08/01/2018

Evangelho e comentário

Tempo de Natal


Baptismo do Senhor

Evangelho: Mc 1, 7-11

7 E pregava assim: «Depois de mim vai chegar outro que é mais forte do que eu, diante do qual não sou digno de me inclinar para lhe desatar as correias das sandálias. 8 Eu baptizei-vos em água, mas Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo.» 9 Por aqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi baptizado por João no Jordão. 10 Quando saía da água, viu serem rasgados os céus e o Espírito descer sobre Ele como uma pomba. 11 E do céu veio uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus todo o meu agrado.»

Comentário:

Jesus Cristo não precisava ser baptizado porque era o Filho de Deus.

Mas, ao fazê-lo, - além de dar cumprimento rigoroso às Escrituras - institui este sacramento de iniciação dos homens na família divina.

Também foi como que a confirmação de quanto João Baptista vinha anunciando e fazendo, estabelecendo-o definitivamente como o Percursor.

Acaba aqui o papel desempenhado pelo Baptista, a partir de agora será o próprio Filho de Deus a anunciar o Reino, a propagar a Doutrina, a apelar à conversão.

(AMA, comentário sobre Mc 1, 7-11, 28.09.2017)







Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

CAPÍTULO II

JESUS CRISTO, O HOMEM NOVO

1.   O dogma de Cristo «Verdadeiro homem» no actual momento cultural

Após o contacto com a cultura da época e por causa de certas heresias provenientes dela, todo o interesse pelo Cristo «homem» deslocou-se do problema da novidade, ou santidade, de tal humanidade, para o da sua verdade ou plenitude ontológica.
Tudo foi concentrado na ideia da assunção de uma humanidade por parte do Verbo.
O facto fundamental é que Cristo assume, ou torna-se, o que nós somos, além de não pôr o homem em questão, ainda o toma tal como é.
Somente assim se vê a possibilidade, para o homem, de ser salvo na sua totalidade.
«O Homem não teria sido salvo na sua totalidade se Cristo não tivesse assumido o homem na sua totalidade» [i].
Cristo devia ter um corpo para que o nosso corpo fosse resgatado, deveria ter uma alma para que a nossa alma fosse resgatada e deveria ter uma vontade livre para que a nossa liberdade também fosse resgatada.

A Igreja, então, soube extrair da Revelação o antídoto que era necessário para a doença do momento. O problema é que há já muito tempo que se alterou completamente a situação cultural e o tipo de ameaça à fé, e ainda não foi alterada adequadamente a resposta conveniente.
De facto, ao observarmos atentamente notamos que toda a problemática hodierna acerca da humanidade de Cristo (pelo menos quando se trata de definir a própria pessoa de Cristo, isto é, nas discussões cristológicas) continua a girar à volta de um problema antigo e que já não existe.
Hoje já ninguém nega que Jesus tenha sido um homem, como diziam os docetistas. Pelo contrário, assiste-se a um fenómeno estranho e inquietante: a «verdadeira» humanidade de Cristo é afirmada em tácita alternativa à Sua divindade como uma espécie de contrapeso. É como uma corrida generalizada para ver quem é mais audaz em afirmar a «plena» humanidade de Jesus de Nazaré.
O facto de ser plenamente e integralmente homem – lê-se num autor contemporâneo – comportava em Jesus, além do sofrimento, da angústia, da tentação e da dúvida, também «a possibilidade de cometer erros» [ii].
Esta é uma afirmação absolutamente nova na tradição cristã.

Assim, o dogma de Jesus «verdadeiro homem» tornou-se ou numa verdade aceite que não incomoda e não inquieta ninguém, ou, pior ainda, uma verdade perigosa que serve para legitimar, em vez de contestar, o pensamento mundano. Afirmar a plena humanidade de Cristo é hoje como que arrombar uma porta escancarada.

Os sinais desta tendência notam-se tanto aos níveis mais elevados da teologia como nos mais populares da mentalidade comum e dos mass media.
Para alguns, na expressão «verdadeiro homem», tudo o que o adjectivo «verdadeiro» significa é o grau mais elevado de humanidade que existe em Cristo, a excelência ou a exemplaridade da Sua humanidade, à qual os crentes chamam a Sua «divindade».
Partindo de um conceito humano de homem e empolando a Sua «verdadeira» humanidade, chega-se assim a tornar supérflua ou a negar a divindade de Cristo. O conceito moderno e mundano de homem requer de facto uma total e absoluta autonomia, para o que Deus e o homem são incompatíveis e colidem um com o outro; «onde nasce Deus morre o homem».

Estas ideias são de autores que tentam delinear um «Jesus para os ateus» [iii]
Mas há também algumas tentativas de cristologias modernas que conduzem a uma tendência análoga, ainda que de outra forma.
Alguém, ao afirmar a humanidade de Cristo, foi mais além que o próprio Concílio de Calcedónia, atribuindo a Cristo não só uma carne, uma alma e uma vontade humanas, mas também uma personalidade humana, com a consequente e inevitável necessidade, ou afirmar que não é Deus ou de afirmar que é «duas pessoas», não «uma só pessoa».
Fala-se neste sentido de uma «transcendência humana» de Cristo, segundo a qual Cristo transcenderia a história, não como Deus, mas como homem.
Fala-se também de um «humanismo» cristológico integral. [iv]
A insistência sobre a humanidade, como se vê, dissipa-se.

A tendência verifica-se ainda a outros níveis de mentalidade por aí difundida. O filme «A última tentação de Cristo», extraído do romance de Nikos Kasantkis (um ortodoxo excomungado pela sua Igreja por causa deste romance, mostra um Jesus que procura desesperadamente, em toda Sua vida, esquivar-se às exigências da vontade do Pai e que depois, na cruz, é como que hipnotizado por imagens de pecado. Trata-se de um exemplo extremo e grosseiro da tal mentalidade, mas que é bastante elucidativo.
Em defesa do filme houve também alguns teólogos que opinaram:
«Se Jesus era verdadeiro homem, porque nos havemos de nos escandalizar com tudo isto? O homem real é assim mesmo».
Houve também quem tivesse comentado o filme positivamente dizendo que assim sentia mais próximo de si as suas próprias experiências aquele Cristo que tem as suas mesmas dúvidas, as suas mesmas incertezas, as suas mesmas rebeliões.
Repete-se, de certo modo, aquilo que acontecia no tempo do paganismo: não estando dispostos a repudiar os seus vícios, como o adultério e o furto, que fizeram os pagãos? – perguntava Santo Agostinho -. Atribuíram nos seus mitos estes vícios também aos seus deuses para assim se sentirem desculpados ao cometê-los. [v]
Como se pode censurar o homem por coisas que nem a divindade consegue evitar?

A causa de tudo isto é que a afirmação da plena divindade de Cristo cai hoje num terreno cultural que é exactamente o oposto do antigo, quando se deu forma ao dogma de Cristo «verdadeiro homem».
Os Padres viviam numa cultura marcada pelo espiritualismo e pelo desprezo (pelo menos a nível teórico) da matéria. Nós vivemos numa cultura marcada pelo materialismo e pela exaltação da matéria e do corpo.
Qual é o desafio e contestação que a cultura moderna lança à Fé, acerca do homem?
Não é certamente o preconceito anticósmico e maniqueísta do homem «desligado do mundo», mas sim o princípio da radical mundanidade do homem.
O discurso até nem versa muito sobre a natureza do homem, ou sobre o homem como entidade, mas sim e sobretudo sobre o homem como projecto.
Duas famosas declarações escritas neste novo contexto revelam com toda a crueza este ideal do homem «terrestre» e do homem «dono de si mesmo»:
«Se Deus existisse o homem não seria nada.
Deus não existe…
Não existe o Céu.
Não existe o Inferno.
Nada mais existe além da terra». [vi]
«Nada existe no Céu, nem o Bem nem o Mal, nem alguém que me possa dar ordens… Sou um homem, e todos os homens devem procurar o seu próprio caminho» [vii].

Existe nos nossos dias uma espécie de docetismo de sinal contrário. Não é já a matéria que é «projecção», sombra ou imagem ilusória do mundo divino e espiritual, como acontecia na visão platónica, mas, ao contrário, é o mundo divino que é a projecção e imagem do homem histórico. É Deus que é visto como imagem do homem, não o homem como imagem de Deus. É a ideologia do mundanismo radical que, e ainda bem, não é a única existente e seguida nos nossos dias, mas é decerto perigosa e está muito difundida.
Se Tertuliano dizia:
«Ocupemo-nos com a Humanidade do Salvador porque a Sua divindade não nos oferece dúvidas», hoje nós deveremos dizer, no novo contexto cultural:
«Voltemos e depressa a prestara tenção à divindade de Cristo já que a Sua humanidade está mais que segura. Descubramos aquilo que Cristo tem de diferente de nós porque o Ele tem de comum connosco é assunto pacífico e seguro. Descubramos, ao lado de Cristo homem «verdeiro», o Cristo homem «novo!».

Que fazer pelo dogma cristológico nesta situação nova que se criou?
A história do pensamento humano e da própria revelação bíblica está cheia de exemplos e de afirmações feitas para responder aos problemas específicos de cada momento, afirmações essas que depois são retomadas e adaptadas para responder às novas e diversas instâncias, ou para fazer frente às novas e diversas heresias. Poderemos facilmente demonstrar como isso sucede também no tocante ao dogma da unidade de Cristo.
A fórmula que fala de Cristo «único e idêntico» (unus et idem», elaborada por Stº Ireneu contra os gnósticos [viii] foi imediatamente seguida por S. Cirilo de Alexandria e pelo Concílio de Calcedónia, num sentido bem diferente, no qual o único e idêntico sujeito era a pessoa preexistente do Verbo que Se faz carne.
O dogma é uma «estrutura aberta» que, por isso, se pode sempre aplicar a novos contextos mantendo a sua identidade fundamental e permanecendo assim perenemente vivo e operante. É preciso somente permitir-lhe que possa agir, centrando-o bem nessa nova situação.
De facto, o dogma não se palica mecanicamente e do mesmo modo em todas as situações que se vão manifestando ao longo dos séculos. Para isso é necessário por vezes coloca-lo em contacto com a sua base que é a Sagrada Escritura.

O dogma tem um valor exemplar; convida-nos a fazer hoje aquilo que os Padres fizeram na sua época. Eles recorreram aos dados bíblicos para extrair a parte necessária para responder às necessidades do momento e defender as matérias da fé que naquele tempo eram objecto de discussão, deixando de lado tudo aquilo que era consensual. Tendo que defender o facto de que Jesus era homem, para eles bastava, por exemplo, tomar nota quase somente da Encarnação, que é o momento em que o Verbo Se fez homem. Se, a dado momento, o facto mais importante não é afirmar que «Jesus é homem», mas clarificar «que tipo de homem é Jesus», é evidente que então não basta somente tomar nota da encarnação, mas será preciso também recordar o mistério pascal e tornar nota não só do nascimento de Cristo, mas também da Sua vida e da Sua morte.

Com esta ideia, voltamos sempre a questionar o Novo Testamento acerca da humanidade do Salvador. Veremos que esse facto não leva a menosprezar a importância do dogma da «perfeita» humanidade de Cristo definido em Calcedónia, mas a descobrir nele novas riquezas e implicações.

(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Orígenes, Diálogo com Heráclites, 7 (SCh 67, p. 71
[ii] H. Küng, Ser cristão, Milão 1976, 9. 509
[iii] Cfr. M. Machovec, Jesus para os ateus, Assis, 1973
[iv] Cfr. Schoonenberg, Um Deus de Homens, Brescia 1971, p. 102ss
[v] Cfr. Santo Agostinho, Confissões, I 16,25
[vi] J. P. Sartre, «O Diabo e o Bom Deus», in Teatro, Milão 1950
[vii] J. P. Sartre, As Moscas, Paris 1943, pp. 134sss
[viii] Stº Ireneu, Ad. Haer., III, 16,8-9

Diálogos apostólicos

O DIVÓRCIO – 3 

A. O PROBLEMA DO DIVÓRCIO

Pergunto:

E se surgem grandes dificuldades?


Respondo:


Há dificuldades de tal peso que implicam a perda de vários dos bens citados. 
Por exemplo, o adultério e a violência física habitual cortam a lealdade, a paz e afecto familiares. 
Nestes casos difíceis, a separação sem rotura completa pode ser um mal menor que permita manter algum dos bens que se estão a fender, como a educação dos filhos e a paz pessoal. 
Na medida do possível deve evitar-se também a separação pois os filhos necessitam de uma família unida.

Pequena agenda do cristão

SeGUNDa-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?




07/01/2018

Fez-se Homem para nos redimir

Pasma ante a magnanimidade de Deus: fez-se Homem para nos redimir, para que tu e eu – que não valemos nada, reconhece-o! – o tratemos com confiança. (Forja, 30)

Lux fulgebit hodie super nos, quia natus est nobis Dominus – Hoje brilhará sobre nós a luz, porque nos nasceu o Senhor! Eis a grande novidade que comove os cristãos e que, através deles, se dirige à Humanidade inteira. Deus está aqui! Esta verdade deve encher as nossas vidas. Cada Natal deve ser para nós um novo encontro especial com Deus, deixando que a sua luz e a sua graça entrem até ao fundo da nossa alma.

Detemo-nos diante do Menino, de Maria e de José; estamos contemplando o Filho de Deus revestido da nossa carne... Vem-me à lembrança a viagem que fiz a Loreto, em 15 de Agosto de 1951, para visitar a Santa Casa por motivo muito íntimo. Celebrei lá a Santa Missa. Queria dizê-la com recolhimento mas não tinha contado com o fervor da multidão. Não tinha calculado que nesse grande dia de festa muitas pessoas dos arredores viriam a Loreto – com a bendita fé dessa terra e com o amor que têm à Madona. E a sua piedade, considerando as coisas – como diria? – só do ponto de vista das leis rituais da Igreja, levava-as a manifestações não muito correctas.


E assim, enquanto eu beijava o altar, nos momentos prescritos pelas rubricas da Missa, três ou quatro camponeses beijavam-no ao mesmo tempo. Distraía-me mas estava emocionado. E também me atraía a atenção a lembrança de que naquela Santa Casa – que a tradição assegura ser o lugar onde viveram Jesus, Maria e José – na mesa do altar tinham gravado estas palavras: Hic Verbum caro factum est. Aqui, numa casa construída pelas mãos dos homens, num pedaço de terra em que vivemos, habitou Deus! (Cristo que passa, 12)

Evangelho e comentário

Tempo de Natal

Epifania do Senhor

Evangelho: Mt 2, 1-12

1 Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. 2 E perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.» 3 Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. 4 E, reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. 5 Eles responderam: «Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: 6 E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judeia; porque de ti vai sair o Príncipe que há-de apascentar o meu povo de Israel.» 7 Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exactas sobre a data em que a estrela lhes tinha aparecido. 8 E, enviando-os a Belém, disse-lhes: «Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrardes, vinde comunicar-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem.» 9 Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou. 10 Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; 11 e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. 12 Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho.

Comentário:

Logo no início da vinda do Redentor, confirma-se o que, mais tarde, dirá:
«Muitos dos últimos serão dos primeiros»
De facto, estes “últimos” serão estes três homens de ciência que vêm de longe, muito longe, confirmar o que o sinal – a Estrela – lhes anunciava: O Nascimento do Rei dos Judeus.

Dos “primeiros”, como Herodes, que estava a escassa distância, não se manifesta nenhuma vontade – bem ao contrário – de confirmar o que os doutores da lei lhe comunicaram.

Compreende-se assim que para ver os “sinais” do Céu, interpretá-los e fazer de acordo é fundamental possuir um coração puro e um espírito disposto a procurar a verdade sem preconceitos nem reservas.

(ama, comentário sobre Mt 2, 1-12, 08.01.2017)








Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

CAPÍTULO II

JESUS CRISTO, O HOMEM NOVO

A Fé na humanidade de Cristo, hoje

1.   Cristo, o «homem perfeito».

Durante a vida terrena de Jesus e também depois da Páscoa, ninguém jamais pensou pôr em dúvida a realidade da humanidade de Cristo, isto é, o facto de que Ele fosse verdadeiramente um homem como os outros.
Não conheciam porventura a Sua Mãe, a sua idade, a Sua naturalidade, os familiares e a Sua profissão?
Aquilo que Lhe era contestado não era a Sua humanidade, mas a Sua divindade.
A acusação dos judeus era:
«Tu, que és homem, fazes-te Deus» [i].
Por isso quando fala da humanidade de Jesus, o Novo Testamento mostra-se mais interessado pela santidade que pela verdade ou realidade dessa divindade.

Ainda não tinha passado um século sobre a morte de Jesus e já essa situação se tinha alterado radicalmente.
Já pelas cartas de S. João se vem a saber que havia alguns que negavam que Cristo tivesse vindo «na carne» [ii].
Uma das maiores preocupações da Stº Inácio de Antioquia, nas suas cartas, é a de demonstrar a verdade da humanidade de Jesus e das acções por Ele efectuadas:
Que Ele nasceu verdadeiramente, que sofreu e morreu verdadeiramente, e não «somente em aparência, como dizem alguns sem Deus e sem fé» [iii].

Trata-se, em suma, da heresia do docetismo que nega a realidade da encarnação e a verdade do corpo humano de Cristo.

Tertuliano resume deste modo as várias formas que tal heresia apresentava no seu tempo:
«Marcião, para poder negar a carne de Cristo, negou também o Seu nascimento.
Valentim admitiu uma e outra coisa, tanto a carne como o nascimento, mas explicava-os à sua maneira.
De facto defendia como pertencente à ordem da aparência (to dokein), e não da realidade, não só a Sua carne como a Sua própria concepção, a gestação, o ter nascido da Virgem e tudo o resto» [iv]
«Devemos, portanto – concluía – ocupar-nos com a humanidade do Senhor, já que a Sua divindade não sofre contestação.
É a Sua humanidade que é posta em causa, bem como a sua verdade e qualidade».
Trata-se, para este autor, de um facto tão vital para a fé, que exclamava assim para um herético:
«Poupa aquela que é a única esperança para todo o mundo (Parce unicae spei totius orbis).
Porque queres tu destruir o necessário escândalo da fé?
Aquilo que julgas “indigni” de Deus, é para mim a salvação» [v].

No Novo Testamento, as atenções estavam todas voltadas para a novidade da humanidade de Cristo (para Cristo homem «novo» e «novo» Adão); agora, estão todas voltadas para a verdade, ou consistência ontológica, dessa humanidade.
A afirmação mais comum, neste novo contexto, é que Jesus foi um «homem perfeito» (teleios anthroppos), entendendo-se «perfeito» não no sentido moral de «santo», de «sem pecado» [vi] mas sim no sentido metafísico de «completo» de realmente existente.

O que é que provocou, em tão breve espaço de tempo, uma tal alteração de perspectiva?
Foi simplesmente o facto de que a fé cristã já então se defrontava com novos horizontes culturais e teve de fazer frente aos desafios próprios dessa nova cultura, que era a cultura helénica.
De facto, eram muitos os factores que contribuíam para tornar inaceitável, nessa nova cultura, o anúncio de Deus vindo ao mundo de forma carnal.
Antes de mais, um factor teológico:
Como podia Deus, que é imutável e impassível, submeter-se a um nascimento, a um crescimento e sobretudo ao sofrimento da cruz?
Um factor cosmológico:
A matéria é o reino de um Deus inferior (o Demiurgo) e é incapaz de conseguir a salvação; como se podia então atribuir a Deus um corpo material?
Um factor antropológico:
É a alma que constitui o homem verdadeiro, que é de natureza celeste e divina; o corpo (soma) é mais o túmulo (sema) que o companheiro da alma; porque razão o Salvador, que veio libertar a alma prisioneira da matéria, deveria Ele próprio sepultar-se num corpo?
E por fim, um factor cristológico:
Como podia Cristo ser o «homem sem pecado» se Ele teve contactos com a matéria que é má em si mesma?
Como poderia pertencer ao mundo de Deus se pertence ao mundo sensível o qual é incompatível com aquele? [vii]

A Igreja teve de conquistar, se assim se pode dizer, palmo a palmo, a sua fé na humanidade de Cristo.
Uma conquista que só se concluiu no século VII, na luta contra a heresia monotelita, conquistou a certeza da existência, em Cristo, também de uma vontade e liberdade humanas.
Cristo, portanto, teve um corpo e este corpo era dotado de uma alma e esta alma era livre!
Ele foi, por isso, verdadeiramente (em tudo semelhante a nós».

Todas estas conquistas, excepto a última, que foi obtida mais tarde, entraram na definição dogmática de Calcedónia, onde se lê que Cristo é «perfeito na divindade e perfeito na humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, resultante de uma alma racional e de um corpo, consubstancial ao Pai quanto è divindade e consubstancial aos homens quanto à humanidade, feito em tudo semelhante a nós, excepto no pecado» [viii].

Assim se formou o dogma de Cristo «verdadeiro homem», que permaneceu operante e inalterável até aos nossos dias.

(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Jo 10,33.
[ii] 1Jo 4,2-3; 2Jo 7.
[iii] Stº Inácio de Antioquia, Ad. Trall., 9-10
[iv] Tertuliano, De carne Christi, 1,2ss. (CC 2,873).
[v] Tertuliano, De carne Christi, 5,3. (CC 2,8881).
[vi] Ef 4,13.
[vii] Fr. J. Davies, «The origins of docetism», im Studia Patristíca, VI (TuV, 87, Berlim, 1962, p. 13-15.
[viii] Denzinger-Schönmetzer, Enchiridon Symbolorum, Herder, 1967, n. 391.

Temas para meditar

A força do Silêncio, 291


Não existe acção verdadeira nem grande decisão sem o silêncio da oração que as precede.




CARDEAL ROBERT SARAH

Tratado da vida de Cristo 186

Os sacramentos em geral 

Questão 60: Dos Sacramentos


Na primeira questão discutem-se oito artigos:

Art. 1 — Se o sacramento é genericamente um sinal.
Art. 2 — Se todo sinal de uma coisa sagrada é sacramento.
Art. 3 — Se o sacramento não é sinal senão de uma só coisa.
Art. 4 — Se um sacramento é sempre uma realidade sensível.
Art. 5 — Se os sacramentos implicam coisas determinadas.
Art. 6 — Se para significar os sacramentos são necessárias palavras.
Art. 7 — Se os sacramentos exigem palavras determinadas.
Art. 8 — Se é lícito fazer algum acréscimo às palavras nas quais consiste a forma dos sacramentos.

Art. 1 — Se o sacramento é genericamente um sinal.

O primeiro discute-se assim. — Parece que o sacramento não é genericamente um sinal.

1. Pois a palavra sacramento vem de sacrar, como medicamento de medicar. Ora, essa noção implica antes a ideia de causa que a de sinal. Logo, o sacramento é genericamente antes uma causa que um sinal.

2. Demais. — Sacramento significa alguma coisa de oculto, segundo a Escritura: É bom conservar escondido o sacramento do rei. E o Apóstolo diz: Qual seja a comunicação do sacramento escondido desde os séculos em Deus. Ora, o escondido é contrário à ideia de sinal, pois, como diz Agostinho, sinal é aquilo que sugere ao nosso pensamento uma realidade diferente da apreendida pelos sentidos. Logo, parece que o sacramento não é genericamente um sinal.

3. Demais. — Às vezes o juramento é chamado sacramento. Assim, diz um Decretal: As crianças, ainda sem o uso da razão, não sejam compelidas a jurar; e a que uma vez tiver perguntado, nem seja depois disso testemunha, nem se achegue ao sacramento, isto é, ao juramen­to. Ora, o juramento não inclui nenhuma ideia de sinal. Logo, parece que o sacramento não é genericamente um sinal.

Mas, em contrário, Agostinho diz: O sacrifício visível é o sacramento, isto é, o sinal sacro do sacrifício invisível.

Todas as coisas ordenadas a uma terceira, embora de modos diversos, podem receber dessa a sua denominação. Assim, da sua saúde tira o apelativo de são não somente o animal, sujeito da saúde, mas também — a medicina, sã enquanto efectiva da saúde; a dieta, enquanto conservadora dela, e a urina, enquanto significativa da mesma. Do mesmo modo, podemos chamar sacramento ao que tem em si uma santidade oculta, e então sacramento é o mesmo que segredo sacro; ou ao que se ordena de certo modo a essa santidade como causa, ou o sinal ou segundo outra relação qualquer. E neste sentido o sacramento é considerado genericamente como um sinal.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A medicina comporta-se como causa eficiente da saúde; donde vem que tudo o que dela tira a sua denominação implica dependência de um agente primeiro; e por isso o medicamento supõe de certo modo uma causalidade. Mas a santidade, onde haure o sacramento o seu apelativo, não implica um sentido de causa eficiente, mas antes, o de causa formal ou final. Donde, não é necessário que o sacramento suponha sempre a causalidade.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A objecção colhe, sendo sacramento o mesmo que sacro segredo. Assim, chamamos secreto não só o que é de Deus, mas também dizemos que é sacro e sacramento o que respeita a um rei. Porque os antigos denominavam santo ou sacramento tudo o que não era lícito violar; tais os muros da cidade e as pessoas constituídas em dignidade. Por isso aqueles segredos, divinos ou humanos, que a ninguém é lícito violar, publicando-os, chamam-se sacros ou sacramentos.

RESPOSTAS À TERCEIRA. — Também o juramento tem de certo modo relação com as coisas sagradas, enquanto é uma espécie de contestação feita mediante algo de sagrado. Por isso dizemos que o juramento é um sacramento não no mesmo sentido em que agora nos referimos aos sacramentos. Pois, não é a denominação de sacramento tomada equivocamente, mas em sentido analógico, isto é, segundo a diversidade de relação com um termo determinado, isto é, a causa sagrada.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Pequena agenda do cristão

DOMINGO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?