29/05/2020

LEITURA ESPIRITUAL

COMENTANDO OS EVANGELHOS


São Marcos

Cap. VII





1 Os fariseus e alguns doutores da Lei vindos de Jerusalém reuniram-se à volta de Jesus, 2 e viram que vários dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar. 3 É que os fariseus e todos os judeus em geral não comem sem ter lavado e esfregado bem as mãos, conforme a tradição dos antigos; 4 ao voltar da praça pública, não comem sem se lavar; e há muitos outros costumes que seguem, por tradição: lavagem das taças, dos jarros e das vasilhas de cobre. 5 Perguntaram-lhe, pois, os fariseus e doutores da Lei: «Porque é que os teus discípulos não obedecem à tradição dos antigos e tomam alimento com as mãos impuras?» 6 Respondeu: «Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, quando escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. 7 Vazio é o culto que me prestam e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos. 8 Descurais o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens.» 9 E acrescentou: «Anulais a vosso bel-prazer o mandamento de Deus, para observardes a vossa tradição. 10 Pois Moisés disse: Honra teu pai e tua mãe; e ainda: Quem amaldiçoar o pai ou a mãe seja punido de morte. 11 Vós, porém, dizeis: "Se alguém afirmar ao pai ou à mãe: ‘Declaro Qorban’ - isto é, oferta ao Senhor - aquilo que poderias receber de mim...", 12 nada mais lhe deixais fazer por seu pai ou por sua mãe, 13 anulando a palavra de Deus com a tradição que tendes transmitido. E fazeis muitas outras coisas do mesmo género.» 14 Chamando de novo a multidão, dizia: «Ouvi-me todos e procurai entender. 15 Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. 16 Se alguém tem ouvidos para ouvir, oiça.» 17 Quando, ao deixar a multidão, regressou a casa, os discípulos interrogaram-no acerca da parábola. 18 Ele respondeu: «Também vós não compreendeis? Não percebeis que nada do que, de fora, entra no homem o pode tornar impuro, 19 porque não penetra no coração mas sim no ventre, e depois é expelido em lugar próprio?» Assim, declarava puros todos os alimentos. 20 E disse: «O que sai do homem, isso é que torna o homem impuro. 21 Porque é do interior do coração dos homens que saem os maus pensamentos, as prostituições, roubos, assassínios, 22 adultérios, ambições, perversidade, má fé, devassidão, inveja, maledicência, orgulho, desvarios. 23 Todas estas maldades saem de dentro e tornam o homem impuro.» 24 Partindo dali, Jesus foi para a região de Tiro e de Sídon. Entrou numa casa e não queria que ninguém o soubesse, mas não pode passar despercebido, 25 porque logo uma mulher que tinha uma filha possessa de um espírito maligno, ouvindo falar dele, veio lançar-se a seus pés. 26 Era gentia, siro-fenícia de origem, e pedia que lhe da filha o demónio. 27 Ele respondeu: «Deixa que os filhos comam primeiro pois não está bem tomar o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos.» 28 Mas ela replicou: «Dizes bem, Senhor, mas até os cachorrinhos comem debaixo da mesa <as migalhas dos filhos.» 29 «Em atenção a essa palavra, vai: o demónio saiu de tua filha.» 30 Ela voltou para casa e encontrou a menina recostada na cama. O demónio tinha-a deixado. 31 Tornando a sair da região de Tiro, veio por Sídon para o mar da Galileia, atravessando o território da Decápole. 32 Trouxeram-lhe um surdo tartamudo e rogaram-lhe que impusesse as mãos sobre ele. 33 Afastando-se com ele da multidão, Jesus meteu-lhe os dedos nos ouvidos e fez saliva com que lhe tocou a língua. 34 Erguendo depois os olhos ao céu, suspirou dizendo: «Effathá», que quer dizer «abre-te.» 35 Logo os ouvidos se lhe abriram, soltou-se a prisão da língua e falava correctamente. 36 Jesus mandou-lhes que a ninguém revelassem o sucedido; mas quanto mais lho recomendava, mais eles o apregoavam. 37 No auge do assombro, diziam: «Faz tudo bem feito: faz ouvir os surdos e falar os mudos.»

Comentários:

Como se sabe, os Judeus consideravam – e ainda assim é – que alguns alimentos eram impróprios – impuros – e que Deus não desejava que os tomassem para não ficarem eles próprios contaminados. Jesus Cristo vem explicar claramente que a Lei é, assim, mal interpretada porque, se de facto antigamente se recomendava a abstinência de alguns alimentos, tal se devia a evitar excessos de comida e bebida daí, também, se recomendasse o jejum frequente. Uma “medida profilática” dada a um povo rude e violento, transformou-se numa lei de observância rigorosa e, talvez, caricata. A pureza ou impureza não tem a ver com a limpeza do corpo mas com a brancura da alma e do coração. O que se pensa e deseja no íntimo, só o próprio e Deus o sabem e só a Este haverá que dar contas.
        Aqui está bem expresso que o Senhor não faz acepção de pessoas. As Suas palavras aparentemente duras para a mulher que O interpelava de facto não o são já que esta não estranha o tratamento que lhe é dado. Jesus Cristo quis deliberadamente mostrar aos circunstantes que todo o ser humano tem o mesmo valor intrínseco perante Deus Criador e nem o facto de ter dado – por assim dizer – a primazia ao povo judeu no cumprimento da promessa feita a Abraão é motivo para não atender os que O procuram com Fé e Confiança.
        O Evangelista tem a preocupação de que conste neste relato algo singular: Jesus «tomando-o à parte de entre a multidão»… Porquê o Senhor deseja fazer este milagre com a discrição possível, fora dos olhares dos circunstantes? Talvez por um pormenor: «atravessando o território da Decápole» onde como se sabe, não era bem-vindo. Não obstante, alguns pedem-lhe por um pobre surdo-mudo, que o cure e, o Senhor, não resiste aos pedidos justos. Tal como Deus desistiria do castigo de Sodoma e Gomorra por causa dos justos que Abraão invocava, assim Cristo, por um só filho Seu fará o que Se Lhe pedir.
         Também nós, muitas vezes nos sentimos impelidos a soltar este brado:"Effathá», Senhor abre a minha alma o.meu coração para que possa escutar com clareza as Tuas palavras e escutando entenda e entendendo as ponha em prática. Assim poderei como este que curaste do Seu mal possa agradecer como desejo e louvar-Te como devo.
        Por aqui se vê como é conveniente na oração de petição expormos ao Senhor as razões do nosso pedido e o que pode “advogar” em nosso favor para que Ele no-lo conceda. Mas, o Senhor, não o sabe? Claro que sim, Ele sabe tudo e conhece o que nos vai na alma e as intenções do nosso coração mas, gosta de ser urgido como se precisasse de ser convencido pelos nossos argumentos. Esta prática também nos ajuda a pedir melhor e, sobretudo, a pedir o que realmente precisamos que nos conceda.
        «foi lançar-se a Seus pés» esta, a atitude “normal” do súbdito perante o Senhor, da Criatura perante o Criador. Quando alguém vai ter com outrem para lhe pedir algo importante que atitude toma? Não se lança aos pés de quem o ouve, isso está fora de questão, mas toma uma atitude de respeito e deferência. Ou não? Então quando nos dirigimos a Deus para Lhe pedir algo que julgamos indispensável e decisivo para a nossa vida, a postura que adoptamos deve ser diferente? Será que não vamos muitas vezes com a disposição de lembrar ao Senhor que “tem” de nos dar o que pedimos como se fosse uma Sua obrigação que está por cumprir? Claro, somos filhos de Deus e, os filhos, têm à vontade com os Pais mas, esse à vontade, não significa de modo nenhum menos respeito ou deferência.
Jesus Cristo mostra com evidente clareza que as Suas obras - neste caso os milagres - não são algo automático e estereotipado. Cada pessoa humana é um ser individual a quem o Senhor trata de acordo. Uma simples palavra bastaria como tantas vezes fez: 'fica curado do teu mal'. Mas aqui há como que uma "elaboração" do milagre talvez para consolidar a fé do doente e dos circunstantes. Tudo - absolutamente - que o Senhor faz tem um propósito e um objectivo.
        Não tomemos de menos a tradição como uma das fontes da nossa Fé, da nossa Santa Religião Católica. De facto os nossos Pais e responsáveis de educação deram-nos princípios basilares que não nos deixaram indiferentes. Mesmo que o tenham feito apenas para cumprir uma tradição ou costume o seu efeito não se perde e, tarde ou cedo, virão ao de cima esses princípios e conhecimentos que recebemos na infância.
        Os costumes as tradições que se vão transmitindo de geração em geração constituem para os judeus, autênticas obrigações que não podem deixar de ser levadas em conta. Alguns destes costumes e tradições foram até transformados em leis cada vez mais complexas e minuciosas que eram impostas ao povo sem admitir discussão. Claro que havia nestes procedimentos e interesses de classe, o que Jesus não se cansa de denunciar. Por isso mesmo podemos compreender a sua animosidade a Cristo.
        A impureza é uma “carga” terrível da qual muitos infelizmente não conseguem libertar-se. Talvez seja um dos estados de vida que cria mais hábito e, até, rotina. O que se pratica, diz ou vive vai perdendo a sua verdadeira importância e valor e não tarda a cair-se num “deixar andar” em que de certa maneira tudo é permitido, nada faz mal. O Senhor foi muito claro: «Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus».
        Moisés tinha dado ao povo uma completíssima legislação o que se compreende dada a falta de cultura - pouco mais que nómadas selva­gens - do povo israelita. Com base no Decálogo foi construindo esse acervo legislativo que con­tinha os princípios básicos do indispensável para regular a vida social. Com o tempo, os Doutores da Lei e, principalmente os fariseus, foram “misturando” as coisas levando o povo ignaro a considerar que tudo era a Lei de Deus e, como tal, rigorosamente observado. O erro dos chefes e guias é muito grave porque leva outros a errarem. A Deus o que é de Deus, aos homens o que é dos homens.
        Há comportamentos semelhantes hoje em dia. Quantos progenitores não celebram os Baptizados dos filhos com gran­des festas e aparato e, depois, os deixam como que entregues a si próprios o resto das suas infâncias! A Catequese na Igreja e se há possibilidades económicas, algum esta­belecimento de ensino religioso e… fica-se por aqui a sua preocupação com a educação religiosa da criança. É verdade, que em muitos casos, não se sentem muito à vontade por­que como não observam os Mandamentos e, até, à Missa ao Domingo só se vai de vez em quando, o exemplo que dão aos filhos não sustenta o que possam dizer-lhes.
        Preceitos humanos e obrigações para com Deus, regras de convivência social e normas de relação com o nosso Criador e Senhor. Ambas são necessárias e convém observar, mas as segundas são pri­oritárias; tocam-se em muitos pontos mas não se confundem. Evidentemente não se pode ser bom cristão tendo um comportamento social irregular mas tal não altera aquela escala de prioridades. O Quarto Mandamento vai perdendo a sua importância cada dia que passa. Em lugar de exemplo a seguir, a referência a ter em conta, os Pais, sobretudo quando de idade avançada, constituem um estorvo e en­cargo extra. Alguns – infelizmente em número crescente - esquecem tudo o que os Pais fizeram para lhes proporcionar o que desejavam, o seu apoio nas horas mais sombrias, a sua disponibilidade para perdoar as irreverên­cias, as preocupações com a sua saúde, a solicitude com que atende­ram os seus projectos. A ingratidão é, sempre, uma falta muito feia mas assume especial gra­vidade quando se verifica em relação aos progenitores. Infelizmente o que Jesus recrimina aos que O ouvem, continua a veri­ficar-se hoje em dia: filhos que abandonam os pais quando estes se tornam incómodos porque, achacados pela doença ou outras limita­ções, passam a ser um estorvo na sua vida. Todos os anos, principalmente pelas férias de Verão, centenas de pes­soas são literalmente abandonadas nos hospitais pelos familiares mais próximos – os filhos – que querem ir de férias “descansados” e sem maçadas. Estes procedimentos revelam uma frieza de coração e uma total au­sência de carinho ou ternura pelos progenitores que têm direito a elas, uma falta de respeito por eles, como pessoas em primeiro lugar e como pais em segundo. Merecem sem dúvida, as mesmas invectivas que, neste trecho do Evangelho, Jesus faz aos fariseus e aos escribas, precisamente aqueles que deveriam dar, ao povo, o exemplo nas relações dos filhos com os seus pais.
        Honrar Pai e Mãe é um Mandamento da Lei de Deus. Essa honra que é devida aos progenitores não pode limitar-se em as­segurar a sua velhice de forma mais ou menos confortável e digna. Não cabem as desculpas - infelizmente tão frequentes - que 'a vida de hoje não permite outra coisa... E já é muito. A honra tem a ver com o amor, principalmente com o amor. É preciso fazer sacrifícios, renunciar a alguma coisa? Pois faça-se! Renuncie-se! O nosso Pai do Céu está muito atento à forma como tratamos os nossos pais terrenos. Não esqueçamos que a derradeira “preocupação” de Cristo foi para com a Sua Mãe: ''eis aí a tua Mãe!''
        Ao ler este trecho do Evangelho de S. Marcos talvez alguém se sinta tentado a pensar: ‘isto não é para mim nem para agora, passar-se-ia naquele tempo…’ Nada mais falso. Tudo isto se passa nos dias de hoje e, cada vez com maior frequência. As desculpas e falsos motivos para “despojar” os progenitores, enve­lhecidos, doentes e cansados dos seus legítimos direitos são inúmeras e, sempre, motivadas pelo egoísmo e pela falta de amor aos seus. Um Pai ou uma Mãe, atingidos por Alzheimer, que não dizem coisa com coisa nem são capazes de se “governar sozinhos” é, de facto um pro­blema assim tão diferente daquele com que esse mesmo Pai ou essa mesma Mãe se defrontaram quando, durante os primeiros anos da nossa vida, não articulávamos palavra, não tínhamos coerência de pen­samentos e, muito menos, éramos capazes de nos mantermos sozi­nhos? Sim… com infinita paciência e carinho, ensinaram-nos a falar, corrigi­ram os erros, ajudaram-nos nos primeiros passos cambaleantes, nunca nos faltaram com a sua protecção. Tudo isto porquê? Porque nos amavam? Então… o amor não se paga com amor?
        Jesus Cristo continua a desmistificar a interpretação da Lei de Moisés que os chefes do povo, nomeadamente os Príncipes dos Sacerdotes e os Escribas, se foram atribuindo o direito de impor.O que não passava de normas e recomendações de cariz meramente social, de comportamento básico como a higiene e os cuidados a ter com o próprio corpo, passaram, assim, a ser regras rígidas de carácter religioso cuja observância era obrigatória desvirtuando completamente não só o sentido da Lei mas, o que era mais grave, esquecendo o ver­dadeiramente importante a ter em conta
        Às vezes podemos referir que os ensinamentos de Jesus são algo enig­máticos. Teríamos razão se nos apegarmos às palavras, ao texto do discurso e não ao seu sentido.Mas, neste caso, deste trecho do Evangelho, não podemos dizer tal coisa porque, de facto, ele não poderia ser mais claro e conclusivo. Jesus explica com meridiana clareza que quando o homem deixa que seja o coração a mandar na sua vida, a determinar as emoções, senti­mentos e comportamento, sem que a 'cabeça', o entendimento o regule e comande, corre sério risco de pensar e agir de forma inconveniente e reprovável. A pessoa bem formada, com um carácter sólido não se deixa dominar pelos impulsos do coração mas condiciona-os a uma avaliação criteriosa da sua conveniência.
        É bem de ver a qualidade dos homens que seguiam o Senhor, pouco inteligentes, sem grande instrução e débeis de vontade. Mas isso pouco importa porque têm recta intenção e ausência de pre­conceitos e, mais importante talvez, têm a franqueza sincera e humilde de perguntar o que não sabem de pedir esclarecimentos sobre o que não entendem bem. O que Jesus diz não “resvala” por eles, entranha-se no seu espírito e, depois de informados, cria raiz e frutifica.
        Mais uma vez; Jesus fala sobre o verdadeiro critério que as pessoas que se pretendem com boa intenção devem ter. Não ir atrás de falsos conceitos, promessas ou palavras soltas fora do contexto como tanto gostam de fazer alguns chamados “pregadores” de inúmeras “igrejas” que utilizam as palavras da Lei para manipular à vontade – à sua vontade – os pobres incautos que lhes caem na teia. Deus não poderia nunca fazer algo mal, isto é, que fosse mau para o homem. Quando entregou aos nossos primeiros Pais o domínio sobre a terra e que nela se contém não pôs qualquer limitação no seu uso. (Comer ou não carne de porco terá a ver, apenas, com a decisão pes­soal e nunca como uma regra imposta ou mesmo recomendada por Deus.) Neste caso, a profilaxia, é uma tarefa humana.  Seria o mais completo desrespeito pela liberdade do homem, Deus im­por uma selecção de alimentos permitidos e proibidos. Ora, Deus, que respeita a liberdade da criatura, nunca faria tal coisa. Muitos se arvoram em seus "porta-vozes" preconizando e instituindo regras e condutas que o Senhor nunca expôs. E, isto, serve para tudo, para coisas aparentemente boas ou, pelo menos, inócuas, ou para comportamentos reprováveis e até perigosos. Veja-se essas "seitas" e algumas chamadas "igrejas" que proliferam um pouco por todo o lado algumas das quais advogam o sexo livre e indiscriminado e até a imolação (suicídio) colectivo.
        «Tudo fez bem!» Esta afirmação dos circunstantes traduz uma verdade insofismável: Jesus Cristo é o verdadeiro Filho de Deus e, portanto, todas as Suas obras são perfeitas. Repete-se em Jesus Cristo o que a Bíblia nos conta sobre a Criação quando refere que (Deus) «olhou o que tinha feito e achou que tudo era muito bom» (Gen 1, 26-28.31)
        Quantas vezes esperamos que o Senhor nos diga também a nós: abre-te! Sim. Abre o teu coração ao Meu Amor, a tua inteligência à verdadeira Fé, a tua alma às inspirações do Espírito Santo! Abre-te, todo tu, entrega-me tudo o que tens, os teus desejos e aspi­rações nobres, as tuas ânsias de santidade! Abre-te a Mim e, Eu, te encherei de mais graças para seres mais forte, corajoso, perseverante na oração e fiel na tua amizade por Mim!
        Sabendo que nada foi escrito por acaso e que tudo foi inspirado pelo Espírito Santo, por vezes apetece meditar nas palavras e expressões dos evangelistas que parecem “a mais” no texto ou, talvez, sem grande significado ou relevância. São Lucas diz que Jesus «levantando os olhos ao Céu, suspirou».  O que quer isto dizer? Porque que constam aqui nestas pequenas coi­sas. Quantas vezes, perante algo que de qualquer modo nos incomoda, não fazemos exactamente o mesmo: levantamentos os olhos ao Céu e sus­piramos, como quem diz: ‘Que hei-de fazer? Como hei-de suportar isto? Que remédio?’A humanidade de Jesus revela-se igualmente nestas pequenas coisas, nestes gestos e reacções tão tipicamente humanos. Se o surdo-mudo fosse um homem de fé Jesus tê-lo-ia levado aparte, metido os dedos nos ouvidos, tocado com saliva a língua? Muito provavelmente… não. Estes gestos foram necessários para confirmar a pouca fé do pobre homem e, por respeito por este, faz isto afastado da multidão. Quem procura Jesus para ser curado dos seus males obtém, segura­mente essa cura, mas ela depende da sua fé em Cristo e na sua justiça. O caminho para Cristo é Maria, por isso a temos como especial media­neira que nos leva a seu Filho, endireitando o que está enviesado e “compondo” o que pedimos.
        Porque é que Jesus, nas curas que opera, usa formas diferentes de ac­tuar? Umas vezes limita-se a ordenar e, os enfermos ficam curados; outras toca a pessoa ou deixa que esta toque, pelo menos, o Seu manto; ou ainda, como neste caso - meter os dedos nos ouvidos ou ungir os olhos com lama feita com saliva e terra? Não sabemos a verdadeira razão mas podemos imaginar dois motivos; o primeiro depende da fé daquele que pede a cura: uma fé sólida, firme, absoluta tem uma resposta imediata ao passo que a fé mais débil ou hesitante “obriga” a um procedimento mais demorado exac­ta­mente para fortalecer a fé de quem pede. Isto deve servir-nos de lembrança quando pensarmos que o Senhor não atende o que justamente Lhe solicitamos. Talvez á nossa oração falte essa fé firme, inabalável que “leve” o Se­nhor a conceder sem de­mora o que pedimos. Além disso, ter-mos presente que, tal como neste trecho do Evangelho, a nossa fé deve bastar para levarmos os outros, mesmo que a sua fé seja débil, ao encontro com Cristo. Ele saberá o que fazer
        Parece que algumas pessoas - algumas com responsabilidade especí­fica na orientação dos fiéis da Igrejas Católica - têm alguma dificuldade em "lidar" com as curas de Jesus, sobretudo aquelas que opera sobre possessos do demónio como abundantemente se refere nos Evange­lhos. Parece haver falso pudor ou, talvez, medo de chamar as coisas pelo seu nome. É, pois, preciso ter claro que nenhuma palavra dos Evangelhos foi usada por acaso ou com simbolismo. Não! O que se lê no Evangelho é a palavra de Deus e, Ele, é a Verdade, logo não pode haver nem dúvidas nem “interpretações” do que lá consta.
        Jesus Cristo diz sempre as palavras certas, chama as coisas pelo seu verdadeiro nome. Não procura agradar a quem O ouve mas tão só dizer, expor, a verdade tal como ela é. Assim, chama Demónio ao espírito imundo que possuía a jovem, como o Evangelho relata. Logo, o Demónio existe!
        A falsa humildade é, muitas vezes o que nos impede de nos aproximar-mos de Jesus com confiança. É verdade que somos pouca coisa e indignos de falar directamente com Deus mas, ao converter-nos em Seus filhos pela Sua Paixão, Morte e Ressurreição, Cristo deu-nos esse direito e quer que o exerçamos com confiança. Disse-nos com toda a clareza para pedir-mos o que julgar-mos precisar. Ele, na Sua infinita sabedoria, dar-nos-á aquilo que nos convém.
        O pão dos filhos! Claro que, eles, estão em primeiro lugar nas preocupações que por eles sentimos e na assistência que lhes devemos prestar. Mas esta evidência que é natural e legítima não deve nem pode fazer com que desprezemos os outros e que não estejamos igualmente atentos às suas necessidades que está na nossa mão resolver ou, de alguma forma minimizar.
        «Effathá», abre-te! E, a estas palavras, abriram-se os ouvidos do surdo! Muitas vezes esperamos por algo semelhante, a exclamação que nos desperte da nossa modorra, um gesto que nos urja a levantarmo-nos do nosso torpor e a seguir o caminho, enfim, algo que nos entusiasme, nos anime e faça decidir a continuar o caminho traçado. E, algumas vezes, nada disto acontece, ou melhor, não nos damos conta que aconteça, de tal forma estamos absorvidos com os nossos próprios problemas e as soluções que procuramos para os mesmos. Entregamo-nos com ardor e pertinácia na busca dessas soluções, desses remédios e descuramos o que está mesmo à nossa frente, ao nosso alcance. Ele que nos diz, «Effathá», não nos deixa nunca, não se afasta e, quando nos afastamos – porque somos nós que nos afastamos – espera pacientemente que retrocedamos sobre os nossos passos e nos deixemos curar pela Sua ciência de Médico Divino.
        As normas que se referem neste trecho do Evangelho, foram instituídas por Moisés para um povo pouco menos que selvagem e primitivo. Como muitas outras tratavam-se códigos de conduta social destinadas a levar o povo a um patamar mais elevado de educação comportamental. Por conveniência os chefes do povo foram convertendo estes códigos em lei religiosa que tinha de ser estritamente observada. Assim dominavam e exerciam poder sobre os seus concidadãos por quem não tinham outra preocupação motivada pela misericórdia e solidariedade.
        Por várias vezes os comentários sobre estas atitudes dos fariseus e chefes do povo referem  a falta de critério e honradez intelectual de que amiúde davam mostras. Teremos de fazer um esforço para compreender que, apesar de tudo, manifestam coerência. Louva-se a sua atitude? Evidentemente não mas consideremos que embora eles não tenham essa intenção, as reacções e respostas de Jesus a estas manifestações contribuem para o esclarecimento do povo e a afirmação da doutrina verdadeira. E teremos de concluir que, de um “mal” aparente, o Senhor, tira sempre um bem verdadeiro.
        Talvez a hipocrisia seja um dos defeitos que Jesus mais aponta aos Fariseus e Escribas. Porque ama a simplicidade, não sabe o que há-de fazer com men­tes retorcidas, calculistas, preconceituosas. Ser simples – simples como as crianças – é a virtude que Cristo mais sublinha e inúmeras vezes de forma muito radical, diria. Afirma inclusive, que se não formos simples como as crianças não teremos lugar no Reino de Deus. Ouvi muitas vezes o meu querido Pai afirmar: ‘um homem deve ser igual a si mesmo’. Em pequeno, não percebia muito bem o que isto queria dizer, mas hoje sei que, o que quer dizer, é o mesmo que Jesus afirma: Sede homens de sim, sim, não, não. Não podemos ser outra coisa, sob pena de não ser-mos credíveis, sérios, aceites pelos outros e, sobretudo, pelo Senhor que nos quer como filhos autênticos, em quem pode e quer confiar não obstante - e apesar de – todos os nossos defeitos e imperfeições.
        Esta passagem do Evangelho sublinha ainda a repulsa que Jesus sente por tudo quanto é preconceituoso, excessivo, e escrupuloso no cum­primento da Lei divina. Pôr a forma, o conteúdo à frente do coração, do desejo de cumprir. O que O Senhor quer e deseja é Filhos Seus autênticos e verdadeiros, que pratiquem uma fé escorreita e sincera, sem se refugiarem atrás e pormenores que não passam disso mesmo. Alegria, sinceridade, disponibilidade é o que é preciso para cumprir as nossas obrigações de cristãos. Ouve-se por vezes ‘eu cá não vou à Missa no Domingo... pois se eu não sinto nada é melhor não ir do que fingir...’  Falsa razão. Ninguém vai à Missa para "sentir" seja o que for, vai-se à Missa, para participar no Sacramento divino, para, ao cumprir um preceito, dar glória e honra a Deus. A prática da fé não é um sentimento, uma tradição, um hábito... não... a prática da fé é, antes de mais, uma obrigação e uma necessidade; obrigação de, como filhos de Deus, honrar o nosso Pai; uma necessi­dade, porque precisamos do alimento da frequência dos Sacramentos, da vida de piedade, da oração.
        O Quarto Mandamento, que é também de direito natural, requer de todos os homens, mas especialmente daqueles que querem ser bons cristãos, a ajuda abnegada e cheia de carinho aos pais, que se realiza todos os dias em mil pequenos detalhes e ganha particular relevo quando os progenitores são anciãos ou estão mais necessitados. (cfr. Conc. Vat. II, Const. Gadium et spes, 48)














Temas para reflectir e meditar


Solidão 11


Passemos a uma outra consequência da solidão:

A amargura.


O que é?


É difícil de descrever porque quase nunca se sabe nem o motivo nem a razão, a meu ver, tópicos fundamentais para a qualificar.


É efectivamente um estado de alma condicionante em extremo do comportamento pessoal quer em relação a si próprio quer em relação aos outros.


Ninguém consegue interagir com outros se não reage consigo próprio.


Há algo de fatalismo na amargura porque ab início não se tem uma visão clara mas sim distorcida e pessimista do que se apresenta à consideração.


‘Não vale a pena fazer isto porque a ninguém interessa’.


Fica-se mergulhado numa apatia feroz, fechado hermeticamente, desinteressado de participar no que for.


Por dentro, às vezes, vai-se construindo uma como que “tese” para justificar este comportamento, mas, a verdade, é que se interrogado a respeito, não se tem uma resposta concreta e séria para dar.


(AMA, reflexões, Carvide, 14.08.2019)


Virtudes 6


Fortaleza 6

In patientia vestra possidebitis animas vestras (Lc 21,19)
Parte da fortaleza é a virtude da paciência, que Joseph Ratzinger descreveu como “a forma quotidiana do amor”. (Citado por G. Valente, Ratzinger Professore. Gli anni dello studio e dell’insegnamento nel ricordo dei colleghi e degli allievi (1946-1977). São Paulo, Cinisello Balsamo (Milão) 2008, p. 11). A razão pela qual o cristianismo deu tradicionalmente a essa virtude uma importância notável pode deduzir-se de umas palavras de Santo Agostinho no seu tratado sobre a paciência, que descreve como “um dom tão grande de Deus, que deve ser proclamada como uma marca de Deus que habita em nós”. (Santo Agostinho, De patientia, 1 (PL 40, 611). A paciência é um dos frutos do Espírito Santo enumerados por São Paulo em Gl 5, 22. Cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 736 e 1832.)
A paciência é, pois, uma caraterística do Deus da história da salvação (Alguns textos neotestamentários aludem à paciência de Deus: cf. 1 Pr 3, 20; 2 Pr 3, 9. 15; Rm 2, 4; Rm 3, 26; Rm 9, 22; Rm 15, 5; 1 Tm 1, 16.) como ensinava Bento XVI no início de seu pontificado: “Este é o diferencial de Deus: Ele é o amor. Quantas vezes desejaríamos que Deus se mostrasse mais forte! Que atuasse duramente, derrotasse o mal e criasse um mundo melhor. Todas as ideologias do poder se justificam assim, justificam a destruição do que se opusesse ao progresso e à libertação da humanidade. Nós sofremos pela paciência de Deus. E, não obstante, todos necessitamos da sua paciência. O Deus, que se fez cordeiro, disse-nos que o mundo se salva pelo Crucificado e não pelos crucificadores. O mundo é redimido pela paciência de Deus e destruído pela impaciência dos homens” . (Bento XVI, Homilia no solene início do ministério petrino, Roma, 24 de abril de 2005)
Muitas implicações práticas podem ser extraídas desta consideração. A paciência conduz a saber sofrer em silêncio, a suportar as contrariedades que emergem do cansaço, do caráter alheio, das injustiças, etc. A serenidade de ânimo torna possível que procuremos fazer-nos tudo para todos (Cf. 1Co 9, 22), acomodando-nos aos demais, levando connosco o nosso próprio ambiente, o ambiente de Cristo. Por isso mesmo o cristão procura não pôr em perigo a sua fé e a sua vocação por uma conceção equivocada da caridade, sabendo que – utilizando uma expressão coloquial – pode chegar-se até às portas do inferno, porém não entrar, porque ali não se pode amar a Deus. Deste modo, se cumprem as palavras de Jesus: «é pela vossa paciência que alcançareis a vossa salvação» (Lc 21, 19).

Pequena agenda do cristão

Sexta-Feira

PEQUENA AGENDA DO CRISTÃO

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Contenção; alguma privação; ser humilde.


Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.

Lembrar-me:
Filiação divina.

Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?




28/05/2020

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Magnificat anima mea Dominum!


Como seria o olhar alegre de Jesus! O mesmo que brilharia nos olhos de sua Mãe, que não pôde conter a alegria: "Magnificat anima mea Dominum!", a sua alma glorifica o Senhor, desde que O traz dentro de si e a seu lado. Ó Mãe!: que a nossa alegria seja como a tua, a de estar com Ele e de O possuir! (Sulco, 95)

A nossa fé não é uma carga, nem uma limitação. Que pobre ideia da verdade cristã manifestaria quem assim pensasse! Ao decidirmo-nos por Deus não perdemos nada; ganhamos tudo. Quem, à custa da sua alma, conserva a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por amor de Mim, voltará a achá-la .

Tirámos a carta que ganha, conseguimos o primeiro prémio. Quando alguma coisa nos impedir de ver isto com clareza, examinemos o interior da nossa alma. Talvez haja pouca fé, pouca intimidade pessoal com Deus, pouca vida de oração. Temos de pedir a Nosso Senhor - através de sua Mãe e nossa Mãe - que aumente em nós o seu amor, que nos conceda saborear a doçura da sua presença; porque só quando se ama se chega à mais plena liberdade: a de jamais querer abandonar, por toda a eternidade, o objecto dos nossos amores. (Amigos de Deus, 38)

SANTO ROSÁRIO rezar com São João Paulo II


Rezar com São João Paulo II: 

SANTO ROSÁRIO - Ladainha de Nossa Senhora

PAPA SÃO JOÃO PAULO II



Notas: 
1 - Em Latim
2 - Publicação diária durante Maio

Orações de Maio


AVE MARIA!


Assim te saudou Gabriel há dois mil anos na pacata aldeia de Nazaré.

Assim, também, expectantes na tua resposta, hoje te saúdam os teus filhos que vivemos no conturbado mundo de agora.

(AMA, meditação sobre a Ave Maria, 2010)

As minhas memórias de Fátima

Mãe, do lado direito

O que me liga a Fátima - bb

A minha querida Mãe foi das primeiras servitas de Fátima.

O primeiro registo fotográfico que possuo data de 13 Outubro de 1932.

A Minha Mãe, tinha vinte dois anos!



(AMA, Memórias de Fátima)

LEITURA ESPIRITUAL

COMENTANDO OS EVANGELHOS


São Marcos

Cap. VI




1 E partiu dali. Foi para a sua terra, e os discípulos seguiam-no. 2 Chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes enchiam-se de espanto e diziam: «De onde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada? Como se operam tão grandes milagres por suas mãos? 3 Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?» E isto parecia-lhes escandaloso. 4 Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e em sua casa.» 5 E não pôde fazer ali milagre algum. Apenas curou alguns enfermos, impondo-lhes as mãos. 6 Estava admirado com a falta de fé daquela gente. Jesus percorria as aldeias vizinhas a ensinar. 7 Chamou os Doze, começou a enviá-los dois a dois e deu-lhes poder sobre os espíritos malignos. 8 Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado: nem pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto; 9 que fossem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas. 10 E disse-lhes também: «Em qualquer casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali. 11 E se não fordes recebidos numa localidade, se os seus habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles.» 12 Eles partiram e pregavam o arrependimento, 13 expulsavam numerosos demónios, ungiam com óleo muitos doentes e curavam-nos. 14 O rei Herodes ouviu falar de Jesus, pois o seu nome se tornara célebre; e dizia-se: «Este é João Baptista, que ressuscitou de entre os mortos e, por isso, manifesta-se nele o poder de fazer milagres»; 15 outros diziam: «É Elias»; outros afirmavam: «É um profeta como um dos outros profetas.» 16 Mas Herodes, ouvindo isto, dizia: «É João, a quem eu degolei, que ressuscitou.» 17 Na verdade, tinha sido Herodes quem mandara prender João e pô-lo a ferros na prisão, por causa de Herodíade, mulher de Filipe, seu irmão, que ele desposara. 18 Porque João dizia a Herodes: «Não te é lícito ter contigo a mulher do teu irmão.» 19 Herodíade tinha-lhe rancor e queria dar-lhe a morte, mas não podia, 20 porque Herodes temia João e, sabendo que era homem justo e santo, protegia-o; quando o ouvia, ficava muito perplexo, mas escutava-o com agrado. 21 Mas chegou o dia oportuno, quando Herodes, pelo seu aniversário, ofereceu um banquete aos grandes da corte, aos oficiais e aos principais da Galileia. 22 Tendo entrado e dançado, a filha de Herodíade agradou a Herodes e aos convidados. O rei disse à jovem: «Pede-me o que quiseres e eu to darei.» 23 E acrescentou, jurando: «Dar-te-ei tudo o que me pedires, nem que seja metade do meu reino.» 24 Ela saiu e perguntou à mãe: «Que hei-de pedir?» A mãe respondeu: «A cabeça de João Baptista.» 25 Voltando a entrar apressadamente, fez o seu pedido ao rei, dizendo: «Quero que me dês imediatamente, num prato, a cabeça de João Baptista.» 26 O rei ficou desolado; mas, por causa do juramento e dos convidados, não quis recusar. 27 Sem demora, mandou um guarda com a ordem de trazer a cabeça de João. O guarda foi e decapitou-o na prisão; 28 depois, trouxe a cabeça num prato e entregou-a à jovem, que a deu à mãe. 29 Tendo conhecimento disto, os discípulos de João foram buscar o seu corpo e depositaram-no num sepulcro. 30 Os Apóstolos reuniram-se a Jesus e contaram-lhe tudo o que tinham feito e ensinado. 31 Disse-lhes, então: «Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto e descansai um pouco.» Porque eram tantos os que iam e vinham, que nem tinham tempo para comer. 32 Foram, pois, no barco, para um lugar isolado, sem mais ninguém. 33 Ao vê-los afastar, muitos perceberam para onde iam; e de todas as cidades acorreram, a pé, àquele lugar, e chegaram primeiro que eles. 34 Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, então, a ensinar-lhes muitas coisas. 35 A hora já ia muito adiantada, quando os discípulos se aproximaram e disseram: «O lugar é deserto e a hora vai adiantada. 36 Manda-os embora, para irem aos campos e aldeias comprar de comer.» 37 Jesus respondeu: «Dai-lhes vós mesmos de comer.» Eles disseram-lhe: «Vamos comprar duzentos denários de pão para lhes dar de comer?» 38 Mas Ele perguntou: «Quantos pães tendes? Ide ver.» Depois de se informarem, responderam: «Cinco pães e dois peixes.» 39 Ordenou-lhes que os mandassem sentar por grupos na erva verde. 40 E sentaram-se, por grupos de cem e cinquenta. 41 Jesus tomou, então, os cinco pães e os dois peixes e, erguendo os olhos ao céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e dava-os aos seus discípulos, para que eles os repartissem. Dividiu também os dois peixes por todos. 42 Comeram até ficarem saciados. 43 E havia ainda doze cestos com os bocados de pão e os restos de peixe. 44 Ora os que tinham comido daqueles pães eram cinco mil homens. 45 Jesus obrigou logo os seus discípulos a subirem para o barco e a irem à frente, para o outro lado, rumo a Betsaida, enquanto Ele próprio despedia a multidão. 46 Depois de os ter despedido, foi orar para o monte. 47 Era já noite, o barco estava no meio do mar e Ele sozinho em terra. 48 Vendo-os cansados de remar, porque o vento lhes era contrário, foi ter com eles de madrugada, andando sobre o mar; e fez menção de passar adiante. 49 Mas, vendo-o andar sobre o mar, julgaram que fosse um fantasma e começaram a gritar, 50 pois todos o viram e se assustaram. Mas Ele logo lhes falou: «Tranquilizai-vos, sou Eu: não temais!» 51 A seguir, subiu para o barco, para junto deles, e o vento amainou. E sentiram um enorme espanto, 52 pois ainda não tinham entendido o que se dera com os pães: tinham o coração endurecido. 53 Finda a travessia, aproximaram-se de Genesaré e aportaram. 54 Assim que saíram do barco, reconheceram-no. 55 Acorreram de toda aquela região e começaram a levar os doentes nos catres para o lugar onde sabiam que Ele se encontrava. 56 Nas aldeias, cidades ou campos, onde quer que entrasse, colocavam os doentes nas praças e rogavam-lhe que os deixasse tocar pelo menos as franjas das suas vestes. E quantos o tocavam ficavam curados.

Comentários:

1-6 -
Algumas pessoas têm por hábito – péssimo hábito – estabelecer como que valores e comportamentos a respeito dos outros. Filtram, medem, avaliam como investidos em “jurados” em julgamentos privados e públicos, como neste caso. Normalmente trata-se de gente que deseja estar sossegada “no seu cantinho”, não dando nas vistas, fazendo o mínimo que tem por obrigação fazer. Numa palavra, são pessoas egoístas, convencidas de uma importância própria e incapazes de reconhecer nos outros predicados, qualidades ou capacidades que excedam as que eles próprios julgam julgam possuir.
São Marcos diz expressamente que Jesus Se admirava com a incredulidade dos Seus conterrâneos, não obstante ter por certo que «um profeta não tem crédito na sua terra». As pessoas preconceituosas têm este costume reprovável: mais facilmente dão crédito a um estranho que a alguém conhecido! Porquê? Porque vêm nesse alguém incapaz de outra coisa que não seja a ideia que fazem dele: um carpinteiro, na sua opinião, só terá aptidões de carpinteiro...
É interessante verificar que a atitude de Herodes difere bastante da dos assistentes na sinagoga. Enquanto estes se “chocam” com as palavras de uma pessoa que conhecem desde sempre como alguém humilde e discreto, Herodes percebe que o discurso de Cristo contém bases e princípios que ele próprio se dera conta serem os mesmos de João Baptista. Daqui talvez se possa inferir que os preconceitos de uns os impedem de ver a verdade, já que outro, completamente despido de preconceitos ou escrúpulos não tem a mesma atitude.
A Sabedoria é um Dom do Espírito Santo e, por isso mesmo não tem que ver nem com a cultura ou o estatuto da pessoa a quem a concede. Este Dom traz consigo inúmeros outros dons e virtudes que convertem a pessoa em alguém excepcional, fora do comum. Salomão foi o que pediu e bem sabemos a grandeza que alcançou no governo de Israel: De todos os lados vinham pessoas de altíssima categoria só para o ouvir e presenciar as suas acções. Os conterrâneos de Jesus pura e simplesmente não aceitam que Jesus - como Ele próprio o dirá - seja maior que Salomão. Têm as mentes curtas, o juízo distorcido, o raciocínio embotado. Desta forma nem os numerosos milagres operados por Cristo os levam além dos seus preconceitos. Tal atitude é, pelo menos, desonesta.
Reconhecer a sabedoria de alguém quer dizer que há admiração e desejo de participar, ouvir, aprender. Não cabe, nem tem sentido admirar-se por ser esta ou aquela pessoa mas apenas aproveitar o ensejo para aprender.

7-13 -

São Marcos com o estilo preciso e detalhado que conhecemos, refere um pormenor que não concorda com São Mateus: o uso de sandálias por parte dos Apóstolos enviados em missão. Pode ser algo de importância menor mas, quanto a mim, não é. São Pedro que foi o "mentor " do Evangelista, é uma fonte absolutamente credível. Porque referirá este detalhe? Penso que Jesus quis que os Seus enviados se apresentassem com dignidade junto daqueles que os receberiam e, sobretudo naqueles tempos, o usar sandálias conferia essa dignidade. Sem luxos nem coisas supérfluas, mas com apresentação digna e cuidada. Assim nos quer o Senhor. 
Jesus envia os Seus discípulos dois a dois porque, tratando-se de uma primeira missão, melhor é estar acompanhado (duas cabeças pensam melhor que uma só) do que ter de tomar decisões sozinho. Além do mais, procura criar neles um sentido colegial, isto é, de partilha de tarefas e encargos, de responsabilidades e tarefas a desenvolver. Mais tarde, ver-se-á como é útil este “colégio de apóstolos” que, ainda hoje – na pessoa do Papa e os seus assistentes da cúria – tomam muitas das suas decisões em conjunto,  contribuindo cada um com o seu saber e conhecimentos e as qualidades particulares que uns terão, diferentes e mais próprias para tarefas específicas.

7-17 -
Fica aqui, neste texto de São Marcos, bem expressa a complexa – para dizer brevemente – personalidade de Herodes. A morte, por ele ordenada, do Baptista não o deixou indiferente. Ao mesmo tempo parece acreditar na ressurreição dos mortos. Toda a sua vida parece destinada a cruzar-se com o Salvador – logo desde o Seu Nascimento em Belém – numa espécie de mórbido temor pela sua pessoa e o seu estatuto de rei da Judeia. Já o dissemos, é um personagem sinistro que ficará célebre até ao final dos tempos, pelos piores e mais torpes actos.

10-14 -
Os primeiros Apóstolos – enviados por Cristo – partem numa primeira missão que se há-de repetir, sem descanso, até aos fins dos tempos. Vão anunciar algo grande, completamente novo e, talvez, inesperado: Um novo reino, o Reino de Deus que nunca mais terá fim. É o renascer da esperança naqueles povos que se sentiam perdidos, confusos, como «ovelhas sem pastor». Vai cumprir-se, finalmente, a promessa de Deus a Abraão a Isaac e Jacob e, o Criador enviará o Seu próprio Filho para salvar todos os homens e convertê-los em Seus filhos para sempre.

17-29 -
O Evangelista fala-nos de um personagem que ficou para sempre na história da humanidade como o paradigma do vício, da luxúria, dos piores defeitos que um ser humano pode ter, onde, avulta, o total e absoluto desprezo pela vida humana. Mas, o grave e horrendo problema, é que tem seguidores – também hoje em dia – que um pouco por todo o mundo espalham a sua maquiavélica acção, conspurcando a sociedade, violentando inocentes, sacrificando pessoas – populações inteiras – ao paroxismo que os domina. Muitos fazem-no abertamente, às claras, são notícia nos jornais e televisões, outros, actuam insidiosamente junto dos mais frágeis e desprotegidos, tornando-os escravos das suas ideias, teorias e práticas aberrantes em todos os sentidos.
Talvez que esta seja uma das páginas mais tristes do Evangelho, diria mesmo, macabras. Todo o contexto relatado com detalhe por São Marcos, deixa-nos um sentimento de repulsa que dificilmente podemos evitar. O personagem sinistro de Herodes, é o paradigma dos piores defeitos que o homem pode ter, desde a luxúria desenfreada, ao desprezo pela vida humana, ao orgulho, à mentira, à venalidade exacerbada. Que conste: Em todo o Evangelho, não consta outra pessoa a quem Jesus Cristo Se recusou a responder.
A promessa de Herodes e, mais, o cumprimento da mesma, está de acordo com o que deveria pensar sobre a dignidade da pessoa humana. Como Herodes, quem não se vê senão a si próprio, quem se entrega à auto-estima, ao culto da personalidade à defesa, a todo o custo, da própria pessoa e posição, não tem, pelos outros, a menor consideração. Os limites do seu critério são os próprios de uma mentalidade egoísta e de contornos definidos pelas paixões e prazeres. De uma pessoa assim pode esperar-se tudo, menos misericórdia, compreensão, amor. Mas também não se pode esperar que haja quem se apiede deles, os compreenda, os ame.
Este sinistro personagem – Herodes - ficou para sempre como paradigma da devassidão e absoluto desprezo pela vida humana. Não nos interessa falar sobre Herodes, nem eu consigo vencer a repulsa que me causa. Interessa sim falar do verdadeiro protagonista deste trecho que o Evangelista nos propõe: O Percussor! Este homem simples, austero e obediente não se deixa mover seja pelo que for, ou por quem quer que seja, em defesa da verdade. Deu a sua própria vida para servir a verdade, ele que foi o percursor da Própria Verdade, Jesus Cristo. Homem admirável de um carácter a toda a prova, um exemplo de coerência, humildade e entrega à missão que Deus lhe confiou.
Com a morte de João Baptista, podemos dizer que se encerra - definitivamente – o Antigo Testamento. Este “encerramento” que, simultâneamente é o começo do Novo Testamento, está marcado de forma sangrenta, de uma violência inaudita, por um desprezo absoluto da dignidade da vida humana. Também o começo do Reino de Deus é assim assinalado com o Sacrifício Supremo a que O Redentor Se submete na Cruz no Calvário. Não admira pois, que ao longo dos tempos – até aos dias de hoje – se sucedam os Mártires da Fé que regam com o seu sangue este Reino de Deus. Parece um pouco contraditório que um Reino de Amor tenha de ser alimentado com o sacrifício e o sangue de tantos e tantas  mas, a verdade, é que o ódio sempre há-de existir mas, no fim, o amor triunfará. Assim o afirmou Jesus Cristo e, como Ele é a Verdade, é no que firmemente que acreditamos.

30-34 -
A solicitude do Senhor pelos que O seguem e, sobretudo os que trabalham para a expansão do Reino de Deus, fica aqui bem patente. É verdade, o trabalho apostólico intenso e dedicado cansa porque exige esforço e entrega. O descanso é pois merecido e necessário para recuperar forças e ânimo necessários para que seja contínuo e eficaz.

A nossa missão como cristãos é levar ao Pastor Divino todas essas ovelhas que andam pela vida perdidas ou sem norte. Muitas sabem muito bem o que têm a fazer para se incorporarem no rebanho ou para regressarem ao redil, mas, os respeitos humanos, a indecisão, a tibieza, o aburguesamento impede-nos e tolhe-nos. Outras, pura e simplesmente ignoram que existe um Pastor que anseia por os reunir no Seu rebanho para lhes dar abrigo e ensinar o caminho para as pastagens mais verdejantes e suculentas. A uns e a outros temos de ir, com urgência porque o tempo foge e levar-lhes doutrina segura, simples, mas concreta que é fundamental para se decidirem.
O trabalho apostólico não deve conhecer nem pausas nem descanso. São tantos os que precisam e tão poucos os que podem satisfazê-los. Esta situação inverter-se-ia se cada cristão cumprisse o Mandato de Cristo de evangelizar, levar o Seu Nome a todos os homens em lugares da terra. Pensemos, cada um de nós, nesta verdade e examinemos como procedemos.
Este trecho de São Marcos termina exactamente antes do grandioso milagre da multiplicação dos peixes e dos pães. Estas «ovelhas sem pastor», como o Senhor lhes chama, andam como que à deriva seguindo este e aquele que de vez em quando lhes aparece com ideias e soluções que não têm nem consistência nem verdade e, por isso mesmo, a partir do momento em que ouvem Jesus seguem-No sem hesitar porque reconhecem que as Suas palavras, jamais ouvidas, a Sua doutrina nunca escutada, é o que de facto lhes convém, orienta e dá esperança. Seria impossível escrever todos os discursos que o Senhor terá feito – não caberiam no mundo todos os livros que seria preciso escrever, comenta São João – e, a verdade, é que as palavras sempre repetidas não cansam quem as ouve, antes esperam com avidez por mais e mais. E, O Senhor, não se faz rogado e incansavelmente segue o Seu caminho sem se deter nem para descansar.
«Ovelhas sem pastor...». E nos dias de hoje quantas haverá? E quantas se deixam seduzir por falsos pastores que prometem o que não podem e oferecem o que não têm, explorando incautos e simples. E nós, cristãos que constatamos tudo isto o que fazemos? Se não podemos lutar activamente - somos pessoas de paz -, podemos rezar, aliás, devemos rezar pedindo ao Senhor que pode tudo, que ilumine e ao Espírito Santo que esclareça sobretudo com os Seus Dons de Entendimento e Conselho, todos esses que, como nós, são filhos de Deus.
O que Jesus vê naquela enorme multidão são «ovelhas sem pastor», pessoas de várias origens, homens e mulheres, todos em busca de alguém que lhes fale verdade, que os ensine, que os conduza por caminho seguro. De facto, a enorme confusão e rivalidade entre os que tinham por missão guiar, conduzir o povo nada mais fizera até então que sobrecarregá-lo com minuciosas interpretações da Lei que mudavam a cada passo consoante interesses e visões particulares ou de classe. O extraordinário milagre que o Senhor opera, deixará em todos uma certeza: vale a pena seguir este Homem, ouvi-lo e aceitar a Sua doutrina. A sua fome e sede de justiça são, de forma simbólica, saciadas pelo portentoso milagre. Podemos concluir que ninguém que participou naquela refeição gratuita, abundante, milagrosa esquecerá Aquele que lha proporcionou.
Os Evangelhos escritos por insignes Apóstolos inspirados pelo Espirito Santo, apresentaram-nos, cada um no seu estilo próprio, cenas e factos de inolvidável grandeza e, sobretudo, sinceridade. Isto é, não escondem de modo algum as fragilidades e – até – defeitos dos Apóstolos de Cristo. Neste texto de São Marcos podemos notar sem esforço uma fina ironia que demonstra bem isso mesmo e, mais, a intimidade que tinham com Jesus. É exactamente ao que me refiro na passagem «Vamos comprar duzentos denários de pão para lhes dar de comer?». Ora, duzentos denários corresponderiam à paga diária de 200 trabalhadores sendo eles - os Apóstolos 12 - quer dizer que cada um receberia, pelo menos 17 vezes mais por dia! Lembramos ainda que Pedro nem sequer tinha um estáter – uma pequeníssima quantia – para pagar o imposto. Donde que é lógico concluir que os Amigos de Jesus – porque o eram de facto – Lhe fazem notar a a Sua proposta: «Dai-lhes vós mesmos de comer». Como se Lhe dissessem: Estás a brincar connosco… não Te dás conta do disparate que propões… Evidentemente, Jesus não Se ofende, e a Sua “proposta” esconde a solução, como se de facto, dissesse: ‘Como vedes, vós não podeis nada mas, Eu, posso tudo’ e, o milagroso portento acontece - também – para confirmar na Fé Na Sua Pessoa dos Seus amigos mais íntimos.

45-52 -
Na sequência dos versículos anteriores, São Marcos quer referir algo que, neste Evangelista, é muito comum: a fragilidade dos discípulos de Jesus. Naturalmente que o faz por inspiração do Espírito Santo – sem qualquer dúvida – mas, talvez também por influência de São Pedro de quem recolhe a maior parte do que escreve. Deseja que fique bem patente a sua fé ainda débil, a sua humanidade fraca e volúvel, enfim, que embora seguissem Jesus estavam ainda muito longe de compreender totalmente Aquele a Quem seguiam. De tal forma a humildade do Evangelista é patente que refere expressamente «ainda não tinham entendido o que se dera com os pães: tinham o coração endurecido».

53-56 -
Os doentes, as pessoas que padecem de qualquer mal físico, acorrem a Jesus para obter cura para os seus males. Anseiam por tocar-Lhe - fisicamente se possível - mas sabem que bastará a Sua presença para obterem o que procuram. Quando a nossa alma está "doente" também sabemos que bastará recorrer ao sacerdote em quem delegou o Seu poder para que recuperamos a relação que rompemos com o pecado consentido. E a alegria que sentimos é em tudo semelhante à que sentiriam aqueles que a Ele recorriam como relata o Evangelista.
A nossa imaginação fica-se curta ao desejar ter uma ideia do que seria a passagem de Jesus por entre as pessoas deitadas nos seus catres de dor e sofrimento. Tocar as franjas das Suas vestes era o suficiente para a cura dos seus males? Parece-me que, aqui, faltará algo que intuímos: quem Lhe tocava fazia-o com a fé e a esperança da cura. O que seria a vida futura destes homens e mulheres curados por Jesus nestas circunstâncias? Seguramente nunca mais esqueceriam aquela Figura de Cristo que Passa, sempre, onde é necessária a Sua presença. Olhemos para esse Senhor que Passa nas nossas vidas, uma e outra vez, e digamos-Lhe com toda a nossa alma: ‘Senhor… eu creio em Vós! Aumenta a minha fé!’.
O Senhor continua passar por nós nos caminhos da vida. Podemos não O ver fisicamente mas sabemos, pela Fé, que Ele está ali. Não podemos tocar as Suas vestes mas podemos “tocar” o Seu Coração amantíssimo com um breve pensamento, uma invocação, uma jaculatória. Ah! E podemos dizer-Lhe no segredo do nosso coração: ‘Senhor, preciso disto e daquilo, trata esta minha ferida, cura este meu mal, atende o meu pedido, aumenta a minha Fé.




Temas para meditar e reflectir

Começar e recomeçar

É de facto assim a vida de um cristão: começar e recomeçar.

Se por qualquer motivo se interrompe o plano de vida parece que nos falta algo insubstituível.

É fundamental combater este sentimento que pode levar ao derrotismo e inacção.

(se não posso fazer o que estava programado então, acabou-se, não faço nada!)

Não se pense que exagero! Não! Tenho experiência recente disto mesmo.

Claro que o plano de vida é de suma importância mas tem se ser adaptável às diversas circunstâncias, flexível suficientemente para na impossibilidade de o cumprir integralmente não se desmorone todo o edifício espiritual que fomos construindo.

Se assim não for então o plano de vida não passará de uma espécie de calendário formal e estático.

Aliás, se verificamos que o seu cumprimento não exige esforço ou empenho da nossa parte será melhor rever esse plano de vida e adaptá-lo, talvez colocando a 'fasquia' num patamar mais elevado que exija mais esforço e dedicação pessoais.

AMA, 20.05.2019

Pequena agenda do cristão

Quinta-Feira

PEQUENA AGENDA DO CRISTÃO

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Participar na Santa Missa.


Senhor, vendo-me tal como sou, nada, absolutamente, tenho esta percepção da grandeza que me está reservada dentro de momentos: Receber o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do Rei e Senhor do Universo.
O meu coração palpita de alegria, confiança e amor. Alegria por ser convidado, confiança em que saberei esforçar-me por merecer o convite e amor sem limites pela caridade que me fazes. Aqui me tens, tal como sou e não como gostaria e deveria ser.
Não sou digno, não sou digno, não sou digno! Sei porém, que a uma palavra Tua a minha dignidade de filho e irmão me dará o direito a receber-te tal como Tu mesmo quiseste que fosse. Aqui me tens, Senhor. Convidaste-me e eu vim.


Lembrar-me:
Comunhões espirituais.


Senhor, eu quisera receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe, com o espírito e fervor dos Santos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





27/05/2020

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