01/10/2011

Deus é corpo?

Tratado de Deo Uno


Questão 3: Da simplicidade de Deus

Art. 1 — Se Deus é corpo


(Cont. Gent. I, 20; II, 3; compend. Theol., c. 16.)

O primeiro discute-se assim — Parece que Deus é corpo. 

1. Pois, corpo é o que tem três dimensões. Ora, a Sagrada Escritura atribui a Deus dimensão tríplice, dizendo (Job 11,8-9): Ele é mais elevado que o céu, e que farás tu? E mais profundo do que o inferno, e como o conhecerás? A sua medida é mais comprida do que a terra e mais longa que o mar.  Logo, Deus é corpo.

2. Demais — Todo figurado é corpo, pois a figura é qualidade quantitativa. Ora, Deus é figurado, como escreve a Escritura (Gn I, 26): Façamos o homem à nossa imagem e semelhança;  e a figura se chama imagem, segundo o Apóstolo (Heb I, 3):  sendo o resplendor da glória e a figura da sua substância,  i. e, a imagem. Logo, Deus é corpo.

3. Demais. — Tudo o que tem partes corpóreas é corpo. Ora, a Escritura as atribui a Deus:  Se tu tens braços como Deus (Job 40, 4);  e a destra do Senhor fez proezas (Sl 33, 16);  e os olhos do Senhor estão sobre os justos (Sl 117, 16). Logo, Deus é corpo.

4. Demais. — O corpo tem situação. Ora, o que se diz desta, a Escritura diz de Deus:  Vi ao Senhor assentado (Is 6,1);  e o Senhor está para julgar (Is 3, 13). Logo, Deus é corpo.

5. Demais. — Nada pode significar lugar donde ou para onde, sem ser corpo ou algo de corpóreo. Ora, na Escritura, Deus é denominado termo local para onde (Sl 33, 6):  Chegai-vos a ele e sereis iluminados;  e donde (Jr 17, 13): Os que se apartam de ti serão escritos sobre a terra. Logo, Deus é corpo.

Mas,  em contrário, diz a Escritura (Jo 4, 24):  Deus é espírito.

SOLUÇÃO. — Que, absolutamente, Deus não é corpo, pode-se demonstrar de três modos: Primeiro, porque nenhum corpo move sem ser movido, como claramente se induz dos casos singulares. Ora, já se demonstrou ser Deus o primeiro motor imóvel [i] . Logo, é manifesto que não é corpo; Segundo, porque é necessário que o ser primeiro exista em ato e de nenhum modo em potência. Pois, embora num mesmo ser, que passa da potência para o ato, aquela seja, temporalmente, anterior a este, em si, contudo, o ato é anterior à potência, porque o potencial não se actualiza senão pelo actual. Ora, como se demonstrou [ii], Deus é o ente primeiro; logo, é impossível existir nele algo de potencial. E, sendo todo corpo potencial, porque o contínuo, como tal é divisível ao infinito, é impossível Deus ser Corpo; Terceiro, porque Deus é o mais nobre dos seres, como do sobredito resulta [iii]. Ora, é impossível um corpo ser tal, porque todo o corpo é vivo ou não vivo. Se vivo, é manifestamente mais nobre que o não vivo; não vivendo, porém, enquanto corpo — porque então todo corpo viveria — necessariamente há-de viver por outro princípio; assim o nosso corpo vive pela alma. Ora, o princípio da vida do corpo é mais nobre que este. Logo, é impossível Deus ser corpo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Como já se disse [iv], a Sagrada Escritura nos transmite as coisas espirituais e divinas comparando-as com as corpóreas. Assim, quando atribui a Deus dimensão tríplice, designa-lhe a quantidade virtual, por comparação com a quantidade corpórea; com a profundidade atribuí-lhe a virtude de conhecer as coisas ocultas; com a altitude, a excelência da sua virtude sobre todos os seres; com a longitude, a duração do seu ser; com a latitude, o afecto de dilecção para com todos. — Ou, como diz Dionísio, pela profundidade de Deus se lhe intelige a incompreensibilidade da essência [v]; pela longitude, o processo da virtude que tudo penetra; e pela latitude, a sua super extensão sobre os seres enquanto todos caem sob a sua protecção.

RESPOSTA À SEGUNDA. — O homem é considerado imagem de Deus, não pelo corpo, mas pelo que o torna mais excelente que os outros animais; por isso a Escritura, depois de ter dito (Gn I, 26):  Façamos o homem à nossa imagem e semelhança,  acrescenta: O qual presida aos peixes do mar,  etc. Ora, o homem é mais excelente que todos os animais, pela razão e pelo intelecto. Donde, pelo intelecto e pela razão, que são incorpóreos, é a imagem de Deus.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A Escritura atribui a Deus partes corpóreas, em razão de seus actos, por uma certa semelhança. Pois, assim como o ato dos olhos é ver, atribuem-se olhos a Deus, para lhe significar a virtude visual, inteligível e não, sensivelmente, E assim, simultaneamente, em relação às outras partes.

RESPOSTA À QUARTA. — Mesmo o que é próprio da situação não se atribui a Deus, senão por semelhança; assim, diz-se que se assenta, por causa da imobilidade e autoridade; e que está de pé por causa da força em debelar tudo o que se lhe opõe.

RESPOSTA À QUINTA. — Não nos aproximamos de Deus com passos corpóreos, pois, está em toda parte; mas, com afectos mentais: e do mesmo modo, dele nos afastamos. E assim, o aproximar-se e o afastar-se, à semelhança com o movimento local, designam o afecto espiritual.



[i] q. 2, a. 3
[ii] Ibid.
[iii] q.2, a.3
[iv] q.1, a. 9
[v] cap. 9 De Div. Nom.

30/09/2011

Música e repouso

   Offenbach: Orpheus in the Underworld.


selecção ALS

Evangelho do dia e comentário

 S. Jerónimo Doutor da Igreja [i]













T. Comum– XXVI Semana




Evangelho: Lc 10, 13-16

13 «Ai de ti, Corazin! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e em Sidónia se tivessem realizado as maravilhas que se têm operado em vós, há muito tempo que teriam feito penitência vestidas de cilício e jazendo sobre a cinza. 14 Por isso haverá, no dia de juízo, menos rigor para Tiro e Sidónia que para vós. 15 E tu, Cafarnaum, “que te elevas até ao céu, serás abatida até ao inferno”. 16 Quem vos ouve, a Mim ouve, quem vos rejeita, a Mim rejeita, e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou».

Comentário:

E se o Senhor voltasse agora o que diria a respeito das nossas cidades?

Quantos milagres extraordinários não acontecem constantemente e, no entanto, quantos pecados - horríveis, alguns - faltas de toda a ordem, blasfémias e sacrilégios se perpetram a toda hora!

A nossa esperança é que haja sempre muitos que, como Abraão fez em relação a Sodoma, movam o Coração Amantíssimo do Senhor a olhar para nós com misericórdia e compaixão.

(AMA, Comentário sobre Lc 10, 13-16, 2010.10.01)


[i] São Jerónimo
S. Jerónimo
Albrecht Durer
A preparação literária e a ampla erudição permitiram que Jerónimo fizesse a revisão e a tradução de muitos textos bíblicos: um precioso trabalho para a Igreja latina e para a cultura ocidental. Com base nos textos originais em grego e em hebraico e graças ao confronto com versões anteriores, realizou a revisão dos quatro Evangelhos em língua latina, depois o Saltério e grande parte do Antigo Testamento. Tendo em conta o original hebraico e grego, a Septuaginta, a versão grega clássica do Antigo Testamento que remontava ao tempo pré-cristão, e as precedentes versões latinas, Jerónimo, com a ajuda de outros colaboradores, pôde oferecer uma tradução melhor: a chamada "Vulgata", o texto "oficial" da Igreja latina, que foi reconhecido como tal pelo Concílio de Trento e que, depois da recente revisão, permanece o texto "oficial" da Igreja de língua latina. É interessante ressaltar os critérios aos quais o grande biblista se ateve na sua obra de tradutor. Revela-o ele mesmo quando afirma respeitar até a ordem das palavras das Sagradas Escrituras, porque nelas, diz, "até a ordem das palavras é um mistério" (Ep. 57, 5), isto é, uma revelação. Reafirma ainda a necessidade de recorrer aos textos originários: "Quando surge um debate entre os Latinos sobre o Novo Testamento, para as relações discordantes dos manuscritos, recorremos ao original, isto é, ao texto grego, no qual foi escrito o Novo Pacto. Do mesmo modo para o Antigo Testamento, se existem divergências entre os textos gregos e latinos, apelamos ao texto original, o hebraico; assim tudo o que brota da nascente, podemo-lo encontrar nos ribeiros" (Ep. 106, 2). (Bento XVI, Audiência geral, Roma, em 7 de Novembro de 2007).

Smplicidade de Deus

Tratado de Deo Uno


Questão 3: Da simplicidade de Deus

Conhecida a existência de uma coisa, resta inquirir como existe, para que se saiba o que é. Porém, como não podemos saber o que é Deus, mas o que não é, não podemos considerar como é, mas, como não é.

Logo, 1º. consideraremos como não é; 2º. como é de nós conhecido; 3º. como se nomeia.

Ora, podemos mostrar como Deus não é removendo o que lhe não convém, p. ex.: a composição, o movimento, e atributos semelhantes.

Portanto, 1o. devemos tratar da sua simplicidade, pela qual dele se remove a composição. E sendo os seres corpóreos simples, imperfeitos e partes, devemos tratar, 2o. da perfeição de Deus; 3o. da sua infinidade; 4o. da sua imutabilidade; 5o. da sua unidade.

Na primeira questão, discutem-se oito artigos:

Art. 1 — Se Deus é corpo
Art. 2 — Se em Deus há composição de matéria e forma.
Art. 3 — Se Deus é idêntico à sua essência ou natureza.
Art. 4 — Se em Deus se identificam a essência e a existência.
Art. 5 — Se Deus pertence a algum género.
Art. 6 — Se em Deus há acidentes.
Art. 7 — Se Deus é absolutamente simples.
Art. 8 — Se Deus entra na composição dos outros seres.