20/01/2018

Leitura espiritual

CAPÍTULO IV

«ELE É O VERDADEIRO DEUS
E A VIDA ETERNA»

Divindade de Cristo e anúncio da eternidade

2 . Cristo, síntese de eternidade e tempo

1.   Dos dois “tempos” às duas “naturezas” de Cristo.

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Logo que nos predispomos para a tarefa de partirmos da Bíblia, na mira de um renovado anúncio sobre Jesus Cristo, começamos a fazer descobertas surpreendentes. De facto, vemos como são enormes as possibilidades que ela ainda oferece para um discurso moderno e existencial sobre Cristo e, por conseguinte, sobre o homem, como sementes preparadas para germinar e frutificar.

Os estudiosos da natureza e das plantas ficam maravilhados perante tudo aquilo que está contido numa pequena semente e que a ciência nela vai descobrindo cada vez mais. Se tivéssemos de escrever todas as informações contidas numa semente, daí resultaria uma espécie de enciclopédia. Tudo nela está programado até ao pormenor. É como se fosse um computador natural, no qual se encontra memorizado um volume incalculável de dados: como e quando germinar, que frutos dar, de que cor e de que sabor, de que dimensões, como reagir a este ou àquele agente estranho, como adaptar-se a um clima diferente. Por vezes estas informações mantêm-se operantes durante séculos, se é verdadeira a notícia segundo a qual foram encontrados grãos de trigo ainda com capacidade para germinar, nas antigas pirâmides do Egipto.
Sob o impulso da actual crise ecológica, veio a descobrir-se como um melhor conhecimento da semente, dos seus recursos e dos seus aliados naturais, nos pode ajudar a intervir menos violentamente sobre a planta, através de antiparasitários que não só envenenam o terreno como também, a pouco e pouco, prejudicam a própria planta.

A mensagem revelada é também ela uma semente.
O próprio Jesus compara-a «à mais pequena de todas as sementes» [i] e compara-Se a Si mesmo a um grão de trigo lançado à terra [ii].
Como a semente, também a mensagem esconde em si recursos insuspeitos, os quais, depois de dois mil anos, estão ainda bem longe de ser inteiramente explorados por nós.
Isto é válido de modo particular para a cristologia.
No kerigma neotestamentário a respeito de Cristo encontram-se encerradas “informações” que lhe permitem voltar a florir em todas as estações da História e de «se aclimatar a todas as culturas, sem nunca contrariar ou mudar de natureza. Ele possui em si próprio as Suas defesas e não é mantido vivo por intervenções externas e humanas, de natureza polémica e apologética.
Basta pô-lo em condições de utilizar os seus recursos, não o confinando aos livros e às formulações dogmáticas, como que numa estufa, mas, sim, pondo-o em contacto com o terreno vivo e sempre renovado da História e fazendo-o reagir a ele.

Perguntemo-nos, então, como é que se apresenta hoje este terreno vivo da História e o que tem de novo em comparação com os tempos antigos quando o dogma cristológico foi determinado pela primeira vez.
Não pretendo estar à altura de definir em poucas palavras a índole própria da cultura moderna.
Penso, todavia, que posso dizer alguma coisa.
O homem de hoje é o homem que descobriu o “sentido histórico”, que se interessa mais pela existência que pela essência, tanto sua como das coisas que se interessa mais pela liberdade que pela natureza. Não cabe ao pregador do Evangelho se, isto é, um bem ou um mal, um progresso ou retrocesso.
Ele deve tornar-se moderno com os modernos, como São Paulo, São João e os Padres se tornaram «gregos com os gregos» [iii].

No fundo, os homens da antiguidade e os homens de hoje não divergem assim tão radicalmente entre si, sobre a substância das coisas. Uns e outros estão interessados pelo seu destino e “reagem” a uma mensagem, se esta os atingir no núcleo profundo da sua existência onde jazem as mais importantes questões: “Quem somos? Donde vimos? Para onde vamos?”.
Estas perguntas que o homem de hoje se coloca a si mesmo, já o homem do século II depois de Cristo as punha a si mesmo [iv].
O problema da salvação, isto é, a soteriologia, é a porta de ingresso na cristologia. O que mudou foi somente o modo como se apresenta esta necessidade de salvação.
Se antigamente se concebia a salvação como a libertação do mundo e do corpo, hoje a salvação é sobretudo concebida como redenção do mundo e do corpo, para além da alma.

Vejamos então o que é que o dogma cristológico tem para dizer aos homens da nossa época, marcada como está – assim se exprime o título de uma célebre obra filosófica deste século – pelo problema da ”existência e tempo”.

São João, na sua primeira carta, diz de Cristo:
«Nós estamos no verdadeiro Deus e no Seu Filho Jesus Cristo: Ele é o verdadeiro Deus e a vida eterna» [v].
Estes dois conceitos, - “verdadeiro Deus” e “vida eterna” - aplicados a Cristo, equivalem-se, quanto à importância e frequência, nos escritos joaninos.
O pensamento antigo utilizou deles, em sede dogmática, só o primeiro “verdadeiro Deus”, tendo extraído dele a fórmula consagrada no símbolo de Niceia: «Deus verdadeiro de Deus verdadeiro».
Está ainda em grande parte por explorar aquilo que significa, para a cristologia, dizer que Jesus é a “vida eterna” e que n’Ele não apareceu na Terra somente a divindade, mas também a eternidade.
Estamos perante uma daquelas sementes que estão à espera de germinar, ou, como dizia no princípio deste capítulo, perante um brado que espera para ser lançado sobre o corpo da Igreja.


(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Mt 13, 32
[ii] Cfr. Jo 12, 24
[iii] Cfer. Rm 1, 14
[iv] Cfr. Extractos de Teodoto, 78 (OCS 17,2, Berlim, 1970. P. 131
[v] 1 Jo 5, 20

Devoción a la Virgen




Rezando el Rosario la Virgen le iluminó: convirtió las letanías en un rap y así empezó su carrera musical

Hoy el reto del amor es que tú también peregrines y te unas a la Iglesia en Fátima.

PEREGRINACIÓN 

Hoy es un día muy especial en el Novi: ¡es la fiesta de nuestra Patrona, la Virgen de Fátima! Centenario, canonización... Sabemos que bastantes estáis ahora en Portugal, ¡así que acordaos de orar por toda la "familia de reteros"!

Este día, en el convento rezamos el rosario en procesión por la huerta, llevando en andas la imagen de María. Una de las paradas de la procesión es la capillita de la zona del Novi.

Hace dos días, como teníamos un ratito libre... ¡Joane se lanzó, toda decidida, a ponerla de gala! Israel y yo, al verla, nos unimos a las labores de limpieza.

Quitamos las hojas de alrededor, pusimos una vela nueva... incluso colocamos a los pies de María unas preciosas flores de papel que unos amigos le regalaron a Joane en su Profesión Temporal.

Reconozco que, en un principio, la idea de renovar la decoración de la capillita no era lo que más me apetecía en el mundo. Pero me fui contagiando del entusiasmo de mis hermanas... ¡y ahora llevo dos días deseando con más ganas la procesión!

Un fraile dominico escribió sobre la importancia de las peregrinaciones y las procesiones. Según él, "ponerse en camino", aunque sólo sea para ir a la iglesia del barrio, tiene grandes beneficios espirituales: nos recuerda que aquí estamos de paso, nos hace salir de nuestro ambiente y buscar al Señor con todo nuestro ser, nos hace desear el encuentro... Te prepara, como a mí me preparó el arreglar la capilla. Al fin y al cabo, ¿Cristo no estuvo de caminatas durante toda su vida pública?

Hoy el reto del amor es que tú también peregrines y te unas a la Iglesia en Fátima. Es posible que no puedas llegar hasta Portugal... ¡pero ponte en camino! Te invito a que hoy busques una iglesia donde haya una imagen de María. Vete a visitarla, y únete, con tus pisadas y tu oración, al Papa y a los peregrinos. ¡Que se derrame en todo el mundo la gracia del Señor! ¡Feliz día!


VIVE DE CRISTO

Pequena agenda do cristão

SÁBADO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





19/01/2018

Cristo também vive agora

Vive junto de Cristo! Deves ser, no Evangelho, uma personagem mais, convivendo com Pedro, com João, com André..., porque Cristo também vive agora: "Iesus Christus, heri et hodie, ipse et in saecula!" Jesus Cristo vive!, hoje como ontem; é o mesmo, pelos séculos dos séculos. (Forja, 8)


É esse amor de Cristo que cada um de nós deve se esforçar por realizar na sua vida. Mas para ser ipse Christus é preciso mirar-se Nele. Não basta ter-se uma ideia geral do espírito que Jesus viveu; é preciso aprender com Ele pormenores e atitudes. É preciso contemplar a sua vida, sobretudo para daí tirar força, luz, serenidade, paz.


Quando se ama alguém, deseja-se conhecer toda a sua vida, o seu carácter, para nos identificarmos com essa pessoa. Por isso temos de meditar na vida de Jesus, desde o Seu nascimento num presépio até à Sua morte e à Sua Ressurreição. Nos primeiros anos do meu labor sacerdotal costumava oferecer exemplares do Evangelho ou livros onde se narra a vida de Jesus, porque é necessário que a conheçamos bem, que a tenhamos inteira na mente e no coração, de modo que, em qualquer momento, sem necessidade de nenhum livro, cerrando os olhos, possamos contemplá-la como um filme; de forma que, nas mais diversas situações da nossa vida, acudam à memória as palavras e os actos do Senhor.



Sentir-nos-emos assim metidos na sua vida. Na verdade, não se trata apenas de pensar em Jesus e de imaginar aqueles episódios; temos de meter-nos em cheio neles, como actores. (Cristo que passa, 107)

Temas para reflectir e meditar

Pureza


Há cem anos, no dia 6 de Julho de 1902, faleceu Maria Goretti gravemente ferida no dia anterior pela violência cega do seu agressor.

O meu venerado predecessor, o servo de Deus Pio Xll, proclamou-a santa em 1950, propondo-a a todos como modelo de corajosa fidelidade à vocação cristã, até ao supremo sacrifício da vida.

Dirijamo-nos agora a Nossa Senhora, da qual Santa Maria Goretti tinha o nome.

A mais pura de entre as criaturas ajude os homens e as mulheres do nosso tempo, sobretudo os jovens, a descobrir de novo o valor da castidade e a viver as relações interpessoais no respeito recíproco e no amor sincero.


(SÃO JOÃO PAULO II, Angelus do dia de Santa Maria Goretti 2002.07.07)



Evangelho e comentário

Tempo Comum


Evangelho: Mc 3, 13-19

13 Jesus subiu depois a um monte, chamou os que Ele queria e foram ter com Ele. 14 Estabeleceu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar, 15 com o poder de expulsar demónios. 16 Estabeleceu estes doze: Simão, ao qual pôs o nome de Pedro; 17 Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago, aos quais deu o nome de Boanerges, isto é, filhos do trovão; 18 André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Cananeu, 19 e Judas Iscariotes, que o entregou.

Comentário:

Jesus Cristo dá a estes doze uma missão específica: pregar!

E o que é pregar?

É sempre anunciar o Reino de Deus.

Ontem como hoje os cristãos são "enviados" tal como estes doze, a levar a todas as partes, a todas as gentes a Boa Nova recebida, directamente de Jesus Cristo.

Os Doze foram os primeiros e, depois, sucederam-se continuam a suceder-se milhões de homens e mulheres de todas as condições sociais, de todas as partes do mundo exactamente com a mesma missão.

A Santa Igreja fundada por Jesus Cristo continua viva e actuante alicerçada nesse trabalho dedicado e contínuo, a maior parte das vezes discreto e sem notoriedade, de apostolado.

Pregar é, pois, sobretudo, levar aos outros o exemplo da própria vida cristã pois não se pode pregar o que não se pratica.

Quem acreditará em alguém que sugere ou mesmo aconselha, que não faz o que propõe a outros que façam?

(ama, comentário sobre Mc 3, 13-19 Carvide, 02.01.2015)







Unidade dos Cristãos

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Leitura espiritual

CAPÍTULO IV

«ELE É O VERDADEIRO DEUS
E A VIDA ETERNA»

Divindade de Cristo e anúncio da eternidade


Escrevendo a um Cardeal do seu tempo, Santa Catarina de Sena dizia que sobre o corpo da santa Igreja deveria bradar-se um “urro”, isto é, um rugido tão forte, que acordasse os filhos mortos que jaziam dentro dela [i].
(A Santa partilhava a crença popular daquela época que o leão tinha o poder de ressuscitar, com o seu potente rugido, os leões nado-mortos).
Não sei qual era a palavra que deveria ser bradada, naquele tempo, sobre o corpo da santa Igreja. Sei, porém, qual é a palavra que deve ser bradada hoje, para acordar os filhos adormecidos.
É a palavra “eternidade”.
É este o grito do despertar cristão, apalavra que, como a relha do arado, pode abrir um sulco para uma nova sementeira da Palavra. Anunciar o Evangelho a homens que tivessem, por hipótese, perdido a própria ideia de eternidade, serias o mesmo que semear sobre rochas.

Neste capítulo proponho-me demonstrar como dogma de Cristo «verdadeiro Deus e verdadeiro homem» nos pode ajudar nesta tarefa, restituindo-nos a coragem e franqueza de fé necessárias para voltarmos a bradar aos homens de hoje: “Eternidade! Eternidade!”.
Veremos, ainda, como somente a fé na divindade de Cristo faz, da palavra “eternidade”, uma possibilidade concreta oferecida aos homens, apropria finalidade da vida, e não, como seria diversamente, uma simples categoria de pensamento ou uma vaga “nostalgia do Totalmente Outro” [ii].

Ao mesmo tempo, isso permitir-nos-á colher uma enorme carga existencial e a actualidade do dogma cristológico. A teoria kerigmática do nosso século transferiu todo o peso da cristologia do “por si”, isto é, daquilo que Cristo é em Si mesmo, par o “para mim”, isto é, aquilo que Ele significa para mim e para a minha salvação. Porém, deixou muitas vezes este “para mim” na incerteza, reduzindo-o a um princípio abstracto e formal, desprovido de um conteúdo real. Se Cristo nasceu para mim, se por mim Se tornou o homem novo, se por mim «Se santificou a Si mesmo» [iii], se morreu pelos meus pecados, quer dizer que estes factos me interpelam directamente, que têm um significado que eu devo acolher e imitar na minha vida.

Deste modo, recuperamos um dos aspectos mais fecundos do pensamento existencial, o qual, tendo sido muito acutilante no seu iniciador, logo foi sendo esquecido pelos Seus seguidores a convicção que o elemento de “seriedade” do cristianismo reside no viver, no fazer, bem mais que no explicar ou relacionar com a verdade cristã esteou aquele sistema filosófico. Por outras palavras, a convicção que o cristianismo necessita de Santos e não de professores, ou, se necessita de professores, é só no sentido forte de pessoas que “professam” o cristianismo, que aceitam humildemente as suas exigências, embora sabendo que jamais poderão cumpri-las perfeitamente. O que verdadeiramente conta – como recorda Kierkegaard com o título de uma obra sua – é o exercício do cristianismo, isto é, vivê-lo, praticá-lo, estar inserido nele. Nada mais conta.
«Sabeis estas coisas» - dizia Jesus - «bem-aventurados sereis se as praticardes» [iv]
A bem-aventurança não é prometida a quem sabe, mas sim a quem pratica.

Desejando, uma vez mais, debruçar-me sobre a síntese entre o “por si” e o “para mim” da cristologia, dividirei esta meditação em duas partes. Na primeira, iremos reflectir sobre o dogma das duas naturezas de Cristo e como esse dogma pode ser levado a efeito e actualizado pelo homem de hoje; na segunda parte, veremos o peso do anúncio que se liberta da renovada apresentação deste dogma e, em particular, como ele dá apoio ao brado:
“Eternidade, eternidade!”

1.   Dos dois “tempos” às duas “naturezas” de Cristo.

Como é que se formou o dogma das duas naturezas de Cristo «verdadeiro homem e verdadeiro Deus?»
De início, logo depois da Páscoa, o esquema com que se procurava exprimir o mistério de Jesus não era o das duas naturezas, ou das Suas substâncias, divindade e humanidade, mas sim, o esquema dos dois tempos, ou fases, da Sua história: a fase anterior à ressurreição, vivida nas condições do homem comum – o crescimento, a passibilidade, a morte – e a fase inaugurada pela Sua ressurreição da morte, assinalada por caracteres completamente diferentes.
À primeira fase chamou-se: “vida segundo a carne”, e à segunda: “vida segundo o Espírito”.
É assim que se exprime o texto da Carta aos Romanos [v].
Cristo que, por força do Seu nascimento humano da estirpe de David, tinha a Sua existência segundo a carne, a partir da Sua ressurreição dos mortos vive segundo o Espírito e manifesta-Se em todo o Seu poder de Filho de Deus.
Era um esquema histórico; a sucessão: carne-espírito, de facto corresponde, de perto, à de tempo-eternidade.
Mais que a “natureza” de Cristo, o que interessa, nesta perspectiva, é a “condição” de Cristo, o Seu “modo de existir”: primeiramente no tempo e depois fora do tempo.
Mais que a essência, diríamos nós hoje, interessa-nos a existência.

A partir desta compreensão inicial do mistério de Cristo, começa um processo de aprofundamento, em que a fé da Igreja se esforça por escalar cada vez mais até ao cume, ou, o que é o mesmo, escavar sempre cada vez mais em profundidade, à descoberta da verdadeira identidade de Cristo.

Um primeiro, e enorme, passo nesta direcção consiste na inversão do esquema. Assim, não colocaremos em primeiro lugar a carne e depois o Espírito, nem primeiro o tempo e depois a eternidade, mas, pelo contrário, colocaremos antes a eternidade só depois o tempo.
A inversão do sistema começa com o próprio S. Paulo.
Na sua carta aos Filipenses [vi], ele fala de Jesus como d’Aquele que, possuindo em primeiro lugar a “natureza divina”, assume em certo momento da história a “condição de servo”, isto é, a condição humana.
Tudo se torna ainda mais claro com S. João, quando fala do Verbo, que “no princípio estava com Deus” e que depois “Se fez carne” [vii].

Alguns textos dos Padre Apostólicos, permitem-nos ver em acto esta passagem de uma perspectiva para a outra.
Santo Inácio de Antioquia, uma vez, comentando o texto [viii], diz que Jesus é “carnal e espiritual, de Maria e de Deus”, que “nasceu da estirpe de David e do Espírito Santo [ix]; mas, de outra vez, segue já o novo esquema e fala de Jesus que, sendo primeiramente “intemporal, invisível e impassível”, Se torna, depois, “visível e passível” [x].
No primeiro caso, o momento da passagem ainda é a ressurreição de Cristo; no segundo, o momento da passagem é já a Encarnação.
A ordem, no primeiro caso, é: carne-espírito; no segundo, é: Espírito-carne.
Esta nova ordem é a que se observa já claramente num outro escrito apostólico, onde se lê que Cristo “sendo primeiramente Espírito, Se fez carne” [xi].

Um segundo passo nesta evolução diz respeito não só já à ordem, mas ao significado dos termos Espírito-carne, ou – o que corresponde a esses termos na linguagem joanina -Verbo-carne.
Eles não indicam já somente duas condições diferentes, ou modos de existir de Cristo, mas duas realidades, duas substâncias ou naturezas.
Basta o seguinte texto de Tertuliano para nos fazer medir todo o caminho percorrido pela fé em pouco mais de século e meio. Comentando o texto de romanos 1,3-4, escreve:
“O Apóstolo indica aqui as duas substâncias de Cristo.Com as palavras “nascido da estirpe de David segundo a carne”, ele designa o Homem e o Filho do Homem; com as palavras “manifestado Filho de Deus, segundo o Espírito”, indica Deus, o Verbo Filho de Deus. Vemos nele, então, duas substâncias” [xii].
Um outro autor, de época pouco posterior, escreve também:
“Confessamos que Cristo é verdadeiramente Deus segundo o Espírito e verdadeiramente homem segundo a carne” [xiii].
A doutrina do Cristo “segundo a carne e segundo o Espírito”, ou dos dois tempos, ficou determinada como doutrina do Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, isto é, das duas naturezas.

O Concílio de Calcedónia não faz mais que sancionar esta nova compreensão da fé, falando de Cristo, “perfeito em divindade e perfeito em humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem… gerado pelo Pai antes dos séculos segundo a divindade e por Maria nos últimos dias, segundo a humanidade; um só e idêntico Cristo Filho de Deus, que reconhecemos nas duas naturezas, sem confusão e sem divisão” [xiv].

O motivo desta evolução é o mesmo que já tratamos mais atrás quando falámos da humanidade de Cristo
Estamos perante um primeiro e exemplar caso de inculturação da fé.
Pelo mesmo motivo que se passa de Cristo “homem novo” (que diz respeito ao tempo e à história) para o Cristo comum “verdadeiro” ou “completo” (que diz respeito à essência), passa-se agora das duas fases ou modos de existir de Cristo para as Suas duas naturezas, Isto deve-se ao facto de que o Evangelho teve de entranhar-se numa cultura para a qual aquilo que verdadeiramente conta é o ser, ou a essência imutável das coisas, muito mais que o seu devir e a sua história.
Pela mesma razão, a dimensão espiritual e eterna de Cristo antepõe-se agora à dimensão temporal e histórica.
De facto, é impossível que a eternidade possa brotar do tempo, como uma criação sua, mas, pelo contrário, é o tempo que brota da eternidade que “segue” a eternidade, se é que se pode falar de uma precedência ou sequência em relação áquilo que não tem um antes nem um depois.
Foi a certeza de preexistência do Verbo que induziu a inverter a ordem entre Cristo segundo a carne e Cristo segundo o Espírito.

Afastámo-nos, então, da Bíblia para nos aproximarmos dos gregos? Helenizámos o cristianismo e o próprio Jesus Cristo? Não, porque vimos que aquilo que se afirma já estava presente na Palavra de Deus, em São Paulo e em São João. A exigência pastoral do anúncio contribuiu só para manifestar um aspecto fundamental do dado revelado que, de outra forma, teria ficado para sempre na sombra.

Mas, com isto, estabeleceu-se logo um princípio que, de modo diferente, nos interpela também a nós. O caminho da fé não se deteve com a definição de Calcedónia. Do mesmo modo que os padres souberam descortinar com segurança o aspecto da mensagem que melhor poderia servir para estabelecer uma ponte com a cultura do seu tempo, também nós devemos saber descobrir nele o aspecto que está mais apto para falar aos homens de hoje, submetendo, se necessário for, esta mesma cultura hodierna ao juízo da Palavra de Deus e ajudando-a a superar os seus limites e as suas lacunas, como fizeram os Padres com a cultura grega do seu tempo.


(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Santa Catarina de Sena, Carta 177 ao Card. Pietro Corsini
[ii] Cfr. M. Horkheimer, A Nostalgia do Totalmente Outro, Brescia, 1973
[iii] Cfr. Jo 17, 19
[iv] Jo 13, 17
[v] Cfr. Rm 1,3-4
[vi] 2,6-9
[vii] Cfr. Jo 1,1-4
[viii] Rom 1,3-4
[ix] Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios,7,2;20,2
[x] Santo Inácio de Antioquia, Carta a Policarpo, 3,2
[xi] Segunda carta de Clemente, 9,5
[xii] Tertuliano, Adversus Praxean, 27,11
[xiii] Adanatius, De Recta Fide, 5,11
[xiv] Dezinger, Schonmtzer, 301-302

Doutrina – 394

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Compêndio


PRIMEIRA PARTE: A PROFISSÃO DA FÉ
SEGUNDA SECÇÃO: A PROFISSÃO DA FÉ CRISTÃ
CAPÍTULO TERCEIRO

CREIO NA SANTA IGREJA CATÓLICA

A Igreja é una, santa, católica e apostólica

172. Porque é que a Igreja deve anunciar o Evangelho a todo o mundo?



Porque Cristo ordenou: «ide e ensinai todas as nações, baptizando-as no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28,19). Este mandato missionário do Senhor tem a sua fonte no amor eterno de Deus, que enviou o seu Filho e o seu Espírito porque «quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tim 2, 4).

Perguntas e respostas

A EUTANÁSIA


11. Outros temas.


A morte digna, os cuidados paliativos e a dureza terapêutica são temas amplos que podemos resumir assim:

É necessário pôr os meios ordinários para os cuidados do doente, mas não se é obrigado a pôr meios extraordinários. 
Isto não significa Eutanásia, mas sim aceitação de uma morte que não se pode evitar.
É bom abrandar a dor de modo proporcional à situação.

Não se deve privar ninguém da consciência sem o seu consentimento. 
Antes de o fazer, convém que tenha recebido cuidado espiritual e tenha já estipulado os seus últimos desejos, testamento, etc.

Pequena agenda do cristão

Sexta-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Contenção; alguma privação; ser humilde.


Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.

Lembrar-me:
Filiação divina.

Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





18/01/2018

A riqueza da fé

Não sejas pessimista. – Não sabes que tudo quanto sucede ou pode suceder é para bem? – O teu optimismo será a consequência necessária da tua fé. (Caminho, 378)


No meio das limitações inseparáveis da nossa situação presente, porque o pecado ainda habita em nós de algum modo, o cristão vê com nova clareza toda a riqueza da sua filiação divina, quando se reconhece plenamente livre porque trabalha nas coisas do seu Pai, quando a sua alegria se torna constante por nada ser capaz de lhe destruir a esperança.


Pois é também nesse momento que é capaz de admirar todas as belezas e maravilhas da Terra, de apreciar toda a riqueza e toda a bondade, de amar com a inteireza e a pureza para que foi criado o coração humano.


Também é nessa altura que a dor perante o pecado não degenera num gesto amargo, desesperado ou altivo porque a compunção e o conhecimento da fraqueza humana conduzem-no a identificar-se outra vez com as ânsias redentoras de Cristo e a sentir mais profundamente a solidariedade com todos os homens. É então, finalmente, que o cristão experimenta em si com segurança a força do Espírito Santo, de tal maneira que as suas quedas pessoais não o abatem; são um convite a recomeçar e a continuar a ser testemunha fiel de Cristo em todas as encruzilhadas da Terra, apesar das misérias pessoais, que nestes casos costumam ser faltas leves, que apenas turvam a alma; e, ainda que fossem graves, acudindo ao Sacramento da Penitência com compunção, volta-se à paz de Deus e a ser de novo uma boa testemunha das suas misericórdias.



Tal é, em breve resumo que mal consegue traduzir em pobres palavras humanas a riqueza da fé, a vida do cristão, quando se deixa guiar pelo Espírito Santo. (Cristo que passa, 138)