02/06/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)



Tempo comum IX Semana

Evangelho: Mc 12 13-17

13 Enviaram-Lhe alguns dos fariseus e dos herodianos, para que O apanhassem em alguma palavra. 14 Chegando eles, disseram-Lhe: «Mestre, sabemos que és verdadeiro, que não atendes a respeitos humanos; porque não consideras o exterior dos homens, mas ensinas o caminho de Deus segundo a verdade: É lícito pagar o tributo a César, ou não? Devemos pagar ou não?». 15 Jesus, reconhecendo a sua hipocrisia, disse-lhes: «Porque Me tentais? Trazei-Me um denário para Eu ver». 16 Eles o trouxeram. Então disse-lhes: «De quem é esta imagem e esta inscrição?». Responderam-Lhe: «De César». 17 Então Jesus disse-lhes: «Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus». E admiravam-n'O.


Comentário:



São Marcos termina este trecho do Evangelho com uma frase surpreendente: «E admiravam-n'O»

De facto, a resposta de Jesus é de tal forma simples e elaborada ao mesmo tempo que não poderia ser proferida senão por Ele próprio. Encerra uma sabedoria e critério que a tornam irrefutável e inatacável.

Mas, também, contém uma altíssima expressão da Justiça de Deus: dar a cada um o que lhe pertence, mesmo que seja o próprio autor da Criação.

O Senhor não quer para Si nada que não Lhe pertença por direito e, embora seja o Senhor de quanto existe deixa aos homens a parte que por justiça lhes é atribuída.

(ama, comentário sobre Mc 12, 13-21, 2015.05.28)


Leitura espiritual



a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS


III a eucaristia


…/2

        Se a oração tem origem no Espírito Santo Cristo leva-a a cabo em nós e dirige-se sempre a Deus Pai.
Nesta acção da Trindade na sua alma o cristão situa-se ante Deus, em Deus.

        Na Missa é o próprio Cristo quem nos convida a viver com Ele o oferecimento da Sua vida, da Sua morte, da Sua ressurreição a Deus Pai e vivemos em por Cristo, em Cristo e com Cristo  por obra e graça do Espírito Santo.

        Bento XVI recorda-o explicitamente:
«a liturgia eucarística é essencialmente actio Dei que nos une a Jesus através do Espírito» [1].
A Eucaristia é verdadeiramente a «fonte e cume de toda a vida cristã» [2]; ou com palavras de São Josemaria Escrivá: «centro e raiz da vida interior» [3].

        Assim, assente em união contínua com Deus a vida do cristão enxertada como está em Cristo, há-de reflectir a própria vida de Cristo tendo em conta a missão de testemunha da Ressurreição que todo o cristão há-de viver.
O viver a Missa torna possível que esse «mistério» do testemunho tenha lugar nas complexidades e variedades do viver de cada cristão no seu trabalho, nas suas relações familiares e sociais, nas suas actividades desportivas, em suma, em todo o seu afazer que será engendrado no seu «ser cristão».
A Eucaristia é «mistério que crer, mistério que celebrar, mistério que viver» [4], em Cristo ressuscitado.

        Como?
O crente dispõe-se a viver a Missa pedindo perdão pelos seus pecados e ofensas a Deus.
Tal significa que aceita com os braços abertos e o coração agradecido a redenção que Cristo lhe oferece e está decidido a oferecer a Deus Pai, movido pelo Espírito Santo, a vida, a morte, a ressurreição do Cristo.

        O oferecimento é com Cristo, em Cristo, por Cristo.
Ou seja, não de fora das próprias acções que se oferecem nem da Pessoa que as oferece, como se o crente fosse um espectador de um acontecimento de que só as consequências o afectarão.

        O crente oferece a Missa – em virtude do seu «sacerdócio comum» como recordaremos mais adiante – como um autêntico «actor» do acontecimento porque «celebra» a Missa com o próprio Cristo e Cristo celebra-a no interior do espírito de cada cristão.

        A missão divina a que Cristo nos chamou requere essa união vital, forte, com Deus.
Uma união que permita a cada cristão fazer suas as palavras de Cristo:
«Quando elevardes o Filho do Homem conhecereis que Eu sou e que não faço nada por minha conta mas digo o que o Pai me ensinou. O que me enviou está comigo e não me deixa só porque eu faço sempre o que Lhe agrada» [5].

        O verdadeiro sentido da Missa é poder viver o que Cristo viveu para a redenção da morte e do pecado e abrir aos homens as portas do Céu.
Daqui que quando se pretende reduzir a celebração da Eucaristia à simples e singela participação num banquete se acaba desconhecendo a verdadeira perspectiva do viver cristão.
O crente pode converter-se num simples convidado a presenciar uma série de acções que têm lugar num altar, a responder umas palavras a frases que o Sacerdote diz e a ter assim a sensação de ter cumprido com «algo» que não entende e no que tão pouco vê particular significado.


***

        Para ajudar os fiéis a penetrar no verdadeiro sentido da celebração eucarística e para que cheguem a ser conscientes do que está acontecendo ante o seu olhar, de forma semelhante a como se fossem os Apóstolos a participar com Cristo na instituição da Eucaristia, a Igreja tem-se servido, durante séculos, da consideração dos quatro fins da Missa que a seguir veremos.


os quatro fins da celebração eucarística


        Na Igreja é muito clássica a consideração dos quatro fins pelos quais se oferece a Deus Pai a vida, a paixão, a morte e a ressurreição de Deus Filho, movidos por Deus Espírito Santo.

        Para compreender no seu sentido genuíno o significado destes fins temos de ter presente que a Eucaristia é uma acção de Cristo, sacerdote e vítima, que Cristo deseja realizar sacramentalmente em nós e connosco e que cada vez que se celebra a Santa Missa o sacerdote e cada um dos participantes na celebração apresentam, «em Cristo, com Cristo e por Cristo», toda a vida redentora de Cristo, a sua morte e a sua ressurreição a Deus Pai guiados pelo Espírito Santo.
Ou seja, faz sua a vida de Cristo e une a sua própria vida à vida de Cristo.

        Cristo poderia viver e oferecer a sua vida redentora ao Pai de uma vez por todas e, de facto, assim foi, assim é.
E, além do mais, esse único oferecimento quis vivê-lo em união com cada ser humano e que cada ser humano o viva com Ele.

        Temos de sublinhar que a acção de Cristo não é uma «apresentação» que Cristo faz conjuntamente com cada crente, mas que a realiza a partir do interior de cada crente, de forma que cada cristão vive a acção eucarística na medida em que é «o próprio Cristo», na medida e pela graça de estar enxertado em Cristo.

        Tudo isto quer significar uma realidade difícil, certamente, de expressar porque supõe viver o facto de estar «enxertados» em Cristo e converter toda a nossa vida em vida cristã, em vida de Cristo.
Vivendo com Cristo e em Cristo é como a Eucaristia leva à plenitude se ser e de sentido de estar enxertados em Cristo.
Cada crente nascido no Baptismo para a vida da graça, pode crescer e desenvolver-se como «nova criatura».

        «Quando participamos da Eucaristia experimentamos a espiritualização deificante do Espírito Santo que não só nos configura com Cristo, como acontece no Baptismo, como nos cristifica (nos converte em Cristo) por inteiro associando-nos à plenitude de Cristo Jesus» [6].

        Na Eucaristia Cristo leva a cabo a obra que agrada a Deus «a redenção do mundo» e nós vivemo-la com Ele.

        Com palavras simples podemos dizer que Cristo quer que nós vivamos com Ele e nele toda a sua vida, paixão, morte e ressurreição, Ele dá-se-nos como alimento na Comunhão para depois viver Ele toda a vida de cada um de nós em nós próprios.

        Talvez possamos assimilar melhor o conteúdo destas afirmações se paramos a nossa atenção com alguma pausa nos assim chamados fins da celebração eucarística.

        Estes quatro fins são: latrêutico, propiciatório, impetratório, eucarístico.
Ao vivê-los tem lugar essa plenitude de união com Cristo porque nos vinculamos à vida de Cristo, à sua missão.

        Ele quer que vivamos a Eucaristia.
«Fazei isto em minha memória»
Só em sua memória?
O Cristo que pronunciou estas palavras já existe de outro modo.
Deixou a «mortalidade».
Melhor: o mortal converteu-se em eterno, o seu corpo glorioso é o mesmo corpo mortal glorificado.
Acaso e Senhor quer que simplesmente recordemos os seus gestos aqui na terra?

        Não.
Insistimos.
Na Eucaristia Cristo vive com cada homem todo o seu próprio viver: a sua Encarnação, a sua Paixão e Morte, a sua Ressurreição, a sua Ascensão ao Céu.

        E todo o significado último da sua vida pode expressar-se nestes quatro fins:

        Latrêutico.
Ao oferecer o sacrifício de Cristo, o cristão une-se ao louvor de Deus Filho a deus Pai, louvor em que participa toda a criação porque é uma glorificação de Deus na criação que se vê liberta do pecado e da morte, «pela manifestação dos filhos de Deus», cada vez que se celebra a Eucaristia.

        O final da oração eucarística expressa claramente esta acção que encarna a mais completa adoração a Deus que o homem pode viver e oferece a Deus não só a partir do seu próprio coração, mas também do próprio seio da Trindade Beatíssima:

        «Por Cristo, com Ele e nele, a Ti, Deus Pai omnipotente na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda glória pelos séculos dos séculos».
Vivendo a Missa toda a vida do cristão é «adoração».

        Propiciatório.
Cristo, «ao amar-nos até ao fim» oferece-se em sacrifício por nós.
«O carácter sacrificial da Eucaristia manifesta-se nas próprias palavras da instituição:
«Isto é o meu Corpo que será entregue por vós» e «Este cálice é a nova Aliança do meu sangue, que será derramado por vós» [7].
Na Eucaristia Cristo oferece por nó o mesmo corpo que entregou na cruz e o mesmo sangue que «derramou por muitos para remissão dos pecados» [8].[9]




(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)






[1] Benedito XVI, Sacramentum caritatis, n. 37
[2] Lumen gentium, 11
[3] São Josemaria Escrivá, Forja, n. 69
[4] Benedito XVI, Sacramentum caritatis, n. 37
[5] Jo 8, 28-29
[6] São Cirilo de Jerusalén, Cathequeses, 22, 3
[7] Lc 22, 19-20
[8] Mt 26, 28
[9] Catecismo, n. 1365

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