03/06/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)



Tempo comum IX Semana


Evangelho: Mc 12 18-27

18 Foram ter com Ele os saduceus, que negam a ressurreição, e interrogaram-n'O, dizendo: 19 «Mestre, Moisés deixou-nos escrito que, se morrer o irmão de alguém e deixar a mulher sem filhos, seu irmão tome a mulher dele e dê descendência a seu irmão. 20 Ora havia sete irmãos. O primeiro casou e morreu sem deixar filhos. 21 O segundo casou com a viúva e morreu também sem deixar filhos. Do mesmo modo o terceiro. 22 Nenhum dos sete deixou filhos. Depois deles todos, morreu também a mulher. 23 Na ressurreição, pois, quando tornarem a viver, de qual deles será ela mulher? Porque os sete a tiveram por mulher». 24 Jesus respondeu-lhes: «Não andareis vós em erro, porque não compreendeis as Escrituras, nem o poder de Deus? 25 Quando ressuscitarem de entre os mortos, nem os homens tomarão mulheres, nem as mulheres maridos, mas todos serão como anjos do céu. 26 Relativamente à ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés, como Deus lhe falou sobre a sarça, dizendo: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob”? 27 Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos. Logo vós estais num grande erro».

Comentário:

Para tentar justificar uma opinião há quem recorra aos argumentos mais bizarros e sem nexo. A reacção comum é, talvez na grande maioria dos casos, um gesto de enfado ou um sorriso de troça.
Jesus Cristo tem, de facto, uma paciência infinita, já o sabemos, mas, além dessa lição que nos dá, junta uma outra de grande importância: nunca devemos desprezar uma ocasião para dar doutrina, esclarecer dúvidas ou aclarar questões, mesmo que, não seja exactamente isso que procura quem nos interpela.
Mesmo a tentativa de ridicularizar algo tão extraordinário como é a Ressurreição dos mortos – artigo da Fé Cristã – é aproveitada para, de forma lapidar, Cristo explicar sem rodeios nem imprecisões, antes com meridiana clareza, que Deus é Eterno e nós homens, filhos adoptivos de Deus em Jesus Cristo, estamos destinados a participar com Ele na bem-aventurança eterna.

(ama, comentário sobre Mc 12, 18-27, 2013.06.05)


Leitura espiritual



a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS


III a eucaristia


…/3

       

os quatro fins da celebração eucarística


       
        Propiciatório.

N instituição da Eucaristia Cristo já anuncia a Sua Ressurreição «para remissão dos pecados».
O triunfo definitivo sobre o pecado e a morte.
A vontade de Deus é a salvação do homem.

        A Cruz pertence ao mistério divino da salvação.
É expressão do amor de Deus até ao extremo [1].
O seguimento de Cristo vivendo a Missa é participação na sua Cruz, é união com o seu Amor.
Na Missa a nossa vida transforma-se.
Na Missa nasce o homem novo criado segundo Deus.
Quem omite a Cruz, quem abandona a Missa, esquece a essência do cristianismo.
São Paulo recorda-o claramente: «Que nunca me gabei a vós de saber coisa alguma mas só a Jesus Cristo e este crucificado» [2].

        Vivendo a Missa todo o viver do homem, gozos e tristezas, prazeres e dores, êxitos e fracassos, saúde e doença adquirem sentido de redenção: participam na Cruz e na Ressurreição de Cristo.

        Impetratório:

«O sacrifício da Missa oferece-se a Deus (…) para alcançar todas as graças que nos são necessárias e por isto se chama impetratório» [3].

        Se detemos a nossa atenção no sentido último das petições que dirigimos a Deus descobriremos que toda a súplica do cristão leva consigo o anseio da vida eterna, da vida que dá sentido a todos os anseios que, na terra, enchem o nosso espírito e para o que rogamos humildemente a ajuda divina.

        Na celebração da Eucaristia tem lugar a apresentação a Deus Pai do triunfo definitivo de Jesus Cristo, Deus Filho, sobre o pecado e sobre a morte.
Abrem-se, portanto, todas as riquezas do Céu e Cristo põe-nas à disposição dos homens ao separar de nós o obstáculo que nos impedia de as receber.

        A petição que o cristão pode dirigir a Deus Pai no sacrifício da Santa Missa alcança todas as necessidades do vivos e dos defuntos que ainda não tenham chegado ao Céu e não estejam no Inferno.

        Por vezes podemos sentir-nos algo egoístas ao mostrar ao Senhor as nossas necessidades e indigências pedindo-lhe que lhe dê remédio, e fazer esta petição precisamente no momento no qual estamos em união mais íntima e profunda com Ele.
Todavia, tendo em conta que as nossas petições a Deus adquirem sentido, se vão unidas às de Cristo na sua morte e ressurreição, na celebração da Eucaristia adquirem vigência especial as palavras do próprio Senhor:
«O que pedirdes em meu nome, isso fá-lo-ei para que o Pai seja glorificado no Filho» [4].

        Na realidade, na Eucaristia as nossas súplicas unem-se à vontade salvadora de Deus Pai, Filho e Espírito Santo.
As nossas petições abrem e preparam os nossos corações para receber o que Deus quer dar-nos e possibilita que nos alegremos em receber e Deus se alegre em dar.

        Eucarístico

«A Eucaristia é um sacrifício de acção de graças ao Pai, uma bênção pela qual a Igreja expressa o seu reconhecimento a Deus por todos os seus benefícios, por tudo o que realizou mediante a criação, a redenção e a santificação.
«Eucaristia» significa, antes de tudo, acção de graças.

        Nos escritos sobre a vida cristã talvez se tenha sublinhado de forma muito particular, a acção de graças reconhecendo a bondade de Deus que quer que participemos do viver do seu Filho, da sua obra de redenção e de santificação, ao celebrar com Cristo a Santa Missa desde o mais profundo de nós mesmos.

        Essa união na sua obra e o compromisso de viver em fidelidade com essa união, corroborada com a recepção da Sagrada Hóstia, torna possível que o cristão vá levando a cabo a sua tarefa da sua conversão em Cristo, em «outro Cristo», no «próprio Cristo», e assim alcance r4ealizar todas as suas acções, todo o seu viver: «por Cristo, como Ele e nele», e assim converter a Missa no centro da sua vida [5].

        «A Sagrada Eucaristia introduz nos filhos de Deus a novidade divina e, devemos responder (…) com uma renovação de todo o nosso sentir e de todo o nosso actuar.
Deu-se-nos um novo princípio de energia, uma raiz poderosa, enxertada no Senhor.
Não podemos voltar à levedura antiga, nós que temos o Pai de agora e de sempre» [6].

        Desta forma o cristão está em condições de «dar a Deus Pai omnipotente, em unidade com o Espírito Santo, toda a honra e toda glória pelos séculos dos séculos» [7].

        E esta glória e esta honra ficam mais evidentes se consideramos que «A Eucaristia é verdadeiramente um resquício do Céu que se bare sobre a terra.
É um raio da glória da Jerusalém celestial que penetra nas nuvens da nossa história e projecta luz sobre o nosso caminho» [8].

        De facto a Eucaristia também se celebra no Céu; podemos ousar dizer que não é nem sequer um adianto do céu, é próprio céu no altar da terra.

        Os fiéis só podem viver a Eucaristia na união com a vida, a paixão, morte e ressurreição de Cristo sob a acção do Espírito Santo.
Seguindo assim os passos de Cristo que se encarnou, ressuscitou, foi elevado e subiu ao Céu por obra e garça do Espírito Santo» [9].

        Viver a Eucaristia com Cristo, insistimos, possibilita que toda a vida do cristão seja verdadeiramente uma missa e esteja sempre «voltado para Deus» com o seu coração, com a sua alma, convertido a Deus.



iv o processo da conversão



        Com a oração e vivendo a Eucaristia o cristão dá ensejo a que o processo da sua conversão pessoal vá tomando corpo no interior do seu espírito.
O convite de Cristo é constante:
«Cumpriu-se o tempo e está próximo o Reino de Deus, fazei penitência e acreditai no Evangelho» [10]. E com palavras semelhantes encontramos esse convite do Senhor à conversão em Mateus e em São Lucas.

        A conversão é um processo que durará toda a vida, procurando o Senhor deixando-se encontrar por Ele para viver sempre com Ele e nele.
Ao ser uma exigência necessária no viver cristão, a conversão pode apresentar-se de uma forma muito árdua e aparentemente difícil de levar acabo.
Na realidade não é assim.

        João Paulo II recorda:

«A conversão a Deus consiste sempre em descobrir a sua misericórdia, quer dizer esse amor que é ‘paciente e benigno’ a medida do Criador e Pai, o amor a que Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, é fiel até às últimas consequências na história da aliança com o homem até à cruz, até  à morte, até à Ressurreição do seu Filho.
A conversão a Deus é sempre fruto do «reencontro» com este Pai rico em misericórdia» [11].

        Detemo-nos nestas páginas a examinar com detalhe todo o processo da conversão.
Para os fins deste livro é suficiente assinalar que a conversão deve ser uma disposição estável no ânimo do cristão, de forma a viver em «statu conversiones» uma vez que se tenha dado conta que, para viver, é necessário voltar-se sem cessar para Cristo e deixar-se transformar continuamente pela acção da Graça.

        Baste-nos aqui assinalar que a conversão é fruto de «arrepender-se» e «acreditar no Evangelho».

        Desde há muitos séculos este processo de conversão foi especialmente conhecido com duas qualificações: «luta ascética» e «combate espiritual».

Ambos significam o mesmo e comportam idêntica forma de ver o processo de conversão.


(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)






[1] Cfr. Jo 13, 1
[2] 1 Co 2, 2
[3] Catecismo Mayor de San Pio X, n. 660
[4] Jo 14, 13
[5] Cfr. São Josemaria Escrivá, Es Cristo que pasa, n. 154
[6] Cfr. São Josemaria Escrivá, Es Cristo que pasa, n. 155
[7] Fim das orações eucarísticas
[8] Juan Pablo II, Ecclesia de Eucharistia, n. 19
[9] Cfr. Catecismo, n. 648
[10] Mc 1, 15
[11] Juan Pablo II, Dives in misericordia, n. 13

Temas para meditar - 445

Liberdade 




Liberdade é poder, não de agir sem motivo, mas de determinar quais os motivos que nos devem decidir. Usar este poder é ser livre.




(a. veloso, BROTÉRIA, Vol. LVII, Fasc. 5, 1953, pag. 396)

Servidores de todos os homens

Quando se vive deveras a caridade, não sobra tempo para procurar-se a si próprio; não há espaço para a soberba; só nos ocorrerão ocasiões de servir! (Forja, 683)

Pensai nas características dum jumento, agora que vão ficando tão poucos. Não falo dum burro velho e teimoso, rancoroso, que se vinga com um coice traiçoeiro, mas dum burriquito jovem, com as orelhas tesas como antenas, austero na comida, duro no trabalho, com o trote decidido e alegre. Há centenas de animais mais formosos, mais hábeis e mais cruéis. Mas Cristo preferiu este para se apresentar como rei diante do povo que O aclamava, porque Jesus não sabe que fazer da astúcia calculadora, da crueldade dos corações frios, da formosura vistosa mas vã. Nosso Senhor ama a alegria dum coração moço, o passo simples, a voz sem falsete, os olhos limpos, o ouvido atento à sua palavra de carinho. E é assim que reina na alma.

Se deixarmos que Cristo reine na nossa alma, não nos tornaremos dominadores; seremos servidores de todos os homens. Serviço. Como gosto desta palavra! Servir o meu Rei e, por Ele, todos os que foram redimidos com o seu sangue. (Cristo que passa, nn. 181–182)


Pequena agenda do cristão


Quarta-Feira

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.

02/06/2015

O que pode ver em NUNC COEPI em 02 de Junho

São Josemaria – Textos

A beleza de ser cristão (Ernesto Juliá), AMA - Comentários ao Evangelho Mc 12 13-17, Ernesto Juliá Diaz

Garrigou-Lagrange, Las Três Edades de la Vida interior (R. Garrigou-Lagrange), Magnanimidade

Bento XVI - Pensamentos espirituais

Suma Teológica - Tratado da Vida de Cristo - Quest 27- Art 6, São Tomás de Aquino


Agenda Terça-Feira

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)



Tempo comum IX Semana

Evangelho: Mc 12 13-17

13 Enviaram-Lhe alguns dos fariseus e dos herodianos, para que O apanhassem em alguma palavra. 14 Chegando eles, disseram-Lhe: «Mestre, sabemos que és verdadeiro, que não atendes a respeitos humanos; porque não consideras o exterior dos homens, mas ensinas o caminho de Deus segundo a verdade: É lícito pagar o tributo a César, ou não? Devemos pagar ou não?». 15 Jesus, reconhecendo a sua hipocrisia, disse-lhes: «Porque Me tentais? Trazei-Me um denário para Eu ver». 16 Eles o trouxeram. Então disse-lhes: «De quem é esta imagem e esta inscrição?». Responderam-Lhe: «De César». 17 Então Jesus disse-lhes: «Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus». E admiravam-n'O.


Comentário:



São Marcos termina este trecho do Evangelho com uma frase surpreendente: «E admiravam-n'O»

De facto, a resposta de Jesus é de tal forma simples e elaborada ao mesmo tempo que não poderia ser proferida senão por Ele próprio. Encerra uma sabedoria e critério que a tornam irrefutável e inatacável.

Mas, também, contém uma altíssima expressão da Justiça de Deus: dar a cada um o que lhe pertence, mesmo que seja o próprio autor da Criação.

O Senhor não quer para Si nada que não Lhe pertença por direito e, embora seja o Senhor de quanto existe deixa aos homens a parte que por justiça lhes é atribuída.

(ama, comentário sobre Mc 12, 13-21, 2015.05.28)


Leitura espiritual



a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS


III a eucaristia


…/2

        Se a oração tem origem no Espírito Santo Cristo leva-a a cabo em nós e dirige-se sempre a Deus Pai.
Nesta acção da Trindade na sua alma o cristão situa-se ante Deus, em Deus.

        Na Missa é o próprio Cristo quem nos convida a viver com Ele o oferecimento da Sua vida, da Sua morte, da Sua ressurreição a Deus Pai e vivemos em por Cristo, em Cristo e com Cristo  por obra e graça do Espírito Santo.

        Bento XVI recorda-o explicitamente:
«a liturgia eucarística é essencialmente actio Dei que nos une a Jesus através do Espírito» [1].
A Eucaristia é verdadeiramente a «fonte e cume de toda a vida cristã» [2]; ou com palavras de São Josemaria Escrivá: «centro e raiz da vida interior» [3].

        Assim, assente em união contínua com Deus a vida do cristão enxertada como está em Cristo, há-de reflectir a própria vida de Cristo tendo em conta a missão de testemunha da Ressurreição que todo o cristão há-de viver.
O viver a Missa torna possível que esse «mistério» do testemunho tenha lugar nas complexidades e variedades do viver de cada cristão no seu trabalho, nas suas relações familiares e sociais, nas suas actividades desportivas, em suma, em todo o seu afazer que será engendrado no seu «ser cristão».
A Eucaristia é «mistério que crer, mistério que celebrar, mistério que viver» [4], em Cristo ressuscitado.

        Como?
O crente dispõe-se a viver a Missa pedindo perdão pelos seus pecados e ofensas a Deus.
Tal significa que aceita com os braços abertos e o coração agradecido a redenção que Cristo lhe oferece e está decidido a oferecer a Deus Pai, movido pelo Espírito Santo, a vida, a morte, a ressurreição do Cristo.

        O oferecimento é com Cristo, em Cristo, por Cristo.
Ou seja, não de fora das próprias acções que se oferecem nem da Pessoa que as oferece, como se o crente fosse um espectador de um acontecimento de que só as consequências o afectarão.

        O crente oferece a Missa – em virtude do seu «sacerdócio comum» como recordaremos mais adiante – como um autêntico «actor» do acontecimento porque «celebra» a Missa com o próprio Cristo e Cristo celebra-a no interior do espírito de cada cristão.

        A missão divina a que Cristo nos chamou requere essa união vital, forte, com Deus.
Uma união que permita a cada cristão fazer suas as palavras de Cristo:
«Quando elevardes o Filho do Homem conhecereis que Eu sou e que não faço nada por minha conta mas digo o que o Pai me ensinou. O que me enviou está comigo e não me deixa só porque eu faço sempre o que Lhe agrada» [5].

        O verdadeiro sentido da Missa é poder viver o que Cristo viveu para a redenção da morte e do pecado e abrir aos homens as portas do Céu.
Daqui que quando se pretende reduzir a celebração da Eucaristia à simples e singela participação num banquete se acaba desconhecendo a verdadeira perspectiva do viver cristão.
O crente pode converter-se num simples convidado a presenciar uma série de acções que têm lugar num altar, a responder umas palavras a frases que o Sacerdote diz e a ter assim a sensação de ter cumprido com «algo» que não entende e no que tão pouco vê particular significado.


***

        Para ajudar os fiéis a penetrar no verdadeiro sentido da celebração eucarística e para que cheguem a ser conscientes do que está acontecendo ante o seu olhar, de forma semelhante a como se fossem os Apóstolos a participar com Cristo na instituição da Eucaristia, a Igreja tem-se servido, durante séculos, da consideração dos quatro fins da Missa que a seguir veremos.


os quatro fins da celebração eucarística


        Na Igreja é muito clássica a consideração dos quatro fins pelos quais se oferece a Deus Pai a vida, a paixão, a morte e a ressurreição de Deus Filho, movidos por Deus Espírito Santo.

        Para compreender no seu sentido genuíno o significado destes fins temos de ter presente que a Eucaristia é uma acção de Cristo, sacerdote e vítima, que Cristo deseja realizar sacramentalmente em nós e connosco e que cada vez que se celebra a Santa Missa o sacerdote e cada um dos participantes na celebração apresentam, «em Cristo, com Cristo e por Cristo», toda a vida redentora de Cristo, a sua morte e a sua ressurreição a Deus Pai guiados pelo Espírito Santo.
Ou seja, faz sua a vida de Cristo e une a sua própria vida à vida de Cristo.

        Cristo poderia viver e oferecer a sua vida redentora ao Pai de uma vez por todas e, de facto, assim foi, assim é.
E, além do mais, esse único oferecimento quis vivê-lo em união com cada ser humano e que cada ser humano o viva com Ele.

        Temos de sublinhar que a acção de Cristo não é uma «apresentação» que Cristo faz conjuntamente com cada crente, mas que a realiza a partir do interior de cada crente, de forma que cada cristão vive a acção eucarística na medida em que é «o próprio Cristo», na medida e pela graça de estar enxertado em Cristo.

        Tudo isto quer significar uma realidade difícil, certamente, de expressar porque supõe viver o facto de estar «enxertados» em Cristo e converter toda a nossa vida em vida cristã, em vida de Cristo.
Vivendo com Cristo e em Cristo é como a Eucaristia leva à plenitude se ser e de sentido de estar enxertados em Cristo.
Cada crente nascido no Baptismo para a vida da graça, pode crescer e desenvolver-se como «nova criatura».

        «Quando participamos da Eucaristia experimentamos a espiritualização deificante do Espírito Santo que não só nos configura com Cristo, como acontece no Baptismo, como nos cristifica (nos converte em Cristo) por inteiro associando-nos à plenitude de Cristo Jesus» [6].

        Na Eucaristia Cristo leva a cabo a obra que agrada a Deus «a redenção do mundo» e nós vivemo-la com Ele.

        Com palavras simples podemos dizer que Cristo quer que nós vivamos com Ele e nele toda a sua vida, paixão, morte e ressurreição, Ele dá-se-nos como alimento na Comunhão para depois viver Ele toda a vida de cada um de nós em nós próprios.

        Talvez possamos assimilar melhor o conteúdo destas afirmações se paramos a nossa atenção com alguma pausa nos assim chamados fins da celebração eucarística.

        Estes quatro fins são: latrêutico, propiciatório, impetratório, eucarístico.
Ao vivê-los tem lugar essa plenitude de união com Cristo porque nos vinculamos à vida de Cristo, à sua missão.

        Ele quer que vivamos a Eucaristia.
«Fazei isto em minha memória»
Só em sua memória?
O Cristo que pronunciou estas palavras já existe de outro modo.
Deixou a «mortalidade».
Melhor: o mortal converteu-se em eterno, o seu corpo glorioso é o mesmo corpo mortal glorificado.
Acaso e Senhor quer que simplesmente recordemos os seus gestos aqui na terra?

        Não.
Insistimos.
Na Eucaristia Cristo vive com cada homem todo o seu próprio viver: a sua Encarnação, a sua Paixão e Morte, a sua Ressurreição, a sua Ascensão ao Céu.

        E todo o significado último da sua vida pode expressar-se nestes quatro fins:

        Latrêutico.
Ao oferecer o sacrifício de Cristo, o cristão une-se ao louvor de Deus Filho a deus Pai, louvor em que participa toda a criação porque é uma glorificação de Deus na criação que se vê liberta do pecado e da morte, «pela manifestação dos filhos de Deus», cada vez que se celebra a Eucaristia.

        O final da oração eucarística expressa claramente esta acção que encarna a mais completa adoração a Deus que o homem pode viver e oferece a Deus não só a partir do seu próprio coração, mas também do próprio seio da Trindade Beatíssima:

        «Por Cristo, com Ele e nele, a Ti, Deus Pai omnipotente na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda glória pelos séculos dos séculos».
Vivendo a Missa toda a vida do cristão é «adoração».

        Propiciatório.
Cristo, «ao amar-nos até ao fim» oferece-se em sacrifício por nós.
«O carácter sacrificial da Eucaristia manifesta-se nas próprias palavras da instituição:
«Isto é o meu Corpo que será entregue por vós» e «Este cálice é a nova Aliança do meu sangue, que será derramado por vós» [7].
Na Eucaristia Cristo oferece por nó o mesmo corpo que entregou na cruz e o mesmo sangue que «derramou por muitos para remissão dos pecados» [8].[9]




(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)






[1] Benedito XVI, Sacramentum caritatis, n. 37
[2] Lumen gentium, 11
[3] São Josemaria Escrivá, Forja, n. 69
[4] Benedito XVI, Sacramentum caritatis, n. 37
[5] Jo 8, 28-29
[6] São Cirilo de Jerusalén, Cathequeses, 22, 3
[7] Lc 22, 19-20
[8] Mt 26, 28
[9] Catecismo, n. 1365

Temas para meditar - 444

Magnanimidade  



O magnânimo coloca-se ideais altos e não se aninha ante os obstáculos, nem as críticas, nem os desprezos, quando há que os suportar por uma causa elevada. De nenhuma forma se deixa intimidar pelos respeitos humanos nem por um ambiente adverso e tem em muito pouca conta as murmurações. Importa-lhe muito mais a verdade que as opiniões, com frequência falsas e parciais.



(R. GARRIGOU-LAGRANGE, Las tres edades de la vida interior, vol. I, p. 316. trad ama)

Tratado da vida de Cristo 6 – Jun 02

Questão 27: Da santificação da Virgem Maria

Art. 6 — Se ser santificada no ventre materno foi, depois de Cristo, próprio à Santa Virgem.

 O sexto discute-se assim. — Parece que ser santificada no ventre materno foi, depois de Cristo, próprio à Santa Virgem.

1. — Pois, como se disse, a Santa Virgem foi santificada no ventre materno para tornar-se, assim, idónea para ser Mãe de Deus. Ora, isto foi-lhe próprio a ela. Logo, só ela foi santificada no ventre materno.

2. Demais. — Alguns foram mais próximos de Cristo, que Jeremias e João Baptista, dos quais refere a Escritura, que foram santificados no ventre materno. Pois, Cristo é especialmente chamado filho de David e de Abraão, por causa da promessa a eles especialmente feita, a respeito de Cristo. E também Isaías mui expressamente profetisou sobre Cristo. Os Apóstolos, por seu lado, conviveram com o próprio Cristo. E contudo de nenhum desses se lê que fosse santificado no ventre materno. Logo, nem Jeremias nem João Baptista poderiam tê-lo sido.

3. Demais. — Job diz de si: Desde a minha infância cresceu comigo a comiseração, e do ventre de minha mãe saía comigo. Nem por isso, contudo, dizemos que foi santificado no ventre materno. Logo, também não somos forçados a admitir que João Baptista e Jeremias foram santificados no ventre materno.

Mas, em contrário, diz a Escritura, de Jeremias: Antes que eu te formasse no ventre de tua mãe, te santifiquei. E, de João Baptista: Já desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo.

Agostinho manifesta alguma dúvida quanto à santificação das duas referidas personagens, no ventre materno. Pois, diz, o salto de João no ventre materno podia significar que esse tão grande acontecimento, a saber, que a mulher seria a Mãe de Deus, deveria ser conhecido pelos pais da criança concebida, e não por ela. Por isso, o Evangelho não diz – O menino creu, no ventre, mas — deu saltos. Ora, saltos nós vemo-los darem não só as crianças, mas também os animais. Mas, os de que tratamos foram insólitos, por terem sido no ventre materno. E assim, como soem se fazerem os milagres, esses saltos o menino deu-os por acção divina e não por suas próprias e humanas forças. Embora também pudéssemos admitir que, nesse menino, o uso da razão e da vontade foi de tal modo precoce que, ainda nas vísceras maternas, já pudesse conhecer, crer, consentir, o que só em idade mais avançada o podem as outras crianças; e isso penso dever ser atribuído a milagre do poder divino.

Mas, como o Evangelho diz expressamente de João, que já desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo; e também expressamente, de Jeremias: Antes que eu te formasse no ventre de tua mãe te santifiquei, devemos admitir, que foram santificados no ventre materno, embora não tivessem o uso do livre arbítrio, que é questão levantada por Agostinho; assim como também as crianças santificadas pelo baptismo não têm desde então o uso do livre arbítrio. Nem devemos crer que quaisquer outros fossem santificados no ventre materno, dos quais nenhuma menção faz a Escritura; pois, tais privilégios da graça, conferidos a alguns fora da lei geral, ordenam-se ao privilégio dos outros, segundo o Apóstolo: A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito. Ora, essa utilidade seria nula se a Igreja não soubesse quem fosse santificado no ventre materno. E embora não possamos a razão dos juízos de Deus e porque foi esse dom da graça conferido a um, de preferência a outro, foi contudo conveniente que João Baptista e Jeremias fossem santificados no ventre materno, para prefigurarem a santificação que havia de ser operada por Cristo. Primeiro, pela sua paixão, conforme o Apóstolo: Também Jesus, para que santificasse ao povo pelo seu sangue, padeceu fora da porta. Cuja paixão, Jeremias mui claramente anunciou, com palavras e com mistérios, e pelos seus sofrimentos muito expressamente prefigurou. Segundo, pelo baptismo, como diz o Apóstolo: Mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados. Para cujo baptismo João preparou os homens, pelo seu baptismo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A Santa Virgem, escolhida por Deus como mãe, recebeu mais ampla graça de santificação que João Baptista e Jeremias, que foram eleitos como especiais pre-figurantes da santificação de Cristo. E a prova é que à Santa Virgem foi concedido que, no futuro, não pecasse, nem mortal nem venialmente; ao passo que aos outros santificados cremos lhes foi concedido que, no futuro não pecassem, por protecção da graça divina.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Por outros lados podiam os santos estar mais unidos a Cristo que Jeremias e João Baptista; os quais, contudo mais unidos estavam com ele, como figuras expressivas que eram, da santificação dele, como se disse.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A comiseração a que se refere Job não significa a virtude infusa, mas uma certa inclinação natural para o acto.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.