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24/10/2014

O Céu e o Inferno

Acerca do Céu e do Inferno, João Paulo I contava a seguinte história: Um homem apresenta-se a S. Pedro para conhecer o seu destino eterno. Consultado o livro da vida S. Pedro diz-Lhe que mereceu o Céu e indica-Lhe o caminho: Segues por esse corredor e, lá ao fundo, a porta da direita dar-te-á acesso ao Céu.
Contentíssimo porque naturalmente seguro de ter conquistado o Céu, o homem atreve-se a pedir a S. Pedro que o deixe satisfazer a sua curiosidade e, ao menos por breves momentos, ver o Inferno.
- Bom, diz-Lhe S. Pedro, no mesmo corredor, lá ao fundo, mas a porta da esquerda.
E o homem assim fez e, pela porta entreaberta, viu uma enorme sala, na qual havia uma mesa onde estavam dispostas iguarias e manjares dos mais suculentos e apetitosos e uma multidão sentada à mesa, mas, tudo isto num enorme caos e indescritível confusão.
Munidos de colheres enormes as pessoas tentavam desesperadamente saciar a sua fome mas, dadas as dimensões das colheres, não conseguiam levar à boca nem o mais pequeno pedaço de comida que se espalhava a toda a volta. Eram visíveis o desespero e a frustração mais completas e as discussões e querelas violentas que estalavam por todo o lado.
Fechada a porta, abriu então a que lhe estava indicada e entrou resolutamente no seu destino eterno. A surpresa foi grande, porque, a enormíssima sala era exactamente igual à outra, tal como a mesa e as iguarias nela dispostas, bem como as enormes colheres. Mas ao invés da outra, aqui havia uma paz e uma tranquilidade absolutas. É que, cada uma das pessoas sentadas à mesa, munida da sua gigantesca colher, alimentava a pessoa em frente de si, do outro lado da mesa.
(P. jorge margarido correia Notas num Retiro Enxomil 2005.04.15)

16/04/2014

Temas para meditar 77

Próximo



O meu próximo toma consciência que Deus o ama por causa da forma como eu o trato?



(P. jorge margarido correia, numa recolecção, 2013)

15/05/2012

O MILAGRE DE FÁTIMA


Não me refiro a nenhum fenómeno atmosférico actual ou passado. Muito menos estou a falar de um eventual 4º segredo comunicado por Nossa Senhora aos Pastorinhos. Refiro-me a umas declarações do Comandante da GNR de Santarém, já no rescaldo da Operação Fénix 2012, montada para a peregrinação do 12 e 13 de Maio em Fátima. Disse que foi um êxito, quer na segurança rodoviária quer na prevenção criminal. E em relação a este último tema acrescentou que nada de significativo há a registar, a não ser "a entrega de dinheiro na GNR que foi encontrado por um grupo de peregrinos",

Ora aí está o grande milagre. Em época de crise, as pessoas a entregar dinheiro! E não é em nenhuma caixa registadora de nenhuma grande superfície em dias de descontos. É, espante-se, simplesmente entregar dinheiro encontrado e que não nos pertence. Uma situação que, continuando a citar o comandante militar "atesta a seriedade das pessoas que visitam Fátima". Para usar a expressão do C
ardeal Gianfranco Ravasi, na sua homilia, é preciso “sujar as mãos” não para no apropriarmos do que não é nosso ou para participar em negócios pouco transparentes, mas para ajudar os que mais necessitam. Os peregrinos de Fátima escutaram a lição e souberam tirar consequências.

Talvez seja bom lembrar as afirmações de Bento XVI hà 2 anos no avião que o trouxe a Fátima, ao falar da “crise económica, com a sua componente moral, que ninguém pode deixar de ver” e que parte de “um falso dualismo, ou seja de um positivismo económico que julga poder funcionar sem a componente ética... Por isso agora é o momento de ver que a ética não é uma coisa externa, mas interna à racionalidade e ao pragmatismo económico”.

Que não seja preciso haver um milagre dos autênticos para que todos (governantes, políticos, investidores e cidadãos comuns) levemos a sério estas palavras como o fizeram aqueles peregrinos anónimos que hoje são notícia.

Pe. Jorge Margarido Correia
Engº Mecânico. Doutor em Teologia


30/11/2011

Novíssimos – Vida Eterna 2



Acerca do Céu e do Inferno, João Paulo I contava a seguinte história: Um homem apresenta-se a S. Pedro para conhecer o seu destino eterno. Consultado o livro da vida S. Pedro diz-lhe que mereceu o Céu e indica-lhe o caminho: Segues por esse corredor e, lá ao fundo, a porta da direita dar-te-á acesso ao Céu.


Contentíssimo porque naturalmente seguro de ter conquistado o Céu, o homem atreve-se a pedir a S. Pedro que o deixe satisfazer a sua curiosidade e, ao menos por breves momentos, ver o Inferno.
- Bom, diz-lhe S. Pedro, no mesmo corredor, lá ao fundo, mas a porta da esquerda.
E o homem assim fez e, pela porta entreaberta, viu uma enorme sala, na qual havia uma mesa onde estavam dispostas iguarias e manjares dos mais suculentos e apetitosos e uma multidão sentada à mesa, mas, tudo isto num enorme caos e indescritível confusão.
Munidos de colheres enormes as pessoas tentavam desesperadamente saciar a sua fome mas, dadas as dimensões das colheres, não conseguiam levar à boca nem o mais pequeno pedaço de comida que se espalhava a toda a volta. Eram visíveis o desespero e a frustração mais completas e as discussões e querelas violentas que estalavam por todo o lado.
Fechada a porta, abriu então a que lhe estava indicada e entrou resolutamente no seu destino eterno. A surpresa foi grande, porque, a enormíssima sala era exactamente igual à outra, tal como a mesa e as iguarias nela dispostas, bem como as enormes colheres. Mas ao invés da outra, aqui havia uma paz e uma tranquilidade absolutas. É que, cada uma das pessoas sentadas à mesa, munida da sua gigantesca colher, alimentava a pessoa em frente de si, do outro lado da mesa.

(jorge margarido correia, Notas num Retiro, Enxomil 2005.04.15)


29/06/2011

Homilia, Igreja da Trindade no Porto em 27 de Junho de 2011

Missa S. Josemaria-Trindade_Porto_27_junho_2011.jpg
Igreja da Trindade

A felicidade original e a queda

            A primeira leitura que acabámos de ouvir proclamar recorda-nos como, através de uns poéticos veículos culturais, a Revelação ensinou ao homem algo fundamental: a situação criacional humana aperfeiçoa-se por meio do jardim do Éden, que tem todas as características aneladas pelo homem: materiais (árvores, rios, sombra, etc.), e espirituais (sobretudo a sabedoria). Numa palavra, a felicidade. Este é o sentido profundo do relato paradisíaco: a felicidade originária naquele estado de amizade a que Deus elevou o homem depois de o criar.
S. Josemaria Escrivá, Sacerdote, Fundador do Opus Dei cuja Festa estamos a celebrar sublinhou a este respeito duas coisas que fazem parte da mensagem que Deus lhe inspirou: o mundo foi criado por Deus com sabedoria e amor, e o homem foi criado por Deus com uma missão de uma grande dignidade nesse mundo.
E não só o homem em geral o “Adam”, mas também cada um de nós tem uma missão a cumprir no meio das circunstâncias nas quais foi colocado por Deus. Todos fomos colocados na terra para a cultivar e guardar mediante o trabalho e o cumprimento dos deveres quotidianos.
Mas não podemos esquecer que o relato da criação termina com a narração da queda dos nossos primeiros pais. Usando palavras de S. Josemaria: «Adão não quis ser um bom filho de Deus, e revoltou-se»
         Os nossos primeiros pais quiseram ser «como Deus» e desbarataram esse tesouro que era a sua amizade com Deus e pensaram que podiam ter tudo, desfrutar de tudo, egoisticamente, sem pensar nas consequências. O resultado foi a bancarrota material e espiritual.
         Mas, ao contrário de outros contextos, o Resgate da dívida soberana não veio de uma Troika que exige o pagamento até ao último Euro, custe o que custar. A Salvação veio de uma Trindade que enviou o próprio Filho para pagar por nós as consequências da nossa insensatez.
         Continuando com o texto de S. Josemaria «Deus Pai, chegada a plenitude dos tempos, enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que restabelecesse a paz; para que, redimido o homem do pecado, adoptionem filiorum reciperemus, para que recebêssemos a adopção de filhos (Gal 4, 5), fôssemos constituídos filhos de Deus, libertos do pecado, e capazes de participar na vida íntima da divina Trindade» (Cristo que Passa 65).
         S. Josemaria viveu e ensinou a viver, como fundamento da vida cristã, um confiado sentido da Filiação divina, a chamar a Deus pelo termo terno e confiado de “paizinho”, o “abbá, Pai” que lemos na 2ª Leitura, tirada da Epistola de S. Paulo aos Romanos.
            Mas se assim se gera este homem novo, se cria este novo enxerto dos filhos de Deus (cf. Rom 6, 45), se liberta a criação inteira da desordem, e restaura todas as coisas em Cristo (cf. Ef 1, 5), que nos reconciliou com Deus (cf. Col 1, 20), as consequências do pecado original deixaram as suas marcas no homem e no mundo, e os homens continuam a sentir-se tentados a acreditarem que são deuses.
Precisamente o evangelho proclamado põe-nos diante de uma dessas consequências: o trabalho pode ser infrutífero e fonte de frustrações e crises várias, a começar pelo próprio desemprego. E não só a nível pessoal, mas até a nível mundial como de certo modo estamos a assistir e a sentir especialmente na nossa sociedade. Uma noite infrutífera, as redes rotas e vazias e até um certo medo perante o futuro.

As crises mundiais são crises de santos

            S. Josemaria, convencido de que “as crises mundiais são crises de santos” (Caminho 301) foi precursor daquilo que o Concílio Vaticano II proclamou como o chamamento universal à santidade, recordando algo que, com o andar dos séculos, estava esquecido na vida da Igreja.
Como explicava o então Cardeal Ratzinger num texto sobre o Fundador do Opus Dei: «A palavra santo recebeu, com o passar do tempo, uma perigosa redução, que ainda permanece nos nossos dias. Pensamos nos santos representados nos altares, com os seus milagres e virtudes heróicas, e imaginamos que se trata de algo reservado a uns poucos eleitos, entre os que não nos podemos incluir. Tendemos a deixar a santidade para uns poucos, desconhecidos, e a contentarmo-nos em ser como somos.
«Josemaria Escrivá veio despertarmo-nos dessa apatia espiritual. Não! A santidade não é o extraordinário, mas o ordinário, o normal para cada baptizado. Não consiste em gestas de um indefinido e inalcançável heroísmo, mas tem mil formas; pode levar-se a cabo em cada estado e condição. É o corrente. Consiste em viver a vida de cada dia cara a Deus, impregnando-a com o espírito de fé» (Homilia da Missa de acção de Graças pela Beatificação, 1992).
         Assim, na resposta de Pedro ao Duc in altum de Cristo que lemos no Evangelho de hoje «Andamos na faina toda a noite e não apanhámos nada mas... sob a tua Palavra lançarei as redes», pode ser vista como o compromisso de contar com Deus nos nossos afazeres quotidianos, unir a oração, o trabalho e o apostolado numa unidade de vida coerente e forte.
E dizia também o Card. Ratzinger: «Ser santo não significa ser superior aos outros; antes, o santo pode ser muito débil, pode ter cometido tantos erros na sua vida (Aquele «Senhor, afasta-te de mim, que sou um homem pecador» ao mesmo tempo que segurava os pés de Jesus). A santidade é este contacto profundo com Deus, fazer-se amigo de Deus: é deixar agir o Outro, o Único que realmente pode fazer com que o mundo seja bom e feliz.
«Por conseguinte, se São Josemaria Escrivá fala da chamada de todos a ser santos, parece-me que, em última análise, está a aurir desta sua experiência pessoal de não ter feito sozinho coisas incríveis, mas de ter deixado agir Deus. E por isso nasceu uma renovação, uma força de bem no mundo, mesmo que todas as debilidades humanas permaneçam sempre presentes.
«Deveras todos somos capazes (Duc in altum!), todos somos chamados a abrir-nos a esta amizade com Deus, a não abandonar as mãos de Deus, a não deixar de voltar sempre de novo ao Senhor, falando com Ele como se fala com um amigo, sabendo bem que o Senhor realmente é o verdadeiro amigo de todos, mesmo de quantos não podem fazer grandes coisas sozinhos» (Artigo no L’Osservatore Romano no dia da Canonização, 2002).


A aventura de ser cristão no mundo

            Se não podemos fazer grandes coisas sozinhos, com Deus sim que podemos, mesmo que a missão dos cristãos no mundo apareça tantas vezes uma tarefa desproporcionada, uma loucura, mas... sob a tua Palavra!
«Para cumprir esta missão, Josemaria Escrivá viajou incansavelmente pelo mundo, com o desejo de infundir a todos os homens a ousadia da santidade; quer dizer, a aventura de ser cristão ali onde a vida nos colocou.
«Desta maneira Josemaria Escrivá chegou a ser um grande homem de acção, que vivia da Vontade de Deus e que chamava os homens a amar a Vontade de Deus, mas sem cair em rigorismos. Sabia que não podemos salvar-nos sozinhos, e assim como o amor pressupõe o ser amado, também a santidade necessita de outro fundamento: que Deus aceite amar-nos.
«Aventurou-se a ser “um D. Quixote de Deus”; pois então não é quixotesco ensinar no mundo de hoje a humildade, a obediência, a castidade, o desprendimento dos bens materiais, a magnanimidade? A Vontade de Deus representava para S. Josemaria a verdadeira razão das coisas, e assim esteve em condições de descobrir o razoável daquilo que aparentemente era irracional» (1992). Como Pedro perante o desafio do mestre.
«Com tudo isto compreendi melhor a fisionomia do Opus Dei, esta ligação surpreendente entre uma absoluta fidelidade à grande tradição da Igreja, à sua fé, com desarmante simplicidade, e a abertura incondicionada a todos os desafios deste mundo, quer no âmbito académico, quer no do trabalho, da economia, etc.
«Quem tem este vínculo com Deus, quem mantém este diálogo ininterrupto pode ousar responder a estes desafios, e deixa de ter medo; porque quem está nas mãos de Deus cai sempre nas mãos de Deus. É assim que desaparece o medo e nasce, ao contrário, a coragem de responder ao mundo de hoje» (2002). Duc in altum!

Peçamos a Nossa Senhora que nos ajude a saber dizer como Ela e como Pedro: faça-se segundo a Tua Palavra e que, tal como ela se lançou solícita aos caminhos da montanha para ajudar a sua prima Isabel, e Pedro se aventurou ao largo para pescar, também nós, com a intercessão de S. Josemaria, saibamos dar-nos ao serviço dos outros nos caminhos divinos da terra, omnes cum Petro, ad Iesum per Mariam!

Pe. Jorge Margarido Correia






20/05/2011

UM NOVO FILME DE ROLAND JOFFÉ: UMA LIÇÃO E UM DESAFIO

Observando
O título Encontrarás Dragões é um bom resumo de uma história 
palpitante de amor e desamor, de uma viagem onde há dragões - os demónios interiores - que assaltam homens e mulheres que procuram a esperança e o sentido da vida num mundo desconhecido, selvagem e inóspito.

Acabo de ver mais um grande filme realizado por Roland Joffé (também realizador dos “oscarizados” A Missão e Terra Sangrenta). Chama-se Encontrarás Dragões e narra a história deJosemaria e Manolo. Amigos de infância, a vida une-os e separa-os numa Espanha que se precipita paulatinamente para a Guerra Civil. Ambos partilham o sofrimento da sua revolta contra esta situação, mas vão assumi-la de modo diferente. "Nascemos e morremos sós", diz Manolo com um trágico estoicismo. "Não necessitei de aprender a perdoar, porque Deus me ensinou a amar" dirá anos mais tarde o sacerdote Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei.
Declaração de interesses: pertenço ao Opus Dei há mais de cinquenta anos, quarenta dos quais como sacerdote, e tive o privilégio de conviver quatro anos com S. Josemaria em Roma. Mas precisamente por isso, pertenço a um grupo de pessoas muito difícil de contentar neste tipo de reconstituições históricas, assim como de iconografia representativa de pessoas com quem convivemos e que tanto dos marcaram.
Ora Alain Joffé deu-me uma boa lição! Usou a ficção (especialmente na figura de Manolo e do seu filho) para poder universalizar as vivências por que foram passando e pôr-nos a todos nós a reflectir sobre o significado da vida e da morte, do ódio e do perdão, do ideal e da barbárie. Mas não manipulou a história em benefício de qualquer ideologia ou preconceito como tantas vezes assistimos por aí.
No entanto, a figura de Josemaria Escrivá, por já ter sido objecto de inúmeras investigações biográficas, diria quase exaustivas, não poderia ser facilmente ficcionável. Tinha por isso o problema de sintetizar ou condensar em imagens de um filme o original da sua vida, pensamento e acção. O que ele conseguiu de um modo genial foi usar, num enredo credível e apreensível, factos, atitudes e palavras realmente vividos.
E se a ficção era necessária para transcender o tema e as personagens, e alcançar-nos a todos, cada um com os nossos “dragões interiores” que nos desafiam, a figura de alguém que soube vencer esses “dragões” e apontar caminhos para nós vencermos, era importante que fosse real, de carne e osso para que fosse de facto lugar da esperança. É para isso mesmo que a Igreja eleva aos altares aqueles que pode por como exemplo e mestres para o nosso caminhar.
E por isso, ao dar o “Bem haja” a Roland Joffé pela lição que nos deu, gostaria de lhe lançar um desafio, a ele e à fantástica equipe que sobe formar: para quando um filme sobre João Paulo II e os dragões que ele nos animou a combater como o seu “Não tenhais medo”?

* jorge margarido correia  Engº Mecânico. Doutor em Teologia

Diário do Minho, 17.05.2011, última página