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29/05/2020

Virtudes 6


Fortaleza 6

In patientia vestra possidebitis animas vestras (Lc 21,19)
Parte da fortaleza é a virtude da paciência, que Joseph Ratzinger descreveu como “a forma quotidiana do amor”. (Citado por G. Valente, Ratzinger Professore. Gli anni dello studio e dell’insegnamento nel ricordo dei colleghi e degli allievi (1946-1977). São Paulo, Cinisello Balsamo (Milão) 2008, p. 11). A razão pela qual o cristianismo deu tradicionalmente a essa virtude uma importância notável pode deduzir-se de umas palavras de Santo Agostinho no seu tratado sobre a paciência, que descreve como “um dom tão grande de Deus, que deve ser proclamada como uma marca de Deus que habita em nós”. (Santo Agostinho, De patientia, 1 (PL 40, 611). A paciência é um dos frutos do Espírito Santo enumerados por São Paulo em Gl 5, 22. Cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 736 e 1832.)
A paciência é, pois, uma caraterística do Deus da história da salvação (Alguns textos neotestamentários aludem à paciência de Deus: cf. 1 Pr 3, 20; 2 Pr 3, 9. 15; Rm 2, 4; Rm 3, 26; Rm 9, 22; Rm 15, 5; 1 Tm 1, 16.) como ensinava Bento XVI no início de seu pontificado: “Este é o diferencial de Deus: Ele é o amor. Quantas vezes desejaríamos que Deus se mostrasse mais forte! Que atuasse duramente, derrotasse o mal e criasse um mundo melhor. Todas as ideologias do poder se justificam assim, justificam a destruição do que se opusesse ao progresso e à libertação da humanidade. Nós sofremos pela paciência de Deus. E, não obstante, todos necessitamos da sua paciência. O Deus, que se fez cordeiro, disse-nos que o mundo se salva pelo Crucificado e não pelos crucificadores. O mundo é redimido pela paciência de Deus e destruído pela impaciência dos homens” . (Bento XVI, Homilia no solene início do ministério petrino, Roma, 24 de abril de 2005)
Muitas implicações práticas podem ser extraídas desta consideração. A paciência conduz a saber sofrer em silêncio, a suportar as contrariedades que emergem do cansaço, do caráter alheio, das injustiças, etc. A serenidade de ânimo torna possível que procuremos fazer-nos tudo para todos (Cf. 1Co 9, 22), acomodando-nos aos demais, levando connosco o nosso próprio ambiente, o ambiente de Cristo. Por isso mesmo o cristão procura não pôr em perigo a sua fé e a sua vocação por uma conceção equivocada da caridade, sabendo que – utilizando uma expressão coloquial – pode chegar-se até às portas do inferno, porém não entrar, porque ali não se pode amar a Deus. Deste modo, se cumprem as palavras de Jesus: «é pela vossa paciência que alcançareis a vossa salvação» (Lc 21, 19).

22/05/2020

Virtudes 5


Fortaleza 5

Omnia sustineo propter electos (2Tm 2, 10)
A Virgem dolorosa é testemunha fiel do Amor de Deus, e ilustra muito bem o acto mais típico da virtude da fortaleza, que consiste em resistir (sustinere) (Cf. Ángel Rodriguez Luño, Scelti in Cristo per essere santi. III. Morale speciale, EDUSC, Roma 2008, p. 291) ao desfavorável, ao desagradável, ao doloroso. É um perseverar no bem, porque sem o bem não há felicidade. Para o cristão a felicidade identifica-se com a contemplação da Trindade no céu.
Em Santa Maria cumprem-se as palavras do Salmo: si consistant adversum me castra, non timebit cor meum… se todo um exército se virar contra mim, o meu coração não temerá. (Sl 26, 3) Também São Paulo, antes de chegar ao supremo testemunho de Cristo, se exercitou durante a sua vida neste ato característico da fortaleza, até poder afirmar: “pelo que tudo suporto por amor dos escolhidos”. (2 Tm 2, 10)
Para revelar este aspeto da virtude (a resistência), a Sagrada Escritura costuma referir-se à imagem da rocha. Jesus , numa das suas parábolas alude à necessidade de construir sobre a rocha, ou seja, não só escutar a palavra, mas esforçar-se por pô-la em prática. (Cf. Lc 6, 47-49) Entende-se que, em última análise, a rocha é Deus, como não cessa de repetir o Antigo Testamento (Cf. 1 Sm 2, 2; 2 Sm 22, 47; Dt 32, 4; Hab 1, 12; Is 26, 4; Sl 27, 1; Sl 30, 3-4; Sl 61, 3.7-8; Sl 94,22; Sl 144, 1; etc): “Minha rocha e meu baluarte, meu libertador, meu Deus, o rochedo em que me amparo, meu escudo, força de minha salvação”. (2 Sm 22, 2-3; cf. Sl 18, 3) Não surpreende então que São Paulo chegue a afirmar que a rocha é o próprio Cristo, (1Cor 10, 4) o qual é “força de Deus”. (1 Cor 1, 24)
Para resistir nas dificuldades a fortaleza provém, pois, da união com Cristo pela fé, como indica São Pedro: resistite fortes in fide!, resisti-lhe fortes na fé. (1 Pd 5, 9) Deste modo, pode dizer-se que o cristão se converte, como Pedro, na rocha em que Cristo se apoia para construir e sustentar a sua Igreja. (Cf. Mt 16, 18)

15/05/2020

Virtudes 4


Fortaleza 4

Beata quae sine morte meruit martyrii palmam: o martírio da vida quotidiana.

Desde o começo os cristãos consideraram uma honra sofrer o martírio, pois reconheciam que os levavam a uma plena identificação com Cristo. A Igreja manteve ao longo da história uma tradição de particular veneração pelos mártires, que por especial disposição da Providência derramaram o seu sangue para proclamar a sua adesão a Jesus, oferecendo assim o maior exemplo não só de fortaleza, mas também de testemunho cristão. (Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2473. Como se sabe, a palavra latina martyr deriva do grego mártys, que significa testemunha)
Mesmo que não tenham faltado em cada época histórica, incluída a nossa, essas testemunhas do Evangelho, o facto é que na vida corrente em que a maior parte dos cristãos se encontra, dificilmente chegaremos a essas condições. Não obstante, como recordava Bento XVI, há também um “martírio da vida quotidiana”, de cujo testemunho o mundo de hoje está especialmente necessitado: “o testemunho silencioso e heróico de tantos cristãos que vivem o Evangelho sem compromissos, cumprindo o seu dever e dedicando-se generosamente ao serviço aos pobres”. (Bento XVI, Angelus, 28 de outubro de 2007. (São Josemaria descrevia este martírio incruento em Caminho, n. 848) Neste sentido, o olhar dirige-se a Santa Maria, pois Ela esteve ao pé da Cruz de seu Filho, dando exemplo de extraordinária fortaleza sem padecer a morte física, de modo que pode dizer-se que foi mártir sem morrer, segundo o teor de uma antiga oração litúrgica. (“Bem-aventurada a Virgem Maria, que mereceu sem morrer a palma do martírio ao pé da Cruz do Senhor”. Trata-se da Communio da festa da Virgem Dolorosa no antigo Missal de São Pio V, que, com um leve retoque, passou a ser, na forma corrente do rito latino, a antífona do aleluia do capítulo n. 11 do Ordinário da Santíssima Virgem: “Beata est Maria Virgo, quae sine morte meruit martyrii palmam sub cruce Domini” (cf. Pedro Rodríguez, n. 622 de Camino, edição crítico-histórica, Rialp, Madrid 2004) “Admira a firmeza de Santa Maria: ao pé da cruz, com a maior dor humana – não há dor como a sua dor -, cheia de fortaleza.- E pede-lhe essa firmeza, para que saibas também estar junto da Cruz. ((São Josemaria, Caminho, n. 508)