11/04/2019

Leitura espiritual


EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL
AMORIS LÆTITIA
DO SANTO PADRE
FRANCISCO
AOS BISPOS AOS PRESBÍTEROS E AOS DIÁCONOS
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS AOS ESPOSOS CRISTÃOS E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS SOBRE O AMOR NA FAMÍLIA 


CAPÍTULO VIII

ACOMPANHAR, DISCERNIR E INTEGRAR A FRAGILIDADE.

A gradualidade na pastoral.

Os Padres consideraram também a situação particular de um matrimónio apenas civil ou mesmo, ressalvadas as distâncias, da mera convivência: «quando a união atinge uma notável estabilidade através dum vínculo público e se caracteriza por um afecto profundo, responsabilidade para com a prole, capacidade de superar as provas, pode ser vista como uma ocasião a acompanhar na sua evolução para o sacramento do matrimónio».[i]

Além disso, é preocupante que hoje muitos jovens não tenham confiança no matrimónio e convivam adiando indefinidamente o compromisso conjugal, enquanto outros põem termo ao compromisso assumido e imediatamente instauram um novo. Aqueles « que fazem parte da Igreja, precisam duma atenção pastoral misericordiosa e encorajadora».

Com efeito, aos pastores compete não só a promoção do matrimónio cristão, mas também «o discernimento pastoral das situações de muitas pessoas que deixaram de viver esta realidade», para «entrar em diálogo pastoral com elas a fim de evidenciar os elementos da sua vida que possam levar a uma maior abertura ao Evangelho do matrimónio na sua plenitude».

No discernimento pastoral, convém «identificar elementos que possam favorecer a evangelização e o crescimento humano e espiritual».

«Muitas vezes a escolha do matrimónio civil ou, em diversos casos, da simples convivência não é motivada por preconceitos ou relutância face à união sacramental, mas por situações culturais ou contingentes».

Nestas situações, poderão ser valorizados aqueles sinais de amor que reflectem de algum modo o amor de Deus.[ii]

Sabemos que «está em contínuo crescimento o número daqueles que, depois de terem vivido juntos longo tempo, pedem a celebração do matrimónio na Igreja. Muitas vezes, escolhe-se a simples convivência por causa da mentalidade geral contrária às instituições e aos compromissos definitivos, mas também porque se espera adquirir maior segurança existencial (emprego e salário fixo). Noutros países, por último, as uniões de facto são muito numerosas, não só pela rejeição dos valores da família e do matrimónio, mas sobretudo pelo facto de a cerimónia do casamento ser sentida como um luxo, pelas condições sociais, de modo que a miséria material impele a viver uniões de facto».

Mas «é preciso enfrentar todas estas situações de forma construtiva, procurando transformá-las em oportunidades de caminho para a plenitude do matrimónio e da família à luz do Evangelho. Trata-se de acolhê-las e acompanhá-las com paciência e delicadeza».

Foi o que Jesus fez com a Samaritana[iii]: dirigiu uma palavra ao seu desejo de amor verdadeiro, para a libertar de tudo o que obscurecia a sua vida e guiá-la para a alegria plena do Evangelho.

Nesta linha, São João Paulo II propunha a chamada «lei da gradualidade», ciente de que o ser humano «conhece, ama e cumpre o bem moral segundo diversas etapas de crescimento».[iv]

Não é uma «gradualidade da lei», mas uma gradualidade no exercício prudencial dos actos livres em sujeitos que não estão em condições de compreender, apreciar ou praticar plenamente as exigências objectivas da lei. Com efeito, também a lei é dom de Deus, que indica o caminho; um dom para todos sem excepção, que se pode viver com a força da graça, embora cada ser humano «avance gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus e das exigências do seu amor definitivo e absoluto em toda a vida pessoal e social».

O discernimento das situações chamadas «irregulares».

O Sínodo referiu-se a diferentes situações de fragilidade ou imperfeição. A este respeito, quero lembrar aqui uma coisa que pretendi propor, com clareza, a toda a Igreja para não nos equivocarmos no caminho: «Duas lógicas percorrem toda a história da Igreja: marginalizar e reintegrar. (...) O caminho da Igreja, desde o Concílio de Jerusalém em diante, é sempre o de Jesus: o caminho da misericórdia e da integração. (...) O caminho da Igreja é o de não condenar eternamente ninguém; derramar a misericórdia de Deus sobre todas as pessoas que a pedem com coração sincero (...). Porque a caridade verdadeira é sempre imerecida, incondicional e gratuita».[v]

Por isso, «temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações e é necessário estar atentos ao modo em que as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição». Trata-se de integrar a todos, deve-se ajudar cada um a encontrar a sua própria maneira de participar na comunidade eclesial, para que se sinta objecto duma misericórdia «imerecida, incondicional e gratuita». Ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho! Não me refiro só aos divorciados que vivem numa nova união, mas a todos seja qual for a situação em que se encontrem. Obviamente, se alguém ostenta um pecado objectivo como se fizesse parte do ideal cristão ou quer impor algo diferente do que a Igreja ensina, não pode pretender dar catequese ou pregar e, neste sentido, há algo que o separa da comunidade[vi]. Precisa de voltar a ouvir o anúncio do Evangelho e o convite à conversão. Mas, mesmo para esta pessoa, pode haver alguma maneira de participar na vida da comunidade, quer em tarefas sociais, quer em reuniões de oração, quer na forma que lhe possa sugerir a sua própria inicia- iva discernida juntamente com o pastor[vii].

(cont)

(revisão da versão portuguesa por AMA)


[i] Ibid., 28. 314 Cf. ibid., 41.43; Relatio Finalis 2015, 70.
[ii] 315 Relatio Synodi 2014, 27. 316 Ibid., 26. 317 Ibid., 41. 318 Ibidem. 319 Relatio Finalis 2015, 71.
[iii] (cf. Jo 4, 1-26)
[iv] Cf. ibidem. 321 Relatio Synodi 2014, 42. 322 Ibid., 43.
[v] Exort. ap. Familiaris consortio (22 de Novembro de 1981), 34: AAS 74 (1982), 123. 324 Ibid., 9: o. c., 90. 325 Cf. Francisco, Catequese (24 de Junho de 2015): L’Osservatore Romano (ed. semanal portuguesa de 25/VI/2015), 12.
[vi] (cf. Mt 18, 17)
[vii] Idem, Homilia na Eucaristia celebrada com os novos Cardeais

10/04/2019

Evangelho e comentário



TEMPO DA QUARESMA




Evangelho: Jo 8, 31-42

31 Dizia então Jesus aos Judeus que n’Ele tinham acreditado: Se permanecerdes na Minha palavra, sereis verdadeiramente Meus discípulos, 32 conhecereis a verdade, e a verdade libertar-vos-á. 33 Eles responderam-Lhe: Nós somos da descendência de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém; como é Tu dizes: «ficareis livres»? 34 Retorquiu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Todo aquele que comete o pecado é escravo do pecado, 35 Ora o escravo não fica na casa para sempre; o filho é que fica para sempre. 36 Portanto, se o Filho vos libertar, sereis realmente livres. 37 Eu sei que sois a descendência de Abraão, mas vós procurais matar-Me, porque a Minha palavra não tem cabimento em vós. 38 Eu digo o que vi junto do Pai, e vós fazeis o que ouvistes ao vosso pai. 39 Retorquiram-Lhe eles: O nosso pai é Abraão! Se fosseis filhos de Abraão – disse-lhes Jesus – faríeis as obras de Abraão. 40 Mas vós procurais matar-Me, a Mim que vos disse a verdade que ouvi a Deus! Isso não fez Abraão! 41 Vós fazeis as obras do vosso pai. Disseram-Lhe eles: Nós não nascemos da prostituição; só temos um Pai, que é Deus! 42 Disse-lhes Jesus: Se Deus fosse o vosso Pai, vós amar-me-íeis, pois de Deus é que Eu saí e venho. É que eu não vim de Mim próprio, mas foi Ele que Me enviou.

Comentário:

Esta discussão que o Evangelista relata parece não ter solução.

Os interlocutores de Jesus parecem não ouvir – e de facto não ouvem – quanto o Senhor diz sobre Si próprio e Deus Seu Pai.

Explica-lhes que Abraão também é filho de Deus e, se assim o admitirem, não poderão negar que são, eles próprios filhos de Deus.

Este tipo de discussões – estéreis e sem conclusão – são as preferidas pelo inimigos de Jesus porque bastaria admitirem uma só das Suas afirmações para verem irremediavelmente comprometida a sua própria doutrina em que, por sua exclusiva conveniência, se fecham e refugiam.

(AMA, comentário sobre Jo 8, 31-42, 17.01.2019)

Temas para reflectir e meditar


Inquirição íntima

Quero o que não desejo, desejo mas não me apetece. Agora… Talvez mais tarde…Não sei bem quando…

Tudo gira à volta de mim, do que quero, do que desejo do que me apetece…

E, evidentemente, isto é muito pouco porque quem sou eu? Um super-homem? Um santo de altar?

Detenho-me um pouco neste frenesim de me escalpelizar tentando descobrir o que há de bom em mim e o que existe de muito mau e não chego a uma conclusão que me satisfaça.

Já sei: peço perdão e… pronto… sigo em frente e, o Senhor que me conhece melhor que eu mesmo me conheço diz-me, invariavelmente:
‘Deixa-te de subterfúgios… faz o que tens a fazer e acabou-se!
Talvez que este final seja dito num tom um pouco “farto”, cansado de desculpas e justificações que não justificam nem desculpam nada.
Talvez…

Mas, se assim for, Ele tem razão como sempre tem, de resto, porque eu, pobre de mim, não passo de um projecto de santidade adiada todos os dias por um sem número de razões – que não são razão nenhuma – que vou inventando e construindo com uma facilidade que “esperteza” que me espanta: propósitos… sim, compromissos… não!

Na “minha” entrega que desejo total, completa, sem intervalos, falta - sei – esse querer que é só a vontade que manda de: Ou é assim ou, então, não vale a pena!

Senhor, pergunto talvez com excessiva familiaridade: ‘Achas que vale a pena?’

Oiço-te:

‘António, meu filho, eu conheço-te, sei como és e de “massa” és feito.
É importante que não te enganes nem te deixes ir atrás dos teus devaneios, mas, o mais importante, meu filho, é que não tentes – nunca – enganar-me a Mim’.

AMA reflexão, 13.10.2018




As almas santas têm que ser felizes


Contava-te que até pessoas que não receberam o baptismo, me disseram comovidas: "É verdade, eu compreendo que as almas santas têm que ser felizes, porque olham os acontecimentos com uma visão que está por cima das coisas da terra, porque vêem as coisas com olhos de eternidade". – Oxalá não te falte esta visão! – acrescentei depois –, para que sejas consequente com o tratamento de predilecção que recebeste da Trindade. (Forja, 1017)


Asseguro-te que, se nós, os filhos de Deus, quisermos, contribuiremos poderosamente para iluminar o trabalho e a vida dos homens, com o resplendor divino – eterno! – que o Senhor quis depositar nas nossas almas.
– Mas "quem diz que mora em Jesus, deve seguir o caminho que Ele seguiu", como ensina S. João: caminho que conduz sempre à glória, passando – sempre também – através do sacrifício. (Forja, 1018)

– Meu Senhor Jesus: faz com que sinta, que secunde de tal modo a tua graça, que esvazie o meu coração..., para que o enchas Tu, meu Amigo, meu Irmão, meu Rei, meu Deus, meu Amor! (Forja, 913)

Pequena agenda do cristão

Quarta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?









Leitura espiritual


EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL
AMORIS LÆTITIA
DO SANTO PADRE
FRANCISCO
AOS BISPOS AOS PRESBÍTEROS E AOS DIÁCONOS
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS AOS ESPOSOS CRISTÃOS E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS SOBRE O AMOR NA FAMÍLIA 

CAPÍTULO VII

REFORÇAR A EDUCAÇÃO DOS FILHOS.


Transmitir a fé.

A educação dos filhos deve estar marcada por um percurso de transmissão da fé, que se vê dificultado pelo estilo de vida actual, pelos horários de trabalho, pela complexidade do mundo actual, onde muitos têm um ritmo frenético para poder sobreviver.

Apesar disso, a família deve continuar a ser lugar onde se ensina a perceber as razões e a beleza da fé, a rezar e a servir o próximo. Isto começa no baptismo, onde – como dizia Santo Agostinho – as mães que levam os seus filhos «cooperam no parto santo».

Depois tem início o percurso de crescimento desta vida nova. A fé é dom de Deus, recebido no baptismo, e não o resultado duma acção humana; mas os pais são instrumentos de Deus para a sua maturação e desenvolvimento. Por isso, «é bonito quando as mães ensinam os filhos pequenos a enviar um beijo a Jesus ou a Nossa Senhora. Quanta ternura há nisto! Naquele momento, o coração das crianças transforma-se em lugar de oração».

A transmissão da fé pressupõe que os pais vivam a experiência real de confiar em Deus, de O procurar, de precisar d’Ele, porque só assim «cada geração contará à seguinte o louvor das obras [de Deus] e todos proclamarão as [Suas] proezas» [i] e «o pai dará a conhecer aos seus filhos a [Sua] fidelidade»[ii].

Isto requer que imploremos a acção de Deus nos corações, aonde não podemos chegar. O grão de mostarda, semente tão pequenina, transforma-se num [iii] grande arbusto, [iv] e, deste modo, reconhecemos a desproporção entre a acção e o seu efeito. Sabemos, assim, que não somos proprietários do dom, mas seus solícitos administradores. Entretanto o nosso esforço criativo é uma oferta que nos permite colaborar com a iniciativa divina. Por isso, «tenha-se o cuidado de valorizar os casais, as mães e os pais, como sujeitos activos da catequese (...).
De grande ajuda é a catequese familiar, enquanto método eficaz para formar os pais jovens e torná-los conscientes da sua missão como evangelizadores da sua própria família».

A educação na fé sabe adaptar-se a cada filho, porque os recursos aprendidos ou as receitas às vezes não funcionam. As crianças precisam de símbolos, gestos, narrações. Os adolescentes habitualmente entram em crise com a autoridade e com as normas, pelo que é conveniente estimular as suas experiências pessoais de fé e oferecer-lhes testemunhos luminosos que se imponham simplesmente pela sua beleza. Os pais, que querem acompanhar a fé dos seus filhos, estão atentos às suas mudanças, porque sabem que a experiência espiritual não se impõe, mas propõe-se à sua liberdade. É fundamental que os filhos vejam de maneira concreta que, para os seus pais, a oração é realmente importante. Por isso, os momentos de oração em família e as expressões da piedade popular podem ter mais força evangelizadora do que todas as catequeses e todos os discursos. Quero exprimir a minha gratidão de forma especial a todas as mães que rezam incessantemente, como fazia Santa Mónica, pelos filhos que se afastaram de Cristo.[v]

 O exercício de transmitir aos filhos a fé, no sentido de facilitar a sua expressão e crescimento, permite que a família se torne evangelizadora e, espontaneamente, comece a transmiti-la a todos os que se aproximam dela e mesmo fora do próprio ambiente familiar. Os filhos que crescem em famílias missionárias, frequentemente tornam-se missionários, se os pais sabem viver esta tarefa duma maneira tal que os outros os sintam vizinhos e amigos, de tal modo que os filhos cresçam neste estilo de relação com o mundo, sem renunciar à sua fé nem às suas convicções. Lembremo-nos que o próprio Jesus comia e bebia com os pecadores[vi], podia deter-se a conversar com a Samaritana)[vii] e receber de noite Nicodemos[viii], deixava ungir os seus pés por uma mulher prostituta [ix] e não hesitava em tocar os doentes[x].

E o mesmo faziam os seus apóstolos, que não eram pessoas desprezadoras dos outros, fechadas em pequenos grupos de eleitos, isoladas da vida do seu povo. Enquanto as autoridades os perseguiam, eles gozavam da simpatia de todo o povo[xi].

«A família torna-se sujeito da acção pastoral, através do anúncio explícito do Evangelho e do legado de múltiplas formas de testemunho, nomeadamente a solidariedade com os pobres, a abertura à diversidade das pessoas, a salvaguarda da criação, a solidariedade moral e material para com as outras famílias, especialmente para com as mais necessitadas, o empenho na promoção do bem comum, inclusive através da transformação das estruturas sociais injustas, a partir do território onde vive a família, praticando as obras corporais e espirituais de misericórdia».

Isto deve ser feito no contexto da convicção mais preciosa dos cristãos: o amor do Pai que nos sustenta e faz crescer, manifestado no dom total de Jesus Cristo, vivo no meio de nós, que nos torna capazes de enfrentar, unidos, todas as tempestades e todas as etapas da vida. E, no coração de cada família, deve ressoar também o querigma, a tempo e fora de tempo, para iluminar o caminho. Todos deveríamos poder dizer, a partir da vivência nas nossas famílias: «Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele»[xii].

Só a partir desta experiência é que a pastoral familiar poderá conseguir que as famílias sejam simultaneamente igrejas domésticas e fermento evangelizador na sociedade.

CAPÍTULO VIII

ACOMPANHAR, DISCERNIR E INTEGRAR A FRAGILIDADE.

Os Padres sinodais afirmaram que, embora a Igreja reconheça que toda a ruptura do vínculo matrimonial « é contra a vontade de Deus, está consciente também da fragilidade de muitos dos seus filhos».

Iluminada pelo olhar de Cristo, a Igreja «dirige-se com amor àqueles que participam na sua vida de modo incompleto, reconhecendo que a graça de Deus também actua nas suas vidas, dando-lhes a coragem para fazer o bem, cuidar com amor um do outro e estar ao serviço da comunidade onde vivem e trabalham».

Aliás esta atitude vê-se corroborada no contexto de um Ano Jubilar dedicado à misericórdia. Embora não cesse jamais de propor a perfeição e convidar a uma resposta mais plena a Deus, «a Igreja deve acompanhar, com atenção e solicitude, os seus filhos mais frágeis, marcados pelo amor ferido e extraviado, dando-lhes de novo confiança e esperança, como a luz do farol dum porto ou duma tocha acesa no meio do povo para iluminar aqueles que perderam a rota, ou estão no meio da tempestade»[xiii]

Não esqueçamos que, muitas vezes, o trabalho da Igreja é semelhante ao de um hospital de campanha.

O matrimónio cristão, reflexo da união entre Cristo e a sua Igreja, realiza-se plenamente na união entre um homem e uma mulher, que se doam reciprocamente com um amor exclusivo e livre fidelidade, se pertencem até à morte e abrem à transmissão da vida, consagrados pelo sacramento que lhes confere a graça para se constituírem como igreja doméstica e serem fermento de vida nova para a sociedade.
Algumas formas de união contradizem radicalmente este ideal, enquanto outras o realizam pelo menos de forma parcial e analógica.
Os Padres sinodais afirmaram que a Igreja não deixa de valorizar os elementos construtivos nas situações que ainda não correspondem ou já não correspondem à sua doutrina sobre o matrimónio.

(cont)

(revisão da versão portuguesa por AMA)


[i] (Sl 145/144, 4)
[ii] (Is 38, 19)
[iii] Cf. Relatio Finalis 2015, 13-14. 307 De sancta virginitate, 7, 7: PL 40, 400. 308 Francisco, Catequese (26 de Agosto de 2015): L’Osservatore Romano (ed. semanal portuguesa de 27/VIII/2015), 12.
[iv] (cf. Mt 13, 31-32)
[v] Relatio Finalis 2015, 89.
[vi] (cf. Mc 2, 16; Mt 11, 19)
[vii] (cf. Jo 4, 7-26
[viii] (cf. Jo 3, 1-21)
[ix] (cf. Lc 7, 36-50)
[x] (cf. Mc 1, 40-45; 7, 33)
[xi] (cf. At 2, 47; 4, 21.33; 5, 13)
[xii] (1 Jo 4, 16)
[xiii] Relatio Synodi 2014, 24. 312 Ibid., 25

09/04/2019

Evangelho e comentário



TEMPO DA QUARESMA



Evangelho: Jo 8, 21-30

21 Uma outra vez, Jesus disse-lhes: «Eu vou-me embora: vós haveis de procurar-me, mas morrereis no vosso pecado. Vós não podereis ir para onde Eu vou.» 22 Então, os judeus comentavam: «Será que Ele se vai suicidar, dado que está a dizer: ‘Vós não podeis ir para onde Eu vou’?» 23 Mas Ele acrescentou: «Vós sois cá de baixo; Eu sou lá de cima! Vós sois deste mundo; Eu não sou deste mundo. 24 Já vos disse que morrereis nos vossos pecados. De facto, se não crerdes que Eu sou o que sou, morrereis nos vossos pecados.» 25 Perguntaram-lhe, então: «Quem és Tu, afinal?» Disse-lhes Jesus: «Absolutamente aquilo que já vos estou a dizer! 26 Tenho muitas coisas que dizer e que julgar a vosso respeito; mas do que falo ao mundo é do que ouvi àquele que me enviou, e que é verdadeiro.» 27 Eles não perceberam que lhes falava do Pai. 28 Disse-lhes, pois, Jesus: «Quando tiverdes erguido ao alto o Filho do Homem, então ficareis a saber que Eu sou o que sou e que nada faço por mim mesmo, mas falo destas coisas tal como o Pai me ensinou. 29 E aquele que me enviou está comigo. Ele não me deixou só, porque faço sempre aquilo que lhe agrada.» 30 Quando expunha estas coisas, muitos creram nele.

Comentário:

Fica evidente que – segundo afirma o Evangelista – as palavras e explicações de Jesus são claras e compreensíveis e não herméticas como muitos querem fazer crer:
«Quando expunha estas coisas, muitos creram nele.»

Embora não especifique “estes muitos” torna-se evidente que estes se contarão entre o povo simples e anónimo e não entre a maioria daqueles que O interpelam e contestam.

Mas também “estes” não podem deixar de tomar boa nota das respostas de Jesus.
Se as aceitam e tentam compreender, ou, pelo menos, fazem um esforço para entender, essa… é outra questão que só a eles respeita e responsabiliza.

(AMA, comentário sobre Jo 8, 21-30, 17.01.2019)

Temas para reflectir e meditar

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Confissões


Reagir e gratidão

Está um tempo terrível, chuva. vento e frio.

Depois do pequeno-almoço, pensei:

Hoje é Sábado, não vou a lado nenhum nem estarei com ninguém.
Para quê arranjar-me? Vestir-me?
Vou ficar de roupão e acabou-se!

Fiz as orações do meio-dia a Nossa Senhora e, no fim, decidi-me e fui arranjar-me, vestir-me como se fosse sair a algum lado.
Fiquei contente comigo mesmo porque acho que reagi bem.

Com esta auto-satisfação ia "estragando" a "proeza" porque a decisão - estou absolutamente seguro - foi a Senhora quem ma insinuou.

Mas logo lhe agradeci como devia, o seu carinho de Mãe.

O meu mal é que estou tão habituado a estas ternuras da minha Mãe do Céu que, às vezes, me esqueço de lhe agradecer.

Pois... mas não ficou por aqui:

Saí para a rua e fui ao supermercado!

O que tem isso de especial? Toda agente vai ao supermercado!

Mas eu, não! É um autêntico sacrifício, tenho de fazer um esforço.
Foi o que fiz.
Ainda bem.
Estou contente.

Fiz o que devia fazer.

(AMA, reflexões, 2017)




Chama cada um à santidade


A oração não é prerrogativa de frades; é incumbência de cristãos, de homens e mulheres do mundo, que se sabem filhos de Deus. (Sulco, 451)

Sentimo-nos tocados, com o coração a bater com mais força, quando ouvimos com toda a atenção este brado de S. Paulo: esta é a vontade de Deus: a vossa santificação. Hoje, mais uma vez o repito a mim mesmo e também o recordo a cada um e à Humanidade inteira: esta é a vontade de Deus, que sejamos santos.

Para pacificar as almas com uma paz autêntica, para transformar a Terra, para procurar Deus Nosso Senhor no mundo e através das coisas do mundo, é indispensável a santidade pessoal. Nas minhas conversas com gente de tantos países e dos ambientes sociais mais diversos, perguntam-me com frequência: – Que diz aos casados? E aos que trabalhamos no campo? E às viúvas? E aos jovens?

Respondo sistematicamente que tenho uma só panela. E costumo fazer notar que Jesus Cristo Nosso Senhor pregou a Boa Nova para todos, sem qualquer distinção. Uma só panela e um único alimento: o meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que me enviou e dar cumprimento à sua obra. Chama cada um à santidade, pede amor a cada um: jovens e velhos, solteiros e casados, sãos e doentes, cultos e ignorantes, trabalhem onde quer que trabalhem, estejam onde quer que estejam. Há um único modo de crescer na familiaridade e na confiança com Deus: a intimidade da oração, falar com Ele, manifestar-Lhe – de coração a coração – o nosso afecto.

Invocar-me-eis e Eu vos ouvirei. E invocamo-lo conversando, dirigindo-nos a Ele. Por isso temos de pôr em prática a exortação do Apóstolo: sine intermissione orate; rezai sempre, aconteça o que acontecer. Não apenas de coração, mas com todo o coração. (Amigos de Deus, nn. 294–295)