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28/04/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Jo 15, 9-11

9 Como o Pai Me amou, assim Eu vos amei. Permanecei no Meu amor. 10 Se observardes os Meus preceitos, permanecereis no Meu amor, como Eu observei os preceitos de Meu Pai e permaneço no Seu amor. 11 Disse-vos estas coisas, para que a Minha alegria esteja em vós e para que a vossa alegria seja completa.

Comentário:

Jesus Cristo fala da alegria com a mesma veemência com que fala da paz, do amor, da união com Ele.

De facto desta união só podem nascer a paz, o amor e a alegria dos filhos de Deus.

(ama, comentário sobre Jo 15 9-11 2015.05.07)


Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES

CAPÍTULO XXIII

A opinião de Agostinho

Ouço e medito essas opiniões na medida do meu fraco entendimento, que confesso a Deus, embora ele bem o conheça. Vejo que se podem originar duas espécies de opiniões sobre um testemunho de intérprete fidedigno. Uma é relativa à veracidade das coisas, e outra à intenção daquele que as enuncia. Procurar conhecer a verdade sobre a criação é uma coisa; procurar saber o que Moisés, grande servo da tua lei, quis o que o leitor ou ouvinte entendessem das suas palavras, é outra.

Quanto à primeira opinião, longe de mim todos os que têm como verdades os seus erros!

Quanto à segunda, longe de mim todos os que julgam falsidade o que Moisés disse. Possa eu unir-me em ti, alegrar-me em ti, Senhor, com aqueles que se alimentam da tua verdade na imensidão da caridade. Aproximemo-nos juntos das palavras do teu Livro, procurando a tua vontade nas intenções do teu servo, a cuja pena as revelaste.

CAPÍTULO XXIV

Qual a verdade?

Quem de nós, entre tantos significados possíveis que ocorrem aos estudiosos quanto às várias interpretações das tuas palavras, poderá atinar com tais intenções e declarar com segurança: “Eis o pensamento de Moisés, este é o sentido que quis dar á sua narração”. – Quem poderá declará-lo, com a mesma segurança que ele, que essa narração é verdadeira, qualquer que tenha sido o pensamento de Moisés?

Eis que eu, meu Deus, teu servo, te consagrei nesta obra o sacrifício das minhas confissões; peço à tua misericórdia que me permita a realização desse desejo, e declaro com toda a segurança que criaste todas as coisas, as invisíveis e as visíveis, pelo teu verbo imutável.

Mas poderei dizer com a mesma certeza que Moisés teve essa intenção, e não outra, quando escreveu: “No princípio, criou Deus o céu e a terra”? – Embora esteja persuadido que isto está claro na tua verdade, não vejo com igual certeza o que Moisés pretendia ao escrever tais palavras. Por essa expressão: “no princípio” pode ter significado: “no começo da criação”. Por céu e terra, pode ter querido dar-nos a entender, a natureza espiritual e corporal, não já formada e perfeita, mas uma e outra, só esboçada e sem forma. Vejo que ambos os sentidos são igualmente plausíveis. Mas não posso atinar em qual dos dois pensava Moisés quando escrevia essas palavras. Fosse porém qual fosse a sua intenção ao exprimir essas palavras, eu não poderia duvidar de que tão grande homem tenha entrevisto a verdade e a tenha formulado adequadamente.

CAPÍTULO XXV

Os diversos partidos

Que ninguém me moleste portanto, dizendo: “O pensamento de Moisés não é o que tu dizes, mas o que eu digo”. – Se apenas me dissessem: “Como sabes que Moisés de facto entendia essas palavras no sentido que lhe atribuis?” – Eu não me agastaria, e responderia talvez o que respondi acima, ou até mais explicitamente, se o meu contraditor fosse insistente.

Quando porém, me dizem: “O pensamento de Moisés não é o que dizes, é o que eu afirmo” – sem contudo provar a veracidade de uma ou outra interpretação, então, ó vida dos pobres, ó meu Deus, em cujo seio não há contradição, inunda de paz o meu coração, para que eu tenha paciência para suportar essas pessoas. Pois não emitem tais opiniões inspirados por Deus, ou porque tenham lido o pensamento do teu servo, mas porque são orgulhosos. Ignoram o pensamento de Moisés, mas só apreciam o deles, e não por que seja verdadeiro, mas por ser o deles. Se assim não fosse, apreciariam igualmente a opinião alheia, quando verdadeira, assim como eu aprecio o que eles dizem verdadeiro, não porque vem deles, mas porque é verdade, e que, por isso mesmo, é tanto deles como minha, pois pertence em comum a todos os amantes da verdade.

Quanto à pretensão de que o pensamento de Moisés não está no que digo, mas no que eles dizem, isso eu não aceito. Ainda que assim fosse, a sua temeridade não é da ciência, mas a da audácia; seria produzida não por uma intuição correcta, mas pelo orgulho.

Senhor, o teu julgamento é terrível. Porque a tua verdade nem é um bem meu, nem o bem deste ou daquele: a verdade é o bem de todos nós; e tu nos conclamas abertamente a que participemos dela, com a advertência severa de não a possuirmos como bem privativo, para não sermos privados dela. De facto, quem reivindica apenas para si o que ofereces para gozo de todos, e quer para si o que é de todos, é rejeitado desse bem comum para o que é seu, isto é, da verdade para a mentira: o que fala mentira fala do que é seu.

Ouvem, pois, juiz excelente, ó Deus, que és a própria Verdade: ouve o que respondo a esse contraditor.

É diante de ti que falo, e na presença dos meus irmãos que usam legitimamente da lei, cujo fim é a caridade. Escuta e vê o que lhes digo, se é do teu agrado. Eis as palavras fraternas e de paz que lhe dirijo: “Quando ambos vemos que as tuas palavras são verdadeiras, ou as minhas palavras são verdadeiras, pergunto: onde o vemos? Certamente não é em ti que eu a vejo, nem tampouco é em mim que tu a vês. Ambos a vemos na verdade imutável, que está acima das nossas inteligências”.

Uma vez que não discordamos sobre essa luz do Senhor, nosso Deus, por quê discutir sobre o pensamento do nosso próximo? Nós não o podemos ver como vemos a verdade imutável.

Se o próprio Moisés nos aparecesse e nos explicasse o seu pensamento – nem assim veríamos esse pensamento, mas apenas acreditaríamos nele. Cuidemos pois, de não nos levantarmos orgulhosamente um contra o outro a respeito das Escrituras. Amemos o Senhor, nosso Deus, de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todo o nosso espírito, e ao próximo como a nós mesmos. É segundo esses dois preceitos da caridade que Moisés pensou aquilo que escreveu nos seus livros. Não acreditarmos nisso seria considerar o Senhor mentiroso, atribuindo ao seu servo sentimentos distintos daqueles que ele próprio lhe ensinou. Diante de tantos pensamentos igualmente verdadeiros que podem ser deduzidos dessas palavras, vê que estultice é afirmar temerariamente que Moisés teve este pensamento e não aquele, ofendendo com as nossas disputas perniciosas a caridade, por amor da qual ele escreveu as palavras que procuramos interpretar!

CAPÍTULO XXVI

Agostinho no lugar de Moisés

Todavia, meu Deus, que me elevas na minha pequenez, que descansas a minha fadiga, que ouves as minhas confissões e perdoas os meus pecados, tu ordenas-me que eu ame o meu próximo como a mim mesmo; não posso crer que Moisés, teu servo tão fiel, tenha sido aquinhoado com menos dons do que eu teria desejado e apetecido se tivesse nascido no seu tempo, e me tivesses confiado a tarefa de te servir com o meu coração e a minha língua, e disseminar essas Escrituras. Estas, tanto tempo depois, deviam ser úteis a todos os homens e, pelo mundo afora, triunfar com o prestígio da sua autoridade sobre as afirmações das doutrinas falsas e orgulhosas.

Quereria, se estivesse no lugar de Moisés – pois todos procedemos da mesma massa, e que é o homem se não te lembras dele? – e me tivesses confiado a missão de escrever o Génesis, quereria receber de ti tal eloquência, tal qualidade de estilo, que mesmo os espíritos incapazes de compreender como foi que Deus criou, não pudessem rejeitar as minhas palavras como superiores às suas forças; que os que já o pudessem, descobrissem, nas poucas palavras do teu servo, todas as verdades que a sua reflexão já lhes tivesse proporcionado; e que se alguém, à luz da tua verdade, nelas percebesse outro significado, também ele o pudesse encontrar nessas mesmas palavras.

CAPÍTULO XXVII

Os diversos sentidos da Escritura

Assim como uma fonte, no seu pequeno leito, se torna depois mais abundante e, pelos diversos regatos que alimenta, banha espaços muito mais amplos que qualquer um deles, que deslizam através de muitas regiões, assim também a narração do ministro da tua palavra, que deveria alimentar tantos intérpretes, faz brotar do seu estilo sóbrio e conciso torrentes de límpida verdade, de onde cada um tira para si a verdade que pode, para depois desenvolvê-la em longas sinuosidades de palavras.

Alguns, lendo ou escutando aquelas palavras, imaginam a Deus como homem ou como massa material dotada de imenso poder que, por decisão nova e repentina, criara fora de si mesma e como que à distância, o céu e a terra, esses dois grandes corpos, um superior, outro inferior, onde estão contidas todas as coisas. E ao ouvirem dizer: ”Deus disse: faça-se isto! E isto foi feito! – imaginam que se trata de palavras comuns, que começam e terminam, que soam no tempo e passam. Julgam que, logo após pronunciadas, começa existir o que ordenaram que existisse. Todas as suas demais concepções se ressentem do mesmo hábito de pensar de modo carnal.

Nisto são como crianças, pois enquanto essa linguagem humilde sustentar a sua fraqueza como o seio de uma mãe, o que se fortifica salutarmente é a fé, que lhes faz ter como certo que Deus criou todas as realidades, cuja admirável variedade impressiona a seus sentidos.

Mas, se alguém, desprezando a aparente simplicidade das tuas palavras, na sua orgulhosa fraqueza, se lançar para fora do ninho que o nutriu, então cairá miseravelmente, Senhor Deus, tem piedade dele! Que os transeuntes não pisem este passarinho implume; manda o teu anjo para que o reponha no ninho, para que viva até que aprenda a voar!

(Revisão de versão portuguesa por ama)


07/05/2015

Evangelho, comentário L Espiritual (A beleza de ser cristão)



Semana V da Páscoa

Evangelho: Jo 15 9-11

9 Como o Pai Me amou, assim Eu vos amei. Permanecei no Meu amor. 10 Se observardes os Meus preceitos, permanecereis no Meu amor, como Eu observei os preceitos de Meu Pai e permaneço no Seu amor. 11 Disse-vos estas coisas, para que a Minha alegria esteja em vós e para que a vossa alegria seja completa.

Comentário:

São João é o Evangelista do Amor.

Sim, Amor com maiúscula porque nos fala do Supremo e Total Amor que é Jesus Cristo Nosso Senhor.

Foi exclusivamente por amor que veio ao mundo fazendo-se igual a nós em tudo menos no pecado.

De facto, o pecado é incompatível com o amor  e, este, só é verdadeiro quando é igual ao de Cristo.
As relações entre Deus e os homens podem resumir-se numa palavra: amor!

(ama, comentário sobre Jo 15, 9-11, 2014.05.22)


Leitura espiritual

a beleza de ser cristão

PRIMEIRA PARTE



XI. OS DONS DO ESPÍRITO SANTO

…/23

«Os Sete Dons do Espírito Santo são: sabedoria, inteligência ou entendimento, ciência, conselho, fortaleza, piedade e temor de Deus. Pertencem em plenitude a Cristo, Filho de David “[i].[ii]
Que virtudes aperfeiçoam e completa cada dom?

As opiniões são variadas e, na realidade, não afectam o fundo da questão; porque de facto poder-se-ia afirmar, simplesmente, que todos os Dons influem na Fé, na Esperança e na Caridade.

E esse influxo somar-se-ia à corrente de influência que já se dá entre as três virtudes.
Para facilitar, todavia, a compreensão do processo de gestação e de desenvolvimento da pessoa cristã, expomos a nossa própria opinião sobre a inter-relação dos Dons do Espírito Santo e das Virtudes teologais.
Podemos dizer que dos sete Dons os primeiros são quatro: Sabedoria, Entendimento, Ciência e Conselho fazem referência directa à inteligência e preparam-na para se ir abrindo mais e mais, mais e mais à Verdade, à comunicação da sabedoria de Deus.
De certo modo, estes dons tornam possível e dirigem o desenvolvimento da Fé e, sob a luz da Fé, a inteligência humana vai penetrando no mistério do ser de Deus e do actuar de Deus.
O dom de Fortaleza faz referência à memória e, abrindo a memória, já iluminada pela luza da Fé, a vida eterna e a possibilidade de alcançá-la, sustenta e fortifica o homem na Esperança.
Os dons de Piedade e de temor de Deus relacionam-se directamente com a vontade humana, também enriquecida com as verdades que a inteligência crente introduz na pessoa e modelam a caridade, segundo o coração de Deus, segundo o coração de Cristo, para que o cristão alcance amar a Deus e os homens com e no próprio coração de Cristo.
As palavras da Escritura, referidas directamente a Cristo, também se podem aplicar a cada «nova criatura em Cristo”; porque o Espírito Santo deseja fazer morada em todos e em cada um dos crentes: «E brotará uma vara do tronco de Jessé e rebentará das suas raízes um varão. Sobre ele repousará o espírito de Yahvé, espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de piedade, e estará cheio de espírito de temor do Senhor”.[iii]
Que transformações se originam no homem sob a influência dos Dons?
Respondemos a esta pergunta mudando a ordem tradicional em que é costume enumera-los e referimo-nos a eles segundo a distribuição a que acabamos de aludir: sabedoria, entendimento, ciência e conselho; fortaleza; piedade e temor de Deus.
Deixaremos para o capítulo sobre os Frutos do Espírito Santo a análise mais detalhada dos efeitos da acção dos Dons no processo de conversão do cristão na «nova criatura”.
O Dom de Sabedoria é uma participação especial da inteligência humana no conhecimento misterioso e sumo, que é próprio de Deus, e que a Deus e refere.

De certo modo, ao fazer-nos partícipes da «natureza divina”, Deus predispõe-nos para que participemos também, e sempre segundo as nossas limitações pelo facto de ser criaturas que nunca nos abandonam, dos mistérios insondáveis do seun próprio Ser. Da riqueza da sua Verdade.
O conhecimento do Ser-Existir de Deus, fruto do dom da Sabedoria, é um saber impregnado pela caridade, graças ao qual, a alma adquire familiaridade, uma certa co-naturalidade, com as coisas divinas e deleita-se nelas. Saboreia-as. Deleita-se na sua contemplação.
O verdadeiro sábio, além de conhecer o viver e o actuar de Deus, tem deles uma certa experiência e vive-os.
«Provai e vede como o Senhor é bom; venturoso o varão que a Ele se acolhe”.[iv]
Este dom também outorga à inteligência humana uma capacidade especial para julgar os acontecimentos da natureza, os factos da história desde uma perspectiva que o aproxima do modo como Deus os contempla.
O Dom de Entendimento ou de Inteligência impulsiona a inteligência humana, e fortalece a Fé, para conhecer mais detalhadamente, com maior profundidade e maior plenitude, a verdade revelada.
Mediante este dom, o Espírito Santo, que «perscruta as profundidades de Deus”,[v] comunica ao crente uma centelha dessa capacidade de penetração nas realidades que o cercam, que lhe abre o coração à percepção gozosa do destino amoroso de Deus, a revelar o verdadeiro rosto de Cristo, muito especialmente ajudando a compreender as sua actuações e a s suas palavras recolhidas nos Evangelhos.
O Senhor já tinha adiantado a actuação deste Dom, ao anunciar a vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos: «Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não podeis entende-las agora.
Quando vier Aquele, o Espírito da verdade vos guiará até à verdade completa”.[vi]
E as suas palavras soam como o cumprimento daquela promessa de Yahvé a David: «Dar-te-ei inteligência e mostrar-te-ei o caminho que hás-de seguir; fixos em ti os olhos serei o teu conselheiro”.[vii]
Se os dons de Sabedoria e Inteligência enformam a actuação da Fé-Inteligência do homem para descobrir e gozar da vida de Deus em Si própria, e da compreensão do Amor de Deus encerrado na vida terrena de Jesus Cristo, o Dom de Ciência dá-nos a conhecer a mente de Deus ao criar o mundo e ao criar o homem; e, ao mesmo tempo, permite que o homem descubra o verdadeiro valor das criaturas em relação com o Criador.
Com este dom, o homem entende directamente a dependência essencial que tudo o criado tem com o seu Criador e descobre o sentido teológico do criado, ao apreciar a ordem, as leis e a liberdade com que Deus corou a criação do universo, dos animais e das plantas e do homem.
O Dom de Ciência permite que o homem contemple a criação como o que realmente é: manifestação da verdadeira e real, e ao mesmo tempo limitada, da verdade, da beleza, do amor infinito que é Deus, e, como consequência dessa contemplação, sente-se compelido a a traduzir a descoberta em louvores, em oração, em acções de graças ao Criador.
«Se, vãos por natureza, todos os homens que ignoraram Deus e não foram capazes de conhecer pelos bens visíveis Aquele que è nem atendendo às obras, reconheceram o Artífice… pois pelas grandeza e pela beleza das criaturas pode chegar-se claramente ao conhecimento do seu Criador”.[viii]
Dentro e no conjunto da criação, o homem tem outorgado um lugar privilegiado de cooperador do próprio Deus.
E já lhe foi concedido no paraíso, quando recebeu o encargo de cuidar do jardim e de trabalhar nele, além do convite a multiplicar-se e a encher a terra.

Com o Dom de Ciência, o ser humano pode desenvolver essa cooperação nas obras de Deus, segundo a mente e o querer de Deus.

O Dom de Conselho torna possível que o homem se situe nesse lugar proeminente e coopere com Deus em relação aos encargos recebidos.
O Espírito Santo, através do Dom de Conselho, ilumina a consciência do homem nas opções da vida diária, e guia a alma para a luz da verdade de Deus sobre ele próprio.
A consciência converte-se assim em reflexo claro da verdadeira luz de Deus e torna possível ao homem ver melhor o que há-de fazer em qualquer circunstância do seu viver, por muito difícil e intrincada que a decisão se apresente.
«O conselho no coração do homem é água profunda, o homem inteligente saberá obtê-la”.[ix]
O Dom de Conselho ilumina a inteligência do homem de Fé para descobrir os planos de Deus sobre ele.
Ajuda-o a discernir a sua própria vocação e a entender a Vontade de Deus no meio das circunstâncias do seu viver, ao mesmo tempo que o orienta na escolha dos caminhos mais adequados para prosseguir na sua conversão a Deus e chegar a amá-lo «com todo o coração, com toda a mente”.
Uma vez assente a verdade de Deus na mente, o cristão pode descobrir-se deslumbrado pela riqueza divina que encontrou em si mesmo.
Deu-se nele a conversão de que São Paulo fala na sua primeira Carta aos Coríntios: «O homem natural não capta as coisas do espírito de Deus; são para ele, desperdício.
E não as pode entender, poi só o Espírito as pode julgar.
Ao invés, o homem espiritual julga tudo; e a ele ninguém o pode julgar.
Porque quem conheceu o pensamento do Senhor para o instruir?
Mas nós possuímos os pensamentos de Cristo”.[x]
Ante esta luz de Deus, e na contemplação da grandeza do Criador e da própria limitação da criatura, a conversão do homem em cristão só é possível na Esperança.

(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)





[i] cfr. Is 11, 1-2
[ii] Catecismo, n. 1831
[iii] Is 11, 1-3
[iv] Sal 33, 9
[v] 1 Co 2, 10
[vi] Jo 16, 12-13
[vii] Sal 32, 8
[viii] Sb 13, 1 e 5
[ix] Pr 20, 5
[x] 1 Cor 2, 14,-16

22/05/2014

Evangelho diário, comentário e Leitura espiritual (Meditações sobre a Ressurreição 4)

Tempo de Páscoa

V Semana 

Evangelho: Jo 15, 9-11

9 Como o Pai Me amou, assim Eu vos amei. Permanecei no Meu amor. 10 Se observardes os Meus preceitos, permanecereis no Meu amor, como Eu observei os preceitos de Meu Pai e permaneço no Seu amor. 11 Disse-vos estas coisas, para que a Minha alegria esteja em vós e para que a vossa alegria seja completa. As relações entre Deus e os homens podem resumir-se numa palavra: amor!

Comentário:

Para amar a Deus é preciso conhece-lo e, conhecendo-o, não é possível não O amar.

A medida do nosso amor a Deus depende de quanto O conhecemos. Deus, que nos conhece intimamente ama-nos sem limite, por isso mesmo temos de O conhecer pondo todas as nossas capacidades neste objectivo, assim, conhecendo-o mais e melhor O poderemos amar.

(ama, comentário sobre Jo 15, 9-11, 2013.05.02)

Leitura espiritual
Temas
Meditações sobre a Ressurreição

4. RESGATANDO SÃO TOMÉ

Coração valente

São Tomé é uma figura que costuma ser apresentada como símbolo do cepticismo: Já há até uma frase feita: “Ver para crer, como Tomé”. E, no entanto, Tomé é um dos personagens mais comoventes do Evangelho. Vamos procurar compreender, nesta meditação, que, em boa parte, Tomé é um injustiçado. Como é que era mesmo Tomé na realidade? Que nos diz dele o Evangelho?

Para começar o “resgate” de Tomé (que resgata os bons exemplos que nos dá), é preciso dizer que, dele, sabemos uma coisa certa, e é que foi um dos idealistas que, deixando todas as coisas, seguiram Jesus. Portanto, confiava em Jesus, acreditava nele – senão, não teria largado tudo e apostado nele –; além disso, tinha-lhe amor, pois ninguém se entrega nas mãos de uma pessoa que lhe é indiferente; e era generoso.

Logicamente era humano, e, portanto, tinha fraquezas como aliás todos os Apóstolos, como todos nós. Mas, antes da Paixão de Jesus, o Evangelho mais nos mostra nele fortaleza que fraqueza. Refiro-me àqueles momentos críticos – pouco antes da Paixão – em que Jesus já era perseguido de morte em Jerusalém e teve de retirar-se para além do Jordão, juntamente com os Apóstolos, porque ainda não tinha chegado a sua hora. O que lá aconteceu é tocante…

Naquele lugar retirado, Jesus recebeu o recado de Marta e Maria, pedindo-lhe que fosse de novo a Jerusalém (a Betânia, pertíssimo de Jerusalém), porque seu irmão Lázaro estava muito doente: Senhor, aquele que amas está enfermo. Jesus, no entanto, deixou-se ficar ali ainda dois dias. Mas, de repente, disse: Voltemos para a Judeia. Isso assustou os discípulos: Mestre – disseram-lhe – há pouco os judeus queriam apedrejar-te, e voltas para lá? Jesus não ligou, e disse-lhes abertamente que Lázaro já tinha morrido, mas – acrescentou – vamos lá. Todos ficaram gelados, pensando que aquilo era pôr-se na boca do lobo…

Todos menos um! Tomé! Só ele, cheio de coragem, foi capaz de dizer aos seus condiscípulos: Vamos também nós, e morramos com ele! Estava disposto a morrer com Jesus, por Jesus. Como vemos, no coração de Tomé não há nada de cobardia, nem de dúvidas, nem de vacilações.

Coração sincero

E ainda há um outro traço do carácter de Tomé que o Evangelho põe em relevo. Tomé era um homem que era sincero e gostava da objectividade. Não era daquele tipo de homens que são “objectivos” só para pôr dificuldades, tirar o corpo e dizer que não dá (“sou realista”, dizem, e, na realidade, são pessimistas ou comodistas). Ele gostava da objectividade para entender melhor as coisas e, assim, poder agir melhor e resolver melhor os assuntos. Isso não diminuía nem um pouco a fé que tinha em Jesus. Tomé unia a fé ao realismo, um binómio excelente em si mesmo…, mas que pode desequilibrar-se, e então se torna perigoso (como logo veremos). É algo que fica bem claro na Última Ceia.

Naquela noite da Quinta-feira Santa, Jesus estava despedindo-se dos seus discípulos, e consolava-os com infinita ternura dizendo-lhes: Não se perturbe o vosso coração. Na casa de meu Pai há muitas moradas …; vou preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo… E vós conheceis o caminho para onde eu vou. Neste ponto interveio Tomé, com a sua franqueza um pouco brusca, mas cheia de confiança em Jesus: Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos saber o caminho? Jesus não levou a mal essa pergunta nem a achou indelicada. Ao contrário, aproveitou-a para dizer umas palavras que ficarão para sempre gravadas no coração do cristão: Jesus respondeu-lhe: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai senão por mim”.

Mas houve um outro momento crucial, em que esse realismo franco de Tomé… espanou. Foi após os acontecimentos perturbadores da Paixão, quando Jesus já havia ressuscitado (e daí vem a “má fama” de Tomé).

Lembremos o que aconteceu. Na tarde do domingo de Páscoa, em que Jesus apareceu aos Apóstolos no Cenáculo, Tomé – diz o Evangelho – não estava com eles. Ou seja, não viu Jesus. Provavelmente, chegou bem mais tarde, naquela noite, ou então só voltou à casa no dia seguinte. Podemos imaginar que chegou ao Cenáculo triste, com olheiras de pouco dormir e o ricto amargo na boca de muito sofrer. Pois bem, mal acabava de subir a escada até o segundo andar – a sala de cima –, quando os outros que lá estavam se lhe atiraram em cima, agitadíssimos, dizendo: Vimos o Senhor!

Pobre Tomé! Aquela enxurrada de entusiasmo, totalmente inesperada, caiu-lhe como um golpe de malho na cabeça. Deixou-o atordoado. Eu o imagino de olhos arregalados, assustado com a estranha euforia dos outros, balbuciando: “Estão loucos! Vocês perderam o juízo?” E o bom Tomé, o sofrido Tomé, o franco Tomé, de repente embirrou. A sua tendência para o realismo e a objectividade saiu dos eixos, extrapolou em casmurrice e desequilibrou-se: Mas ele replicou-lhes: Se não vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no Seu lado, não acreditarei! Emburrou, e não havia modo de fazê-lo sair atitude fechada.

O amor que faz duvidar

Vemos nessa atitude só um defeito? Será que não poderíamos pensar que era tão grande o carinho de Tomé por Jesus, que não aguentava pensar sequer na possibilidade de que houvesse um engano? Não tinha coragem para deixar que a sua esperança subisse a mil por hora como um foguete, na crença de que Jesus vivia, para depois cair vertiginosamente e espatifar-se no chão, na decepção. E se tudo não passasse de histeria dos amigos? Não esqueçamos que, às vezes, a alegria dá medo. Temos tanto receio de embarcar numa alegria grande que depois possa decepcionar-nos! Por isso, quando desejamos muito, muito mesmo, uma coisa que nos promete enorme alegria, temos a tendência instintiva de começar a pensar nas coisas “ruins” que poderão acontecer: vai surgir um imprevisto, vai falhar na última hora, vou chegar atrasado, não vai dar certo…

Isso pode explicar a reacção negativa de Tomé. No entanto, é preciso reconhecer que houve mesmo uma falha. De facto, Jesus teve de corrigi-lo… E, do erro dele, nosso Senhor quis que nós aprendêssemos. Ele sempre tira o bem de tudo, mesmo do mal.

Em que consistiu seu erro? Naquela hora decisiva, faltaram-lhe a fé e a esperança sobrenaturais. Tomé quis ser tão realista, tão terra-a-terra – para se garantir –, que só ficou vendo o que tinha debaixo dos pés e na ponta do nariz. Isto é o que acontece com todos os que se chamam a si mesmos “realistas”, gente de “pé no chão”, “experientes” e “conhecedores da vida”…, e se esquecem de que a coisa mais “realista” que há no mundo é a presença viva de Deus, o seu poder e a sua acção amorosa… e muitas vezes inesperada e desconcertante.

Um realismo que se torna pessimismo

É interessante observar que todos os pessimistas se chamam a si mesmos realistas e desprezam os “sonhadores” (assim chamam aos que vivem da fé), como se fossem ingénuos ou tolos. Felizmente, nós cremos no Deus da esperança, e por isso somos necessariamente optimistas.

Cristo quer, sem dúvida, que vivamos uma vida realista, mas contando com o “factor” mais real de todos, que é Ele e a força assombrosa do Seu amor e da fidelidade às Suas promessas. Assim expressa, de maneira maravilhosa, a Carta aos Hebreus: A fé é o fundamento das coisas que se esperam, é uma certeza a respeito do que não se vê. Foi ela que fez a glória dos nossos antepassados. A falta desta fé no amor e nas promessas de Deus traz consigo a falta da esperança que a fé deveria gerar. Este foi o motivo da repreensão afectuosa que Jesus deu a Tomé. E deu-a com razão, pois Tomé não soube pôr toda a sua fé nas promessas anteriores de Cristo – voltarei a vós…., ao terceiro dia o Filho do homem ressuscitará… – e não deu crédito ao testemunho dos outros Apóstolos que, por ser unânime, merecia confiança.

Mas a repreensão de Jesus, como todas as Suas palavras e actos, é uma grande luz para a nossa alma. Vejamos o que diz o Evangelho:

Oito dias depois (da aparição aos Apóstolos no dia da Páscoa), estavam os seus discípulos outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”… Podemos imaginar a cara de espanto do nosso Tomé… O seu coração deve ter ficado acelerado, quase que a estourar-lhe o peito, quando Jesus se dirigiu pessoalmente a ele. Depois, Jesus disse a Tomé: “Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado, e não sejas incrédulo, mas homem de fé! E, apanhando a mão de Tomé, fez como estava dizendo.

A reacção de Tomé, caindo em lágrimas aos pés de Jesus, foi esplêndida: Respondeu-lhe Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!” Ele, que tinha duvidado, acabou fazendo o maior acto de fé até então pronunciado por qualquer dos Apóstolos: um acto de fé absolutamente explícita, luminosa, na divindade de Cristo: Meu Deus! E Jesus encerrou a questão, pensando em nós, em todos os que haveríamos de ser os seus discípulos, no decorrer dos séculos: Creste porque me viste. Felizes aqueles que creem sem terem visto!

O lado luminoso da lição de Tomé

É como se, com as palavras que dirigiu a Tomé, Cristo nos perguntasse: “Tu crês mesmo em mim?” “Tu, por creres em mim, sabes esperar nas coisas que não se vêm, que só se preveem com a fé, sabes esperar nas coisas que Deus quer, mas que os “realistas” chamam “impossíveis?” Vale a pena lembrar o que escreve São Paulo: Porque pela esperança é que fomos salvos. Ora, ver o objecto da esperança já não é esperança; porque o que alguém vê, como é que ainda o espera?

Deus – por assim dizer – “desafia-nos” a viver de esperança, a saber esperar do Seu amor coisas grandes que não vemos, coisas que nos parecem impossíveis, mas que Ele nos quer dar. Mesmo diante das maiores dificuldades, todos podemos dizer com São João: Nós conhecemos o amor de Deus, e acreditamos nele.

O “realismo” cristão está feito de fé, de audácia e de magnanimidade. O nosso realismo é a esperança. Aí está o segredo do optimismo do cristão. É preciso que, aquecidos pela fé, pelo amor e pela esperança, saibamos apontar alto, apontar para coisas grandes, para ambições santas, e confiar plenamente em Deus. A mulher de fé, o homem de fé, confia sobretudo em dois pilares fortíssimos sobre os quais se apoia a esperança cristã: a obediência a Deus (fazer o que sabemos que Deus nos pede), e a oração (pedir com a fé com que um filho pede a um pai de cujo amor não duvida). Apoiada na obediência e na oração, a nossa esperança ficará, como diz o “Livro da Sabedoria”, cheia de imortalidade.

Há alguns exemplos, no Evangelho, que ilustram tudo isto muito bem. Hoje vamos focalizar apenas um deles, que é especialmente claro e tocante.

Generosidade e esperança

Todos nos lembramos, provavelmente, da passagem do Evangelho que narra a primeira multiplicação dos pães. E talvez tenhamos presente a figura encantadora daquele menino – de que fala São João no capítulo sexto do seu Evangelho –, que colaborou com o milagre.

Mais de cinco mil pessoas estavam certa vez num lugar afastado, ouvindo Jesus. Passou o tempo e sentiram fome. Percebendo isso, o Senhor disse aos Apóstolos que lhes dessem de comer. Mas como poderiam fazê-lo? Não havia nem pão nem dinheiro para comprá-lo. De repente, André apareceu trazendo pela mão um garoto, que estava, ao mesmo tempo, feliz e meio encabulado: “Eu posso dar – assim deve ter falado o menino a André – cinco pães de cevada e dois peixes”. Ao vê-lo, Jesus sorriu, pegou os pães e os peixinhos, e deu a entender a todos que tudo estava resolvido. Mandou sentar na relva toda a gente, pediu aos Apóstolos que repartissem os cinco pães e os dois peixes e … comeram todos à-vontade e ainda sobraram doze cestos! Um milagre apoiado num “impossível”, numa oferenda pequena, mas cheia de amor, de generosidade…

Não é clara a mensagem? Cristo – com esse milagre – diz-nos: “Não desanime se acha que não tem meios para resolver os problemas, para sair de uma situação de pecado, para ajudar um filho ou um amigo, se acha que não tem capacidade para aliviar as necessidades de tantas pessoas que carecem de tudo e sofrem; ou para fazer apostolado; ou que não tem forças para adquirir determinadas virtudes. Tenha confiança em mim, e faça da sua parte o que puder, ainda que seja pouquinho…; mas que seja tudo o que pode mesmo, como o menino que deu tudo o que tinha. O resto – acrescenta Jesus – é comigo.

Concluindo esta meditação, não vemos que o maior e melhor realismo do mundo é ter fé e confiança em Deus? As pessoas que agem “como se Deus não existisse, ou não visse, ou não amasse” caem na e mais trágica falsificação da realidade. As pessoas que ainda não perceberam que a oração é infinitamente mais forte que a energia atómica e que o poder quase ilimitado do dinheiro estão fora da realidade. As pessoas que não percebem que a maior garantia de que receberão os dons de Deus é obedecer a Deus – obedecendo ao seu Evangelho e à sua santa Igreja – estão fora da objectividade. Não nos deixemos dominar nunca – ainda que a nossa vida atravesse momentos muito difíceis – por uma visão acanhada e míope. Peçamos a Tomé que nos ajude a ser os “realistas da esperança”, que com certeza ele nos acudirá. Tem experiência…