têm a maior relevância para a paz familiar.

Faz alguns anos, veio-me às mãos, não sei dizer como, o texto de uma mensagem que a rainha Fabíola dirigiu ao povo belga por ocasião dos trinta anos do seu casamento com o rei Balduíno.
A data era de 15 de Dezembro de 1990 e o texto da mensagem era o seguinte:
“Eu vos direi, simplesmente, que estes têm sido anos de felicidade, devido em grande parte à gentileza do meu marido, às suas atenções, a um constante esquecimento de si mesmo que jamais ficou desmentido. Ele tem para comigo uma paciência a toda a prova: foi a paciência que permitiu ao nosso amor crescer e expandir-se. Esse esquecimento de si, em favor do outro, é a verdadeira chave do casamento”.

Esquecer-se: palavra maravilhosa.

São Paulo aplica-a a Cristo, dizendo que se esqueceu de si, que se aniquilou a si mesmo, assumindo a condição de servo... (Fil 2, 7).
O esquecimento é a face oculta do amor, aquilo que nos facilita amar libertos da carga do “eu”.

Assim o fez Cristo: esqueceu-se de Si até fazer-se “nada” – aniquilando-se –, para dar-se totalmente a nós. E dEle, entregue e esquecido, afirmará São Paulo que é a nossa paz (Ef 2, 14).

Em que pensamos habitualmente?
Em quem pensamos?
Já é hora de deixar de preocupar-nos tanto por nós mesmos, de deixar de avaliar tudo o que os outros fazem – “é bom, é ruim” – pelos reflexos que projeta no espelho do nosso “eu”.

Somente quem se esquece humildemente de si é capaz de se doar.

“Oxalá te habitues a ocupar-te diariamente dos outros, com tanta entrega que te esqueças de que existes!” 17

(cont.)
________________________________________
Notas:
(16) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, Quadrante, São Paulo, 1979, n. 101;
(17) Josemaría Escrivá, Sulco, Quadrante, São Paulo, 1987, n. 947;






25/06/2014

Temas para meditar 156

Confiança em Deus


Se tendes confiança n'Ele e ânimos corajosos, de que Sua Majestade é muito amigo, não tenhais medo que vos falte nada.



(Stª. teresa de jesus, Fundaciones, 27 12, trad ama)

Apresentação de Migalhas para o Caminho



Lançamento de livro - Convite

Rev. Cónego António Ferreira dos Santos
Reitor da Igreja da Lapa
Igreja da Lapa (Porto)
Altar Mor




                                                                                                          

Senhor, com o teu auxílio lutarei

O canto humilde e gozoso de Maria, no "Magnificat", recorda-nos a infinita generosidade de Nosso Senhor com os que se fazem como crianças, com os que se abaixam e sabem sinceramente que não são nada. (Forja, 608)

Não esqueçais que santo não é o que não cai, mas o que se levanta sempre, com humildade e com santa persistência. Se no livro dos Provérbios se comenta que o justo cai sete vezes ao dia, tu e eu – pobres criaturas – não nos devemos estranhar nem desalentar perante as misérias pessoais, perante os nossos tropeços, porque continuaremos em frente, se procurarmos a fortaleza n'Aquele que nos prometeu: Vinde a mim todos os que andais cansados e oprimidos, que eu vos aliviarei. Obrigado, Senhor, quia tu es, Deus, fortitudo mea, porque foste sempre Tu, e só Tu, meu Deus, a minha fortaleza, o meu refúgio, o meu apoio.


Se verdadeiramente desejas progredir na vida interior, sê humilde. Recorre constantemente, confiadamente, à ajuda do Senhor e de sua Mãe bendita, que é também a tua Mãe. Com serenidade, tranquilo, por muito que te doa a ferida ainda não sarada da tua última queda, abraça de novo a cruz e diz: Senhor, com o teu auxílio lutarei para não parar, responderei fielmente aos teus convites, sem temer as encostas íngremes, nem a aparente monotonia do trabalho habitual, nem os cardos e pedras do caminho. Sei que a tua misericórdia me assiste e que, no fim, acharei a felicidade eterna, a alegria e o amor pelos séculos sem fim. (Amigos de Deus, 131)

Pequena agenda do cristão


Quarta-Feira




(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?



Tratado da lei 34

Questão 98: Da lei antiga.

Art. 2 — Se a lei antiga procedia de Deus.

(Ad Hebr., cap. VII, lect. III).

O segundo discute-se assim. — Parece que a lei antiga não procedia de Deus.

1. — Pois, diz a Escritura (Dt 32, 4): As obras de Deus são perfeitas. Ora, a lei antiga era imperfeita, como se disse (a. 1). Logo, não procedia de Deus.

2. Demais. — A Escritura diz (Ecle 3, 14): Eu aprendi que todas as obras que Deus fez perseveram para sempre. Ora, a lei antiga não perseverou para sempre; pois, diz o Apóstolo (Heb 7, 18): O mandamento primeiro é na verdade abrogado pela fraqueza e inutilidade. Logo, a lei antiga não procedia de Deus.

3. Demais. — Do legislador sábio é próprio extirpar não só os males, como as suas ocasiões. Ora, a lei antiga era ocasião de pecado, como já se disse (a. 1 ad 2). Logo, não convinha a Deus, a quem nenhum é semelhante entre os legisladores, no dizer da Escritura (Jó 36, 22), impor tal lei.

4. Demais. — A Escritura diz (1 Tm 2, 4): Deus quer que todos os homens se salvem. Ora, a lei antiga não bastava para a salvação dos homens, como já se disse (a. 1). Logo, a Deus não convinha dar tal lei, e portanto a lei antiga não procedia de Deus.

Mas, em contrário, diz o Senhor, falando dos Judeus, a quem foi dada a lei antiga (Mt 15, 6): vós tendes feito vão o mandamento de Deus pela vossa tradição. E pouco antes tinha dito (Mt 15, 4): Honra a teu pai e a tua mãe, o que, manifestamente, está contido na lei antiga (Ex 20, 12; Dt 5, 16). Logo, esta procedia de Deus.

A lei antiga foi dada pelo Deus da bondade, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois, a lei antiga ordenava os homens para Cristo, de dois modos. — De um modo, dando testemunho de Cristo. Por isso, o Evangelho diz (Lc 24, 44): é necessário cumprir-se tudo o que de mim estava escrito na lei, nos Salmos e nos Profetas; e ainda (Jo 5, 46): Porque se vós crêsseis a Moisés, certamente creríeis também em mim, porque ele escreveu de mim.­ — De outro modo, por uma como disposição, enquanto que, retraindo os homens do culto da idolatria, encerrava-os no culto do Deus único, que, por meio de Cristo, devia salvar o género humano. Donde, diz o Apóstolo (Gl 3, 23): Antes que a fé viesse, estávamos debaixo da guarda da lei, encerrados para aquela fé que havia de ser revelada. Ora, é manifesto, que quem dispõe para o fim também conduz para ele; quero dizer que conduz por si mesmo, ou por meio de seus subordinados. Ora, o diabo não iria fazer uma lei, conducente dos homens a Cristo, por quem ele havia de ser lançado fora, conforme a Escritura (Mt 12, 26): se Satanás lança fora a Satanás, está ele dividido contra si mesmo. Logo, a lei antiga foi dada pelo próprio Deus, donde veio a salvação aos homens, pela graça de Cristo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Nada impede o temporalmente perfeito não o ser, absolutamente. Assim, diz-se que uma criança é perfeita, não absolutamente, mas conforme a sua condição no tempo; e portanto, os preceitos impostos às crianças são perfeitos, não absolutamente, mas segundo a condição delas. E tais foram os preceitos da lei. Por isso o Apóstolo diz (Gl 3, 24): a lei nos serviu de pedagogo que nos conduziu a Cristo.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Perseveram eternamente as obras de Deus, que ele fez para assim perseverarem; e essas são as obras perfeitas. Ora, a lei antiga foi rejeitada no tempo da perfeição da graça, não por má, mas como insuficiente e inútil para esse tempo; porque, como acrescenta o mesmo lugar, a lei não levou coisa nenhuma à perfeição. Donde, diz o Apóstolo (Gl 3, 24): Depois que veio a fé, já não estamos debaixo de pedagogo.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Como já dissemos (q. 79, a. 4), Deus às vezes permite a alguns caírem em pecado para desse modo se humilharem. Assim também, quis dar uma lei tal que, por suas próprias forças, os homens não pudessem cumprir, para, presumindo de si mesmos e reconhecendo-se pecadores, recorrerem, humilhados, ao auxílio da graça.

RESPOSTA À QUARTA. — Embora a lei antiga não bastasse para salvar os homens, contudo, simultaneamente com ela, Deus deu outro auxílio aos homens, com o qual poderiam salvar-se. E esse foi a fé no Mediador, pela qual se justificaram os padres antigos, como também nós nos justificamos. E assim, Deus não abandonava os homens, deixando-os sem os auxílios da salvação.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, comentário e leitura espiritual (A paz na familia 6)


Tempo comum XII Semana

Evangelho: Mt 7, 15-20

15 «Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós vestidos de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. 16 Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura se colhem uvas dos espinhos, ou figos dos abrolhos? 17 Assim toda a árvore boa dá bons frutos, e toda a árvore má dá maus frutos. 18 Não pode uma árvore boa dar maus frutos, nem uma árvore má dar bons frutos. 19 Toda a árvore que não dá bons frutos será cortada e lançada ao fogo. 20 Vós os conhecereis, pois, pelos seus frutos.

Comentário:

Vê-se bem a preocupação de Jesus Cristo com muitos dos Seus irmãos homens que se hão-de perder por caminhos de engano e erro. Sabe que o Seu Nome será usado por autênticos lobos vorazes para atrair outros mais fracos ou incautos. Gente sem escrúpulos que ‘ganha a vida’ a explorar a debilidade alheia.

É a estes Seus pobres irmãos que o Senhor dirige o Seu aviso: acautelai-vos, sede prudentes, antes de comer do fruto, por mais apetitoso que pareça ser, vede bem de que árvore foi colhido.

(ama, comentário sobre Mt 7, 15-20, 2013.06.26)


Leitura espiritual



Temas


A PAZ NA FAMÍLIA
…/6

CONSTRUIR A PAZ FAMILIAR
UM COMBATE PELA PAZ

Na introdução a estas páginas, transcrevíamos umas palavras de São Paulo que põem à mostra – dizíamos ali – as cordas da paz. Vamos agora rever e meditar com calma esse texto, que nos pode ajudar a encontrar os caminhos da paz (cf. Lc 1, 79) pelos quais Deus quer que andemos.

Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, mansidão, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se um tiver contra outro motivo de queixa. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós. Mas, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição. Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a formar um único corpo. E sede agradecidos (Col 3, 12-15).

Relendo essas linhas, facilmente podemos observar nelas quatro ideias claras:
Primeira:
São Paulo quer mostrar o caminho para que a paz “triunfe nos corações”.

Reparemos que ele não diz: para que a paz “surja”, “permaneça” ou se “assente” em vossos corações, mas para que “triunfe em vossos corações”. E é que a paz da alma – que transborda em paz para os outros – é sempre “consequência da guerra”; é uma conquista, resultante – como dizia Mons. Escrivá – de uma luta íntima “contra tudo o que na vida não for de Deus: contra a soberba, a sensualidade, o egoísmo, a superficialidade, a estreiteza de coração” 10.

Segunda ideia:
Essa luta trava-se praticando virtudes concretas, não bastando sentimentos e boas vontades: é preciso exercitar a misericórdia, a bondade, a doçura, a mansidão, a paciência, o perdão.

Terceira ideia:
Essas virtudes constituem uma força eficaz, apta para produzir a paz, só quando estão bem amarradas, como um feixe, pela caridade (pelo amor à medida do amor de Cristo), formando assim um conjunto firme e coeso. Este é exatamente o significado da expressão: o amor é o vínculo da perfeição.

Quarta ideia:
Essa luta pela paz – e concretamente pela paz na família – é um dever que decorre da nossa vocação. Por isso São Paulo começa esse parágrafo afirmando que devemos exercitar as virtudes que levam à paz justamente por sermos eleitos de Deus, santos – chamados à santidade – e amados.

Após este olhar geral sobre as palavras de São Paulo, vamos agora ativar o zoom e fazer uma aproximação das virtudes mencionadas por ele, juntamente com outras que lhes são conexas.

UMA ENTRANHADA MISERICÓRDIA

Que quer dizer misericórdia na família?
Entenderemos bem essa virtude, se nos lembramos de que a misericórdia do cristão deve imitar a misericórdia de Deus: Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso (Lc 6, 36).

Deus é misericordioso porque vê as nossas misérias – por dizê-lo de um modo humano – “com coração”.

A palavra misericórdia significa, com efeito, “miséria” que toca o “coração”.

Quer isto dizer que Deus olha para os nossos pecados, os nossos defeitos, as nossas ofensas – que não pode aprovar –, não com a dureza de um justiceiro, mas com um olhar compreensivo, compassivo e sempre predisposto ao perdão.

A pessoa misericordiosa sabe “olhar com coração”. Mas não fica só nisso.

“O verdadeiro significado da misericórdia – diz João Paulo II – não consiste apenas no olhar, por mais penetrante e cheio de compaixão que seja, com que se encara o mal moral, físico ou material. A misericórdia manifesta-se com a sua fisionomia verdadeira e própria quando reavalia, promove e sabe tirar o bem de todas as formas de mal existentes no mundo e no homem”. A misericórdia – acrescenta – é um amor “que não se deixa «vencer pelo mal», mas «vence o mal com o bem» (cf. Rom 12, 21)” 11.

Retenhamos bem essas ideias:
A virtude da misericórdia começa por “olhar” o outro, por “vê-lo” com um olhar “penetrante” e “cheio de compaixão”; e completa-se quando, a partir desse olhar compreensivo, nos esforçamos por tirar um bem do mal que vemos nos outros.

Duas atitudes que, por si sós, já seriam um excelente programa para a paz da família.

Mas bem poucos as conseguem viver na prática.

A IMAGEM IDEAL E A IMAGEM REAL

Muitos, sem nem darem por isso, fazem dos outros e, concretamente das pessoas da família, como um espelho de si mesmos.

Encaram a mulher, o marido, os filhos, como espelhos em que gostariam de ver-se refletidos: sempre lhes agradaria contemplar neles os seus gostos, os seus desejos, os seus sonhos. Os outros só são estimados como projeção de si mesmos.

É preciso virar cento e oitenta graus esse espelho, é preciso abrir o coração e fazer o que, com expressão feliz, Gustavo Corção chamava “a descoberta do outro”.

“O marido, cheio de razões – escreve esse autor –, não admite que a mulher fale de certo modo, tenha tal tique ou qual mania. Que a sua maneira de andar, de partir o pão, de atender o telefone, seja a sua maneira. O confronto diário, entra ano sai ano, é insuportável para cada cônjuge [...]. Cada um se procura a si mesmo na face que lhe fica em frente e, nos dias piores, fica desvairado, atormentado, enlouquecido, como homem que visse no seu espelho uma imagem absurda, diferente da sua, a fazer gestos disparatados e femininos”.

Nesse clima de auto-procura, continua a dizer Corção, as pessoas “são coisas de mim mesmo que circulam fora de mim para melhor me servir. O eu fica no centro de um universo escuro, em volta estão os corpos tributários: este traz-me o café, aquele a carícia”.

Para quebrar esse curto-circuito perverso, é necessário fazer a “descoberta do outro”.

A descoberta de que o marido, a mulher, os filhos, são o “outro”, que deve ser compreendido e amado por si mesmo. A caridade cristã leva, então, a ver nos outros membros da família o próximo, “esse que amaremos como a nós mesmos [...]. Vivemos esbarrando no próximo, porque não nos ocorre, na espessura da nossa escuridão, que ele tenha direito à objetividade, que seja o outro” 12.

Sim. Como custa entender que o cônjuge, ou o filho, ou a filha, ou os pais, sejam “eles”! No entanto, esse olhar compreensivo é o primeiro passo do entendimento, da paz, do amor.

Na realidade, qual é a causa mais profunda das desavenças, das brigas, dos maus humores, dos desentendimentos familiares? É que temos uma “imagem ideal” da pessoa (o que desejaríamos que a esposa, o filho, o pai fossem...), mas encontramo-nos a cada passo com a “imagem real”. Essa imagem real – que é a única que existe – irrita, decepciona.

O choque com a imagem real, que parece arrebentar os sonhos ideais, azeda e desgasta o dia-a-dia, fere a harmonia familiar, que – rachada já por tantas incompreensões – pode ficar estilhaçada.

O primeiro passo do amor misericordioso consiste em procurar entender os outros, sabendo que são outros. Para isso, antes de mais nada é necessário respeitá-los.

Um ser humano é um mundo que deve ser encarado com um respeito imenso.

Deus faz assim connosco, dá-nos um enorme valor, embora sejamos – como somos – pobres pecadores: para Ele valemos o preço do sangue de Jesus Cristo.

“Cada criatura humana – diz um autor espiritual – é um enigma, uma palavra velada.

Todo o trabalho da caridade paciente consiste em decifrar esses enigmas e em encontrar o seu sentido” 13.

Entender exige um acto consciente, um propósito deliberado de compreender.

Como dizia um conhecido orientador familiar, “os amantes são aqueles que se amam; os esposos são aqueles que se empenham em amar-se” 14.

Existe esse ato deliberado, esse empenho, quando alguém diz: “Eu, a partir de hoje, faço o propósito de esforçar-me seriamente por entender a minha mulher; eu quero entender o meu filho”.

OS CANAIS DA COMUNICAÇÃO

Se esse propósito for sincero, quem o fez logo verá que precisa de lutar contra vários defeitos que lhe dificultam a compreensão.

Em primeiro lugar, terá de lutar contra o preconceito.

No lar, os preconceitos podem ser inúmeros. “Já nos conhecemos!” – dizem uns aos outros; e assim, mal o marido abre a boca, a mulher, sem se dar ao trabalho de escutá-lo, corta:
“Você já vem de novo com a mesma história, você não muda”; assim que o pai começa a explicar a dificuldade que tem de aumentar a mesada, logo o filho o interrompe: “Ah, pai, sempre podando”...
Antes de ouvir, já se tem o filme do outro, pronto e revelado, como se as pessoas fossem clichês que não pudessem mudar.

Como é importante o “empenho” em entender: “Por que ele ou ela é assim?
Como é mesmo por dentro?
Que lhe acontece?
Que teme?
Que desejaria?
O que o faz sofrer?...”

Não se trata de fazer “análise”.
Deus nos livre do marido “analista” da mulher ou vice-versa. Mas trata-se, sim, de abrir o coração à compreensão.
Para isso, é muito necessário aprender a bela arte de escutar, que nos permite amplificar os canais da comunicação, do diálogo compreensivo.

Não pratica certamente essa arte aquele tipo de marido que, chegando a casa com ar cansado, desaba na poltrona. A mulher está ansiosa por falar-lhe, e ele, abanando a cabeça como quem faz uma magnânima concessão a um ser inferior, diz-lhe: – “Vai, fala”. Ela desabafa enquanto ele olha para o infinito, com inexpressividade de peixe. – “Já acabou?”, pergunta ele e recolhe-se atrás do jornal.

Pelo contrário, pratica a arte de escutar aquele que deixa falar o outro: escuta-o com atenção até que termine; evita acusações ou desqualificações; não se serve de expressões do tipo “já sei, não precisa dizer-me”; toma cuidado com as interpretações erróneas de palavras, frases, gestos ou atitudes; sabe pedir amavelmente esclarecimentos; está atento ao assunto da conversa, sem pular abruptamente para outro; evita expressões cortantes como “Isso não admito”, “Não aguento esse modo de falar”, “Você não muda”, etc. 15
Só o respeito, sem preconceitos nem precipitações, pode levar a “entender” o outro.
E, quando a compreensão vai crescendo, deixa-se de dizer: “Ele deveria ser assim”, e passasse a dizer: “Ele é assim; portanto, o que é que eu devo fazer?”
Então, como diz o Papa, a nossa misericórdia “reavalia, promove e tira o bem de todas as formas de mal” (ou seja, dos defeitos, das limitações, das más disposições dos outros). É uma verdade comprovada que, quando procuramos compreender uma pessoa, facilmente descobrimos qual é a nossa atitude – a palavra, o silêncio – que mais a poderia ajudar, que poderia fazer-lhe maior bem. Nisso consiste a bondade de que fala São Paulo no texto que estamos a comentar  [1]
Quando cada membro da família se esforça por entender os outros, todos acabam “entendendo-se” cada vez mais. Assim garantem a paz.

(cont.)
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Notas:
(10) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 73;
(11) Encíclica Dives in misericordia, n. 4;
(12) Gustavo Corção, A descoberta do outro, Agir, Rio de Janeiro, 1967, págs. 226-228;
(13) Um Cartuxo, Silêncio com Deus, Aster, Lisboa, 1956, págs. 141- 142;
(14) Pedro-Juan Viladrich, A família “soberana”, em L'Osservatore Romano, 26.08.1994, pág. 5;
(15) cfr. a obra do psiquiatra Enrique Rojas, Remedios para el desamor, Ediciones TH, Madrid, 1990, págs. 228 e segs.;








[1] Sobre a bondade, cfr. Francisco Faus, O homem bom, Quadrante, São Paulo, 1990.