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11/05/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Jo 17, 11-19


11 Já não estou no mundo, mas eles estão no mundo, e Eu vou para Ti. Pai Santo, guarda em Teu nome aqueles que Me deste para que sejam um, assim como Nós. 12 Quando Eu estava com eles, os guardava em Teu nome. Conservei os que Me deste; nenhum deles se perdeu, excepto o filho da perdição, cumprindo-se a Escritura. 13 Mas agora vou para Ti e digo estas coisas, estando ainda no mundo, para que eles tenham em si mesmos a plenitude da Minha alegria. 14 Dei-lhes a Tua palavra, e o mundo odiou-os, porque não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. 15 Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal. 16 Eles não são do mundo, como Eu também não sou do mundo. 17 Santifica-os na verdade. A Tua palavra é a verdade. 18 Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. 19 Por eles Eu santifico-Me a Mim mesmo, para que também sejam santificados na verdade.


Comentário:


O discurso testamentário de Cristo continua pondo ainda mais ênfase nos três principais objectivos que o cristão deve tentar conseguir: a Verdade, a Unidade e a Santidade.

Verdadeiramente a última não é possível sem as outras duas e a terceira não se consegue sem conhecer e viver a primeira.

Também São Josemaria Escrivá insistia na "unidade de vida" para que a vida do cristão pudesse ser Verdadeira e, assim, alcançar a santidade pessoal.

(ama, comentário sobre Jo 17, 11-19, 2015.05.20)




Leitura espiritual



INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO

INTRODUÇÃO

“CREIO – AMÉM”

CAPÍTULO PRIMEIRO

Fé no Mundo Hodierno

  1. Dúvida e Fé – Situação do homem frente ao problema "Deus”

…/3

3. O dilema da Fé no mundo de hoje

Tomada clara a aventura encerrada no seio da fé, é inevitável uma nova consideração, na qual se revela a agudeza especial da dificuldade de crer em relação ao homem de hoje. Ao abismo do "visível" e do "invisível" acrescenta-se, aumentando a dificuldade, o báratro do "outrora" e do "hoje". O paradoxo fundamental, já por si inerente à fé, aguça-se pelo facto de se apresentar a fé em roupagem de outrora, e até de se identificar com o passado, com a forma de vida e de existência de outrora. Todas as actualizações, chamem-se "desmitização" intelectual-académica ou aggiornamento eclesial-pragmático, em nada mudam a situação. Pelo contrário: tais esforços reforçam a suspeita de se apresentar aqui, nervosamente, como hodierno, o que, na verdade, é o passado. Essas tentativas de actualização trazem bem à tona da consciência até que ponto é "de ontem" aquilo que nos é apresentado; e a fé, deixando de parecer um salto temerário, asemelha-se a um salto desafiador da generosidade do homem, do trampolim da aparente totalidade do mundo visível para o aparente nada do invisível e incompreensível. Parece, antes, uma pretensão, um atrevimento, querer comprometer o hoje com o ontem, evocando-o como perpétuamente válido. E quem desejará fazê-lo numa época na qual, em lugar da ideia de "tradição" se colocou o conceito de "progresso"?

De passagem, deparamo-nos aqui com uma característica da moderna conjuntura, não sem importância para o nosso problema. Em constelações espirituais passadas o conceito de "tradição" conotava determinado programa; surgia como elemento protector em que o homem podia confiar; podendo apelar para a tradição, havia certeza de se encontrar no lugar certo. Hoje predomina o sentimento diametralmente oposto: tradição é o abandonado, o meramente de ontem; progresso é a promessa explícita do ser, de modo que o homem não se sente em casa dentro da tradição, do passado, mas dentro do progresso e do futuro. E também sob este ponto de vista há de parecer-lhe ultrapassada uma fé que lhe vem ao encontro com a etiqueta de "tradição", incapaz de lhe abrir um lugar para existir, a ele que vê no futuro a sua possibilidade e obrigação propriamente ditas. O que quer dizer que o primário escândalo da fé, a distância entre visível e invisível, entre Deus e não-Deus, se acha encoberto e bloqueado pelo escândalo secundário do "outrora" e do "hoje", pela antítese de tradição e progresso, pelo compromisso com o passado que parece estar incluído na fé.

O facto de nem o profundo intelectualismo da desmitização, nem o pragmatismo do aggiornamento serem capazes de convencer, sem mais, torna evidente que também a absorção do escândalo fundamental da fé cristã representa algo de muito profundo que não se pode abordar, sem mais nem menos, nem por meio de teorias, nem pela acção. Aliás, em certo sentido, justamente aqui se patenteia o específico do escândalo cristão, a saber, aquilo que se poderia denominar positivismo cristão, a inamovível positividade do crístico. Eis o que tenho em mente: a fé cristã não se ocupa somente com o eterno, como à primeira vista poderia supor-se, com o eterno que se conservasse como algo totalmente diverso, fora do mundo humano e do tempo; ela ocupa-se muito mais com o Deus na história, com Deus como homem. A fé apresenta-se como revelação, ao parecer vencer o abismo entre eterno e temporal, entre visível e invisível, fazendo-nos encontrar Deus como homem, o Eterno como temporal, Deus como um de nós. Aliás, a sua pretensão de ser revelação funda-se no facto de ela ter trazido o eterno, por assim dizer, para dentro do nosso mundo: "O que ninguém jamais viu – Ele no-lo explicou, aquele que descansa no peito do Pai" [1] – Cristo tornou-se "exegese" de Deus para os homens, quase estaria tentado a afirmar com base no texto bíblico. Mas contentemo-nos com o vocábulo português; o original autoriza-nos a tomá-lo bem ao pé da letra: Jesus realmente explicou (ou seja, desdobrou, abriu) a Deus, conduzindo-o para fora de si, ou, mais drasticamente, na primeira carta de João: libertou-o à nossa contemplação e palpação, de modo tal que o jamais avistado por alguém agora está ao alcance do nosso tacto histórico.

À primeira vista parece tratar-se realmente do máximo em revelação, do limite extremo de Deus patentear-se. O salto que até agora conduzia ao infinito parece abreviado a uma ordem de grandeza humana possível, bastando-nos, para tanto, dar uns poucos passos até àquele homem na Palestina, no qual o mesmo Deus se nos revela. Mas estamos aí diante de uma estranha duplicidade, como que dois rostos de Jano: o que parece ser, de entrada, a mais radical revelação e, em certa medida, permanece para sempre sendo não só uma revelação, como a revelação por excelência, no mesmo instante se trai como a treva mais pesada e o mais estranho disfarce. O que Deus parece trazer, em primeira mão, para bem perto de nós, a ponto de podermos palpá-lo como nosso semelhante, seguir-lhe as pegadas e até avaliá-las e medi-las, tudo isto torna-se, em sentido muito profundo, base para a "morte de Deus", que, a partir dali, há de imprimir o seu cunho irrevogável ao desenvolvimento da história e às relações humanas com Deus: Deus ficou tão perto de nós, que o pudemos matar e assim, ao que parece, ele cessa de ser Deus. Por isso, vemo-nos hoje um tanto desconcertados diante dessa "revelação" cristã e, confrontando-a com a religiosidade, sobretudo, da Ásia, lançamos a pergunta: não teria sido muito mais simples crer no eterno-oculto, confiando-se a ele em meditação e anseio? Não teria sido melhor Deus deixar-nos na nossa infinita distância? Não fora mais simples e mais realizável perceber o eternamente incompreensível mistério mediante serena contemplação, mediante uma fuga de tudo o que é profano, em vez de render-se ao positivismo da fé numa única figura, confinando a salvação do homem e do mundo, por assim dizer, a algo como a cabecinha de um alfinete, que mais não parece representar esse um e único ponto fortuito? Não será a morte definitiva o fatal destino desse Deus reduzido a um único ponto dentro de um mundo que relativiza intolerantemente o homem e sua história a um ínfimo grãozinho de pó no cosmos, a um ponto que só poderia ser considerado como centro do universo pelo homem na sua ingenuidade dos anos de infância, mas, uma vez ultrapassados estes anos, impor-se-ia a coragem de acordar do sono, esfregar os olhos e sacudir para longe de si um sonho louco, por lindo que tenha sido, entrosando-se incondicionalmente no formidável mecanismo para o qual a nossa insignificante vida está destinada, vida que, precisamente assim, deveria encontrar um sentido novo, na aceitação de sua insignificância?

Só com esse aprofundamento total da questão e com esse enfoque que coloca o escândalo, muito mais profundo, do "positivismo" cristão, ou seja o "estreitamento" de Deus dentro de um único ponto da história à frente do aparentemente secundário escândalo do "outrora" e do "hoje", só assim tocamos o fundo da problemática cristã da fé, tal como hoje deve ser enfrentada. Podemos crer ainda? Não, impõe-se uma pergunta mais radical: temos ainda a liberdade de crer, ou avoluma-se diante de nós um dever maior, a saber, o dever de romper com o sonho e de colocar-se dentro da realidade? O cristão de hoje deve perguntar-se assim; não pode contentar-se em constatar que, afinal, é possível ainda encontrar uma interpretação do cristianismo através de uma porção de rodeios e subterfúgios, interpretação que não se choque com nada. Se alhures declara um teólogo que "ressurreição da carne" quer dizer apenas que cada um diariamente deve arregaçar as mangas corajosamente na preparação do futuro, com certeza está afastado o escândalo. Mas terá havido sinceridade numa tal interpretação? Não existe uma falsidade perigosa em tais prestidigitações interpretativas, em tais malabarismos, com que se tenta manter em pé o cristianismo e defendê-lo? Ou, sentindo-nos compelidos a lançar mão de tais recursos, não estaríamos obrigados a reconhecer que alcançamos o fim da linha? Então, não deveríamos sujeitar-nos simplesmente à realidade concreta, sem lançar cortinas de fumo? Acentuemo-lo com energia: um cristianismo assim esvaziado da sua realidade através de uma tal interpretação significa falta de sinceridade face às perguntas dos não-cristãos, cujo "talvez não" afinal deveria urgir-nos da mesma maneira como desejamos que eles sejam urgidos pelo "talvez" cristão.

Tentando aceitar assim a pergunta do outro como o ininterrupto questionamento da nossa própria existência, impossível de ser concentrado nas páginas de um tratado para, a seguir, ser posto de lado, teremos o direito de constatar, também aqui, a existência de uma contra-pergunta. A tendência hodierna é supor, como realidade propriamente dita, o tangível, o que se pode provar. Mas, é permitido fazer isso? Parece caber aqui uma pergunta mais cuidadosa: O que, na verdade, é "o real"? Será somente o comprovado e o comprovável? Ou não será, quiçá, a averiguação, apenas uma determinada maneira de comportamento face à realidade, maneira que, de modo algum, pode abranger o todo e que até conduz à adulteração da verdade e da existência humana, sempre que for aceite como critério único da realidade? Lançando esta pergunta, tornamos ao dilema do "outrora" e do "hoje", aliás, postos agora frente à frente com a problemática específica do nosso "hoje". Tentemos analisá-la com mais clareza nos seus elementos essenciais.

(cont)

joseph ratzinger, Tübingen, verão de 1967.

Revisão da versão portuguesa por ama

(cont)





[1] Jo 1,18

24/05/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)


Pentecostess

Evangelho: Jo 17, 11-19.

11 Já não estou no mundo, mas eles estão no mundo, e Eu vou para Ti. Pai Santo, guarda em Teu nome aqueles que Me deste para que sejam um, assim como Nós. 12 Quando Eu estava com eles, os guardava em Teu nome. Conservei os que Me deste; nenhum deles se perdeu, excepto o filho da perdição, cumprindo-se a Escritura. 13 Mas agora vou para Ti e digo estas coisas, estando ainda no mundo, para que eles tenham em si mesmos a plenitude da Minha alegria. 14 Dei-lhes a Tua palavra, e o mundo odiou-os, porque não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. 15 Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal. 16 Eles não são do mundo, como Eu também não sou do mundo. 17 Santifica-os na verdade. A Tua palavra é a verdade. 18 Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. 19 Por eles Eu santifico-Me a Mim mesmo, para que também sejam santificados na verdade.

Comentário:

O discurso da unidade!

Assim poderíamos chamar a este trecho de São João.

Mas também o discurso da santidade pessoal.

Esta sem dúvida que depende daquela e ambas da Verdade a única Verdade, aquela que Cristo - Ele próprio a Verdade - nos veio trazer com a Redenção operada na Cruz.

(ama, comentário sobre Jo 17, 11-19, 2015.05.10)


Leitura espiritual



a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS

I A VIDA CRISTÃ PESSOAL



o ser «nova criatura»

…/3

       

disposições necessárias para crescer na fé



        Pela Fé sabemos que essa conversão se realizará: «Como o homem terreno, assim são os homens terrenos, como o homem celeste assim serão os homens celestes.
E do mesmo modo que revestimos a imagem do homem terreno revestiremos também a imagem do homem celeste» [1].
E que se levará a cabo paulatinamente num movimento da nossa liberdade que vive na liberdade do amor de Deus, na liberdade dos filhos de Deus.

        «Porque o Senhor é o Espírito e onde está o Espírito do Senhor aí está a liberdade.
Mas todos nós que com o rosto descoberto reflectimos como um espelho a glória do Senhor vamos transformando-nos nessa mesma imagem cada vez mais gloriosos conforme a acção do Senhor que é Espírito» [2].

        A Fé é que abre caminho e permite que o nosso espírito descubra que foram ditas para ele as palavras de São Paulo: «Pois o mesmo Deus que disse: ‘Do seio das trevas brilhe a luz e fez a luz brilhar nos nossos corações para irradiar o conhecimento da glória de Deus que está na face de Cristo» [3].

        O primeiro acto livre do homem em relação a Deus, ed para aceitar essa vida que se lhe oferece, é precisamente o acto de Fé.
Só é válido o acto de Fé feito em pleno exercício da liberdade pessoa.
O homem configura o acto de Fé no meio de uma certa obscuridade da sua inteligência.
A luz da Graça ilumina a inteligência sem a confundir nem a submeter.
Mais, prepara-a para que, em todo o esplendor da Fé, mova a vontade para que esteja em melhores condições de actuar em liberdade.
Na liberdade assim exercida o homem reafirma-se em saber que a sua pessoa, ele, é um «ser para a eternidade de Deus».

        E ao mesmo tempo o actuar do homem iluminado pela Fé requere o concurso e a participação da razão.
No acto de Fé o homem descobre e aprecia que tanto a inteligência como a Fé são «dons de Deus».

        «A pessoa humana participa da luz e da força do Espírito divino.
Pela razão de que é capaz de compreender a ordem das coisas estabelecidas pelo Criador.
Pela sua vontade é capaz de dirigir-se por si mesmo ao seu bem verdadeiro.
Encontra a sua perfeição na procura do amor da verdade e do bem» [4].

        O homem que de alguma forma se relaciona com Deus abre horizontes nunca suspeitados e ainda quando considera que essa relações são mais rotineiras que vividas, mais fruto do costume que de um verdadeiro e renovado acto de amor.
Para onde nos dirigem esses horizontes?
Ou melhor dizendo em que consistem esses horizontes quel é a sua verdadeira riqueza e mistério?

        Penetrar na mente de Deus, nos caminhos de Deus sobre o mundo, sobre a criação, é certamente difícil mas nem por isso devemos deixar de lado o esforço que implica conscientes para além do mais de que para esse fim fomos criados por Deus.
O homem e só se descobre incapaz para algumas coisas, para alguns voos da inteligência, do coração, quando se põe em contacto directamente com Deus.
Então torna-se-lhe evidente que o seu ser é limitado e que as suas capacidades estão encerradas nos estreitos limites do seu ser.

        Podemos dizer que a Fé é a luz divina na inteligência que mantém o homem aberto à perspectiva do infinito impulsionando a sua inteligência a perguntar-se a razão de tudo quanto existe.
O acto de Fé orienta o inquirir e permite vislumbrar o esplendor da verdade.

        O homem é consciente das dificuldades com que se encontra e das limitações que descobre ainda que mantendo viva a Fé na divindade de Jesus Cristo e na sua Ressurreição, desenvolver a capacidade espiritual que tem para se dirigir a Deus.

        A vida da Graça, e o desenvolvimento da «participação da natureza divina» que o cristão está chamado a viver comporta a actuação livre do homem.
Actuação livre desde o primeiro instante em que decide «viver em Cristo, com Cristo e por Cristo».
Entende-se que um viver livre só possível em união com a Graça e em cooperação livre em Cristo, com Deus, movidos pelo Espírito Santo.

        Já comentámos a acção do Espírito Santo nas almas que se manifesta nos Dons e nos Frutos.
Agora é o momento de sublinhar que a vida de Jesus Cristo sobre a terra, a acção de Deus Pai na Criação e na Providência do mundo só são possíveis de descobrir e saborear espiritualmente sob  aluz do Espírito Santo que torna possível que o crente não se deixe enganar pelas trevas em que o pecado envolve as obras de Deus.

        O homem há-de conseguir vislumbrar Deus, a verdade de Deus, a Jesus Cristo Filho de Deus feito homem sem se deixar dominar pelas trevas originadas na sua mente pelo pecado.
Além disso há-de sobrepor-se ao estado de desalento e desânimo que experimenta ao ser consciente do seu pecado, conseguir que a memória dos seus pecados não o abata nem o desespere e possa dizer com serenidade: «Sem cessar o meu pecado está diante de mim, contra ti e só contra ti pequei, cometi os mal aos teus olhos» [5].
E também necessita de recuperar um certo amor a Deus mas também a consciência de se saber querido e amado por Deus.

        Essa irradiação de luz coloca no cristão a convicção de ser chamado a uma vida de união com Deus, a uma vida já não somente compartilhada com Deus mas vivida em e por Cristo em Deus pelo Espírito Santo; essa vida é o que se chama a santidade da que estamos tratando nestas páginas.

        Deus não impõe esta chamada à santidade a nenhum ser humano, de forma semelhante como lhe impôs o acto de nascer, a vida natural.
A Fé descobre ao homem, esse anseio de Deus e Deus espera do homem uma resposta de aceitação.
«Deus espera-nos nesse instante decisivo, diz-nos Endokimov, espera da nossa fé um acto de afirmação de aceitação consciente do nosso destino (que é a santidade), e roga-nos que o assumamos livremente.
Ninguém pode fazê-lo em nosso lugar nem sequer Deus» [6].

        «Todos os fiéis cristãos, de qualquer condição e estado, fortalecidos com tantos e tão poderosos meios de salvação são chamados pelo Senhor cada um pelo seu caminho, à perfeição daquela santidade com que o próprio Pai é perfeito» [7].

        «Se bem que na Igreja nem todos vão pelo mesmo caminho, todavia todos estão chamados à santidade e alcançaram fé idêntica pela justiça de Deus» [8].

        »Convence-te bem: há muitos homens e mulheres no mundo e nem a um só deles o Mestre deixa de chamar.
Chama-os a uma vida cristã, a uma vida de santidade, a uma vida de eleição, a uma vida eterna» [9].

        Como consegue o homem começar esse caminhar que o levará à sua conversão a manter na sua alma sempre vivo  o desejo de ser «nova criatura» em Cristo, a aceitar que Deus o chame a ele pessoalmente a viver em santidade?

        O primeiro passo que manifesta o enraizamento da Fé no espírito e o homem andar para Deus é a oração.
A oração leva à vida sacramental e os sacramentos impelem o espírito para a oração.
Em suma, a oração é «tratar» a Quem recebemos nos sacramentos.

        Veremos em seguida o que é a oração e como vivê-la.
Agora adiantamos que é uma acção do homem em que confluem a Fé, a Esperança e a Caridade e para que o homem possa orar – vê-lo-emos com detalhe mais adiante – das três claras disposições que já mencionámos e que uma vez mais recordamos hão-de permanecer desperta e activas ao longo de toda a vida verdadeiramente cristã.

        Essas disposições são: de humildade na inteligência, de arrependimento no coração, de docilidade em toda a pessoa, para receber e acolher a Palavra de Deus, para acolher o próprio Jesus Cristo Nosso Senhor.



(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)







[1] 1 Cor 15, 48-49
[2] 2 Cor 3, 18
[3] 2 Cor 4, 6
[4] Catecismo n. 1704
[5] Sal 50
[6] Paul Eudokinov, Les âges de la vie spirituelle, Desclée de Brouver, Paris 1964, p. 67
[7] Lumen gentium, n. 11
[8] Lumen gentium, n. 32
[9] São Josemaria Escrivá, Forja, n. 13

20/05/2015

Evangelho, comentário L Espiritual (A beleza de ser cristão)



Semana VII da Páscoa

Evangelho: Jo 17 11-19

11 Já não estou no mundo, mas eles estão no mundo, e Eu vou para Ti. Pai Santo, guarda em Teu nome aqueles que Me deste para que sejam um, assim como Nós. 12 Quando Eu estava com eles, os guardava em Teu nome. Conservei os que Me deste; nenhum deles se perdeu, excepto o filho da perdição, cumprindo-se a Escritura. 13 Mas agora vou para Ti e digo estas coisas, estando ainda no mundo, para que eles tenham em si mesmos a plenitude da Minha alegria. 14 Dei-lhes a Tua palavra, e o mundo odiou-os, porque não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. 15 Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal. 16 Eles não são do mundo, como Eu também não sou do mundo. 17 Santifica-os na verdade. A Tua palavra é a verdade. 18 Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. 19 Por eles Eu santifico-Me a Mim mesmo, para que também sejam santificados na verdade.

Comentário:

Prossegue a Oração Sacerdotal de Jesus Cristo na Última Ceia.

O Evangelista – testemunha rigorosa e atenta – não perde uma palavra do Senhor. Considerou – e muito bem – que todas eram de capital importância para todos os vindouros perceberem exactamente o Testamento – assim lhe podemos chamar – do Senhor.

Comove-nos a solicitude do Salvador a Sua excelência amorosa e intencional de deixar tudo absolutamente claro e transparente.

Pode, talvez, resumir-se dizendo o que O levou a encarnar-se como homem igual a nós: que fossemos santos como Ele é Santo.

(ama, comentário sobre Jo 17, 11-19, 2014.06.04)


Leitura espiritual



a beleza de ser cristão

PRIMEIRA PARTE



xiv -o espírito das bem-aventuranças

…/6

xv os frutos do espírito santo

       
breve exposição sobre os frutos

       
        Contemplados desta forma podemos considerar os Frutos do Espírito Santo como os verdadeiros canais por onde transcorre a santificação do homem e ao mesmo tempo a manifestação do resultado dessa santificação.

        Ao viver segundo o espírito das Bem-Aventuranças desenvolve a «participação na natureza divina» que é a Graça e vai-se configurando com Cristo na medida em que a sua acção manifesta a presença dessa disposições do seu actuar.

        Numa brevíssima consideração – a matéria exige um trabalho diferente do actual – para assinalar o seguinte.
No viver estes Frutos já se dá uma certa doçura e um certo gozo, deleite espiritual de que falam tantos autores, de entre eles, Santo Agostinho e São Tomás.

        Os Frutos do Espírito Santo, enquanto acções ordenadas ao fim da vida eterna também podem ser apreciados como flores e enquanto flores levam escondido e constituído o gozo do adiantamento da bem-aventurança eterna.
Assim considerados, os Frutos-Flores comunicam à alma o aroma de Deus nela, o «bom aroma de Cristo» de que fala o Apóstolo: «Pois nós somos para Deus o bom aroma de Cristo entre os que se salvam e entre os que se perdem» ([1]).  

        Dos nove Frutos que actual versão da Vulgata recolhe podemos considerar que cinco fazem referência directa à Caridade: Caridade, Gozo, Castidade, Bondade e Benignidade.
Três à Esperança: Longanimidade, Mansidão e paz e Um à Fé: Fidelidade.

        O Fruto da Caridade é o sinal mais claro de que o Espírito Santo está na alma.
É um amor e uma delicadeza ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo que o homem considera sempre inapropriado ainda que ame profundamente a Deus desde o mais profundo da alma.
Este amor, esta caridade, não precisa de ser acompanhado por nenhum sentimento ainda que por vezes possa estará acompanhado de emoções fortes e se enraíza na alma piedosa ainda que dentro de uma perda quase completa de sensibilidade interna e externa.

        O amor a Deus está unido ao amor aos irmãos, ao próximo: «Se alguém diz: ‘Amo a Deus’ e aborrece o seu irmão é um mentiroso pois quem não ama o seu irmão o qual vê não pode amar a Deus a Quem não vê. E temos este mandamento de Deus que quem ama a Deus ame também o seu irmão» ([2]).

        Amor a Deus e em Deus e por Deus, amor ao homem.
A este amor se referirá o Senhor quando disse aos Apóstolos: «Nisto conhecerão que sois meus discípulos se vos amais uns aos outros» ([3]).

        A Caridade assim vivida torna possível o testemunho de amor a Deus que os mártires dão.
No «martírio do fogo», na morte confessando a Fé, e no serviço abnegado aos doentes e aos filhos, aos necessitados, a caridade manifesta-se em toda a sua grandeza e majestade.


        O Gozo é o descanso da posse de Deus pelo amor, melhor, é saber-nos possuídos pelo amor de Deus, Pai, Filho, Espírito Santo.
A Fé robustece-se na medida em que o homem ama a Deus e se sabe amado por Deus e se alegra por conhecer a Quem conhece e por amar a Quem ama.
Com es Fruto o homem vive a recomendação de São Paulo: «Alegrai-vos sempre no Senhor, repito-vos, alegrai-vos» ([4]).

        Podemos afirmara que o Gozo é o aroma da inabitação do Espírito Santo na alma do crente e a manifestação do próprio gozo de Cristo ao ser acolhido pela fé do crente.
O próprio Jesus Cristo disse-o aos Apóstolos no discurso de despedida: «Como o Pai me amou também Eu vos amei, permanecei no meu amor. Se guardardes os meus preceitos, permanecereis no meu amor como eu guardei os preceitos de meu Pai e permaneço no seu amor. Digo-vos isto para que eu goze em vós e o vosso gozo se cumpra» ([5]).

        O Espírito Santo entranhado no espírito central da pessoa, de todo o homem na sua totalidade, e na harmonia do conjunto, dirige as suas actuações – na unidade de alma e corpo – à glória de Deus e descobre o verdadeiro gozo em saber-se querido e amado por Deus em viver com Cristo a sua Cruz e a sua Ressurreição.

        A Madre Teresa de Calcutá escreve: «A alegria de amar a Jesus procede da alegria em partilhar os seus sofrimentos.
Por isso não te permitas estar nem preocupado nem angustiado, crê na alegria da Ressurreição.
Nas nossas vidas como na vida de Jesus a Ressurreição tem que vir, a alegria da Páscoa tem que amanhecer» ([6]).

        A acção do Espírito Santo incide também na ordem recta da sexualidade.
O Fruto da Castidade leva a viver a corporeidade sexuada de cada pessoa em concordância com os planos de Deus e ao serviço dos desejos de Deus ao criar o mundo, ao serviço da permanência do amor no mundo e que desse amor surjam novos seres humanos.

        O Fruto da Castidade – uso recto da sexualidade – vive-se na plenitude de cada estado do homem no celibato e no matrimónio.
No matrimónio a castidade vivida  na ordem de Deus acrescenta o amor dos esposos e engendra filhos frutos desse amor.
No celibato vivido no amor de Deus, torna-se possível uma fraternidade e uma paternidade e maternidade ao serviço dos outros seres humanos.
A virgindade e o celibato natural hão-de converter-se em maternidade e paternidade espiritual se realmente são vividos em caridade no amor de Deus.

        Com o Fruto da Bondade o Espírito Santo faz germinar no homem uma disposição da vontade que leva a alma a desejar aos outros toda a classe de bens e a gozar ao ver os outros receber esses bens.
Arranca do homem qualquer rasto de egoísmo e inveja.

        São Paulo expressa o conteúdo deste Fruto nas primeiras palavras do seu hino à Caridade: «A Caridade é sofredora, benfeitora, não tem inveja… não pensa mal» ([7]).

        De certo modo todo o cristão que vive a Bondade reflecte o viver de Cristo que veio à terra para que todos os homens «tenha vida e a tenha em abundância» ([8]), e em concordância com o  convite do Apóstolo, se alegra com os que se alegram e chora com os que choram e faz suas a s suas palavras: «Não há para Mim maior alegria que ouvir que os Meus filhos caminham na verdade» ([9]).

        A Benignidade ´
E o último dos cinco Frutos que relacionámos coma Caridade é a culminação e a participação do homem em fazer aos outros o bem que Deus quer levar a cabo nesta terra.
A vida da «nova criatura» em Cristo comporta desenvolver as disposições de Cristo e deixar que o coração se mova pelos mesmos sentimentos que impulsionaram o coração de Cristo.
«A Caridade não é ambiciosa, não procura os seus interesses» ([10]).

        O Benigno goza em servir e vive o espírito de Cristo que disse de si próprio: «O Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir e dar a vida pela redenção de muitos» ([11]).

        Os Frutos da Longanimidade ou Magnanimidade, da Mansidão e da Paz tornam possível viver a esperança sobrenatural.

        A Magnanimidade mantém a mente sempre aberta aos horizontes de Deus sobre o homem.
Torna possível que o crente espere confiando, «contra toda a esperança» que se realizem nele os desígnios da misericórdia divina para a santidade da sua alma, sem se deixar levar por amarguras demasiado humanas.
O magnânimo sabe esperar todo o tempo que Deusa disponha porque sabe que está chamado a ser «Santo» a viver na amizade com Deus.

        Consciente da realidade de que Deus é Pai e que procura sempre e em tudo o bem de cada um dos seus filhos, o magnânimo torna realidade na sua alma as palavras de São Paulo aos romanos: «E, além disso, o Espírito vem em ajuda da nossa fraqueza poi nós não sabemos pedir como convém mais o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis e o que perscruta os corações conhece qual é a aspiração do Espírito e que a sua intercessão em favor dos santos é sundo Deus.
De resto sabemos que Deus intervém em todas as coisas para bem dos que O amam, daqueles que foram chamados segundo o seu desígnio» ([12]).

        O Magnânimo está sempre na disposição de dizer ao Senhor: A quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna. E nós acreditamos e conhecemos que tu és o Cristo o Filho de Deus vivo» ([13]).

        Na Santíssima Virgem contemplamos um exemplo vivo de Magnanimidade quando abre completamente o seu espírito a Deus e se oferece sem limites: «Faça-se em mim segundo a Tua palavra» ([14]).



(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)







[1] 2 Cor 2, 15
[2] 1 Jo 4, 20-21
[3] Jo 13, 35
[4] Flp 4, 4
[5] Jo 15, 9-11
[6] Madre Teresa, Ven sé mi luz, Planeta, Barcelona 2008, p. 364
[7] 1 Cor 13, 4-5
[8] Jo 10, 10
[9] 3 Jo 4
[10] 1 Cor 13, 5
[11] Mt 20, 28
[12] Rm 8, 36-38
[13] Jo 6, 69-70
[14] Lc 1, 38