22/04/2011

Confidências de alguém - 9

Confidências de Alguém

Nota de AMA: 
Estas “confidências” têm, obviamente, um autor, que não se revela; foram feitas em tempo indeterminado, por isso não se lhes atribui a data. O estilo discursivo revela, obviamente, que se tratam de meditações escritas ao correr da pena. A sua publicação deve-se a ter considerado que, nelas se encontram muitas situações e ocorrências que fazem parte do quotidiano que, qualquer um, pode viver.



SEXTA FEIRA SANTA


São 13H30 desta tarde e estou aqui com o meu pensamento e o meu coração voltados para Vós, meu Deus.
Acompanho, ou tento acompanhar os Passos Dolorosos da Tua Paixão há cerca de dois mil anos atrás.
Por esta altura, naquela distante data, deveria estar a ocorrer o Teu julgamento por Pilatos.
Julgamento… como se esta palavra pudesse de algum modo representar aquilo que ocorreu.
Um julgamento é um acto sério de avaliação e confronto entre os actos praticados por alguém e as normas correntes da sociedade. Aquilo que comummente se designa por comportamento cívico. Este, o julgamento humano porque, o julgamento verdadeiro, o julgamento de Deus ou feito por Deus sobre os actos dos homens, esse tem a ver com a justiça infinita.
O julgamento dos homens é só isso mesmo, uma interpretação dos actos de um homem feita por outros homens.
Mas nem disto se tratou, evidentemente, no Teu caso, meu Jesus. Tu não foste julgado. Não foi apresentada nenhuma prova, nenhuma evidência de qualquer maldade ou acto menos digno praticado por Ti.
Não passou tudo de uma farsa, uma cabala montada pelos Teus inimigos que, não podendo vencer-te nem pela razão nem pelas palavras, encontraram a única forma que, no seu entender, poderia acabar de uma vez com tudo e derrotar-te.
Aconteceu precisamente o contrário. Quando foste condenado, ou melhor, quando Pilatos Te entregou aos teus inimigos, uma nova era começou efectivamente para a humanidade. Nada continuaria igual ao que fora até então.
Os homens passariam a ter novas relações porque referenciadas a Ti mesmo, à Tua Vida, aos Teus ensinamentos.
Estas referências, que qualquer homem tem, são determinantes do seu comportamento e, quer queiram quer não, estão sempre presentes. Mesmo aqueles que Te negam, que dizem que não existes, que nunca exististe, estão referenciados a Ti.

Não podiam os Teus inimigos saber nada disto. O seu coração só albergava o ódio e o medo.
O ódio, - porque bem no fundo dos corações, sabiam da verdade e reconheciam-na nas Tuas palavras - e, sobretudo, nas Tuas demonstrações da sua falsidade e aproveitamento da religiosidade quase fanática de um povo.
O medo, porque se reconhecessem publicamente a Tua doutrina de amor, acabariam para sempre os seus privilégios e a sua preponderância e domínio sobre o mesmo povo.
O Sumo-sacerdote tinha dito muito claramente que era preferível morrer um só homem que perecer uma nação inteira.

Porquê?

Porque ele sabia, ou pelo menos pressentia, que a nova doutrina, os novos princípios de amor entre os homens, iriam revolucionar todo o mundo e a sociedade de então que era regida pela força bruta, pelas armas, pelo interesse e pelo desrespeito dos homens pelo seu semelhante.
Isto seria o bastante, como efectivamente foi, para alterar todo o comportamento da sociedade e subverter os princípios e as regras porque se regia. E isto não convinha aos Príncipes dos Sacerdotes. Quando tal acontecesse, a importância do seu papel como condutores do povo, o seu poder de intervenção ficariam reduzidos a nada ou, quando muito, apenas a uma mera influência espiritual e religiosa.
Toda a sua postura assentava numa política de domínio do povo, numa estrutura de classes em que os direitos não eram iguais para todos, onde, por exemplo, só uma classe deveria ter acesso à cultura que pudesse interpretar as escrituras e textos sagrados, que tivesse o privilégio de instituir as leis e regras de conduta de todo um povo.
Assim personalizavam em si todo o poder ou representação político-religiosa do povo de Israel. Não poderiam admitir nunca que este papel fosse subvertido ou pura e simplesmente reduzido.
Foi então assim desta forma hipócrita e pouco séria que Te propuseram a julgamento.
Mas, além do mais, apenas uma sentença lhes interessava: A Tua condenação à morte na Cruz.
A Tua morte, que era ponto assente, tinha de ser de tal forma exemplar, publicitada pela sua infâmia e pelo desprezo e repulsa que provocasse, que atingisse os efeitos que pretendiam de Te desacreditar definitivamente e originar um tal repúdio por parte dos Teus fiéis e simpatizantes que se tornasse impossível a continuidade da Tua doutrina através de um qualquer seguidor mais fiel.
Todas aquelas farsas, as chacotas, os insultos e, até mesmo, os golpes da flagelação ou as dores excruciantes da coroa de espinhos, nada disto Te deve ter doído mais que aquela atitude dos Teus inimigos. Tu próprio dirás mais tarde no Gólgota «Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem» e referias-te aos Teus algozes, àqueles que Te martirizaram e crucificaram.
Mas aqueles outros sabiam muito bem o que faziam. Tinham calculado e previsto e disposto as coisas de forma a conseguirem exactamente o que sucedeu.
Não tinham querido reconhecer o que sabiam e tinham percebido pelas evidências. Não eram casmurros, ou falhos de inteligência, pelo contrário, seriam até dos mais letrados e inteligentes homens daquela época em Israel. Basta ver a forma como manipularam um orgulhoso Pôncio Pilatos.
A sua dureza de coração para contigo, manso e humilde de coração, a sua mão pesada na administração dos preceitos religiosos, para contigo, cujo jugo é leve e a carga suave, a Ti meu Senhor, isto doeu-te mais que tudo o resto.

Porque Tu tinhas vindo a este mundo, cerca de trinta anos antes, exactamente por causa deste povo, um povo escolhido desde o princípio dos tempos e, também, por causa daqueles homens que deveriam ter sido exactamente os que deveriam ter aberto as portas e apregoado aos quatro cantos de Israel a Nova Era, a chegada do Messias prometido, arrastando assim todo o povo para o caminho da salvação eterna, esses, tinham sido precisamente os que tinham querido fechar hermeticamente as portas da salvação ao povo escolhido.
Não há dúvida nenhuma sobre isto, eles próprios o afirmaram a Pilatos dizendo que não tinham poderes para Te condenar à morte. Quer dizer, a condenação à morte e à morte de cruz, gritando: «Crucifige eum!» [i] Foi feita por eles. Pilatos não fez mais que fazer-lhes a vontade.
Tudo isto, Senhor, porque Tu quiseste, porque tinhas resolvido desde o princípio dos tempos entregares-te aos Teus inimigos para sofrer o que houvesse que sofrer, inclusive, essa morte ignominiosa, para restaurar as relações entre Deus Pai e a humanidade. No fundo, cumpria-se a Tua vontade também, como Deus.

Mistérios dos mistérios, pela união hipostática, a Tua humanidade unida à Tua Divindade, Tu és uma vítima consciente do Teu sacrifício.
Enquanto a Tua Humanidade se sujeita à Vontade de Deus, sabendo Este como tudo vai acontecer e o que depois se seguirá, enquanto Deus esperas e anseias por alguma modificação de última hora, um arrependimento, uma mudança de atitude, sabe-se lá, uma conversão ou, até, talvez uma alteração do plano divino de salvação: «Pai, se puderes afasta de mim este cálice». [ii]

O que mais Te dói, meu Senhor, é saberes que isso não vai acontecer e, talvez pior ainda, muitas coisas iguais irão acontecer pelos tempos fora. Muitos homens voltarão a ofender-te, a cuspir-te e também a crucificar-te. E Tu, sendo Deus, nada podes fazer para impedir que este conhecimento doloroso Te ocorra nestes momentos pavorosos de dor e martírio. Porque, justo como és, desejaste sempre para o homem criado por Ti, uma liberdade total mesmo em relação a Ti.
E dói-te ainda muito mais saberes que ao julgá-los, no julgamento definitivo, terás que condenar muitos privando-os da venturosa eternidade que preparaste para os homens, todos, desde sempre.

Nada dói mais que a dor provocada pelo espírito, aquilo que nos amarga o coração e que nos esmaga por dentro.

Sim, sem dúvida as dores físicas que tens suportado, estão muito aquém das dores morais que Te amarguram e que já Te fizeram suar sangue no Monte das Oliveiras.
Como sabes tão bem como somos todos os homens, como nos conheces até ao mais ínfimo detalhe, sabes que não podemos deter-nos por mais que breves instantes na consideração do nosso amor por Deus. A nossa inconstância, filha das nossas debilidades e fraquezas, traz-nos amarrados a uma espécie de torvelinho de desejos, prazeres, necessidades, ambições, critérios, opiniões, dúvidas que constantemente nos afastam do que deveria ser o nosso objectivo: A salvação da nossa alma.
Por isso, num acto de amor sem paralelo e que só se justifica por seres Deus, também quiseste deixar-nos ontem, Quinta-feira Santa, esse Sacramento extraordinário pelo qual podemos receber-te todos os dias da nossa vida terrena.
Alguns dizem que não é bem assim que apenas deixas-te um acto ou uma fórmula para Te recordar, ou que não passaria de um simples sortilégio ou acto de perpetuação. Porque vêm com olhos humanos uma coisa que foi feita por Deus e só pode ser vista com olhos divinos.
Tu, enquanto Homem, não podias instituir este Sacramento. Era-te vedado transubstanciar o pão e o vinho no Teu Corpo e Sangue mas, enquanto Deus, e foi como Deus que o fizeste, esse maravilhoso acto de bondade era-te perfeitamente possível.
Por isso, tal como os Príncipes dos Sacerdotes também esses se recusam a ver o que os olhos não podem ver e que só a alma pode efectivamente reconhecer.

Sexta-feira Santa!

Santa porque santificada por Ti, com o Teu sangue, a Tua angústia, o Teu sofrimento, o Teu amor.

Possa eu, meu Senhor, viver esta Sexta Feira como um verdadeiro filho Teu. Afastar-me de vez desses Príncipes dos sacerdotes que constantemente me segredam ao ouvido as suas razões sem razão.

Possa eu, meu Senhor, passar este dia sem chorar por Ti, tal como mandaste: «Não choreis por Mim, chorai antes por vós e vossos filhos» [iii], mas chorar, contritamente por mim, pelas minhas faltas, chorar também pelas faltas de todos os homens.

Possa eu, meu Senhor, arrimar o meu ombro, como o Cireneu, à Tua Cruz aliviando por pouco que seja o seu peso esmagador.

Possa eu, meu Senhor, levar a minha própria cruz sem me queixar, sem lutar com ela, num esforço para me libertar mas, olhando para Ti, levá-la, embora esforçado e custosamente, bem erguida ao alto.

Possa eu, meu Senhor, ter bem presente, todos os dias, esta Sexta-feira Santa.



[i] cfr. Jo. 19, 15
[ii] cfr. Lc. 22, 42
[iii] cfr. Lc. 23, 28

ORAÇÃO E MÚSICA

 Requiem de Mozart - Lacrimosa - Karl Böhm - Filarmónica de Viena



Pensamentos inspirados

À procura de Deus



Se amamos não tememos, porque se tememos, não amamos verdadeiramente.


jma, 2011.04.22

Sobre a família 29

O direito dos pais à educação dos filhos (II)
continuação 
Basta pensar, por exemplo, na importância de combater o analfabetismo para melhorar a justiça social, para entender que o Estado tem poderes, funções e direitos indeclináveis em matéria de promoção e difusão da educação, a que todo o homem tem um direito inalienável [i].

Isto justifica, como concreta exigência do bem comum, que o ordenamento estatal estabeleça certos níveis de ensino cujo aproveitamento eficaz pode legitimamente condicionar o acesso a determinadas carreiras universitárias ou a outros tipos de actividades profissionais.

Neste contexto, pode colocar-se o problema das competências dos pais e as do Estado serem discordantes ou incompatíveis ou, pelo contrário, poderem chegar a ser complementares. Em todo o caso, pode perguntar-se: como se relacionam entre si? Até onde pode o Estado legislar sem ultrapassar o direito dos pais, ou quando poderá intervir para garantir os direitos das crianças frente aos seus pais?

J.A. Araña e C.J. Errázuriz
© 2011, Gabinete de Informação do Opus Dei na Internet


[i] Cfr. João Paulo II,  Alocução à UNESCO, 2-VI-1980; Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução Libertatis conscientia, n. 92.

Meditação para Sexta-Feira Santa

São 13H30 desta tarde e eu estou aqui com o meu pensamento e o meu coração voltados para Vós, meu Deus.
Acompanho, ou tento acompanhar, os Passos Dolorosos da Tua Paixão há mais de dois mil anos atrás.
Por esta altura, naquela distante data, deveria estar a ocorrer o Teu julgamento por Pilatos.
Julgamento… como se esta palavra pudesse de algum modo representar aquilo que ocorreu.
Um julgamento é um acto sério de avaliação e confronto entre os actos praticados por alguém e as normas correntes da sociedade. Aquilo que comummente se designa por comportamento cívico. Este, o julgamento humano porque, o julgamento verdadeiro, o julgamento de Deus, ou feito por Deus sobre os actos dos homens, esse tem a ver com a Justiça Infinita.
O julgamento dos homens é só isso mesmo, uma interpretação dos actos de alguém feita por outros homens.
Mas nem disto se tratou, evidentemente, no Teu caso, meu Jesus. Tu não foste julgado. Não foi apresentada nenhuma prova, nenhuma evidência de qualquer maldade ou acto menos digno praticado por Ti.
Não passou tudo de uma farsa, uma cabala montada pelos Teus inimigos que, não podendo vencer-te nem pela razão nem pelas palavras, encontraram a única forma que, no seu entender, poderia acabar de uma vez com tudo e derrotar-te.


Aconteceu precisamente o contrário.


Quando foste condenado, ou melhor, quando Pilatos Te entregou aos teus inimigos, uma nova era começou efectivamente para a humanidade.
Nada continuaria igual ao que fora até então.
Os homens passariam a ter novas relações porque referenciadas a Ti mesmo, à Tua Vida, aos Teus Ensinamentos.
Estas referências, que qualquer homem pode ter, são determinantes do seu comportamento e, quer queiram quer não, estão sempre presentes. Mesmo aqueles que Te negam, que dizem que não existes, que nunca exististe, estão referenciados a Ti.
Não podiam os Teus inimigos saber nada disto. O seu coração só albergava o ódio e o medo.
Ódio, porque, bem no fundo do coração, conheciam a verdade e reconheciam-na nas Tuas palavras e, sobretudo, nas Tuas demonstrações da sua falsidade e aproveitamento da religiosidade quase fanática de um povo.
Medo, porque se reconhecessem publicamente a Tua doutrina de amor, acabariam para sempre os seus privilégios e a sua preponderância e domínio sobre o mesmo povo.
O Sumo-sacerdote tinha dito muito claramente que era preferível morrer um só homem que perecer uma nação inteira.


Porquê?


Porque ele sabia, ou pelo menos desconfiava, que a nova doutrina, os novos princípios de amor entre os homens, iriam revolucionar todo o mundo e a sociedade de então que era regida pela força bruta, pelas armas, pelo interesse e pelo desrespeito dos homens pelo seu semelhante.
Isto seria o bastante, como efectivamente foi, para alterar todo o comportamento da sociedade e subverter os princípios e as regras porque se regia. E isto não convinha aos Príncipes dos Sacerdotes. Quando tal acontecesse, a importância do seu papel como condutores do povo, o seu poder de intervenção ficariam reduzidos a nada ou, quando muito, apenas a uma mera influência espiritual e religiosa.
Toda a sua postura assentava numa política de domínio do povo, numa estrutura de classes em que os direitos não eram iguais para todos, onde, por exemplo, só uma classe deveria ter acesso à cultura que pudesse interpretar as escrituras e textos sagrados, que pudesse instituir as leis e regras de conduta de todo um povo.
Assim personalizavam em si todo o poder ou representação política do povo de Israel. Não poderiam admitir nunca que este papel fosse subvertido ou pura e simplesmente reduzido.
Foi então, desta forma hipócrita e pouco séria, que Te propuseram a julgamento.
Mas, alem do mais, apenas uma sentença lhes interessava: A Tua condenação à morte na Cruz.
A Tua morte, que era ponto assente, tinha de ser de tal forma exemplar publicitada pela sua infâmia, pelo desprezo e repulsa que provocasse para que atingisse os efeitos que pretendiam de Te desacreditar definitivamente e originar um tal repúdio por parte dos Teus seguidores fiéis e simpatizantes que se tornasse impossível a continuidade da Tua doutrina através de um qualquer mais fiel.


Todas aquelas farsas as chacotas, os insultos e, até mesmo, os golpes da flagelação ou as dores excruciantes da coroa de espinhos, nada Te deve ter doído mais que aquela atitude dos Teus inimigos.
Tu próprio dirás mais tarde no Gólgota “Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” e referias-te aos Teus algozes àqueles que Te martirizaram e crucificaram.
Mas, aqueles outros, sabiam muito bem o que faziam. Tinham calculado, previsto e disposto as coisas de forma a conseguirem exactamente o que sucedeu.
Não tinham querido reconhecer o que sabiam e tinham percebido pelas evidências. Não eram casmurros, ou falhos de inteligência, pelo contrário, seriam até dos mais letrados e inteligentes homens daquela época em Israel. Basta ver a forma como manipularam um orgulhoso Poncio Pilatos.
A sua dureza de coração, para contigo, manso e humilde de coração, a sua mão pesada na administração dos preceitos religiosos, para contigo, cujo jugo é leve e a carga suave, a Ti meu Senhor, isto doeu-te mais que tudo o resto.
Porque Tu tinhas vindo a este mundo, cerca de trinta anos antes, exactamente por causa deste povo, um povo escolhido desde o princípio dos tempos e por causa daqueles homens que deveriam ter sido exactamente os que deveriam ter aberto as portas e apregoado aos quatro cantos de Israel a Nova Era, a chegada do Messias prometido, arrastando assim todo o povo para o caminho da salvação eterna, esses, tinham sido precisamente os que tinham querido fechar hermeticamente as portas da salvação ao povo eleito.
Não há dúvida nenhuma sobre isto, eles próprios o afirmaram a Pilatos dizendo que não tinham poderes para Te condenar à morte. Quer dizer, a condenação à morte e à morte de cruz, gritando: «Crucifige eum!» foi feita por eles. Pilatos não fez mais que fazer-lhes a vontade.


Tudo isto, Senhor, porque Tu quiseste, porque tinhas resolvido desde o princípio dos tempos entregar-te aos Teus inimigos para sofrer o que houvesse que sofrer, inclusive, essa morte ignominiosa, para restaurar as relações entre Deus Pai e a humanidade.
No fundo, cumpria-se a Tua vontade também, como Deus.
Mistério dos mistérios, pela união hipostática, a Tua humanidade unida à Tua Divindade, Tu és uma vítima consciente do Teu sacrifício. Enquanto a Tua Humanidade se sujeita à Vontade de Deus, sabendo como tudo vai acontecer e o que depois se seguirá, enquanto Homem esperas e anseias por alguma modificação de última hora, um arrependimento, uma mudança de atitude, sabe-se lá, uma conversão ou, até, talvez uma alteração do plano divino de salvação: “Pai, se puderes afasta de mim este cálice”.


O que mais Te dói, meu Senhor, é saberes que nada disto vai acontecer e, talvez pior ainda, muitas coisas iguais irão acontecer pelos tempos fora. Muitos homens voltarão a ofender-te, a cuspir-te e também a crucificar-te. E Tu, sendo Deus, nada fazes para impedir que este conhecimento doloroso Te ocorra nestes momentos pavorosos de dor e martírio. Porque, justo como és, desejaste sempre para o homem criado por Ti, uma liberdade total mesmo em relação a Ti.
E dói-te ainda muito mais saberes que, ao julgá-los no julgamento definitivo, terás que condenar muitos privando-os da venturosa eternidade que preparaste para os homens, todos, desde sempre.


Nada dói mais que a dor provocada pelo espírito, aquilo que nos esmaga  o coração e que nos amarga por dentro.


Sim, sem dúvida as dores físicas que tens suportado, estão muito aquém das dores morais que Te amarguram e que já Te fizeram suar sangue no Monte das Oliveiras.
Como sabes tão bem como somos todos os homens, como nos conheces até ao mais ínfimo detalhe, sabes que não podemos deter-nos por mais que breves instantes na consideração do nosso amor por Deus. A nossa inconstância, filha das nossas debilidades e fraquezas, traz-nos amarrados a uma espécie de torvelinho de desejos, prazeres, necessidades, ambições, critérios, opiniões, dúvidas que constantemente nos afastam do que deveria ser o nosso objectivo: A salvação da nossa alma.
Por isso, num acto de amor sem paralelo e que só se justifica por seres Deus, também quiseste deixar-nos ontem, Quinta Feira Santa, esse Sacramento extraordinário pelo qual podemos receber-te todos os dias da nossa vida terrena.
Alguns dizem que não é bem assim que apenas nos deixas-te um acto ou uma fórmula para recordar, o que não passaria de um simples sortilégio ou acto de perpetuação. Porque vêm com olhos humanos algo que foi feito por Deus e só pode ser enxergado e compreendido com olhos puros.


Tu, enquanto Homem, não podias instituir este Sacramento. Era-te vedado transubstanciar o pão e o vinho no Teu Corpo e Sangue mas, enquanto Deus, e foi como Deus que o fizeste, esse maravilhoso acto de bondade era-te perfeitamente possível.
Por isso, tal como os Príncipes dos Sacerdotes, também esses se recusam a “ver” o que os olhos não podem ver e que só a alma pode efectivamente reconhecer.

Sexta-Feira Santa!


Santa porque santificada por Ti, com o Teu Sangue, a Tua Angústia, o Teu Sofrimento, o Teu Amor.


Possa eu, meu Senhor, viver esta Sexta-Feira como um verdadeiro filho Teu. Afastar-me de vez desses Príncipes dos Sacerdotes que constantemente me segredam ao ouvido as suas razões sem razão.


Possa eu, meu Senhor, passar este dia sem chorar por Ti, tal como mandaste: “Não choreis por Mim, chorai antes por vós e vossos filhos”, mas chorar, contritamente por mim, pelas minhas faltas, chorar também pelas faltas de todos os homens.


Possa eu, meu Senhor, arrimar o meu ombro, como o Cireneu, à Tua Cruz aliviando por pouco que seja o seu peso esmagador.


Possa eu, meu Senhor, levar a minha própria cruz sem me queixar, sem lutar com ela, num esforço para me libertar mas, olhando para Ti, levá-la, embora esforçado e custosamente, bem erguida ao alto.


Possa eu, meu Senhor, ter bem presente, todos os dias, esta Sexta Feira Santa.

(ama, Porto, meditação, 1992.06.17)



Evangelho do dia e comentário

Lázaro Lozano (1948)
Igreja Matriz de Monte Real
Oferecido por meu Pai.
Sexta-Feira Santa

Evangelho: Ev Jo 18, 1 – 19, 42 


Celebração da Paixão do Senhor

1 Tendo Jesus dito estas palavras, saiu com os Seus discípulos para o outro lado da torrente do Cédron, onde havia um horto, em que entrou com os Seus discípulos. 2 Ora Judas, o traidor, conhecia bem este lugar, porque Jesus tinha ido lá muitas vezes com os Seus discípulos. 3 Tendo, pois, Judas tomado a coorte e guardas fornecidos pelos pontífices e fariseus, foi lá com lanternas, archotes e armas. 4 Jesus, que sabia tudo que estava para Lhe acontecer, adiantou-Se e disse-lhes: «A quem buscais?». 5 Responderam-Lhe: «A Jesus de Nazaré». Jesus disse-lhes: «Sou Eu». Judas, que O entregava, estava lá com eles. 6 Quando, pois, Jesus lhes disse: «Sou Eu», recuaram e caíram por terra. 7 Perguntou-lhes novamente: «A quem buscais?». Eles disseram: «A Jesus de Nazaré». 8 Jesus respondeu: «Já vos disse que sou Eu; se é, pois, a Mim que buscais, deixai ir estes». 9 Deste modo se cumpriu a palavra que tinha dito: «Não perdi nenhum dos que Me deste». 10 Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu um servo do Sumo-sacerdote, tendo-lhe cortado a orelha direita. Este servo chamava-se Malco. 11 Porém, Jesus disse a Pedro: «Mete a tua espada na bainha. Não hei-de beber o cálice que o Pai Me deu?». 12 Então, a coorte, o tribuno e os guardas dos judeus prenderam Jesus e O manietaram. 13 Primeiramente levaram-n'O a casa de Anás, por ser sogro de Caifás, que era o Sumo Sacerdote daquele ano. 14 Caifás era aquele que tinha dado aos judeus este conselho: «Convém que um só homem morra pelo povo». 15 Simão Pedro e um outro discípulo seguiam Jesus. Este discípulo, que era conhecido do pontífice, entrou com Jesus no pátio do pontífice. 16 Pedro ficou de fora, à porta. Saiu então o outro discípulo que era conhecido do Sumo Sacerdote, falou à porteira e fez entrar Pedro. 17 Então a porteira disse a Pedro: «Não és tu também dos discípulos deste homem?». Ele respondeu: «Não sou». 18 Os servos e os guardas acenderam uma fogueira e aqueciam-se ao lume, porque estava frio. Pedro encontrava-se também entre eles e aquecia-se. 19 Entretanto, o pontífice interrogou Jesus sobre os Seus discípulos e sobre a Sua doutrina.20 Jesus respondeu-lhe: «Eu falei publicamente ao mundo; ensinei sempre na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem; nada disse em segredo.21 Porque Me interrogas? Interroga aqueles que ouviram o que Eu falei; eles sabem o que disse». 22 Tendo dito isto, um dos guardas que estavam presentes deu uma bofetada em Jesus, dizendo: «Assim respondes ao Sumo-sacerdote?». 23 Jesus respondeu-lhe: «Se falei mal, mostra o que disse de mal; se falei bem, porque Me bates?». 24 Anás enviou-O manietado ao Sumo-sacerdote Caifás. 25 Estava lá Simão Pedro aquecendo-se. Disseram-lhe: «Não és tu também dos Seus discípulos?». Ele negou e respondeu: «Não sou». 26 Disse-lhe um dos servos do Sumo-sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha: «Não te vi eu com Ele no horto?». 27 Pedro negou outra vez, e imediatamente o galo cantou. 28 Levaram então Jesus da casa de Caifás ao Pretório. Era de manhã. Não entraram no Pretório para não se contaminarem, e poderem comer a Páscoa. 29 Pilatos, pois, saiu fora para lhes falar, e disse: «Que acusação apresentais contra este homem?». 30 Responderam: «Se não fosse um malfeitor não O entregaríamos nas tuas mãos». 31 Pilatos disse-lhes então: «Tomai-O e julgai-O segundo a vossa Lei». Mas os judeus disseram-lhe: «Não nos é permitido matar ninguém». 32 Para se cumprir a palavra que Jesus dissera, significando de que morte havia de morrer. 33 Tornou, pois, Pilatos a entrar no Pretório, chamou Jesus e disse-Lhe: «Tu és o rei dos judeus?». 34 Jesus respondeu: «Tu dizes isso por ti mesmo, ou foram outros que to disseram de Mim?». 35 Pilatos respondeu: «Porventura sou judeu? A Tua nação e os pontífices é que Te entregaram nas minhas mãos. Que fizeste Tu?». 36 Jesus respondeu: «O Meu reino não é deste mundo; se o Meu reino fosse deste mundo, certamente os Meus ministros se haviam de esforçar para que Eu não fosse entregue aos judeus; mas o Meu reino não é daqui». 37 Pilatos disse-Lhe então: «Portanto, Tu és rei?». Jesus respondeu: «Tu o dizes, sou rei. Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade; todo aquele que está na verdade ouve a Minha voz». 38 Pilatos disse-Lhe: «O que é a verdade?». Dito isto, tornou a sair para ir ter com os judeus e disse-lhes: «Não encontro n'Ele motivo algum de condenação. 39 Ora é costume que eu, pela Páscoa, vos solte um prisioneiro; quereis, pois, que vos solte o rei dos judeus?». 40 Então gritaram todos novamente: «Este não, mas Barrabás!». Ora Barrabás era um assassino.
1 Pilatos tomou então Jesus e mandou-O flagelar. 2 Depois, os soldados, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-Lha sobre a cabeça e revestiram-n'O com um manto de púrpura. 3 Aproximavam-se d'Ele e diziam-Lhe: «Salve, rei dos judeus!», e davam-Lhe bofetadas. 4 Saiu Pilatos ainda outra vez fora e disse-lhes: «Eis que vo-l'O trago fora, para que conheçais que não encontro n'Ele crime algum». 5 Saiu, pois, Jesus, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Pilatos disse-lhes: «Eis aqui o Homem!». 6 Então os príncipes dos sacerdotes e os guardas, quando O viram, gritaram: «Crucifica-O, crucifica-O!». Pilatos disse-lhes: «Tomai-O e crucificai-O, porque eu não encontro n'Ele motivo algum de condenação». 7 Os judeus responderam-lhe: «Nós temos uma Lei e, segundo essa Lei, deve morrer, porque Se fez Filho de Deus». 8 Pilatos, tendo ouvido estas palavras, temeu ainda mais. 9 Entrou novamente no Pretório e disse a Jesus: «Donde és Tu?». Mas Jesus não lhe deu resposta. 10 Então Pilatos disse-Lhe: «Não me falas? Não sabes que tenho poder para Te soltar e também para Te crucificar?». 11 Jesus respondeu: «Tu não terias poder algum sobre Mim, se não te fosse dado do alto. Por isso, quem Me entregou a ti tem maior pecado». 12 Desde este momento, Pilatos procurava soltá-l'O. Porém, os judeus gritavam: «Se soltas Este, não és amigo de César!, porque todo aquele que se faz rei, declara-se contra César». 13 Pilatos, tendo ouvido estas palavras, conduziu Jesus para fora e sentou-se no seu tribunal, no lugar chamado Litóstrotos, em hebraico Gábata. 14 Era o dia da Preparação da Páscoa, cerca da hora sexta. Pilatos disse aos judeus: «Eis o vosso rei!». 15 Mas eles gritaram: «Tira-O, tira-O, crucifica-O!». Pilatos disse-lhes: «Hei-de crucificar o vosso rei?». Os pontífices responderam: «Não temos outro rei senão César». 16 Então entregou-Lho para que fosse crucificado. 17 Tomaram, pois, Jesus que, carregando com a Sua cruz, saiu para o lugar chamado Calvário, em hebraico Gólgota, 18 onde O crucificaram, e com Ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio. 19 Pilatos redigiu um título, que mandou colocar sobre a cruz. Nele estava escrito: «Jesus Nazareno, Rei dos Judeus». 20 Muitos judeus leram este título, porque o lugar onde foi crucificado ficava perto da cidade. Estava redigido em hebraico, em latim e em grego. 21 Os pontífices dos judeus diziam, porém, a Pilatos: «Não escrevas: Rei dos Judeus, mas: Este homem disse: Eu sou o Rei dos Judeus». 22 Pilatos respondeu: «O que escrevi, está escrito!». 23 Os soldados, depois de terem crucificado Jesus, tomaram as Suas vestes e fizeram delas quatro partes, uma para cada soldado. Tomaram também a túnica. A túnica não tinha costura, era toda tecida de alto a baixo. 24 Disseram entre si: Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela, para ver a quem tocará; para que se cumprisse deste modo a Escritura, que diz: “Repartiram entre si as Minhas vestes e lançaram sortes sobre a Minha túnica”. “Os soldados assim fizeram. 25 Estavam, de pé, junto à cruz de Jesus, Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. 26 Jesus, vendo Sua mãe e, junto dela, o discípulo que amava, disse a Sua mãe: «Mulher, eis o teu filho». 27 Depois disse ao discípulo: «Eis a tua mãe». E, desde aquela hora, o discípulo recebeu-a na sua casa. 28 Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir a Escritura, disse: «Tenho sede». 29 Havia ali um vaso cheio de vinagre. Então, os soldados, ensopando no vinagre uma esponja e atando-a a uma cana de hissopo, chegaram-Lha à boca. 30 Jesus, tendo tomado o vinagre, disse: «Tudo está consumado!». Depois, inclinando a cabeça, entregou o espírito. 31 Os judeus, visto que era o dia da Preparação, para que os corpos não ficassem na cruz no sábado, porque aquele dia de sábado era de grande solenidade, pediram a Pilatos que lhes fossem quebradas as pernas e fossem retirados. 32 Foram, pois, os soldados e quebraram as pernas ao primeiro e ao outro com quem Ele havia sido crucificado. 33 Mas, quando chegaram a Jesus, vendo que já estava morto, não Lhe quebraram as pernas, 34 mas um dos soldados trespassou-Lhe o lado com uma lança e imediatamente saiu sangue e água. 35 Quem foi testemunha deste facto o atesta, e o seu testemunho é digno de fé e ele sabe que diz a verdade, para que também vós acrediteis.36 Porque estas coisas sucederam para que se cumprisse a Escritura: “Não Lhe quebrarão osso algum”. 37 E também diz outro passo da Escritura: “Hão-de olhar para Aquele a quem trespassaram”. 38 Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, ainda que oculto por medo dos judeus, pediu a Pilatos que lhe deixasse levar o corpo de Jesus. Pilatos permitiu-o. Foi, pois, e tomou o corpo de Jesus. 39 Nicodemos, aquele que tinha ido anteriormente de noite ter com Jesus, foi também, levando uma composição de quase cem libras de mirra e aloés. 40 Tomaram o corpo de Jesus e envolveram-n'O em lençóis com perfumes, segundo a maneira de sepultar usada entre os judeus. 41 Ora, no lugar em que Jesus foi crucificado, havia um horto e no horto um sepulcro novo, em que ninguém tinha ainda sido sepultado. 42 Por ser o dia da Preparação dos judeus e o sepulcro estar perto, depositaram ali Jesus.

Comentário:

Onde deter-me?
Que passagem meditar?
A traição de Judas beijando Jesus!
A negação de Pedro com juramento?
A bofetada do servente, sem nenhuma justificação?
A possibilidade de Pilatos ter ficado para ouvir a resposta de Jesus à sua pergunta: o que é a verdade?



(Na história da humanidade, ficará para sempre registada esta atitude do Pretor romano. Não quer ouvir a resposta de Jesus. Intimamente sabe que, se a ouvisse, completa e esclarecedora, como não podia deixar de ser, vinda do Salvador, ela transformaria por completo a sua atitude perante o que se estava a passar no seu tribunal e, efectivamente, o que desejava era acabar rapidamente com um processo que, intrigando-o sobremaneira, não sabia como resolver. Em suma, não quis saber com clareza os fundamentos da justiça que lhe competia administrar.)


Mas, o Senhor, afirma a Pilatos que, a sua culpa, é menor que a de quem O entregou.

E quem O entregou?

Aqui, para mim, reside o mistério por esclarecer.

Modestamente creio, que o Senhor não se referia a ninguém em especial; nem a Judas nem aos Príncipes dos sacerdotes, nem aos Escribas.

Não!

O Mestre referia-se a toda a humanidade passada, presente e futura porque, na verdade, era por causa dela que ali estava.

Humanidade da qual faço parte, portanto, em última análise, o Senhor estava ali por minha causa.

Óh meu Senhor bendito!

Ajuda-me a ser merecedor do Teu sacrifício e, enquanto não To digo, face a face, aceita o meu coração humilhado e contrito por tantas faltas e omissões e a minha firme disposição de não Te ofender mais.

(ama, meditação sobre Jo 18, 1-40; 19, 1-42, 1989)