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07/05/2011

Sobre a família 44

Como acertar com a minha vida
Continuação


Naquele instante o velho entendeu tudo; e também entendeu que, agora, era demasiado tarde. 

"Ai de mim! – começou a dizer –, que horrível mal-entendido! O única coisa que consegui foi desperdiçar a minha existência, e arruinar também a tua". "Adeus, homem infeliz", respondeu simplesmente o Colombre, e submergiu nas águas para sempre.[i]

Quantas vezes fugimos do que nos traria talvez a felicidade porque não quisemos correr riscos? Não teremos trocado segurança por felicidade, uma vida cómoda por uma vida lograda? Não estaremos renunciando à oferta do grande senhor do mar, à pérola preciosa, para dar crédito a certas historias que nos contam, que estão na boca de muitos "prudentes" que "sabem da vida", pelo medo do que dirão? Não nos estará faltando audácia para ir mar adentro, para caminhar sobre as águas se compreendemos que o Senhor nos chama?

Ave, maris Stella!: Salve, Estrela do mar!, diz um antigo hino que a liturgia dedica à Virgem Maria. Se lho dizemos enquanto nos confiamos à sua protecção para que seja a luz e a segurança na nossa travessia, em que Ela está disposta a guiar-nos, que transformem o nosso temor em audácia, a nossa reticência em decisão.

juan manuel roca, in FLUVIUM, trad ama


[i] (d. buzzati, O Colombre, em Os siete mensajeros e otros relatos)

06/05/2011

Sobre a família 43

Como acertar com a minha vida

Continuação

Um dia, já velho e cansado, sentindo próxima a morte, decide por fim fazer algo valioso: afrontar aquele perigo, enfrentar-se com aquele animal que tinha visto muitas vezes, cada vez que se aproximava do mar, a certa distância da costa.
Uma noite colheu um arpão, subiu a uma pequena barca e entrou mar a dentro. Passado pouco tempo aquele focinho horrível assomou junto da barca.

"Aqui me tens, agora é assunto dos dois", disse o nosso homem; e levantou o arpão para o lançar contra o Colombre.

Mas então sucedeu algo extraordinário. O peixe começou a falar, com, com voz suplicante:
"Ah, que longo caminho para te encontrar. Também eu estou destroçado pela fadiga. Quanto me fizeste nadar! E tu fugias e fugias… porque nunca entendeste nada".

"A que te referes?", perguntou o homem, surpreendido.

"Ah! que não te segui para te devorar. O único encargo que o rei do mar me deu foi entregar-te isto". E o grande peixe tirou a língua, estendendo ao ancião uma esfera fosforescente. Ele colheu-a entre as mãos e a olhou-a. Era uma pérola de desmesurado tamanho.

Imediatamente reconheceu que aquela era a famosa pérola do mar, que dá fortuna poder, amor e paz de espírito a quem a possua.

juan manuel roca, in FLUVIUM, trad ama

05/05/2011

Sobre a família 42

Como acertar com a minha vida
Continuação

Pede-lhe, assim, que renuncie, em prol da segurança, a uma vida livre e audaz: o mar é símbolo dessa vida de amplos horizontes, que sabe de dificuldades, de perigos e mil emoções mas entusiasmante e cheio de grandeza. O resto do conto relata o êxito que este filho, ao crescer, conseguiu na sua vida em terra. Aos olhos de todos é um triunfador. 
Só ele sabe que a sua vida foi um fracasso, que no fundo da sua alma continua presente, como uma ferida aberta, a renúncia ao que deveria ter sido a sua própria vida, a que o teria feito feliz.

juan manuel roca, in FLUVIUM, trad ama

04/05/2011

Sobre a família 41

Como acertar com a minha vida

Continuação

Parece-me que vem a propósito recolher aqui uma narração breve, um relato fantástico, mas por isso mesmo muito real, porque a vida do homem, criatura de Deus, está cheia de mistério e nem sempre se pode interpretar baseando-se simplesmente em seguranças humanas.

O protagonista é o filho de um marinheiro que um dia, quando não era mais que um menino, o seu pai convida para dar um passeio de barco. Já no mar alto, de repente, o menino descobriu ao longe um enorme peixe de aspecto terrível que seguia o barco. Rapidamente chamou a atenção do seu pai. Mas seu pai não via nada e pensou que eram fantasias do seu filho. 
Todavia, numa segunda viajem, volta a acontecer o mesmo e, desta vez, o pai entende tudo. Pálido de medo, explica ao seu filho: 
"Agora temo por ti. Isso que viste é um Colombre. È o peixe que os marinheiros temem mais que a nenhum outro em todos os mares do mundo, um animal terrível e misterioso, mais astuto que o homem. Por motivos que nunca ninguém saberá escolhe a sua vítima e segue-a anos e anos, a vida inteira, até que consegue devorá-la. E o mais curioso é isto: que ninguém o pode ver se não a própria vítima ". 
"E não é uma lenda?" Perguntou o filho. 
"Não respondeu - o pai –; eu nunca o vi, mas descreveram-mo: focinho feroz, dentes espantosos... Não há dúvida, meu filho: o Colombre elegeu-te, e enquanto andes no mar não te dará tréguas. Vamos a voltar para terra e nunca mais te farás ao mar por nenhum motivo... 
Tens que resignar-te. Por outro lado, em terra também podes fazer fortuna".

juan manuel roca, in FLUVIUM, trad ama

03/05/2011

Sobre a família 40

Como acertar com a minha vida

Continuação

Toda a entrega supõe um abandono nas mãos de Deus, que são boas mãos; mas para chegar a Ele, às vezes é necessário actuar como quem dá um passo para a frente no vazio, na escuridão: sem a garantia que supõem as seguranças humanas, fiando-se só de Deus. Mas a escuridão e o vazio são só aparentes: ali está Deus esperando-nos com os braços abertos. São João da Cruz expressava-o muito bem naqueles versos que começam:

"Tras de un amoroso lance / e no de esperanza falto, / volé tan alto, tan alto / que le di a la caza alcance".

Expressa assim a saída da alma das seguranças da terra para atrever-se a voar alto, atrás do amor; e, depois de outros versos nos quais glosa essa ideia, diz:

"y por ser de amor el lance / di un ciego e oscuro salto / y fuy tan alto, tan alto/que le di a la caza alcance".

juan manuel roca, in FLUVIUM, trad ama