05/09/2014

Evang., Coment. Leit. Espiritual (Cong. Dout. da Fé Instr. Ardens felicitates)

Tempo comum XXII Semana

Evangelho: Lc 5, 33-39

«33 Eles disseram-Lhe: «Os discípulos de João e os dos fariseus jejuam muitas vezes e fazem orações, e os Teus comem e bebem». 34 Jesus respondeu-lhes: «Porventura podeis fazer jejuar os amigos do esposo, enquanto o esposo está com eles? 35 Mas virão dias em que lhes será tirado o esposo; então, nesses dias, jejuarão». 36 Também lhes disse esta comparação: «Ninguém deita um retalho de pano novo em vestido velho; doutro modo o novo rompe o velho e o retalho do novo não condiz com o velho. 37 Também ninguém deita vinho novo em odres velhos; doutro modo o vinho novo fará rebentar os odres, e derramar-se-á o vinho, e perder-se-ão os odres. 38 Mas o vinho novo deve deitar-se em odres novos. 39 Ninguém depois de ter bebido vinho velho quer do novo, porque diz: O velho é melhor!».

Comentário:

A santa Igreja renova-se constantemente segundo o evoluir dos tempos.
Evolução significa progresso, ajustamento e, nunca, alteração do fundamental.
Alguns, muitos dos quais nem sequer a frequentam, quereriam mudanças radicais nesses mesmos fundamentos.
Tal não pode acontecer – nunca acontecerá! – porque a Cabeça da Igreja Que é Jesus Cristo, não muda, é O mesmo hoje, ontem e sempre!

(ama, comentário sobre Lc 5, 33-39 2013.09.06)


Leitura espiritual


Documentos do Magistério
Congregação para a doutrina da Fé
INSTRUÇÃO Ardens felicitates
SOBRE AS ORAÇÕES PARA ALCANÇAR DE DEUS A CURA

Introdução

O anseio de felicidade, profundamente radicado no coração humano, esteve sempre associado ao desejo de se libertar da doença e de compreender o seu sentido, quando se experimenta. Trata-se de um fenómeno humano que, interessando de uma maneira ou de outra a todas as pessoas, encontra na Igreja particular ressonância. Esta, de facto, vê a doença como meio de união com Cristo e de purificação espiritual e, para os que lidam com a pessoa doente, como uma ocasião de praticar a caridade. Não é só isso porém; como os demais sofrimentos humanos, a doença constitui um momento privilegiado de oração, seja para pedir a graça de a receber com espírito de fé e de aceitação da vontade de Deus, seja também para implorar a cura.

A oração que implora o restabelecimento da saúde é, pois, uma experiência presente em todas as épocas da Igreja e naturalmente nos dias de hoje. Mas o que constitui um fenómeno sob certos aspectos novo é o multiplicação de reuniões de oração, por vezes associadas a celebrações litúrgicas, com o fim de alcançar de Deus a cura. Em certos casos, que não são poucos, apregoa-se a existência de curas alcançadas, criando assim a expectativa que o fenómeno se repita noutras reuniões do género. Em tal contexto, faz-se por vezes apelo a um suposto carisma de cura.

Essas reuniões de oração feitas para alcançar curas põem também o problema do seu justo discernimento sob o ponto de vista litúrgico, nomeadamente por parte da autoridade eclesiástica, a quem compete vigiar e dar as directivas oportunas em ordem ao correcto desenrolar das celebrações litúrgicas.

Achou-se, portanto, conveniente publicar uma Instrução, de acordo com o can. 34 do Código de Direito Canónico, que servisse sobretudo de ajuda aos Ordinários do lugar para melhor poderem orientar os fiéis neste campo, favorecendo o que nele haja de bom e corrigindo o que deva ser evitado. Era porém necessário que as disposições disciplinares tivessem como ponto de referência um fundado enquadramento doutrinal que garantisse a sua justa aplicação e esclarecesse a razão normativa. Para tal fim, fez-se preceder a parte disciplinar com uma parte doutrinal sobre as graças de cura e as orações para alcançá-las.

I. ASPECTOS DOUTRINAIS

1. Doença e cura: seu significado e valor na economia da salvação

«O homem é destinado à alegria, mas todos os dias experimenta variadíssimas formas de sofrimento e de dor». (1) Por isso, o Senhor, nas suas promessas de redenção, anuncia a alegria do coração ligada à libertação dos sofrimentos (cfr. Is 30,29; 35,19; Bar 4,29). Ele é, de facto, «aquele que liberta de todos os males» (Sab 16,8). Entre os sofrimentos, os provocados pela doença são uma realidade constantemente presente na história humana, tornando-se, ao mesmo tempo, objecto do profundo desejo do homem de se libertar de todo o mal.

No Antigo Testamento, «Israel tem a experiência de que a doença está misteriosamente ligada ao pecado e ao mal». (2) Entre os castigos com que Deus ameaça o povo pela sua infidelidade, as doenças ocupam espaço de relevo (cfr. Dt 28,21-22.27-29.35). O doente que pede a Deus a cura reconhece que é justamente castigado pelos seus pecados (cfr. Sal 37; 40; 106,17-21).

A doença porém atinge também os justos e o homem interroga- se sobre o porquê. No livro de Job, essa interrogação está presente em muitas das suas páginas. «Se é verdade que o sofrimento tem um sentido de castigo, quando ligado à culpa, já não é verdade que todo o sofrimento seja consequência da culpa e tenha um carácter de punição. A figura do justo Job é uma especial prova disso no Antigo Testamento. (...) Se o Senhor permite que Job seja provado com o sofrimento, fá-lo para demostrar a sua justiça. O sofrimento tem carácter de prova». (3)

A doença, embora possa ter uma conotação positiva, como demonstração da fidelidade do justo e meio de reparar a justiça violada pelo pecado, e também como forma de levar o pecador a arrepender-se, enveredando pelo caminho da conversão, continua todavia a ser um mal. Por isso, o profeta anuncia os tempos futuros em que não haverá mais desgraças nem invalidez, e o decurso da vida nunca mais será interrompido com doenças mortais (cfr. Is 35,5-6; 65,19-20).

É todavia no Novo Testamento que encontra plena resposta a interrogação porque a doença atinge também os justos. Na actividade pública de Jesus, as suas relações com os doentes não são casuais, mas constantes. Cura a muitos deles de forma prodigiosa, tanto que essas curas milagrosas tornam-se uma característica da sua actividade: «Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades» (Mt 9,35; cfr. 4,23). As curas são sinais da sua missão messiânica (cfr. Lc 7,20-23). Manifestam a vitória do reino de Deus sobre todas as espécies de mal e tornam-se símbolo do saneamento integral do homem, corpo e alma. Servem, de facto, para mostrar que Jesus tem o poder de perdoar os pecados (cfr. Mc 2,1- 12); são sinais dos bens salvíficos, como a cura do paralítico de Betsaida (cfr. Jo 5,2-9.19-21) e do cego de nascença (cfr. Jo 9).

Também a primeira evangelização, segundo as indicações do Novo Testamento, era acompanhada de numerosas curas prodigiosas que corroboravam o poder do anúncio evangélico. Aliás, tinha sido essa a promessa de Jesus ressuscitado, e as primeiras comunidades cristãs viam nelas que a promessa se cumpria entre eles: «Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: (...) quando impuserem as mãos sobre os doentes, ficarão curados» (Mc 16,17-18). A pregação de Filipe na Samaria foi acompanhada de curas milagrosas: «Filipe desceu a uma cidade da Samaria e começou a pregar o Messias àquela gente. As multidões aderiam unanimemente às palavras de Filipe, ao ouvi-las e ao ver os milagres que fazia. De muitos possessos saíam espíritos impuros, soltando enormes gritos, e numerosos paralíticos e coxos foram curados» (Actos 8,5-7). São Paulo apresenta o seu anúncio do Evangelho como sendo caracterizado por sinais e prodígios realizados com o poder do Espírito: «não ousaria falar senão do que Cristo realizou por meu intermédio, para levar os gentios à obediência da fé, pela palavra e pela acção, pelo poder dos sinais e prodígios, pelo poder do Espírito» (Rom 15,18-19; cfr. 1 Tes 1,5; 1 Cor 2,4-5). Não é nada arbitrário supor que muitos desses sinais e prodígios, manifestação do poder divino que acompanhava a pregação, fossem curas prodigiosas. Eram prodígios que não estavam ligados exclusivamente à pessoa do Apóstolo, mas que se manifestavam também através dos fiéis: «Aquele que vos dá o Espírito e realiza milagres entre vós procede assim por cumprirdes as obras da Lei ou porque ouvistes a mensagem da fé?» (Gal 3,5).

A vitória messiânica sobre a doença, aliás como sobre outros sofrimentos humanos, não se realiza apenas eliminando-a com curas prodigiosas, mas também com o sofrimento voluntário e inocente de Cristo na sua paixão, e dando a cada homem a possibilidade de se associar à mesma. De facto, «o próprio Cristo, embora fosse sem pecado, sofreu na sua paixão penas e tormentos de toda a espécie e fez seus os sofrimentos de todos os homens: cumpria assim quanto d'Ele havia escrito o profeta Isaías (cfr. Is 53,4-5)». (4) Mais, «Na cruz de Cristo não só se realizou a Redenção através do sofrimento, mas também o próprio sofrimento humano foi redimido. (...) Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível de Redenção. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, se podem tornar também participantes do sofrimento redentor de Cristo». (5)

A Igreja acolhe os doentes, não apenas como objecto da sua solicitude amorosa, mas também reconhecendo neles a chamada «a viver a sua vocação humana e cristã e a participar no crescimento do Reino de Deus com novas modalidades e mesmo mais preciosas. As palavras do apóstolo Paulo hão-de tornar-se programa e, ainda mais, a luz que faz brilhar aos seus olhos o significado de graça da sua própria situação: "Completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo, em benefício do seu corpo que é a Igreja" (Col 1,24). Precisamente ao fazer tal descoberta, o apóstolo encontrou a alegria: "Por isso, alegro- me com os sofrimentos que suporto por vossa causa" (Col 1,24)». (6) Trata-se da alegria pascal, que é fruto do Espírito Santo. Como São Paulo, também «muitos doentes podem tornar-se veículo da "alegria do Espírito Santo em muitas tribulações" (1 Tes 1,6) e ser testemunhas da ressurreição de Jesus». (7)

2. O desejo da cura e a oração para alcançá-la

Salva a aceitação da vontade de Deus, o desejo que o doente sente de ser curado é bom e profundamente humano, sobretudo quando se traduz em oração confiante dirigida a Deus. O Ben-Sirá exorta a fazê-lo: «Filho, não desanimes na doença, mas reza ao Senhor e Ele curar-te-á» (Sir 38,9). Vários salmos são uma espécie de súplica de cura (cfr. Sal 6; 37; 40; 87).

Durante a actividade pública de Jesus, muitos doentes dirigem-se a Ele, ou directamente ou através de seus amigos e parentes, implorando a recuperação da saúde. O Senhor acolhe esses pedidos, não se encontrando nos Evangelhos o mínimo aceno de reprovação dos mesmos. A única queixa do Senhor refere-se à eventual falta de fé: «Se posso? Tudo é possível a quem acredita» (Mc 9,23; cfr. Mc 6,5-6; Jo 4,48).

Não só é louvável a oração de todo o fiel que pede a cura, sua ou alheia, mas a própria Igreja na sua liturgia pede ao Senhor pela saúde dos enfermos. Antes de mais, tem um sacramento «destinado de modo especial a confortar os que sofrem com a doença: a Unção dos enfermos». (8) «Nele, por meio da unção e da oração dos presbíteros, a Igreja recomenda os doentes ao Senhor padecente e glorificado para que os alivie e salve». (9) Pouco antes, na bênção da óleo, a Igreja reza: «derramai a vossa santa bênção para que [o óleo] sirva a quantos forem com ele ungidos de auxílio do corpo, da alma e do espírito, para alívio de todas as dores, fraquezas e doenças»; (10) e, a seguir, nos dois primeiros formulários da oração após a Unção, pede-se mesmo a cura do enfermo. (11) A cura, uma vez que o sacramento é penhor e promessa do reino futuro, é também anúncio da ressurreição, quando «não haverá mais morte nem luto, nem gemidos nem dor, porque o mundo antigo desapareceu» (Ap 21,4). Por sua vez, o Missale Romanum contém uma Missa pro infirmis, onde, além de graças espirituais, se pede a saúde dos doentes. (12)

No De benedictionibus do Rituale Romanum existe um Ordo benedictionis infirmorum que contém diversos textos eucológicos para implorar a cura: no segundo formulário das Preces,(13) nas quatro Orationes benedictionis pro adultis, (14) nas duas Orationes benedictionis pro pueris, (15) na oração do Ritus brevior. (16)

É óbvio que o recurso à oração não exclui, antes encoraja, o emprego dos meios naturais úteis a conservar e a recuperar a saúde e, por outro lado, estimula os filhos da Igreja a cuidar dos doentes e a aliviá-los no corpo e no espírito, procurando vencer a doença. Com efeito, «reentra no próprio plano de Deus e da sua Providência que o homem lute com todas as forças contra a doença em todas as suas formas e se esforce, de todas as maneiras, por manter-se em saúde». (17)

(cont)
(Revisão da versão portuguesa por ama)
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Notas:
(1) JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Christifideles laici, n. 53, AAS 81 (1989), p. 498.
(2) Catecismo da Igreja Católica, n. 1502.
(3) JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Salvifici doloris, n. 11, AAS, 76 (1984), p. 12.
(4) Rituale Romanum, Ex Decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum, Auctoritate Pauli PP. VI promulgatum, Ordo Unctionis Infirmorum eorumque Pastoralis Curae, Editio typica, Typis Polyglottis Vaticanis, MCMLXXII, n. 2.
(5) JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Salvifici doloris, n. 19, AAS, 76 (1984), p. 225.
(6) JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Christifideles laici, n. 53, AAS 81(1989), p. 499.
(7) Ibid., n. 53.
(8) Catecismo da Igreja Católica, n. 1511.
(9) Cfr. Rituale Romanum, Ordo Unctionis Infirmorum eorumque Pastoralis Curae, n. 5.
(10) Ibid., n. 75.
(11) Cfr. Ibid., n. 77.
(12) Missale Romanum, Ex Decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum, Auctoritate Pauli PP. VI promulgatum, Editio typica altera, Typis Polyglottis Vaticanis, MCMLXXV, pp. 838- 839.
(13) Cfr. Rituale Romanum, Ex Decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum, Auctoritate Ioannis Pauli II promulgatum, De Benedictionibus, Editio typica, Typis Polyglottis Vaticanis, MCMLXXXIV, n. 305.
(14) Cfr. Ibid., nn. 306-309.
(15) Cfr. Ibid., nn. 315-316.
(16) Cfr. Ibid., n. 319.
(17) Rituale Romanum, Ordo Unctionis Infirmorum eorumque Pastoralis Curae, n. 3.





04/09/2014

Reflectindo - 36

Cruz

Aceito a minha Cruz de ser como sou com a determinação de me tornar naquilo que queres que eu seja.


(AMA, meditação 2002.06.22)

Temas para meditar 226


Baptismo



O dom divino do Baptismo é a base de toda a dignidade cristã, porque ele é a origem da incorporação em Cristo.



(são joão paulo IIPassai um ano comigo, Verbo, pg. 219) 

Pôr Cristo no cume de todas as actividades

Qualquer actividade – quer seja ou não humanamente muito importante – tem de converter-se para ti num meio de servir Nosso Senhor e os homens: aí está a verdadeira dimensão da sua importância. (Forja, 684)

Trabalha sempre e em tudo, com sacrifício, para pôr Cristo no cume de todas as actividades dos homens. (Forja, 685)

A correspondência à graça também está nessas coisas miúdas do dia, que parecem sem categoria e, no entanto, têm a transcendência do Amor. (Forja, 686)

Não se pode esquecer que o trabalho humanamente digno, nobre e honesto, pode – e deve! – elevar-se à ordem sobrenatural, passando a ser uma tarefa divina. (Forja, 687)


Jesus, nosso Senhor e nosso Modelo, crescendo e vivendo como um de nós, revela-nos que na existência humana – a tua –, as ocupações correntes e vulgares têm um sentido divino, de eternidade. (Forja, 688).

Evang., Coment. Leit. Espiritual (Enc. Divino Afflante Spiritu)

Tempo comum XXVI Semana

São Francisco de Assis

Evangelho: Lc 10, 17-24

17 Os setenta e dois voltaram alegres, dizendo: «Senhor, até os demónios se nos submetem em virtude do Teu nome». 18 Ele disse-lhes: «Eu via Satanás cair do céu como um raio. 19 Eis que vos dei poder de caminhar sobre serpentes e escorpiões, e de vencer toda a força do inimigo, e nada vos fará dano. 20 Contudo não vos alegreis porque os espíritos maus vos estão sujeitos, mas alegrai-vos porque os vossos nomes estão escritos nos céus». 21 Naquela mesma hora Jesus exultou de alegria no Espírito Santo, e disse: «Graças Te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos prudentes, e as revelaste aos simples. Assim é, ó Pai, porque assim foi do Teu agrado. 22 Todas as coisas Me foram entregues por Meu Pai; e ninguém sabe quem é o Filho, senão o Pai, nem quem é o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelar». 23 Depois, tendo-Se voltado para os discípulos, disse: «Felizes os olhos que vêem o que vós vedes. 24 Porque Eu vos afirmo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes e não o viram, ouvir o que vós ouvis e não o ouviram».

Comentário:

Uma vez mais, Jesus Cristo esclarece: A única forma de conhecer Deus, de “chegar”’ ao Seu conhecimento é através dele próprio.
Parece muito lógico – para usar terminologia humana – se «todas as coisas Lhe foram entregues – Ele, então, é o único caminho para a salvação eterna ou, seja, para a contemplação eterna da Face de Deus.

(ama, comentário sobre Lc 10, 17-24, 2013.10.05) 

Leitura espiritual


Documentos do Magistério

CARTA ENCÍCLICA
DIVINO AFFLANTE SPIRITU (*)
DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII
AOS VENERÁVEIS IRMÃOS
PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS E BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS DO LUGAR
EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA
COMO A TODO O CLERO E FIÉIS DE CRISTO
DO ORBE CATÓLICO SOBRE OS ESTUDOS BÍBLICOS

10. É, porém, justo e grato reconhecer que os notáveis progressos feitos pela ciência e uso das Sagradas Escrituras entre os católicos se devem não somente a essas disposições, prescrições e exortações de nossos predecessores, mas também ao concurso e colaboração de todos os que, com pronto acatamento, consagraram as suas fadigas tanto a meditar, investigar e escrever, como a ensinar, pregar, traduzir e propagar os Livros Santos.
Com efeito, das escolas superiores de Teologia e Sagrada Escritura e, principalmente, de nosso Pontifício Instituto Bíblico têm saído já e saem muitos cultores das divinas Escrituras, que animados de ardente amor dos Livros santos infundem o mesmo amor na juventude eclesiástica e lhe comunicam diligentemente a doutrina que aprenderam.
Não poucos têm feito e fazem progredir as ciências bíblicas, nomeadamente com seus escritos, quer publicando edições críticas do sagrado texto, explicando-o, ilustrando-o, traduzindo-o, em vulgar, quer propondo-o à devota leitura e meditação dos fiéis, quer finalmente aprendendo e cultivando as ciências profanas que servem à inteligência da Escritura.
Essas e outras obras que cada dia mais se vão propagando e desenvolvendo, quais são, por exemplo, as reuniões, congressos, semanas de estudos bíblicos, bibliotecas, associações para a meditação dos evangelhos, fazem-nos conceber certas esperanças de que para o futuro a veneração, uso e ciência das sagradas Escrituras progredirão cada vez mais para o bem das almas, contanto que todos com firmeza, entusiasmo e confiança se atenham ao método de estudos bíblicos traçados por Leão XIII, por seus sucessores declarado e aperfeiçoado, e por nós confirmado e acrescido, método que é o único seguro e comprovado pela experiência, nem se deixem desanimar pelas dificuldades, que, como sucede nas coisas humanas, nunca hão de faltar nesta tão grande obra.


SEGUNDA PARTE

CRITÉRIOS HERMENÊUTICOS PARA O ESTUDO DA SAGRADA ESCRITURA HOJE

1. Estado atual dos estudos bíblicos

11. Nesses cinquenta anos as condições dos estudos bíblicos e ciências auxiliares, não há quem o não veja, mudaram consideravelmente. Assim, para não falar de outras coisas, quando nosso predecessor publicou a Encíclica Providentissimus Deus, apenas um ou outro lugar da Palestina se tinha começado a explorar com escavações orientadas nesse sentido.
Agora tais explorações têm-se multiplicado enormemente e fazem-se com métodos mais rigorosos e arte aperfeiçoada pela experiência, de modo que os resultados são muito mais abundantes e certos. Quanta luz se tire de tais investigações para compreender melhor e mais perfeitamente os Livros santos, sabem-nos os doutos, sabem-no todos os que se dão a este gênero de estudos.
Aumentam o valor destas explorações os monumentos escritos por vezes encontrados, que ajudam muito a conhecer as línguas, a literatura, a história, os costumes, os cultos daqueles antiquíssimos povos. Nem é menor a importância da investigação e descoberta dos papiros, tão frequente em nossos dias, e que tanto tem contribuído para melhor conhecimento das letras e instituições públicas e particulares, especialmente do tempo de nosso divino Salvador.
Encontraram-se ainda e publicaram-se, conforme as exigências da crítica, antigos manuscritos dos Livros santos, a exegese dos Padres da Igreja foi mais larga e profundamente estudada, inúmeros exemplos vieram a ilustrar o modo de falar, de narrar e de escrever dos antigos.
Tudo isso que, não sem providência especial de Deus, conseguiu a nossa época, convida e aconselha aos intérpretes das sagradas Escrituras a aproveitar diligentemente tanta luz para perscrutar mais a fundo os divinos Oráculos, ilustrá-los com maior clareza, expô-los com maior precisão.
Vemos, com suma complacência da nossa alma, que os intérpretes têm correspondido e continuam a corresponder com louvável zelo a este convite, é este um fruto, e não dos últimos nem dos menores, da encíclica Providentissimus Deus, com a qual o nosso predecessor, como presságio desta nova primavera de estudos bíblicos, chamou os exegetas católicos ao trabalho e lhes traçou o caminho e métodos de trabalhar.
Ora, que o trabalho não só continue constantemente, mas frutifique e se aperfeiçoe cada vez mais é o que nós também desejamos conseguir com esta encíclica, na qual nos propomos sobretudo mostrar a todos o que falta ainda por fazer e qual o espírito com que o exegeta católico de hoje deve aplicar-se a um múnus tão grande e tão excelso, e infundir novo animo e novos estímulos aos operários que estrenuamente trabalham na vinha do Senhor.

2. Uso dos textos originais

Estudo das línguas bíblicas

12. Ao intérprete católico que se aplica a entender e expor as Sagradas Escrituras, já os Padres da Igreja - e sobretudo Agostinho - recomendaram vivamente o estudo das línguas antigas e o recurso aos textos originais. (22)
Todavia as condições dos estudos naqueles tempos eram tais que só poucos, e ainda assim imperfeitamente, conheciam a língua.
Na Idade Média, quando mais florescia a teologia escolástica, tinha decaído tanto também o conhecimento do grego entre os ocidentais, que até os maiores doutores daquele tempo, ao explicarem os Livros santos, deviam basear-se unicamente na tradução latina da Vulgata. Ao contrário em nossos dias não só a língua grega, que com a Renascença ressurgiu por assim dizer à nova vida, é familiar a quase todos os literatos e cultores da antiguidade, mas também a hebraica e as outras línguas orientais são largamente conhecidas dos eruditos.
Além disso são hoje tantos os meios para aprender aquelas línguas que o intérprete da Escritura, que, descurando-as, fecha a si mesmo o acesso aos textos originais, não podendo evitar a imputação de inconsideração e indolência.
Dever do exegeta é aproveitar com a máxima atenção e veneração ainda as mais pequenas minudências provenientes da pena do hagiógrafo sob a inspiração do Divino Espírito, a fim de penetrar a fundo e plenamente o seu pensamento.
Por isso trabalhe por adquirir uma perícia cada vez maior das línguas bíblicas e também dos outros idiomas orientais e apoie a sua interpretação com todos os recursos subministrados por toda espécie de filologia.
Foi o que S. Jerónimo se esforçou por conseguir, quanto o consentiam os conhecimentos daquela época, e o mesmo procuraram, com indefesso estudo e fruto mais que ordinários, os grandes exegetas dos séculos XVI e XVII, se bem que fosse então, menor do que hoje, a ciência linguística.
Deve, pois, com o mesmo método explicar-se o texto original, o qual pelo facto mesmo de ter sido escrito pelo Autor sagrado, tem maior autoridade e peso que qualquer tradução antiga ou moderna por óptima que seja, e isso poderá obter-se mais fácil e proveitosamente, se ao conhecimento das línguas se unir uma sólida perícia da arte crítica aplicada ao mesmo texto.

Importância da crítica textual

13. Quanta seja a importância desta crítica, bem o dá a entender Santo Agostinho, quando entre as normas que inculca ao estudioso dos Livros Santos, põe em primeiro lugar o cuidado de procurar um texto correcto.
"A emendar os códices, diz aquele preclaríssimo doutor da Igreja, deve antes de mais nada atender a sagacidade pelos que desejam conhecer as divinas Escrituras, para que os não emendados cedam o lugar aos emendados". (23)
Hoje em dia esta arte que sói chamar-se crítica textual e nas edições de autores profanos se emprega com grande louvor e fruto, com toda a razão se aplica também aos Livros Santos, precisamente pela reverência devida à palavra de Deus.
De facto o seu fim é reconstruir com toda a possível perfeição o texto sagrado, expurgá-lo das alterações nele introduzidas por culpa dos copistas, mudando-o das glossas e lacunas, transposições e repetições de palavras, e de toda espécie de erros que costumam infiltrar-se na transmissão plurissecular de obras manuscritas.
Nem quase é preciso advertir que essa crítica, que alguns decénios atrás muitos empregaram de modo completamente arbitrário, tanto que muitas vezes parecia não pretenderem outra coisa senão introduzir no texto sagrado as suas opiniões preconcebidas, hoje chegou a tal consistência e segurança de regras, que se tornou um magnífico instrumento para a edição da divina palavra em forma mais exacta e mais pura, e é fácil descobrir qualquer abuso que dela se faça.
Nem é necessário lembrar aqui - pois é coisa conhecida e manifesta a quantos estudam a Sagrada Escritura - quanto apreço fez sempre a Igreja, desde os primeiros séculos até aos nossos tempos, dos estudos críticos.
Portanto hoje que esta arte atingiu tão grande perfeição, é um dever de honra, bem que não sempre fácil, para os especialistas em Sagrada Escritura, procurar por todos os meios que quanto antes se preparem edições católicas dos Livros santos e das antigas traduções, feitas segundo estas normas, de modo que com uma reverência suma para com o texto sagrado unam uma exacta observância de todas as leis da crítica.
E saibam bem todos que este longo trabalho não só é necessário para bem compreender os escritos divinamente inspirados, mas é imperiosamente exigido pela piedade com que nos devemos mostrar sumamente agradecidos a amorosíssima Providência de Deus que do trono da sua majestade nos mandou esses livros como cartas do Pai celeste aos próprios filhos.

Texto original e autenticidade da vulgata

14. Nem vá alguém pensar que o sobredito uso dos textos originais, feito segundo as regras da crítica, é contrário a quanto o concílio de Trento sabiamente decretou a respeito da Vulgata latina. (24)
É um facto, atestado pelos documentos, que os presidentes do concílio receberam o encargo, por eles fielmente cumprido, de pedir ao sumo pontífice em nome do mesmo Concílio que mandasse corrigir o melhor possível, primeiro a edição latina, depois também a grega e a hebraica, e as publicasse para proveito da santa Igreja de Deus. (25)
A esse desejo, se então pelas dificuldades dos tempos e outros obstáculos não se pode dar plena satisfação, actualmente com a colaboração de doutos católicos pode dar-se, e confiamos que se dará execução mais vasta e perfeita.
Quanto à Vulgata, se o concílio Tridentino ordenou que ela fosse a tradução latina que todos usassem como autêntica, primeiro, este decreto, como todos sabem, é só para a Igreja latina, e para o uso público da Escritura, depois, em nada diminui a autoridade e valor dos textos originais.
De facto não se tratava então dos textos originais, mas das traduções latinas que naquele tempo corriam, entre as quais o concílio justamente decretou se preferisse a que "pelo longo uso de tantos séculos na mesma Igreja estava já de facto aprovada".
Portanto esta autoridade proeminente ou autenticidade da Vulgata decretou-a o concílio não principalmente por motivos de crítica, mas antes pelo uso legítimo que dela se fez na Igreja durante tantos séculos, uso que prova ela estar, no sentido em que a entendeu e entende a Igreja, completamente isenta de erros no que toca a fé e aos costumes, de modo que, como a mesma Igreja atesta e confirma, se pode nas disputas, prelecções e pregação alegar seguramente e sem perigo de errar, por isso esta autenticidade propriamente não se chama "crítica" mas "jurídica".
Nem a autoridade da Vulgata em matéria de doutrina impede, - antes nos nossos dias quase exige - que a mesma doutrina se prove e confirme também com os textos originais, e que se recorra aos mesmos textos para encontrar e explicar cada vez melhor o verdadeiro sentido das Sagradas Escrituras.
Antes, o decreto Tridentino nem sequer proíbe que, para uso e proveito dos fiéis e para facilitar a inteligência da divina palavra, se façam traduções em línguas vulgares, e precisamente dos textos originais, como sabemos terem-se já feito, e muito bem, em várias partes, com aprovação da autoridade eclesiástica.

(Revisão da versão portuguesa por ama)

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Notas:

(*) Em 30 de setembro de 1943, por motivo do cinqüentenário da encíclica "Providentissimus Deus", o Santo Padre Pio XII publicou a seguinte encíclica sobre os estudos bíblicos. Por sua extensão, e pela admirável clareza com que expõe as normas que devem ser observadas no uso da Sagrada Escritura, o importante documento adquire o alcance de uma verdadeira Carta Magna em matéria de estudos e apostolado bíblicos.
(22) Cf. s. Jerónimo, Praef. in IV Evang. ad Damasum, PL 29, 526-527, s. Agostinho, De doctr. christ. II 16, PL 34, 42-43.
(23) De doct. christ., II. 21, PL 34, 46.
(24) Decr. de editione et usu Sacrorum Librorum, Conc.Trid. ed. Soc. Goerres, t. V p. 91s.
(25) Ibid. t. X, p. 471, cf. t. V pp. 29, 59, 65, t. X, p. 446s.




03/09/2014

Temas para meditar 225


Visita ao Santíssimo Sacramento


Senhor Jesus! Apresentamo-nos perante Ti sabendo que nos chamas e que nos amas tal como somos. Tu tens palavras de vida eterna e nós acreditámos e conhecemos que Tu és o Filho de Deus (Jo 6, 69). A Tua presença na Eucaristia começou com o sacrifício da Última Ceia e continua como comunhão e doação de tudo quanto és. Aumenta a nossa fé (…). Tu és a nossa esperança, a nossa paz, o nosso Mediador, irmão e amigo. O nosso coração enche-se de gozo e de esperança ao saber que vives sempre intercedendo por nós (Heb 7, 25). A nossa esperança traduz-se em confiança, gozo de Páscoa e caminho apressado contigo para o Pai.
Queremos sentir como Tu e valorizar as coisas como Tu as valorizas, Porque Tu és o centro, o princípio e o fim de tudo. Apoiados nesta esperança, queremos infundir no mundo esta escala de valores evangélicos, pela qual Deus e os seus dons salvíficos ocupam o primeiro lugar no coração e nas atitudes da vida concreta.
Queremos amar como Tu, que dás a vida e Te comunicas com tudo quanto és. Queríamos dizer como S. Paulo: A minha vida é Cristo (Flp 1, 21). A nossa vida não tem sentido sem Ti. Queremos aprender a “estar com quem sabemos que nos ama”, porque “com tão bom amigo presente nada se pode sofrer” (…).
Deste-nos a Tua Mãe como nossa, para que nos ensine a meditar e a orar no coração, Ela, recebendo a Palavra e pondo-a em prática, tornou-se a Mãe mais perfeita.


(são joão paulo ii, Alocução, Madrid, 1982.10.31)

O amor casto entre um homem e uma mulher

Admira a bondade do nosso Pai Deus: não te enche de alegria a certeza de que o teu lar, a tua família, o teu país, que amas com loucura, são matéria de santidade? (Forja, 689)

E agora, meus filhos e minhas filhas, permiti que me detenha noutro aspecto – particularmente querido – da vida comum. Refiro-me ao amor humano, ao amor casto entre um homem e uma mulher, ao noivado, ao matrimónio. Devo dizer uma vez mais que esse amor humano santo não é algo de permitido, de tolerado, à margem das verdadeiras actividades do espírito, como poderiam insinuar os falsos espiritualismos a que antes aludia. Há quarenta anos que venho pregando exactamente o contrário, através da palavra e da escrita, e os que não compreendiam já o vão entendendo.


O amor que conduz ao matrimónio e à família pode ser também um caminho divino, vocacional, maravilhoso, meio para uma completa dedicação ao nosso Deus. Realizai as coisas com perfeição, tenho-vos recordado, ponde amor nas pequenas actividades da jornada, descobri – insisto – esse quê divino que se oculta nos pormenores: toda esta doutrina encontra um lugar especial no espaço vital em que o amor humano se enquadra. (Temas Actuais do Cristianismo, 121)

Evang., Coment. Leit. Espiritual (Instr. Libertatis Conscientia)

Tempo comum XXII Semana

São Gregório Magno – Papa e Doutor da Igreja

Evangelho: Lc 4, 38-44

38 Saindo Jesus da sinagoga, entrou em casa de Simão. Ora a sogra de Simão estava com febre muito alta. Pediram-Lhe por ela. 39 Ele, inclinando-Se para ela, ordenou à febre, e a febre deixou-a. Ela, levantando-se logo, servia-os. 40 Quando foi sol-posto, todos os que tinham doentes de diversas moléstias, traziam-Lhos. E Ele, impondo as mãos sobre cada um, curava-os. 41 De muitos saíam os demónios, gritando: «Tu és o Filho de Deus». Mas Ele repreendia-os severamente e impunha-lhes silêncio, porque sabiam que Ele era o Cristo. 42 Quando se fez dia, tendo saído, foi para um lugar solitário. As multidões foram à Sua procura e, tendo-O encontrado, tentavam retê-l'O para que não se afastasse deles. 43 Mas Ele disse-lhes: «É necessário que Eu anuncie também às outras cidades a boa nova do reino de Deus, pois para isso é que fui enviado». 44 E andava pregando nas sinagogas da Judeia.

Comentário:

O Evangelista não refere que a sogra de Pedro tenha rompido, como muitos outros, em louvores e acções de graças pela cura alcançada.
Diz que ela «levantando-se logo, servia-os».
O serviço, mesmo simples e sem notoriedade é verdadeira Acção de Graças porque nada é mais agradável ao Senhor – o Servo por excelência – que imitá-lo servindo.

(ama, comentário sobre Lc 4, 38-44, 2013.09.05)


Leitura espiritual


Documentos do Magistério
CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

INSTRUÇÃO
LIBERTATIS CONSCIENTIA
SOBRE A LIBERDADE CRISTÃ E A LIBERTAÇÃO

CAPÍTULO V

A DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA: POR UMA PRAXIS CRISTÃ DA LIBERTAÇÃO

II. Exigências evangélicas de transformações em profundidade

Necessidade de uma transformação cultural

81. Um desafio sem precedente é hoje lançado aos cristãos que se esforçam por realizar aquela «civilização do amor» que reúne toda a herança ético-social do Evangelho. Essa tarefa exige uma reflexão nova sobre aquilo que constitui a relação entre mandamento supremo do amor e ordem social, compreendida em toda a sua complexidade.

Finalidade directa de tal reflexão em profundidade é a elaboração e actuação de programas de acção audaciosos, com vista à libertação socioeconómica de milhões de homens e mulheres, cuja situação de opressão económica, social e política é intolerável.

Essa acção deve começar por um imenso esforço de educação: educação para a civilização do trabalho, educação para a solidariedade, acesso de todos à cultura.

Evangelho do trabalho

82. A vida de Jesus em Nazaré, verdadeiro «Evangelho do trabalho», oferece-nos um vivo exemplo e o princípio da radical transformação cultural indispensável para resolver os graves problemas que a nossa época deve enfrentar. Aquele que, sendo Deus, se fez semelhante a nós em tudo, durante a maior parte de sua vida terrena entregou-se a um trabalho manual. 123 A cultura que a nossa época espera, será caracterizada pelo pleno reconhecimento da dignidade do trabalho humano, que aparece em toda a sua nobreza e fecundidade à luz dos mistérios da Criação e da Redenção. 124 Reconhecido como expressão da pessoa, o trabalho torna-se fonte de sentido e esforço criador.

Uma verdadeira civilização do trabalho

83. Dessa forma, a solução da maioria dos gravíssimos problemas da miséria encontra-se na promoção de uma verdadeira civilização do trabalho. De certa forma, o trabalho é a chave de toda a questão social. 125

É, pois, no campo do trabalho que deve ser empreendida, prioritariamente, uma acção evangelizadora na liberdade. Uma vez que a, relação entre pessoa humana e trabalho é radical e vital, as formas e modalidades que regulamentam tal relação exercerão uma influência positiva, em vista da solução do conjunto de problemas sociais e políticos que se apresentam a cada povo. Relações de trabalho justas prefigurarão um sistema de comunidade política apto a favorecer o desenvolvimento integral de toda a pessoa humana.

Se o sistema das relações de trabalho, posto em funcionamento pelos protagonistas directos, trabalhadores e empregadores, com o indispensável apoio dos poderes públicos, consegue dar origem a uma civilização do trabalho, produzir-se-á, então, na maneira de ver dos povos e até nas bases institucionais e políticas, uma profunda revolução pacífica.

Bem comum nacional e internacional

84. Uma tal cultura do trabalho deverá supor e pôr em acção um certo número de valores essenciais. Ela reconhecerá que a pessoa do trabalhador é princípio, sujeito e fim da actividade laboriosa. Afirmará a prioridade do trabalho sobre o capital e a destinação universal dos bens materiais. Será animada pelo senso de uma solidariedade que não comporta apenas direitos a reivindicar, mas também deveres a cumprir. Implicará a participação, visando promover o bem comum nacional e internacional e não apenas a defesa de interesses individuais ou corporativos. Ela assimilará o método do confronto pacífico e do diálogo franco e vigoroso.

Por seu lado, as autoridades políticas tornar-se-ão sempre mais capazes de agir no respeito às legítimas liberdades dos indivíduos, das famílias, dos grupos subsidiários, criando assim as condições necessárias para que o homem possa alcançar o seu bem verdadeiro e integral, inclusive o seu fim espiritual 126.

O valor do trabalho humano

85. Uma cultura que reconheça a eminente dignidade do trabalhador, evidenciará a dimensão subjectiva do trabalho. 127 O valor de cada trabalho humano não se deduz, em primeiro lugar, do trabalho realizado; ele tem o seu fundamento no facto de que quem o executa é uma pessoa.1 28 Trata-se, portanto, de um critério ético, cujas exigências são evidentes.

Assim, todo homem tem direito ao trabalho, direito esse que deve ser reconhecido de forma prática, através de um efectivo empenho em vista de se resolver o dramático problema do desemprego. É intolerável que este mantenha em uma situação de marginalização amplas parcelas da população, e, notadamente, da juventude. Por isso, a criação de postos de trabalho é uma tarefa social primordial, que se impõe aos indivíduos e à iniciativa privada, mas igualmente ao Estado. Como regra geral, aqui como em outros campos, o Estado tem uma função subsidiária; mas frequentemente pode ser chamado a intervir directamente, como no caso de acordos internacionais entre diversos Estados. Tais acordos devem respeitar o direito dos emigrantes e de suas famílias. 129

Promover a participação

86. O salário, que não pode ser concebido como uma simples mercadoria, deve permitir ao trabalhador e à sua família terem acesso a um nível de vida verdadeiramente humano na ordem material, social, cultural e espiritual. É a dignidade da pessoa que constitui o critério para julgar o trabalho, e não o contrário. Seja qual for o tipo de trabalho, o trabalhador deve poder vivê-lo como expressão da sua personalidade. Daí decorre a exigência de uma participação que, muito mais que uma partilha dos frutos do trabalho, deveria comportar uma verdadeira dimensão comunitária em nível de projectos, de iniciavas e de responsabilidades. 130

Prioridade do trabalho sobre o capital

87. A prioridade do trabalho sobre o capital faz com que os empresários tenham o dever de justiça de considerar o bem dos trabalhadores antes do aumento dos lucros. Eles têm a obrigação moral de não manter capitais improdutivos, e de procurar, nos investimentos, antes de tudo, o bem comum. Este último exige que se busque, como prioridade, a consolidação ou a criação de novos postos de trabalho, na produção de bens realmente úteis.

O direito à propriedade privada não é concebível sem os seus deveres para com o bem comum. Ele é subordinado ao princípio superior da destinação universal dos bens. 131

Reformas em profundidade

88. Esta doutrina deve inspirar reformas, antes que seja tarde demais. O acesso de todos aos bens requeridos por uma vida humana, pessoal e familiar, digna desse nome, é uma exigência primária da justiça social. Sua aplicação deve abranger a área do trabalho industrial e, de um modo todo especial, a do trabalho agrícola. 132 Com efeito, os camponeses, sobretudo no Terceiro Mundo, formam a massa preponderante dos pobres. 133

III. Promoção da solidariedade

Uma nova solidariedade

89. A solidariedade é uma exigência directa da fraternidade humana e sobrenatural. Os graves problemas socio-económicos, que hoje se apresentam, só poderão ser resolvidos se novas frentes de solidariedade forem criadas: solidariedade dos pobres entre si; solidariedade com os pobres, para a qual os ricos são convocados; solidariedade dos trabalhadores e com os trabalhadores. As instituições e organizações sociais, em diferentes níveis, como também o Estado, devem participar de um movimento geral de solidariedade. Ao fazer este apelo, a Igreja sabe que também ela encontra-se envolvida nele de um modo todo particular.

A destinação universal dos bens

90. O princípio da destinação universal dos bens, juntamente com o da fraternidade humana e sobrenatural, impõe aos países mais ricos deveres para os países pobres. Deveres que são de solidariedade na ajuda aos países em vias de desenvolvimento; de justiça social, mediante uma revisão, em termos correios, das relações comerciais entre Norte e Sul e pela promoção de um mundo mais humano para todos, onde cada um possa dar e receber, e onde o progresso de uns não seja mais um obstáculo ao desenvolvimento de outros, nem um pretexto para a sua sujeição. 134

Ajuda ao desenvolvimento

91. A solidariedade internacional é uma exigência de ordem moral. Ela não se impõe unicamente nos casos de extrema urgência, mas também como ajuda ao verdadeiro desenvolvimento. Trata-se de uma obra comum, que requer um esforço convergente e constante para se encontrarem as soluções técnicas concretas, mas também para criar uma nova mentalidade nos homens deste tempo. A paz mundial, em grande parte, depende disso. 135

(cont)
(Revisão da versão portuguesa por ama)
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Notas:
123 Cfr. João Paulo II, Enc.Laborem Exercem, n. 6: AAS 73 (1981), 589-592.
124 Cfr. Loc. cit., cap. V: ibid., 637-647.
125 Cfr. Loc. cit., n. 3: ibid., 583-584; Alocução em Loreto, 10 de maio de 1985: AAS 77 (1985), 967-969.
126 Cfr. Paulo VI, Carta apost. Octogesima Adveniens, n. 46: AAS 63 (1971), 633-635.
127 Cfr. João Paulo II, Enc. Laborem Exercem, n. 6: AAS 73 (1981), 589-592.
128 Cfr. Ibid.
129 Cfr. João Paulo II, Exort. apost. Familiaris Consortio, n. 46: AAS 74 (1982), 137-139; Enc. Laborem Exercens, n. 23: AAS 73 (1981), 635-637; Santa Sé, Carta dos direitos da família, art. 12: L’Osservatore Romano, 25 de novembro de 1983.
130 Cfr. Const. past. Gaudium et Spes, n. 68; João Paulo II, Enc. Laborem Exercem, n. 15: AAS 73 (1981), 616-618; Discurso de 3 de julho de 1980: L’Osservatore Romano, 5 de julho de 1980, 1-2.
131 Cfr. Const. past. Gaudium et Spes, n. 69; João Paulo II, Enc. Laborem Exercens, nn. 12. 14: AAS 73 (1981), 605-608. 612-616.
132 Cfr. Pio XI, Enc. Quadragesimo Anno, n. 72: AAS 23 (1931), 200; João Paulo II, Enc. Laborem Exercens, n. 19: AAS 73 (1981), 625-629.
133 Cfr. Documento da 2a Conferência do Episcopado latino-americano em Medellin, Justiça, I. 9; Documento da 3a Conferência do Episcopado latino-americano em Puebla, nn. 31. 35. 1245.
134 Cfr. João XXII, Enc. Mater et Magistra, n. 163: AAS 53 (1961), 443; Paulo VI, Enc. Populorum Progressio, n. 51: AAS 59 (1967), 282; João Paulo II, Discurso ao Corpo Diplomático, 11 de janeiro de 1986: L’Osservatore Romano, 12 de janeiro de 1986, 4-5.
135 Cfr. Paulo VI, Enc. Populorum Progressio, n. 55: AAS 59 (1967), 284.