24/06/2014

Tratado da lei 33

Questão 98: Da lei antiga.

Em seguida devemos tratar da lei antiga. E, primeiro, da lei em si mesma. Segundo, dos seus preceitos.

Na primeira questão discutem-se seis artigos:

Art. 1 — Se a lei antiga era boa.
Art. 2 — Se a lei antiga procedia de Deus.
Art. 3 — Se a lei antiga foi dada pelos anjos, ou imediatamente por Deus.
Art. 4 — Se a lei antiga devia ter sido dada só ao povo judeu.
Art. 5 — Se todos os homens estavam obrigados a observar a lei antiga.
Art. 6 — Se a lei antiga foi dada, no tempo conveniente, a Moisés.

Art. 1 — Se a lei antiga era boa.

(Art. seq., ad 1, 2; Ad Rom., cap. VII, lect. II, III; Ad Galat., cap. III, lect. VII, VIII; I Tim., cap. I, lect. II).

O primeiro discute-se assim. — Parece que a lei antiga não era boa.

1. — Pois, diz a Escritura (Ez 20, 25): Eu lhes dei uns preceitos não bons, e umas ordenanças nas quais eles não acharam a vida. Ora, uma lei não é considerada boa senão pela bondade dos preceitos que contém. Logo, a lei antiga não era boa.

2. Demais. — Pela sua bondade é que a lei é útil para o bem público, como diz Isidoro. Ora, a lei antiga não era salutar, mas antes, mortífera e nociva. Pois, diz o Apóstolo (Rm 7, 8): Sem a lei o pecado estava morto. E eu nalgum tempo vivia sem lei; mas quando veio o mandamento reviveu o pecado; e eu sou morto. E ainda (Rm 5, 20): Sobreveio a lei para que abundasse o pecado. Logo, a lei antiga não era boa.

3. Demais. — Pela sua bondade é que a lei é de observância possível, quanto à natureza e quanto ao costume humano. Ora, tal não era a lei antiga, conforme diz Pedro (At 15, 10): Porque tentais pôr um jugo sobre as cervizes dos discípulos, que nem nossos pais nem nós pudemos suportar. Logo, parece que a lei antiga não era boa.

Mas, em contrário, diz o Apóstolo (Rm 7, 12): Assim que, a lei é na verdade santa, e o mandamento é santo, e justo, e bom.

Sem nenhuma dúvida, a lei antiga era boa. Pois, assim como se manifesta verdadeira uma doutrina, por estar de acordo com a razão; assim, mostra ser boa uma lei, por estar de acordo com a razão recta. Ora, a lei antiga estava de acordo com a razão, pois reprimia a concupiscência, que lhe é contrária, como o prova aquele mandamento (Ex 20, 17): Não cobiçaras os bens do teu próximo. E também proibia todos os pecados contrários à razão. Donde é manifesto, que era boa. E esta é a razão do Apóstolo, quando diz (Rm 7, 22): Eu deleito-me na lei de Deus, segundo o homem interior; e ainda (Rm 7, 16): consinto com a lei, tendo-a por boa.

Devemos porém notar que a bondade tem diversos graus, como diz Dionísio. Assim há uma bondade perfeita e outra, imperfeita. A perfeita relativamente aos meios consiste em ser um meio tal, que por si mesmo é conducente ao fim. A imperfeita consiste em praticarmos algum acto para a consecução do fim, mas não bastante a atingi-lo. Assim, o remédio perfeitamente bom cura-nos; o imperfeito ajuda, mas não pode curar.

Ora, como sabemos um é o fim da lei humana, e outro, o da divina. O fim da lei humana é a tranquilidade temporal da cidade. E esse fim a lei consegue-o coibindo os actos exteriores, excluindo os males capazes, de perturbar a paz civil. Ao passo que a lei divina visa levar o homem ao fim da felicidade eterna, fim que todo pecado impede; e não só por actos externos, como também por internos. Portanto, o bastante à perfeição da lei humana, que é proibir os pecados e cominar a pena, não o é à perfeição da lei divina, que há de tornar o homem totalmente capaz de participar da felicidade eterna. Ora, isto não pode ser senão por graça do Espírito Santo, pela qual se difunde a caridade nos nossos corações, que cumpre a lei; pois, a graça de Deus é a vida eterna, como diz o Apóstolo (Rm 5, 5). Mas, esta graça a lei antiga não a podia conferir, pois isso estava reservado a Cristo. Porque, como diz João, a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade foi trazida por Jesus Cristo. Donde vem, que a lei antiga era, por certo boa, mas imperfeita, conforme (Heb 7, 19): a lei nenhuma coisa levou à perfeição.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — No lugar citado o Senhor fala dos preceitos cerimoniais, chamados não bons por não conferirem a graça, que purifica os homens do pecado, embora por eles os homens se mostrassem pecadores. Por isso assinaladamente diz: e umas ordenanças nas quais eles não achavam a vida, i. é, pelas quais não podem obter a vida da graça. E depois acrescenta: E permiti que eles se manchassem nos seus dons, i. é, mostrei-os manchados, quando para expiação dos seus pecados ofereciam lodo o que rompe o claustro materno.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Diz-se que a lei matava, não certamente efectiva, mas, ocasionalmente, por causa da sua imperfeição, por não conferir a graça, pela qual os homens pudessem cumprir o que ela mandava e evitar o que proibia. E assim, essa ocasião não era dada, mas tomada pelos homens. E por isso o Apóstolo diz, no mesmo lugar (Rm 5, 11): o pecado, tomando ocasião do mandamento, me enganou, e me matou pelo mesmo mandamento. E por esta razão diz: sobreveio a lei para que abundasse o pecado; onde se deve considerar a expressão — para que — não consecutiva, mas causalmente, i. é, porque os homens, tomando ocasião da lei, pecaram mais intensamente. Quer por ser o pecado mais grave, depois da proibição da lei; quer ainda porque a concupiscência aumentasse, pois, maior é a nossa concupiscência quando se trata do proibido.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O jugo da lei não podia ser suportado sem a graça coadjuvante, que a lei não dava. Pois, diz o Apóstolo (Rm 9, 16): querer e correr nos preceitos de Deus não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus usar da sua misericórdia. Donde o dizer a Escritura (Sl 118, 32): Corri pelo caminho dos teus mandamentos, quando dilataste o meu coração, i. é, pelo dom, da graça e da caridade.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, comentário e leitura espiritual (A paz na familia 5)


Tempo comum Semana XII

Nascimento de São João Baptista

Evangelho: Lc 1, 57-66. 80

7 Completou-se para Isabel o tempo de dar à luz e deu à luz um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes ouviram falar da graça que o Senhor lhe tinha feito e congratulavam-se com ela. 59 Aconteceu que, ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e chamavam-lhe Zacarias, do nome do pai. 60 Interveio, porém, sua mãe e disse: «Não; mas será chamado João». 61 Disseram-lhe: «Ninguém há na tua família que tenha este nome». 62 E perguntavam por acenos ao pai como queria que se chamasse. 63 Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu assim: «O seu nome é João». Todos ficaram admirados.64 E logo se abriu a sua boca, soltou-se a língua e falava bendizendo a Deus. 65 O temor se apoderou de todos os seus vizinhos, e divulgaram-se todas estas maravilhas por todas as montanhas da Judeia. 66 Todos os que as ouviram as ponderavam no seu coração, dizendo: «Quem virá a ser este menino?». Porque a mão do Senhor estava com ele.
80 Ora o menino crescia e se fortificava no espírito. E habitou nos desertos até ao dia da sua manifestação a Israel.

Comentário:


Sendo João da mesma idade de Jesus Cristo – apenas com seis meses de diferença – verificamos que passou os primeiros trinta anos da sua vida «habitando os desertos».


Tal como Aquele cujo caminho vem preparar, a preparação do que lhe está cometido necessita de um longo tempo de recolhimento.


Ao contrário, Jesus Cristo, vive esses mesmos trinta anos no seio da família, actuando como qualquer jovem e, depois, homem vulgar e corrente na pequena sociedade da Sua terra de origem.


Poderíamos então dizer que, João, é alguém muito especial que escolhe viver afastado da sociedade, num retiro voluntário. O que o espera é de tal forma grande e extraordinário que não pode deixar de ser assim e, acresce, que não quer que durante esse tempo, as pessoas acorram a ele porque o seu papel é de absoluta discrição e anonimato.


(ama, comentário sobre, Lc 1, 57-66, Carvide, 2013.12.23)


Leitura espiritual



Temas


A PAZ NA FAMÍLIA
…/5

SITUAÇÃO OU VOCAÇÃO

É inútil tentar resolver essa “incapacidade de fazer família” com panos quentes:
assessoramento psiquiátrico (fora de casos patológicos), aprendizado das dez “técnicas” de convívio feliz publicadas – com a costumeira superficialidade – pelas revistas do coração.

A solução, a única solução, está em algo de muito mais profundo. Não há, em muitos rapazes e moças, capacidade de “fazer família”, porque se perdeu a noção do que “é a família”. Não há capacidade de criar amor familiar, porque se perdeu a noção do verdadeiro amor. Não há capacidade de conseguir, no lar, um clima de bondade, paciência, serenidade, alegria, caridade e paz, porque todos esses valores positivos são virtudes ou fruto das virtudes e, hoje, a maioria das pessoas, em vez de aprenderem virtudes, passam os anos a aprender interesses e conveniências. Entram, assim, nas lutas da vida como um combatente moralmente desarmado.

Que é, afinal, a família?

Hoje, mais do que nunca, é preciso fazer ressoar, com a força de uma verdade jubilosa e de um apelo premente, que o casamento e a família não são uma situação, nem uma solução, mas uma vocação e uma missão.

Uma situação. Uma solução. É assim que muitos dos que ainda concedem algum papel ao casamento e à família costumam considerá-los. “Eu – pensam eles – situo-me profissionalmente, situo-me familiarmente, e tento manter nos dois campos, enquanto for conveniente para mim, a situação que, no momento, vejo como a solução mais conveniente”.

A família não é isso. É algo muito maior. Para compreendê-la, escutemos uma das vozes que têm proclamado com maior clareza o sentido divino, cristão, do casamento e da família. Refiro-me ao Bem-aventurado Josemaría Escrivá. Contemplando ele, sob o foco luminoso da fé, o sentido da existência humana, dizia: “Para que estamos no mundo?
Para amar a Deus com todo o nosso coração e com toda a nossa alma, e para estender esse amor a todas as criaturas [...]. Deus não deixa nenhuma alma abandonada a um destino cego; para todas tem um desígnio, a todas chama com uma vocação pessoalíssima, intransferível”.

Também “o matrimónio é caminho divino, é vocação” 7.

Esta afirmação categórica – “o matrimónio é vocação” – feita por Mons. Escrivá já desde os começos dos anos trinta, surpreendia e desconcertava, de início, os seus ouvintes.

Depois, quando penetravam nessa verdade e lhe descobriam as consequências, deslumbrava-os e rasgava-lhes empolgantes horizontes de vida.

“Há quase quarenta anos – dizia o Bem-aventurado, em 1968 – que venho pregando o sentido vocacional do matrimónio. Que olhos cheios de luz vi mais de uma vez quando – julgando eles e elas incompatíveis na sua vida a entrega a Deus e um amor humano nobre e limpo – me ouviam dizer que o matrimónio é um caminho divino na terra!”

Se o matrimónio é uma vocação, quer dizer que é uma chamada de Deus para “algo”, ou seja, que é um apelo divino para o cumprimento de uma missão. Ilustrando essa verdade, na mesma ocasião, o Beato Josemaría continuava a dizer: “O matrimónio existe para que aqueles que o contraem se santifiquem nele e santifiquem através dele: para isso os cônjuges têm uma graça especial, conferida pelo sacramento instituído por Jesus Cristo.

Quem é chamado ao estado matrimonial encontra nesse estado – com a graça de Deus – tudo o que necessita para ser santo, para se identificar cada dia mais com Jesus Cristo e para levar ao Senhor as pessoas com quem convive.

“Por isso penso sempre com esperança e com carinho nos lares cristãos, em todas as famílias que brotaram do Sacramento do Matrimónio, que são testemunhos luminosos desse grande mistério divino – Sacramentum magnum! (Ef 5, 32), sacramento grande – da união e do amor entre Cristo e a sua Igreja. Devemos trabalhar para que essas células cristãs da sociedade nasçam e se desenvolvam com ânsia de santidade [...]. Os esposos cristãos devem ter consciência de que são chamados a santificar-se santificando, de que são chamados a ser apóstolos, e de que o seu primeiro apostolado está no lar. Devem compreender a obra sobrenatural que supõe a fundação de uma família, a educação dos filhos, a irradiação cristã na sociedade. Desta consciência da própria missão dependem, em grande parte, a eficácia e o êxito da sua vida: a sua felicidade” 8.

VOCAÇÃO DIVINA, VOCAÇÃO DE AMOR

“Compreender a obra sobrenatural que supõe a fundação de uma família”, ter “consciência da própria missão”.

Para muitas moças e rapazes, frases como as que acabamos de ler devem parecer-lhes belas palavras ou sonhos irreais. E, no entanto, desses ideais sobre o casamento e a família, que eles ainda não entendem, “dependem, em grande parte, a eficácia e o êxito da sua vida: a sua felicidade”.

O casamento e a família, como qualquer outra vocação, significam para um cristão um chamamento pessoal de Cristo, um apelo para segui-Lo.

Se alguém quiser vir após mim – diz Jesus Cristo –, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16, 24). Estamos nos antípodas do utilitarismo egoísta. Em vez de dizer:
“Procure-se a si mesmo, realize-se a si mesmo”, diz-nos: “Não pense em si, doe-se generosamente”.

Esse apelo à renúncia e ao esquecimento próprio não é, absolutamente, uma tristonha anulação da personalidade, nem um abafamento da alegria de viver. É exatamente o contrário: as palavras de Cristo estão a mostrar-nos o rosto do amor. E o amor é a seiva vivificante da família.

Será preciso lembrar que o amor cristão se formula assim: Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei (Jo 13, 34)? Será que há alguma dúvida sobre como Ele, Cristo, nos amou? Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13).

Com Cristo, um amor inédito entrou no mundo, um amor que o mundo pagão desconhecia totalmente. Era um amor à medida do Amor de Deus, que os cristãos designaram com uma palavra nova: “agápe”, em grego; “caritas” – caridade –, em latim. Era um amor à imagem e semelhança do amor de Cristo.

O que fizemos desse amor?
No mundo de hoje, é preciso reaprendê-lo; é urgente – para todos, mas especialmente para os jovens – redescobrir a beleza inefável do Amor com maiúscula, que vem de Deus (1 Jo 44, 7). A nossa alma tem uma necessidade vital de experimentar o deslumbramento feliz de São João, quando exclamava: Nisto conhecemos o amor: em que Jesus deu a sua vida por nós, e também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos (1 Jo 3, 16). Desse João Apóstolo que, com quase cem anos de idade, acrescentava, extasiado: Nós conhecemos o amor de Deus e acreditamos nele!... Se Deus nos amou assim, também nós nos devemos amar-nos uns aos outros (1 Jo 4, 11.16).

Não duvidemos: é aí, e somente aí, nas profundezas do amor cristão, que finca as suas raízes a paz familiar.

A SABEDORIA DE SÃO TOMÁS

Antes de terminar esta panorâmica – “a família em perspectiva” –, talvez valha a pena acrescentar ainda, como complemento útil, umas breves reflexões. São considerações que procedem de boa fonte, de São Tomás de Aquino.

Na sua Suma Teológica, a certa altura, o santo doutor, na esteira de Aristóteles, formula várias perguntas sobre o amor e – como se estivesse a dizer a coisa mais óbvia do mundo – escreve que há dois tipos de amor:
Um é o que chama amor de concupiscência (que não significa só o amor sexual, pois a palavra latina concupiscentia designa os desejos em geral). Dá-se esse amor quando “em vez de querer o bem de quem amamos, queremos que ele seja um bem para nós, como quando dizemos que amamos o vinho ou um cavalo...” São Tomás parece brincar, mas fala com a maior seriedade. Não sei se o que vou dizer não será rude demais, mas creio que o amante egoísta, descrito nas páginas anteriores, encara a esposa – ou o marido, ou os filhos, ou os pais – com a mesma mentalidade com que degusta um vinho ou experimenta o trote de um cavalo.

O outro tipo de amor – acrescenta São Tomás – é o que se chama amor de amizade.

“Não é – diz – um amor qualquer, mas o amor que possui a benevolência, isto é, o amor que existe quando amamos alguém de tal maneira que queremos o seu bem” 9.

Pronto. Poucas palavras para enormes verdades. Há um amor que busca só o bem e o interesse próprios. Há outro amor que busca e trabalha pelo bem da pessoa amada. Este último – amor de amizade –, vivificado pela capacidade de querer que nos infunde o Espírito Santo (cf. Rom 5, 5), é o amor cristão. E é só com esse tipo de amor que se faz, de verdade, família e nela se consegue a paz.

Enquanto escrevo estas últimas linhas, vem-me ao pensamento – e comove-me novamente – a lembrança de um casal amigo, excelentes pessoas, unidas e fiéis após longos anos de convívio. Com uma lucidez plácida e simples, o marido, bom cristão, dizia-me:
“O senhor sabe? Depois de tantos anos, cheguei à conclusão de que o amor entre marido e mulher só é amor mesmo quando os dois se tornam amigos, quando são dois bons amigos.
O verdadeiro amor é amizade”.

E, com isto, finalizamos a nossa digressão sobre a “família em perspectiva”.

As considerações gerais que acabamos de fazer serão o ponto de partida para as que faremos a seguir comentando atitudes e gestos concretos que, brotando do amor, podem construir a paz familiar.

(CONT.)

___________________________
Notas:
(7) Josemaría Escrivá, Questões atuais do cristianismo, 3a. ed., Quadrante, São Paulo, 1986, n. 106;
(8) ibid., n. 91; ver também, do mesmo autor, a homilia O Matrimónio, vocação cristã, em É Cristo que passa, 2a. ed., Quadrante, São Paulo, 1975, ns. 22-30;
(9) São Tomás de Aquino, Suma teológica, II-II, q. XXIII, art. 1, concl.;





23/06/2014

Temas para meditar 154

Sacerdote


O perfeito cristão leva sempre consigo a serenidade e a alegria. Serenidade, porque se sente na presença de Deus; alegria, porque se vê rodeado dos seus dons. Um cristão assim é de verdade um personagem real, um sacerdote santo de Deus.


(S. clemente de alexandriaStromata VII, nr. 9 451)

Diálogos apostólicos 21

Nota: Normalmente, estes “Diálogos apostólicos”, são publicados sob a forma de resumos e excertos de conversas semanais. Hoje, porém, dado o assunto, pareceu-me de interesse publicar quase na íntegra.

Antes de dizeres uma palavra deste-me um abraço apertadíssimo. Depois, com lágrimas nos olhos contaste:

‘Não calculas o que aconteceu. Depois de algumas trivialidades, abordei o assunto que me preocupa e, para meu espanto, o meu irmão não ficou nem surpreendido nem agastado. Foi ouvindo, fez algumas perguntas breves e percebi que estava “tocado”. Depois, para minha maior surpresa perguntou-me se tinha comigo o livro que me emprestaste e de que lhe falei; se lho emprestava para ler…’

Confesso que também eu tinha lágrimas nos olhos, de contentamento, de alegria. Depois disse-te:


‘Bem… agora vai devagar, sem pressas. Deixa-o ler o livro e ser ele a falar-te no assunto – o que seguramente fará – para, de acordo com o que ele te disser continuar a ir um pouco mais além. Não te esqueças dos Anjos da Guarda…

Lançamento de livro - Convite

Rev. Cónego António Ferreira dos Santos
Reitor da Igreja da Lapa
Igreja da Lapa (Porto)
Altar Mor




                                                                                                          

Porque é que nós, homens, nos entristecemos?

"Bem-aventurada, porque acreditaste!", diz Isabel à nossa Mãe. A união com Deus, a vida sobrenatural, vai sempre unida à prática atraente das virtudes humanas: porque "leva" Cristo, Maria leva a alegria ao lar de sua prima. (Sulco, 566)

Não deis o mínimo crédito aos que apresentam a virtude da humildade como um amesquinhamento humano ou como uma condenação perpétua à tristeza. Sentir-se barro, recomposto com gatos, é fonte contínua de alegria; significa reconhecer-se pouca coisa diante de Deus: criança, filho. E haverá maior alegria do que a daquele que, sabendo-se pobre e débil, se sabe também filho de Deus? Porque é que nós, homens, nos entristecemos? Porque a vida na terra, não se passa como nós, pessoalmente, esperávamos e porque surgem obstáculos que impedem ou dificultam a satisfação do que pretendemos.


Nada disto acontece quando a alma vive essa realidade sobrenatural da sua filiação divina. Se Deus é por nós, quem será contra nós. Que estejam tristes os que se empenham em não se reconhecerem filhos de Deus, tenho eu repetido sempre. (Amigos de Deus, 108)

Pequena agenda do cristão


SeGUNDa-Feira




(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:
Cumpri o propósito que me propus ontem?



Tratado da lei 32

Questão 97: Da mudança das leis.

Art. 4 — Se os chefes do povo podem dispensar nas leis humanas.

(Supra, q. 96. a. 6; infra, q. 100. a. 8; IIª-IIªª, q. 88, a. 10; q. 89. a. 9; q. 717, a. 4; III Sent., dist. XXXVII, a. 4; IV. dist. XV, q. 3, a. 2, qª 1; dist. XXVII, q. 3, a. 3, ad 4; III Cont. Gent., cap. CXXV).

O quarto discute-se assim. — Parece que os chefes do povo não podem dispensar nas leis humanas.

1. — Pois, a lei é estabelecida para a utilidade geral, como diz Isidoro. Ora, o bem comum não pode ser preterido em benefício da utilidade particular de ninguém. Porque, no dizer do Filósofo, o bem da nação é mais divino que o de um só homem. Logo, parece que não se deve dispensar ninguém de modo a poder contrariar o bem comum.

2. Demais. — Aos constituídos como chefes a Escritura preceitua (Dt 1, 17): Do mesmo modo ouvireis o pequeno como o grande, nem tereis acepção de pessoa alguma, porque este é o juízo de Deus. Ora, conceder a um o que se nega a todos, comummente, é fazer acepção de pessoas. Logo, sendo isto contra o preceito da lei divina, os chefes do povo não podem conceder tais dispensas.

3. Demais. — A lei humana, quando recta, há-de estar de acordo com a lei natural e a divina; de contrário não estaria de acordo com a religião, nem conviria com a disciplina, o que entretanto a lei exige, como diz Isidoro. Ora, na lei natural e divina ninguém pode dispensar. Logo nem na lei humana.

Mas, em contrário, diz o Apóstolo (1 Cor 9, 17): A dispensa  veio-me só a ser encarregada.

SA dispensa, propriamente, implica a comensuração entre o comum e o particular. Donde, também o chefe de família se chama dispensador, por distribuir a cada membro dela, com peso e medida, as obras e o necessário à vida. Assim também, em qualquer povo, diz-se que dispensa quem ordena como cada preceito geral há de ser cumprido pelos particulares.

Ora, pode acontecer que um preceito correspondente, na maior parte dos casos, à utilidade da multidão, não convenha a uma determinada pessoa ou a um determinado caso. E isso, quer por ser impedimento do melhor, quer por provocar algum mal, como do sobredito se colhe (q. 96, a. 6). Ora, seria perigoso cometer tal dispensa ao juízo de qualquer, salvo se houver perigo evidente e súbito, como antes se disse (q. 96, a. 6). Donde, quem tem o múnus de governar a multidão tem o poder de dispensar na lei humana, que se apoia na sua autoridade. De modo que, nas pessoas ou nos casos em que a lei é deficiente, dê licença para não se observar o preceito dela.

Se porém, der tal licença, sem a mencionada razão, e só por sua vontade, não será fiel na dispensação, ou será imprudente. Infiel, se não visar intencionalmente o bem comum; imprudente, se ignorar a razão de dispensar. Pelo que diz o Senhor (Lc 12, 42): Quem crês que é o dispenseiro fiel e prudente que faz o senhor sobre a sua família?

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Não deve ser em prejuízo do bem comum que alguém seja dispensado de observar a lei geral; mas com a intenção de isso aproveitar a tal bem.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Não há acepção de pessoas se não se estabelecem situações iguais para pessoas desiguais. Donde, quando a condição de uma pessoa exige que racionalmente se observe para com ela alguma disposição especial, não há acepção de pessoas, se lhe fizer uma graça especial.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A lei natural, por conter preceitos gerais, que nunca falham, não é susceptível de dispensa. Mas às vezes o homem pode dispensar nos outros preceitos, que são umas quase conclusões dos preceitos comuns. Por exemplo, que não se restitua o mútuo ao traidor da pátria, ou coisa semelhante. Quanto à lei divina, cada homem está para ela, como uma pessoa privada, para a lei pública, a que está sujeito. Donde, assim como ninguém pode dispensar na lei pública humana, senão aquele de quem ela tira a sua autoridade, ou quem dele receber permissão para tal, assim, ninguém, a não ser Deus, ou quem Ele especialmente determinar, pode dispensar nos preceitos do direito divino, procedentes de Deus.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, comentário e leitura espiritual (A paz na familia 4)


Tempo comum XII Semana

Evangelho: Mt 7, 1-5

«Não julgueis, para que não sejais julgados; 2 pois, segundo o juízo com que julgardes, sereis julgados; e com a medida com que medirdes, vos medirão também a vós.3 Porque olhas tu para a palha que está no olho de teu irmão, e não notas a trave no teu olho? 4 Como ousas dizer a teu irmão: Deixa-me tirar-te do olho uma palha, tendo tu uma trave no teu? 5 Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás para tirar a palha do olho de teu irmão.

Comentário:

Palhas e traves, coisas pequenas e coisas grandes, nos outros os defeitos são sempre muito maiores que os nossos ao passo que as virtudes que possuímos são sempre maiores que as dos outros.

Usamos sempre as lentes de aumento para os erros dos outros e para as virtudes que julgamos ter.

Assim, a nossa visão é desfocada, impede-nos de ver a realidade e, por isso nos deixamos dominar pelo amor-próprio.

Peçamos ao Senhor a graça de uma visão justa e equilibrada.

(ama, comentário sobre Mt 7, 1-5, 2012.06.25)


Leitura espiritual



Temas


A PAZ NA FAMÍLIA
…/4

A FAMÍLIA EM PERSPECTIVA

EGOÍSMO E REALIZAÇÃO

Como acabamos de ver, o egoísmo é o rumo errado da família. Sob a tirania do “eu”, a paz familiar torna-se impossível.

À primeira vista, essa afirmação parece óbvia, sobretudo depois de termos contemplado os efeitos devastadores do egoísmo no lar. No entanto, para muitas pessoas, não parece tão óbvia assim.

Por que o egoísmo haveria de ser o rumo errado do casamento e da família? É um fato incontestável que um número elevadíssimo de pessoas julga hoje, na prática, que o egoísmo não só não é errado, como é e deve ser o rumo natural da vida familiar e da vida em geral. Só que, em vez de falarem em egoísmo, falam em realização. Detestam a palavra egoísmo e adoram a palavra realização. Há, porém, um pequeno detalhe: dentro da sua filosofia de vida, egoísmo e realização significam exatamente a mesma coisa.

Para a maioria das pessoas, com efeito, o casamento, a família – algum tipo de família –, faz parte importante do seu programa de realização pessoal. É natural que os jovens pensem no futuro e planejem o que julgam que os poderá “realizar”, trazendo-lhes bem-estar, crescimento, auto-estima e felicidade. Propõem-se, para isso, umas metas profissionais, e também a meta de um amor humano, da constituição de uma família que encarne os seus sonhos e aspirações.
Até aqui, não há nada a objectar. Acontece, contudo, que esses rapazes e moças – sem nem darem por isso – situam a família dentro de um programa de realização pessoal que está viciado na sua própria raiz pela mentalidade materialista, característica do mundo actual.

Cada vez mais, o mundo desliza para uma civilização utilitarista e hedonista, que entende a realização do indivíduo como o máximo acúmulo de benefícios úteis e de prazeres, com a mínima despesa possível de renúncias e sacrifícios; um mundo em que o relacionamento com as outras pessoas visa, principalmente, o “proveito” e o “prazer” pessoal; em suma, um mundo em que o relacionamento interpessoal tem a forma, o peso e a medida do interesse individual.

O “utilitarismo hedonista”, conhecido vulgarmente com o nome de “direito-de-ser feliz”, acaba, então, por justificar tudo: larga-se abruptamente o marido ou a mulher, quando manter-se fiel “custa”; parte-se facilmente para uma nova união, à caça da felicidade (de “sentir-se bem”, de encontrar-se “a si mesmo”), ainda que, com isso, se deixem os filhos privados de um verdadeiro lar e machucados com traumas irreversíveis; ou, então, foge-se do sacrifício de ter que criá-los, como faz o chupim, pelo simples sistema de não tê-los ou de matá-los no ventre materno quando, ainda dentro dele, começam a incomodar.

No meio desse radical egoísmo, subsiste, contudo, em muitos casos o desejo de ter uma família..., mas só na medida em que for útil para a realização pessoal; subsiste o desejo de ter filhos, mas somente se isso dá gosto aos pais; e o de não tê-los – este é bem mais frequente –, se há o receio de que perturbem as ascensões profissionais (especialmente a “realização independente” da mulher), ou o lazer, ou as viagens internacionais, ou a posse e consumo de mais bens materiais. Com que pena ouvia eu, recentemente, o que me contava um rapaz recém-casado, entusiasmado com a ideia de ter logo um filho.
Uma jovem vizinha de apartamento, recém-casada também, ao saber do seu entusiasmo, fez um trejeito de nojo e comentou: “Filhos? Nunca! Só «enchem»!”

TRÊS DESVIOS E UM BRADO DE ALERTA

Se pensarmos bem, perceberemos que esses egoístas procuram a paz e a felicidade por três vias tortas – desvios e não caminhos –, que não podem proporcionar a paz simplesmente porque são uma radical inversão dos valores, porque são uma “desordem”, no sentido mais profundo dessa palavra.

Lembremo-nos de que a paz, como dizia Santo Agostinho, é a tranquilidade na ordem. A paz, com efeito, vem da harmonia, da ordem equilibrada e certa, quer no interior do ser humano, quer nas suas relações com Deus e com o próximo: da ordem dos valores, dos amores, dos deveres, da ordem entre o que é apenas um meio e o que é um fim, entre o que tem valor absoluto e o que tem valor relativo, entre o que é eterno e o que é transitório.

Pois bem, a verdadeira ordem “humana” postula três coisas: colocar o amor acima do prazer, o dever moral acima do gosto pessoal, e Deus e o próximo acima dos interesses mesquinhos do “eu”. A sociedade utilitarista e hedonista, no entanto, preconiza o contrário: apregoa que deve colocar-se o prazer acima do amor, o gosto acima do dever moral, e o “eu” acima de Deus e dos outros. Nesse quadro de valores invertidos, a paz da alma, que precisa do ar saudável da ordem para subsistir, não acha como respirar e se extingue. São muito ilustrativas as biografias de grandes desfrutadores (gente famosa na tela dos cinemas e das televisões, e nos cadernos especiais dos jornais e revistas), que – após terem feito a experiência de seis, sete ou mais casamentos, todos esfrangalhados – acabam procurando em vão nas drogas ou no álcool a paz que destruíram com o seu egoísmo.

É natural que, em face dessa civilização do interesse e da fruição, o Papa João Paulo II erga a sua voz – como um brado de alerta e de esperança – em defesa da “civilização do amor”. O diagnóstico que faz na sua Carta às famílias é de uma lucidez transparente: “O utilitarismo é uma civilização da produção e do desfrute, uma civilização das «coisas» e não das «pessoas»; uma civilização em que as pessoas se usam como se usam as coisas.

No contexto da civilização do desfrute, a mulher pode tornar-se para o homem um objeto, os filhos um obstáculo para os pais, a família uma instituição embaraçosa para a liberdade dos membros que a compõem [...]. Na base do utilitarismo ético, está, como se sabe, a procura desenfreada do «máximo» de felicidade: mas de uma felicidade utilitarista, vista apenas como prazer, como imediata satisfação e vantagem exclusiva do próprio indivíduo, fora das exigências objetivas do verdadeiro bem ou mesmo contra elas” 5.

UMA SOCIEDADE HUMANA?

Na sua segunda visita ao Brasil, João Paulo II teve, no dia 17 de outubro de 1991, um encontro com o laicato católico em Campo Grande. Falou-lhes da família e, entre outras coisas, dizia-lhes: “Não percais nunca a consciência de que, do fortalecimento e da santidade da família, depende a inteira saúde do corpo social, pois a família, por desígnio de Deus, é e será sempre a «célula primeira e vital da sociedade»” 6.

Uma sociedade sadia é um “organismo” formado por famílias sadias. A paz e o bem do mundo, em grande parte, são o reflexo da paz e do bem das famílias. E o contrário também é verdade: muitas famílias sem paz dão como resultado um mundo inquieto, desconjuntado e agressivo, um mundo sem paz.

Por isso, presta-se um imenso desserviço à sociedade quando, deixando a família na sombra, se apresenta o bem social, simplesmente, como a soma dos bens particulares dos indivíduos. O indivíduo seria, assim, a única coisa que interessaria. Não se pensa que o indivíduo deva pôr-se a serviço do bem comum, a começar pelo bem da família, mas julga-se que a família é que tem de ficar subordinada ao bem-estar do indivíduo: se a família serve para a sua “realização”, bem; se não serve, ele a quebra, como um palito usado, e a joga fora.

Muitos não reparam na medonha falsificação que há nessa mentalidade. A sociedade não é, absolutamente, uma somatória de indivíduos, um agregado de sujeitos isolados, sem outra relação entre eles que os acordos que consigam fazer para conjugar os seus egoísmos.

A sociedade “humana” não existe sem a família, que é o ambiente natural e sadio de onde surge o “homem humano” de que falava Guimarães Rosa. A sociedade só é “sociedade” na medida em que é uma constelação de famílias, da mesma maneira que um organismo sadio é uma união de órgãos e células sãos. Por isso, o bem da família, a proteção à família, é um dos deveres mais graves – se não o mais grave – dos governantes e dos responsáveis pela formação da opinião pública. Todos os atentados ideológicos ou práticos contra a família e contra os valores familiares são uma traição à dignidade da pessoa humana e um crime contra a sociedade.

Ninguém ignora que essa traição está sendo praticada com febril insistência e agressividade. Mediante uma orquestração sistemática dos meios de comunicação social, a família é bombardeada, ridicularizada, “cafonizada”, vista ironicamente como uma espécie em extinção, como instituição obsoleta, inimiga das liberdades individuais, do progresso, da mentalidade moderna, da necessária libertação de tabus. Basta ligar a maior parte das telenovelas, visitar uma videoteca, folhear jornais de grande circulação e revistas de todo o tipo, para achar diariamente a apologia do sexo livre hedonista (homossexual ou heterossexual, praticado por adultos, por adolescentes e por crianças convenientemente “educadas” pelas sexologias oficiais), da aventura descomprometida, da separação por motivos fúteis, da deslealdade justificada pelo simples prazer, do aborto e de tantos outros dinamitadores do bem da família.

E os poderes públicos? E os legisladores? Uns silenciam, outros vão na onda daquilo que os meios de comunicação, manipulando falsamente os dados, apresentam como opinião da maioria; e, pouco a pouco, vão-se abrindo fendas profundíssimas, vão-se acobertando aberrações, vão-se escancarando legalmente portas para sistemas de vida demolidores da família.

CORDAS ARREBENTADAS

Por que são cada vez mais frequentes os casamentos meteóricos, que não chegam a durar um ano ou dois e, por vezes, nem sequer uns poucos meses? É pura e simplesmente porque o “egoísmo utilitarista” predominante arrebentou as boas cordas do coração de jovens e menos jovens, deixando só as cordas mais desafinadas, aquelas que – vibradas pelo orgulho e pelo comodismo – tocam a música monótona que canta: “Direito, direito, eu tenho direito! Tenho o direito de ser feliz, tenho o direito de que as coisas sejam a meu gosto, tenho o direito de não sofrer, de não ter que aguentar!”

Por isso, ante a menor contrariedade, as cordas do hedonista chiam, irritadas: “Ela perturba-me! Não me faz feliz!”, “Ele não quer que eu faça as coisas do meu jeito, pisa na minha independência! Ele – ou ela – dá trabalho, exige sacrifício, ousa solicitar renúncias!

Não é o que esperava quando me casei! Ele, ela, não me dá, não me «proporciona», não me «abastece», não «alimenta» as minhas vontades, não me permite «consumir» o tipo de satisfações que o meu apetite voraz anseia!”

É natural que as famílias constituídas por pessoas assim, incapazes de amar, incapazes de dar, carentes de toda a generosidade, vão caindo uma após outra, ao primeiro vento contrário, como as folhas no outono. Essa incapacidade de ser fiel, que muitos meios de comunicação apresentam como liberdade, na realidade é uma atrofia que inabilita para amar: um “autismo” moral, que é a doença típica do homem e da mulher que se autoproclamam “avançados”, “modernos”, mas que estão vazios de tudo, exceto de si mesmos.

(cont.)
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Notas:
(4) Leão Tolstoi, Obra completa, vol. III, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1993, págs. 917-918;
(5) Carta às famílias, n. 13;
 (6) Palavra do Santo Padre ao Brasil, Paulinas, São Paulo, 1991, pág. 128;