Mostrar mensagens com a etiqueta AMA - Comentários ao Evangelho Mc 3 1-6. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta AMA - Comentários ao Evangelho Mc 3 1-6. Mostrar todas as mensagens

20/01/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual




 Tempo Comum
Semana II

Evangelho: Mc 3, 1-6

1 Novamente entrou Jesus na sinagoga, e encontrava-se lá um homem que tinha uma das mãos atrofiada. 2 Observavam-n'O a ver se curaria em dia de sábado, para O acusarem. 3 Jesus disse ao homem que tinha a mão atrofiada: «Vem para o meio». 4 Depois disse-lhes: «É lícito em dia de sábado fazer bem ou fazer mal? Salvar a vida a uma pessoa ou tirá-la?». Eles, porém, calaram-se. 5 Então olhando-os com indignação, contristado da cegueira de seus corações, disse ao homem: «Estende a tua mão». Ele estendeu-a, e a mão ficou curada. 6 Mas os fariseus, retirando-se, reuniram-se logo em conselho com os herodianos contra Ele para ver como O haviam de matar.

Comentário:

Aparentemente este milagre que o Senhor faz em plena Sinagoga pode qualificar-se de um desafio ou, até, de uma provocação aos que O criticam e desconsideram.

E... porque não?

A melhor forma de combater ou dar resposta aos maldizentes talvez seja a demonstração pura e simples da verdade que se encerra em toda a actuação de Cristo.

O Evangelista não o refere expressamente mas é muito possível que muitos desses tivessem ficado "convencidos" nas suas dúvidas e tenham revisto os seus critérios.

(ama, comentário sobre MC 3 1-6, Malta, 2015.01.21)

Leitura espiritual



Vida cristã

Formar o carácter na virtude

A maturidade cristã implica tomar as rédeas da nossa vida, perguntar-nos realmente, diante de Deus, sobre o que nos falta ainda. Inicia-se então uma batalha para adquirir as virtudes, com o nosso empenho e, sobretudo, com a ajuda do Senhor.
Tendo ele saído para se pôr a caminho, veio alguém correndo e, dobrando os joelhos diante d´Ele, suplicou-Lhe: Bom Mestre, que farei para alcançar a vida eterna? [i].
Nós, discípulos do Senhor, presenciamos a cena com os Apóstolos e, talvez, nos surpreendamos com a resposta: Por que me chamas bom? Só Deus é bom [ii] Jesus não dá uma resposta directa. Com suave pedagogia divina, quer dirigir aquele jovem para o sentido último das suas aspirações: «Jesus mostra que a pergunta do jovem é, na verdade, uma pergunta religiosa, e que a bondade que atrai e simultaneamente vincula o homem, tem a sua fonte em Deus, mais, é o próprio Deus, o único que é digno de ser amado "com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente"» [iii]

Para entrar na Vida

O Senhor volta, em seguida, às palavras daquela consulta audaz: que devo fazer? Se queres entrar na vida – responde − observa os mandamentos [iv].
Tal como o apresentam os Evangelhos, o jovem é um judeu piedoso que poderia ter ficado satisfeito com esta resposta; o Mestre confirmou-o nas suas convicções, pois descreve-lhe os mandamentos que tem vivido desde a sua adolescência [v]. No entanto, quer ouvi-los da boca deste novo Rabi que ensina com autoridade. Intui, e não se equivoca, que pode abrir-lhe horizontes insuspeitados. Pergunta: Quais? [vi], Jesus recorda-lhe os deveres que têm a ver com o próximo: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, amarás o teu próximo como a ti mesmo [vii]. São os preceitos – a chamada segunda tábua – que protegem «o bem da pessoa, imagem de Deus, mediante a proteção dos seus bens» [viii]. Constituem a primeira etapa, o caminho para a liberdade, não a liberdade perfeita, como afirma Santo Agostinho [ix]; dito de outro modo, são um primeiro passo no caminho do amor, mas ainda não o amor amadurecido, plenamente satisfeito.

Que me falta ainda?

O jovem conhece e vive aqueles preceitos, mas algo no seu interior lhe pede mais; tem que haver – pensa − algo mais que possa fazer. Jesus lê no seu coração: fixou nele o olhar, sentiu afeição por ele [x]. E lança-lhe o desafio da sua vida:
Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me [xi].
Jesus Cristo pôs aquele homem perante a sua consciência, perante a sua liberdade, perante o seu desejo de ser melhor. Nós não sabemos em que medida entendeu o convite do Mestre, embora pela sua própria pergunta − que me falta ainda? − pareça que ele esperava outras "coisas para fazer". As suas disposições são boas, embora talvez ainda não tivesse compreendido a necessidade de interiorizar o sentido dos mandamentos do Senhor.

A vida, para a qual Deus chama, não consiste unicamente em fazer coisas boas, mas em "ser bons", virtuosos. Como costumava concretizar S. Josemaria [xii], não basta ser bondadosos, mas bons, de acordo com o panorama imenso − só Deus é bom [xiii] - que Jesus abre diante de nós.

A maturidade cristã implica tomar as rédeas da nossa vida, perguntar-nos realmente, diante de Deus, o que nos falta ainda. Obriga-nos a sair do refúgio confortável de quem é um cumpridor da lei para descobrir que o que conta é seguir Jesus, apesar dos próprios erros. Deixamos então que os seus ensinamentos transformem o nosso modo de pensar e de sentir. Experimentamos que o nosso coração, antes pequeno e estreito, dilata-se com a liberdade que Deus nele colocou: correrei pelo caminho dos vossos mandamentos, porque sois Vós que dilatais o meu coração. [xiv]

O desafio da formação moral

O jovem não esperava que "o que lhe faltava" fosse precisamente pôr a sua vida aos pés de Deus e dos outros, perdendo a segurança de ser cumpridor. E retirou-se triste, como sucede a todo aquele que prefere seguir apenas o seu próprio itinerário, em vez de deixar que Deus o guie e o surpreenda.
Deus chamou-nos para viver com a Sua liberdade - hac libertate nos Christus liberavit [xv] - e, no fundo, o nosso coração não se conforma com menos.

Amadurecer, é aprender a viver de acordo com uns ideais elevados. Não se trata simplesmente de conhecer uns preceitos ou de adquirir uma visão cada vez mais aperfeiçoada das repercussões dos nossos atos. Decidir-se a ser bons – santos, em última análise – supõe identificar-se com Cristo, sabendo descobrir as razões do estilo de vida que Ele nos propõe. Implica, portanto, saber o significado das normas morais, que nos ensinam a que bens precisamos de aspirar, como devemos viver para alcançar uma existência plena. E isto consegue-se incorporando no nosso modo de ser as virtudes cristãs.

Os pilares do carácter

O saber moral não é um discurso abstracto, nem uma técnica.
A formação da consciência requer um fortalecimento do carácter que se apoia nas virtudes como seus pilares. Estas são a base da personalidade, estabilizam-na, transmitem-lhe equilíbrio. Fazem-nos capazes de sair de nós mesmos, do egocentrismo, e direccionar o foco dos nossos interesses para fora de nós próprios, para Deus e para os outros. A pessoa virtuosa está centrada, é ponderada em tudo, é recta, íntegra, de uma só peça.
Por sua vez, aquele que carece de virtudes, dificilmente será capaz de empreender grandes projetos ou de dar forma aos grandes ideais. A sua vida estará feita de improvisos e oscilações, de modo que não será fiável, nem sequer para si mesmo.

Fomentar as virtudes expande a nossa liberdade. Não tem nada a ver a virtude com a habituação ou com a rotina. Desde logo, para que ganhe raízes um hábito operativo bom, para que cristalize no nosso modo de ser e nos leve a fazer o bem com mais facilidade, não basta uma única acção. A repetição sucessiva, ajuda a que se estabilizem os hábitos: faz-nos bons sendo bons. Repetir a resolução de pôr-se a estudar a uma hora, por exemplo, faz com que a segunda vez nos custe menos do que a primeira, e a terceira um pouco menos do que a segunda..., mas deve-se perseverar na determinação de pôr-se a estudar para manter o hábito de estudo, porque de outro modo perde-se.

A renovação do espírito

As virtudes humanas e sobrenaturais, orientam-nos para o bem, para aquilo que preenche as nossas aspirações. Ajudam-nos a alcançar a autêntica felicidade, que consiste em unir-se a Deus: a vida eterna consiste em que conheçam a Ti, um só Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo que enviaste [xvi]. Dão facilidade para agir de acordo com os preceitos morais, que já não se veem apenas como normas a cumprir, mas como um caminho que conduz à perfeição cristã, à identificação com Jesus Cristo, de acordo com o estilo de vida das bem-aventuranças, que são como que o retrato do Seu rosto e «referem-se a atitudes e disposições de fundo da existência» [xvii] que conduzem à vida eterna.

Abre-se, então, um caminho de crescimento na vida cristã, segundo as palavras de S. Paulo: transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito [xviii].
A graça transforma o modo como julgamos os diferentes acontecimentos, e dá-nos novos critérios para atuar. Progressivamente, aprendemos a ajustar o nosso modo de ver as coisas com a vontade de Deus, que também se expressa na lei moral, de modo que amamos o bem, a vida santa, e gostamos do que é bom, Lhe agrada e é perfeito [xix]. Alcança-se a maturidade moral e afectiva, do ponto de vista cristão, que leva a apreciar facilmente o que é verdadeiramente nobre, verdadeiro, justo e bonito, e a rejeitar o pecado, que ofende a dignidade dos filhos de Deus.

Este caminho leva a formar, como dizia S. Josemaria, uma «alma de critério» [xx]. Mas quais são as características deste critério? Noutro momento, ele acrescentava: «o critério pressupõe maturidade, firmeza de convicções, conhecimento suficiente da doutrina, delicadeza de espírito, educação da vontade» [xxi].
Que grande retrato da personalidade cristã: uma maturidade que nos ajuda a tomar decisões, com liberdade interior, e a torná-las próprias, isto é, com a responsabilidade de quem sabe dar conta delas; umas convicções fortes e seguras, baseadas num conhecimento profundo da doutrina cristã que alcançamos através de aulas ou palestras de formação, de leituras, da reflexão e, especialmente, do exemplo de outros, pois as «verdadeiras estrelas da nossa vida são as pessoas que souberam viver com retidão» [xxii]. Isto relaciona-se com a delicadeza de espírito, que se traduz na amabilidade para com os outros e na educação da vontade que se decide a levar uma vida virtuosa. Uma alma de critério, portanto, sabe perguntar-se nas diferentes circunstâncias: que espera Deus de mim?
Pede luzes ao Espírito Santo, recorre aos princípios que assimilou, aconselha-se com quem pode ajudar, e sabe atuar em conformidade.

Fruto do amor

Assim entendido, o comportamento moral − que se concretiza em viver os mandamentos com a força da virtude − é fruto do amor, que nos compromete com a procura e a promoção do bem. Um amor assim, vai além do sentimento, que pela sua própria natureza é flutuante e efémero: não depende dos estados de ânimo do momento, do que me apetece, ou do quer me agradaria numa determinada circunstância.
Pelo contrário, amar e ser amado pressupõe um dar-se, que se baseia no atractivo que originam no coração o saber-se amado por Deus e aqueles grandes ideais pelos quais vale a pena penhorar a liberdade: «na entrega voluntária, em cada instante dessa dedicação, a liberdade renova o amor e renovar-se é ser continuamente jovem, generoso, capaz de grandes ideais e de grandes sacrifícios» [xxiii]

A perfeição cristã não se limita ao cumprimento de umas normas, nem ao desenvolvimento isolado de capacidades como o autocontrole ou a eficiência. Impulsiona, em vez disso, entregar a liberdade ao Senhor, para responder ao Seu convite: vem e segue-Me [xxiv], com a ajuda da Sua graça.
Trata-se de viver segundo o Espírito [xxv], movidos pela caridade, de modo que se deseja servir os outros, e compreende-se que a lei de Deus é a via privilegiada para realizar esse amor livremente escolhido.
Não é questão de cumprir umas regras, mas de aderir a Jesus, de compartilhar a Sua vida e o Seu destino, obedecendo à vontade do Pai.

Sem ser perfeccionistas

Este esforço para crescer nas virtudes é alheio a qualquer afã narcisista de perfeição.
Lutamos por amor ao nosso Pai Deus e é n'Ele que temos fixo o olhar e não em nós mesmos. Convém, portanto, rejeitar a tendência para o perfeccionismo, que poderia talvez surgir, se planeássemos erroneamente a nossa luta interior de acordo com uns critérios de eficácia, rigor, rendimento..., muito em voga nalguns contextos profissionais, mas que descaracterizam a vida moral cristã.
A santidade consiste principalmente em amar a Deus.

Na verdade, a maturidade leva a harmonizar o desejo de actuar bem, com as limitações reais que experimentamos em nós mesmos e nos outros. Às vezes, podemos ter vontade de dizer com São Paulo: não entendo, absolutamente, o que faço, pois não faço o que quero; faço o que aborreço (...) Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte? [xxvi].
No entanto, não perderemos a paz, porque Deus nos diz o mesmo que ao Apóstolo: basta-te a Minha graça [xxvii].
Enchemo-nos de agradecimento e esperança, porque o Senhor conta com as nossas limitações, desde que nos incentivem a converter-nos e a recorrer à Sua ajuda.

Mais uma vez, o cristão encontra um ponto de apoio na primeira resposta de Jesus ao jovem: só Deus é bom [xxviii].
Da bondade de Deus vivemos os seus filhos. Ele dá-nos a força para orientar toda a nossa vida para o que é verdadeiramente valioso, de compreender o que é bom e querê-lo, de dispor de nós mesmos com vista à missão que Ele nos confiou.

j.m. barrio ‒ r. valdés

(Revisão da versão portuguesa por ama)




[i] Mc 10, 17.
[ii] Mc 10, 18.
[iii] S. João Paulo II, Enc. Veritatis splendor (6-VIII-1993), n. 9. Cfr. Mt 22, 37.
[iv] Mt 19, 17.
[v] Cfr. Mc 10, 20.
[vi] Mt 19, 18.
[vii] Mt 19, 18-19.
[viii] S. João Paulo II, Enc. Veritatis splendor, n. 13.
[ix] Cfr. In Ioannis Evangelium Tractatus, 41, 9-10 (cit. em Veritatis splendor, n. 13).
[x] Mc 10, 21.
[xi] Mc 10, 21.
[xii] Cfr. S. Josemaria, Caminho, n. 337.
[xiii] Mt 19, 17.
[xiv] Sl 118 (119), 32.
[xv] Gl 5, 1.
[xvi] Jo 17, 3.
[xvii] S. João Paulo II, Enc. Veritatis splendor, n. 16.
[xviii] Rm 12, 2.
[xix] Rm 12, 2.
[xx] S. Josemaria, Caminho, Ao leitor.
[xxi] S. Josemaria, Temas actuais do cristianismo, n. 93.
[xxii] Bento XVI, Enc. Spe salvi (30-XI-2007), n. 49.
[xxiii] S. Josemaria, Amigos de Deus, n. 31.
[xxiv] Mc 10, 21.
[xxv] Cfr. Gl 5, 16.
[xxvi] Rm 7, 15.24.
[xxvii] 2 Cor 12, 9.
[xxviii] Mt 19, 17.

21/01/2015

Ev. diário L. Esp. (Temas actuais do cristianismo)

Tempo Comum II Semana

Evangelho: Mc 3 1-6

1 Novamente entrou Jesus na sinagoga, e encontrava-se lá um homem que tinha uma das mãos atrofiada. 2 Observavam-n'O a ver se curaria em dia de sábado, para O acusarem. 3 Jesus disse ao homem que tinha a mão atrofiada: «Vem para o meio». 4 Depois disse-lhes: «É lícito em dia de sábado fazer bem ou fazer mal? Salvar a vida a uma pessoa ou tirá-la?». Eles, porém, calaram-se. 5 Então olhando-os com indignação, contristado da cegueira de seus corações, disse ao homem: «Estende a tua mão». Ele estendeu-a, e a mão ficou curada. 6 Mas os fariseus, retirando-se, reuniram-se logo em conselho com os herodianos contra Ele para ver como O haviam de matar.
Comentário: 

Tudo indica que este milagre de Jesus Cristo não acontece adrede. É muito possível que o homem com a mão atrofiada tivesse ido à sinagoga, talvez levado por algum amigo, na esperança de ser curado.

Isto pode inferir-se pela descrição de São Marcos sobre a expectativa dos que esperavam para «ver se curaria em dia de sábado» e, também, porque é Jesus quem se dirige ao homem e não este que O procura.

Seja como for, Jesus Cristo demonstra, uma vez mais que não se detém por medo ou receio ou que não dispensa qualquer ocasião para fazer o que acha oportuno e conveniente para mover os corações a acreditarem nele.

A simplicidade da descrição do acontecimento não ilude o portentoso milagre: À Sua palavra o homem, levanta-se, vai para o meio da assembleia e estende a mão!

De  facto, ter sido curado foi o prémio de ter obedecido sem titubear no Senhor. 

(ama, comentário sobre Mc 3, 1-6, 2014.01.22)


Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Temas actuais do cristianismo [i]

28             
Tendo em consideração que há sócios do Opus Dei nos mais diversos estratos da sociedade e que alguns desses sócios dirigem ou trabalham em empresas ou sociedades de certa importância, poderá pensar-se que o Opus Dei pretenda coordenar essas actividades segundo as directrizes de alguma linha política, económica, etc?

De maneira nenhuma. O Opus Dei não intervém para nada em política; é absolutamente alheio a qualquer tendência, grupo, ou regime político, económico, cultural ou ideológico. Os seus fins - repito - são exclusivamente espirituais e apostólicos. Apenas exige dos seus membros que vivam como cristãos, que se esforcem por ajustar as suas vidas ao ideal evangélico. Não se intromete, portanto, de nenhuma maneira nas questões temporais.

Se alguém não entender isto, talvez seja porque não entende a liberdade pessoal, ou por não ser capaz de distinguir entre os fins exclusivamente espirituais para que os sócios da Obra se associam, e o campo vastíssimo das actividades humanas - a economia, a política, a cultura, a arte, a filosofia, etc. - nas quais os sócios do Opus Dei gozam de plena liberdade e trabalham sob a sua própria responsabilidade.

Desde os primeiros contactos com a Obra, todos os sócios conhecem bem a realidade da sua liberdade individual, de modo que, se em qualquer momento algum deles pretendesse fazer pressão sobre os outros impondo as suas opiniões pessoais em matéria política, ou se servisse deles para interesses meramente humanos, os outros rebelar-se-iam e expulsá-lo-iam imediatamente.

O respeito da liberdade dos seus sócios é condição essencial para a própria existência do Opus Dei. Sem isso, a Obra não teria ninguém. Mais ainda: se alguma vez se desse - não sucedeu, não sucede e, com a ajuda de Deus, nunca sucederá - uma intromissão do Opus Dei na política ou em algum outro campo das actividades humanas, o inimigo número um da Obra seria eu próprio.

29             
A Associação insiste na liberdade dos seus sócios para exprimir as convicções que nobremente defendem. Se encararmos, no entanto, o tema numa outra perspectiva, até que ponto pensa V. Rev.ª que estará o Opus Dei, como associação, moralmente obrigado a exprimir, em público ou em privado, opiniões sobre problemas nevrálgicos, quer seculares quer espirituais? Haverá situações em que o Opus Dei exerça a sua influência e a dos seus sócios, em defesa de princípios que considere sagrados, como, num exemplo recente, para apoiar a legislação sobre liberdade religiosa em Espanha?

No Opus Dei, procuramos, sempre e em tudo, sentir com a Igreja de Cristo: não temos outra doutrina senão a que a Igreja ensina a todos os fiéis. A única coisa que nos é peculiar é que temos um espírito próprio, característico do Opus Dei; a saber, um modo concreto de viver o Evangelho, santificando-nos no mundo e fazendo apostolado com a profissão.

Daí resulta directamente que todos os sócios do Opus Dei têm a mesma liberdade que os outros católicos para formarem as suas opiniões e para actuarem em coerência com elas. Por isso o Opus Dei como tal não deve nem pode exprimir uma opinião própria, nem a pode ter. Se se trata de uma questão sobre a qual há doutrina definida pela Igreja, a opinião de cada um dos membros da Obra será essa. Se, pelo contrário, se trata de uma questão sobre a qual o Magistério - o Papa e os Bispos - não se pronunciou, cada um dos sócios do Opus Dei terá e defenderá livremente a opinião que lhe pareça melhor, e actuará de acordo com isso.

Por outras palavras, o princípio que regula a atitude dos directores do Opus Dei neste campo é o do respeito da liberdade de opção no temporal. O que é muito diferente do abstencionismo, pois cada membro da Obra é colocado diante das suas próprias responsabilidades e convidado a assumi-las de acordo com a sua consciência, agindo em liberdade. Por isso mesmo é incongruente falar do Opus Dei quando se trata de partidos, grupos ou tendências políticas, ou, em geral, de tarefas e empreendimentos humanos. Mais ainda: é injusto e quase calunioso, visto poder induzir ao erro de deduzir falsamente que os membros da Obra têm, em comum, alguma ideologia, mentalidade ou interesse temporal.

Certamente que os sócios da Obra são católicos, e católicos que procuram ser consequentes com a sua fé. Podem ser classificados como católicos, se se quiser. Mas tendo em conta que o facto de ser católico não significa formar grupo, nem mesmo no terreno cultural ou ideológico, e, com razão maior, no político. Desde o princípio da Obra - não só depois do Concílio - se tem procurado viver um catolicismo aberto, que defende a legítima liberdade das consciências, que leva a tratar com caridade fraterna todos os homens, católicos ou não, e a colaborar com todos, participando dos diversos ideais nobres que movem a humanidade.

Consideremos um exemplo. Em face do problema racial nos Estados Unidos, cada um dos sócios do Opus Dei terá em conta os claros ensinamentos da doutrina cristã sobre a igualdade de todos os homens e sobre a injustiça de qualquer discriminação. Também há-de conhecer as indicações concretas dos Bispos norte-americanos sobre este problema e sentir-se-á instado por elas. Defenderá, pois, os legítimos direitos de todos os cidadãos e opor-se-á a qualquer situação ou projecto discriminatório. Terá também em conta que, para um cristão, não basta respeitar os direitos dos outros, mas em qualquer homem se deve ver um irmão, a quem é devido um amor sincero e um serviço desinteressado.

Na formação que o Opus Dei dá aos seus sócios, insistir-se-á mais nestas ideias no vosso País do que em outros onde esse problema concreto não se apresenta ou se apresenta com menor urgência. O que o Opus Dei nunca fará é ditar, ou sugerir sequer, uma solução concreta para o problema. A decisão de apoiar, este ou aquele projecto de lei, de inscrever-se numa associação ou noutra associação, ou em nenhuma, de participar ou não participar em determinada manifestação, é coisa que fica à decisão de cada um dos sócios. E, de facto, em toda a parte se vê que os sócios do Opus Dei não actuam em bloco, mas com um natural pluralismo.

Estes mesmos critérios explicam o facto de tantos espanhóis que pertencem ao Opus Dei serem favoráveis ao projecto de lei sobre a liberdade religiosa no seu país, tal como foi recentemente redigido. Trata-se, como é óbvio, de uma opção pessoal, como pessoal é também a opinião de quem critique esse projecto. Todos, porém, aprenderam com o espírito da Obra a amar a liberdade e a compreender os homens de todas as crenças. O Opus Dei é a primeira associação católica que, desde 1950, com autorização da Santa Sé, admite como cooperadores os não-católicos e os não-cristãos, sem discriminação alguma, com amor por todos.

30             
É claro que V. Rev.ª não ignora que, em certos sectores da opinião pública, o Opus Dei tem fama de ser de certo modo discutido. Poderia dar-me a sua opinião sobre a origem deste facto, e, em especial, dizer-me como se pode responder à acusação sobre “o segredo de conspiração” e “a secreta conspiração”, que frequentemente se faz ao Opus Dei?

lncomoda-me profundamente tudo o que possa ter um tom de auto-elogio. Mas, já que V. me propõe este tema, não posso deixar de lhe dizer que me parece que o Opus Dei é uma das organizações católicas que mais amigos conta no mundo inteiro. Milhões de pessoas, incluindo muitos não-católicos e não-cristãos, a estimam e ajudam.

Por outro lado, o Opus Dei é urna organização espiritual e apostólica. Quem esquecer este facto fundamental, ou se negar a acreditar na boa-fé dos sócios da Obra que assim o afirmam, não poderá entender o que estes fazem. Ora, na impossibilidade de compreender, inventam-se versões complicadas e segredos que nunca existiram.

Refere-se à acusação de segredo. É história já antiga. Poderia dizer-lhe, ponto por ponto, qual a origem histórica dessa acusação caluniosa. Durante muitos anos, uma poderosa organização, da qual prefiro não falar (amamo-la e sempre a amámos), entreteve-se a falsear o que não conhecia. Insistiam em considerar-nos como religiosos e interrogavam-se: por que não pensam todos da mesma maneira? Por que não usam hábito ou distintivo? E, ilogicamente, concluíam que constituíamos uma sociedade secreta.

Hoje, isso passou, e qualquer pessoa medianamente informada sabe que não há segredo nenhum. Sabe que não usamos distintivo porque não somos religiosos, mas cristãos como quaisquer outros. Que não pensamos da mesma maneira, porque admitimos o máximo pluralismo em tudo quanto é temporal e nas questões teológicas opináveis. O melhor conhecimento da realidade e a superação de infundados ciúmes permitiram que se encerrasse essa triste e caluniosa situação.

No entanto, não se estranhe que, de vez em quando, alguém renove os velhos mitos: porque procuramos trabalhar por Deus, defendendo a liberdade pessoal de todos os homens, sempre havemos de ter contra nós os sectários, inimigos dessa liberdade pessoal, sejam de que campo forem, e tanto mais agressivos quanto mais se tratar de pessoas incapazes de suportar a simples ideia de religião, ou, pior ainda, se se apoiarem num pensamento religioso de tipo fanático.

Apesar de tudo, são, felizmente, em maior número as publicações que não se contentam com repetir coisas velhas e falsas, e que têm clara consciência de que ser imparcial não é difundir uma coisa que fique a meio caminho entre a realidade objectiva e a calúnia, sem um esforço por reflectir a verdade objectiva. Por mim, penso que também é notícia dizer a verdade, especialmente quando se trata de informar sobre a actividade de tantas pessoas que, pertencendo ao Opus Dei ou colaborando com ele, se esforçam, apesar dos erros pessoais (assim como eu erro, não me espanto de que os outros errem), por realizar uma tarefa de serviço a todos os homens. Desfazer um falso mito é sempre interessante. Considero que é um grave dever do jornalista documentar-se bem e manter actualizada a sua informação, embora, algumas vezes, isso implique modificar os juízos anteriormente feitos. Será assim tão difícil admitir que alguma coisa seja límpida, nobre e boa, sem misturar absurdas, velhas e desacreditadas falsidades?

Informar-se sobre o Opus Dei é bem simples. Em todos os países a Obra trabalha à luz do dia, juridicamente reconhecida pelas autoridades civis e eclesiásticas. São perfeitamente conhecidos os nomes dos seus directores e das suas obras apostólicas. Quem quer que deseje informações sobre a nossa Obra pode obtê-las sem dificuldade, pondo-se em contacto com os seus directores ou visitando alguma das nossas obras próprias. O meu amigo, se quiser, pode ser testemunha de que nunca nenhum dos dirigentes do Opus Dei, ou os que recebem os jornalistas, deixaram de lhes facilitar a tarefa informativa, respondendo às suas perguntas ou dando a documentação adequada.

Nem eu nem nenhum dos membros do Opus Dei pretendemos que toda a gente nos compreenda ou compartilhe connosco os mesmos ideais espirituais. Sou muito amigo da liberdade e gosto muito de que cada um siga o seu próprio caminho. Mas é evidente que temos o direito elementar de ser respeitados.

31             
Como explica o imenso êxito do Opus Dei, e por que critérios mede V. Rev.ª esse êxito?

Quando um empreendimento é sobrenatural, pouco importam o êxito ou o fracasso como vulgarmente se consideram. Já dizia S. Paulo aos cristãos de Corinto que, na vida espiritual, o que interessa não é o juízo dos outros, nem o nosso próprio juízo, mas o juízo de Deus.

É certo que a Obra está hoje estendida a todo o mundo: pertencem a ela homens e mulheres de cerca de 70 nacionalidades. Ao pensar neste facto, eu mesmo me surpreendo. Não lhe encontro explicação humana, mas sim a vontade de Deus, pois o Espírito sopra onde quer, e serve-Se de quem quer para realizar a santificação dos homens. Tudo isso é para mim ocasião de acção de graças, de humildade e de súplica a Deus para saber sempre servi-Lo.

Pergunta-me também qual o critério com que meço e ajuízo as coisas. A resposta é muito simples: santidade, frutos de santidade.

O apostolado mais importante do Opus Dei é aquele que cada um dos seus sócios realiza através do testemunho da sua vida e com a sua palavra, no convívio diário com os amigos e companheiros de profissão. Quem poderá medir a eficácia sobrenatural deste apostolado silencioso e humilde? É incalculável a ajuda que representa o exemplo de um amigo leal e sincero, ou a influência de uma boa mãe no seio da família.

Mas talvez a sua pergunta se refira aos apostolados da Obra como tal, supondo que, neste caso, se poderão medir os resultados sob um ponto de vista humano, técnico: se uma escola de formação de operários consegue promover socialmente os homens que a frequentam; se uma Universidade dá aos seus estudantes uma formação profissional e cultural adequadas. Se admitirmos que é esse o sentido da sua pergunta, dir-lhe-ei que o resultado se pode explicar em parte por se tratar de tarefas realizadas por pessoas que exercem esse trabalho como uma actividade profissional específica, para a qual se preparam como todo aquele que deseja executar um trabalho sério. Quer isto dizer, entre outras coisas, que essas obras não se lançam segundo esquemas preconcebidos: caso por caso, estudam-se as necessidades particulares da sociedade em que se vão inserir, para se adaptarem às exigências reais.

Repito-lhe que ao Opus Dei não interessa primordialmente a eficácia humana. O êxito ou o fracasso real desses trabalhos depende de que, estando humanamente bem feitos, sirvam ou não sirvam para que aqueles que os realizam, e também os que deles beneficiam, amem a Deus, se sintam irmãos de todos os outros homens e manifestem estes sentimentos num serviço desinteressado à humanidade.

(cont)










[i] Entrevista realizada por Peter Forbarth, correspondente de Time (New York), em 15 de Abril de 1967.