26/11/2011

Tratado De Deo Trino 10

Questão 28: Das relações divinas


Art. 4 — Se em Deus só há quatro relações reais, a saber, a paternidade, a filiação, a expiração e a processão.

O quarto discute-se assim — Parece não haver em Deus senão quatro relações reais, a saber, a paternidade, a filiação, a expiração e a processão.

— Pois, há a considerar em Deus as relações da inteligência com o inteligido e da vontade com o objecto querido; que são relações reais, nem se contém nas supra mencionadas. Logo, não há em Deus somente quatro relações reais.

Demais. — Admitem-se relações reais em Deus, quanto à processão inteligível do Verbo. Ora, as relações inteligíveis se multiplicam ao infinito, como diz Avicena [1]. Logo, há em Deus infinitas relações reais.

Demais. — As ideias existem em Deus abeterno, como se disse [2]. Nem se distinguem entre si senão relativamente ao seu objecto, segundo foi dito [3]. Logo, em Deus há muitas relações eternas.

Demais. — A igualdade, a semelhança e a identidade são relações e em Deus existem abeterno. Logo, nele existem abeterno mais revelações que as supra mencionadas.

Mas, em contrário, parece que são menos. Pois, segundo o Filósofo, o mesmo caminho de Atenas a Tebas é o de Tebas a Atenas [4]. Logo, pela mesma razão, idêntica é a relação entre o Pai e o Filho, chamada paternidade, e a entre o Filho e o Pai, chamada filiação. E assim não há em Deus quatro relações.

Segundo o Filósofo, toda relação se funda ou na quantidade, como a que há entre o duplo e o meio; ou na acção e na paixão [5], como a existente entre um agente e o seu acto, entre o senhor e o escravo, e outras. Ora, em Deus não existindo quantidade, pois, é grande, sem quantidade, como diz Agostinho [6], resulta que nele relação real só pode existir fundada na acção. Não porém em acções que causem em Deus uma processão extrínseca, pois, as relações de Deus com as criaturas, nele não estão realmente, como dissemos [7]. Por onde, as relações reais, só se podem admitir em Deus mediante acções que causem nele uma processão interna e não, externa. Ora, processão dessa natureza só há duas, como dissemos [8]; uma, fundada na acção do intelecto, que é a processão do Verbo; outra, na da vontade, que é a do Amor. E, segundo qualquer delas é necessário admitir duas relações opostas: uma, a do que procede do princípio, e outra, a do próprio princípio. A processão do Verbo se chama geração, na sua noção própria, pela qual convém aos seres vivos. Ora, a relação do princípio da geração, nos seres vivos perfeitos, se chama paternidade; e a do que procede do princípio, filiação. Porém a processão do Amor não tem nome próprio, como dissemos [9] e, portanto, nem as relações que nela se fundam. Chama-se contudo expiração à relação do princípio desta processão, e à do procedente, processão. Embora esses dois nomes pertençam às próprias processões ou origens, e não às relações.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Nos seres em que diferem o intelecto e o inteligido, a vontade e o seu objecto, pode haver relação real entre a ciência e a coisa sabida, a vontade e a coisa querida. Mas em Deus, o intelecto e o inteligido são absolutamente idênticos, pois, inteligindo-se, tudo intelige; e pela mesma razão nele se identificam a vontade e a coisa querida. Donde, tais relações em Deus não são reais, como não são as que existem entre duas identidades. Real é, contudo, a relação com o Verbo, compreendendo-se este como coisa inteligida; assim, quando inteligimos uma pedra, o que o intelecto concebe, da coisa inteligida, se chama verbo.

RESPOSTA À SEGUNDA. — As relações inteligíveis multiplicam-se em nos ao infinito, pois por um acto inteligimos a pedra, e por outro, essa relação, ainda por outro, esta última, e assim ao infinito se multiplicam os actos de inteligir e, por consequência, as relações inteligidas. O que não se dá com Deus, que por um só acto tudo intelige.

RESPOSTA À TERCEIRA. — As relações são ideais, como inteligidas por Deus. Donde, da pluralidade delas se não segue que haja muitas em Deus, mas que Ele conhece muitas.

RESPOSTA À QUARTA. — A igualdade e a semelhança não são em Deus relações reais, mas apenas de razão, como depois se verá [10]10.

RESPOSTA À QUINTA. — Embora o caminho de um termo para outro seja o mesmo que em sentido inverso, contudo as relações são diferentes. Por isso, daí não se pode concluir que seja a mesma relação entre o Pai e o Filho e reciprocamente. Mas poderíamos concluir tal, de um meio-termo absoluto que porventura houvesse entre eles.

SÃO TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica,




[1] 1.Metaph., tract. III, c. 10.
[2] Q. 15, a. 2.
[3] Q. 15, a. 2.
[4] III Physic., c. 3.
[5] V Metaph., c. 15.
[6] Contra Epist. Manichaei, c. 15.
[7] Q. 28, a. 1, ad 3; q. 13, a. 7.
[8] Q. 27, a. 5.
[9] Q. 27, a. 4.
[10] Q. 42, a. 1 ad 4.

D. Manuel Clemente - Mensagem de Natal (vídeo)

25/11/2011

IGREJA, SINDICATOS E DIREITO À GREVE

A doutrina social católica reconhece a legitimidade da greve quando se apresenta como “recurso inevitável, senão mesmo necessário”, tendo em vista um “benefício proporcionado”, como se pode ler no Catecismo da Igreja.

Portugal viveu ontem uma greve geral, convocada pelas duas centrais sindicais e apoiada, entre outros, pela Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos e a Juventude Operária Católica.

Segundo o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, “a greve, uma das conquistas mais penosas do associativismo sindical, pode ser definida como a recusa colectiva e concertada, por parte dos trabalhadores, de prestarem o seu trabalho, com o objectivo de obter, por meio da pressão assim exercida sobre os empregadores, sobre o Estado e sobre a opinião pública, melhores condições de trabalho e da sua situação social”.

A greve deve ser sempre um método pacífico de reivindicação e de luta pelos próprios direitos e torna-se “moralmente inaceitável quando acompanhada de violências, ou com objectivos não directamente ligados às condições de trabalho ou contrários ao bem comum” indica ainda o referido Compêndio.

A carta apostólica ‘Octogesima Adveniens’, escrita em 1971 pelo Papa Paulo VI, ressalva que, no caso dos serviços públicos “necessários para a vida quotidiana de toda uma comunidade, dever-se-á saber determinar os limites, para além dos quais o prejuízo causado se torna inadmissível”.

A ‘Gaudium et Spes’, constituição pastoral aprovada durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), declara no n.º 68 que os parceiros sociais envolvidos numa paralisação devem “retomar o mais depressa possível o caminho da negociação e do diálogo da conciliação”.

João Paulo II, na sua encíclica sobre o trabalho, indicava que os sindicatos “cresceram a partir da luta dos trabalhadores, do mundo do trabalho e, sobretudo, dos trabalhadores da indústria, esforçando-se pela defesa dos seus justos direitos, em confronto com os empresários e os proprietários dos meios de produção” (‘Laborem Exercens’, 20).

Para a Igreja Católica, as organizações sindicais, “perseguindo o seu fim específico ao serviço do bem comum, são um factor construtivo de ordem social e de solidariedade e, portanto, um elemento indispensável da vida social”.

“O reconhecimento dos direitos do trabalho constitui desde sempre um problema de difícil solução, porque se actua no interior de processos históricos e institucionais complexos, e ainda hoje pode considerar-se incompleto. Isto torna mais que nunca actual e necessário o exercício de uma autêntica solidariedade entre os trabalhadores”, assinala o Compêndio da Doutrina Social.

À luz desta concepção, a doutrina social “não pensa que os sindicatos sejam somente o reflexo de uma estrutura ‘de classe’ da sociedade, como não pensa que sejam o expoente de uma luta de classe, que inevitavelmente governe a vida social” (‘Laborem Exercens’, 20).

O Compêndio da Doutrina Social, no seu número 308, refere, por outro lado, que “os sindicatos são chamados a actuar de novas formas, ampliando o raio da própria acção de solidariedade”.

OC
Fonte: agencia.ecclesia.pt

Preparando o Advento

Perante a vinda eminente do Senhor, os homens devem dispor-se interiormente, fazer penitência dos seus pecados, rectificar a sua vida para receber a graça especial divina que traz o Messias. Tudo isso significa esse aplanar os montes, rectificar e suavizar os caminhos de que fala o Baptista. (...) A Igreja na sua liturgia do Advento anuncia-nos todos os anos a vinda de Jesus Cristo, Salvador nosso, e exorta cada cristão a essa purificação da sua alma mediante uma renovada conversão interior.[i]

NOVENA DA IMACULADA CONCEIÇÃO


IGREJA DA TRINDADE – PORTO


De 30 de Novembro a 8 de Dezembro de 2011

SANTA MISSA E SALVE RAINHA

TODOS OS DIAS às 19 horas

EXCEPTO: Nos dias 1, 4 e 8 (Domingos e feriados) às 12 horas

HAVERÁ CONFISSÕES ANTES DA SANTA MISSA
_____________________________

Em Lisboa,

http://oratoriosjosemaria.com.sapo.pt/actividades/novena.htm

Braga, Coimbra, Viseu, etc.:

Informar-se do lugar e hora


INFORMAÇÕES MUITO BREVES   [De vez em quando] 25.11.2011


Novíssimos - A Unção dos doentes 2

Há, sem dúvida, que respeitar as convicções de cada um mas, e neste caso, outras pessoas familiares ou amigas não podem interferir na vontade ou desejo expresso pela pessoa que deseja receber o Sacramento da Unção dos enfermos.
Fazê-lo é interferir arbitrariamente num desejo íntimo e inviolável do outro e privá-lo de algo a que, como cristão, tem todo o direito.

Quais são os efeitos deste sacramento?

Ele confere uma graça especial que une mais intimamente o doente à Paixão de Cristo, para o seu bem e de toda a Igreja, dando-lhe conforto, paz, coragem, e também o perdão dos pecados, se o doente não se pode confessar. Este sacramento consente por vezes, se for a vontade de Deus, também a recuperação da saúde física. Em todo o caso, esta Unção prepara o doente para a passagem à Casa do Pai. (CCIC 319)

Evangelho do dia e comentário













T. Comum– XXXIV Semana




Evangelho: Lc 21, 29-33

29 Acrescentou esta comparação: «Vede a figueira e todas as árvores. 30 Quando começam a desabrochar, conheceis que está perto o Verão. 31 Assim, também, quando virdes que acontecem estas coisas, sabei que está próximo o reino de Deus. 32 Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas se cumpram. 33 Passará o céu e a terra, mas as Minhas palavras não hão-de passar.

Comentário:

Uma vez mais, com o aproximar do fim do Ano Litúrgico, a Igreja põe à nossa consideração o fim dos tempos.
O fim do “tempo pessoal”, de cada um. O fim da vida.
São sinais, é verdade, as doenças, as guerras, as situações de perigo real que infelizmente abundam nesta terra.
E se não nos move, como deveria ser natural, o desejo permanente de estar preparados para esse dia que sempre chegará sem aviso, ao menos que esses “sinais” nos alertem para a necessidade e urgência de “arrumar as coisas”, forma prosaica de dizer:
Preparar a nossa alma para que a morte não nos apanhe desprevenidos.

(ama, comentário sobre Lc 21, 29-33, 2011.10.18)

Fome e sede dele e da sua doutrina

Textos de São Josemaria Escrivá

Sem a vida interior, sem formação, não há verdadeiro apostolado nem obras fecundas: o trabalho é precário e, inclusivamente, fictício. Que responsabilidade, portanto, a dos filhos de Deus! Temos de ter fome e sede dele e da sua doutrina. (Forja, 892)

Às vezes, com a sua actuação, alguns cristãos não dão ao preceito da caridade o valor máximo que tem. Cristo, rodeado pelos seus, naquele maravilhoso sermão final, dizia à maneira de testamento: "Mandatum novum do vobis, ut diligatis invicem", dou-vos um mandamento novo, que vos ameis uns aos outros.
E ainda insistiu: "In hoc cognoscent omnes quia discipuli mei estis", nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros.
Oxalá nos decidamos a viver como Ele quer! (Forja, 889)

Se faltar a piedade – esse laço que nos ata a Deus fortemente e, por Ele, aos outros, porque neles vemos Cristo –, é inevitável a desunião, com a perda de todo o espírito cristão. (Forja, 890)

Agradece com todo o coração a Nosso Senhor as potências admiráveis... e terríveis, da inteligência e da vontade com que quis criar-te. Admiráveis, porque te fazem semelhante a Ele; terríveis, porque há homens que as põem contra o seu Criador.
A mim, como síntese do nosso agradecimento de filhos de Deus, ocorre-me dizer a este Pai nosso, agora e sempre: "Serviam!" – Servir-te-ei! (Forja, 891)

© Gabinete de Informação do Opus Dei na Internet

Música e repouso

Mozart - Sonata en Do Mayor KV-545 - Allegro 
Ulises Hernández




selecção ALS

Coisas pequenas

Reflectindo

Como no tesouro do Templo foram estimadas as duas moedazinhas da pobre viúva (...), as pequenas obras boas, ainda que cumpridas com um pouco de descuido e não com toda a energia da nossa caridade, não deixam de ser gratas a Deus e de ter o seu mérito diante d’Ele; donde, e ainda que elas por si mesmas não valham para aumentar o amor precedente (...), a Providência divina, que toma conta delas e pela Sua bondade as estima, imediatamente as recompensa com aumento de caridade nesta vida e com a atribuição de maior glória no Céu.

(s. francisco de sales, Tratado do amor de Deus, livro 3, Cap. 2)

Tratado De Deo Trino 9

Questão 28: Das relações divinas


Art. 3 — Se as relações atribuídas a Deus real e mutuamente se distinguem.
(I Sent., dist. XXVI, q. 2, a. 2; De Pot., q. 2, a. 5, 6).

O terceiro discute-se assim. — Parece que real e mutuamente não se distinguem as relações atribuídas a Deus.

— Pois, coisas idênticas a uma terceira são idênticas entre si. Ora, toda relação existente em Deus é idêntica à divina essência. Logo, as relações reais mutuamente se não distinguem.

Demais. — Como a paternidade e a filiação se distinguem pelo que significam, da essência divina, assim também a bondade e a potência. Mas, por tal distinção, não há nenhuma diferença real entre a bondade e a potência divina. Logo, nem entre a paternidade e a filiação.

Demais. — Entre as relações divinas não há distinção real senão quanto à origem. Ora, não parece que uma relação nasça de outra. Logo, as relações não se distinguem realmente umas das outras.

Mas, em contrário, Boécio: Em Deus, a substância contém a unidade, a relação multiplica a Trindade [1]. Se, pois, as relações se não distinguissem, real e mutuamente, não haveria em Deus Trindade real, mas só racional; o que é erro sabeliano.

Quando a uma coisa se atribui outra é necessário atribuir àquela tudo o que for da essência desta; p. ex., a quem se atribuir o ser humano há-se se lhe atribuir o racional. Pois, a essência da relação está em referir-se uma coisa a outra, pelo que uma se opõe relativamente à outra, como dissemos. Ora, em Deus havendo relação real, segundo dissemos [2], há necessariamente oposição real. Ora, a oposição relativa inclui por natureza a distinção. Donde o haver necessariamente em Deus distinção real, não por certo quanto à realidade absoluta da essência que é suma unidade e simplicidade; mas, de natureza relativa.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Segundo o Filósofo, o argumento segundo o qual coisas idênticas a uma terceira são idênticas entre si [3], colhe em relação a coisas real e racionalmente idênticas, como túnica e vestuário. E por isso, no mesmo lugar diz, que embora seja o mesmo que o movimento tanto a acção como a paixão, contudo daí se não segue sejam idênticas; pois, a acção implica relação com o agente que causa o movimento do móvel; ao passo que a paixão supõe a receptividade. Do mesmo modo, embora a paternidade e a filiação se identifiquem, por natureza, com divina essência, contudo uma e outra, pelas suas noções próprias, implicam relações opostas. Por isso mutuamente se distinguem.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Potência e bondade não implicam, por essência, nenhuma oposição. Por isso a comparação não colhe.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Embora as relações propriamente falando, não nasçam nem procedam umas das outras, contudo consideram-se como opostas, no proceder uma realidade de outra.

SÃO TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica,



[1] 1.De Trinit. c. 6.
[2] Q. 28, a. 1.
[3] III Physic., c. 3.