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21/10/2016

Evangelho e comentário


Tempo Comum

Evangelho: Lc 12, 54-59

54 Dizia também às multidões: «Quando vós vedes uma nuvem levantar-se no poente, logo dizeis: Aí vem chuva; e assim sucede. 55 E quando sentis soprar o vento do sul, dizeis: Haverá calor; e assim sucede. 56 Hipócritas, sabeis distinguir os aspectos da terra e do céu; como, pois, não sabeis reconhecer o tempo presente? 57 E porque não discernis também por vós mesmos o que é justo? 58 Quando, pois, fores com o teu adversário ao magistrado, faz o possível por fazer as pazes com ele pelo caminho, para que não suceda que te leve ao juiz, e o juiz te entregue ao guarda, e o guarda te meta na cadeia. 59 Digo-te que não sairás de lá, enquanto não pagares até o último centavo».


Comentário:

Além de um conselho que qualquer um reconhecerá como prático - acertar as dívidas antes de o credor perder a paciência - o que o Senhor, mais uma vez, nos recomenda é que não adiemos a preparação para o inevitável momento do nosso encontro com Ele às portas da Eternidade.

Estar atentos, vigiar, "acertar as contas", enquanto é tempo.

Qual tempo?

Hoje, agora mesmo, é o tempo que temos como seguro.

Outro tempo ou já passou e não interessa ou não sabemos se virá e, portanto, não convém arriscar.

(ama, comentário sobre Lc 12, 54-58, 2010.11.21)







23/10/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo comum XXIX Semana


Evangelho: Lc 12, 54-59

54 Dizia também às multidões: «Quando vós vedes uma nuvem levantar-se no poente, logo dizeis: Aí vem chuva; e assim sucede. 55 E quando sentis soprar o vento do sul, dizeis: Haverá calor; e assim sucede. 56 Hipócritas, sabeis distinguir os aspectos da terra e do céu; como, pois, não sabeis reconhecer o tempo presente? 57 E porque não discernis também por vós mesmos o que é justo? 58 Quando, pois, fores com o teu adversário ao magistrado, faz o possível por fazer as pazes com ele pelo caminho, para que não suceda que te leve ao juiz, e o juiz te entregue ao guarda, e o guarda te meta na cadeia. 59 Digo-te que não sairás de lá, enquanto não pagares até o último centavo».

Comentário:

O tema da justiça é, para Jesus, uma constante na Sua pregação. Com efeito, dadas as circunstâncias da época, aqueles que tinham por obrigação guiar o Povo de Deus pelo caminho certo, esquivavam-se eles próprios, não poucas vezes, a praticar o que ensinavam.
A justiça é uma virtude indispensável a cada um para consigo próprio e de cada um para com os outros.
Ser justo – como se chamava aos santos no Antigo Testamento – é principalmente ter uma unidade de vida correspondente à responsabilidade que se tem.
Quanto mais responsabilidade, mais justo se deve ser.
Temos, na Doutrina da Igreja, todos os auxílios necessários para praticar a justiça, conhecer a Doutrina, é pois, essencial para cumprir os Mandamentos da Lei de Deus, eles próprios, emanação da Justiça Soberana de Deus.

(ama, comentário sobre Lc 12, 54-58, Maio de 2009)


Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá




Temas actuais do cristianismo

67 (cont)

Como consequência do fim exclusivamente divino da Obra, o seu espírito é um espírito de liberdade, de amor à liberdade pessoal de todos os homens.
E como esse amor à liberdade é sincero e não um mero enunciado teórico, amamos a necessária consequência da liberdade: quer dizer, o pluralismo.
No Opus Dei, o pluralismo é querido e amado, não simplesmente tolerado, e de modo algum dificultado.
Quando observo entre os sócios da Obra tantas ideias diversas, tantas atitudes distintas - a respeito das questões políticas económicas, sociais ou artísticas, etc. - esse espectáculo dá-me muita alegria, porque é sinal de que tudo funciona diante de Deus como deve ser.

Unidade espiritual e variedade nas coisas temporais são compatíveis quando não reina o fanatismo e a intolerância e, sobretudo, quando se vive de fé e se sabe que nós, os homens, estamos unidos não por meros laços de simpatia ou de interesse, mas pela acção de um mesmo Espírito, que, fazendo-nos irmãos de Cristo, nos conduz a Deus Pai.

Um verdadeiro cristão nunca pensa que a unidade na fé, a fidelidade ao Magistério e à Tradição da Igreja e a preocupação por fazer chegar aos outros o anúncio salvador de Cristo, estejam em contraste com a variedade de atitudes nas coisas que Deus deixou, como se costuma dizer, à livre discussão dos homens.
Mais, tem plena consciência de que essa variedade faz parte do plano divino, é querida por Deus, que distribui os seus dons e as suas luzes como quer.
O cristão deve amar os outros e portanto respeitar as opiniões contrárias às suas e conviver com plena fraternidade com aqueles que pensam de outro modo.

Precisamente porque os sócios da Obra se formaram segundo este espírito, é impossível que alguém pense aproveitar-se do facto de pertencer ao Opus Dei para conseguir vantagens pessoais, ou para tentar impor aos outros opções políticas ou culturais: porque os outras não lho tolerariam e o levariam a mudar de atitude ou a deixar a Obra.
Este é um ponto no qual ninguém no Opus Dei poderá permitir nunca o menor desvio, porque deve defender não só a sua liberdade pessoal como também a natureza sobrenatural da actividade a que se entregou.
Penso, por isso, que a liberdade e a responsabilidade pessoais são a melhor garantia da finalidade sobrenatural da Obra de Deus.

58             

pergunta:

O Opus Dei ocupa um papel de primeiro plano no processo moderno de evolução do laicado; por isso gostaríamos de lhe perguntar, antes de mais nada, quais são, na sua opinião, as características mais notáveis deste processo.

resposta:

Sempre pensei que a característica fundamental do processo de evolução do laicado é a consciencialização da dignidade da vocação cristã.
A chamada de Deus, o carácter baptismal e a graça, fazem com que cada cristão possa e deva encarnar plenamente a fé.
Cada cristão deve ser alter Christus, ipse Christus, presente entre os homens.
O Santo Padre disse-o de maneira inequívoca: “É necessário voltar a dar toda a importância ao facto de ter recebido o sagrado baptismo, quer dizer, de ter sido enxertado, mediante esse sacramento, no Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja. (...) Ser cristão, ter recebido o baptismo, não deve ser considerado como coisa indiferente e sem valor, antes deve marcar profunda e ditosamente a consciência de todos os baptizados” [i].

59
                  
Isto traz consigo uma visão mais profunda da Igreja, como comunidade formada por todos os fiéis, de modo que todos somos solidários duma mesma missão, que cada um deve realizar segundo as suas circunstâncias pessoais.
Os leigos, graças aos impulsos do Espírito Santo, são cada vez mais conscientes de serem Igreja, de possuírem uma missão específica, sublime e necessária, uma vez que foi querida por Deus.
E sabem que essa missão depende da sua própria condição de cristãos, não necessariamente de um mandato da Hierarquia, embora seja evidente que deverão realizá-la em união com a Hierarquia eclesiástica e segundo os ensinamentos do Magistério: sem união com o Corpo episcopal e com a sua cabeça, o Romano Pontífice, não pode haver, para um católico, união com Cristo.

O modo de os leigos contribuírem para a santidade e para o apostolado da Igreja consiste na acção livre e responsável no seio das estruturas temporais, aí levando o fermento da mensagem cristã.
O testemunho de vida cristã, a palavra que ilumina em nome de Deus e a acção responsável, para servir os outros, contribuindo para a resolução de problemas comuns, são outras tantas manifestações dessa presença através da qual o cristão corrente cumpre a sua missão divina.

Há muitos anos, desde a própria data da fundação do Opus Dei, que medito e tenho feito meditar umas palavras de Cristo que nos relata S. João: et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum [ii].
Cristo, morrendo na Cruz, atrai a Si a criação inteira, e, em seu nome, os cristãos, trabalhando no meio do mundo, hão-de reconciliar todas as coisas com Deus, colocando Cristo no cume de todas as actividades humanas.

Gostaria de acrescentar que, juntamente com esta consciencialização dos leigos, se está a produzir um desenvolvimento análogo da sensibilidade dos pastores: eles reparam no que tem de específico a vocação laical, que deve ser promovida e favorecida mediante uma pastoral que leve a descobrir no meio do Povo de Deus o carisma da santidade e do apostolado, nas infinitas e diversíssimas formas nas quais Deus o concede.

Esta nova pastoral é muito exigente mas, em minha opinião, absolutamente necessária.
Requer o dom sobrenatural do discernimento de espíritos, a sensibilidade para as coisas de Deus, a humildade de não impor as próprias preferências e de servir o que Deus promove nas almas.
Numa palavra: o amor à legítima liberdade dos filhos de Deus, que encontram Cristo e são feitos portadores de Cristo, percorrendo caminhos muito diversos entre si, mas todos igualmente divinos.

Um dos maiores perigos que hoje ameaçam a Igreja poderia ser precisamente o de não reconhecer essas exigências divinas da liberdade cristã e, deixando-se levar por falsas razões de eficácia, pretender impor uma uniformidade aos cristãos.
Na raiz dessa atitude há algo não apenas legítimo, como, até, louvável: o desejo de que a Igreja dê um testemunho tal, que comova o mundo moderno.
Todavia, receio bem que o caminho seja errado e leve, por um lado, a comprometer a Hierarquia em questões temporais, caindo num clericalismo diferente mas tão nefasto como o dos séculos passados; e, por outro, a isolar os leigos, os cristãos correntes, do mundo em que vivem, para os converter em porta-vozes de decisões ou ideias concebidas fora desse mundo.

Parece-me que a nós, sacerdotes, se nos pede a humildade de aprender a não estar na moda, de sermos realmente servos dos servos de Deus - lembrando-nos daquela exclamação do Baptista: illum oportet crescere, me autem mínui [iii], convém que Cristo cresça e que eu diminua - para que os cristãos correntes, os leigos, tornem Cristo presente em todos os ambientes da sociedade.
A missão de dar doutrina, de ajudar a penetrar nas exigências pessoais e sociais do Evangelho, de levar a discernir os sinais dos tempos é e será sempre uma das funções fundamentais do sacerdote. Mas todo o TRABALHO sacerdotal deve ser realizado dentro do maior respeito pela legítima liberdade das consciências: cada homem deve responder livremente a Deus.
Quanto ao resto, todos os católicos, além dessa ajuda do sacerdote, têm também luzes próprias que recebem de Deus, graça de estado para levar a cabo a missão específica que, como homens e como cristãos, receberam.

Quem pensa que, para que a voz de Cristo se faça ouvir no mundo de hoje, é necessário que o clero fale ou se faça sempre presente, ainda não compreendeu bem a dignidade da vocação divina de todos e de cada um dos fiéis cristãos.

60             

pergunta:

Nestas circunstâncias, qual a função que o Opus Dei desempenhou e desempenha?
Que relações de colaboração mantêm os sócios com outras organizações que trabalham neste campo?

resposta:

Não me pertence a mim fazer um juízo histórico sobre o que, pela graça de Deus, o Opus Dei tem feito.
Devo apenas afirmar que a finalidade a que o Opus Dei aspira é favorecer a procura da santidade e o exercício do apostolado por parte dos cristãos que vivem no meio do mundo, qualquer que seja o seu estado ou condição.

A Obra nasceu para contribuir para que esses cristãos, inseridos no tecido da sociedade civil - com a sua família, os seus amigos, o seu trabalho profissional, as suas aspirações nobres - compreendam que a sua vida, tal como é, pode ser ocasião de um encontro com Cristo: quer dizer, que é um caminho de santidade e de apostolado. Cristo está presente em qualquer actividade humana honesta: a vida de um cristão corrente - que talvez a alguns pareça vulgar e mesquinha - pode e deve ser uma vida santa e santificante.

Por outras palavras: para seguir Cristo, para servir a Igreja, para ajudar os outros homens a reconhecerem o seu destino eterno, não é indispensável abandonar o mundo ou afastar-se dele, nem sequer é preciso dedicar-se a uma actividade eclesiástica; a condição necessária e suficiente é cumprir a missão que Deus encomendou a cada um, no lugar e no ambiente queridos pela sua Providência.

E como a maior parte dos cristãos recebe de Deus a missão de santificar o mundo a partir de dentro, permanecendo no meio das estruturas temporais, o Opus Dei dedica-se a fazer-lhes descobrir essa missão divina, mostrando-lhes que a vocação humana - a vocação profissional, familiar e social - não se opõe à vocação sobrenatural: antes pelo contrário, forma parte integrante dela.

Entrevista realizada por Enrico Zuppi e António Fugardi, publicada em L'Osservatore della Domenica (Cidade do Vaticano) nos dias 19 e 26 de Maio e 2 de Junho de 1968

(cont)





[i] (Encíclica Ecclesiam Suam, parte 1)
[ii] (Jn. 12, 32)
[iii] (Jn. 3, 30)

24/10/2014

Evangelho diário, coment., leit. espiritual (História de uma alma)

Tempo comum XXIX Semana

Evangelho: Lc 12 54-59

54 Dizia também às multidões: «Quando vós vedes uma nuvem levantar-se no poente, logo dizeis: Aí vem chuva; e assim sucede. 55 E quando sentis soprar o vento do sul, dizeis: Haverá calor; e assim sucede. 56 Hipócritas, sabeis distinguir os aspectos da terra e do céu; como, pois, não sabeis reconhecer o tempo presente? 57 E porque não discernis também por vós mesmos o que é justo? 58 Quando, pois, fores com o teu adversário ao magistrado, faz o possível por fazer as pazes com ele pelo caminho, para que não suceda que te leve ao juiz, e o juiz te entregue ao guarda, e o guarda te meta na cadeia. 59 Digo-te que não sairás de lá, enquanto não pagares até o último centavo».

Comentário

As palavras – conselhos – de Jesus Cristo, são tão apropriadas e lógicas que, qualquer pessoa com bom senso as poderia pronunciar.
Não resolver, a tempo, coisas graves como são as dívidas - sejam quais forem - deixando para um último instante essa atitude, é correr um risco que, além de desnecessário, pode redundar em prejuízo avultado.
Que maior prejuízo poderá haver que perder a Vida Eterna na contemplação da Face do Senhor por não ter, em devido tempo – que é este e não outro – tratado de ‘saldar as contas’ que possamos ter pendentes com Ele?

(ama, comentário sobre Lc 12, 54-58, 2013.10.25)


Leitura espiritual


HISTÓRIA DE UMA ALMA


Santa Teresinha do Menino Jesus

Manuscrito "A" - Parte I


ALENÇON (1873 - 1877)
J.M.J.T.
Jesus
Janeiro de 1895
(História primaveril de uma Florzinha branca escrita por ela mesma e dedicada à Reverenda Madre Inês de Jesus.)

A vós, querida Madre, que sois duplamente minha mãe, quero confiar a história de minha alma... No dia em que me pedistes para fazê-lo, cheguei a pensar que isso dissiparia o meu coração, ao ocupá-lo consigo mesmo; mas depois Jesus me levou a compreender que, obedecendo com toda simplicidade, eu Lhe agradaria. Aliás, só quero uma coisa: Começar a cantar o que repetirei por toda a eternidade: "As Misericórdias do Senhor!!!"...

Antes de pegar a caneta, ajoelhei-me diante da imagem de Maria (aquela mesma que tantas provas nos deu das maternas predilecções da Rainha do céu pela nossa família), e lhe pedi que guiasse a minha mão para que eu não escrevesse uma linha sequer que não lhe agradasse. Em seguida, abrindo o Evangelho, os meus olhos pousaram sobre estas palavras: «Jesus, tendo subido a uma montanha, chamou a si quem Ele quis; e vieram a Ele" (São Marcos, cap. III, v. 13). Eis o mistério de minha vocação, da minha vida inteira, e, sobretudo, o mistério dos privilégios dispensados por Jesus à minha alma... Não chama os que são dignos, mas quem Ele quer, ou, como diz São Paulo: "Farei misericórdia a quem eu fizer misericórdia; terei compaixão de quem eu tiver compaixão. Desta forma, a escolha não depende daquele que quer, nem daquele que corre, mas da misericórdia de Deus" (Carta aos Romanos, cap. IX, v. 15 e 16).

Durante muito tempo eu perguntava-me porque Deus tinha preferências, por todas as almas não recebiam a mesma medida de graças. Estranhava ao vê-lo prodigalizar favores extraordinários aos santos que o haviam ofendido, como São Paulo ou Santo Agostinho, a quem forçava, por assim dizer, a receber as Suas graças; e quando lia a vida daqueles santos a quem o Senhor acariciou desde o berço até a sepultura, retirando do seu caminho todos os obstáculos que os impedisse de se elevar até Ele e provendo essas almas com tais benefícios para que nada lhes ofuscasse o brilho imaculado das suas vestes batismais, eu perguntava-me porque tantos pobres selvagens, por exemplo, morriam antes mesmo de ouvir ou sequer pronunciar o nome de Deus...

Jesus quis instruir-me a respeito deste mistério. Pôs diante dos meus olhos o livro da natureza e compreendi que todas as flores por ele criadas são belas, e que o esplendor da rosa e a brancura do lírio não tiram o perfume da humilde violeta nem a simplicidade encantadora da margarida... Compreendi que se todas as flores quisessem ser rosas, a natureza perderia a sua pompa primaveril e os campos já não seriam salpicados de florzinhas...

O mesmo ocorre no mundo das almas, o jardim de Jesus. Ele quis criar grandes santos, que podem ser comparados aos lírios e às rosas; mas criou também outros menores, e estes devem conformar-se em ser margaridas ou violetas destinadas a alegrar os olhos de Deus quando contempla os seus pés. A perfeição consiste em fazer a Sua vontade, em ser aquilo que Ele quer que sejamos...

Compreendi também que o amor de Nosso Senhor se manifesta tanto na alma mais simples, que não coloca nenhuma resistência a sua graça, quanto na alma mais sublime. É próprio do amor abaixar-se. Se todas as almas se parecessem às dos santos doutores que iluminaram a Igreja com a luz de sua doutrina, parece que Deus não teria que se abaixar bastante para vir a seus corações. Mas criou a criança, que nada sabe e só balbucia fracos gemidos, criou o pobre selvagem, que só tem a lei natural para guiá-lo. E também a seus corações ele se abaixa! São suas flores campestres, cuja simplicidade o encanta...

Assim se abaixando, Deus mostra sua grandeza infinita. Assim como o sol ilumina os cedros e cada florzinha, como se somente ela existisse sobre a terra, da mesma forma Deus cuida pessoalmente de cada alma, como se não existisse outra além dela. E assim como na natureza todas as estações estão de tal modo organizadas que no momento certo se abre até a mais humilde margarida, da mesma forma tudo concorre para o bem de cada alma.

Certamente, querida Madre, estais vos perguntando onde quero chegar, pois até agora nada disse que se pareça com a história de minha vida. Mas pedistes-me que escrevesse tudo que viesse ao meu pensamento, sem nenhum constrangimento. Assim sendo, o que vou escrever não é propriamente minha vida, mas meus pensamentos sobre as graças que Deus se dignou conceder-me.

Encontro-me num momento de minha existência em que posso lançar um olhar sobre o passado; minha alma amadureceu no crisol das provações exteriores e interiores. Agora, como a flor fortalecida pela tempestade, levanto a cabeça e vejo que em mim se realizam as palavras do salmo XXII: «O Senhor é meu pastor, nada me falta: em verdes pastagens me faz repousar; ele me conduz para fontes tranquilas e restaura minhas forças... Ainda que eu ande pelo vale das sombras, nenhum mal temerei, porque tu, vais comigo!" O Senhor sempre foi compassivo e misericordioso para comigo... lento na ira e rico em misericórdia... (Salmo CII, v. 8). Por isso, Madre, canto feliz ao vosso lado as misericórdias do Senhor... Somente para vós vou escrever a história da florzinha colhida por Jesus. Por isso, vou falar-vos com total confiança, sem preocupar-me com estilo nem com as numerosas digressões que possa fazer. Um coração de mãe sempre compreende seu filho, mesmo quando só sabe balbuciar. Portanto, estou certa de que serei compreendida e decifrada por vós, que formastes meu coração e o oferecestes a Jesus!...

Parece-me que se uma florzinha pudesse falar, contaria simplesmente o que Deus fez para ela, sem procurar esconder os presentes por ele concedidos. Não diria, a pretexto de falsa humildade, que é feia e sem perfume, que o sol roubou-lhe o esplendor e que as tempestades quebraram-lhe o talo, quando está intimamente convencida do contrário.

A flor que vai contar sua história se alegra em poder apregoar as delicadezas totalmente gratuitas de Jesus. Reconhece que nada havia nela capaz de atrair seus olhares divinos, e que somente sua misericórdia fez tudo que de bom há nela...

Ele a fez nascer numa terra santa e toda impregnada por um perfume virginal. Ele fez com que a precedessem oito lírios reluzentes de brancura. Em seu amor, quis preservar sua florzinha do sopro envenenado do mundo; e mal se entreabria sua corola, este divino Salvador a transplantou para a montanha do Carmelo, onde os dois lírios que a haviam cercado de carinho e embalado na primavera de sua vida já exalavam seu suave perfume...

Já se passaram sete anos desde que a florzinha se enraizou no jardim do Esposo das Virgens, e agora três lírios – a contar com ela – balançam ali suas corolas perfumadas; um pouco mais longe, outro lírio está se abrindo ante o olhar de Jesus. E os dois caules benditos dos quais brotaram estas flores já estão reunidos na pátria celestial para sempre... Aí se reencontraram com os outros quatro lírios que não chegaram a abrir suas corolas na terra... Oh! Que Jesus se digne não deixar por muito tempo nesta terra estranha as flores que ainda permanecem no exílio! que em breve o ramo de lírios se complete no céu!

Acabo, Madre, de resumir em poucas palavras o que Deus fez por mim. Agora vou entrar nos detalhes de minha vida de criança. Sei que onde qualquer outra pessoa só veria um relato cansativo, vosso coração de mãe encontrará verdadeiras delícias... Além do mais, as lembranças que vou evocar também vos pertencem, pois ao vosso lado passei minha infância e tenho a felicidade de pertencer a pais inigualáveis que nos cercaram dos mesmos cuidados e do mesmo carinho. Que eles abençoem a menor de suas filhas e a ajudem a cantar as misericórdias do Senhor!

Na história de minha alma, até minha entrada no Carmelo, distingo três períodos bem definidos: o primeiro, embora de curta duração, não é o menos fecundo em recordações. Ele vai do despertar de minha razão até a partida de nossa querida mãe para a pátria celeste.

Deus deu-me a graça de despertar minha inteligência muito cedo e de gravar tão profundamente em minha memória as recordações de minha infância, de modo que me parecem ter acontecido ontem. Sem dúvida, Jesus, em seu amor, quis fazer-me conhecer a mãe incomparável que me dera, mas que sua mão divina tinha pressa de coroar no céu!
Durante toda minha vida, Deus quis cercar-me de amor. Minhas primeiras recordações estão repletas dos mas ternos sorrisos e carícias... Mas, se ele colocara muito amor perto de mim, também o pôs em meu coração, criando-o amoroso e sensível. Assim, eu amava muito papai e mamãe, e lhes demonstrava meu carinho de mil maneiras, pois eu era muito expansiva. Só que os meios que eu usava eram, às vezes, estranhos, como o prova este trecho de uma carta de mamãe:
"A menina é um verdadeiro diabinho, que vem me acariciar desejando-me a morte: ´Como eu gostaria que morresses, minha pobre mãezinha...!´censuram-na e ela responde: ´Mas é para ires para o céu! Não dizes que precisamos morrer para ir para lá?´ Em seus excessos de amor, deseja também a morte de seu pai".

No dia 25 de Junho de 1874, quando eu tinha apenas 18 meses, eis o que mamãe dizia de mim:  «Vosso pai acaba de instalar um balanço. Celina está deslumbrada, mas é preciso ver a pequena balançar-se! É de rir; segura-se como uma moça, não há perigo de que se solte a corda e quando a balançam mais devagar, grita. Nós a amarramos na frente com outra corda, mas apesar de tudo não fico tranqüila quando a vejo lá em cima.

"Recentemente aconteceu uma aventura engraçada com a pequena. Tenho costume de ir à missa das cinco e meia. Nos primeiros dias, não ousava deixá-la sozinha; mas ao ver que ela nunca acordava, decidi deixá-la. Deitava-a na minha cama e puxava o berço de modo que seria impossível que ela caísse. Mas um dia me esqueci de puxar o berço. Quando cheguei, vi que a pequena não estava na cama. Neste momento escutei um grito; olhei e a vi sentada numa cadeira que estava de frente à cabeceira de minha cama, com a cabecinha deitada no travesseiro e dormindo mal, pois estava mal acomodada. Não entendi como pôde cair sentada naquela cadeira, pois ela estava deitada. Dei graças a Deus por que nenhum mal lhe aconteceu; foi realmente providencial, pois poderia ter rolado no chão. Seu anjo de guarda cuidou dela, como também as almas do purgatório, a quem diariamente faço uma oração para que protejam a pequena. Assim vejo a coisa... vejam como quiserem..."

No final da carta, mamãe acrescentava:«Eis que o bebezinho acaba de passar a mãozinha sobre o meu rosto e me beijar. Esta pobre pequena não quer me deixar nem por um instante e não sai de perto de mim. Gosta muito de ir ao jardim, mas se eu também não for, ela não quer ficar. Começa a chorar e só pára quando a trazem a mim".

(Aqui a passagem de uma outra carta): "Teresinha perguntou-me outro dia se iria para o céu. Disse-lhe que sim, se se comportar direito. Respondeu-me: "Sim, mas se eu não for ajuizada irei para o inferno... mas sei o que farei: voaria contigo, que estarás no céu. Mas como Deus faria para me pegar? Tu me segurarias bem forte em teus braços?" Vi em seus olhos que acreditava piamente que o Bom Deus nada poderia fazer-lhe ainda que estivesse nos braços de sua mãe...

«Maria gosta muito de sua irmãzinha e a acha muito mimosa. Isto não é de se estranhar, pois esta pobre pequena tem receio de desagradá-la nas mínimas coisas. Ontem, sabendo que ela tanto gosta de rosas, quis dar-lhe uma, mas suplicou-me que não a colhesse, porque Maria proibira. Estava rubra de emoção. Assim mesmo, dei-lhe duas e ela não queria entrar em casa. Embora eu lhe dissesse que as rosas eram minhas, ela afirmava: "Não, as rosas são de Maria..."

«A menina se emociona facilmente. Quando faz alguma traquinagem, todos precisam saber. Ontem, tendo rasgado, sem querer, um canto do papel de parede, ficou em estado lastimável, e quis logo contar ao pai. Quando este chegou, quatro horas depois, ninguém se lembrava mais do acontecido e ela foi correndo dizer a Maria: "Diga logo para o papai que eu rasguei o papel". E ficou esperando sua condenação como um criminoso; mas tem em sua pequena ideia que obterá mais facilmente o perdão se confessar a falta".

(cont.)