19/05/2014

Evangelho diário, comentário e Leitura espiritual (Meditações sobre a ressurreição 1)

Tempo de Páscoa

V Semana 


Evangelho: Jo 14, 21-26


21 Aquele que aceita os Meus mandamentos e os guarda, esse é que Me ama; e aquele que Me ama, será amado por Meu Pai, e Eu o amarei, e Me manifestarei a ele». 22 Judas, não o Iscariotes, disse-Lhe: «Senhor, qual é a causa por que Te hás-de manifestar a nós e não ao mundo?». 23 Jesus respondeu-lhe: «Se alguém Me ama, guardará a Minha palavra e Meu Pai o amará, e Nós viremos a ele, e faremos nele a Nossa morada. 24 Quem não Me ama não observa as Minhas palavras. E a palavra que ouvistes não é Minha, mas do Pai que Me enviou. 25 «Disse-vos estas coisas, estando convosco. 26 Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu nome, vos ensinará todas as coisas, e vos recordará tudo o que vos disse.


Comentário:

A pergunta de S. Judas parece decisiva para compreendermos muitas coisas a respeito de Jesus Cristo e da Sua missão redentora.
Talvez nos tenhamos perguntado alguma vez porque é que Jesus reservava para os Apóstolos a revelação mais clara e compreensível sobre a Sua Pessoa e a Sua Missão.

A resposta do Mestre a Judas é conclusiva:



Por muito que nos seja explicado e evidenciado se, não tivermos amor Jesus, não entenderemos nem aceitaremos; mas, pelo contrário, se Lhe tivermos amor, então o Espírito Santo nos dará as luzes necessárias para entender tudo aquilo que as nossas limitações não nos permitem alcançar.

(ama, Comentário sobre Jo 14, 21-26, Fevereiro de 2009)


Leitura espiritual
Temas


Meditações sobre a Ressurreição


1. O VAZIO DO CORAÇÃO SEM DEUS

Lágrimas ao amanhecer

Quando o Domingo de Páscoa começava a clarear, um grande silêncio envolvia o descampado onde se encontrava o túmulo de Jesus. Só duas coisas poderiam chamar ali a atenção de um passante solitário: uma grande pedra circular – que servira para fechar verticalmente a entrada do sepulcro – fora rolada e estava posta a um lado; e perto da entrada escancarada, uma mulher, em pé, soluçava baixinho, com um leve estremecer de ombros, de modo que os primeiros raios de sol faziam cintilar as lágrimas que lhe escorriam pelas faces. Era Maria Madalena.

Entretanto – lemos no Evangelho de São João –, Maria conservava-se do lado de fora, perto do sepulcro, e chorava (Jo 20,11). Era a segunda vez, naquele amanhecer de Domingo, que Maria ia até ao sepulcro de Jesus, incansável no seu empenho por  prestar uma última homenagem a Nosso Senhor, depois da Sua paixão e morte.  Ajudada por outras santas mulheres, queria ungir-lhe o corpo – que na sexta-feira santa só tinham podido ungir às pressas e de modo incompleto – com os aromas que haviam preparado.

Foi assim que Maria Madalena chegou ao túmulo juntamente com Maria, mãe de Tiago e Salomé, suas amigas. Estas últimas – conta São Marcos – fugiram, trêmulas e amedrontadas (Mc 16,8), ao verem que o sepulcro estava vazio. Maria, porém, foi correndo à procura de Pedro e João, para lhes dizer, quase sem fôlego: Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram (Jo 20,2).

Há espanto geral. Recuperados do primeiro susto, os dois Apóstolos saem em disparada e ela vai atrás. Quando chegam ao túmulo, entram, e ficam perplexos ao ver que, além de estar vazio, os panos com que tinham amortalhado o cadáver de Jesus permaneciam intactos, com o mesmo formato que tinham quando envolviam o corpo de Cristo, só que agora espalmados, como se o corpo do Senhor os tivesse atravessado, esvaziando-os sem sequer tocá-los; e o sudário que lhe cobrira a cabeça estava cuidadosamente enrolado, também intacto, a um lado. Pedro e João, emocionados e perplexos, sentiram as pernas tremer e o coração rebentar, e voltaram correndo ao Cenáculo para avisar os outros. Maria, porém, não arredou pé de lá. Não queria ir-se embora. Queria encontrar Jesus, queria honrá-lo com carinho, mesmo que fosse apenas um pobre cadáver dilacerado. Por isso estacou ali, imóvel, chorando.

As suas lágrimas silenciosas eram a expressão do seu amor. São Gregório Magno, o grande Papa do século sexto, tem um comentário muito bonito a este respeito: “E nós temos que pensar – diz ele – na força tão grande do amor que inflamava a alma daquela mulher, que não se afastava do sepulcro do Senhor, mesmo quando os apóstolos dele já voltavam. Buscava a quem não encontrava; chorava procurando-o e, consumindo-se no fogo do seu amor, ardia no desejo de encontrar aquele que imaginava roubado. E assim aconteceu que só ela o viu, a única que ficou procurando… Começou a buscar, e não O encontrou; perseverou no seu querer, e achou-o; de tal forma cresceram os seus desejos, e tanto se dilataram, que acabaram alcançando o que buscavam”.

Quando meditamos em tudo o que nos conta dessa mulher o santo Evangelho, percebemos que a vida de Maria Madalena poderia ser definida assim: o Amor com maiúscula, ou seja, o Amor de Deus, procurou-a e salvou-a; ela correspondeu a esse Amor e não se cansou, por sua vez, de procurá-lo, de modo que toda a sua vida foi uma busca ardente e um aprofundamento nesse divino Amor, como o foi a vida de muitos grandes santos… Mas tem havido tantas confusões, tantas mentiras e interpretações esquisitas sobre o amor de Maria Madalena, que vale a pena lembrar a sua verdadeira história.

Quem era a mulher de Magdala?

Na realidade, trata-se de uma confusão que – na maior boa-fé, aliás – dura há séculos. Para começar, é muito importante lembrar quem não era Maria Madalena. Os melhores comentaristas do Evangelho, já desde os tempos de Santo Agostinho, alertam-nos para que não a confundamos com outras duas mulheres do Evangelho. Uma é aquela pecadora pública que certa vez banhou os pés de Jesus com lágrimas de arrependimento e os ungiu com bálsamo (cf. Lc 7,37 ss.); e a outra é Maria de Betânia, a irmã menor – pura e singela – de Marta e Lázaro, que também derramou perfume sobre a cabeça e os pés de Jesus pouco antes da Paixão, num gesto de fina cortesia, muito oriental (Jo 12,3).

Além deste esclarecimento, é interessante frisar que o Evangelho nunca disse que Maria Madalena fosse uma prostituta ou que tivesse uma vida leviana. Aliás, afirma de facto algo muito pior. Diz que Jesus tinha expulsado dela sete demónios (Lc 8,2). Isto é muito sério. Bem sabemos que o número sete – na linguagem bíblica – significa muitos, uma multidão. Pois é isto que dela nos diz São Lucas.

É, sem dúvida, algo terrível. Só o podemos compreender se tivermos consciência de que o demónio – como ensina a Bíblia – é, acima de tudo, o pai da mentira, do orgulho e do ódio. Como deve ter sido espantosa a vida dessa pobre mulher! Um poço de ódio, de raiva, de desconfiança, de mentira, de rancor… Pode haver sofrimento maior? Um verdadeiro inferno! Uma mulher incapaz de amar, incapaz de alegrar-se, incapaz de vibrar com a verdade, de admirar a beleza e de saborear o bem; incapaz de perdoar, incapaz de sorrir com carinho para os outros…! Porque um coração afastado de Deus e entregue ao diabo – ao pecado – é como um poço escuro e fundo. Lá não pode penetrar um raio de luz divina. A pessoa chega a tornar-se incapaz de acreditar que o amor, a beleza e a bondade existam. Só conhece as trevas em que se afunda…

A tristeza no fundo do coração

Esse “poço escuro”, essas “trevas”, são o retrato da tristeza que há hoje em dia no fundo de muitos corações. Corações eternamente insatisfeitos, pessoas que podem cantar, gritar, possuir, experimentar, dançar, agitar-se, embriagar-se de álcool, sexo, drogas e emoções radicais, mas que por dentro estão sombriamente vazias. Vivem instaladas no “coração das trevas”. E, mesmo sem o saberem, procuram, procuram. Percebem que lhes falta o essencial, algo que passaram a vida buscando sem encontrar. Sentem-se como alguém que se esfalfou tentando apanhar a água da fonte com um recipiente furado. Atormenta-as, então, uma ânsia de infinito que as queima por dentro, mas que nenhum tesouro do mundo e nenhuma loucura do mundo e nenhum prazer do mundo conseguem satisfazer… Pode dizer-se que estão torturadas por uma esperança distorcida, por um infinito desejo de felicidade, que corre expectante atrás do vazio. É lógico que essa esperança distorcida termine no desespero. O fundo do fundo da vida delas é a ausência…, é o vazio…, e morrem sem saber porquê nunca foram felizes.

E, no entanto, o porquê é claro: elas sofrem da ausência de Deus! Essas pessoas – como Madalena antes de encontrar Jesus – não sabem que o seu mísero coração está gritando aquelas palavras de um poema de Tagore: “Tenho necessidade de Ti, só de Ti! Deixa que o meu coração o repita sem cansar-se. Os outros desejos que dia e noite me envolvem, no fundo, são falsos e vazios. Assim como a noite esconde na sua escuridão a súplica da luz, na escuridão da minha inconsciência ressoa este grito: «Tenho necessidade de Ti, só de Ti!». Assim como a tempestade está procurando a paz, mesmo quando golpeia a paz com toda a sua força, assim a minha revolta bate contra o teu amor e grita: «Tenho necessidade só de Ti!»”

O encontro que tudo mudou

Assim estava Maria Madalena, quando um belo dia – de surpresa – Jesus foi buscá-la. Não conhecemos os detalhes. Só sabemos que Jesus teve compaixão dela, e expulsou dela sete demónios, como recordávamos acima. Dá para imaginar o que deve ter sentido aquela alma, ao encontrar-se livre do Maligno e inundada pelo dom da graça, conduzida por Jesus à descoberta deslumbrante de Deus? Que deve ter sentido quando experimentou – quiçá pela primeira vez na vida – a pureza e a grandeza do Amor, pois, como diz São João, Deus é Amor (1 Jo 4,8).

Encontrar Deus, na pessoa de Cristo, foi como sair da asfixia do poço e, de repente, “respirar”, absorver Deus até ao fundo da alma, como uma aragem do Céu que a criava de novo. Madalena passou a ser uma mulher que, pela primeira vez na vida, se apercebeu de como é bela a criação, todas as criaturas, transfiguradas pelo olhar e a presença do Salvador. O seu coração transformou-se numa brasa incandescente, inflamada pelo Amor que se derrama do Céu sobre o mundo através do Coração de Jesus.

É natural que, a partir do dia em que o antigo coração das trevas foi inundado pela fé, pela esperança e pelo amor, começasse a seguir Jesus e a servi-lo, com uma dedicação abnegada e total, como conta o Evangelho, juntamente com outras santas mulheres. Seguir Cristo tornou-se, a partir daquele momento, a razão – toda a razão – da sua existência. Servir Jesus passou a ser para ela um puro amor, que cumulava de plenitude e sentido o seu pensar, sonhar e viver.

Por isso, quando a avalanche das brutalidades da Paixão, o ódio implacável dos inimigos, desabou sobre Cristo e O reduziu a um cadáver ensanguentado na Cruz, Maria Madalena – grudada à Mãe do Salvador – agarrou-se à Cruz como quem se agarra à vida. Viver sem Jesus era para ela – como para todos os corações que de verdade encontraram Cristo – a vertigem de um vazio de morte. Essa é a Madalena que vemos chorar junto do sepulcro do Senhor. Essa a razão de que só pense em buscar o meu Senhor (Jo 20,13).

O reencontro da vida

Enquanto estava assim, desolada, o Evangelho descreve-nos uma cena deliciosa: Chorando, inclinou-se para olhar dentro do sepulcro. Viu dois anjos vestidos de branco… Eles perguntaram-lhe: “Mulher, por que choras?” Ela respondeu: “Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram” (Jo 20,13). A Madalena suplicante, toda “procura”, encarnava nesses momentos aquelas palavras do profeta Isaías: A minha alma desejou-Te, meu Deus, durante a noite e, dentro de mim, o meu espírito procurava-Te (Is 26,9). Assim buscava Jesus.

O Evangelho continua, e dá-nos alegria acompanhá-lo: Ditas estas palavras, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Perguntou-lhe Jesus: “Mulher, por que choras? Quem procuras?”  (Jo 20,15). Comove-nos ver Jesus ressuscitado, Jesus em pessoa, indo ao encontro daquela pobre criatura, como o pai que desfruta por dentro ao pensar na surpresa maravilhosa que preparou para o filho. E é muito bonito perceber – para quem conhece e medita o Evangelho – que, depois da Ressurreição, Jesus se mostra mais humano ainda, se possível, do que quando andava com os seus pelos caminhos da Galileia e da Judeia. Torna-se mais próximo, afectuoso, acessível. E aparece com uma nova carga de alegria: “diverte-se”, por assim dizer, alegrando os seus amigos com atitudes cheias de “bom humor”, de um divino e delicioso bom humor.

Para captar isso, basta continuar a acompanhar esse diálogo do Senhor com Madalena. Quem procuras? ­ pergunta-lhe Jesus -, e ela, supondo que fosse o jardineiro, respondeu: “Senhor, se tu o tiraste, diz-me onde o puseste, e eu o irei buscar”. Cristo não quer prolongar mais a aflição, e manifesta-se abertamente: Disse-lhe Jesus: “Maria!” O Evangelho aqui balbucia, só sabe repetir a exclamação que saiu daquela Maria estremecida de gozo, com os olhos arregalados e o coração prestes a explodir: Voltando-se ela, exclamou em hebraico: Raboni!”, que quer dizer “Mestre!”… Nesse exacto momento, Jesus olha-a com ternura e “nomeia-a” Sua primeira mensageira da fé, da alegria da Ressurreição:  Não Me retenhas… Vai aos meus irmãos e diz-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus. Maria Madalena correu (nesse dia, realmente, não parou de correr…) para anunciar aos discípulos que tinha visto o Senhor e contou o que Ele lhe tinha falado (Jo 20,15-18).

A partir desse momento, para Madalena a vida voltava a ser Vida, com maiúscula. O futuro era radiante: o reencontro com Jesus encheu de novo o vazio da alma com a luz cálida e inextinguível da esperança.

A chegarmos a este ponto, será bom reflectir e perguntar-nos: “Será que, pensando nos vazios que com frequência eu sinto, a lição da Madalena não me diz nada?” Todo o vazio, toda amargura, é uma ausência: a ausência de Deus. Pode ser a terrível ausência provocada pelo pecado, pelos sete demónios, mas pode ser também a ausência de uma alma boa que perde Deus de vista, fica morna na fé, e acha então muitas tristezas inexplicáveis que a atormentam e que têm uma perfeita explicação: são a ausência do “amor” de Deus na alma, são a frieza de quem tem Jesus ao lado (sempre está ao nosso lado, sempre nos procura, como fez com Madalena) e não o enxerga, são a amargura esquizofrênica de quem se queixa de Deus, justamente na hora em que Deus mais a ajuda… Como Madalena, que pensava que Jesus (aquele Jesus que não reconheceu) lhe tinha roubado Jesus… Não acontece algo disto connosco?

Sim, acontece. Diante de muitas dificuldades, lutas ou cruzes que Deus nos envia para nosso bem, pensamos tolamente que Deus nos abandonou ou Se afastou de nós. Que retirou a Sua mão e não nos ajuda com a Sua graça. E é quando está mais próximo.

Gravemos bem a lição das lágrimas e do júbilo de Maria Madalena. Convençamo-nos, profundamente, de que toda a tristeza, toda a amargura, toda a revolta, no fundo, é uma ausência de Deus (maligna ou benigna, mas nunca boa). Por isso, decidamo-nos a procurar Deus, a procurar Jesus com toda a nossa alma, como Madalena: com a mesma determinação com que ela O procurou. –”Onde está?” – diremos a nós mesmos – e responderemos com a decisão de aumentar o nosso aprofundamento na fé, a nossa leitura e meditação do Evangelho e das riquezas da doutrina cristã… E, se nos perguntarmos: – “Como achá-lo?”, deveremos responder: – “Como Madalena, que busca, pergunta, procura e não pára até encontrá-lo, ou seja, como Jesus nos ensinou: rezando, pedindo, orando sem cessar, pois a Sua promessa não falha: Eu vos digo: Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-vos-ão. 



Tratado dos vícios e pecados 94

Questão 89: Do pecado venial em si mesmo.

Art. 3 — Se o homem, no estado de inocência, podia pecar venialmente.

(II Sent., dest. XXI, q. 2, a. 3; De Malo, q. 2, a. 8, ad 1; q. 7, a. 7. a. 3. ad 13; a. 7).

O terceiro discute-se assim. — Parece que o homem, no estado de inocência podia pecar venialmente.

1. — Pois, segundo a Escritura (1 Tm 2, 14) — Adão não foi seduzido — diz a Glosa: Inexperiente da divina severidade podia ter-se enganado, de modo a crer que cometera um pecado venial. Ora, tal não teria crido se não pudesse pecar venialmente, sem pecar mortalmente.

2. Demais. — Agostinho diz: Não se deve pensar que o tentador teria feito cair o homem, se já não lhe existisse na alma um certo orgulho, que devia ser reprimido. Ora, esse orgulho precedente à queda, efectivada pelo pecado mortal, não poderia ser senão pecado venial. E semelhantemente, no mesmo lugar, Agostinho diz, um certo desejo de experimentar solicitou o homem, quando viu a mulher comer do pomo proibido, sem morrer. Ora, Eva cedeu a um movimento de infidelidade, por ter posto em dúvida a palavra de Deus, como o demonstra o seu dito (Gn 3, 3) — não suceda que morramos, que se lê na Escritura. E tudo isso constitui pecados veniais. Logo, o homem podia pecar venialmente, antes de tê-lo feito mortalmente.

3. Demais. — O pecado mortal opunha-se, mais que o venial, à integridade do estado primitivo. Ora, não obstante essa integridade, o homem podia pecar mortalmente. Logo, também venialmente.

Mas, em contrário, a todo pecado é devida uma pena. Ora, no estado de inocência, nenhuma pena podia ser cabível, como diz Agostinho. Logo, não podia o homem cometer nenhum pecado que não o lançasse fora desse estado de integridade. E como o pecado venial não lhe mudava o estado, não podia pecar venialmente.

Conforme a opinião comum, no estado de inocência o homem não podia pecar venialmente. Mas, isto não se deve entender como se o pecado, para nós venial, lhe fosse mortal, se o cometesse, dada a dignidade do seu estado. Pois, a dignidade de uma pessoa é circunstância agravante do seu pecado. Mas não lhe muda a espécie, salvo se sobrevier a deformidade da desobediência proveniente de um voto ou de coisa semelhante, o que, no caso vertente, não tem cabida. Donde, não por causa da dignidade primitiva é que o pecado, em si mesmo, venial, deixaria de transformar-se em mortal. E portanto, devemos concluir, que Adão não podia pecar venialmente, por não poder cometer nenhum pecado, em si mesmo, venial, antes de, pecando mortalmente, ter perdido a integridade do estado primitivo.

E a razão é que nós podemos pecar venialmente, ou por imperfeição do acto, como é o caso dos movimentos súbitos, no género dos pecados mortais; ou pela desordem relativa aos meios, conservada a ordenação devida para o fim. Ora, ambos os casos implicam uma certa falta de ordem, por não estar firmemente contido no superior o inferior. Pois, se surgem em nós movimentos súbitos de sensualidade é por esta não se submeter completamente à razão. Se, na nossa própria razão surgem movimentos súbitos, é pela execução do acto da mesma não se sujeitar à deliberação, que se inspira num bem mais elevado, como se disse (q. 74, a. 10). Que, por fim, a alma humana se desordene, quanto aos meios, conservando a ordenação devida para o fim, isso provém de não se ordenarem aqueles infalivelmente a este, que ocupa o primeiro lugar, sendo quase o princípio, na ordem dos desejos, como dissemos (q. 10, a. 1, a. 2 ad 3; q. 72, a. 5). Ora, no estado de inocência, conforme estabelecemos na Primeira Parte (q. 95, a. 1), era infalível a firmeza da ordem, de modo a o inferior estar sempre contido no superior, enquanto a parte do homem mais elevada estivesse submetida a Deus, como também o diz Agostinho. Logo e necessariamente, não haveria desordem no homem senão deixando de submeter-se a Deus o que ele tem de mais elevado; e tal dá-se pelo pecado mortal. Donde é claro que, no estado de inocência, o homem não poderia pecar venialmente, antes de havê-lo feito mortalmente.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — No lugar aduzido venial não é tomado no sentido em que agora o tomamos, senão no sentido do que é facilmente remissível.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Esse orgulho precedente, na alma do homem, foi o seu primeiro pecado mortal; e é considerado como precedente à queda no acto exterior do pecado. Pois, a esse orgulho se lhe seguiu o desejo de experimentar, e, na mulher, a dúvida. Pois, esta encheu-se logo de um certo orgulho, só por ter ouvido, da serpente, a menção do preceito, e como já não querendo submeter-se-lhe.

RESPOSTA À TERCEIRA. — O pecado mortal opunha-se à integridade do estado primitivo, na medida em que lhe era possível corrompê-lo; o que o pecado venial não podia fazer. E como qualquer desordem era incompatível com a integridade desse estado, consequentemente, o primeiro homem não poderia pecar venialmente antes de ter cometido pecado mortal.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


18/05/2014

Não recusemos a obrigação de viver

Ficaste muito sério ao ouvir-me: aceito a morte quando Ele quiser, como Ele quiser e onde Ele quiser; e, ao mesmo tempo, penso que é "um comodismo" morrer cedo, porque temos de desejar trabalhar muitos anos para Ele e, por Ele, ao serviço dos outros. (Forja, 1039)

Libertar-vos-ei do cativeiro, onde quer que estiverdes. Livramo-nos da escravidão com a oração: sabemo-nos livres, voando num epitalâmio de alma enamorada, num cântico de amor, que nos leva a desejar não nos afastarmos de Deus... Um novo modo de andar na terra, um modo divino, sobrenatural, maravilhoso! Recordando tantos escritores quinhentistas castelhanos, talvez nos agrade saborear frases como esta: Eu vivo, porque não vivo; é Cristo que vive em mim.

Aceita-se com todo o gosto a necessidade de trabalhar neste mundo, durante muitos anos, porque Jesus tem poucos amigos cá em baixo. Não recusemos a obrigação de viver, de nos gastarmos – bem espremidos– ao serviço de Deus e da Igreja. Desta maneira, em liberdade: in libertatem gloriae filiorum Dei, qua libertate Christus nos liberavit; com a liberdade dos filhos de Deus, que Jesus Cristo nos alcançou morrendo no madeiro da Cruz.


É possível que logo desde o princípio se levantem nuvens de poeira e que, ao mesmo tempo, os inimigos da nossa santificação empreguem uma técnica de terrorismo psicológico – de abuso de poder – tão veemente e bem orquestrada, que arrastem na sua absurda direcção inclusivamente aqueles que durante muito tempo mantinham uma conduta mais lógica e mais recta. E apesar de a sua voz soar a sino rachado, não fundido em bom metal e bem diferente do assobio do pastor, rebaixam a palavra, que é um dos dons mais preciosos que o homem recebeu de Deus, presente belíssimo destinado a manifestar altos pensamentos de amor e de amizade ao Senhor e às suas criaturas, até fazer com que se entenda por que motivo disse S. Tiago que a língua é um mundo de iniquidade. Tantos danos pode, realmente produzir! Mentiras, difamações, desonras, intrigas, insultos, murmurações tortuosas... (Amigos de Deus, nn. 297–298)

As sete palavras de Cristo na Cruz 18

Capítulo 3: O segundo fruto que se há-de colher da consideração da primeira Palavra dita por Cristo na Cruz 8

Mas, omitindo estas considerações, passemos revista aos muitos e grandes inconvenientes que sofrem aqueles homens que, apenas para escapar de uma sombra de desonra diante dos homens, estão obstinados a se vingar daqueles que lhes fizeram qualquer mal. Em primeiro lugar, agem como estultos ao preferir um mal maior a um menor. Pois é um princípio considerado certo em toda parte, e que nos foi declarado pelo Apóstolo nestas palavras: "Não façamos o mal para que venha o bem" 13. Segue-se que, por consequência, um mal maior não há de ser cometido para que se possa obter alguma compensação por um menor. Aquele que recebe a injúria, recebe o que é chamado de mal da injúria: aquele que se vinga de uma injúria, é culpável do que se chama de mal do crime. Ora, sem dúvida, a desgraça de cometer um crime é maior que a desgraça de ter de suportar a injúria, pois, ainda que a ofensa possa tornar um homem miserável, não necessariamente o torna mau. Um crime, no entanto, o faz, a um tempo, miserável e malvado. A injúria priva o homem do bem temporal, o crime o priva tanto do bem temporal como do eterno. Assim, um homem que remedia o mal de uma injúria cometendo um crime, é como um homem que corta uma parte dos seus pés para calçar sapatos menores, o que é um ato de total loucura. Ninguém comete tal insensatez em suas preocupações temporais, mas, no entanto, há alguns homens tão cegos a seus interesses reais, que não temem ofender mortalmente a Deus para escapar daquilo que tem aparência de desgraça, e para manter um semblante de honra aos olhos dos homens. Caem, pois, sob o desagrado e a ira de Deus, e, a menos que se corrijam a tempo e façam penitência, terão que suportar a desgraça e o tormento eterno, e perderão a honra sem fim de habitarem no céu. Acrescente-se a isto que realizam um ato dos mais agradáveis ao diabo e seus anjos, que urgem a este homem fazer algo de injusto a aquele outro, com o propósito de semear a discórdia e a inimizade no mundo. E cada um deve refletir com calma quão desgraçado não é quem agrada o inimigo mais feroz da raça humana e desagrada o Cristo. Ademais, se sucede que o homem injuriado que ambiciona vingança fira mortalmente a seu inimigo, e o mate, é ele ignominiosamente executado por assassinato, e toda a sua propriedade é confiscada pelo Estado, ou, ao menos, é forçado ao exílio, e tanto ele como sua família viverão uma existência miserável. Assim é como o diabo joga e como se ri daqueles que escolhem antes se aprisionar com as ataduras da falsa honra, que se fazerem servos e amigos de Cristo, o melhor dos Reis, e serem reconhecidos como herdeiros de reino mais vasto e mais durável. Por isso, posto que o homem insensato, apesar do mandamento de Cristo, se nega a reconciliar-se com seus inimigos, e se expõe ao desastre total, todos os que são sábios escutarão a doutrina que Cristo, o Senhor de tudo, nos ensinou no Evangelho com suas palavras, e na Cruz com suas obras.

são roberto belarmino

(Tradução: Permanência, revisão ama).

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Notas:
13. Rm 3,8.


Pequena agenda do cristão


Domingo

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)

Propósito: Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me: Cultivar a Fé.

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame: Cumpri o propósito que me propus ontem?


Temas para meditar 108

Santíssima Virgem

Mês e sol e de flores (...), mês de Maria, coroando o tempo Pascal. Desde o Advento o nosso pensamento tinha seguido Jesus; agora que se fez na nossa alma a grande paz que se segue à Ressurreição, como não voltarmo-nos para aquela que no-Lo deu?
Apareceu sobre a terra para preparar a Sua vinda; vivei à Sua sombra, até ao ponto de que não a vemos intervir no Evangelho mais que como Mãe de Jesus, seguindo-O, velando por Ele, e quando Jesus nos deixa, ela desaparece suavemente.
Ela desaparece, mas fica na memória dos povos, porque lhe devemos Jesus.


(j. leclerqSiguiendo el año litúrgico, Rialp, Madrid 1957, pg. 215-216, trad ama)

Tratado dos vícios e pecados 93

Questão 89: Do pecado venial em si mesmo.

Art. 2 — Se os pecados veniais são designados convenientemente pela madeira, pelo feno e pela palha.

(IV Sent., dist. XXI. q. 1, a. 2, qª 1, 2; dist. XLVI, q. 2, a. 3, qª 3, ad 3; I Cor., cap. III, lect. II).

O segundo discute-se assim. — Parece que os pecados veniais se designam inconvenientemente pela madeira, pelo feno e pela palha.

1. — Pois, edifícios de madeira, de feno e palha dizem-se levantados sobre um fundamento espiritual. Ora, os pecados veniais estão fora do edifício espiritual, assim como quaisquer falsas opiniões não constituem ciência. Logo, os pecados veniais não são convenientemente designados pela madeira, pelo feno e pela palha.

2. Demais. — Quem edifica com madeira, feno e palha, será salvo como por intervenção do fogo (1 Cor 3, 15). Ora, às vezes, quem comete pecados veniais não será salvo, mesmo pelo fogo. Tal o caso de quem morre em estado de pecado mortal e venial. Logo, os pecados veniais são designados inconvenientemente pela madeira, pelo feno e pela palha.

3. Demais. — Segundo o Apóstolo (1 Cor 3, 12), uns edificam edifícios de ouro, de prata e de pedras preciosas, i. é, agem levados pelo amor de Deus, do próximo e pelas boas obras; outros fazem edifícios de madeira, de feno e de palha. Ora, pecados veniais cometem-nos mesmo os que amam a Deus e ao próximo, e fazem boas obras. Pois, a Escritura o diz (1 Jo 1, 8): Se dissermos que estamos sem pecado, nós mesmos nos enganamos. Logo, essa tríplice designação não convém aos pecados veniais.

4. Demais. — Os graus e as diferenças dos pecados veniais são muito mais de três. Logo, é inconveniente reduzi-los às três classes supra­mencionadas.

Mas, em contrário, o Apóstolo diz (1 Cor 3, 15), que quem levanta sobre o fundamento edifício de madeira, de feno e de palha será salvo como por intervenção do fogo, sofrendo então pena, embora não eterna. Ora, o reato da pena temporal propriamente pertence ao pecado venial, como se disse (q. 87, a. 5). Logo, aquela tríplice distinção designa os pecados veniais.

Alguns entenderam por fundamento a fé informe, sobre a qual alguns edificam as boas obras figuradas pelo ouro, pela prata e pelas pedras preciosas. Outros porém, os pecados, mesmo mortais, figurados pela madeira, pelo feno e pela palha. — Mas, Agostinho refuta esta exposição, dizendo: segundo o Apóstolo (Gl 5, 21), quem pratica as obras da carne não possuirá o reino de Deus, i. é, não se salvará. Ora, o mesmo Apóstolo diz que quem levanta edifício de madeira, feno e palha, será salvo como por intervenção do fogo. Logo, não se podem considerar a madeira, o feno e a palha como designando os pecados mortais.

Outros então dizem que a madeira, o feno e a palha significam as boas obras, apoiadas certamente nos fundamentos do edifício espiritual, mas vão misturados com elas pecados veniais. Assim, se cuidando alguém dos seus interesses de família, se deixa levar pelo amor exagerado da esposa, dos filhos ou dos bens, embora com subordinação a Deus, de modo a não ter nenhuma vontade de praticar nenhum acto contra Ele. — Mas, esta interpretação também não é aceitável. Pois, como é manifesto, todas as boas obras se referem à caridade para com Deus e o próximo, sendo por isso designadas pelo ouro, pela prata e pelas pedras preciosas, e não pela madeira, pelo feno e pela palha.

Donde, devemos pensar que os pecados veniais, que se imiscuem nas obras dos que buscam os bens terrenos, são os designados pela madeira, pelo feno e pela palha. Pois, assim como estes elementos se agregam à casa, sem constituírem a substância do edifício, e podem queimar-se, permanecendo este; assim também os pecados veniais podem multiplicar-se no homem, permanecendo o edifício espiritual. E por causa deles o pecador sofre a pena do fogo, quer das tribulações temporais desta vida, quer, depois desta, a do fogo do purgatório. E contudo consegue a salvação eterna.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Os pecados veniais se os consideramos como apoiados, não quase directamente, sobre um fundamento espiritual, mas, ao lado dele, conforme a Escritura (Sl 136, 1). — Junto dos rios de Babilónia — i. é, ao lado. Porque, como dissemos, os pecados veniais não destroem o edifício espiritual.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Não se diz de qualquer que levante edifício de madeira, feno e palha, que será salvo como por intervenção do fogo, mas só de quem edificar sobre o fundamento. E este não é a fé informe, como alguns pensaram, mas a fé informada pela caridade, conforme aquilo (Ef 3, 17): arraigados e fundados em caridade. Portanto, quem morreu em estado de pecado mortal e de venial edificou certamente com a madeira, o feno e a palha, mas sem apoiar o edifício num fundamento espiritual. E por conseguinte, não será salvo como por intervenção do fogo.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Os que abandonaram o cuidado das coisas temporais, embora às vezes pequem venialmente, cometem contudo pecados veniais leves, e frequentissimamente se purificam pelo fervor da caridade. Por isso, esses tais não levantam sobre o fundamento um edifício de pecados veniais, por pouco perdurarem neles. Ao contrário, os pecados veniais dos entregues às coisas terrenas permanecem mais tempo, por não poderem tão frequentemente recorrer ao perdão desses pecados, pelo fervor da caridade.

RESPOSTA À QUARTA. — Como diz o Filósofo, todas as coisas se incluem nesta tríplice distinção: o princípio, o meio e o fim. E deste modo todos os graus dos pecados veniais se reduzem a estas três coisas: à madeira, que suporta longamente o fogo; à palha, que se consome muito rapidamente; e ao feno, que fica num meio-termo. Pois, conforme os pecados veniais têm mais ou menos aderência e gravidade, assim são expurgados pelo fogo mais rápida ou mais demoradamente.


Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Evangelho diário, comentário e leitura espiritual (Os Sacramentos)

Tempo de Páscoa

V Semana 


Evangelho: Jo 14, 1-2

1 «Não se perturbe o vosso coração. Acreditais em Deus, acreditai também em Mim.2 Na casa de Meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, Eu vo-lo teria dito. Vou preparar um lugar para vós. 3 Depois que Eu tiver ido e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e tomar-vos-ei comigo, para que, onde estou, estejais vós também. 4 E vós conheceis o caminho para ir onde Eu vou». 5 Tomé disse-Lhe: «Senhor, nós não sabemos para onde vais; como podemos saber o caminho?». 6 Jesus disse-lhe: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai senão por Mim. 7 Se Me conhecesseis, também certamente conheceríeis Meu Pai; mas desde agora O conheceis e já O vistes». 8 Filipe disse-Lhe: «Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta». 9 Jesus disse-lhe: «Há tanto tempo que estou convosco, e ainda não Me conheces, Filipe? Quem Me viu, viu também o Pai. Como dizes, pois: Mostra-nos o Pai? 10 Não acreditais que Eu estou no Pai e que o Pai está em Mim? As palavras que vos digo, não as digo por Mim mesmo. O Pai, que está em Mim, Esse é que faz as obras. 11 Crede em Mim: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim. 12 Crede-o ao menos por causa das mesmas obras. «Em verdade, em verdade vos digo, que aquele que crê em Mim fará também as obras que Eu faço. Fará outras ainda maiores, porque Eu vou para o Pai.


Comentário:

«Muitas moradas» porque todos os homens têm lugar no Céu não como multidão informe e anónima mas cada um individualmente porque o Senhor chama cada um pelo seu nome.

Que pena que alguns - muitos infelizmente - não queiram atender ao chamado e fiquem vazias essas moradas preparadas com tanto amor.

(ama, comentário sobre Jo 14, 1-12, 2011.05.22)


Leitura espiritual





Temas para leitura espiritual








Os Sacramentos 2

Os sacramentos da iniciação cristã

O Baptismo (II)

E, além disso, ainda que tendo recebido o Baptismo na infância, está em nossas mãos a capacidade de fazer com que a “participação na natureza divina”, que se nos concede, e a acção da graça em nós que o segue, seja eficaz o inoperante.
        
Uma vez recebida a Graça, aceite e aberto nosso Espírito à sua acção, a capacidade de “ser filhos de Deus em Cristo” toma corpo, e as potencias do homem abrem-se para a santidade, para a união com Deus, como filhos adoptivos, e deitam raízes e se desenvolvem em cada cristão, na liberdade de cada cristão, que se manifesta expressamente no desejo de mar a Deus e na rejeição decidida o pecado.
           
San Paulo expressa-o com estas palavras: “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Pois não recebestes um Espírito de escravos para recair no temor; antes, recebestes um Espírito de filhos adoptivos, que nos faz clamar: ¡Abbá, Pai! O próprio Espírito une-se ao nosso Espírito para dar testemunho de que somos filhos de Deus. E, se filhos, também herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, já que sofremos com ele, para ser também com ele glorificados” (Rm 8, 14-17).
        
Filhos de Deus, e membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja. A família de todos os baptizados que todos formamos e somos chamados a ir “construindo” espiritualmente ao longo da nossa vida, somos: “linhagem escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido, para anunciar os louvores daquele que os chamou das trevas à sua luz admirável” (1 Pedro 2, 9).
          
“Os baptizados, pelo seu novo nacimento como filhos de Deus, estão obrigados a confessar diante dos homens a fé que receberam de Deus por meio da Igreja, e a participar na actividade apostólica e missionária do Povo de Deus” (Catecismo, n. 1270).

- Sou consciente de que estou exercitando a minha liberdade plena de filho de Deus, quando me ajoelho ante a Eucaristia e adoro?
- Tenho a alegria de dar um testemunho de Fé, vivendo a minha vocação de adorador Eucarístico?
- Quando saúdo o Senhor no Sacrário, rezo pelo Santo Pai e por toda a Igreja?

O Baptismo (III)
            
Sei o Baptismo é necessário para a salvação, que ocorre com os que não recebem, o não podem receber, o Baptismo?
            
Nós, adoradores Eucarísticos temos de ser um ponto de referência, entre os nossos familiares, amigos e conhecidos, da Fé em Cristo. Por essa razão temos de ter presente os caminhos que a Igreja estabeleceu para facilitar que qualquer pessoa possa ser baptizada, pelo desejo dos seus pais, se é de menor idade, ou por decisão pessoal, se já é maior de idade.
           
Em perigo de morte, qualquer pessoa pode baptizar.
          
 “Em caso de necessidade qualquer pessoa, inclusive não baptizada, se tem a intenção requerida, pode baptizar. A intenção requerida consiste em querer fazer o que faz a Igreja ao baptizar, e empregar a fórmula baptismal trinitária (“Eu…te baptizo no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1256).
           
Além do Baptismo sacramental, a Igreja considera outros dos tipos de Baptismo que abrem a alma às portas da Graça.
           
“Desde sempre, a Igreja possui a firme convicção de que os que padecem a morte por razão da fé, sem ter recebido o Baptismo, são baptizados pela sua morte com Cristo e por Cristo. Este Baptismo de sangue como o desejo do Baptismo, produz os frutos do Baptismo sem ser sacramento”

Este é o baptismo que os que se unem aos cristãos que sofrem martírio, movidos pelo seu exemplo recebem. E morrem com eles afirmando a mesma Fé.
          
Unido a este Baptismo de sangue a Igreja reconhece dois modos do Baptismo de desejo:
          
O primeiro refere-se aos que já se estão preparando para receber o Baptismo: “Aos catecúmenos que morrem antes do seu Baptismo, o desejo explícito de receber o Baptismo, unido ao arrependimento dos seus pecados e à caridade, assegura-lhes a salvação que não puderam receber pelo sacramento”.
          
O segundo caso aplica-se a todos os homens e manifesta claramente a universalidade da salvação que Cristo nos alcançou:
         
“Todo o homem que, ignorando o Evangelho de Cristo e a sua Igreja, busca a verdade e faz a vontade de Deus, segundo ele a conhece, pode ser salvo. Pode supor-se que semelhantes pessoas teriam desejado explicitamente o Baptismo se tivessem conhecido a sua necessidade”.
            
Talvez algum de nós tenha sabido de crianças que morreram apenas nascidos, e não receberam o Baptismo. Para estas situações – quer seja por descuido dos pais, por doenças imprevistas que precipitaram a morte, por atrasos desnecessários - temos de recordar a doutrina da Igreja para que saibamos consolar os pais que sofreram essa desgraça de forma involuntária, e sofrem pensando na situação dos seus filhos na vida eterna:
           
“Emquanto às crianças mortas sem Baptismo, a Igreja só pode confiá-los à misericórdia divina. Com efeito, a grande misericórdia de Deus, que quere que todos os homens se salvem e a ternura de Jesus com as crianças (…) permitem-nos confiar em que haja um caminho de salvação para as crianças que morrem sem Baptismo. Por isso é mais premente ainda a chamada da Igreja a não impedir que as crianças venham a Cristo pelo dom do Santo Baptismo” (Catecismo, n. 1261)
              
E terminamos esta reflexão recordando a doutrina comum na Igreja de que a todas os crianças que foram abortadas no seio das suas mães, a Misericórdia de Deus as acolhe no Céu.

- Recebemos com alegria a chegada de um novo filho, de um novo neto? Damo-nos conta de que é, verdadeiramente, um dom de Deus à família?
- Rezamos alguma vez nos momentos de adoração, pedindo a Deus  que se deixe de assassinar crianças no seio das sua mães?
- Lembramo-nos de vez em quando de nosso próprio baptismo, e  damos graças a Deus de todo coração por ter recebido a Fé?

A Confirmação (I)
          
A nossa condição de criatura comporta uma capacidade para desenvolver as potências e as qualidades, que cada um de nós temos como seres humanos. O nosso “eu”, núcleo vital de cada um que é a própria “pessoa”, encarrega-se de pôr em marcha a nossa “riqueza humana”.
            
Como poderemos desenvolver a “riqueza sobrenatural” que recebemos no Baptismo, e chegar a viver, como verdadeiros filhos de Deus em Cristo “participando da natureza divina”? Este é o efeito principal do segundo sacramento da iniciação cristã: a Confirmação.
           
“O efeito do sacramento da Confirmação é a efusão especial do Espírito Santo, como foi concedida noutro tempo aos apóstolos no dia de Pentecostes” (Catecismo, n. 1302).
            
Ao despedir-se dos apóstolos o Senhor prometeu-lhes a chegada do Espírito Santo, e anunciou-lhes a obra que o Paráclito levaria a cabo na alma de cada um deles e no espírito de todos os crentes, através dos séculos.
          
Qual é a obra principal que o Espírito Santo realiza no mundo, e que, de modo semelhante e ao mesmo tempo diferente, leva a cabo na alma do crente?
           
A principal obra do Espírito Santo na terra é a Encarnação do Filho de Deus, Jesus Cristo, no seio da Virgem Maria. Também Deus Pai nos envia o Espírito Santo, para que Cristo nasça e viva nas nossas almas, e possamos assim viver toda a nossa vida “com Cristo, por Cristo e em Cristo”.
          
O anúncio de Jesus Cristo de enviar o Espírito Santo consta de duas fases: “O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á tudo e vos recordará tudo quanto eu vos disse” (Jo 14, 26). Pouco depois o Senhor afirma: “O Espírito da Verdade vos guiará até à Verdade completa, pois não falará por sua conta, mas falará o que ouve, e vos anunciará o que há-de vir… Receberá do mesmo e vo-lo comunicará” (Jo 16, 13-15).

Que significam estas duas afirmações do Senhor?
           
Em primeiro lugar, o Espírito Santo, ao ensinar-nos e ao dar-nos a Verdade, o próprio Cristo e ao enxertar-nos nele, permite-nos viver com Cristo, e vivendo com Cristo, com a Pessoa de Cristo, torna possível que cada um de nós esteja em condições de desenvolver as potencialidades sobrenaturais recebidas na “participação da natureza divina”, no baptismo.
            
A Confirmação leva a cabo o entrosamento de cada pessoa na sua nova vida cristã, em Deus, definitivamente, tanto no plano do “ser” como no do “actuar”. Esta acção fica expressa nestas palavras: “A Confirmação imprime na alma uma marca espiritual indelével, o “carácter”, que é o sinal de que Jesus Cristo marcou o cristão com o selo do seu Espírito revestindo-o da força do alto para que seja sua testemunha” (Catecismo, n. 1304).
           
Os efeitos da Confirmação promovem o crescimento da “nova criatura em Cristo”, que é cada cristão. Esta acção do sacramento ocorre seguindo um duplo meio: desenvolve a graça baptismal, que introduz o cristão mais profundamente na filiação divina;  e aperfeiçoa o sacerdócio comum dos fiéis – considerá-lo-emos mais adiante -, que  dá o poder de confessar publicamente a fé de Cristo, e como em virtude de um cargo (cfr. Catecismo, nn. 1304 e 1305).
           
Acção do Espírito Santo que se reflecte, portanto, na consciência de ser “nova criatura” que o cristão vai adquirindo, consciência que o leva a saber-se, e a ser, “filho de Deus”, capaz de clamar “Abba, Pai”. Todo este entrosamento da consciência da filiação divina, é obra da acção dos dons do Espírito Santo, que actuam no baptizado desde o primeiro instante de sua vida cristã.

- Ante o Sacrário, detenho-me a pensar que sou, de verdade, “filho de Deus em Cristo Jesus”?
- Rezo alguma vez ao Espírito Santo e o peço que encha o meu coração de amor a Cristo-homem, a Cristo-Eucaristia?
- Sou consciente de que o Espírito Santo vem a mim quando vivo o Sacramento da Reconciliação; e quando recebo a Cristo-Eucaristia na Comunhão?

A acção do Espírito Santo, que fortalece, em primeiro lugar, o interior da pessoa do crente, reflecte-se para o exterior: na condição social do homem e nas suas actuações públicas.
            
Recordemos brevemente os efeitos da Confirmação na alma do baptizado:
- “Introduze-nos mais profundamente na filiação divina, sabendo-nos “filhos de Deus em Cristo” e, portanto, une-nos mais firmemente a Cristo;
- Aumenta em nós os dons do Espírito Santo: sabedoria, inteligência, ciência, conselho, fortaleza, piedade e temor de Deus;
- Concede-nos uma força especial do Espírito Santo para difundir e defender a fé mediante a palavra e as obras, como verdadeiras testemunhas de Cristo, para confessar valentemente o nome de Cristo e para jamais nos envergonharmos da cruz” (cfr. Catecismo, n. 1303).
            
A Confirmação, portanto, sublinha com clareza a dignidade à qual os cristãos foram chamados: a viver com Deus e em Deus, sendo filhos de Deus e manifestando a grandeza deste viver em Cristo, com a suas obras e com a suas acções, porque estamos chamados também a ser testemunhos vivos da vida – no céu e na terra - de Cristo morto e ressuscitado. Testemunhas, portanto, não só da presença de Cristo no tempo e no agora da vida dos homens, mas também, do viver de Cristo na eternidade do Céu.

Viver com Cristo, guiados pelo Espírito Santo e participando da natureza divina, implica uma plenitude de vida, uma riqueza de espírito, que, logicamente, se traduz em testemunho da vida de Cristo entre nós, nas mais variadas situações do viver.
             
A vida do cristão confirmado tende converter-se num testemunho real do viver de Cristo. Porque esta vida em Cristo é também “vida de Cristo em nós”, e não só é o Espírito Santo que clama dentro de nós “Abba, Pai”, é também Cristo que nos une ao seu sacerdócio e nos faz viver a todos os fiéis cristãos, membros da Igreja, o seu próprio sacerdócio de oferecimento, de intercessão, de reparação, de acção de graças a Deus Pai.
            
Em verdade podemos dizer que a acção do Espírito Santo que recebemos na Confirmação, nos une tão firmemente a Cristo, nos ajuda a identificar-nos com Ele, a fazer com que o mesmo Cristo cresça em nós em Espírito. Um crescimento que guarda certa analogia - consideradas logicamente todas as distâncias, como  dissemos - com o  crescimento de Cristo em Maria, na carne de Maria.
           
Quando consideramos os Dons do Espírito Santo, e os seus Frutos no nosso eu, sublinharemos a realidade da conversão do cristão no próprio Cristo, que torna possível desenvolver a capacidade de entender e de actuar para dirigir todo o bem, “o bem de os que amam a Deus”.
                
Jesus Cristo manifestou com toda clareza a existência do Espírito Santo, a realidade da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade e prometeu enviá-lo aos homens. Primeiro, receberam-no os Apóstolos no Pentecostes; agora envia-no-los na Confirmação e quando recebemos os demais Sacramentos.
           
E o Espírito Santo dá-nos a força para “confessar publicamente a fé em Cristo”.

- Dou-me conta de que ao receber o Espírito Santo na Confirmação, o meu Espírito recebe uma graça especial para orar, para adorar a Deus?
- Tenho a valentia de manifestar a minha fé; e especialmente, a minha fé na Eucaristia, inclusive entre pessoas que blasfemam contra Deus e contra Cristo?
- Levar a um amigo connosco para adorar o Senhor no Sacrário é uma fonte de gozo para a nossa alma, e peço à Virgem que me dê a audácia para o fazer?


ernesto julia, Os Sacramentos, Janeiro 28, 2011, trad, ama.