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04/05/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual (A beleza de ser cristão)


Semana V da Páscoa

Evangelho: Jo 14 21-26

21 Aquele que aceita os Meus mandamentos e os guarda, esse é que Me ama; e aquele que Me ama, será amado por Meu Pai, e Eu o amarei, e Me manifestarei a ele». 22 Judas, não o Iscariotes, disse-Lhe: «Senhor, qual é a causa por que Te hás-de manifestar a nós e não ao mundo?». 23 Jesus respondeu-lhe: «Se alguém Me ama, guardará a Minha palavra e Meu Pai o amará, e Nós viremos a ele, e faremos nele a Nossa morada. 24 Quem não Me ama não observa as Minhas palavras. E a palavra que ouvistes não é Minha, mas do Pai que Me enviou. 25 «Disse-vos estas coisas, estando convosco. 26 Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu nome, vos ensinará todas as coisas, e vos recordará tudo o que vos disse.

Comentário:

É interessante verificar a preocupação de Judas Tadeu em entender a missão de Jesus.
A resposta que obteve é muito simples: o Amor!
No amor a Cristo encerra-se toda a sabedoria necessária ao homem para salvar-se.

Mais tarde, os acontecimentos indicarão que, o outro Judas, o Iscariote, não apreendeu esta regra simples.

Parece manifesto que o motivo pelo qual anda com Cristo não é o amor e, quem não ama não só tem o coração fechado ao entendimento como o espírito aberto à traição.

(ama, comentário sobre Jo 14, 21-26, 2012.05.07)


Leitura espiritual

a beleza de ser cristão

PRIMEIRA PARTE



X – A santificação

…/20

        Adorar é gozar no amor da pessoa amada da verdade descoberta, conscientes que esse amor é que dá significado, sentido e conteúdo à nossa vida, que na Fé descobre a sua própria verdade.
        Adorar a Deus, que é encontrar o nosso lugar ante Ele, pela Fé leva-nos a encontrar o nosso lugar no mundo, entre os homens e as mulheres que nos rodeiam, na tarefa que desenvolvemos.
        Esta vida de Fé, ao tornar possível que nos aceitemos na plenitude da nossa condição de criaturas, abre-nos o caminho para dar o segundo passo como «novas criaturas em Cristo”; para que a graça, e com a graça o próprio Cristo Redentor se enraíze na nossa pessoa, convertendo-nos em «filhos de Deus em Cristo”: a filiação divina.
        «Esta a grande ousadia da fé cristã: proclamar o valor da dignidade da natureza humana e afirmar que, mediante a graça que nos eleva à ordem sobrenatural, formos criados para alcançar a dignidade de filhos de Deus.
        Ousadia certamente incrível, se não estivesse baseada no decreto salvador de Deus Pai e não tivesse sido confirmada pelo sangue de Cristo e reafirmada e tornada possível pela acção constante do Espírito Santo” [i].

VIDA DE ESPERANÇA

        «A esperança é a virtude teologal pela qual aspiramos ao Reino dos céus e à vida eterna como nossa felicidade, pondo a nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não nas nossas forças, mas sim nos auxílios da graça do Espírito Santo”.[ii]
        O homem sabe que vive na duração do tempo e que a sua memória do passado o acompanha no presente e o projecta para o futuro.
Sabe que não pode prescindir do seu estar no tempo, viver o tempo; e ao mesmo tempo, que o seu viver não se esgota no tempo. A Esperança iluminada pela Fé, abre os horizontes da memória até à vida eterna.
Com é isto possível?
        A Fé, relacionamo-la com o amor de Deus, e pôr diante da nossa mente a realidade inefável desse Amor, manifesta à nossa vista o pecado e a desordem, o mal, que com o pecado penetrou em toda a criação e na própria vida do homem.
Coloca o homem ante a verdade da sua criação, do seu pecado, da sua redenção, da sua história.
        A história do homem não se esgota nas civilizações e culturas que vai criando no seu caminhar sobre a terra.
O homem não se compreende a si próprio pelo que faz, quer seja pessoalmente, quer seja com outros homens.
Nem a cultura nem a arte nem a civilização dão razão adequada da presença humana sobre a terra, e muito menos do seu actuar e viver com os outros homens.
        Inserida na história do homem através das civilizações, está a história de cada homem: viver com Deus – em Cristo, com Cristo por Cristo – para arrancar o pecado do seu ser, do seu actuar, do seu coração, para redimir e redimir-se.
De facto, quando em qualquer civilização o homem, e é um fenómeno mais notório e notável na nossa cultura surgida e impregnada da verdade cristã sobre o homem, encontra-se em becos sem saída, de sufoco pessoal e colectivo, clama até de modos inimagináveis pela presença de um «salvador”.

Porquê?

        O pecado, esse «mistério de iniquidade” que enche de assombro São Paulo, acompanha o homem desde a saída do paraíso. «O pecado está presente na história do homem: seria vão tentar ignorá-lo ou dar a esta obscura realidade outros nomes.
Para tentar compreender o que é o pecado, é preciso, em primeiro lugar, reconhecer o vínculo profundo do homem com Deus (que o homem descobre na resposta de Fé), porque fora desta relação, o mal do pecado não é desmascarado na sua verdadeira identidade de rejeição e oposição a Deus, ainda que continue pesando sobre a vida do homem e sobre a história”.[iii]
        Ao compreender com clareza o pecado, e o que o pecado implica, o homem adquire uma luz para realizar com mais nitidez a realidade em que vive.
Não cai na tentação de fechar os olhos ante o mal que o rodeia nem tenta explicá-lo por causas exclusivamente sociológicas, antropológicas, económico-sociais, etc., como se fosse unicamente um defeito de crescimento da consciência do homem, consequência de uma debilidade psicológica, fruto de um erro de cálculo ou o resultado evidente de uma estrutura social inadequada, etc.
        Consciente da sua relação com Deus e da sua condição de criatura, descobre no interior da sua consciência, no centro da sua pessoa, «que o pecado é um abuso da liberdade que Deus dá às pessoas criadas para que possam amá-lo e amar-se mutuamente”)[iv].
        Movido pelo amor que o conhecimento de Deus na Fé engendra no seu coração, o homem que se sabe «filho de Deus em Cristo”, que começa a viver em si mesmo a Redenção de Cristo, a «participação na natureza divina”, engendra na esperança a consciência da sua debilidade ante o pecado e, ao mesmo tempo, a consciência de o vencer «por Cristo, em Cristo e com Cristo”.
        A esperança revela ao homem, sob a luz da Fé, que o afirma que Deus é Criador e Pai, que Deus não é seu inimigo e que ele não está «condenado” a pecar. Se todavia a Graça não germinou eficazmente no seu espírito até ao grau de crescer no amor a Deus e no desejo de rejeitar o pecado com todas as suas forças; todavia impediu que não se obscureça a consciência da sua capacidade e possibilidade de pecar, e que goze de uma nova realidade que aparece mais claramente à sua vista: «Se alguém peca, temos ante o Pai um advogado, Jesus Cristo, justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados. E não só pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo”.[v]
        Esta visão clara do amor e da misericórdia de Deus é fruto da Fé e da Esperança.
Um perdão de Deus que não se contrapõe à afirmação de Cristo de que veio para «trazer a paz, e não a guerra”.[vi]
A «guerra”, a «espada”, que o Senhor anuncia é a atitude contra o pecado que o homem há-de manter ao longo de toda a sua vida e que é a condição necessária para que Deus possa perdoá-lo.
De nada nos serve fugir do pecado, negar a sua existência, como fizeram os fariseus, porque então o pecado permanece sempre em nós.
        Na vida de esperança, o homem entende-se e afirma-se como criatura de Deus, como filho de Deus que caminha, guiado pelo fé, para a gida eterna, consciente que, com Cristo, em Cristo, por Cristo” vencerá o pecado e o fruto do pecado, o último inimigo, a morte.

VIDA DE CARIDADE

        «A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas por Ele mesmo e ao nosso próximo como a nós mesmos por amor de Deus”.[vii]
        «O amor de Deus derramou-se nos nossos corações por virtude do Espírito Santo, que nos foi dado”.[viii]
«Agora conheço de um modo imperfeito, mas logo conhecerei como sou conhecido. Agora permanecem a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade”.[ix]
Estes textos permitem-nos situar na perspectiva adequada para entender a caridade e a criação da graça na vontade do homem; porque somente quando a caridade informa as nossas acções poderemos verdadeiramente chamar-nos cristãos, nova criatura em Cristo: «Nós abemos que passámos da morte à vida porque amamos os irmãos.
O que não ama, permanece na morte”.[x]
No Espírito Santo que Deus derrama nos nossos corações, chegamos a vislumbrar o amor de Deus pelo homem.
Já no Antigo Testamento, Deus tinha manifestado de muitas formas o seu amor pelos homens.
As palavras ditas a Jeremias podem aplicar-se a cada um dos seres humanos: «Com amor eterno te amei, por isso te conservei na minha graça”.[xi]
Cristo deu a Redenção por concluída depois de ter manifestado ao homem – já liberto do pecado – a sabedoria sobre Deus Uno e Trino, revelando a verdade acerca do Espírito Santo.
Nessas condições, a inteligência humana podia ser iluminada para conhecer Deus, e a sua vontade podia ser fortalecida para o seguir mediante uma luz, uma força que alcançasse o homem a partir do exterior.
Todavia, não foi assim. Cristo quis ir mais longe no seu desejo de estar «com os filhos dos homens” e participar com eles dos seus desejos e dos seus cansaços, das suas penas e das suas alegrias.
As palavras do Concílio Vaticano II, às quais já nos referimos: «O Filho de Deus com a sua encarnação uniu-se, de certo modo, com todo o homem”,[xii] ajudam-nos a compreender a passagem de Jesus sobre a terra, na história do homem, para tornara a Redenção definitiva e completa.
E esta passagem é, na realidade, um permanecer para sempre. Com efeito, ao «fazer-nos partícipes da natureza divina”, e instituindo os sacramentos para que o manancial da Graça estivesse sempre presente e fluido na terra, Cristo estabelece definitivamente a sua morada na terra, sem por isso, deixar de «ascender ao Céu”.
Para conseguir o seu desejo de «recapitular nele toda a criação no céu e na terra” a para assim ver cumprida a sua oração a Deus Pai «para que todos sejam um, coo Tu, Pai, estás em mim e eu em Ti, para que também eles estejam em nós e o mundo acredite que Tu me enviaste” [xiii] decide tornar-nos partícipes do seu próprio ser e existir. Como?
Tendo vivido na terra durante um certo período de tempo, tomando para si a natureza humana, quer prolongar este estar presente no meio dos homens, em cada homem até ao fim dos tempos. Deste modo, além do mais, abre-nos definitivamente a perspectiva, a capacidade de nos dar-mos conta de que o nosso viver pessoal, esgotado no tempo, será eterno em Deus.

(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)





[i] Ibídem, n. 133.
[ii] Catecismo, n. 1817
[iii] Catecismo, n. 386
[iv] Catecismo, n. 387
[v] 1 Jo 2, 1-2
[vi] cfr. Mt 10, 34
[vii] Catecismo, n. 1822
[viii] Rm 5,5
[ix] 1 Cor 13, 3
[x] 1 Jo 3, 14
[xi] Jr 31, 3
[xii] Gaudium et spes, n. 22
[xiii] Jo 17, 21

19/05/2014

Evangelho diário, comentário e Leitura espiritual (Meditações sobre a ressurreição 1)

Tempo de Páscoa

V Semana 


Evangelho: Jo 14, 21-26


21 Aquele que aceita os Meus mandamentos e os guarda, esse é que Me ama; e aquele que Me ama, será amado por Meu Pai, e Eu o amarei, e Me manifestarei a ele». 22 Judas, não o Iscariotes, disse-Lhe: «Senhor, qual é a causa por que Te hás-de manifestar a nós e não ao mundo?». 23 Jesus respondeu-lhe: «Se alguém Me ama, guardará a Minha palavra e Meu Pai o amará, e Nós viremos a ele, e faremos nele a Nossa morada. 24 Quem não Me ama não observa as Minhas palavras. E a palavra que ouvistes não é Minha, mas do Pai que Me enviou. 25 «Disse-vos estas coisas, estando convosco. 26 Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu nome, vos ensinará todas as coisas, e vos recordará tudo o que vos disse.


Comentário:

A pergunta de S. Judas parece decisiva para compreendermos muitas coisas a respeito de Jesus Cristo e da Sua missão redentora.
Talvez nos tenhamos perguntado alguma vez porque é que Jesus reservava para os Apóstolos a revelação mais clara e compreensível sobre a Sua Pessoa e a Sua Missão.

A resposta do Mestre a Judas é conclusiva:



Por muito que nos seja explicado e evidenciado se, não tivermos amor Jesus, não entenderemos nem aceitaremos; mas, pelo contrário, se Lhe tivermos amor, então o Espírito Santo nos dará as luzes necessárias para entender tudo aquilo que as nossas limitações não nos permitem alcançar.

(ama, Comentário sobre Jo 14, 21-26, Fevereiro de 2009)


Leitura espiritual
Temas


Meditações sobre a Ressurreição


1. O VAZIO DO CORAÇÃO SEM DEUS

Lágrimas ao amanhecer

Quando o Domingo de Páscoa começava a clarear, um grande silêncio envolvia o descampado onde se encontrava o túmulo de Jesus. Só duas coisas poderiam chamar ali a atenção de um passante solitário: uma grande pedra circular – que servira para fechar verticalmente a entrada do sepulcro – fora rolada e estava posta a um lado; e perto da entrada escancarada, uma mulher, em pé, soluçava baixinho, com um leve estremecer de ombros, de modo que os primeiros raios de sol faziam cintilar as lágrimas que lhe escorriam pelas faces. Era Maria Madalena.

Entretanto – lemos no Evangelho de São João –, Maria conservava-se do lado de fora, perto do sepulcro, e chorava (Jo 20,11). Era a segunda vez, naquele amanhecer de Domingo, que Maria ia até ao sepulcro de Jesus, incansável no seu empenho por  prestar uma última homenagem a Nosso Senhor, depois da Sua paixão e morte.  Ajudada por outras santas mulheres, queria ungir-lhe o corpo – que na sexta-feira santa só tinham podido ungir às pressas e de modo incompleto – com os aromas que haviam preparado.

Foi assim que Maria Madalena chegou ao túmulo juntamente com Maria, mãe de Tiago e Salomé, suas amigas. Estas últimas – conta São Marcos – fugiram, trêmulas e amedrontadas (Mc 16,8), ao verem que o sepulcro estava vazio. Maria, porém, foi correndo à procura de Pedro e João, para lhes dizer, quase sem fôlego: Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram (Jo 20,2).

Há espanto geral. Recuperados do primeiro susto, os dois Apóstolos saem em disparada e ela vai atrás. Quando chegam ao túmulo, entram, e ficam perplexos ao ver que, além de estar vazio, os panos com que tinham amortalhado o cadáver de Jesus permaneciam intactos, com o mesmo formato que tinham quando envolviam o corpo de Cristo, só que agora espalmados, como se o corpo do Senhor os tivesse atravessado, esvaziando-os sem sequer tocá-los; e o sudário que lhe cobrira a cabeça estava cuidadosamente enrolado, também intacto, a um lado. Pedro e João, emocionados e perplexos, sentiram as pernas tremer e o coração rebentar, e voltaram correndo ao Cenáculo para avisar os outros. Maria, porém, não arredou pé de lá. Não queria ir-se embora. Queria encontrar Jesus, queria honrá-lo com carinho, mesmo que fosse apenas um pobre cadáver dilacerado. Por isso estacou ali, imóvel, chorando.

As suas lágrimas silenciosas eram a expressão do seu amor. São Gregório Magno, o grande Papa do século sexto, tem um comentário muito bonito a este respeito: “E nós temos que pensar – diz ele – na força tão grande do amor que inflamava a alma daquela mulher, que não se afastava do sepulcro do Senhor, mesmo quando os apóstolos dele já voltavam. Buscava a quem não encontrava; chorava procurando-o e, consumindo-se no fogo do seu amor, ardia no desejo de encontrar aquele que imaginava roubado. E assim aconteceu que só ela o viu, a única que ficou procurando… Começou a buscar, e não O encontrou; perseverou no seu querer, e achou-o; de tal forma cresceram os seus desejos, e tanto se dilataram, que acabaram alcançando o que buscavam”.

Quando meditamos em tudo o que nos conta dessa mulher o santo Evangelho, percebemos que a vida de Maria Madalena poderia ser definida assim: o Amor com maiúscula, ou seja, o Amor de Deus, procurou-a e salvou-a; ela correspondeu a esse Amor e não se cansou, por sua vez, de procurá-lo, de modo que toda a sua vida foi uma busca ardente e um aprofundamento nesse divino Amor, como o foi a vida de muitos grandes santos… Mas tem havido tantas confusões, tantas mentiras e interpretações esquisitas sobre o amor de Maria Madalena, que vale a pena lembrar a sua verdadeira história.

Quem era a mulher de Magdala?

Na realidade, trata-se de uma confusão que – na maior boa-fé, aliás – dura há séculos. Para começar, é muito importante lembrar quem não era Maria Madalena. Os melhores comentaristas do Evangelho, já desde os tempos de Santo Agostinho, alertam-nos para que não a confundamos com outras duas mulheres do Evangelho. Uma é aquela pecadora pública que certa vez banhou os pés de Jesus com lágrimas de arrependimento e os ungiu com bálsamo (cf. Lc 7,37 ss.); e a outra é Maria de Betânia, a irmã menor – pura e singela – de Marta e Lázaro, que também derramou perfume sobre a cabeça e os pés de Jesus pouco antes da Paixão, num gesto de fina cortesia, muito oriental (Jo 12,3).

Além deste esclarecimento, é interessante frisar que o Evangelho nunca disse que Maria Madalena fosse uma prostituta ou que tivesse uma vida leviana. Aliás, afirma de facto algo muito pior. Diz que Jesus tinha expulsado dela sete demónios (Lc 8,2). Isto é muito sério. Bem sabemos que o número sete – na linguagem bíblica – significa muitos, uma multidão. Pois é isto que dela nos diz São Lucas.

É, sem dúvida, algo terrível. Só o podemos compreender se tivermos consciência de que o demónio – como ensina a Bíblia – é, acima de tudo, o pai da mentira, do orgulho e do ódio. Como deve ter sido espantosa a vida dessa pobre mulher! Um poço de ódio, de raiva, de desconfiança, de mentira, de rancor… Pode haver sofrimento maior? Um verdadeiro inferno! Uma mulher incapaz de amar, incapaz de alegrar-se, incapaz de vibrar com a verdade, de admirar a beleza e de saborear o bem; incapaz de perdoar, incapaz de sorrir com carinho para os outros…! Porque um coração afastado de Deus e entregue ao diabo – ao pecado – é como um poço escuro e fundo. Lá não pode penetrar um raio de luz divina. A pessoa chega a tornar-se incapaz de acreditar que o amor, a beleza e a bondade existam. Só conhece as trevas em que se afunda…

A tristeza no fundo do coração

Esse “poço escuro”, essas “trevas”, são o retrato da tristeza que há hoje em dia no fundo de muitos corações. Corações eternamente insatisfeitos, pessoas que podem cantar, gritar, possuir, experimentar, dançar, agitar-se, embriagar-se de álcool, sexo, drogas e emoções radicais, mas que por dentro estão sombriamente vazias. Vivem instaladas no “coração das trevas”. E, mesmo sem o saberem, procuram, procuram. Percebem que lhes falta o essencial, algo que passaram a vida buscando sem encontrar. Sentem-se como alguém que se esfalfou tentando apanhar a água da fonte com um recipiente furado. Atormenta-as, então, uma ânsia de infinito que as queima por dentro, mas que nenhum tesouro do mundo e nenhuma loucura do mundo e nenhum prazer do mundo conseguem satisfazer… Pode dizer-se que estão torturadas por uma esperança distorcida, por um infinito desejo de felicidade, que corre expectante atrás do vazio. É lógico que essa esperança distorcida termine no desespero. O fundo do fundo da vida delas é a ausência…, é o vazio…, e morrem sem saber porquê nunca foram felizes.

E, no entanto, o porquê é claro: elas sofrem da ausência de Deus! Essas pessoas – como Madalena antes de encontrar Jesus – não sabem que o seu mísero coração está gritando aquelas palavras de um poema de Tagore: “Tenho necessidade de Ti, só de Ti! Deixa que o meu coração o repita sem cansar-se. Os outros desejos que dia e noite me envolvem, no fundo, são falsos e vazios. Assim como a noite esconde na sua escuridão a súplica da luz, na escuridão da minha inconsciência ressoa este grito: «Tenho necessidade de Ti, só de Ti!». Assim como a tempestade está procurando a paz, mesmo quando golpeia a paz com toda a sua força, assim a minha revolta bate contra o teu amor e grita: «Tenho necessidade só de Ti!»”

O encontro que tudo mudou

Assim estava Maria Madalena, quando um belo dia – de surpresa – Jesus foi buscá-la. Não conhecemos os detalhes. Só sabemos que Jesus teve compaixão dela, e expulsou dela sete demónios, como recordávamos acima. Dá para imaginar o que deve ter sentido aquela alma, ao encontrar-se livre do Maligno e inundada pelo dom da graça, conduzida por Jesus à descoberta deslumbrante de Deus? Que deve ter sentido quando experimentou – quiçá pela primeira vez na vida – a pureza e a grandeza do Amor, pois, como diz São João, Deus é Amor (1 Jo 4,8).

Encontrar Deus, na pessoa de Cristo, foi como sair da asfixia do poço e, de repente, “respirar”, absorver Deus até ao fundo da alma, como uma aragem do Céu que a criava de novo. Madalena passou a ser uma mulher que, pela primeira vez na vida, se apercebeu de como é bela a criação, todas as criaturas, transfiguradas pelo olhar e a presença do Salvador. O seu coração transformou-se numa brasa incandescente, inflamada pelo Amor que se derrama do Céu sobre o mundo através do Coração de Jesus.

É natural que, a partir do dia em que o antigo coração das trevas foi inundado pela fé, pela esperança e pelo amor, começasse a seguir Jesus e a servi-lo, com uma dedicação abnegada e total, como conta o Evangelho, juntamente com outras santas mulheres. Seguir Cristo tornou-se, a partir daquele momento, a razão – toda a razão – da sua existência. Servir Jesus passou a ser para ela um puro amor, que cumulava de plenitude e sentido o seu pensar, sonhar e viver.

Por isso, quando a avalanche das brutalidades da Paixão, o ódio implacável dos inimigos, desabou sobre Cristo e O reduziu a um cadáver ensanguentado na Cruz, Maria Madalena – grudada à Mãe do Salvador – agarrou-se à Cruz como quem se agarra à vida. Viver sem Jesus era para ela – como para todos os corações que de verdade encontraram Cristo – a vertigem de um vazio de morte. Essa é a Madalena que vemos chorar junto do sepulcro do Senhor. Essa a razão de que só pense em buscar o meu Senhor (Jo 20,13).

O reencontro da vida

Enquanto estava assim, desolada, o Evangelho descreve-nos uma cena deliciosa: Chorando, inclinou-se para olhar dentro do sepulcro. Viu dois anjos vestidos de branco… Eles perguntaram-lhe: “Mulher, por que choras?” Ela respondeu: “Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram” (Jo 20,13). A Madalena suplicante, toda “procura”, encarnava nesses momentos aquelas palavras do profeta Isaías: A minha alma desejou-Te, meu Deus, durante a noite e, dentro de mim, o meu espírito procurava-Te (Is 26,9). Assim buscava Jesus.

O Evangelho continua, e dá-nos alegria acompanhá-lo: Ditas estas palavras, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Perguntou-lhe Jesus: “Mulher, por que choras? Quem procuras?”  (Jo 20,15). Comove-nos ver Jesus ressuscitado, Jesus em pessoa, indo ao encontro daquela pobre criatura, como o pai que desfruta por dentro ao pensar na surpresa maravilhosa que preparou para o filho. E é muito bonito perceber – para quem conhece e medita o Evangelho – que, depois da Ressurreição, Jesus se mostra mais humano ainda, se possível, do que quando andava com os seus pelos caminhos da Galileia e da Judeia. Torna-se mais próximo, afectuoso, acessível. E aparece com uma nova carga de alegria: “diverte-se”, por assim dizer, alegrando os seus amigos com atitudes cheias de “bom humor”, de um divino e delicioso bom humor.

Para captar isso, basta continuar a acompanhar esse diálogo do Senhor com Madalena. Quem procuras? ­ pergunta-lhe Jesus -, e ela, supondo que fosse o jardineiro, respondeu: “Senhor, se tu o tiraste, diz-me onde o puseste, e eu o irei buscar”. Cristo não quer prolongar mais a aflição, e manifesta-se abertamente: Disse-lhe Jesus: “Maria!” O Evangelho aqui balbucia, só sabe repetir a exclamação que saiu daquela Maria estremecida de gozo, com os olhos arregalados e o coração prestes a explodir: Voltando-se ela, exclamou em hebraico: Raboni!”, que quer dizer “Mestre!”… Nesse exacto momento, Jesus olha-a com ternura e “nomeia-a” Sua primeira mensageira da fé, da alegria da Ressurreição:  Não Me retenhas… Vai aos meus irmãos e diz-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus. Maria Madalena correu (nesse dia, realmente, não parou de correr…) para anunciar aos discípulos que tinha visto o Senhor e contou o que Ele lhe tinha falado (Jo 20,15-18).

A partir desse momento, para Madalena a vida voltava a ser Vida, com maiúscula. O futuro era radiante: o reencontro com Jesus encheu de novo o vazio da alma com a luz cálida e inextinguível da esperança.

A chegarmos a este ponto, será bom reflectir e perguntar-nos: “Será que, pensando nos vazios que com frequência eu sinto, a lição da Madalena não me diz nada?” Todo o vazio, toda amargura, é uma ausência: a ausência de Deus. Pode ser a terrível ausência provocada pelo pecado, pelos sete demónios, mas pode ser também a ausência de uma alma boa que perde Deus de vista, fica morna na fé, e acha então muitas tristezas inexplicáveis que a atormentam e que têm uma perfeita explicação: são a ausência do “amor” de Deus na alma, são a frieza de quem tem Jesus ao lado (sempre está ao nosso lado, sempre nos procura, como fez com Madalena) e não o enxerga, são a amargura esquizofrênica de quem se queixa de Deus, justamente na hora em que Deus mais a ajuda… Como Madalena, que pensava que Jesus (aquele Jesus que não reconheceu) lhe tinha roubado Jesus… Não acontece algo disto connosco?

Sim, acontece. Diante de muitas dificuldades, lutas ou cruzes que Deus nos envia para nosso bem, pensamos tolamente que Deus nos abandonou ou Se afastou de nós. Que retirou a Sua mão e não nos ajuda com a Sua graça. E é quando está mais próximo.

Gravemos bem a lição das lágrimas e do júbilo de Maria Madalena. Convençamo-nos, profundamente, de que toda a tristeza, toda a amargura, toda a revolta, no fundo, é uma ausência de Deus (maligna ou benigna, mas nunca boa). Por isso, decidamo-nos a procurar Deus, a procurar Jesus com toda a nossa alma, como Madalena: com a mesma determinação com que ela O procurou. –”Onde está?” – diremos a nós mesmos – e responderemos com a decisão de aumentar o nosso aprofundamento na fé, a nossa leitura e meditação do Evangelho e das riquezas da doutrina cristã… E, se nos perguntarmos: – “Como achá-lo?”, deveremos responder: – “Como Madalena, que busca, pergunta, procura e não pára até encontrá-lo, ou seja, como Jesus nos ensinou: rezando, pedindo, orando sem cessar, pois a Sua promessa não falha: Eu vos digo: Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-vos-ão.