04/11/2020

Virtudes

 


Fidelidade 4

A nossa fidelidade apoia-se na fidelidade de Deus

Os cristãos mantêm firme a confissão da sua esperança, porque fiel é aquele que fez a promessa (Cfr. Hb 10,23; 11,11) e nos chamou: “O que vos chama é fiel e, por isso, a cumprirá. Ele é o fundamento da nossa fidelidade(1 Ts 5,24). São Paulo não duvida em aplicar essa fidelidade divina à de Jesus Cristo: “mas Deus é fiel: Ele vos confirmará e guardará do Maligno(2 Ts 3,3). Afirmamos que Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre: “Iesus Christus heri et hodie idem, et in sæcula!(Hb 13, 8).

A nossa vida nem sempre é fácil, não é um caminho de rosas. Deus conta com o sofrimento como parte de toda a fidelidade; São Pedro ensina-o: “mesmo os que tenham que sofrer de acordo com a vontade de Deus, que encomendem as suas almas ao Criador, que é fiel, mediante a prática do bem”» (1 Pe 4,19). Estamos marcados pelas consequências do pecado original. A nossa fidelidade constrói-se em particular a partir da aceitação das nossas culpas e da nossa petição de perdão: “se confessamos os nossos pecados, fiel e justo é Ele para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a iniquidade(1 Jo 1,9). Isto é essencial na nossa vida: para ser fiel é necessário reconhecer as faltas pessoais, pois necessitamos de uma purificação do coração. Se ao aproximarmo-nos do Senhor não começássemos a dizer “mea culpa”, como fazemos na Santa Misa, não chegaríamos a lado nenhum.

A nossa fidelidade constrói-se em particular a partir da aceitação das nossas culpas e da nossa petição de perdão. A nossa fidelidade é resposta a uma chamada de Deus, que é fiel e nos quer divinizar dando-nos o Espírito Santo. São Paulo expressa muito bem como o sentido vocacional da nossa existência se desenvolve a partir dessa fidelidade divina: “fiel é Deus, por quem fostes chamados à união com o seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor(1 Cor 1,9; 10,13). De Deus não nos virá nunca a desilusão. Só Ele merece um amor absoluto, pois esse amor vai para além da morte.

Leitura espiritual Novembro 04

 


Evangelho segundo São João

 João VII 1-14



Incredulidade dos parentes de Jesus

1 Depois disto, Jesus continuava pela Galileia, pois não queria andar pela Judeia, visto que os judeus procuravam matá-lo. 2 Estava próxima a festa judaica das Tendas. 3 Disseram-lhe então os seus irmãos: ‘Vai para a Judeia, a fim de os teus discípulos verem as obras que fazes. 4 Pois ninguém faz nada às escondidas, se pretende tornar-se conhecido. Se fazes coisas destas, mostra-te ao mundo.’ 5 Com efeito, nem sequer os seus irmãos criam nele. 6 E Jesus disse-lhes: Para mim ainda não chegou o momento oportuno; mas, para vós, qualquer oportunidade é boa. 7 O mundo não pode odiar-vos; a mim, porém, odeia-me, porque sou testemunha de que as suas obras são más. 8 Ide vós à festa. Eu é que não vou a essa festa, porque o tempo que me está marcado ainda não se completou. 9 Depois de dizer isto, continuou na Galileia. 10 Contudo, depois de os seus irmãos partirem para a festa, Ele partiu também, não publicamente, mas quase em segredo.

 

Comentários do povo

11 Por isso, durante a festa, os judeus procuravam-no e perguntavam: ‘Onde é que Ele está?’ 12 E havia entre o povo grande murmuração a seu respeito. Uns diziam: ‘É um homem de bem’. Outros, porém, afirmavam: ‘Não; o que Ele anda é a desencaminhar o povo!’ 13 No entanto, ninguém falava dele abertamente, por medo dos judeus.

 

Jesus ensina no templo

14 Já a festa ia a meio, quando Jesus subiu ao templo e se pôs a ensinar. 15 Os judeus assombravam-se e diziam: ‘Como é que este é letrado, se não estudou?’ 16 Então, Jesus respondeu-lhes, dizendo: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. 17 Se alguém está disposto a fazer a vontade dele, é capaz de ajuizar se a doutrina procede de Deus, ou se Eu falo por minha conta. 18 Quem fala por sua conta procura a sua glória pessoal; mas, quem procura a glória daquele que o enviou, esse é verdadeiro e nele não há impostura. 19 Porventura Moisés não vos deu a Lei? No entanto, nenhum de vós cumpre a Lei. Porque me quereis matar? 20 Respondeu aquela gente: ‘Tu tens o demónio. Quem é que te quer matar?’ 21 Jesus replicou-lhes: Eu realizei uma única obra e todos estão assombrados. 22 Porque Moisés vos deu a lei da circuncisão - não é que ela venha de Moisés, mas dos Patriarcas - circuncidais um homem mesmo ao sábado. 23 Se um homem recebe a circuncisão ao sábado, para não ser violada a Lei de Moisés, podereis indignar-vos comigo por ter curado completamente um homem ao sábado? 24 Não julgueis pelas aparências; julgai com um juízo recto.

 


Cristo que passa

 

129

         

Permiti-me narrar um facto da minha vida pessoal, ocorrido já há muitos anos.

Certo dia, um amigo de bom coração, mas que não tinha fé, disse-me, indicando um mapa-mundi:

- Ora veja, de norte a sul e de leste a oeste.

- Que queres que eu veja?

- O fracasso de Cristo.

Tantos séculos a procurar meter na vida dos homens a Sua doutrina, e veja os resultados.

Num primeiro momento, enchi-me de tristeza: é uma grande dor, efectivamente, considerar que são muitos os que ainda não conhecem O Senhor e que, entre aqueles que O conhecem, são muitos também os que vivem como se O não conhecessem.

 

Mas essa impressão durou apenas um instante, para logo dar lugar ao amor e à acção de graças, porque Jesus quis que cada um dos homens fosse cooperador livre da Sua obra redentora.

Cristo não fracassou: a Sua doutrina está continuamente a fecundar o Mundo.

A redenção realizada por Ele é suficiente e superabundante.

Deus não quer escravos, mas sim filhos e, portanto, respeita a nossa liberdade.

A salvação continua e nós participamos dela: é vontade de Cristo que - segundo as palavras fortes de São Paulo – “cumpramos na nossa carne, na nossa vida, o que falta à Sua Paixão, pro Corpore eius, quod est Ecclesia, em benefício do seu corpo, que é a Igreja”.

 

Vale a pena jogar a vida, entregar-se por inteiro, para corresponder ao amor e à confiança que Deus deposita em nós.

Vale a pena, acima de tudo, que nos decidamos a tomar a sério a nossa fé cristã.

Quando recitamos o Credo, professamos crer em Deus Pai Todo-Poderoso, em Seu Filho Jesus Cristo que morreu e foi ressuscitado, no Espírito Santo, Senhor que dá a vida.

Confessamos que a Igreja una, santa, católica e apostólica, é o corpo de Cristo, animado pelo Espírito Santo.

Alegramo-nos com a remissão dos nossos pecados e com a esperança da futura ressurreição.

Mas, essas verdades penetrarão até ao fundo do coração ou ficarão apenas nos lábios?

A mensagem divina de vitória, alegria e paz do Pentecostes deve ser o fundamento inquebrantável do modo de pensar, de reagir e de viver de todo o cristão.

 

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Força de Deus e fraqueza humana

 

Non est abbreviata manus Domini, a mão de Deus não diminuiu; Deus não é menos poderoso hoje do que em outras épocas, nem é menos verdadeiro o Seu amor pelos homens.

A nossa fé ensina-nos que a criação inteira, o movimento da Terra e dos astros, as acções rectas das criaturas e tudo quando há de positivo no decurso da História, tudo, numa palavra, veio de Deus e a Deus se ordena.

 

A acção do Espírito Santo pode passar-nos despercebida, porque Deus não nos dá a conhecer os Seus planos e porque o pecado do Homem turva e obscurece os dons divinos.

Mas a Fé recorda-nos que o Senhor age constantemente:

Ele é que nos criou e nos conserva no ser; Ele, com a Sua graça, conduz a criação inteira para a liberdade da glória dos filhos de Deus.

 

Por isso, a Tradição cristã resumiu a atitude que devemos adoptar para com o Espírito Santo num só conceito: docilidade.

Sermos sensíveis àquilo que o Espírito divino promove à nossa volta e em nós mesmos: aos carismas que distribui, aos movimentos e instituições que suscita, aos efeitos e decisões que faz nascer nos nossos corações...

O Espírito Santo realiza no Mundo as obras de Deus. Como diz o hino litúrgico, é dador das graças, luz dos corações, hóspede da alma, descanso no trabalho, consolo no pranto.

Sem a Sua ajuda nada há no homem que seja inocente e valioso, pois é Ele que lava o que está sujo, que cura o que está doente, que aquece o que está frio, que corrige o extraviado, que conduz os homens ao porto da salvação e do gozo eterno.

 

Mas esta nossa fé no Espírito Santo deve ser plena e completa. Não é uma crença vaga na Sua presença no mundo; é uma aceitação agradecida dos sinais e realidades a que quis vincular a Sua força de um modo especial.

Anunciou Jesus: «Quando vier o Espírito de Verdade Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará».

O Espírito Santo é o Espírito enviado por Cristo, para operar em nós a santificação que Ele nos mereceu para nós na Terra.

 

É por isso que não pode haver fé no Espírito Santo, se não houver fé em Cristo, na doutrina de Cristo, nos sacramentos de Cristo, na Igreja de Cristo.

Não é coerente com a fé cristã, não crê verdadeiramente no Espírito Santo, quem não ama a Igreja, quem não tem confiança nela, quem se compraz apenas em mostrar as deficiências e limitações dos que a representam, quem a julga por fora e é incapaz de se sentir seu filho.

 

E sou levado a considerar até que ponto será extraordinariamente importante e abundantíssima a acção do Divino Paráclito enquanto o sacerdote renova o sacrifício do Calvário, quando celebra a Santa Missa nos nossos altares.

 

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Nós, os cristãos, trazemos em vasos de barro os grandes tesouros da graça:

Deus confiou os Seus dons à frágil e débil liberdade humana e, embora a Sua força certamente nos assista, a nossa concupiscência, o nosso comodismo e o nosso orgulho repelem-na por vezes e levam-nos a cair em pecado.

Em muitas ocasiões, de há mais de um quarto de século para cá, ao recitar o Credo e ao afirmar a minha fé na divindade da Igreja, una, santa, católica e apostólica, costumo acrescentar: apesar dos pesares.

Quando alguma vez me acontece comentar este costume e alguém me pergunta a que quero referir-me, respondo: aos teus pecados e aos meus.

 

Tudo isto é certo, mas não autoriza de maneira nenhuma a julgar a Igreja por critérios humanos, sem fé teologal, atendendo apenas ao maior ou menor valor de certos eclesiásticos ou de certos cristãos. Proceder assim é ficar à superfície.

O mais importante na Igreja não é ver como correspondemos nós, os homens, mas sim o que Deus realiza.

A Igreja é isto mesmo: Cristo presente entre nós; Deus que vem até à humanidade para a salvar, chamando-nos com a sua revelação, santificando-nos com a Sua graça, sustentando-nos com a Sua ajuda constante, nos pequenos e grandes combates da vida de todos os dias.

 

Podemos chegar a desconfiar dos homens, e cada um está obrigado a desconfiar pessoalmente de si mesmo e a concluir cada um dos seus dias com um mea culpa, com um acto de contrição profundo e sincero. Mas não temos o direito de duvidar de Deus.

E duvidar da Igreja, da sua origem divina, da eficácia salvífica da sua pregação e dos seus sacramentos, é duvidar do próprio Deus; é não acreditar plenamente na realidade da vinda do Espírito Santo.

 

Escreve São João Crisóstomo: “Antes de Cristo ser crucificado, - - não havia nenhuma reconciliação. E, enquanto não houve reconciliação, não foi enviado o Espírito Santo”.

A ausência do Espírito Santo era sinal da ira divina.

Agora que O vês enviado em plenitude, não duvides da reconciliação. Mas, se perguntarem: onde está agora O Espírito Santo?

Falar da Sua presença quando se davam milagres, quando eram ressuscitados os mortos e curados os leprosos, era possível; mas como saber, agora, que está deveras presente?

Não vos preocupeis. Hei-de demonstrar-vos que o Espírito Santo está também agora entre nós...

Se não existisse o Espírito Santo, não poderíamos dizer Senhor, Jesus, pois ninguém pode invocar Jesus como Senhor senão no Espírito Santo(I Cor. 12,3).

 

Se não existisse o Espírito Santo, não poderíamos orar com confiança, porque ao rezar dizemos Pai Nosso, que estais nos Céus (Mat. 6,9).

Se não existisse o Espírito Santo, não poderíamos chamar Pai a Deus. Como sabemos isso?

É porque o Apóstolo nos ensina: “E, porque somos filhos, Deus mandou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abba Pai(Gal, 4,6).

 

Portanto, quando invocares Deus Pai, recorda-te de que foi o Espírito Santo que, ao mover a tua alma, te deu essa oração.

Se não existisse o Espírito Santo, não haveria na Igreja palavra alguma de sabedoria ou de ciência, pois está escrito: “Porque... a um é dada pelo Espírito a palavra da sabedoria(I Cor, 12, 8)...

Se o Espírito Santo não estivesse presente, a Igreja não existiria. Mas, se a Igreja existe, é certo que o Espírito Santo não falta”.

 

Acima das deficiências e limitações humanas, repito, a Igreja é isto: sinal e, de certo modo - não no sentido estrito em que dogmaticamente se definiu a essência dos sete sacramentos da Nova Aliança - o sacramento universal da presença de Deus no Mundo.

Ser cristão é ter sido regenerado por Deus e enviado aos homens para lhes anunciar a salvação. Se tivéssemos fé firme e viva e déssemos a conhecer Cristo com audácia, veríamos que ante os nossos olhos se realizariam milagres como os da era apostólica.

 

Porque a verdade é que também agora se dá vista aos cegos, que tinham perdido a capacidade de olhar para o Céu e de contemplar as maravilhas de Deus; também agora se dá liberdade a coxos e entrevados, que se encontravam tolhidos pelas próprias paixões e cujo coração já não sabia amar; também agora se dá ouvido aos surdos, que não desejavam o conhecimento de Deus, e se consegue que falem os mudos, que tinham amordaçada a língua por não quererem confessar as suas derrotas; também agora se ressuscitam mortos, em que o pecado destruíra a vida.

Mais uma vez se verifica que a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes.

E, como os primeiros fiéis cristãos, também nós nos alegramos ao admirar a força do Espírito Santo e a sua acção na inteligência e na vontade das suas criaturas.

 

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Dar a conhecer a Cristo

 

Todos os acontecimentos da vida - os de cada existência individual e, de algum modo, os das grandes encruzilhadas da História - vejo-os como outros tantos chamamentos que Deus faz aos homens para olharem de frente a verdade e como ocasiões oferecidas a nós, cristãos, para anunciarmos com as nossas obras e as nossas palavras, auxiliados pela graça, o Espírito a que pertencemos.

 

Cada geração de cristãos deve redimir e santificar o seu tempo: para tanto, precisa de compreender e de compartilhar os anseios dos homens, seus iguais, a fim de lhes dar a conhecer, com dom de línguas, como corresponder à acção do Espírito Santo, à efusão permanente das riquezas do Coração divino.

A nós, cristãos, compete anunciar nestes dias, ao mundo a que pertencemos e em que vivemos, a antiga e sempre nova mensagem do Evangelho.

 

Não é verdade que toda a gente de hoje - assim, em geral ou em bloco - esteja fechada ou permaneça indiferente ao que a fé cristã ensina sobre o destino e o ser do Homem.

Não é certo que os homens do nosso tempo se ocupem só das coisas da Terra e se desinteressem de olhar para o Céu.

Embora não faltem ideologias - e pessoas para as sustentarem - que estão fechadas, na nossa época não há apenas atitudes rasteiras, mas também altos ideais; não há apenas cobardia, mas heroísmo, e ao lado das desilusões permanecem grandes aspirações.

Há pessoas que sonham com um mundo novo, mais justo e mais humano, enquanto outras, talvez decepcionadas diante do fracasso dos seus primeiros ideais, se refugiam no egoísmo de buscarem a sua própria tranquilidade ou de se deixarem ficar mergulhadas no erro.

 

A todos os homens e todas as mulheres, estejam onde estiverem, em momentos de exaltação ou de crise ou de derrota, devemos fazer chegar o anúncio solene e claro de São Pedro, durante os dias que se seguiram ao Pentecostes: “Jesus é a pedra angular, o Redentor, tudo da nossa vida, pois fora d'Ele não foi dado outro nome, aos homens, debaixo do céu, pelo qual possamos ser salvos”.

 

Deus não perde batalhas

 


Se tiveres caído, levanta-te com mais esperança! Só o amor-próprio não entende que o erro, quando se rectifica, ajuda a conhecer-nos e a humilhar-nos. (Sulco, 724)

 

Para a frente, aconteça o que acontecer! Bem agarrado ao braço do Senhor, considera que Deus não perde batalhas. Se, por qualquer motivo, te afastas d'Ele, reage com a humildade de começar e de recomeçar; de fazer de filho pródigo todos os dias, inclusive repetidamente nas vinte e quatro horas do dia; de reconciliar o teu coração contrito na Confissão, verdadeiro milagre do Amor de Deus. Neste Sacramento maravilhoso, o Senhor limpa a tua alma e inunda-te de alegria e de força para não desanimares na tua luta e para voltares de novo sem cansaço a Deus, mesmo quando tudo te pareça obscuro. Além disso, a Mãe de Deus, que é também nossa Mãe, protege-te com a sua solicitude maternal e dá-te confiança no teu caminhar.

A sagrada Escritura adverte que até o justo cai sete vezes. Sempre que leio estas palavras, a minha alma estremece com um forte abalo de amor e de dor. Uma vez mais, vem o Senhor ao nosso encontro, com essa advertência divina, para nos falar da sua misericórdia, da sua ternura, da sua clemência, que nunca acabam. Estai seguros: Deus não quer as nossas misérias, mas não as desconhece e conta precisamente com essas debilidades para que nos façamos santos. (...)

Prostro-me diante de Deus e exponho-lhe claramente a minha situação. Logo tenho a segurança da sua assistência e oiço no fundo do meu coração o que ele me repete devagar: meus es tu!. Sabia – e sei – como és; para a frente! (Amigos de Deus, 214–215)

 

Reflexão

 


Consequências

 

Se acreditamos que os méritos, as boas obras, as virtudes que possamos ter se reflectem nos nossos filhos, nos nossos netos, nos outros... como não considerar que as nossas faltas, vícios e pecados não tenham o mesmo efeito!


(AMA, 2020) 

03/11/2020

Novíssimos

 


Morte

 

Vamos todos caminhando pela vida e, segundo passam os anos, são cada vez mais numerosos os entes queridos que nos aguardam "do outro lado" da barreira da morte.

Esta converte-se em algo menos temeroso, inclusive em algo alegre, quando vamos sendo capazes de advertir que é a porta da nossa verdadeira "casa" no qual nos aguardam já os "que nos precederam no sinal da fé".

A nossa "casa" comum não é a tumba fria; mas o seio de Deus.  

(C. López-Pardo, Sobre la vida y la muerte, Rialp, Madrid, 1973, nr. 358, trad AMA)

Leitura espiritual Novembro 03

 

Evangelho 

 Jo VI, 52 -71

A Sua carne é comida e o Seu sangue é bebida

52 Então, os judeus, exaltados, puseram-se a discutir entre si, dizendo: «Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?!» 53 Disse-lhes Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes mesmo a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. 54 Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e Eu hei-de ressuscitá-lo no último dia, 55 porque a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue, uma verdadeira bebida. 56 Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e Eu nele. 57 Assim como o Pai que me enviou vive e Eu vivo pelo Pai, também quem de verdade me come viverá por mim. 58 Este é o pão que desceu do Céu; não é como aquele que os antepassados comeram, pois eles morreram; quem come mesmo deste pão viverá eternamente.» 59 Isto foi o que Ele disse em Cafarnaúm, ao ensinar na sinagoga. 60 Depois de o ouvirem, muitos dos seus discípulos disseram: «Que palavras insuportáveis! Quem pode entender isto?» 61 Mas Jesus, sabendo no seu íntimo que os seus discípulos murmuravam a respeito disto, disse-lhes: «Isto escandaliza-vos? 62 E se virdes o Filho do Homem subir para onde estava antes? 63 É o Espírito quem dá a vida; a carne não serve de nada: as palavras que vos disse são espírito e são vida. 64 Mas há alguns de vós que não crêem.» De facto, Jesus sabia, desde o princípio, quem eram os que não criam e também quem era aquele que o havia de entregar. 65 E dizia: «Por isso é que Eu vos declarei que ninguém pode vir a mim, se isso não lhe for concedido pelo Pai.» 66 A partir daí, muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele.

 

Acto de fé de Pedro

67 Então, Jesus disse aos Doze: «Também vós quereis ir embora?» 68 Respondeu-lhe Simão Pedro: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! 69 Por isso nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus.» 70 Disse-lhes Jesus: «Não vos escolhi Eu a vós, os Doze? Contudo, um de vós é um diabo.» 71 Referia-se a Judas, filho de Simão Iscariotes, pois esse é que viria a entregá-lo, sendo embora um dos Doze.

 


Cristo que passa

125

        

A vida futura

 

A tarefa apostólica que Cristo atribuiu a todos os Seus discípulos produz, portanto, resultados concretos no âmbito social.

Não é admissível pensar que, para se ser cristão, seja preciso voltar as costas ao mundo, ser um derrotista da natureza humana. Tudo, até o mais pequeno dos acontecimentos honestos, encerra um sentido humano e divino.

Cristo, perfeito homem, não veio destruir o que é humano, mas enobrecê-lo, assumindo a nossa natureza humana, excepto o pecado. Veio compartilhar todos os anseios do homem, menos a triste aventura do mal.

O cristão deve encontrar-se sempre disposto a santificar a sociedade a partir de dentro, estando plenamente no mundo, mas não sendo do mundo naquilo que ele tem - não por característica real, mas por defeito voluntário, pelo pecado - de negação de Deus, de oposição à Sua amável Vontade salvífica.

 

A festa da Ascensão do Senhor sugere-nos também outra realidade: o Cristo que nos anima a esta tarefa no mundo espera-nos no Céu. Por outras palavras: a vida na terra, que amamos, não é a definitiva: porque não temos aqui cidade permanente, mas andamos em busca da futura cidade imutável.

 

Procuremos, no entanto, não interpretar a Palavra de Deus nos limites de horizontes estreitos.

O Senhor não nos impele a sermos infelizes enquanto caminhamos, esperando só a consolação no além. Deus quer-nos felizes também aqui, embora anelando o cumprimento definitivo dessa outra felicidade, que só Ele pode preencher completa e abundantemente.

 

Nesta terra, a contemplação das realidades sobrenaturais, a acção da graça nas nossas almas, o amor ao próximo como fruto saboroso do amor a Deus, supõem já uma antecipação do Céu, um começo destinado a crescer dia a dia.

Nós, cristãos, não suportamos uma vida dupla: mantemos uma unidade de vida, simples e forte, na qual se fundamentam e compenetram todas ás nossas acções.

 

126

        

Cristo espera-nos.

Vivemos já como cidadãos do céu sendo plenamente cidadãos da Terra, no meio de dificuldades, de injustiças, de incompreensões, mas também no meio da alegria e da serenidade que dá saber-se filho amado de Deus.

Perseveremos no serviço do nosso Deus e veremos como aumenta em número e em santidade este exército cristão de paz, este povo de corredenção.

 

Sejamos almas contemplativas, com um diálogo constante, convivendo com o Senhor a toda a hora: desde o primeiro pensamento do dia ao último da noite, pondo continuamente o nosso coração em Jesus Cristo Senhor Nosso, chegando até junto d'Ele por intermédio da Nossa Mãe Santa Maria e, por Ele, ao Pai e ao Espírito Santo.

 

Se, apesar de tudo, a subida de Jesus aos Céus nos deixa na alma um amargo rasto de tristeza, acudamos a sua Mãe como fizeram os apóstolos: então, voltaram a Jerusalém... e oravam unanimemente... com Maria, a Mãe de Jesus.

 

127 

       

Os Actos dos Apóstolos, ao narrarem-nos os acontecimentos daquele dia de Pentecostes em que o Espírito Santo desceu em forma de línguas de fogo sobre os discípulos de Nosso Senhor, levam-nos a assistir à grande manifestação do poder de Deus com que a Igreja iniciou a sua caminhada por entre as nações.

 A vitória que Cristo obtivera sobre a morte e sobre o pecado - com a Sua obediência, a Sua imolação na Cruz e a Sua Ressurreição - revelou-se então em todo o seu esplendor divino.

 

Os discípulos, que já tinham sido testemunhas da glória do Ressuscitado, experimentaram em si a força do Espírito Santo: as suas inteligências e os seus corações abriram-se a uma nova luz.

Tinham seguido Cristo e recebido com fé a sua doutrina; mas nem sempre conseguiam penetrar totalmente no sentido desta.

Era necessário que viesse o Espírito de Verdade para lhes fazer compreender todas as coisas.

Sabiam que só em Jesus podiam encontrar palavras de vida eterna e estavam dispostos a segui-Lo e a dar a vida por Ele; mas eram fracos e, quando chegou a hora da provação, fugiram, deixaram-nO só.

No dia de Pentecostes tudo isso passou: o Espírito Santo, que é espírito de fortaleza, tornou-os firmes, seguros, audazes.

A palavra dos Apóstolos ressoa então, forte e vibrante, pelas ruas e praças de Jerusalém.

 

Os homens e as mulheres vindos das mais diversas regiões, que naqueles dias povoam a cidade, escutam assombrados.

“Partos, medos e elamitas, e os que habitam a Mesopotâmia, a Judeia e a Capadócia, o Ponto e a Ásia, a Frígia e a Panfília, o Egipto e várias partes da Líbia que é vizinha de Cirene, e os que vieram de Roma, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, todos os ouvimos falar, nas nossas próprias línguas, das maravilhas de Deus”.

Estes prodígios, que se realizam diante dos seus olhos, levam-nos a prestar atenção à pregação apostólica.

O mesmo Espírito Santo, que actua nos discípulos do Senhor, tocou-lhes também nos corações e conduziu-os à Fé.

 

Conta-nos São Lucas que, depois de São Pedro ter falado, proclamando a Ressurreição de Cristo, muitos dos que o rodeavam se aproximaram, perguntando: que havemos de fazer, irmãos?

E o Apóstolo respondeu-lhes: “Fazei penitência, e cada um de vós seja baptizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo”.

E o texto sagrado termina dizendo-nos que “nesse dia se incorporaram na Igreja cerca de três mil pessoas”.

 

A vinda solene do Espírito Santo no dia de Pentecostes não foi um acontecimento isolado.

Quase não há uma página dos Actos dos Apóstolos em que se não fale d'Ele e da acção pela qual guia, dirige e anima a vida e as obras da primitiva comunidade cristã.

É Ele que inspira a pregação de São Pedro, que confirma na fé os discípulos, que sela com a Sua presença o chamamento dirigido aos gentios e, que envia Saulo e Barnabé para terras distantes, a fim de abrirem novos caminhos à doutrina de Jesus.

Numa palavra, a Sua presença e a Sua actuação dominam tudo.

 

128

         

O renascimento baptismal

 

Esta realidade profunda que o texto da Sagrada Escritura nos dá a conhecer não é uma simples recordação do passado, de uma espécie de idade de ouro da Igreja, perdida na História.

Por cima das misérias e dos pecados de cada um de nós, continua a ser a realidade da Igreja de hoje e da Igreja de todos os tempos.

Anunciou o Senhor aos seus discípulos: «Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco eternamente».

Jesus cumpriu as Suas promessas: ressuscitou, subiu aos Céus e, em união com o Eterno Pai, envia-nos o Espírito Santo para nos santificar e nos dar a vida.

 

A força e o poder de Deus iluminam a face da Terra.

O Espírito Santo continua a assistir à Igreja de Cristo, para que ela seja - sempre e em tudo - sinal erguido diante das nações, anunciando à Humanidade a benevolência e o amor de Deus.

Por maiores que sejam as nossas limitações, nós, homens, podemos olhar com confiança para os Céus e sentir-nos cheios de alegria: Deus ama-nos e liberta-nos dos nossos pecados.

A presença e a acção do Espírito Santo na Igreja são o penhor e a antecipação da felicidade eterna, dessa alegria e dessa paz que Deus nos prepara.

 

Também nós, tal como aqueles primeiros que se aproximaram de São Pedro no dia de Pentecostes, fomos baptizados.

 No baptismo, o Nosso Pai, Deus, tomou posse das nossas vidas, incorporou-nos na vida de Cristo e enviou-nos o Espírito Santo.

Diz-nos a Sagrada Escritura: ”O Senhor, salvou-nos fazendo-nos renascer pelo baptismo, renovando-nos pelo Espírito Santo, que Ele difundiu sobre nós abundantemente por Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados pela Sua graça, sejamos herdeiros da vida eterna, segundo a esperança”.

 

A experiência da nossa debilidade e das nossas faltas, a desedificação que pode produzir o espectáculo doloroso da pequenez ou mesmo mesquinhez de alguns que se chamam cristãos, o aparente fracasso ou a desorientação de algumas iniciativas apostólicas, tudo isso - a comprovação da realidade do pecado e das limitações humanas - pode constituir, no entanto, uma provação para a nossa fé e fazer com que se insinuem em nós a tentação e a dúvida: onde estão a força e o poder de Deus?

É o momento de reagirmos, de pormos em prática da maneira mais pura e firme a nossa esperança e, portanto, de procurarmos ser mais firme na nossa fidelidade.

 

Temas doutrinais

 


A ALMA

 

5. As pessoas sem uso de razão não têm alma:

 

Os bebés, alguns loucos, os que dormem o estão em coma têm alma pois vivem e são humanos. Mas, no seu caso específico, a espiritualidade da alma não se manifesta.

Meter Cristo entre os pobres

 


Pelo "caminho do justo descontentamento" têm ido e estão a ir-se embora as massas. Dói... Quantos ressentidos temos fabricado entre os que estão espiritual ou materialmente necessitados! É preciso voltar a meter Cristo entre os pobres e entre os humildes: precisamente entre esses é que Ele se sente melhor. (Sulco, 228).

 

"Os pobres - dizia aquele amigo nosso - são o meu melhor livro espiritual e o motivo principal das minhas orações. Dói-me a sua dor, e dói-me o sofrimento de Cristo neles. E, porque me dói, compreendo que O amo e que os amo". (Sulco, 827).

 

Jesus Nosso Senhor amou tanto os homens, que encarnou, tomou a nossa natureza e viveu em contacto diário com pobres e ricos, com justos e pecadores, com novos e velhos, com gentios e judeus.

Dialogou constantemente com todos: com os que gostavam dele e com os que só procuravam a maneira de retorcer as suas palavras, para o condenar.

- Procura comportar-te como Nosso Senhor. (Forja, 558).

 

- Não ficas contente por sentir tão de perto a pobreza de Jesus?... Que bonito carecer até do necessário! Mas como Ele: oculta e silenciosamente. (Forja, 732)

Reflexão

 


Vigilância

 

A vigilância que o Senhor pede, dirige-se a todas as partes do homem:

 

Ao corpo, para que esteja prevenido contra a sonolência; e à alma, para que rejeite a pusinamilidade e a tibieza.

 

(Santo. Efrem, Comentário sobre o Diatessaron, XVIII, 17)