06/09/2014

Evang., Coment. Leit. Espiritual (Cong. Dout. da Fé Instr. Ardens felicitates)

Tempo comum XXII Semana

Evangelho: Lc 6, 1-5

1 Num sábado, passando Jesus pelas searas, os Seus discípulos colhiam espigas e debulhando-as nas mãos, as comiam. 2 Alguns dos fariseus disseram-lhes: «Porque fazeis o que não é permitido aos sábados?». 3 Jesus respondeu-lhes: «Não lestes o que fez David, quando teve fome, ele e os que com ele estavam? 4 Como entrou na casa de Deus, tomou os pães da proposição, comeu deles e deu aos seus companheiros, embora não fosse permitido comer deles senão aos sacerdotes?». 5 Depois acrescentou: «O Filho do Homem é Senhor também do sábado».

Comentário:

Fome! Sim… fome! Cristo e os Seus discípulos têm fome. Parece difícil de acreditar que os discípulos do Filho de Deus tenham tanta fome ao ponto de umas simples espigas servirem para a mitigar.
Mas é a verdade porque, de facto, aquele grupo cuja cabeça é o Messias, tem escassos meios de subsistência como, aliás, se diz noutro ponto do Evangelho que as contribuições de «algumas mulheres» seriam a base do seu sustento.
É natural que alguns dias, ou por algumas horas, alguns pudessem voltar ao seu trabalho normal – a pesca ou outro – mas, com o decorrer do tempo, as distâncias e as exigências de um apostolado cada vez mais intenso – que até «se esqueciam de comer» - estas oportunidades foram-se tornando impossíveis de praticar e a vida normal, comum, incluindo a própria subsistência, tornavam-se difíceis.
Um ou outro dos discípulos teria mais disponibilidades como, talvez, Mateus, e o Senhor tem amigos que os ajudam, como Lázaro e suas irmãs, e, talvez Nicodemos e José de Arimateia, desta forma, as preocupações de Jesus concentram-se unicamente no apostolado que se vai desenrolando sem pausas nem vacilações.
Esta a lição: sem dúvida que os meios económicos são necessários ao apostolado, mas este não deixará de se levara a cabo de faltarem aqueles!

(ama, comentário sobre Lc 6, 1-5, 2011.09.04)


Leitura espiritual


Documentos do Magistério


Congregação para a doutrina da Fé
INSTRUÇÃO Ardens felicitates
SOBRE AS ORAÇÕES PARA ALCANÇAR DE DEUS A CURA

I. ASPECTOS DOUTRINAIS

3. O carisma da cura no Novo Testamento

Não só as curas prodigiosas confirmavam o poder do anúncio evangélico nos tempos apostólicos; o próprio Novo Testamento fala de uma verdadeira e própria concessão aos Apóstolos e aos outros primeiros evangelizadores de um poder de curar as enfermidades em nome de Jesus. Assim, ao enviar os Doze para a sua primeira missão, o Senhor, segundo a narração de Mateus e de Lucas, concede-lhes «o poder de expulsar os espíritos impuros e de curar todas as doenças e enfermidades» (Mt 10,1; cfr. Lc 9,1) e dá-lhes a ordem: «Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demónios» (Mt 10,8). Também na primeira missão dos setenta e dois, a ordem do Senhor é: «curai os enfermos que aí houver» (Lc 10,9). O poder, portanto, é concedido dentro de um contexto missionário, não para exaltar as pessoas enviadas, mas para confirmar a sua missão.

Os Actos dos Apóstolos referem de modo genérico prodígios operados por estes: «inúmeros prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos» (Actos 2,43; cfr. 5,12). Eram prodígios e sinais e, portanto, obras portentosas que manifestavam a verdade e a força da sua missão. Mas, além destas breves indicações genéricas, os Actos referem sobretudo curas milagrosas, realizadas pelos evangelizadores individualmente: Estêvão (cfr. Actos 6,8), Filipe (cfr. Actos 8,6-7) e sobretudo Pedro (cfr. Actos 3,1-10; 5,15; 9,33-34.40-41) e Paulo (cfr. Actos 14,3.8-10; 15,12; 19,11-12; 20,9-10; 28,8-9).

Quer a parte final do Evangelho de Marcos quer a Carta aos Gálatas, como antes se viu, alargam a perspectiva e não circunscrevem as curas prodigiosas à actividade dos Apóstolos e de alguns evangelizadores que tiveram papel de relevo na primeira missão. Neste particular contexto, são de extrema importância as referências aos «carisma de cura» (1 Cor 12,9.28.30). O significado de carisma é, por si, muito amplo: o de «dom generoso»; no caso em questão, trata-se de «dons de curas obtidas». Estas graças, no plural, são atribuídas a um único sujeito (cfr. 1 Cor 12,9) e, portanto, não se devem entender em sentido distributivo, como curas que cada um dos curados recebe para si mesmo; devem, invés, entender-se como dom concedido a uma determinada pessoa de obter graças de curas em favor de outros. É dado in uno Spiritu, sem contudo se especificar o modo como essa pessoa obtém as curas. Não seria descabido subentender que o seja através da oração, talvez acompanhada de algum gesto simbólico.

Na Carta de São Tiago, faz-se aceno a uma intervenção da Igreja, através dos presbíteros, em favor da salvação, mesmo em sentido físico, dos doentes. Não se dá, porém, a entender se se trata de curas prodigiosas: estamos num contexto diferente do dos «carismas de curas» da 1 Cor 12,9. «Algum de vós está doente? Chame os presbíteros da Igreja para que orem sobre ele, ungindo-o com o óleo em nome do Senhor. A oração da fé salvará o doente e o Senhor o confortará e, se tiver pecados, ser-lhe-ão perdoados» (Tg 5,14-15). Trata-se de um acto sacramental: unção do doente com óleo e oração sobre ele, não simplesmente «por ele», como se fosse apenas uma oração de intercessão ou de súplica. Mais propriamente, trata-se de uma acção eficaz sobre o enfermo. (18) Os verbos «salvará» e «confortará» não exprimem uma acção que tenha em vista, exclusivamente ou sobretudo, a cura física, mas de certo modo incluem-na. O primeiro verbo, se bem que nas outras vezes que aparece na dita Carta se refira à salvação espiritual (cfr. 1,21; 2,14; 4,12; 5,20), é também usado no Novo Testamento no sentido de «curar» (cfr. Mt 9,21; Mc 5,28.34; 6,56; 10,52; Lc 8,48); o segundo verbo, embora assuma por vezes o sentido de «ressuscitar» (cfr. Mt 10,8; 11,5; 14,2), também é usado para indicar o gesto de «levantar» a pessoa que está acamada por causa de uma doença, curando-a de forma prodigiosa (cfr. Mt 9,5; Mc 1,31; 9,27; Actos 3,7).


4. As orações para alcançar de Deus a cura na Tradição

Os Padres da Igreja consideravam normal que o crente pedisse a Deus, não só a saúde da alma, mas também a do corpo. A propósito dos bens da vida, da saúde e da integridade física, Santo Agostinho escrevia: «É preciso rezar para que nos sejam conservados, quando se os tem, e que nos sejam concedidos, quando não se os tem». (19) O mesmo Padre da Igreja deixou-nos o testemunho da cura de um amigo, alcançada graças às orações de um bispo, de um sacerdote e de alguns diáconos na sua casa. (20)

A mesma orientação se encontra nos ritos litúrgicos, tanto ocidentais como orientais. Numa oração depois da Comunhão, pede-se que «este sacramento celeste nos santifique totalmente a alma e o corpo». (21) Na solene liturgia da Sexta-Feira Santa convida-se a rezar a Deus Pai todo-poderoso para que «afaste as doenças... dê saúde aos enfermos». (22) Entre os textos mais significativos, destaca-se o da bênção do óleo dos enfermos. Nele pede-se a Deus que derrame a sua santa bênção sobre o óleo, a fim de que «sirva a quantos forem com ele ungidos de auxílio do corpo, da alma e do espírito, para alívio de todas as dores, fraquezas e doenças». (23)

Não são diferentes as expressões que se leem nos rituais orientais da Unção dos enfermos. Citamos apenas alguns dos mais significativos. No rito bizantino, durante a unção do enfermo reza-se: «Pai Santo, médico das almas e dos corpos, Vós que enviastes o vosso Filho unigénito Jesus Cristo para curar de toda a doença e libertar-nos da morte, curai também, pela graça do vosso Cristo, este vosso servo da enfermidade do corpo e do espírito que o aflige». (24) No rito copto pede-se ao Senhor que abençoe o óleo para que todos os que com ele forem ungidos possam alcançar a saúde do espírito e do corpo. Depois, durante a unção do enfermo, os sacerdotes, depois de terem mencionado Jesus Cristo, mandado ao mundo «para curar todas as enfermidades e libertar da morte», pedem a Deus «que cure o enfermo das enfermidades do corpo e lhe indique o recto caminho». (25)

5. O «carisma de cura» no contexto actual

No decorrer dos séculos da história da Igreja, não faltaram santos taumaturgos que realizaram curas milagrosas. O fenómeno, portanto, não estava circunscrito ao tempo apostólico. O chamado «carisma de cura», sobre o qual convém hoje dar alguns esclarecimentos doutrinais, não fazia parte porém desses fenómenos taumaturgos. O problema põe-se sobretudo com as reuniões de oração que os acompanham, organizadas no intuito de obter curas prodigiosas entre os doentes que nelas participam, ou então com as orações de cura que, com o mesmo fim, se fazem a seguir à Comunhão eucarística.

As curas ligadas aos lugares de oração (nos santuários, junto de relíquias de mártires ou de outros santos, etc.) são abundantemente testemunhadas ao longo da história da Igreja. Na antiguidade e na idade média, contribuíram para concentrar as peregrinações em determinados santuários, que se tornaram famosos também por essa razão, como o de São Martinho de Tours ou a catedral de Santiago de Compostela e tantos outros. O mesmo acontece na actualidade, como, por exemplo, há mais de um século com Lourdes. Estas curas não comportam um «carisma de cura», porque não estão ligadas a um eventual detentor de tal carisma, mas há que tê-las em conta ao procurar ajuizar, sob o ponto de vista doutrinal, as referidas reuniões de oração.

No que concerne às reuniões de oração feitas com a finalidade precisa de alcançar curas, finalidade, se não dominante, ao menos certamente influente na programação das mesmas, convém distinguir entre as que possam dar a entender um «carisma de cura», verdadeiro ou aparente, e as que nada têm a ver com esse carisma. Para que possam estar ligadas a um eventual carisma, é necessário que sobressaia nelas, como elemento determinante para a eficácia da oração, a intervenção de uma ou várias pessoas individualmente ou de uma categoria qualificada, por exemplo, os dirigentes do grupo que promove a reunião. Não havendo relação com o «carisma de cura», é óbvio que as celebrações previstas nos livros litúrgicos, se realizadas em conformidade com as normas litúrgicas, são lícitas e até muitas vezes oportunas, como é o caso da Missa pro infirmis. Quando não respeitarem as normas litúrgicas, perdem a sua legitimidade.

Nos santuários são também frequentes outras celebrações que, por si, não se destinam especificamente a implorar de Deus graças de curas, mas que nas intenções dos organizadores e dos que nelas participam têm, como parte importante da sua finalidade, a obtenção de curas. Com esse objectivo, costumam fazer-se celebrações litúrgicas, como é o caso da exposição do Santíssimo Sacramento com bênção, ou não litúrgicas, mas de piedade popular, que a Igreja encoraja, como pode ser a solene reza do Terço. Também estas celebrações são legítimas, uma vez que não se altere o seu significado autêntico. Por exemplo, não se deveria pôr em primeiro plano o desejo de alcançar a cura dos doentes, fazendo com que a exposição da Santíssima Eucaristia venha a perder a sua finalidade; esta, de facto, «leva a reconhecer nela a admirável presença de Cristo e convida à íntima união com Ele, união que atinge o auge na comunhão sacramental». (26)

O «carisma de cura» não se atribui a uma determinada categoria de fiéis. É, aliás, bem claro que São Paulo, quando se refere aos diversos carismas em 1 Cor 12, não atribui o dom dos «carismas de cura» a um grupo particular: ao dos apóstolos ou dos profetas, ao dos mestres ou dos que governam, ou a outro qualquer. A lógica que preside à sua distribuição é, invés, outra: «é um só e mesmo Espírito que faz tudo isto, distribuindo os dons a cada um conforme Lhe agrada» (1 Cor 12,11). Por conseguinte, nas reuniões de oração organizadas com o intuito de implorar curas, seria completamente arbitrário atribuir um «carisma de cura» a uma categoria de participantes, por exemplo, aos dirigentes do grupo. Dever-se-ia confiar apenas na vontade totalmente livre do Espírito Santo, que dá a alguns um especial carisma de cura para manifestar a força da graça do Ressuscitado. Há que recordar, por outro lado, que nem as orações mais intensas alcançam a cura de todas as doenças. Assim São Paulo tem de aprender do Senhor que «basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta todo o meu poder» (2 Cor 12,9) e que os sofrimentos que se têm de suportar podem ter o mesmo sentido do «completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo, em benefício do seu corpo que é a Igreja» (Col 1,24).

(cont)
(Revisão da versão portuguesa por ama)
________________________________________
Notas:
(18) Cfr. CONCILIO DE TRENTO, sessão XIV, Doctrina de sacramento extremae unctionis, cap. 2: DS, 1696.
(19) AUGUSTINUS IPPONIENSIS, Epistulae 130, VI,13 (PL 33,499).
(20) Cfr. AUGUSTINUS IPPONIENSIS, De Civitate Dei 22, 8,3 (PL 41,762-763).
(21) Cfr. Missale Romanum, p. 563.
(22) Ibid., Oratio universalis, n. X (Pro tribulatis), p. 256.
(23) Rituale Romanum, Ordo Unctionis Infirmorum eorumque Pastoralis Curae, n. 75.
(24) GOAR J., Euchologion sive Rituale Graecorum, Venetiis 1730 (Graz 1960), n. 338.
(25) DENZINGER H., Ritus Orientalium in administrandis Sacramentis, vv. I-II, Würzburg 1863 (Graz 1961), v. II, 497-498.
(26) Rituale Romanum, Ex Decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum, Auctoritate Pauli PP. VI promulgatum, De Sacra Communione et de Cultu Mysterii Eucharistici Extra Missam, Editio typica, Typis Polyglottis Vaticanis, MCMLXXIII, n. 82.



05/09/2014

Jesus Cristo e a Igreja (54 perguntas) - 32

Que influência teve São João Baptista em Jesus?

A figura de São João Baptista ocupa um lugar importante no Novo Testamento e, concretamente, nos evangelhos. Foi comentada na tradição cristã mais antiga, e entranhou-se profundamente na piedade popular, que celebra a festa do seu nascimento com especial solenidade desde tempos muito antigos. Nos últimos anos, tem atraído a
atenção de estudiosos do Novo Testamento e das origens do cristianismo, que procuram descobrir que coisas se podem conhecer acerca da relação entre João Baptista e Jesus de Nazaré, do ponto de vista da crítica histórica.
Dois tipos de fontes falam de João Baptista, umas cristãs e outras profanas. As cristãs são os quatro evangelhos canónicos e o evangelho gnóstico de Tomé. A fonte profana mais relevante é Flávio Josefo, que dedicou uma longa separata do seu livro Antiguidades Judaicas (18, 116-119) a glosar omartírio do Baptista às mãos de Herodes na fortaleza de Maqueronte (Pereia). Para avaliar as eventuais influências, pode ser uma ajuda olhar para o que se sabe acerca da vida, da conduta e da mensagem de ambos.

Nos últimos anos tem atraído a atenção dos estudiosos, que procuram descobrir que coisas se podem conhecer acerca da relação entre João Baptista e Jesus de Nazaré, do ponto de vista da crítica histórica.

1. Nascimento e morte de João Baptista seguramente coincidiu no tempo com Jesus, nasceu algum tempo antes e começou a sua vida pública também antes.
Era de origem sacerdotal (Lc 1), embora nunca tenha exercido as suas funções, e supõe-se que mostrou oposição ao comportamento do sacerdócio oficial, quer pela sua conduta e quer pela sua permanência longe do Templo. Passou algum tempo no deserto da Judeia (Lc 1, 80), mas não parece que tenha tido uma relação com o grupo de Qumran, uma vez que não se mostra tão radical no cumprimento das normas legais (halakhot). Morreu condenado por Herodes Antipas (Flávio Josefo, Ant. Jud. 18, 118). Jesus, por seu lado, passou a sua primeira infância na Galileia e foi baptizado por ele no Jordão. Soube da morte do Baptista e sempre louvou a sua figura, a sua mensagem e a sua missão profética.

2. Comportamento. Da sua vida e conduta, Josefo assinala que era “boa pessoa” e que muitos “acorriam a ele e se entusiasmavam ao ouvi-lo“. Os evangelistas são mais explícitos e mencionam o lugar onde ele desenvolveu a sua vida pública (a Judeia e a margem do Jordão); a sua conduta austera no vestir e no comer; a sua liderança perante os seus discípulos e a sua função de percursor, ao revelar Jesus de Nazaré como verdadeiro Messias. Jesus, pelo contrário, não
se distinguiu dos seus concidadãos, no que é externo: não se limitou a pregar num lugar determinado; participou em refeições de família; vestia com naturalidade e, embora condenando a interpretação literal
da lei que faziam os fariseus, cumpriu todas as normas legais e frequentou o templo com assiduidade.

Entre João e Jesus houve muitos pontos de contacto, mas todos os dados conhecidos até ao presente põem em evidência que Jesus de Nazaré superou o esquema vetero-testamentário do Baptista e apresentou o horizonte infinito da salvação.

João Baptista, segundo Flávio Josefo, “exortava os judeus a praticar a virtude, a justiça uns com os outros e a piedade com Deus, e depois a receber o baptismo”. Os evangelhos acrescentam que a sua mensagem era de penitência, escatológica e messiânica: exortava à conversão e ensinava que o juízo de Deus está iminente: virá quem é “mais forte que eu” que baptizará no Espírito Santo e no fogo. O Seu baptismo era para Flávio Josefo “um banho do corpo” e sinal da limpeza da alma pela justiça. Para os evangelistas era “um baptismo de conversão para o perdão dos pecados” (Mc 1, 5). Jesus não rejeita a mensagem do Baptista, antes parte dela (Mc 1, 15) para anunciar o reino e a salvação universal, e identifica-se com o Messias que João anunciava, abrindo o horizonte escatológico.
Sobretudo faz do seu baptismo fonte de salvação (Mc 16, 16) e porta para participar dos dons, outorgados aos discípulos.
Resumindo, entre João e Jesus houve muitos pontos de contacto, mas todos os dados conhecidos até ao presente, põem em evidência que Jesus de Nazaré superou o esquema vetero-testamentario do Baptista (conversão, atitude ética, esperança messiânica), e apresentou o horizonte infinito da salvação (reino de Deus, redenção universal, revelação definitiva).

© www.opusdei.org - Textos elaborados por uma equipa de professores de Teologia da Universidade de Navarra, dirigida por Francisco Varo.


Temas para meditar 227


O Salvador e a Cruz 


O Senhor salvou-nos com a Cruz; com a Sua morte voltou a dar-nos a esperança, o direito à vida. Não podemos honrar Cristo se não O reconhecemos como nosso Salvador, se não O honramos no Mistério da Cruz. (…)
O Senhor fez da dor um meio de redenção; redimiu-nos com a Sua dor, sempre que nós não recusemos unir a nossa dor à Sua e fazer desta com a Sua um meio de redenção.

(PAULO VI, Aloc.,1967.11.24)

Leva-me pela tua mão, Senhor

Há uma quantidade muito considerável de cristãos que seriam apóstolos... se não tivessem medo. São os mesmos que depois se queixam, porque o Senhor (dizem eles!) os abandona... Que fazem eles com Deus? (Sulco, 103)

Também a nós nos chama e nos pergunta como a Tiago e João: Potestis bibere calicem quem ego bibiturus sum?; estais dispostos a beber o cálice (este cálice da completa entrega ao cumprimento da vontade do Pai) que eu vou beber? "Possumus"!. Sim, estamos dispostos! – é a resposta de João e Tiago... Vós e eu, estamos dispostos seriamente a cumprir, em tudo, a vontade do nosso Pai, Deus? Demos ao Senhor o nosso coração inteiro ou continuamos apegados a nós mesmos, aos nossos interesses, à nossa comodidade, ao nosso amor-próprio? Há em nós alguma coisa que não corresponda à nossa condição de cristãos e que nos impeça de nos purificarmos? Hoje apresenta-se-nos a ocasião de rectificar.


É necessário que nos convençamos de que Jesus nos dirige pessoalmente estas perguntas. É Ele que as faz, não eu. Eu não me atreveria a fazê-las a mim próprio. Eu vou continuando a minha oração em voz alta e vós, cada um de vós, por dentro, está confessando ao Senhor: Senhor, que pouco valho! Que cobarde tenho sido tantas vezes! Quantos erros! Nesta ocasião e naquela... nisto e naquilo... E podemos exclamar também: ainda bem, Senhor, que me tens sustentado com a tua mão, porque eu sinto-me capaz de todas as infâmias... Não me largues, não me deixes; trata-me sempre como um menino. Que eu seja forte, valente, íntegro. Mas ajuda-me, como a uma criatura inexperiente. Leva-me pela tua mão, Senhor, e faz com que tua Mãe esteja também a meu lado e me proteja. E assim, possumus!, poderemos, seremos capazes de ter-Te por modelo! (Cristo que passa, 15)

Evang., Coment. Leit. Espiritual (Cong. Dout. da Fé Instr. Ardens felicitates)

Tempo comum XXII Semana

Evangelho: Lc 5, 33-39

«33 Eles disseram-Lhe: «Os discípulos de João e os dos fariseus jejuam muitas vezes e fazem orações, e os Teus comem e bebem». 34 Jesus respondeu-lhes: «Porventura podeis fazer jejuar os amigos do esposo, enquanto o esposo está com eles? 35 Mas virão dias em que lhes será tirado o esposo; então, nesses dias, jejuarão». 36 Também lhes disse esta comparação: «Ninguém deita um retalho de pano novo em vestido velho; doutro modo o novo rompe o velho e o retalho do novo não condiz com o velho. 37 Também ninguém deita vinho novo em odres velhos; doutro modo o vinho novo fará rebentar os odres, e derramar-se-á o vinho, e perder-se-ão os odres. 38 Mas o vinho novo deve deitar-se em odres novos. 39 Ninguém depois de ter bebido vinho velho quer do novo, porque diz: O velho é melhor!».

Comentário:

A santa Igreja renova-se constantemente segundo o evoluir dos tempos.
Evolução significa progresso, ajustamento e, nunca, alteração do fundamental.
Alguns, muitos dos quais nem sequer a frequentam, quereriam mudanças radicais nesses mesmos fundamentos.
Tal não pode acontecer – nunca acontecerá! – porque a Cabeça da Igreja Que é Jesus Cristo, não muda, é O mesmo hoje, ontem e sempre!

(ama, comentário sobre Lc 5, 33-39 2013.09.06)


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INSTRUÇÃO Ardens felicitates
SOBRE AS ORAÇÕES PARA ALCANÇAR DE DEUS A CURA

Introdução

O anseio de felicidade, profundamente radicado no coração humano, esteve sempre associado ao desejo de se libertar da doença e de compreender o seu sentido, quando se experimenta. Trata-se de um fenómeno humano que, interessando de uma maneira ou de outra a todas as pessoas, encontra na Igreja particular ressonância. Esta, de facto, vê a doença como meio de união com Cristo e de purificação espiritual e, para os que lidam com a pessoa doente, como uma ocasião de praticar a caridade. Não é só isso porém; como os demais sofrimentos humanos, a doença constitui um momento privilegiado de oração, seja para pedir a graça de a receber com espírito de fé e de aceitação da vontade de Deus, seja também para implorar a cura.

A oração que implora o restabelecimento da saúde é, pois, uma experiência presente em todas as épocas da Igreja e naturalmente nos dias de hoje. Mas o que constitui um fenómeno sob certos aspectos novo é o multiplicação de reuniões de oração, por vezes associadas a celebrações litúrgicas, com o fim de alcançar de Deus a cura. Em certos casos, que não são poucos, apregoa-se a existência de curas alcançadas, criando assim a expectativa que o fenómeno se repita noutras reuniões do género. Em tal contexto, faz-se por vezes apelo a um suposto carisma de cura.

Essas reuniões de oração feitas para alcançar curas põem também o problema do seu justo discernimento sob o ponto de vista litúrgico, nomeadamente por parte da autoridade eclesiástica, a quem compete vigiar e dar as directivas oportunas em ordem ao correcto desenrolar das celebrações litúrgicas.

Achou-se, portanto, conveniente publicar uma Instrução, de acordo com o can. 34 do Código de Direito Canónico, que servisse sobretudo de ajuda aos Ordinários do lugar para melhor poderem orientar os fiéis neste campo, favorecendo o que nele haja de bom e corrigindo o que deva ser evitado. Era porém necessário que as disposições disciplinares tivessem como ponto de referência um fundado enquadramento doutrinal que garantisse a sua justa aplicação e esclarecesse a razão normativa. Para tal fim, fez-se preceder a parte disciplinar com uma parte doutrinal sobre as graças de cura e as orações para alcançá-las.

I. ASPECTOS DOUTRINAIS

1. Doença e cura: seu significado e valor na economia da salvação

«O homem é destinado à alegria, mas todos os dias experimenta variadíssimas formas de sofrimento e de dor». (1) Por isso, o Senhor, nas suas promessas de redenção, anuncia a alegria do coração ligada à libertação dos sofrimentos (cfr. Is 30,29; 35,19; Bar 4,29). Ele é, de facto, «aquele que liberta de todos os males» (Sab 16,8). Entre os sofrimentos, os provocados pela doença são uma realidade constantemente presente na história humana, tornando-se, ao mesmo tempo, objecto do profundo desejo do homem de se libertar de todo o mal.

No Antigo Testamento, «Israel tem a experiência de que a doença está misteriosamente ligada ao pecado e ao mal». (2) Entre os castigos com que Deus ameaça o povo pela sua infidelidade, as doenças ocupam espaço de relevo (cfr. Dt 28,21-22.27-29.35). O doente que pede a Deus a cura reconhece que é justamente castigado pelos seus pecados (cfr. Sal 37; 40; 106,17-21).

A doença porém atinge também os justos e o homem interroga- se sobre o porquê. No livro de Job, essa interrogação está presente em muitas das suas páginas. «Se é verdade que o sofrimento tem um sentido de castigo, quando ligado à culpa, já não é verdade que todo o sofrimento seja consequência da culpa e tenha um carácter de punição. A figura do justo Job é uma especial prova disso no Antigo Testamento. (...) Se o Senhor permite que Job seja provado com o sofrimento, fá-lo para demostrar a sua justiça. O sofrimento tem carácter de prova». (3)

A doença, embora possa ter uma conotação positiva, como demonstração da fidelidade do justo e meio de reparar a justiça violada pelo pecado, e também como forma de levar o pecador a arrepender-se, enveredando pelo caminho da conversão, continua todavia a ser um mal. Por isso, o profeta anuncia os tempos futuros em que não haverá mais desgraças nem invalidez, e o decurso da vida nunca mais será interrompido com doenças mortais (cfr. Is 35,5-6; 65,19-20).

É todavia no Novo Testamento que encontra plena resposta a interrogação porque a doença atinge também os justos. Na actividade pública de Jesus, as suas relações com os doentes não são casuais, mas constantes. Cura a muitos deles de forma prodigiosa, tanto que essas curas milagrosas tornam-se uma característica da sua actividade: «Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades» (Mt 9,35; cfr. 4,23). As curas são sinais da sua missão messiânica (cfr. Lc 7,20-23). Manifestam a vitória do reino de Deus sobre todas as espécies de mal e tornam-se símbolo do saneamento integral do homem, corpo e alma. Servem, de facto, para mostrar que Jesus tem o poder de perdoar os pecados (cfr. Mc 2,1- 12); são sinais dos bens salvíficos, como a cura do paralítico de Betsaida (cfr. Jo 5,2-9.19-21) e do cego de nascença (cfr. Jo 9).

Também a primeira evangelização, segundo as indicações do Novo Testamento, era acompanhada de numerosas curas prodigiosas que corroboravam o poder do anúncio evangélico. Aliás, tinha sido essa a promessa de Jesus ressuscitado, e as primeiras comunidades cristãs viam nelas que a promessa se cumpria entre eles: «Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: (...) quando impuserem as mãos sobre os doentes, ficarão curados» (Mc 16,17-18). A pregação de Filipe na Samaria foi acompanhada de curas milagrosas: «Filipe desceu a uma cidade da Samaria e começou a pregar o Messias àquela gente. As multidões aderiam unanimemente às palavras de Filipe, ao ouvi-las e ao ver os milagres que fazia. De muitos possessos saíam espíritos impuros, soltando enormes gritos, e numerosos paralíticos e coxos foram curados» (Actos 8,5-7). São Paulo apresenta o seu anúncio do Evangelho como sendo caracterizado por sinais e prodígios realizados com o poder do Espírito: «não ousaria falar senão do que Cristo realizou por meu intermédio, para levar os gentios à obediência da fé, pela palavra e pela acção, pelo poder dos sinais e prodígios, pelo poder do Espírito» (Rom 15,18-19; cfr. 1 Tes 1,5; 1 Cor 2,4-5). Não é nada arbitrário supor que muitos desses sinais e prodígios, manifestação do poder divino que acompanhava a pregação, fossem curas prodigiosas. Eram prodígios que não estavam ligados exclusivamente à pessoa do Apóstolo, mas que se manifestavam também através dos fiéis: «Aquele que vos dá o Espírito e realiza milagres entre vós procede assim por cumprirdes as obras da Lei ou porque ouvistes a mensagem da fé?» (Gal 3,5).

A vitória messiânica sobre a doença, aliás como sobre outros sofrimentos humanos, não se realiza apenas eliminando-a com curas prodigiosas, mas também com o sofrimento voluntário e inocente de Cristo na sua paixão, e dando a cada homem a possibilidade de se associar à mesma. De facto, «o próprio Cristo, embora fosse sem pecado, sofreu na sua paixão penas e tormentos de toda a espécie e fez seus os sofrimentos de todos os homens: cumpria assim quanto d'Ele havia escrito o profeta Isaías (cfr. Is 53,4-5)». (4) Mais, «Na cruz de Cristo não só se realizou a Redenção através do sofrimento, mas também o próprio sofrimento humano foi redimido. (...) Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível de Redenção. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, se podem tornar também participantes do sofrimento redentor de Cristo». (5)

A Igreja acolhe os doentes, não apenas como objecto da sua solicitude amorosa, mas também reconhecendo neles a chamada «a viver a sua vocação humana e cristã e a participar no crescimento do Reino de Deus com novas modalidades e mesmo mais preciosas. As palavras do apóstolo Paulo hão-de tornar-se programa e, ainda mais, a luz que faz brilhar aos seus olhos o significado de graça da sua própria situação: "Completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo, em benefício do seu corpo que é a Igreja" (Col 1,24). Precisamente ao fazer tal descoberta, o apóstolo encontrou a alegria: "Por isso, alegro- me com os sofrimentos que suporto por vossa causa" (Col 1,24)». (6) Trata-se da alegria pascal, que é fruto do Espírito Santo. Como São Paulo, também «muitos doentes podem tornar-se veículo da "alegria do Espírito Santo em muitas tribulações" (1 Tes 1,6) e ser testemunhas da ressurreição de Jesus». (7)

2. O desejo da cura e a oração para alcançá-la

Salva a aceitação da vontade de Deus, o desejo que o doente sente de ser curado é bom e profundamente humano, sobretudo quando se traduz em oração confiante dirigida a Deus. O Ben-Sirá exorta a fazê-lo: «Filho, não desanimes na doença, mas reza ao Senhor e Ele curar-te-á» (Sir 38,9). Vários salmos são uma espécie de súplica de cura (cfr. Sal 6; 37; 40; 87).

Durante a actividade pública de Jesus, muitos doentes dirigem-se a Ele, ou directamente ou através de seus amigos e parentes, implorando a recuperação da saúde. O Senhor acolhe esses pedidos, não se encontrando nos Evangelhos o mínimo aceno de reprovação dos mesmos. A única queixa do Senhor refere-se à eventual falta de fé: «Se posso? Tudo é possível a quem acredita» (Mc 9,23; cfr. Mc 6,5-6; Jo 4,48).

Não só é louvável a oração de todo o fiel que pede a cura, sua ou alheia, mas a própria Igreja na sua liturgia pede ao Senhor pela saúde dos enfermos. Antes de mais, tem um sacramento «destinado de modo especial a confortar os que sofrem com a doença: a Unção dos enfermos». (8) «Nele, por meio da unção e da oração dos presbíteros, a Igreja recomenda os doentes ao Senhor padecente e glorificado para que os alivie e salve». (9) Pouco antes, na bênção da óleo, a Igreja reza: «derramai a vossa santa bênção para que [o óleo] sirva a quantos forem com ele ungidos de auxílio do corpo, da alma e do espírito, para alívio de todas as dores, fraquezas e doenças»; (10) e, a seguir, nos dois primeiros formulários da oração após a Unção, pede-se mesmo a cura do enfermo. (11) A cura, uma vez que o sacramento é penhor e promessa do reino futuro, é também anúncio da ressurreição, quando «não haverá mais morte nem luto, nem gemidos nem dor, porque o mundo antigo desapareceu» (Ap 21,4). Por sua vez, o Missale Romanum contém uma Missa pro infirmis, onde, além de graças espirituais, se pede a saúde dos doentes. (12)

No De benedictionibus do Rituale Romanum existe um Ordo benedictionis infirmorum que contém diversos textos eucológicos para implorar a cura: no segundo formulário das Preces,(13) nas quatro Orationes benedictionis pro adultis, (14) nas duas Orationes benedictionis pro pueris, (15) na oração do Ritus brevior. (16)

É óbvio que o recurso à oração não exclui, antes encoraja, o emprego dos meios naturais úteis a conservar e a recuperar a saúde e, por outro lado, estimula os filhos da Igreja a cuidar dos doentes e a aliviá-los no corpo e no espírito, procurando vencer a doença. Com efeito, «reentra no próprio plano de Deus e da sua Providência que o homem lute com todas as forças contra a doença em todas as suas formas e se esforce, de todas as maneiras, por manter-se em saúde». (17)

(cont)
(Revisão da versão portuguesa por ama)
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Notas:
(1) JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Christifideles laici, n. 53, AAS 81 (1989), p. 498.
(2) Catecismo da Igreja Católica, n. 1502.
(3) JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Salvifici doloris, n. 11, AAS, 76 (1984), p. 12.
(4) Rituale Romanum, Ex Decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum, Auctoritate Pauli PP. VI promulgatum, Ordo Unctionis Infirmorum eorumque Pastoralis Curae, Editio typica, Typis Polyglottis Vaticanis, MCMLXXII, n. 2.
(5) JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Salvifici doloris, n. 19, AAS, 76 (1984), p. 225.
(6) JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Christifideles laici, n. 53, AAS 81(1989), p. 499.
(7) Ibid., n. 53.
(8) Catecismo da Igreja Católica, n. 1511.
(9) Cfr. Rituale Romanum, Ordo Unctionis Infirmorum eorumque Pastoralis Curae, n. 5.
(10) Ibid., n. 75.
(11) Cfr. Ibid., n. 77.
(12) Missale Romanum, Ex Decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum, Auctoritate Pauli PP. VI promulgatum, Editio typica altera, Typis Polyglottis Vaticanis, MCMLXXV, pp. 838- 839.
(13) Cfr. Rituale Romanum, Ex Decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum, Auctoritate Ioannis Pauli II promulgatum, De Benedictionibus, Editio typica, Typis Polyglottis Vaticanis, MCMLXXXIV, n. 305.
(14) Cfr. Ibid., nn. 306-309.
(15) Cfr. Ibid., nn. 315-316.
(16) Cfr. Ibid., n. 319.
(17) Rituale Romanum, Ordo Unctionis Infirmorum eorumque Pastoralis Curae, n. 3.





04/09/2014

Reflectindo - 36

Cruz

Aceito a minha Cruz de ser como sou com a determinação de me tornar naquilo que queres que eu seja.


(AMA, meditação 2002.06.22)

Temas para meditar 226


Baptismo



O dom divino do Baptismo é a base de toda a dignidade cristã, porque ele é a origem da incorporação em Cristo.



(são joão paulo IIPassai um ano comigo, Verbo, pg. 219) 

Pôr Cristo no cume de todas as actividades

Qualquer actividade – quer seja ou não humanamente muito importante – tem de converter-se para ti num meio de servir Nosso Senhor e os homens: aí está a verdadeira dimensão da sua importância. (Forja, 684)

Trabalha sempre e em tudo, com sacrifício, para pôr Cristo no cume de todas as actividades dos homens. (Forja, 685)

A correspondência à graça também está nessas coisas miúdas do dia, que parecem sem categoria e, no entanto, têm a transcendência do Amor. (Forja, 686)

Não se pode esquecer que o trabalho humanamente digno, nobre e honesto, pode – e deve! – elevar-se à ordem sobrenatural, passando a ser uma tarefa divina. (Forja, 687)


Jesus, nosso Senhor e nosso Modelo, crescendo e vivendo como um de nós, revela-nos que na existência humana – a tua –, as ocupações correntes e vulgares têm um sentido divino, de eternidade. (Forja, 688).

Evang., Coment. Leit. Espiritual (Enc. Divino Afflante Spiritu)

Tempo comum XXVI Semana

São Francisco de Assis

Evangelho: Lc 10, 17-24

17 Os setenta e dois voltaram alegres, dizendo: «Senhor, até os demónios se nos submetem em virtude do Teu nome». 18 Ele disse-lhes: «Eu via Satanás cair do céu como um raio. 19 Eis que vos dei poder de caminhar sobre serpentes e escorpiões, e de vencer toda a força do inimigo, e nada vos fará dano. 20 Contudo não vos alegreis porque os espíritos maus vos estão sujeitos, mas alegrai-vos porque os vossos nomes estão escritos nos céus». 21 Naquela mesma hora Jesus exultou de alegria no Espírito Santo, e disse: «Graças Te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos prudentes, e as revelaste aos simples. Assim é, ó Pai, porque assim foi do Teu agrado. 22 Todas as coisas Me foram entregues por Meu Pai; e ninguém sabe quem é o Filho, senão o Pai, nem quem é o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelar». 23 Depois, tendo-Se voltado para os discípulos, disse: «Felizes os olhos que vêem o que vós vedes. 24 Porque Eu vos afirmo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes e não o viram, ouvir o que vós ouvis e não o ouviram».

Comentário:

Uma vez mais, Jesus Cristo esclarece: A única forma de conhecer Deus, de “chegar”’ ao Seu conhecimento é através dele próprio.
Parece muito lógico – para usar terminologia humana – se «todas as coisas Lhe foram entregues – Ele, então, é o único caminho para a salvação eterna ou, seja, para a contemplação eterna da Face de Deus.

(ama, comentário sobre Lc 10, 17-24, 2013.10.05) 

Leitura espiritual


Documentos do Magistério

CARTA ENCÍCLICA
DIVINO AFFLANTE SPIRITU (*)
DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII
AOS VENERÁVEIS IRMÃOS
PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS E BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS DO LUGAR
EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA
COMO A TODO O CLERO E FIÉIS DE CRISTO
DO ORBE CATÓLICO SOBRE OS ESTUDOS BÍBLICOS

10. É, porém, justo e grato reconhecer que os notáveis progressos feitos pela ciência e uso das Sagradas Escrituras entre os católicos se devem não somente a essas disposições, prescrições e exortações de nossos predecessores, mas também ao concurso e colaboração de todos os que, com pronto acatamento, consagraram as suas fadigas tanto a meditar, investigar e escrever, como a ensinar, pregar, traduzir e propagar os Livros Santos.
Com efeito, das escolas superiores de Teologia e Sagrada Escritura e, principalmente, de nosso Pontifício Instituto Bíblico têm saído já e saem muitos cultores das divinas Escrituras, que animados de ardente amor dos Livros santos infundem o mesmo amor na juventude eclesiástica e lhe comunicam diligentemente a doutrina que aprenderam.
Não poucos têm feito e fazem progredir as ciências bíblicas, nomeadamente com seus escritos, quer publicando edições críticas do sagrado texto, explicando-o, ilustrando-o, traduzindo-o, em vulgar, quer propondo-o à devota leitura e meditação dos fiéis, quer finalmente aprendendo e cultivando as ciências profanas que servem à inteligência da Escritura.
Essas e outras obras que cada dia mais se vão propagando e desenvolvendo, quais são, por exemplo, as reuniões, congressos, semanas de estudos bíblicos, bibliotecas, associações para a meditação dos evangelhos, fazem-nos conceber certas esperanças de que para o futuro a veneração, uso e ciência das sagradas Escrituras progredirão cada vez mais para o bem das almas, contanto que todos com firmeza, entusiasmo e confiança se atenham ao método de estudos bíblicos traçados por Leão XIII, por seus sucessores declarado e aperfeiçoado, e por nós confirmado e acrescido, método que é o único seguro e comprovado pela experiência, nem se deixem desanimar pelas dificuldades, que, como sucede nas coisas humanas, nunca hão de faltar nesta tão grande obra.


SEGUNDA PARTE

CRITÉRIOS HERMENÊUTICOS PARA O ESTUDO DA SAGRADA ESCRITURA HOJE

1. Estado atual dos estudos bíblicos

11. Nesses cinquenta anos as condições dos estudos bíblicos e ciências auxiliares, não há quem o não veja, mudaram consideravelmente. Assim, para não falar de outras coisas, quando nosso predecessor publicou a Encíclica Providentissimus Deus, apenas um ou outro lugar da Palestina se tinha começado a explorar com escavações orientadas nesse sentido.
Agora tais explorações têm-se multiplicado enormemente e fazem-se com métodos mais rigorosos e arte aperfeiçoada pela experiência, de modo que os resultados são muito mais abundantes e certos. Quanta luz se tire de tais investigações para compreender melhor e mais perfeitamente os Livros santos, sabem-nos os doutos, sabem-no todos os que se dão a este gênero de estudos.
Aumentam o valor destas explorações os monumentos escritos por vezes encontrados, que ajudam muito a conhecer as línguas, a literatura, a história, os costumes, os cultos daqueles antiquíssimos povos. Nem é menor a importância da investigação e descoberta dos papiros, tão frequente em nossos dias, e que tanto tem contribuído para melhor conhecimento das letras e instituições públicas e particulares, especialmente do tempo de nosso divino Salvador.
Encontraram-se ainda e publicaram-se, conforme as exigências da crítica, antigos manuscritos dos Livros santos, a exegese dos Padres da Igreja foi mais larga e profundamente estudada, inúmeros exemplos vieram a ilustrar o modo de falar, de narrar e de escrever dos antigos.
Tudo isso que, não sem providência especial de Deus, conseguiu a nossa época, convida e aconselha aos intérpretes das sagradas Escrituras a aproveitar diligentemente tanta luz para perscrutar mais a fundo os divinos Oráculos, ilustrá-los com maior clareza, expô-los com maior precisão.
Vemos, com suma complacência da nossa alma, que os intérpretes têm correspondido e continuam a corresponder com louvável zelo a este convite, é este um fruto, e não dos últimos nem dos menores, da encíclica Providentissimus Deus, com a qual o nosso predecessor, como presságio desta nova primavera de estudos bíblicos, chamou os exegetas católicos ao trabalho e lhes traçou o caminho e métodos de trabalhar.
Ora, que o trabalho não só continue constantemente, mas frutifique e se aperfeiçoe cada vez mais é o que nós também desejamos conseguir com esta encíclica, na qual nos propomos sobretudo mostrar a todos o que falta ainda por fazer e qual o espírito com que o exegeta católico de hoje deve aplicar-se a um múnus tão grande e tão excelso, e infundir novo animo e novos estímulos aos operários que estrenuamente trabalham na vinha do Senhor.

2. Uso dos textos originais

Estudo das línguas bíblicas

12. Ao intérprete católico que se aplica a entender e expor as Sagradas Escrituras, já os Padres da Igreja - e sobretudo Agostinho - recomendaram vivamente o estudo das línguas antigas e o recurso aos textos originais. (22)
Todavia as condições dos estudos naqueles tempos eram tais que só poucos, e ainda assim imperfeitamente, conheciam a língua.
Na Idade Média, quando mais florescia a teologia escolástica, tinha decaído tanto também o conhecimento do grego entre os ocidentais, que até os maiores doutores daquele tempo, ao explicarem os Livros santos, deviam basear-se unicamente na tradução latina da Vulgata. Ao contrário em nossos dias não só a língua grega, que com a Renascença ressurgiu por assim dizer à nova vida, é familiar a quase todos os literatos e cultores da antiguidade, mas também a hebraica e as outras línguas orientais são largamente conhecidas dos eruditos.
Além disso são hoje tantos os meios para aprender aquelas línguas que o intérprete da Escritura, que, descurando-as, fecha a si mesmo o acesso aos textos originais, não podendo evitar a imputação de inconsideração e indolência.
Dever do exegeta é aproveitar com a máxima atenção e veneração ainda as mais pequenas minudências provenientes da pena do hagiógrafo sob a inspiração do Divino Espírito, a fim de penetrar a fundo e plenamente o seu pensamento.
Por isso trabalhe por adquirir uma perícia cada vez maior das línguas bíblicas e também dos outros idiomas orientais e apoie a sua interpretação com todos os recursos subministrados por toda espécie de filologia.
Foi o que S. Jerónimo se esforçou por conseguir, quanto o consentiam os conhecimentos daquela época, e o mesmo procuraram, com indefesso estudo e fruto mais que ordinários, os grandes exegetas dos séculos XVI e XVII, se bem que fosse então, menor do que hoje, a ciência linguística.
Deve, pois, com o mesmo método explicar-se o texto original, o qual pelo facto mesmo de ter sido escrito pelo Autor sagrado, tem maior autoridade e peso que qualquer tradução antiga ou moderna por óptima que seja, e isso poderá obter-se mais fácil e proveitosamente, se ao conhecimento das línguas se unir uma sólida perícia da arte crítica aplicada ao mesmo texto.

Importância da crítica textual

13. Quanta seja a importância desta crítica, bem o dá a entender Santo Agostinho, quando entre as normas que inculca ao estudioso dos Livros Santos, põe em primeiro lugar o cuidado de procurar um texto correcto.
"A emendar os códices, diz aquele preclaríssimo doutor da Igreja, deve antes de mais nada atender a sagacidade pelos que desejam conhecer as divinas Escrituras, para que os não emendados cedam o lugar aos emendados". (23)
Hoje em dia esta arte que sói chamar-se crítica textual e nas edições de autores profanos se emprega com grande louvor e fruto, com toda a razão se aplica também aos Livros Santos, precisamente pela reverência devida à palavra de Deus.
De facto o seu fim é reconstruir com toda a possível perfeição o texto sagrado, expurgá-lo das alterações nele introduzidas por culpa dos copistas, mudando-o das glossas e lacunas, transposições e repetições de palavras, e de toda espécie de erros que costumam infiltrar-se na transmissão plurissecular de obras manuscritas.
Nem quase é preciso advertir que essa crítica, que alguns decénios atrás muitos empregaram de modo completamente arbitrário, tanto que muitas vezes parecia não pretenderem outra coisa senão introduzir no texto sagrado as suas opiniões preconcebidas, hoje chegou a tal consistência e segurança de regras, que se tornou um magnífico instrumento para a edição da divina palavra em forma mais exacta e mais pura, e é fácil descobrir qualquer abuso que dela se faça.
Nem é necessário lembrar aqui - pois é coisa conhecida e manifesta a quantos estudam a Sagrada Escritura - quanto apreço fez sempre a Igreja, desde os primeiros séculos até aos nossos tempos, dos estudos críticos.
Portanto hoje que esta arte atingiu tão grande perfeição, é um dever de honra, bem que não sempre fácil, para os especialistas em Sagrada Escritura, procurar por todos os meios que quanto antes se preparem edições católicas dos Livros santos e das antigas traduções, feitas segundo estas normas, de modo que com uma reverência suma para com o texto sagrado unam uma exacta observância de todas as leis da crítica.
E saibam bem todos que este longo trabalho não só é necessário para bem compreender os escritos divinamente inspirados, mas é imperiosamente exigido pela piedade com que nos devemos mostrar sumamente agradecidos a amorosíssima Providência de Deus que do trono da sua majestade nos mandou esses livros como cartas do Pai celeste aos próprios filhos.

Texto original e autenticidade da vulgata

14. Nem vá alguém pensar que o sobredito uso dos textos originais, feito segundo as regras da crítica, é contrário a quanto o concílio de Trento sabiamente decretou a respeito da Vulgata latina. (24)
É um facto, atestado pelos documentos, que os presidentes do concílio receberam o encargo, por eles fielmente cumprido, de pedir ao sumo pontífice em nome do mesmo Concílio que mandasse corrigir o melhor possível, primeiro a edição latina, depois também a grega e a hebraica, e as publicasse para proveito da santa Igreja de Deus. (25)
A esse desejo, se então pelas dificuldades dos tempos e outros obstáculos não se pode dar plena satisfação, actualmente com a colaboração de doutos católicos pode dar-se, e confiamos que se dará execução mais vasta e perfeita.
Quanto à Vulgata, se o concílio Tridentino ordenou que ela fosse a tradução latina que todos usassem como autêntica, primeiro, este decreto, como todos sabem, é só para a Igreja latina, e para o uso público da Escritura, depois, em nada diminui a autoridade e valor dos textos originais.
De facto não se tratava então dos textos originais, mas das traduções latinas que naquele tempo corriam, entre as quais o concílio justamente decretou se preferisse a que "pelo longo uso de tantos séculos na mesma Igreja estava já de facto aprovada".
Portanto esta autoridade proeminente ou autenticidade da Vulgata decretou-a o concílio não principalmente por motivos de crítica, mas antes pelo uso legítimo que dela se fez na Igreja durante tantos séculos, uso que prova ela estar, no sentido em que a entendeu e entende a Igreja, completamente isenta de erros no que toca a fé e aos costumes, de modo que, como a mesma Igreja atesta e confirma, se pode nas disputas, prelecções e pregação alegar seguramente e sem perigo de errar, por isso esta autenticidade propriamente não se chama "crítica" mas "jurídica".
Nem a autoridade da Vulgata em matéria de doutrina impede, - antes nos nossos dias quase exige - que a mesma doutrina se prove e confirme também com os textos originais, e que se recorra aos mesmos textos para encontrar e explicar cada vez melhor o verdadeiro sentido das Sagradas Escrituras.
Antes, o decreto Tridentino nem sequer proíbe que, para uso e proveito dos fiéis e para facilitar a inteligência da divina palavra, se façam traduções em línguas vulgares, e precisamente dos textos originais, como sabemos terem-se já feito, e muito bem, em várias partes, com aprovação da autoridade eclesiástica.

(Revisão da versão portuguesa por ama)

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Notas:

(*) Em 30 de setembro de 1943, por motivo do cinqüentenário da encíclica "Providentissimus Deus", o Santo Padre Pio XII publicou a seguinte encíclica sobre os estudos bíblicos. Por sua extensão, e pela admirável clareza com que expõe as normas que devem ser observadas no uso da Sagrada Escritura, o importante documento adquire o alcance de uma verdadeira Carta Magna em matéria de estudos e apostolado bíblicos.
(22) Cf. s. Jerónimo, Praef. in IV Evang. ad Damasum, PL 29, 526-527, s. Agostinho, De doctr. christ. II 16, PL 34, 42-43.
(23) De doct. christ., II. 21, PL 34, 46.
(24) Decr. de editione et usu Sacrorum Librorum, Conc.Trid. ed. Soc. Goerres, t. V p. 91s.
(25) Ibid. t. X, p. 471, cf. t. V pp. 29, 59, 65, t. X, p. 446s.